Chapter Seven
Human
Draco´s POV
- O que esse menino tem? – gritei para Pandora, atirando longe o jornal trouxa.
Mas eu sabia a resposta àquela pergunta. Eu também sentia.
Scorpius chorava incessantemente a quarenta e oito minutos, e aquilo não deveria ser bom para sua garganta. Deixei o copo com o firewhisky que tomava sobre a mesa – o gosto era horrível e irritantemente errado – e fui até o quarto onde Pandora mantinha o menino.
A elfo lutava para manter a criança em seu colo enquanto ele se debatia e se contorcia, com o rosto vermelho pela raiva e o esforço.
-Ele está doente? – perguntei.
-Não, Senhor – respondeu Pandora, ofegante.
-Ele já comeu? – voltei a questionar.
-Ele não deixa Pandora dar comida para ele, Senhor.
Scorpius parou de gritar por cinco segundos, e sua inspiração soou trêmula e cansada. Mas ele retomou o fôlego e voltou a gritar com toda a força de seus pulmões.
-Mamã... Mamã...
Ele já deveria estar falando. Mas, desde que nos separamos dela, há quatro meses, ele só falava quando queria chamá-la. E acontecia muito.
Estendi os braços para Scorpius.
-Vamos passear com... o papai? – tentei.
Eu sabia que ainda não soava muito natural, mas um dia eu conseguiria. Scorpius diminuiu o volume de seus protestos e me encarou de maneira desconfiada, com os olhos vermelhos e ligeiramente inchados. E se atirou em meu colo com a segurança de que seria pego.
Uma segurança que eu jamais sentiria novamente.
-Vou levá-lo até a feira em Toscana. Darei algo de comer a ele, lá – disse para a elfo.
Pandora assentiu, parecendo um pouco aliviada.
-E o que eu faço, Senhor? – perguntou, com sua voz esganiçada.
-Organize a casa, e prepare o jantar. Um macarrão ao molho pesto deve servir. E se a vizinha aparecer, aquela trouxa morena, diga a ela que eu morri.
Eu odiava a mulher. Ela se insinuava claramente para mim, não importava quantas vezes eu dissesse que era casado.
Pandora me encarou, com os olhos mais esbugalhados do que o usual. Se isso fosse possível.
I can turn it on
Be a good machine
-Está bem. Diga a ela que fui visitar a sua Senhora. E não se esqueça de se disfarçar.
-Sim, Senhor – concordou.
Peguei minha capa e a varinha, com Scorpius ainda choramingando em meu colo. O dia estava claro e fresco, e o cheiro das lavandas e das tulipas do jardim nos foram trazidos pela brisa fresca.
Aquele cheiro me lembrava Ginevra.
Scorpius parou de resmungar e sorriu para mim. Colocou as mãos pequenas e brancas na minha bochecha, com os olhos mareados das lágrimas que não haviam caído ainda.
-Mamã – chamou.
-Eu sei – concordei. –Também sinto falta dela.
Harry´s POV
Encarei Ginny por um longo momento. Minha respiração estava presa na garganta.
-Você está grávida – exalei. E me surpreendi com o quão quebrada e morta minha voz soara.
-É o que parece para você? – rebateu ela, sua voz derramando um veneno doce e escuro diretamente sobre o meu coração.
Eu jamais havia sequer imaginado que Ginny pudesse ser capaz de tanto sarcasmo, amargura e ódio. Pensar que ela pudesse voltá-los para mim era ainda mais difícil de aceitar.
Your words in my head, knives in my heart
You build me up and then I fall apart
'Cause I'm only human
-Como...? – comecei. Eu queria lhe perguntar tantas coisas. Eu queria saber como era possível que ela carregasse um filho do Malfoy. Malfoy, por Merlin! Mas a minha voz simplesmente não saiu.
-Quer mesmo que eu lhe diga de onde vêm os bebês, Potter?
Aquele rosto que eu amava tanto, que eu havia desejado tão ardentemente rever que havia consumido meus dias em busca e desespero havia desaparecido. Sua beleza, entretanto, ainda estava lá. Delicada e suave, a pele cor de creme, os cabelos flamejantes como a chama da lareira... Mas a Ginny que eu buscara não estava mais lá. Aquela Ginny de sorriso fácil e palavras suaves havia desaparecido. Tudo o que restara era um sorriso cruel, quase um esgar, nos lábios que costumavam me receber com suavidade e gentileza.
-Como isso é possível? Como aconteceu? – balbuciei, não sei se para ela ou para mim.
Mas ela me ouviu.
-Por onde quer que eu inicie esta narrativa tão alegre, Potter? – retrucou ela.
-Você nunca me chamou de "Potter" antes – contestei, mas minha voz não tinha força.
-Não está mais acostumado ao som do próprio nome? - ela sorriu, mas seus olhos borbulhavam com o ódio fervente e inexplicável que ela parecia sentir por mim. - Oh, desculpe... Devo chama-lo de Ministro, senhor?
-Pare com isso, Ginny... por favor – implorei.
-Olha só... acho que vou sentir pena de você! – ela tentou se erguer um pouco mais sobre a cama, mas algo não parecia certo no modo como sua barriga parecia... torta. Ela sufocou um gemido de dor.
-Pena de mim? – repeti. Eu me sentia em transe, como se tivesse sido vítima de um "estupefaça" muito mal feito.
-Tem toda razão... – ela arfou, e a criança pareceu se contorcer dentro dela. – Nunca vou sentir pena de você.
Ela estava mordendo a língua, eu podia dizer por sua expressão. Como ela costumava fazer em Hogwarts, quando Snape tirava pontos da Grifinória por qualquer motivo obtuso, e ela sabia que contestá-lo só pioraria a situação. Mas ela parecia estar realmente com dor, sua voz saia estrangulada.
-Como Malfoy pode abandoná-la, neste estado? – questionei.
-Não é como se o meu estado fosse culpa dele, é? – retrucou e, em sua raiva, seu rosto traiu toda a dor que ela realmente sentia. Me assustei.
Uma batida na porta nos interrompeu. Ginny se retraiu, e voltou a cobrir o corpo inchado com o cobertor. Tentei recompor minha expressão, mas não havia como esconder o choque e a tristeza.
Zabini e Nott abriram a porta e se detiveram um minuto, esquadrinhando meu rosto. Tenho certeza de que aparentava uma ferocidade que nem eu mesmo sabia ter.
-O que querem? – perguntei, com tanta raiva por terem me interrompido, que quase avancei sobre eles. Quase.
-Senhor Ministro... – começou Nott. E depois parou. Seu olhar se fixou em Ginny, e senti o ódio ferver o meu sangue.
-O QUE QUEREM? – gritei, incapaz de me deter. Eu não queria que ninguém olhasse para Ginny. Eu não queria que a tocassem. Eu queria que ela voltasse a ser minha. Para sempre.
-Lord Voldemort nos deu ordens... – tentou Zabini.
Ergui a mão para interrompê-lo.
-Senhorita Weasley e eu estamos tendo uma conversa na qual não quero voltar a ser interrompido – eu sentia meus músculos tremerem, e uma vontade súbita de acertar alguém, mas eu não sabia exatamente de quem eu tinha tanto ódio. Não conseguia direcioná-lo. –Vocês dois vão guardar a porta, e eu quero os outros comensais todos para fora. Eu mesmo chamarei Voldemort quando meu assunto com a Senhorita Weasley estiver terminado. Fui claro?
Blaise Zabini me lançou um olhar dúbio.
-Fui claro? – repeti.
-Sim, Senhor Ministro – assentiu Nott. Zabini concordou com a cabeça.
-Ótimo – sibilei, e bati com a porta na cara dos dois.
Suspirei. Por um minuto, tudo o que eu queria era ter de volta Hogwarts, e a Ginny que eu amava. Mas eu sabia que não voltaria a ter nenhuma daquelas coisas. Não depois daquela tarde.
Ginny não parecia bem quando voltei a encará-la. Seu rosto estava pálido, o que fazia com que seus cabelos resplandecessem ainda mais ao sol da manhã que entrava pela janela. Suas mãos se agarravam com força ao cobertor, e ela ofegava ligeiramente.
-Está com dor – atestei.
-Não é como se fosse a primeira vez – exalou, com dificuldade. Seu olhar implicava uma insinuação que eu não compreendi. –A dor e eu somos velhas conhecidas...
Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.
Me aproximei dela devagar, com medo de sua reação. Mas ela parecia concentrada demais em sua própria dor. O que me fazia pensar em quanta dor ela estaria sentindo.
- Como ele pode fazer isso? Como Malfoy pode abandoná-la?
-Ele não me abandonou – senti uma punhalada pela forma com que ela o defendia, com ferocidade e carinho. –E também não é a primeira vez que sou abandonada, é?
-Do que está falando? –perguntei.
-Vamos lá, Potter. Sua memória não pode ser... tão curta! – exclamou.
Me aproximei mais. Ela puxou as cobertas de cima do volume em seu ventre. Sua barriga parecia endurecida. Ela soltou um grito de dor que me desarmou, e não sei se era possível, mas o bebê parecia atravessado em sua barriga.
Estiquei a mão para alcançá-la, mas seu grito me impediu.
-NÃO TOQUE EM MIM! – explodiu.
-Ginny, você está com dor...
-VOCÊ NUNCA MAIS VAI TOCAR EM MIM – gritou.
-Não estou te entendendo... – tentei. E então meus olhos recaíram sobre o sangue que começava a ensopar o colchão.
And I bleed when I fall down
I'm only human
And I crash and I break down
Ela seguiu meu olhar, e seus olhos se encheram de lágrimas e de um terror silencioso.
-Ginny, não vou machucá-la. Nem ao filho do Malfoy. Não precisa ter medo.
Seus olhos encontraram os meus em choque. Me sentei ao seu lado na cama, devagar, sem querer assustá-la.
-O filho do Malfoy? – perguntou.
-Não é porque eu não gosto do Malfoy que eu faria alguma coisa ruim ao seu filho. Não precisa ter medo.
Toquei seu ventre com cuidado, minha mão deslizando com suavidade sobre o tecido fino de sua camisola. Seus olhos arregalados me fitavam em choque. Ela parecia incapaz de dizer alguma coisa.
-Draco Malfoy não é o pai desta criança – ela disse, por fim.
Então o quarto se encheu com o som angustiante de seu grito, e seu ventre pareceu retorcer sob a minha mão.
Draco´s POV
Me sentei no primeiro banco desocupado que encontrei.
A feira estava impossivelmente cheia, o que tornava mais fácil nos misturar e esconder entre as pessoas e mais difícil controlar meu mau-humor.
Levara muito tempo até Scorpius parar de chamá-la, mas após algumas voltas, um sorvete de abóbora e vários sapos de chocolate que ele comera sem atrair a atenção dos trouxas, eu finalmente conseguira. Coloquei-o sentado ao meu lado, ocupado com seus mini – ovos quentes de dragão.
À medida que sua boca se tornava ainda mais lambuzada com os ovos, percebi que sua presença já não me incomodava como antes. E me peguei pensando em como seria se Scorpius fosse uma menina, com cabelos ruivos e lisos que flutuassem ao seu redor.
Eu me sentia culpado. Nunca antes eu havia deixado que a culpa segurasse meu coração entre seus dedos longos de unhas afiadas como a lâmina de um punhal. Mas agora eu a sentia, e todos os outros sentimentos pareciam sombras indistintas e sem peso diante dela. Eu deveria ter voltado para buscá-la. Eu deveria ter feito alguma coisa.
Eu deveria ter feito alguma coisa.
Sacudi a cabeça, na esperança de afastar aquele pensamento. Scorpius ainda mordiscava seus ovos, feliz, e prometi que me aventuraria uma vez mais a conseguir um jornal bruxo. Por ele. Talvez o Profeta Diário trouxesse alguma notícia sobre ela.
-Senhor Malfoy? – chamou uma voz, me tirando dos meus pensamentos.
I can fake a smile
I can force a laugh
I can dance and play the part
If that's what you ask
Me virei para encarar os olhos escuros e maliciosos da minha vizinha trouxa.
-Senhorita Giovanino.
Ameacei pegar Scorpius e partir, mas ela se adiantou e o segurou antes que eu pudesse fazê-lo.
-Que prazer encontrá-lo aqui – saudou ela.
Mas meu humor não estava para isso.
-É.
-E onde está a Senhora Malfoy? – perguntou, me olhando por baixo dos seus cílios longos e falsos.
-Ainda com a mãe dela – respondi.
Eu tinha a impressão de que mulher trouxa desconfiava de que a Senhora Malfoy não voltaria. Me fazia odiá-la ainda mais.
Scorpius escolheu aquele momento para terminar seus ovos. Ele então lançou um olhar de reconhecimento à mulher. Dois segundos depois, ele chorava como se não houvesse parado por nem sequer um minuto.
-Mamã... – pediu ele.
Mas ele me livrou da trouxa grudenta, pelo que agradeci. Peguei-o no colo e não me dei ao trabalho de dizer nada àquela mulher. Encostei sua cabeça no meu ombro, enquanto ele ainda balbuciava.
-Bom garoto – disse a ele. – Agora vamos procurar a mamã.
Ginevra´s POV
A criança estava me rasgando de dentro para fora.
Eu jamais havia sentido tamanha angústia. Durante algum tempo, houve apenas o som dos meus próprios gritos machucando meus ouvidos, e a sensação de que a criança estava lutando para se libertar de mim.
Harry Potter permaneceu sentado à minha frente, de olhos esbugalhados e parecendo estupefato.
Eu estava sangrando. Podia sentir o sangue, quente e gosmento, nas minhas pernas, molhando o colchão. Eu iria perder a criança. Em algum momento eu iria perdê-la, e depois eu morreria, pois não haveria ninguém para tirá-la de mim.
I can hold the weight of worlds
If that's what you need
Be your everything
Eu seria o útero e o túmulo para aquele bebê. A única casa que ele conheceria.
A dor me cegava, e a voz de Harry Potter flutuou até mim como se eu o ouvisse através de camadas e camadas de água.
-Quem é o pai? –sussurrou.
Eu não conseguia entender. Qual era o ponto de tudo isso?
Tentei encará-lo com severidade, mas a dor me fazia contorcer.
-Esse é mais um daqueles seus joguinhos... em que você se faz de idiota... para me fazer dizer as coisas que eu não quero dizer?
Ele parecia sinceramente confuso.
Apontou a varinha para a porta, e eu soube que ele a havia silenciado para que ninguém nos ouvisse. Um tremor desesperado percorreu meu corpo. Tentei me afastar quando ele se aproximou.
-Não vou machucá-la – ele disse.
-Você também disse isso da última vez... – cuspi, com raiva – e então estamos aqui.
-Quem é o pai? – insistiu ele.
-Você não sabe? – questionei, mas a ironia não funcionava com toda a dor que eu sentia.
-Não faço ideia... – respondeu. – Pensei que o Malfoy fosse o pai dessa criança, depois de todo o tempo que vocês passaram juntos...
-Você é o pai – o interrompi, cansada.
-O que? –perguntou ele.
I can hold the weight of worlds
If that's what you need
-Você é o pai – repeti, sufocando um grito.
Ele permaneceu estático, sem piscar, me encarando em total assombro. Sua presença ali só piorava as coisas: a dor crescente; o temor por Scorpius e Draco, de quem eu não ouviria mais notícias; e todas as lembranças que afloravam como se todo o terror houvesse acontecido apenas na noite anterior. E havia ainda aquele desejo cego e irascível de machucá-lo, um desejo que eu satisfaria se pudesse me levantar dali e causar a ele ao menos um vigésimo de todo o sofrimento que ele me infringira.
Ele ergueu os olhos para mim, e por um segundo os olhos que eu encarava eram os mesmos olhos que eu havia amado um dia. Olhos sinceros e brilhantes, que nunca escondiam a verdade.
-Eu não posso... ser o pai – ele balbuciou, baixinho, enquanto eu ainda me contorcia, sentindo minhas entranhas se espalharem conforme meus ossos dilatavam para dar passagem ao bebê.
Mas havia em seus olhos aquele antigo brilho de verdade. Como ele conseguia?
-E pode me explicar... como tem tanta... certeza? – perguntei, ofegante.
-Porque a última vez que estive com você foi no seu aniversário. Há mais de um ano – sussurrou.
Eu teria rido se pudesse.
Mas então um brilho de entendimento passou rapidamente por seus olhos. A ideia mais hedionda me atingiu, e me fez compreender o mesmo que Harry Potter havia compreendido. Mas eu não queria acreditar. Era impossível.
Graças a Merlin, a dor me roubou da consciência.
Draco´s POV
Eu estava me arriscando por Scorpius, repeti.
Saí rapidamente do lugar escuro e malcheiroso, com a mão no bolso. Eu tinha exatamente cinco chaves-de-portal. Teria que funcionar.
O primeiro lugar em que apareci foi no Beco do Trancoso. O lugar estava infernalmente cheio, e a balbúrdia se ouvia à distância. Tentei caminhar pelas ruas, o capuz cobrindo meu rosto, mas os bruxos pareciam mais desconfiados do que de costume. À distância, vislumbrei três vultos de máscaras brancas caminhando na minha direção – pegando pela gola os bruxos que ousavam atravessar seu caminho e enfeitiçando-os. Sem me desesperar, me esgueirei pela viela desocupada mais próxima e enfiei a mão no bolso.
Menos duas chaves.
I can do it
I can do it
I can do it
Apareci há cinco quadras do Caveira Negra. O dono do lugar era um sujeito mal visto até mesmo por ladrões e outros tipos marginalizados. Se vendia facilmente pelo maior preço, e não tinha sequer uma gota de vergonha ou honra no corpo inteiro.
Ali, a situação estava ainda pior do que no Beco do Trancoso. Havia bruxos correndo e gritando em todas as direções; e o céu estava colorido pelas centelhas de dezenas de feitiços sendo lançados ao mesmo tempo. Provavelmente, os Comensais estavam promovendo uma limpa; fazendo uma varredura nas imediações. Procurando por aqueles que se encontravam exilados ou escondidos. Procurando por mim.
Não demorei mais do que quinze segundos naquele lugar. E assim se foi minha terceira chave.
Apareci, então, no Beco Transversal. Ali, as coisas pareciam estar funcionando normalmente.
Caminhei, mais alerta do que nunca, pelas ruas tranquilas. Minhas mãos permaneceram nos bolsos todo o tempo, os dedos prontos para alcançar uma chave-de-portal ao menor ruído de alarme. Caminhei pelas lojas de maneira aleatória, como se estivesse à procura de algum produto em específico.
Virei à esquerda na Avenida dos Sereianos. Ali, todo o tipo de negociações escusas com elementos de origem aquática podiam se dar tranquilamente, sem pressa ou preocupação. Caminhei por duas quadras, quando me senti subitamente tenso. Eu estava sendo seguido.
Passei em frente à uma vitrine, e não precisei parar para constatar que, de fato, havia um comensal me vigiando. Pela visibilidade, um novato. Continuei caminhando no mesmo ritmo, sentindo o suor descendo pelo meu pescoço.
Eu tinha a intenção de virar à direita mas, quando alcancei a esquina, percebi que outro Comensal vinha em nossa direção. Estavam me cercando.
Eles iriam me pegar há duas quadras dali – estariam então em quatro, e seria mais fácil me imobilizar ou me vencer em um duelo. O que eles não sabiam, era que eu havia criado esta estratégia.
I can turn it on
Be a good machine
I can hold the weight of worlds
As palmas das minhas mãos estavam molhadas. Na terceira esquina esperavam que eu fosse reto. Pude ver, há alguns passos de mim, o terceiro Comensal que se juntaria aos dois que me perseguiam. Não dei tempo a eles – virei subitamente à direita, meus dedos envolvendo a quarta chave-de-portal, e desapareci.
Surgi em frente ao marcado de pulgas aladas de Jhonny-fada-mordente. Seu rosto havia sido desfigurado por um enxame de fadas quando era criança, por ter incendiado o lugar que lhes servia de casa. Mesmo na época, Jhonny-fada-mordente jurava que havia sido tão engraçado que ele faria de novo!
Acontece que eu havia impedido que Pansy fechasse o mercado, e o denunciasse ao Lorde das Trevas por Posse Ilegal de artefatos das Trevas extremamente raros – o que o levaria à falência e colocaria sua cabeça à prêmio, se o próprio Lorde não o matasse primeiro – e Jhonny-fada-mordente passara a me servir de espião, e a fazer tudo aquilo que eu não podia fazer pessoalmente.
Eu não gostava de recorrer a esse tipo de favor. Eu provavelmente salvara sua vida, e ele jurara fidelidade a mim. Mas eu, agora, não tinha mais uma posição de prestígio e não havia nada que eu pudesse oferecer ou ameaçar tirar dele, uma vez que Jhonny-fada-mordente tinha dinheiro de sobra e eu era um homem procurado.
Caminhei discretamente, sentindo os olhos dos empregados de Jhonny às minhas costas. Meus músculos estavam tensos, e eu ainda suava sob a capa escura.
Estava chegando ao fundo do mercado de pulgas aladas, quando ouvi um assovio.
-Ei, você! – gritou uma voz.
Me virei lentamente. Da minha esquerda, Jhonny-fada-mordente vinha caminhando alegremente em minha direção, a face desfigurada ainda mais assustadora com o sorriso nos lábios tortos. O brilho nos seus olhos era inconfundível.
-Você mesmo, garoto! - veio gritando para mim. – Está atrasado. Tem uma pilha de jornais velhos aqui que não vai sumir sozinha!
Jhonny pegou a pilha de jornais de cima de um balcão qualquer. Me aproximei dele, tirando as mãos dos bolsos. Quando ele colocou os jornais nos meus braços, minha mão roçou na dele, e eu coloquei entre os seus dedos os galeões que tirara dos meus bolsos.
-Suma logo da minha frente – gritou ele. – E da próxima vez que eu mandar chamá-lo, não fique enrolando, venha de uma vez!
Esperei até estar do outro lado da rua para colocar a mão novamente no bolso.
Harry´s POV
-Ginny? Ginny, acorde! –implorei, desesperado.
Ela estava perdendo muito sangue. Se continuasse assim, estaria morta em poucos minutos.
Ela abriu os olhos lentamente, atordoada.
Então voltou a gritar.
-Ginny...quando foi? Quando foi que você ficou grávida?
Seus olhos focaram em mim com dificuldade.
-Na festa...depois da festa – respondeu. Sua voz, entrecortada e rouca, estava enfraquecendo.
But I'm only human
-Que festa? –perguntei, com urgência.
-Sua festa...de aniversário – concluiu ela, a respiração emitindo um som chiado que vinha dos pulmões.
-Ginny, preciso que me escute – disse, segurando sua cabeça entre minhas mãos, tentando força-la a olhar para mim – eu estava em Frankfurt no meu aniversário.
-Não – contestou ela – você voltou... voltou para me ver...
-Eu passei seis meses em Frankfurt, Ginny!
But I'm only human
Dizer aquilo me machucou. Foi como se um milhão de lâminas afiadas fizessem pequenos cortes na superfície do meu coração.
Mas a sua expressão foi pior. Sua compreensão fez com que a carne lacerada do meu coração ardesse como pimenta.
-Foi ele, não foi? – perguntou ela. – Foi Tom.
-Sim – respondi, com a maior dor que eu já sentira. A dor de perder a única coisa verdadeiramente boa da minha vida. – Foi Voldemort.
And I crash and I break down
Draco´s POV
-AHH! –grunhi de irritação, lançando o jornal contra a parede.
Scorpius finalmente dormira. Eu havia passado o resto da tarde vasculhando todos os jornais e semanários bruxos atrás de uma notícia – uma nota que fosse – que me indicasse o paradeiro dela.
Não havia nada.
I can stay awake for days
If that's what you want
Engoli mais uma dose de firewhisky, o gosto queimando minha garganta.
Comecei a caminhar de um lado para o outro. Passei a mão pelo cabelo mais de uma vez, irritado e raivoso. Como era possível que nada tivesse sido dito sobre ela; ela era procurada, assim como eu, uma Indesejável nível Um.
Passei a mão no rosto; minhas unhas raspando a carne, a barba por fazer arranhando a palma das mãos. Eu sabia no que iria me transformar, no que estava me transformando. Ela, pequena e frágil, de alguma forma me mantinha centrado. De alguma forma ela trazia à tona o que eu pudesse ter de bom. Sem ela ali, eu voltaria a ser o melhor Comensal de Lord Voldemort.
Be a good machine
O pior ser-humano que poderia existir.
Em um acesso de fúria, atirei todos aqueles papéis na lareira, vendo as chamas arderem como os cabelos dela ao vento. Os cabelos dela – como eu adorava a maneira como ondulavam enquanto ela andava, como uma cortina de fogo, atraente e fatal. Como eu tinha vontade de colocar a cabeça no seu ombro, e sentir seus cabelos roçando no meu rosto...
Não era possível que não houvesse sequer o menor vestígio dela em quatro meses!
Encarei o fogo, com os olhos vidrados em sua lembrança. Demorou, mas letras começaram a entrar em foco diante das minhas retinas. Coloquei a mão nas chamas, e retirei o papel parcialmente carbonizado.
Era uma cópia de relatório oficial do Ministério. Jhonny-fada-mordente devia tê-lo conseguido para mim, e o colocara entre os jornais que me enviara.
I can hold my breath
I can bite my tongue
I can stay awake for days
If that's what you want
Be your number one
Era um relatório sobre uma missão de Sigilo Alpha na Espanha... uma casa... doze Comensais enviados... E Harry Potter. O próprio Ministro havia se deslocado até lá. Continuei lendo, meus dedos segurando o papel com força. E então, bem no meio do relatório...o nome dela. Ginevra Weasley.
Gritos foram ouvidos pelos trouxas. Ordens do Ministro. O ministro ordenou aos Comensais Zabini e Nott que permanecessem de guarda na porta do recinto... o quarto apresentava grandes quantidades de sangue da procurada, e evidências claras de tortura... o corpo foi retirado do local pelo Ministro em pessoa, que se responsabilizou em dar os devidos préstimos...
Não consegui terminar de ler. O papel escorregou involuntariamente pelos meus dedos. Ela estava morta. O bebê estava morto.
But I'm only human
And I bleed when I fall down
Ela estava morta.
Passei muito tempo olhando para as chamas, que lembravam seus cabelos dançando enquanto ela andava. O aperto em meu peito crescia e crescia e crescia.
Ginevra´s POV
Eu estava presa nesse ciclo de dor e exaustão que não terminava jamais.
Em algum lugar da minha mente, em não queria que acabasse. Porque quando a dor deixasse de reclamar a posse do meu corpo, então eu teria que encarar o fato de que Tom era o pai do meu filho.
Your words in my head, knives in my heart
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Gritei de dor.
Harry tirou os feitiços que lançara na porta, enquanto eu gritava sobre uma nova onda excruciante, que roubava o ar dos meus pulmões. Ouvi seus gritos, por sobre os meus próprios.
-Quero Lupin aqui! Já! E não quero ser interrompido a menos que seja ele!
Eu nunca o havia visto daquela forma.
Os feitiços na porta não foram repostos, e temi que um dos Comensais entrasse. Mas nenhum deles se atreveu.
-Dobby –disse Harry, baixinho. Um segundo depois, Dobby me encarava com seus olhos grandes e brilhantes.
-Precisa confiar em nós, Ginny –pediu Harry, em um sussurro.
knives in my heart
You build me up and then I fall apart
Dor. Dor. Dor e mais dor.
Eu não conseguia enxergar direito. Não havia nada que eu pudesse fazer.
Lupin´s POV
Aparatei diante de uma porta de cor pastel. Zabini e Nott pareciam consternados demais para Comensais tão experientes.
-Saiam da frente – ordenei.
O quarto estava dourado com a luz da tarde. Harry Potter estava parado no centro do ambiente, com as mãos e a roupa cobertos de sangue, e um embrulho nos braços.
Havia uma massa indistinta de sangue e carne sobre a cama. Todo o quarto resplandecia em vermelho, e o cheiro de ferrugem e sal me abraçou.
Sangue fresco.
-Harry... – pedi.
Harry Potter ergueu a mão para mim, pedindo silêncio. Depois, levou a mesma mão ao bolso e pegou a varinha, que apontou na minha direção.
Mas ele não apontou para mim. Apontou para a porta, enfeitiçando-a.
-Há algo que preciso que faça por mim, Lupin. Algo que eu só confio em você para fazer.
Harry, em geral determinado, parecia ainda mais decidido hoje.
-Sabe que eu farei qualquer coisa –respondi.
Os olhos eram de Lílian, mas a determinação por trás deles eram de James.
Harry veio até mim, e colocou o embrulho nos meus braços. Para meu espanto e assombro, era um bebê.
-O que...? –comecei a perguntar.
Dobby aparatou no quarto, interrompendo minha pergunta.
-Está tudo pronto, Harry Potter – disse, com sua voz esganiçada.
-Preciso que mantenha o bebê seguro, Lupin – pediu Harry. – Dobby irá com você. Quero que proteja o lugar. Voldemort não pode saber sobre essa criança.
Assenti.
Harry se abaixou ao lado da cama. O corpo estava muito pálido, coberto de sangue, e flácido. Havia sangue nas paredes – marcas de mãos, principalmente – e o colchão se tornara um borrão vermelho.
Quando o Ministro levantou o corpo nos braços, percebi que nem tudo era sangue. O vermelho dos cabelos era inconfundível.
Os olhos de Harry estavam duros, mas havia carinho na forma como ele a segurava.
-Agora vá, Lupin – ordenou Harry Potter.
Dobby e eu desaparecemos.
Draco´s POV
Durante dois dias, fiquei trancado no escritório.
I'm only human
Não comi, não durmi, e não vi a luz do sol.
Eu estava esperando que o aperto no meu peito diminuísse. Eu sabia que, em algum momento, ele teria que diminuir.
Mas ele crescia, e crescia, e crescia.
I'm only human
No terceiro dia, Pandora entrou no escritório sem minha permissão, em seu disfarce humano. Eu não tinha forças para brigar com ela com propriedade, de forma que apenas a olhei com reprovação.
De cima, eu ouvia o choro estridente de Scorpius.
-Senhor Malfoy – disse Pandora – a Senhorita Giovanino quer vê-lo.
-Mande a mulher para o inferno – respondi.
Eu não queria ver ninguém.
-Mas, Senhor Malfoy... – recomeçou.
-Eu disse para você mandá-la para o inferno – repeti. Eu estava pronto para mandar a trouxe morena para o inferno eu mesmo. Passagem de ida, sem reembolso.
knives in my heart
Pandora assentiu.
-Tem mais uma coisa, Senhor – ela fez uma pausa, esperando. Assenti uma vez.
-O menino. Não quer comer – disse ela com pesar.
Eu não queria pensar em Scorpius, agora. Eu não queria ver ninguém. Mas eu sabia que teria de fazer isso em algum momento.
Arrume Scorpius imediatamente. Vou levá-lo para a feira em Toscana.
-Sim, Senhor – disse Pandora, saindo.
Me levantei da poltrona em que estivera por dois dias, e encarei meu reflexo na janela. Minha barba estava crescendo, e meu cabelo estava menos perfeito que o usual. Eu nunca estivera pior, nem mesmo quando fugi de Londres com ela.
Pensar nela enviou uma onda de choque e dor pelo meu corpo. Eu a amava.
Agora eu sabia o que era amor.
You build me up and then I fall apart
'Cause I'm only human
Me virei para a porta. Para a minha surpresa, a trouxa morena estava ali. Usava um vestido provocante, e suas pernas estavam de fora, assim como boa parte de seu busto.
Ela sorriu para mim.
-Olá, Senhor Malfoy – disse ela.
-O que você quer? – respondi.
-Sua empregada me disse que o Senhor estava doente. O Senhor parece doente.
Ela me deixava doente. Com náusea.
-Como vê, estou vivo.
Ela chegou mais perto, se insinuando ainda mais.
-Eu posso cuidar de você... – começou ela.
-Não preciso que você cuide de mim. Não preciso de você. Não gosto de você – respondi, com grosseria.
Ela nem mesmo pareceu chateada.
-Qual é o problema comigo? –perguntou, fazendo um biquinho.
Give you all I am
Ela era bonita. Mas a ideia de ter alguém ao meu lado que não fosse ela era repugnante.
-O problema – respondi – é que seu cabelo não tem a cor do fogo.
I can do it
Saí da sala e a deixei sozinha ali.
Scorpius estava com os olhos inchados, e havia perdido peso.
Mas ele havia se acalmado um pouco, de forma que eu consegui me sentar durante alguns segundos. Sentei-o ao meu lado, e lhe entreguei um saco branco com mini ovos de dragão. Atualmente, era a única coisa que ele comia.
Deixei que meus olhos vagassem pelas pessoas. O lugar estava cheio mas, apesar de ser uma feira trouxa, eu me sentia tenso. O instinto de autopreservação falava mais alto.
Estava tão atento ao movimento dos trouxas, que não notei Scorpius descendo do banco.
Ele não andava, e se recusava a sequer engatinhar depois da partida dela. De forma que eu não me preocupei. Estava olhando à frente, quando seus cabelos loiros chamaram minha atenção. Ele simplesmente descera do banco e saíra caminhando. Era a primeira vez que andava, e me impressionou o fato de que pudesse ir tão longe.
If that's what you need
Be your everything
Fiquei tão estupefato, que levei alguns segundos para me levantar. O perdi de vista, em meio à multidão.
Caminhei a esmo, procurando por ele. Quando o avistei, ele caminhava em direção a uma pessoa de capuz; os bracinhos esticados pedindo colo. Corri até ele, acotovelando os trouxas que se aglomeravam em torno das barracas. Por um segundo, meu coração parou.
Pensei que fosse um comensal.
Me aproximei o bastante para ouvi-lo chamá-la.
-Mamã...mamã...
Eu iria pegá-lo, mas a pessoa à minha frente foi mais rápida; se abaixou e o tomou no colo. Eu não podia ver seu rosto pelo capuz, então prendi a respiração na esperança de que não fosse um Comensal.
Ou tudo estaria perdido.
N/A: vinte páginas de word para tentar compensar a demora...
Essa fic exige um pouco mais de mim, e as vezes eu tenho medo de não conseguir amarrar todas as pontas, por isso demorei um pouco mais para postá-la. Queria revisar tudo mais uma vez. Três capítulos em um dia melhora alguma coisa na minha situação? hahahahahaa
Enfim, meus agradecimentos eternos a:
As Lis: muito obrigada pela PM linda. Eu estava precisando ser cobrada...kkkk...sei que demorei muito, mas espero que o capítulo compense - é o meu favorito, em toda a fic! (pelo menos por enquanto é).
Gaia-sama: muito obrigada pelas suas reviews, linda! eu acho muito legal que eles tenha essa conexão com as crianças, e é por isso que elas são tão importantes...já que Draco tem dificuldade de expressar seus sentimentos, e Ginny está emocionalmente "quebrada" devido a tudo o que aconteceu com ela, as crrianças é que conseguem refletir a ligação deles... Espero que goste do capítulo. Bjosss
E a Renata K, WeasleyBR, Kait Weasley... e a todos que deixaram reviews e eu não respondi -ou devido à demora, ou por causa do meu e-mail louco. Eu amo vcs!
Kisses,
Angel.
