Lábios de Sangue

Capitulo 14 – Lagrimas, Dor e o Último Amanhecer

No castelo:

Trowa encontrava-se sentado na cama ao lado de Quatre. Este estava desacordado a pelo menos uma hora, lentamente acariciava o rosto do humano. A íris verde refletia preocupação, jamais imaginara que o humano pudesse ser afetado daquela forma pela criatura que os Maganac falavam... mas era de se esperar. Como vampiro, jamais vira humano algum com uma empatia tão poderosa quanto à de Quatre, e agora que ele partilhava de suas emoções podia perceber a real extensão de suas habilidades.

Mas o que aconteceria a essa empatia caso Quatre se tornasse um vampiro? Até onde sua habilidade empática evoluiria?

Já ouvira falar de vampiros empáticos... mas jamais encontrara com nenhum, pelo que sabia estes alimentavam-se da força vital dos humanos, assim como de seu sangue. Quatre seria assim caso se tornasse um deles?

Sentiu a consciência de Quatre despertando e empurrou seus pensamentos para o mais fundo de sua mente, na esperança de que dessa forma o humano não pudesse lê-los. O humano abriu os olhos e encontrou o vampiro a olhá-lo com preocupação. Olhou ao redor e percebeu que estava na cama do quarto de Trowa. Procurou sentar-se, sendo ajudado pelo vampiro.

- E Duo?

- Heero, Treize e Auda foram atrás dele, já devem estar voltando. Você está bem?

- Sim... só um pouco cansado. Quanto tempo...?

- Pouco mais que uma hora.

- Oh!... O que era aquilo que eu senti Trowa? Como.... alguma coisa... pode... pode ter tanta maldade?

- Não sei meu anjo.

Trowa abraçou Quatre que tremia. O humano, de alguma forma; ainda sentia a presença da criatura... era como se estivesse ali, ao lado deles, por toda parte. Quatre afundou o rosto no peito de Trowa abraçando-o e buscando a segurança que sempre sentia quando o vampiro o abraçava. Lembrava-se do terror que invadiu seus sentidos ao sentir a criatura. Não queria lembrar do que viu e sentiu quando a criatura levou Duo embora... foram pouco mais que alguns minutos, mas o suficiente para abatê-lo.

Trowa sentiu que Quatre acalmava-se. O corpo humano já não tremia, afastou-o ligeiramente, recebendo um sorriso. Sentiram as presenças; Trowa levantou-se e estendeu a mão para o humano antes de falar:

- Chegaram...

Quatre tomou a mão de Trowa balançando a cabeça e deixando a cama. Oscilou por um momento, sendo amparado imediatamente por Trowa. A voz do vampiro denotava preocupação ao dirigir-se ao humano.

- Tem certeza de que está bem?

- Estou... você não conseguirá manter-me no quarto de qualquer forma.

Quatre respondeu rápido, sabia que Trowa tencionava deixá-lo ali caso não estivesse em condições de descer. Trowa olhou para o loiro por alguns segundos; sabia que Quatre recusaria-se a ficar no aposento até ver o amigo com os próprios olhos, e ter certeza de que este estava bem. Ainda assim não pôde evitar pensar em algumas formas deveras interessantes de manter o humano no quarto, claro que acompanhado.

- Acha mesmo que não?!.

Trowa sorriu maliciosamente e Quatre sentiu as maçãs do rosto quente ao ver as imagens que passavam pela mente do vampiro... é... vendo dessa forma certamente o vampiro conseguiria mantê-lo por um bom tempo dentro quarto. Saíram e desceram as escadas para encontrarem-se com os amigos.

Duo entrou no castelo abraçado por Heero. Todos aguardavam a chegada de todos,ansiosos por notícias e pelo estado do humano. Duo olhou para Quatre, o amigo parecia um tanto quanto pálido e observava-o ansioso e preocupado, dirigiu-lhe um sorriso, depois olhou para Heero com um pedido mudo nos olhos. O vampiro balançou a cabeça e virou-se para os demais.

- Vamos nos retirar agora. Treize, Auda obrigado pela ajuda. Trowa mais tarde mande alguns homens a cidade e verifiquem se não sobrou nada do hotel. Peça que verifiquem também sobre a obra no clube, diga que quero tudo pronto até o final desta semana. Ela não tardará a voltar.

- Será feito Heero.

- Treize convoque o clã, que todos cheguem em uma semana.

- Será feito Yuy.

- Abdul, Ahmad, Auda; conversaremos melhor amanhã.

Os lideres do Maganac curvaram-se. Heero seguiu em direção a seu quarto em companhia de Duo que mantinha-se calado. O vampiro ainda não havia dito a ele o que realmente acontecêra, como ele havia ido parar no hotel em companhia de Relena e do Necro e o porquê de estar semi-despido. Antes que chegasse ao alto da escadaria parou virou-se para Trowa novamente.

- Trowa peça a Kimitsu que vá até meu quarto mais tarde.

- Direi a ele Heero.

Heero olhou Duo e acariciou-lhe o rosto pálido, continuando a subir. Abriu a porta e aguardou que o humano entrasse, antes de fechá-la. Duo caminhou até o meio do quarto parando próximo a mesinha, tocou a renda que cobria a mesa e sem olhar para Heero, falou com a voz calma, que não refletia verdadeiramente seu estado no momento.

- O que aconteceu Heero?

O vampiro aproximou-se e tomou Duo pela mão, fazendo-o encará-lo. Acariciou-lhe o rosto e beijou-o suavemente, antes de puxá-lo até a cama e faze-lo sentar-se a seu lado.

- Do quê você se lembra?

Duo pensou por alguns instantes. Não sabia exatamente dizer o que era ou não real, tinha uma leve idéia do que acontecêra, mas não a certeza de quê o que pensava realmente tivesse acontecido. Quando falou sua voz era incerta.

- Não sei direito. Lembro-me de sua proposta. De você ter me beijado e descido as escadas para voltar a falar com os Maganac. Lembro de continuar a subir as escadas e ir para o quarto, mas não lembro-me de ter entrado nele.

- E você não entrou. Lembra-se de ter passado por Kimitsu?

Duo pensou um pouco, lembrava-se fracamente de ter ouvido Kimitsu perguntar-lhe algo, mas não podia afirmar com certeza.

- Não sei... eu tenho a vaga lembrança dele ter me perguntado algo, mas não consigo saber se isso aconteceu ou se eu imaginei tudo.

- Entendo...

Heero ficou em silêncio por tanto tempo que Duo achou que não fosse contar-lhe o que aconteceu. Mas Heero recomeçou a falar.

- Você passou por ele quando desceu as escadas, depois simplesmente saiu do castelo. Kimitsu achou estranha sua atitude, pois você agia como se fosse um boneco, não possuía nenhuma expressão no seu rosto e parecia estar sendo guiado por algo. Ele seguiu-o e viu quando você simplesmente desapareceu, do nada. Ele veio me avisar, mas eu já sabia que você não mais se encontrava no castelo.

- Mas como aconteceu? Eu não me lembro.

- O Necro de alguma forma consegue controlá-lo Duo. Eu não sei como ela faz isso, mas é fato de que ela consegue entrar em sua mente e controlá-lo, principalmente quando não estamos juntos. Quatre contou-me que aconteceu uma coisa estranha enquanto vocês e Sally aguardavam na biblioteca.

- Sim eu me lembro disso.

A sensação de dormência, as dores na mão e no peito, como se estivessem sendo passadas no fogo. A voz em sua mente dizendo para encontrá-la. A sensação de sufocamento.

- Era o Necro?

- Era... o nome dela é Mirla, pelo menos é assim que Relena a chama.

- E como eu cheguei lá?

- Mirla criou um Αίμα para leva-lo até Relena.

- Um Αίμα? Relena?

- Sim um Αίμα; pelo que Abdul disse é uma criatura que vive nas profundezas da escuridão, são servos dos Necros, e são invocados por seu sangue.

- Nossa! Difícil de acreditar que isso seja possível, mas como é você que esta dizendo...

- Eu já disse a você que existem muitas coisas neste mundo que parecem impossíveis, coisas que vocês humanos acham incompreensíveis.

- É eu sei... E o que Relena tem a ver com tudo isso?

Heero teve que controlar-se ao ouvir aquele nome, ainda se perguntava por que não a matara de uma vez, sabia que Relena voltaria, se a tivesse matado estaria livre para sempre. Mas sabia o porquê..., mesmo ela sendo um monstro seria incapaz de matá-la desarmada, mesmo tendo atrevido-se a tocar no que lhe pertencia. Além do mais o Necro poderia ter ferido Duo seriamente, e jamais se perdoaria se algo assim acontecesse. Duo olhou para o vampiro e acariciou-lhe o rosto fazendo-o retornar sua atenção a ele. Heero beijou a palma da mão de Duo e o humano sorriu.

- Heero por que eu estava deitado naquela cama semidespido, e o que Relena quis dizer sobre eu ser....

O rosto de Duo ficou vermelho, não precisava repetir as palavras de Relena. Heero as ouvira na mente de Duo. Então Duo teve um sobressalto ao relembrar as palavras.

FlashBack

"Tive momentos maravilhosos,e espero que possamos continuar em breve. Você é ainda melhor do julguei humano. Ardente, viril e... quase perfeito, não tanto quanto Heero, mas ainda assim fez com que me sentisse deliciada. Você ainda será meu, assim como Heero".

FimFlashBack

- Oh! Meu Deus...

Duo levantou-se da cama passando a mão pelos cabelos. Seus olhos, ao se virar para Heero mostravam incredulidade. Sua voz saiu temerosa :.

- Não diga que eu... que ela... que nós....

Heero levantou-se e puxou Duo novamente para sentar-se a seu lado. Duo sentou-se e Heero contou a ele como o encontrara e o porquê de Relena o tê-lo levado de volta ao hotel. Duo olhava-o estarrecido, não acreditava no que o vampiro estava a lhe dizer. Como pudera beijá-la, tocá-la e permitir que ela fizesse o mesmo com ele.? Sentou-se sujo por saber que a tocara e deixara-se tocar. Heero podia sentir todas as emoções que passavam por Duo;, o nojo, a descrença, a tristeza... e por fim a aceitação dos fatos.

- Eu preciso de um banho! Tirar os vestígios daquela bruxa do meu corpo.

Heero balançou a cabeça e caminhou até o banheiro enchendo a banheira com água quente. Ouviu alguém bater à porta e mandou que Kimitsu entrasse.

- Sr Yuy...?.

- Poderia trazer minha refeição, e alguma coisa para Duo comer Kimitsu?.

- Perfeitamente Sr.

- Obrigado.

O empregado retirou-se ,e Heero se virou para retornar ao banheiro e terminar de preparar a banheira. Seus olhos escureceram ao encontrar Duo parado a porta deste. Duo esperou Kimitsu sair e Heero virar-se; havia ficado olhando para a banheira e pensando em uma forma de tornar o banho ainda mais interessante. Soltou o cabelo e ficou apenas com a calça; o zíper aberto e o polegar descansando displicentemente na cueca preta, enquanto mantinha um sorriso malicioso nos lábios.

- Esfrega minhas costas Hee-Chan?

Heero sorriu e caminhou em direção a Duo abraçando-o pela cintura, enquanto dizia com a voz rouca.

- Será um prazer...

Duas horas depois:

Duo tinha a pele ligeiramente irritada de tanto esfregar-se. Ele e Heero haviam tomado banho juntos, ou pelo menos tentado, uma vez que essa não era exatamente a intenção do humano quando propôs que o vampiro se unisse a ele na banheira. No inicio até que Duo tentou limpar-se dos vestígios de Relena, mas ao sentir as mãos de Heero na base da sua espinha não conseguiu , conter-se, e entre beijos e caricias fêz com que o vampiro o possuísse dentro da banheira. Então logo após a sessão, e Duo já se achar livre dos traços de Relena em seu corpo, ambos se sentaram-se no chão, com Duo devorando o jantar trazido por Kimitsu e Heero bebendo sua costumeira refeição.

- Prova só um pedacinho Heero.

- Não Duo, eu me sinto satisfeito com a minha "comida". Além do que eu não me sinto bem comendo esse "tipo" de comida.

- O que você sente?

- Sinto-me enjoado.

- Enjoado? Todos os vampiros sentem o mesmo quando comem comida "normal"?.

- Nem todos. Alguns habituaram-se a comer o que você chama de comida normal. Outros sentem-se como eu. Além do quê nossos corpos não utilizam mais esse "tipo" de comida.

- Ah...! E por quê?

- Por que estamos mortos Duo. E mortos não digerem comida.

- Mas você comeu na primeira vez que jantamos juntos. Ou pelo menos comeu um pouco.

- Era necessário. Seria estranho você ser convidado a um jantar e seu anfitrião não tocar na comida, você pensaria que havia algo de errado com ela.

- Verdade. Mas se vocês não a digerem o que acontece com ela?

- Acho que você não vai querer saber.

- Por quê?

- Termina seu prato Duo.

- Ah! Heero... vai, conta.

- Tem certeza, acho melhor você terminar sua comida.

- Não! Conta!.

- Ok..., depois não diga que eu não te avisei. Ela fica dentro de nosso corpo até apodrecer.

- Argh!

Duo afastou o prato enojado. Heero deu um meio sorriso antes de falar.

- Eu disse para terminar antes.

- É... eu sei.

Duo olhou triste para o restante da comida no prato, enquanto pensava que deveria ter seguido o conselho de Heero e não insistindo em saber o porquê deles não alimentarem-se com comida normal. Mas se os vampiros não digeriam a comida, o que acontecia com o sangue que bebiam? Duo virou-se para Heero confuso.

- Hee-chan, e quanto ao sangue que vocês bebem?

Heero estreitou os olhos diante do apelido pelo qual o humano insistia em chamá-lo, pretendia falar sobre isso, mas a expressão confusa na face de Duo desconcertou-o e ele viu-se respondendo a pergunta sem nem mesmo perceber.

- É diferente quando bebemos sangue. Quando nos tornamos vampiros nosso organismo modifica-se, afim de habituar-se à nova "dieta básica".

Duo sorriu ao ouvir Heero falar sobre dieta básica. Nunca imaginara-se discutindo hábitos alimentares com um vampiro.

- Quando bebemos sangue, ele nos satisfaz da mesma forma que a "comida normal" satisfaz os de sua espécie. Nosso organismo transforma o sangue que bebemos em nutrientes que alimenta nosso corpo.

- Então quando você me tornar um vampiro, eu nunca mais vou poder comer chocolate?

Heero viu o olhar triste de Duo. O humano tinha o semblante de uma criança que aguarda a autorização do pai para brincar... Seria justo abraçá-lo?

"De quantas coisas ele terá que abrir mão apenas para tornar-se um vampiro. Não será muito egoísmo de minha parte privá-lo do mundo e das coisas que gosta, apenas para tê-lo comigo?"

Duo notou que o olhar de Heero modificara-se, ele parecia ponderar sobre o assunto. Duo olhou para a janela do quarto; lá fora estrelas brilhavam na imensidão do céu, começou a pensar sobre todas as coisas que não poderia fazer depois que permitisse que Heero o abraçasse. Todas as coisas que não mais poderia comer.

"Não ver o sol. Não comer como agora. Esconder-me por causa de humanos como eu... Mas..."

O olhar de Duo voltou-se para Heero, ficou a admirar a íris azul cobalto que tanto amava. Uma palavra ecoou em sua mente e ele sorriu.

"Troca".

Não... Ele não estaria perdendo, mas trocando uma coisa pela outra. Uma vida solitária, por outra onde a solidão não mais existiria, pois estaria com Heero. Abrir mão de algumas coisas? Talvez. Mas ele ganharia outras, muito melhores. Teria o vampiro com ele, seriam um só. Duo acariciou o rosto frio de Heero e aconchegou-se junto a ele.

- Acho que posso abrir mão de certas coisas. Não será tão ruim assim, afinal eu vou ganhar algo muito melhor que chocolate.

Os olhos de Heero escureceram ao ler a mente de Duo e abriu os braços, abraçando o corpo do humano que se aconchegou entre eles..

- Verdade...? E o que seria?

- Você não sabe Hee-Chan?

- Hn...

- Hum..., se bem que um vampiro coberto de chocolate deve ser uma delícia.

Duo olhava-o nos olhos, um brilho travesso irradiando da íris ametista. O vampiro passou os braços por sob as pernas do humano; ergueu-se do chão com Duo em seus braços.

- Acho que podemos providenciar isso.

Os olhos de Duo escureceram enquanto Heero depositava–o na cama e deitava-se a seu lado. Duo colocou as mãos no peito de Heero enquanto sorria diante do olhar avermelhado e predador do amante. Puxou o corpo de Heero e sussurrou roucamente em seu ouvido.

- Seria maravilhoso... Você por um acaso conhece algum vampiro disponível no momento? que seja sexy, ardente e capaz de enlouquecer um humano apenas com um olhar Hee-Chan?

Heero gemeu quando o humano sussurrou em seu ouvido, segundos antes de senti-la invadida por uma língua quente. Quando conseguiu encontrar sua voz esta saiu extremamente rouca.

- Talvez...

Heero afastou-se e olhou-o com os olhos vermelhos. A boca de Heero estava quase encostada na do humano. Duo não conseguia desviar os olhos da boca do vampiro, aproximou-se e tomou os lábios frios. Heero aprofundou o beijo, pressionando os lábios quentes sobre os dele impetuosamente. Duo passou os braços pelas costas do vampiro abraçando-o fortemente, enquanto retribuía o beijo com ardor. Logo as roupas foram jogadas ao chão. E por toda a noite suspiros e gemidos preencheram o quarto.

Na cidade de Park Lakers

A noite já estava alta e Relena andava de um lado para o outro. Pensando em como estivera perto de conseguir trazer o humano para seu lado. Como estivera perto de conseguir o que queria.

"Por tão pouco... Se Heero não tivesse aparecido ele teria sido meu, e agora eu não estaria aqui aguardando. Mas falta pouco... muito pouco Heero querido."

Um vampiro de cabelos ruivos apareceu silenciosamente ao lado de Relena. Este tomou sua mão e beijou-a. Ela acariciou o rosto do vampiro e voltou seu olhar para um humano que caminhava por perto, desconhecendo o mal que o rondava.

- Alexius, alguma noticia de Lacroan?

- Sim minha senhora.

- Então diga de uma vez.

- Eles chegarão esta noite

Sorriu..., sim era tudo o que desejava saber, logo ela conseguiria o que queria. Logo o mundo a conheceria, ela seria sua dona, a rainha de todo o mundo. Todos curvariam-se aos Peacecraft. E nem mesmo os Khushrenada poderiam opor-se a ela. Em pouco tempo veria Heero novamente e teria o prazer de estar com o humano de olhos ametistas. O humano que se atrevera a tornar-se amante do que era seu por direito.

Relena virou-se um sorriso maligno no belo rosto.

- Alexius..., você e seu irmão; encontrem Mirla e tragam-na aqui.

- Senhora... acha prudente confiar nela?

- Não..., mas ela serve aos meus propósitos.... Agora encontrem-na e tragam-na até mim.

- Como desejar senhora.

O vampiro de cabelos ruivos saiu tão silenciosamente quanto chegou. Relena caminhou silenciosamente até o humano que examinava as ruínas da construção, assim que percebeu que ele a notara sorriu docemente para ele.

"Nada como uma refeição fresca ao acordar... Os humanos são tão tolos..."

Alguns minutos depois, quando a noite já havia caído, o Necro chegou; acompanhada por Alexius e Alexian. Relena limpava os lábios, sujos de sangue com um lenço branco. O corpo de um jovem que não deveria ter mais que vinte oito anos encontrava-se no chão, sem vida. Passou por cima do corpo e caminhou em direção a Mirla. Ao sinal de Relena ambos retiraram-se e a deixaram a sós com o Necro.

Mirla abaixou a cabeça, sem desgrudar os olhos do corpo já sem vida. Relena notou o olhar e sorriu. Caminhou novamente em direção ao corpo e ergueu-o com uma das mãos, voltando seus olhos para a criatura de cabelos brancos e olhos dourados. Sua voz era sarcástica e maliciosa.

- Você o quer Mirla?

- ...

Relena arrastou o corpo e jogou-o aos pés do Necro, que levantou a cabeça. Relena então, caminhou em direção a construção em que ela e os outros vampiros encontravam-se no momento. As ruínas de uma escola para moças, destruída pelas chamas já a alguns anos. Sentou-se em uma poltrona que fôra forrada com um lençol imaculadamente branco.

- Pegue-o. Eu sei que você o quer. É seu. Não tenho nenhuma utilidade para ele no momento..., embora eu suponha que ele ainda esteja fresco demais para o seu gosto.

- Obrigada senhora...

- Ah! Por favor..., não me agradeça Mirla. Você não é tão subserviente assim. Sei que não gosta de nós..., embora ainda não entenda o por quê de acompanhar-nos. as todos temos nossos segredos não é mesmo?. Todos querem alguma coisa. A pergunta é: O que você quer Mirla?

O Necro mostrou surpresa para com a pergunta. Era a primeira vez em anos que Relena perguntava-lhe diretamente o que queria. Por um instante Relena pôde sentir confusão e raiva vindas do Necro..., mas a sensação sumiu tão rapidamente quanto aparecêra.

- O que a senhora deseja de mim?

Relena sorriu..., seu riso ecoando por todo o local. Sabia que não teria sua questão respondida, e a verdade era que não queria saber a resposta. Nada que aquela criatura pensasse ou desejasse era de seu interesse; apenas a conclusão de seus planos tinha importância..., todo o resto era dispensável.

Viu o Necro abaixar-se para examinar o corpo... o olhar de satisfação, ao imaginar como aquele corpo ficaria saboroso após a devida decomposição. Um banquete digno de uma criatura como um Necro. A voz de Relena fêz-se ouvir... a jovem levantou-se e começou a caminhar para fora da construção, Mirla continuou a examinar o corpo, despindo-o de seus trajes; enquanto ouvia as palavras de Relena.

- Alexius disse-me que os caçadores chegarão esta noite. Eu quero que você veja qual o dia em que devemos retornar a cidade. Eu quero que a nossa vitória... a minha vitória seja completa. Devemos pegar o humano e trazê-lo para nosso lado, e devemos... não...

Relena parou e olhou para o Necro que mantinha agora o cadáver suspenso no ar com os fios do próprio cabelo. Este, parecia ter vida própria. Em segundos todo o corpo estava envolto pelos fios. Então o cabelo de Mirla voltou a aparência de sempre. Relena sorriu e continuou a aproximar-se do Necro.

- Eu quero destruí o clã dos Khushrenada. Seu clã Mirla, tinha o conhecimento de ver o futuro nos astros do céu..., sei que herdou essa habilidade de seu clã. Então veja quando devemos atacá-los.

Mirla caminhou até o pátio e olhou para o céu. As estrelas brilhavam claras, comum naquela época do ano. Um vento frio soprava, balançando o cabelo de ambas as criaturas. Os olhos do Necro brilharam e, de repente o vento parou, como se o ar e tudo o mais a volta houvesse parado. Relena sentiu um ligeiro arrepio, mas não importou-se. Sempre que o Necro fazia uso de suas habilidades isso acontecia.

Mirla estava a olhar as estrelas já a alguns minutos quando um barulho, e várias presenças chamaram a atenção de Relena fazendo-a sorrir. Um vampiro com longos cabelos pretos e olhos azuis aproximou-se, seguido por Lacroan. O caçador sem o ante-braço esquerdo preparou-se para dizer alguma coisa, mas o outro impediu-o, segurando sua garganta e olhando-o silenciosamente. Relena olhou para o caçador;este curvou-se silenciosamente. Ela sorriu e voltou sua atenção para o Necro. A voz de Mirla soou baixa ao pronunciar sua previsão.

- Daqui a três semanas. No quarto dia da terceira semana, quando Urano entrar na casa de Câncer, uma lua nova clareará o céu à noite. Nessa noite o clã dos Khushrenada sucumbirá aos caçadores, na cidade que juraram proteger.

- Mas a lua nova não aparece no céu à noite!

- Ela surgirá sobre a cidade de Epyon. Daqui a três semanas.

- Tem certeza Mirla?

- Sim.

Mirla caiu no chão, enquanto Relena batia as mãos deliciada. Não notou o sorriso que se formou no rosto do Necro, mas o vampiro de cabelos negros sim. Ele não confiava nos Necros... quando soube que Relena Peacecraft tinha um como aliado, achou melhor providenciar algo caso a criatura resolvesse voltar-se contra eles. E o fato de vê-la sorrindo indicava que ela não havia contado tudo acêrca de sua previsão a Relena.

Relena olhou para o Necro que retirava-se, levando o cadáver consigo.

"Três semanas... em três semanas nos veremos novamente, e você voltará para mim como deve ser. E o humano será nosso brinquedinho"

Relena começou a rir sob o olhar de Malckaczi que apenas acompanhava a saída do Necro com o olhar. Algo dizia-lhe que o Necro não era confiável assim como a previsão que fizera.

05:00 hs de Segunda-Feira - Cidade de Epyon:

Estavam no início da terceira semana, e até o momento nenhum movimento de Relena ou dos caçadores. Heero não sabia se ficava contente ou preocupado com isso. Encontrava-se acordado, com Duo adormecido em seus braços. O calor do corpo humano junto ao seu fazia-o sentir-se vivo; mas por quanto tempo teria-o assim? Por quanto tempo a tranqüilidade permaneceria?. Havia tanto a ser protegido e não tinha tempo ou a certeza de que tudo daria certo. Mas haviam conseguido algum progresso com relação ao treinamento de Quatre e Duo.

Duo praticara com Heero luta corporal e o manejo com a espada. O humano já conseguia movê-la com uma habilidade incrível.

No entanto, o poder de Yami e Hikari ainda era um mistério, não conseguiram descobrir muita coisa, apenas que de alguma forma, agora; tanto ele quanto Duo estavam ligados a elas e que Yami despertava no humano habilidades que o mesmo até então desconhecia possuir.

A ajuda do humano chamado Wu-Fei havia sido de suma importância. Ele permitira que colocasse se um gongo gigante no alto do templo, que seria acionado assim que os caçadores chegassem. O chinês também treinava Duo e Quatre pela manhã , enquanto que Auda encarregava-se da tarefa à noite; o líder do Maganac insistira em ajudar os dois nesse sentido.

"Auda possui muito respeito . assim como uma grande admiração por você e Quatre. O que não me deixa surpreso, a exceção de Ahmad, você conquista a todos com seu jeito. Até mesmo Relena. "

Heero franziu o rosto ao lembrar-se dela. Sabia que voltaria; Relena não era o tipo de criatura que desistia das coisas facilmente, ainda mais quando cismava com alguma coisa. Como cismara com Duo. Heero olhou para o humano que dormia tranqüilamente em meio aos lençóis, os cabelos soltos, a face tranqüila... acariciou o rosto do outro, que ronronou...

- Hee-Chan...

Heero não gostava de admitir, mas apreciava a forma como Duo o chamava, apesar de detestar quando o humano fazia isso na frente dos outros.

Em alguns minutos o sol nasceria, e ele renderia-se ao sono enquanto seu Deus da Morte acordaria. Muito em breve eles dormiriam e acordariam juntos... quando Duo fosse abraçado. E se tornasse um vampiro. Com cuidado Heero retirou o humano de seus braços e levantou-se da cama. Caminhou até a janela O céu começava a clarear, viu uma sombra no céu, sinal de que o período de tranqüilidade estava no fim.

"Está próxima..., a hora da batalha aproxima-se. Será que estamos preparados ? Eu gostaria de saber".

Duo abriu os olhos no instante em que sentiu-se não estar mais nos braços de Heero. Observou com os olhos ainda sonolentos a figura do vampiro parado na janela observando o céu, sabia o que o preocupava, também estava preocupado. De alguma forma sabia que os caçadores chegariam logo e a cidade ficaria a mercê deles. Pensar em todas as pessoas da cidade, seus amigos, conhecidos, aqueles que se tornaram sua família o preocupava, mas Heero havia dito para não se preocupar-se. Eles não estariam sozinhos, eles defenderiam a cidade dos caçadores. Mesmo que perdessem a vida no processo.

Duo levantou-se devagar e caminhou até Heero. Este deu um meio sorriso ao sentir a aproximação do humano. Sabia que ele não ficaria adormecido por muito tempo depois que saísse da cama. Cada vez que afastava-se, mesmo que por alguns minutos Duo acordava e saia a sua procura. Sentiu os braços do humano o envolvendo pela cintura, enquanto sentia seus lábios macios e quentes no ombro.

- Vendo a vista Hee-Chan?

- Hn... logo vai amanhecer e eu terei que descansar. Enquanto você estará acordado.

- Por pouco tempo.

Heero virou-se e encarou os olhos ametistas do humano. Havia tanta certeza em seu olhar, tanta confiança em seu sorriso, como negar tal pedido? O vampiro acariciou o belo rosto ; estefechou os olhos ao sentir a carícia. A pele quente arrepiando-se ao toque frio. Heero abraçou Duo também pela cintura fazendo-o repousar a cabeça em seu peito.

- Sim... por pouco tempo. Em breve você estará comigo na escuridão.

- Para sempre Heero.

- Para sempre.

Duo intensificou o aperto de seus braços na cintura de Heero. Logo ambos seriam um só na escuridão da noite, ele também seria filho dela, assim como Heero e os outros. Heero olhou para Duo fazendo-o sorrir.

- Venha... você ainda tem algumas horas de sono antes de levantar. E eu quero adormecer com você em meus braços.

Duo balançou a cabeça e soltou-se de Heero que fechou as cortinas do quarto, fazendo-o mergulhar na escuridão. Ele aguardou que Heero tomasse sua mão e o guiasse até a cama, pois não conseguia enxergar nada.

- Heero!?

Duo gritou o nome do vampiro ao ser erguido repentinamente do chão. Passou automaticamente os braços em torno do pescoço de Heero que o beijou, antes de depositá-lo cuidadosamente na cama.

- Assustei-o?

- Não... apenas me pegou de surpresa. Por quê...?

Heero silenciou-o com um beijo, e deitou-se a seu lado. Apartou o beijo e segurou o corpo do humano junto ao seu.

- Vampiros conseguem mover-se no escuro, e não gostaria que se machucasse batendo em alguma coisa do quarto.

- Ok. Uãããããã....

- Com sono?

- Um pouquinho.

- Durma e eu juntarei-me a você logo.

- Bons sonhos Hee-Chan.

Em poucos instantes o humano ressonava, adormecido. Heero beijou sua testa, e fechou os olhos preparando-se para descansar. Na escuridão do quarto sua voz soou baixa e carinhosa.

- Você também meu Shinigami.

07:30 hs da manhã de Segunda-feira

Duo acordou reconfortado, sentindo a maciez dos fios cor de chocolate em seu pescoço. Abriu os olhos e afastou-se delicadamente dos braços que o seguravam para ligar o abajur da cabeceira da cama. Ficou o por alguns minutos observando o sono tranqüilo do vampiro adormecido. Depositando um beijo suave nos lábios de Heero Duo levantou-se e começou sua rotina diária. Tomou um banho rápido, trocou de roupa e deixou o quarto, caminhando até a cozinha, onde encontrou Quatre já sentado a sua espera. Duo sorriu , deu um beijo na testa do amigo e sentou-se a seu lado.

- Eu pensei que hoje conseguiria estar na cozinha antes de você.

- Sinto muito Duo, mas você nunca vai conseguir essa proeza.

- Você se engana, eu vou sim.

Virando-se Duo e Quatre olharam para a porta da cozinha que se abria, Kimitsu entrou e cumprimentou os dois jovens sentados a mesa.

- Bom dia Kimitsu.

- Bom dia Sr. Winner.

- Bom dia Kimitsu.

- Bom dia Sr. Maxwell.

- É Duo, Kimitsu, por favor, já basta o Rashid me chamando assim.

- Desculpe-me Sr...

- Retire o senhor e estamos quites.

Kimitsu olhou alguns instantes para Duo não era fácil para ele dirigir-se tão informalmente a alguém, ainda mais se tratando do companheiro do shuhan dos Khushrenada. Quatre notou a dificuldade de Kimitsu e levantou-se caminhando até ele e sussurrando em seu ouvido.

- Não se preocupe com isso Kimitsu. Continue tratando-o como achar melhor ou até que se habitue a trata-lo de outra forma. Ele não vai se incomodar, eu garanto.

- Obrigado Sr. Winner.

- De nada.

Duo notou os dois conversando baixo e levantou-se, fingindo-se de indignado.

- Ei! O que vocês estão cochichando?

- Nada Duo. Anda, vamos logo que o Wu-Fei já deve estar esperando a gente.

- Mas eu ainda não tomei meu café da manhã.

- E nem vai, a gente ficou de comer no templo esqueceu?.

- Foi?

Quatre riu da cara do amigoe começou a puxá-lo para fora da cozinha, enquanto acenava para Kimitsu. O empregado sorriu ao ver os dois jovens saírem, um reclamando sobre ter de comer no templo e o outro tentando convencê-lo de que aquilo seria agradável. Eram jovens especiais, e sentia-se feliz por seus senhores terem-nos encontrado. Voltou a seus afazeres, o castelo estava repleto de membros, dos dois clãs e mais alguns chegariam a noite.

Duo e Quatre chegaram ao templo com meia hora de atrasado;Wu-Fei já os aguardava aborrecido. Tomaram o café da manhã que conseguiu surpreender e agradar ao americano. Seguiram com seus hábitos diários de treinamento. Na hora do almoço Duo propôs que fossem a cidade, pois tinha que pegar algumas coisas em seu apartamento e ir a um outro lugar que não quis contar aos amigos.

11:30 hs

Estavam almoçando no Heavyarms, onde Duo teve a chance de encontrar novamente com Noin e Milliardo. Desde o incidente no hotel não havia conseguido encontrar-se com o casal. Wu-Fei a pedido de Heero havia explicado aos dois os fatos acêrca dos visitantes do hotel. Eles ficaram surpresos e um tanto incrédulos ao ouvir o chinês falar da existência de vampiros. Mas apenas Noin recusou-se a aceitar a história, Milliardo mostrou-se mais aberto e acreditou na historia sem tecer nenhum comentário.

Duo, Quatre e Wu-Fei acharam estranho o fato, mas não deram muita importância a isso. Pelo contrário , mostraram-se felizes em contar com o apoio do loiro, dono do mercado 24hs da cidade. Noin havia chegado a perguntar ao noivo o motivo deste acreditar sem questionamentos na historia contada pelos rapazes; no entanto Milliardo apenas dissera-lhe que tinha seus motivos, e com um beijo mudou habilmente de assunto.

Ao ver os três entrarem na lanchonete e sentarem-se em uma das mesas, Milliardo aproximou-se.

- Boa tarde.

- Boa tarde Milliardo.

- Sente-se com a gente.

- Obrigado Quatre.

- Como vocês estão? Eu não o tenho visto muito Duo.

- É eu andei meio ocupado. E como vão as coisas?

- Bem...ah... eu posso perguntar-lhes uma coisa?

- Claro, diz ai.

Milliardo parou de falar assim que viu Noin caminhando em direção a mesa. Ela se aproximou e sorriu.

- Há quanto tempo não os vejo. Duo, Quatre.

- Oi Noin como vai?

- Bem Quatre obrigada, e você como está?

- Bem.

- E você Duo o que anda fazendo? Deixe-me adivinhar... procurando vampiros...

A morena riu, mas parou ao notar o olhar de Milliardo sobre si. O rapaz estava sério, na verdade nos últimos dias seu noivo não estava de muito bom humor no que se referia ao assunto, ela achava que ele estava dando crédito demais aquilo. Duo e os outros notaram a tensão que formou-se entre Noin e Milliardo, mas não disseram uma única palavra. Para fugir do olhar de Milliardo, Noin resolver pegar os pedidos dos rapazes.

- Desculpe Duo. Vocês já fizeram o pedido?

- O de sempre pra mim Noin.

- Ok e vocês?

- Eu quero um especial da casa.

- Certo Quatre, e você Wu-Fei?

- O de vegetais, por favor.

- Ok eu trago em alguns minutos.

- Vai querer alguma coisa Milliardo?

- Não Noin obrigado, eu tenho que voltar ao mercado em alguns minutos. Mas você pode me levar um lanche depois não é?

- Eu vou pensar.

Milliardo sorriu e viu Noin seguir em direção ao balcão gritando os pedidos. Então voltou-se para os outros três. Quatre sem saber o por quê sentia uma estranha sensação vinda do amigo.

- Eu queria saber se eles vão voltar...

Duo e Quatre olharam um para o outro, não precisavam perguntar a quem ele se referia. Milliardo havia sido direto na pergunta e pegou-os desprevenidos. Wu-Fei olhou para os amigos, embora nem ele soubesse a resposta a pergunta de Milliardo. Foi Duo quem respondeu, sua voz saiu baixa e ele olhou para os lados antes de falar, como se por algum acaso estivessem sendo observados.

- Sim. Nós não sabemos quando, mas é certo que sim. Heero diz que Relena não vai desistir tão facilmente e eu também acredito nisso.

Milliardo abaixou a cabeça por alguns instantes e depois levantou-se olhando para cada um deles como se tivesse tomado uma decisão importante.

- Se precisarem de minha ajuda basta pedir. E meu dever ajudá-los.

Noin voltou com os pedidos e Milliardo voltou-se dando-lhe um beijo rápido, antes de deixar a lanchonete, sob o olhar confuso dos quatro. Todos almoçaram em silêncio, cada um tentando imaginar o que Milliardo quiz dizer com aquilo. Após o almoço Duo disse que iria resolver algumas coisas e que se encontraria com Quatre mais tarde;saiu sem dar maiores detalhes. Quatre ainda tentou fazê-lo desistir, mas ele disse que estaria de volta antes que o sol tivesse se posto. Quatre concordou e voltou ao templo com Wu-Fei para conversarem.

14:00 hs loja do Phill - Cidade de Park Lakers

Duo estava deitado de olhos fechados... uma ligeira ardência e dor o incomodavam na altura do quadril, mas ele sabia que era por uma boa causa. Abriu os olhos e olhou o relógio, ficara de voltar a Epyon antes do sol se por e Heero acordar, não queria que o vampiro soubesse que havia saído da cidade. Mexeu-se, e recebeu um tapa e um olhar zangado.

- Desculpe Phill.

- Se você se mexer não vai ficar direito.

- Ok.

As palavras de Milliardo ainda o incomodavam, o que o loiro quis dizer sobre ser seu dever ajudar.? Duo fechou os olhos tentando imaginar um motivo para que Milliardo tivesse se mostrado tão solícito para dar cabo de Relena. Tudo bem que os vampiros do clã dela quase mataram Noin e sabia que os dois estavam noivos, mas havia mais alguma coisa que ele não conseguia associar.

"Droga está tão claro e ao mesmo tempo eu não consigo ver a relação. "

Duo mexeu-se novamente e ouviu um resmungo e algumas imprecações nada agradáveis por parte de Phill. Duo murmurou uma desculpa e decidiu pensar sobre o assunto mais tarde ou seria capaz de sair dali com um ferimento grave no quadril.

14:30 hs Cidade de Epyon loja de Ervas

Quatre estava na loja de ervas da cidade comprando algumas coisas, Duo tinha-lhe dito que era aniversário de Kimitsu, e eles deveriam fazer alguma coisa especial, uma vez que este tratava-os tão bem. Quatre concordou e decidiram fazer um jantar. Já haviam planejado com Heero e Trowa de manterem Kimitsu ocupado longe da cozinha a noite para que pudessem preparar tudo. Quatre ficara encarregado da parte salgada do jantar e Duo da sobremesa, ele estava distraído escolhendo as ervas certas para fazer o molho quando teve uma sensação familiar. Levantou a cabeça e olhou ao redor, encontrando o olhar de sua mãe e de Rashid. Imediatamente os olhos de Quatre ficaram inundados de lágrimas, fazia tanto tempo que não a via.

Ângela sentiu seu coração bater mais forte ao encontrar seu filho na cidade. Ele parecia feliz e rodeado de uma aura tão pacifica e clara; parecia mais alto e um tanto magro para seus olhos. Toda a noticia que tinha dele vinham de Rashid e de Iria. Ela queria ter ido visitá-lo no castelo como sua filha havia feito tantas vezes, mas não queria contrariar a vontade de seu marido. Caminhou até Quatre com os olhos repletos de emoção e abraçou-o chorando.

- Meu menino. Você está bem Quatre?

- Sim mamãe. Não sabe como me alegro em vê-la.

- Eu também meu querido.

Ângela afastou-se para olhar nos olhos de seu filho. Passando as mãos pelos fios loiros, ela o abraçou novamente tentando apagar a saudade que tinha do filho. Quatre abraçou-a com carinho, podia sentir toda a alegria que esta emanava por encontra-lo e a tristeza pela súbita separação.

- Eu queria muito ter ido visitá-lo, mas...

- Eu sei mamãe.

- Você vai ficar muito tempo na cidade?

- Estou esperando o Duo voltar de Park Lakers, para retornarmos ao castelo. Daqui a algumas horas Heero e Trowa irão acordar e....

Quatre ficou ligeiramente vermelho e sua mãe sorriu. Ela já aceitara o fato do filho estar se relacionando com um Glole... não que isso a agradasse, mas seu filho estava visivelmente feliz e isso bastava para seu coração de mãe.

- Será que podemos conversar um pouco antes de ir ?

- Claro mamãe eu adoraria.

- Pode ir Rashid, Quatre me ajudará se for necessário.

- Eu a deixarei em casa depois Rashid, não se preocupe.

- Como quiser senhor.

Rashid deixou a loja em direção à mansão Winner, enquanto Quatre e sua mãe terminavam as compras. Logo depois foram para o restaurante.

16:00 hs. Cidade de Park Lakers

Duo estava voltando para a cidade de Epyon, faltava pouco mais de duas horas para o sol se pôr. Chold informara que eles chegariam a tempo. Duo suspirou aliviado, tudo o que ele não precisava era de um atraso, atrasara-se e muito no mercado comprando algumas coisas e no shopping comprando um presente para Rashid. O carro no momento estava passando pelas ruínas de uma antiga escola de moças.

Duo sorriu ao lembrar-se que uma vez estivera lá com Quatre e as moças do internato ficaram alvoroçadas com a presença deles. Era uma pena que a escola tivesse queimado, Duo sentiu um arrepio ao olhar na direção norte das ruínas parecia que havia alguém ali.

- Pare o carro Chold.

- Mas senhor, vamos nos atrasar e...

- É apenas um minuto.

Chold parou o carro e Duo desceu. O lugar estava deserto, mas mesmo assim parecia que estava repleto de alguma coisa, algo ligeiramente familiar e maligno. Duo sentiu um dor em seu peito e recuou, um sussurro chegou ao seu ouvido trazido pelo que ele achava ser o vento, mas não estava ventando. Um silêncio sepulcral parecia preencher todo o lugar. Duo virou-se correndo para o carro, precisava falar com Heero.

- Para cidade Chold o mais rápido que puder.

Chold balançou a cabeça e ligou o carro, também não sentiu-se bem naquele lugar, alguma coisa parecia vigiá-los. Em pouco menos de uma hora chegaram a Epyon. Duo ligou para Quatre avisando de seu retorno à cidade e o árabe informou-o que estava no restaurante. Duo pediu que Chold retornasse ao castelo e que entregasse suas compras a Heero sem que Kimitsu visse e que omitisse a parte que ele havia ido a outra cidade. O motorista assentiu com a cabeça e ficou de voltar em pouco tempo para buscá-los.

16:45 hs Restaurante Sandrock

Duo entrou no restaurante e seguiu até a mesa onde mãe e filho conversavam. Quatre notou que Duo parecia um pouco preocupado.

- Dona Ângela como vai?

- Bem Duo, e você?

- Estou bem.

- Aconteceu alguma coisa Duo?

- Não nada Quatre, não se preocupe.

Duo sorriu e começou a conversar com a senhora Winner. Mas mesmo ele aparentando estar bem Quatre sabia que algo havia acontecido. O árabe procurou não preocupar-se certo de que Duo falaria quando achasse necessário.

Eles já estavam conversando há quase meia hora Duo olhou para o relógio faltava pouco para as 17:10 hs da tarde, quando seu celular tocou. Olhou para o número no visor e sorriu. Quatre e sua mãe aguardaram que Duo atendesse a ligação uma vez que o americano era quem estava falando no momento. Pelo sorriso do amigo Quatre sabia exatamente quem havia ligado.

- Oi, já acordou?

- Já onde vocês estão?

- Na cidade.

- Sozinhos?

- Não estamos falando com a mãe do Quatre.

- Quando vocês voltam?

- Daqui a alguns minutos.

- Quer que eu vá busca-los?

- Não é necessário Heero, o Chold ficou de pegar a gente.

- Não se demorem, logo vai anoitecer e eu o quero no castelo.

- Tá bem, já estamos indo.

- Estou com saudades.

- Eu também Hee-Chan.

Duo riu ao ouvir Heero reclamando sobre o apelido. Ele olhou para Quatre rindo e desligou o aparelho depois de mandar um beijo para Heero.

- Heero queria saber onde estávamos. Ele disse que o Trowa também já se levantou e perguntou por você.

- Eu sei... ele virá nos buscar no lugar de Chold.

- Então ele passou a frente do Heero. Ele deve estar com mais saudades que o Hee-Chan.

Quatre ficou vermelho e olhou para sua mãe que sorriu. Duo voltou ao assunto que conversavam antes do celular tocar. Meia hora depois levantaram-se para deixarem o restaurante, ao saírem encontraram Trowa parado junto ao carro na porta do mesmo.

Quatre e Duo trocaram olhares e riram. Trowa aproximou-se de Quatre e abraçou-o beijando-o suavemente nos lábios , deixando-o ainda mais vermelho, por estar na frente de sua mãe. Depois o vampiro voltou-se para a humana que era a mãe de Quatre e cumprimentou-a.

- Senhora Winner... e bom vê-la.

- Eu digo o mesmo Trowa. Fico feliz por estar cuidando bem de meu filho.

- A segurança dele é minha maior preocupação.

- Estou certa que sim.

Quatre sorriu e Trowa abraçou-o.., por algum motivo a cena fez o coração de Ângela doer. Quatre sentiu a dor de sua mãe e aproximou-se dela tocando-a no rosto preocupado. Esta olhou nos olhos do filho e por um instante eles lhe pareceram vermelhos como sangue. Ofegou e afastou-se assustada. Quatre recuou sem entender.

Trowa estreitou os olhos, ele pôde sentir por alguns instantes o medo da humana, mas o que ela temia? O que ela teria visto em seu próprio filho que a assustara?. A voz de Duo fez com que a mãe de Quatre piscasse e olhasse novamente para o filho.

- A senhora está bem dona Ângela?

- Sim Duo foi... um... mal estar, apenas isso.

- Tem certeza mãe?

- Tenho querido. Eu preciso apenas descansar um pouco.

- Nós a levamos.

Quatre abriu a porta do carro para que sua mãe entrasse, ele podia sentir que sua mãe estava escondendo algo, mas o que poderia ser? Ela estava bem até que...

"Quando nos abraçamos, ela começou a passar mal. E quando ela olhou em meus olhos ela recuou com medo, medo de mim, mas por que?"

"Não se preocupe anjo".

"Trowa o que acha que aconteceu?"

"Não sei meu anjo...realmente eu não sei"

A voz de Trowa calou-se em sua mente. E ele observou sua mãe pelo espelho retrovisor do carro. Ela estava calada respondendo por monossílabos as perguntas feitas por Duo. Ele voltou sua atenção a estrada que levava a sua antiga casa.

Ângela Winner sentia seu coração comprimido, sua preocupação era em relação a seu filho. Ela não entendia o por quê de ter visto o que viu, pareceu tão real, o vermelho espalhando-se pelo azul claro nos olhos de Quatre... que ela se assustou.

"Por Alá o que foi aquilo?. Por que os olhos de meu filho estavam vermelhos como sangue...? vermelhos como os olhos de Trowa... como os olhos dos Gloles".

Quando o carro parou Trowa desceu do veículo junto com Quatre. Trowa abriu a porta e estendeu a mão à mãe de Quatre para a ajudá-la a descer do carro, esta aceitou a gentileza e segurou a mão fria do vampiro. Fora do carro olhou para Trowa e beijou-o no rosto, surrando em seu ouvido.

- Cuide dele e faça o que achar correto.

Trowa olhou para a humana sem entender. A mãe de Quatre pegou as sacolas de suas mãos, beijou-o novamente no rosto e o aconselhou-o a tomar cuidado. Passou pelos portões e encontrou-se com Rashid que vinha em sua direção. Entregou-lhe as sacolas e voltou-se novamente para o filho, sorrindo tristemente. Quatre olhou para sua mãe sentindo uma sensação estranha. Trowa abraçou-o e olhou para a humana, tentando adivinhar o que ela quisera dizer com aquelas palavras. Duo pigarreou chamando a atenção dos dois. Quatre deu um sorriso para Trowa e caminhou até o veiculo sentando no banco do carona.

- Você está bem Quatre?

- Estou Duo não se preocupe. Não é nada... eu espero.

As ultimas palavras foram nada mais do que um sussurro, mas Trowa ouviu-as, muito bem. Podia sentir que seu anjo estava perturbado com alguma coisa. Ele estivera assim desde o inicio da semana, apesar do sorriso suave. Percebia a apreensão através dos olhos claros e o elo que possuíam fazia-o sentir as emoções de Quatre, mesmo quando o loiro tentava esconde-las.

Também podia sentir que algo estava para acontecer. Alguma coisa no ar parecia dizer-lhes que a tranqüilidade estava acabando. Ele nunca sentira isso e sabia que isso devia-se a sua ligação com o humano. A habilidade empática dele de alguma forma fazia-o perceber coisas que nunca sentira. Era como se tudo ao redor falasse com o humano, o prevenisse ,através de sensações, e elas estavam aumentando. E não gostava nada do que elas pareciam querer dizer.

A viagem de volta ao castelo foi feita em silêncio. Cada um perdido em seus próprios pensamentos.

20:00 hs No castelo do Khushrenada

Heero encontrava-se na biblioteca com Treize e Auda procurando entre os livros algo que pudesse ajuda-los. Muitos dos livros da biblioteca datavam de eras antigas. Escrito por clãs tão antigos quanto a terra, em línguas que já não eram mais ouvidas ou faladas. Muitos dos livros que preenchiam as estantes da biblioteca, o mundo jamais havia visto ou imaginado sobre sua existência. E era neles que esperavam encontrar algo a respeito da profecia.

- Acha que encontraremos algo Treize?

- Eu espero que sim Heero. Fui um tolo em não me lembrar que talvez houvesse algo entre os livros daqui.

- Estávamos muito preocupados para nos lembrarmos deles.

- E verdade.

Heero sentiu a presença de Duo aumentar e soube que este ele estava chegando. Quando Chold chegara e entregara os pacotes de Duo, soube imediatamente que o humano havia ido até a outra cidade sem avisá-lo. Alguns minutos depois Duo entrou, acompanhado por Quatre e Trowa, o humano de cabelos compridos caminhou até ele sorrindo. Duo abraçou Heero, beijando-o nos lábios, o vampiro segurou-o pela cintura puxando-o para perto de si, quando de repente Duo gemeu, fazendo Heero olhar para ele preocupado.

- Ai!

- O que foi? você está machucado?

- Não, é apenas uma coisinha que eu fiz, mas em alguns dias vai ficar bom.

- O que você fez?

- Depois eu mostro.

- Por que não agora?

Heero olhou para Duo desconfiado,o humano sorriu maliciosamente, aproximou-se do ouvido de Heero e falou calmamente.

- É que eu teria que tirar a roupa pra te mostrar Heero, e não creio que você vá me deixar fazer isso na frente de tudo mundo... Ou quer?

Duo afastou-se e olhou nos olhos do vampiro com um olhar travesso. Heero balançou a cabeça e beijou-o no pescoço, antes de falar.

- Não, você é meu. E apenas eu posso vê-lo sem roupa.

- Possessivo...

- Sou. Agora é melhor você e Quatre irem fazer seja lá o que for na cozinha. Eu mandarei Kimitsu até a outra cidade...

- Não!

Duo gritou e todos olharam em sua direção. Heero olhou para Duo que olhou para todos e depois para Heero.

- Ela está lá.

Heero ficou em silêncio por alguns instantes, ponderando sobre o que Duo havia acabado de dizer. Quando falou sua voz saiu fria e perigosa, mas Duo sabia que ele não tinha o que temer.

- Tem certeza?

- Tenho, ela está.

- Então por que ela não veio? O que ela espera? O que você acha Treize?

- Não sei Heero, talvez ela esteja aguardando os caçadores.

- Ou esperando por outra coisa.

Heero voltou-se para Auda, o que Relena poderia estar esperando? Ela estava planejando alguma coisa para estar simplesmente esperando. Pelo que conhecia de Relena, ela não era conhecida por sua paciência, nem por ficar esperando. Ela simplesmente ia atrás do que queria sem esperar ou pensar em suas ações. Então por que agora? O que havia mudado desde a época em que andava com ela na escuridão? O que era? Sabia que a resposta era clara, mas não conseguia chegar nela. Heero sentiu a mão de Duo em seu braço e olhou para o humano colocando sua mão sobre a dele e a apertando.

- Vá com Quatre para a cozinha e peça a Kimitsu que venha até aqui, pedirei que faça algo para mim.

- Não quer ajuda?

Heero balançou a cabeça e levou a mão de Duo aos lábios.

- Não mude o que vocês planejaram por causa disso.

- Está bem.

Duo e Quatre saíram da biblioteca no momento em que Ahmad e Abdul entravam. Abdul cumprimentou os humanos, mas Ahmad simplesmente os ignorou. Quatre teve que puxar Duo antes que ele dissesse alguma coisa a respeito das atitudes de Ahmad. O segundo líder do Maganac simplesmente tinha o prazer de tratá-los mal e ignorá-los completamente e, sua atitude havia piorado completamente desde que Auda resolvêra treina-los. Não conseguia entender o por quê da atitude do vampiro, ele era tão diferente dos outros dois lideres.

Abdul olhou para o irmão com um olhar de censura. Sabia que não podia mudar as atitudes de Ahmad e ficava tranqüilo pelo fato de Heero não parecer incomodar-se com a forma como Ahmad tratava Duo, mas sabia que essa atitude do shuhan dos Khushrenada se devia apenas ao humano. No íntimo Heero se controlava para não tomar uma atitude nada agradável à cerca de seu irmão.

Auda era exatamente o oposto de Ahmad, sempre tratava os dois humanos com educação e gentileza. Quando Auda lhe disse que se oferecera para ajudar no treinamento dos humanos, concordara imediatamente. Sabia que Auda havia se afeiçoado aos dois humanos, principalmente ao árabe. Era difícil de acreditar que o jovem loiro fosse da mesma etnia que eles, que pertencesse ao povo do deserto. Quando o loiro se aproximara demonstrando curiosidade sobre o clã Maganac Abdul ficara mais do que disposto em responder a suas perguntas; o humano era extremamente inteligente e mostrava-se muito interessado, ficara tentado a perguntar se o humano não gostaria de pertencer ao clã Maganac. Ele discutira a idéia com Ahmad e Auda, o primeiro não quis nem ao menos cogitar a possibilidade, o segundo disse que seria uma ótima aquisição ao clã e ele mesmo teria feito o convite, se não achasse que o loiro estava mais propenso a permanecer ao clã dos Khushrenada.

Heero voltou-se para Auda após a saída dos humanos, seu instinto lhe dizia que Auda tinha uma idéia do porquê de Relena ainda não os ter atacado.

- O que acha que ela poderia estar esperando Auda?

- Seria difícil afirmar, mas ela tem um Necro com ela, e os Necros são conhecidos por praticar magia e fazer adivinhações e eles não costumam errar em suas previsões.

- Uma previsão?

- Sim, do melhor dia para atacar.

Heero começou a caminhar, sentando-se na cadeira enquanto ponderava sobre a informação. Havia lógica nela, se o Necro pudesse realmente predizer o melhor dia para que fossem atacados, eles certamente estavam prestes a entrar em uma batalha que já estava fadada a derrota. Mas eles não seriam derrotados, não sem lutar. Heero levantou-se, a determinação brilhando em seus olhos.

- Que seja. Estaremos prontos para quando eles atacarem e no que depender de mim, não seremos derrotados pelos caçadores, Relena ou pelo Necro.

Treize sorriu, sabia que Heero não desistiria, conhecia-o tempo suficiente para sabê-lo. Não foi por acaso que o escolhera como seu sucessor, ele possuía a calma, a coragem, a inteligência e a determinação necessária para conduzir o clã. Levando-os a vitória. Abdul olhou Ahmad que deu de ombros, mas um sorriso permeava seus lábios. Heero havia conseguido o respeito de Ahmad, era impossível não ver o porquê de Treize tê-lo tornado o novo shuhan dos Khushrenada. Auda olhou para seus irmãos e sorriu, mesmo que o Necro tivesse previsto a derrota deles, eles não seriam derrotados, não enquanto acreditassem na vitória e estivessem determinados a conseguí-la.

22:00 hs

Duo e Quatre estavam terminando de colocar a mesa, enquanto conversavam com Cathrine e Sally, quando Trowa entrou na cozinha. O vampiro de olhos verdes olhou para a mesa posta sorrindo, eles haviam feito um ótimo trabalho, a comida parecia deliciosa aos olhos. Duo sorriu com as mãos na cintura.

- O que achou Trowa?

- Parece delicioso Duo. Vim porque Heero quer saber se pode deixar que Kimitsu volte

- Pode sim..., nós já terminamos né Quatre?

- Sim Duo. Espero que Kimitsu aprecie a comida.

- E não se esqueça do presente.

- Vocês compraram um presente?

- Duo comprou quando foi a Park Laker, mas eu ainda não sei o que é.

- E nem vai saber Quatre. Confie em mim o Kimitsu vai adorar.

- Eu espero.

Cathrine e Sally riram da expressão no rosto do humano, que dizia claramente não acreditar no gosto do amigo na escolha de presentes. Trowa avisou mentalmente a Heero que eles já haviam terminado na cozinha e que aguardavam Kimitsu.

"Heero, eles já terminaram".

"Está bem direi a Kimitsu que prepare alguma coisa para os humanos, assim eles jantarão juntos".

- Kimitsu você poderia ver alguma coisa para o Quatre e o Duo jantarem? acho que eles já devem estar com fome.

- Sim Sr. Yuy.

- Eu vou acompanhá-lo, desejo falar com eles antes, e parece-me que todos se encontram na cozinha.

- Perfeitamente senhor.

- Senhores se me derem licença. Treize poderia vir conosco, por favor?

- Claro Heero.

Treize despediu-se dos lideres do Maganac seguindo Heero e Kimitsu. Os lideres do Maganac fizeram uma mesura à saída dos dois vampiros, voltando sua atenção ao assunto que discutiam.

Trowa sentiu a presença dos vampiros e do humano que aguardavam aproximar-se da cozinha. Cathrine correu para apagar as luzes enquanto Duo acendia as velas do bolo que havia feito. Assim que a porta da cozinha abriu eles começaram a cantar, felicitando Kimitsu pelo aniversário. O empregado ficou surpreso ao receber a comemoração não sabendo como reagir. Duo e Quatre puxaram-no para a mesa, colocando-o sentado em frente ao bolo.

Heero olhou para Treize que balançou a cabeça sorrindo ao pensar que apenas eles pensariam em fazer uma festa em um momento tão critico, mas a comemoração também servia para amenizar a tensão que havia se instalado no castelo nos últimos dias. Com a chegada de vários vampiros ao castelo e perspectiva do confronto inevitável com os caçadores.

- Feliz aniversário Kimitsu.

- Obrigado Sr. Maxwell.

- Parabéns Kimitsu.

- Obrigado Sr. Winner.

- A gente queria agradecer por ter tornado nossa estada no castelo confortável e por tudo que tem feito por nós.

- É um prazer servi-los senhor.

Heero tocou o ombro do humano antes de falar.

- Você trabalha há muitos anos para mim Kimitsu e eu o tenho como um amigo. Sei que falo por Trowa e Cathrine que você é um dos humanos mais confiáveis que já trabalhou para nós. Não saberíamos o que fazer sem você.

- Obrigado Sr. Yuy.

- É verdade Kimitsu, você sabe o quanto é difícil para nossa espécie confiar inteiramente em um humano, mesmo naqueles que trabalham para o clã. No entanto você conquistou nossa confiança, dedicando anos de sua vida a nós. Eu ainda me lembro quando vim morar com Heero e Trowa, você fez de tudo para que eu me sentisse a vontade longe de Treize e eu nunca o agradeci por isso. Obrigada.

Cathrine deu um beijo no rosto do humano. Ele sorriu e tomou a mão dela beijando-a.

- É uma honra servi-la Sta.Bloom.

- Bem Kimitsu eu não o conheço há tanto tempo quanto Heero e os outros, mas pelo que ouvi deles e o pouco tempo que convivemos aqui neste castelo, você conseguiu meu respeito. Que você tenha ainda mais 50 anos pela frente.

- Obrigado Sr. Khushrenada.

Kimitsu ficou emocionado ao saber do carinho dos vampiros para quem trabalhava há anos. Tinha tanto tempo que havia abandonado a família para servi-los, e saber que eles o consideravam digno de sua confiança e amizade era algo que jamais poderia imaginar. Heero abraçou Duo pela cintura, ele e Quatre haviam proporcionado a todos a oportunidade de agradecer a Kimitsu a dedicação dele durante vinte anos.

Eles ficaram na cozinha durante algum tempo, sentando-se a mesa com os humanos enquanto eles jantavam e conversavam. Era visível no olhar do empregado a alegria pelo carinho demonstrado. A refeição e o presente foram apreciados por Kimitsu que elogiou a comida feita por Quatre e Duo.

Duo ficou tentado a fazer Heero provar um pouco do bolo que havia feito, mas se lembrou da conversa que tivera com ele há algumas semanas e desistiu. Algumas horas depois eles encontravam-se deitados no quarto, em poucos minutos o sol nasceria e um novo dia começaria.

05:40 hs de Terça-Feira

Quatre estava deitado entre seus braços, o rosto corado, a pele clara suada. Haviam acabado de fazer amor de forma lenta e apaixonante. Havia sido tão diferente das outras vezes, era como se fosse um adeus a forma como haviam se entregado um ao outro. Como se não fosse haver um amanhã para nenhum dos dois. Uma sensação estranha surgiu no inicio da semana e ela estava se tornando mais forte, ambos sabiam que algo aconteceria em pouco tempo.

Quatre estava quieto desfrutando da sensação de estar nos braços do vampiro. Sempre sentia-se seguro e tranqüilo quando Trowa o abraçava, mas não estava sentindo-se assim agora. Algo o perturbava e sabia que Trowa também sentia isso, alguma coisa aconteceria na noite seguinte, algo que talvez os ligasse ou os separasse para sempre, e ele desejava que fosse a primeira opção.

Trowa olhou para a janela aberta o sol estaria nascendo em alguns minutos, sentiu o humano mover-se em seus braços, levantando-se com o lençol enrolado na cintura. Quatre caminhou até a janela olhando para o céu que começava a clarear, ele sentia uma tristeza tão profunda que apenas percebeu que chorava quando uma lágrima rolou de seus olhos e caiu em sua mão.

Trowa sentia um desespero e tristeza profundas vinda do humano. Levantou-se e, ignorou a própria nudez abraçou seu anjo, viu o rosto manchado por pequenas lágrimas. O vampiro enxugou-as com os dedos sem que seus olhos se desviassem, ele o amava profundamente e faria qualquer coisa para que Quatre não sentisse essa tristeza. Mas ele não sabia que tristeza era essa. O que os aguardava que o fazia sofrer daquela forma?

- Por que esta chorando?

- Eu...eu não sei. Eu não sei o que estou sentindo Trowa. Dói tanto.

- Eu sei. Eu a sinto meu anjo, mas o que o entristece dessa forma?

- Eu sinto como se não fosse vê-lo mais. Eu...

- Shhhhh eu estou aqui com você, e não vou deixa-lo Quatre, nunca.

- Eu tenho que ver meu pai.

- Seu pai?

- Sim eu preciso pedir perdão a ele, não creio que poderei faze-lo amanhã.

- Não fale assim Quatre. Você fala como se não fosse....

Quatre calou os lábios de Trowa com um beijo suave, ele descansou a cabeça no ombro do vampiro enquanto observava o sol nascer no alto das montanhas. Ele procurou não pensar em nada, sabia que Trowa veria seus pensamentos e não queria preocupa-lo mais do que ele já estava preocupado. Sentia-se feliz por saber que Trowa não podia ver seus sonhos ou ele saberia o que o entristecia.

- É tolice minha. Esqueça o que eu disse. Não há nada com o que nos preocuparmos, é apenas a expectativa pela luta.

Trowa não disse nada apenas segurou a cabeça de Quatre contra o peito enquanto assistia ao espetáculo do amanhecer, fazia tanto tempo que não via o sol nascendo. Seus olhos reclamaram do brilho da manhã e sua pele começou a irritar-se com o calor. Quatre sentiu o desconforto de Trowa e puxou-o, retirando-o da janela e da presença do sol. Trowa parou para fechar a cortina, Quatre agradeceu mentalmente pelo fato de poder ver o sol nascer essa manhã.

14:00 hs Cidade de Epyon

Quatre encontrava-se em frente a sua casa, ele ligara antes falando com sua mãe e perguntando se poderia falar com ela e seu pai. Ela dissera que ele seria bem-vindo a sua casa. Quatre tentava criar coragem para entrar, ele olhou para Chold através do espelho do carro, o motorista notou a tensão no rosto do jovem e deu um sorriso, tentando encorajá-lo.

Quatre retribui o sorriso e balançou a cabeça, de nada adiantaria adiar o inevitável, ele viera falar com seus pais avisá-los sobre o perigo que a cidade corria. E faria tudo que se propôs a fazer.

Chold apertou o interfone identificando-se, logo os portões da residência dos Winners abriu-se e eles atravessam a propriedade até a entrada. Assim que o carro parou e Quatre desceu do veiculo a porta da frente abriu-se e sua mãe veio recepcioná-lo.

- Quatre meu filho. Como você está?

- Estou bem mãe. E a senhora?

- Com saudades. Eu falei... com seu pai como pediu.

Quatre notou a pausa e a tensão na voz de sua mãe sabia que seu pai ainda não o havia perdoado, mas ele não se deteria por isso.

- Ele não aceitou me receber não é?

Ângela balançou a cabeça tristemente. Ela tentara convencer Ahmond a receber Quatre e ouvir o que ele tinha a falar, ela acreditou que depois de tanto tempo sem ver o filho, seu marido o receberia. Mas se enganara ele nem ao menos a deixou terminar, bastou pronunciar o nome de Quatre para que ele se alterasse e disse que não tinha nenhum filho com esse nome.

- Está tudo bem mamãe, mas eu preciso falar com vocês assim mesmo.

- Mas ele não o receberá querido.

- Não me importa, eu não vim por mim mãe. E não vou deixar esta casa antes de falar com meu pai.

Ângela sorriu e abraçou-o levando-o para dentro eaté o escritório onde seu marido encontrava-se no momento. Bateu na porta e entrou, assim que recebeu permissão para fazê-lo. No momento em que Ahmond viu Quatre, seu tornou-se triste e saudoso, e Quatre pôde sentir que seu pai sentia sua falta, no entanto logo a saudade deu lugar a mágoa e ele levantou-se da cadeira, batendo a mão no tampo da mesa com força.

- O que faz aqui? Eu disse que não era bem-vindo...

- Eu sei o que disse, mas eu não sairei antes de terminar o que vim fazer.

16:00 hs castelo dos Khushrenada

Trowa não conseguiu dormir desde que Quatre saira para ir falar com os pais, ele oferecera-se para acompanhá-lo, mas Quatre disse que era melhor que ficasse. Sabia que Quatre tinha razão, se ele fosse o humano certamente ficaria com mais raiva e ele não desejava atrapalhar Quatre em seus planos.

Ele ainda se sentia intrigado, sentia que Quatre estava escondendo algo dele. O humano havia acordado assustado nas ultimas noites e recusava-se a falar no assunto cada vez que era questionado. A mente de Quatre andava repleta de perguntas e dúvidas, e Trowa não conseguia descobrir do que se tratavam, sempre que tentava sondar a mente do humano, suas intenções eram notadas por Quatre. E o humano procurava esconder seus pensamentos dele.

Trowa olhou para o relógio faltava pouco mais de duas horas para o por do sol, se Quatre não chegasse logo, ele iria atrás dele. Mas não foi necessário meia hora depois ouviu a voz de seu anjo em sua mente.

"Trowa você deveria estar dormindo"

"Não consegui dormir. E como foi?"

"Difícil...mas eu falei tudo que queria. Eles foram avisados a procurar abrigo no clube como Heero disse e a não irem para outra cidade"

"Você está bem?"

"Sim eu acho. Estarei aí em alguns minutos e o porei para descansar"

"Acha que consegue?"

Quatre riu e uma risada cristalina ecoou na mente de Trowa.

"Você vai descobrir em alguns minutos Sr. Barton"

"Está bem não demore muito ou irei atrás de voc".

"Eu sei".

Quatre cortou sua ligação mental com Trowa massageando as têmporas, uma dor de cabeça o estava incomodando. Sua fonte fora à conversa que tivera com seu pai. Ahmond ficara surpreso ao vê-lo enfrentá-lo e acabara por ouvir o que ele tinha a dizer, por alguns instantes eles haviam ficado em silêncio tentando digerir o Quatre lhes dissera em pouco mais de uma hora.

Felizmente ele pudera contar com a ajuda de Rashid, sabia que ele saberia como lidar com os vampiros caso fosse necessário. Quatre dissera que assim que ouvissem o gongo do templo soar eles deveriam dirigir-se para o clube.

Heero havia dito que seus pais teriam uma ajuda especial. Heero deixara de prontidão alguns vampiros para ajuda-los caso necessário, mas disse a Quatre que não dissesse nada a eles por enquanto. Quatre esperava que a ajuda não fosse necessária, mas ficara agradecido mesmo assim.

Trowa lhe explicara que sua família agora gozava da proteção do clã, mesmo que os considerassem como inimigos. Uma vez que Quatre agora era considerado um membro do clã a família dele partilhava dessa proteção mesmo que a desconhecessem ou não concordasse com ela. Ela apenas seria ignorada ou revogada se eles atentassem contra o clã.

Como prometido Quatre chegou em alguns minutos e realmente conseguiu fazer com que Trowa descansasse, uma vez que ele mesmo procurou descansar um pouco para ver se a dor de cabeça passava.

Quando acordou Quatre conversou com Duo a respeito da conversa que tivera com seus pais. Telefonaram para Wu-Fei e pediram que avisasse Milliardo. O chinês ficou de avisá-lo e disse que o gongo do templo já estava preparado para fazer soar o sinal assim que os caçadores fossem avistados. Concordaram em deixar que Milliardo falasse com o pessoal da cidade. Algumas horas depois Wu-Fei avisou-os de que Milliardo espalhou um boato que milícias estariam dirigindo-se a cidade e que todos deveriam dirigir-se ao clube assim que ouvissem o sinal. Não adiantava contar a verdade, muito não acreditariam e isso causaria ainda mais tumulto, apenas as pessoas mais antigas acreditariam, afinal não era a primeira vez que a cidade de Epyon ouvia falar de vampiros.

Duo riu da historia inventada por Milliardo, mas esperava que todos obedecessem. Sabia que dificilmente todos o fariam, mas se pelo menos mais da metade da cidade obedecesse eles já conseguiriam muito.

17:30 hs Quarta-Feira - cidade de Epyon:

Wu-Fei encontrava-se no templo com seu avô treinando, mas não conseguia concentrar-se no treinamento, pela primeira vez não conseguia entrar em estado de meditação. Alguma coisa incomodava-o, uma sensação estranha no ar, como se algo terrível estivesse para acontecer. Nataku percebeu que seu neto não estava conseguido treinar e não podia censurá-lo, algo estava impedindo que eles treinassem, uma grande maldade aproximava-se deles.

- Wu-Fei.

Wu-Fei abriu os olhos e olhou para seu avô por um momento. O ancião não disse uma única palavra, ela não era necessária bastava olhar para o céu. A noite estava caindo muito rápido, rápido demais, ele se levantou e correu até a parte mais alta do templo. De lá era possível avistar toda a cidade, desde a ponte que ligava as duas cidades ladeadas pelo rio, até a entrada e o final de Epyion. A terra dos Khushrenada, o castelo no alto da colina, a floresta a cercar toda a região e a estrada de ferro.

Ele olhou para o céu e o que viu o assustou uma lua nova brilhava sobre a cidade iluminando-a. Ele olhou novamente para a estrada de ferro, o trem se movia mais rápido que o habitual e pelo horário ele estava adiantado uma hora o que não era muito comum.

"A não ser...".

Wu-Fei sabia que poderia estar se precipitando, mas ele acreditava que estava agindo certo, sem esperar mais ele foi até o gongo que Heero havia providenciado que fosse colocado no alto do templo. Ele fez o gongo soar três vezes torcendo para que houvesse tempo para que todos buscassem abrigo. Ele desceu e pegou sua katana, antes de dirigir-se em direção a cidade, olhou para seu avô, eles haviam conversado e o ancião dissera que estaria seguro no templo. O velho curvou-se e sorriu vendo o neto seguir em direção a seu destino.

Castelo dos Khushrenada

Duo estava trocando de roupa, ele vinha se sentindo mal há algumas horas. Olhou para o céu, o tempo estava estranho, parecia que a cada minuto o céu ficava mais e mais escuro. Ele sentiu Heero aproximar-se, desde de manhã ele estava conseguindo sentir a presença dele, diferenciar as presenças humanas das dos vampiros, sabia que isso se devia as espadas, mas não sabia o por que de estar se manifestando novamente.

Da ultima vez que isso aconteceu Relena e a criatura haviam aparecido.

Quatre também sentia que algo aconteceria hoje, todos estavam de sobreaviso de alguma forma eles sabiam que hoje seria o dia da batalha. Heero aproximou-se de Duo abraçando-o pela cintura, sentia que o humano não estava sentindo-se bem. A verdade é que nenhum deles estava.

- Sente-se melhor?

- Um pouco, mas...

- Eu sei, a noite está chegando muito depressa.

- E não é somente isso Heero.

- Eu sei meu amor, eu sei.

Heero beijou a curva do pescoço de Duo. O humano estava lindo, todo vestido de preto, a calça de um tecido leve, uma blusa sem manga que moldava-se ao tronco perfeito, com um longo zíper na frente. Duo virou-se para Heero sorrindo e admirando-lhe a beleza máscula e selvagem. Ele vestia-se com uma calça preta e uma blusa igual a sua da cor vermelha. Duo havia lhe comprado de presente no dia em que fora a Park Laker. Abraçavam-se quando ouviram o gongo soar pelo vale. Duo olhou para Heero e vampiro sorriu o beijando-o nos lábios, tentando confortá-lo.

- Nós venceremos Duo.

- Eu espero que sim Heero.

A porta do quarto abriu, dando passagem a Trowa e Quatre.

- Eles chegaram shuhan.

- Vamos.

Heero acionou a entrada que levava as espadas, descendo pelo caminho com Duo atrás dele, abriram a redoma, ambas reluziram diante da presença de seus guardiões. Cada um tomou a espada que lhes fora reservada pelo destino, olharam-se e banharam cada uma com o próprio sangue, um brilho avermelhado cobriu-as. E seguiram em direção a batalha que os aguardava.

Quando conseguiram chegar a cidade elesta encontrava-se tomada pelos caçadores. Eles haviam chegado no trem que passava pela cidade, assim que desceram atacaram os habitantes que não haviam refugiado-se no clube. Heero dividiu os vampiros dos dois clãs de forma que pudessem ajudar os humanos que ainda encontravam-se na cidade. Heero procurou não demonstrar surpresa, ao notar a quantidade de caçadores que haviam, eles os excediam dez vezes em número.

- Christine.

A vampira correu em direção a Heero assim que o mesmo a chamou, ela já havia derrubado alguns caçadores que vieram na direção deles assim que os viram.

- Sim shuhan.

- Você, William e mais quatro ajudem os humanos que estão sendo atacados.

- Sim shuhan.

- Trowa pegue alguns dos nossos e mantenha os caçadores longe do clube. Quatre, Cathrine vocês vão com ele.

- Está bem Heero.

Heero acompanhou com o olhar a ida deles em direção ao clube, alguns caçadores haviam adiantado-se e bloqueavam o caminho para o clube ao notar que os humanos corriam para lá. Eles não eram muitos, mas para simples humanos eram suficientemente fortes e perigosos.

Heero olhou para céu intrigado, ao ver uma lua nova brilhante no manto escuro da noite, ela não deveria estar ali. Virou-se para Duo que lutava com dois caçadores junto a Wu-Fei, correu na direção deles, mas foi impedido por alguns caçadores, a batalha não havia começado nada bem.

Como eles haviam conseguido avançar tanto?, eles já estavam quase no meio da cidade. Uma boa parte da cidade já encontrava-se completamente destruída. Haviam subestimado Relena, e o preço disso era que estavam sendo derrotados pelos caçadores. Quase não haviam tido tempo de ajudar os humanos a refugiarem-se no clube, alguns não puderam ser salvos, haviam sido pegos pelos caçadores e os vampiros que acompanhavam Relena.

Ela apenas olhava com satisfação os vampiros sob o comando de Heero recuarem. Eles pereceriam essa noite; todos do clã do Khushrenada e quem se opusesse a ela sucumbiriam aos Peacecraft. Ela viu o humano de olhos ametistas ao lado de Heero, ele lutava com coragem e destreza, mas logo ele seria dela, logo ela faria com que a profecia se cumprisse. Era apenas uma questão de tempo, nada poderia dar errado, não com a previsão de Mirla. Ela olhou para o Necro que não tirava os olhos do humano, Relena não sabia o por quê do interesse do Necro no humano, pelo olhar da criatura sabia que ela tinha planos para ele. Planos que ela não contava e que não envolviam os Peacecraft.

Malckaczi havia dito para não confiar na previsão de Mirla.

FlashBack

Há três semanas atrás na cidade de Park Laker:

Malckaczi aproximou-se de Relena e beijou sua mão, ela a conhecia apenas pelo quê ouvira falar dela. Ela era muito bonita, mas seus olhos transmitiam falsidade e malicia. No entanto isso era extremamente atraente a seus olhos.. Relena sorriu para o líder dos caçadores, era deveras muito atraente, longos cabelos negros , os olhos extremamente azuis, a pele pálida. A maldade em seus olhos era cativante. O Duque Dermail havia lhe falado dele quando ofereceu os caçadores a ela, mas era a primeira vez que o via.

- Então você é Malckaczi , ouvi falar muito de você.

- Não tanto quanto eu... de você Relena.

- Eu pensei que vocês tivessem vindo atrás de Heero aquela noite, uma vez que apenas Vladz e Lacroan retornaram.

- Sim deveríamos ter vindo e acabado logo com isso, mas o clã solicitou nosso retorno.

- Entendo, não achei que o Duque Dermail fosse manda-los realmente a Epyon apenas por que eu pedi. Sei que ele tem seus próprios planos.

Malckaczi olhou para Relena, ela era exatamente o que Lacroan lhe disse. Obcecada pelo novo shuhan dos Khushrenada, Heero Yuy e cega em relação a tudo que tinha relação a ele, mas inteligente o suficiente para saber que não podia confiar em ninguém, no entanto ela mantinha um Necro com ela.

- Posso perguntar-lhe algo?

- Claro, mas isso não quer dizer que eu vá responder.

- Vampiros e Necros são inimigos naturais, tanto quanto humanos e vampiros. E ainda assim você mantém um junto a você.

- Sim, Mirla tem servido-me muito bem esses anos a todos.

- Onde a encontrou?

- Quando estava na Grécia. Fiquei surpresa ao encontra-la, a ultima de seu clã, ela sabia que eu procurava Heero e disse que me ajudaria.

- Ela não disse o por quê de querer ajuda-la?

- Não ela mantém para si seus próprios planos. Mas sei que tem relação com o humano da profecia.

- Então você sabe que tudo que ela fizer será apenas para seus próprios propósitos, e se ela tiver que ajuda-la para alcançar o dela, ela o fará.

Fim-FlashBack

Sim ela sabia que não tinha a lealdade do Necro que assim que ela conseguisse o que queria voltaria-se contra ela, mas ela a mantinha a seu lado, por um único motivo. A prazer de não saber o que o Necro poderia fazer a ela e por que acreditava que manter seus inimigos por perto, era o meio mais fácil de saber o que estes planejavam.

- Venha Mirla vamos ver a luta de outro lugar. Você poderá continuar a admirá-lo mais tarde, apenas continue a entrar na mente dele de forma que Heero não o encontre. Malckaczi fará o resto.

O Necro seguiu Relena depois de lançar um ultimo olhar ao humano de cabelos compridos. Ela sorriu ao pensar que faltava pouco tempo, para que conseguisse realizar seus planos e obter sua vingança.

Heero olhou para o lado procurando Duo, os caçadores haviam conseguido separa-los. Estava claro que essa era a intenção desde o inicio. Sem que notassem os caçadores os haviam empurrado em direção a um antigo deposito no meio da cidade. Ele viu Relena afastar-se e moveu-se para ir atrás dela, mas três caçadores colocaram-se em seu caminho e ele a perdeu de vista. Ele matou os caçadores transformando-os em pó em poucos segundos e tentou localizar Duo no meio da batalha, no entanto ele não conseguia sentir-lhe a presença nitidamente.

Sabia que ele ainda estava dentro da construção, mas não sabia exatamente onde. Seu olhar encontrou-se com o do líder dos caçadores o vampiro chamado Malckaczi, ele era realmente forte já tinha conseguido matar vários de seus homens. O caçador sorriu e simplesmente desapareceu de sua vista, ele ouviu uma voz em sua mente, ela soou sarcástica e maldosa.

"Procurando o humano Heero? Eu o estou vendo ele luta muito bem para um humano. Mas será que ele é capaz de me vencer ou ele sentira o fio de minha espada?"

"Se tocar nele eu o mato."

'Terá de encontra-lo primeiro não acha?. E não me parece que você consiga encontra-lo".

O caçador começou a rir e isso irritou ainda mais Heero. Saber que o líder dos caçadores estava atrás de Duo servia apenas para faze-lo arrepender-se por não ter matado Relena na noite em que ela seqüestrou Duo.

Heero começou a avançar matando os caçadores que se interpunham em seu caminho. Procurou concentrar-se na presença de Duo e conseguiu encontra-lo do outro lado da construção. Começou a avançar para lá e mais caçadores colocaram-se em seu caminho, tentando impedi-lo de chegar até o humano. Heero procurou por Trowa e Treize, mas não os viu. Seu olhar encontrou Quatre que lutava com um caçador de cabelos pretos e olhos acinzentados, o humano estava concentrado na luta e parecia bastante cansado, não podia culpa-lo, estavam lutando há quase três horas até mesmo ele começava a sentir-se cansado.

Quatre sentia-se esgotado, nem sabia como ainda não tinha deixado as Heath Scythe caírem de suas mãos, todo seu corpo inteiro doía. Seu braço tinha um ferimento que estava sangrando, mas tinha que se concentrar para não acabar ganhando outro do caçador à sua frente. O vampiro era um lutador habilidoso, mas a todo o momento ele tentava entrar em sua mente para dizer-lhe que iria morrer e isso o estava exaurindo mais do que a luta em si.

Eles moviam-se em círculos cautelosamente atacando com as armas a procura de uma brecha. Vladz ficou surpreso por encontrar-se frente a frente com um humano de aparência tão frágil, mas o caçador o tratou com respeito, não por sua espécie, mas pela bravura que via nos olhos do humano. Esquivando-se da lâmina da Heath Scythe, Vladz empurrou para o lado o golpe e enfiou a espada profundamente na barriga do humano, girando a lâmina cruelmente. Quatre gritou e caiu.

- Aaaaaaaahhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

- Agora humano – zombou o caçador levantando a espada. Vou mostrar-lhe como nos livramos dos de sua espécie.

Vladz apontou a espada para os olhos do humano que viu a lâmina baixar lentamente. Quatre não podia fazer nada a não ser olhar para o caçador que sorria e esperar a morte. Vladz olhou para o humano de olhos fechados, e recolheu a espada. Ergueu o corpo ferido de Quatre pelo colarinho da camisa. Quatre olhou nos olhos do caçador, este tinha a íris vermelha e as presas surgiam lentamente em sua boca, ele sabia o que o caçador pretendia. Lia isso em seus olhos, e já havia visto aquilo acontecer em seus sonhos. O caçador sentiu o corpo do humano tremer ligeiramente e sorriu.

- Seria um desperdício dispensar tamanho banquete.

Sem mais uma palavra o caçador mordeu o pescoço de Quatre retirando seu sangue. Quatre sentia a dor da mordida, as presas rasgando sua pele clara, seu sangue esvaindo-se do corpo e a única coisa que passava em sua mente era o rosto de Trowa.

Todos estavam em uma luta acirrada. Heero finalmente havia localizado Duo que agora lutava com dois caçadores ao lado de Auda. Um filete de sangue escorria da testa do humano para o belo rosto. Nada muito grave. Quatre já não tivera a mesma sorte. O caçador que havia visto o humano lutar a poucos instantes conseguira feri-lo gravemente com a espada, mas isso não havia sido o suficiente para o caçador, ele erguera o corpo ferido do árabe e o mordera, deliciando-se com o sangue humano.

Heero tentava chegar até Quatre, mas os caçadores não permitiam, parecia que a cada dois caçadores mortos oito ocupavam seu lugar. Eles estavam dispostos a separa-los um dos outros de forma que não pudessem se ajudar. Heero podia sentir a vida se esvaindo do jovem loiro sabia que em minutos Quatre estaria morto.

- Aaaaaaargggghhhhh!

Trowa ouviu o grito e sentiu a dor de seu amante, seus olhos vagaram pelo local a procura dele. Distraindo-se recebeu um corte no ombro do caçador com quem lutava. Empunhou sua espada girando-a e decepando a cabeça do caçador que o ferira, ouvia seu anjo repetir seu nome mentalmente.

"Trowa..."

"Quatre onde você está? Fale comigo meu anjo"

"Trowa...eu...eu...sinto muito..."

"Não Quatre, por favor, fale comigo. Quatre!"

A ligação entre eles estava diminuindo, ele já não podia senti-lo, seu anjo estava morrendo.

Duo estava tentando acabar com os caçadores que pareciam querer leva-lo para fora da construção ele tentava encontrar Heero, mas não conseguia senti-lo. Sentia apenas a presença da criatura de cabelos brancos e olhos dourados, sabia que o fato de não conseguir sentir Heero era por causa dela. Ele não conseguia entender o por quê dessa criatura ter tanta influência sobre ele. Ele não estava conseguindo concentrar-se na luta e acabara recebendo um ferimento na testa que agora estava sangrando, felizmente Auda aparecera e o ajudara antes que o caçador o ferisse mais gravemente.

Ele olhou procurando Wu-Fei e Quatre, mas não conseguiu encontrá-los, os caçadores haviam conseguido separá-los, virou-se aplicando um golpe com Yami e cortando o braço do caçador que havia acabado de dar-lhe um soco no rosto. Assim que terminou de cortar a cabeça do caçador seus olhos encontraram uma imagem que o fez gelar por dentro e enche-lo de raiva. Um caçador tinha suas presas fincadas no pescoço de Quatre e o sangue de seu amigo escorria pela pele alva do pescoço, manchando-o de vermelho. Um grito escapou de sua garganta e ele empurrou outro caçador, que tentava segurá-lo, correndo em direção a Quatre antes que fosse impossível salvá-lo.

- Quatre!

Trowa olhou procurando o humano de cabelos loiros e tentando se acalmar-se, quando ouviu o grito de Duo. Seus olhos olharam para o humano e viu para onde o mesmo corria. O choque o tomou ao ver o corpo inerte de seu anjo nas mãos de um caçador que bebia seu sangue, deliciado com o sabor quente e inebriante dele. Os olhos de Trowa tornaram-se vermelhos e suas presas cresceram, em uma velocidade sobre-humana alcançou seu anjo antes de Duo que havia se adiantado na mesma direção.

O caçador sentiu a presença do outro vampiro e largou o corpo do humano segundos antes de uma espada quase lhe acertar o pescoço. Ele sorriu e passou a língua pelos lábios sujos com o sangue do humano, enquanto dizia sarcasticamente ao vampiro do clã dos Khushrenada.

- Delicioso o pequeno.

Trowa olhou-o com raiva enquanto o caçador ia em outra direção. Trowa sentia o corpo quase frio de seu amado em seus braços. Quatre estava morrendo, ele não poderia permitir isso, já não saberia viver sem a presença alegre e doce do jovem árabe. O humano havia se tornado sua vida. Havia apenas uma chance para salvá-lo, apenas uma escolha. Uma escolha egoísta. Lágrimas de sangue caíram de seu rosto pálido, lágrimas de dor, pois estaria negando a Quatre sua morte. Negando à alma do árabe um lugar no paraíso.

Auda viu o jovem árabe nos braços de Trowa, assim como um caçador que aproximava-se dele por trás. O vampiro parecia estar alheio ao perigo e não podia censurá-lo por isso, podia sentir sua dor. Sabia o quanto eles se amavam, havia visto isso nos poucos momentos em que os vira juntos, e nos momento em que conversara com o jovem humano. Auda acabou com os dois caçadores com quem lutava e moveu-se em direção a Trowa e o humano.

Trowa olhava para o corpo inerte de Quatre em seus braços. Este abriu os olhos e encontrou a íris vermelha no lugar das esmeraldas. Um frio aterrador parecia querer abraçá-lo. Ergueu sua mão e passou-a no rosto pálido, enxugando as lágrimas vermelhas dos olhos do vampiro. Tentou pronunciar o nome de seu amado, mas não encontrava forças para fazê-lo. Sabia que estava morrendo, podia sentir a morte aproximando-se. Fria e silenciosa, mas não desejava morrer; não agora que havia encontrado Trowa; não agora que havia encontrado seu amor.

Haviam ficado tão pouco tempo juntos. Seis meses. Era o tempo em que conheciam. A noite em que o vampiro havia salvo sua vida. A noite em que apaixonara-se por um ser das trevas, um ser de olhos cor de esmeraldas. Não, ele não queria morrer, ele queria viver. Viver ao lado de Trowa, mas eles não estavam mais ligados e ele já não tinha forças para dizer ao vampiro que ele tinha sua permissão, que ele deveria fazer. Que ele deveria fazer a escolha por ele.

Auda matou o caçador atrás de Trowa segundos antes deste tentar cortar a cabeça do vampiro de cabelos castanhos. Ajoelhou-se a seu lado, tocando-lhe o ombro e falando com o vampiro.

- Se você não quiser perdê-lo para sempre faça.

- Eu não posso condenar a alma dele dessa forma.

- Poderá viver a eternidade de seus dias apenas com a lembrança dele?

Trowa fechou os olhos e balançou a cabeça. Não, ele não poderia. Ele abriu os olhos novamente e fez o que deveria fazer. Suas presas perfuraram o pescoço de Quatre sugando o restante de sua vida e de seu sangue, enquanto lágrimas de sangue caiam de seus olhos. Sentiu Quatre ofegar de dor, e manteve o corpo do humano junto a si, até que tomasse todo seu sangue. Auda manteve-os seguros enquanto Trowa sugava a vida de seu amante.

Quatre sentia o restante de sua vida deixando seu corpo através dos lábios de Trowa. O frio aumentou e o medo instalou-se em seu coração, que a cada segundo diminuía o ritmo. Ele tentou pronunciar o nome de seu amado, mas nada saiu de seus lábios; duas pequenas lágrimas cristalinas deixaram seus olhos. Sentiu algo denso sendo despejado em seus lábios e ouviu através da nevoa que se tornara sua consciência a voz de Trowa.

- Beba meu anjo.

Quatre bebeu devagar o que lhe era oferecido; logo uma necessidade instalou-se em sua mente e ele sugou com mais vontade o liquido colocado em seus lábios. Logo a dor se fez presente em seu corpo. Como se milhares de agulhas transpassassem seu corpo e suas entranhas fossem puxadas de um lado a outro do corpo. Ele segurou com força os braços que o segurava, enquanto palavras de conforto eram ditas em seu ouvido.

- Está tudo bem. Logo estará terminado meu anjo.

Trowa ergueu seus olhos e seu olhar encontrou com o do caçador que ferira seu anjo. Uma raiva insana apossou-se dele. Depositando com cuidado o corpo de seu amado no chão, Trowa pegou sua espada e falou com Auda antes de partir para cima do caçador que sorria.

- Cuide dele por mim Auda.

O líder do Maganac sacudiu a cabeça e agachou-se, segurando o corpo do jovem nos braços. Auda chamou William e Christine mentalmente para o ajudá-lo, até que o jovem recobrasse a consciência. Olhou para o rosto do rapaz que agora possuía a mórbida palidez de sua espécie.

Heero viu Trowa partir para cima do caçador que ferira Quatre. Enquanto o árabe ficava com Auda, William e Christine. Olhou para Duo que havia feito menção de ir até o jovem árabe quando o viu sendo mordido pelo caçador, mas o humano olhou em outra direção e mudou sua direção inicial ao ver que Trowa chegara antes dele a Quatre.

Duo viu o caçador morder Quatre. Sua raiva cresceu e este correu em sua direção antes que pudesse ser tarde demais, mas sua atenção foi desviada para outro canto onde Wu-Fei, Sally e Marco encontravam-se encurralados. E estavam perdendo. Os caçadores eram muitos e eles poucos. Viu Trowa correr na direção de Quatre e alcançando-o, então decidiu ajudar os outros. Duo pegou uma clava e partiu para onde Wu-Fei e os outros haviam sido encurralados. Três contra quinze não parecia ser uma luta muito justa.

De longe Heero derrubou outros dois caçadores. Viu Duo pegar uma clava e partir para ajudar Sally. Heero agora tinha a completa noção do porquê Duo autodenominar-se Deus da Morte. O vampiro jamais vira qualquer humano lutar com tamanha força, em pé de igualdade e com tamanha voracidade. Se ele não o conhecesse poderia jurar que Duo era um vampiro. Viu o humano girar a clava no ar e acertar a cabeça de um caçador enquanto com a outra mão descia Yami no outro que estava a seu lado, partindo-o caçador ao meio. Por um instante o humano olhou em sua direção, como que soubesse que ele o observava e por um momento o vampiro acreditou que os olhos de Duo estavam quase tão vermelhos quanto os seus.

Duo sentiu um arrepio de reconhecimento e olhou para Heero que observava-o, deu um sorriso ao saber que o vampiro estava bem, então voltou sua atenção ao grupo de caçadores que atacava. Tinha conseguido abrir a brecha necessária para que Wu-Fei atacasse o caçador a sua frente aplicando um golpe com as pernas e derrubado-lhe a espada, e cortando-lhe a cabeça. Sally e Marco atacaram os outros três caçadores à esquerda deles conseguindo assim saírem do cerco em que se encontravam.

Em pouco mais de dez minutos conseguiram acabar com os quinze caçadores e logo, mais deles correram em sua direção. Duo olhou para Wu-Fei segundos antes de bloquear um golpe de espada que quase lhe atingiu o abdômen, deu um meio sorriso ao chinês que tinha um corte no braço direito e um ferimento na perna esquerda. Depois voltou sua atenção a outro lugar. Wu-Fei seguiu a direção que Duo olhava e viu Quatre nos braços de Auda, voltou seu olhar para Duo e viu a tristeza em seus olhos enquanto este balançava a cabeça. A tristeza passou pelos olhos negros do chinês ao saber o que estava acontecendo ao amigo naquele instante, ele estava para se tornar um vampiro como os outros.

Duo olhou novamente na direção de Auda que estava ajoelhado junto a Quatre enquanto William e Christine defendiam-os dos caçadores que aproximavam-se deles. Olhou na direção oposta e avistou Heero que lutava agora com oito caçadores, junto com Treize e Ahmad. Em outra direção Abdul e outros dois vampiros do clã Maganac batalhavam com os caçadores, que ainda os excediam em número.

Duo voltou sua atenção para seus adversários antes que acabasse perdendo a cabeça. Wu-Fei já o havia defendido de dois caçadores que investiram contra o americano.

Wu-Fei olhou para Sally que lutava com duas espadas contra dois caçadores, ele ficara fascinado com a mulher quando a vira, mas ao saber que Sally era um vampiro ficara um tanto desconcertado por sentir-se atraído por ela e mais ainda saber que ela sentia-se da mesma forma em relação a ele.

Decidiu ajudá-la antes que se ferisse. Sally estava encontrando dificuldades em derrotar os caçadores que tentavam matá-la, ela precisava de um tempo para fechar as feridas que tinha no corpo, mas não conseguia, sendo atacada a todo instante. Um terceiro caçador apareceu e ele quase a feriu seriamente se uma espada não tivesse se colocado em seu caminho. Pôde ouvir a voz do humano de cabelos negros e não pode impedir-se de dar um sorriso.

- Preste atenção mulher, antes que acabe morta.

- Caso tenha se esquecido Wu-Fei eu já estou morta. Ainda assim obrigada pela preocupação.

- Mulher...

Sally deu um ligeiro beijo na face de Wu-Fei antes de voltar sua atenção ao caçador que ela havia derrubado com um chute e um soco, quando o chinês a ajudou. Wu-Fei sentiu um ligeiro arrepio ao ver o sorriso nos lábios de Sally e as palavras desta. Sabia que sua face deveria estar ligeiramente corada depois do beijo em seu rosto. O que ela tinha na cabeça para beija-lo no rosto no meio de uma batalha? Ele notou que ela sangrava e sabia que isso não era muito bom. Meteu-se na luta dela com o caçador, falando por sobre o ombro.

- Eu cuido dele enquanto você fecha seus ferimentos.

Sally olhou para Wu-Fei por uns instantes antes de concentrar-se. Não sabia o porquê, mas gostara da forma como o humano dirigira-se a ela chamando-a de mulher. Não era uma forma carinhosa, mas ainda assim sentira-se bem com isso. E vê-lo perder a paciência havia tornado isso um prazer indescritível.

Duo guardou Yami em sua bainha e no momento lutava aplicando golpes com as mãos e os pés da forma como Auda havia lhe ensinado. Duo chutou o rosto do caçador com sua perna esquerda e depois aplicou um golpe de cima para baixo no queixo dele com a palma da mão aberta. Ele ouviu o caçador urrar de dor e levantar-se rapidamente para ergue-lo no ar e joga-lo contra a parede.

Duo não conseguiu evitar que o caçador o jogasse contra a parede. Suas costas bateram com força e ele gemeu de dor, antes de ser novamente erguido e receber um golpe no estomago.

- Eu vou mata-lo humano.

- Você...terá de pegar...um número e aguardar sua vez.

Duo respirava com dificuldade, mas conseguiu aparar o golpe com as mãos. Usou a parede como um apoio e saltou, desferindo um golpe no rosto do caçador, e antes que o mesmo levantasse ergueu-o e bateu a cabeça dele na parede antes de usar a adaga que o caçador trazia nele mesmo, cortando-lhe a cabeça. O corpo do caçador transformou-se em pó no mesmo instante. Procurou pelo caçador que havia machucado Quatre.

Trowa ainda lutava com o caçador que ferira Quatre. Assim que Duo o localizou correu para ajuda-lo, pois era também seu desejo acabar com o responsável por ferir seu melhor amigo. Ele viu que dois caçadores aproximavam-se sorrateiramente de Trowa.

Trowa lutava com Vladz que defendia-se de seus ataques, a raiva o cegava e ele não conseguia encontrar uma brecha na defesa do caçador que apenas ria. Ele estava tão distraído com o caçador que não percebeu que outros dois aproximavam-se de suas costas.

Os caçadores olharam um para o outro e aproximaram-se do vampiro. Um deles ergueu uma adaga para atingir o coração dele pelas costas, mas foi impedido por uma espada, que lhe decepou-lhe o antebraço.

Duo chegou a Trowa no momento em que o caçador iria atingi-lo com uma adaga. Girou Yami e cortou o antebraço do caçador fazendo-o largar a adaga e urrar de dor pelo golpe.

- Aaaaaaarrrgghh.

Duo chutou-o no estomago e empurrou-o conseguindo uma abertura para atacar o outro caçador que desviara-se de seu golpe. O caçador que teve o antebraço cortado olhou-o com ódio, mas Duo cortou-lhe a cabeça antes que este pudesse dizer qualquer coisa. O segundo caçador olhou-o com a mesma raiva no olhar e suas palavras estavam carregadas de ódio.

- Eu vou mata-lo humano. Vou corta-lo pedaço por pedaço enquanto ainda respira, me deliciando em ouvi-lo berrar enquanto o faço.

Duo olhou cinicamente e riu irritando ainda mais o caçador.

- Isso seria impossível, uma vez que eu Sou a Morte. E ela é vida para mim.

Com isso Duo segurou a espada com as duas mãos e partiu para cima do caçador que recuou um passo, incerto diante da determinação e fúria que via nos olhos claros e belos do humano. Duo aproveitou-se da reação do caçador para impulsionar seu corpo dando um salto e parando atrás deste. O caçador virou-se para acertar o humano, mas sua espada resvalou apenas no braço do humano abrindo um corte que logo começou a sangrar. Duo ignorou a dor e o sangue escorrendo do ferimento e elevou a perna chutando o rosto do caçador e depois girando o corpo acertando-o com dois golpes rápidos e consecutivos. O caçador ainda tentou pronunciar algo, mas as palavras morreram em sua garganta, logo ele caia dividido em duas partes, na cabeça e no tronco segundos antes de se tornar pó.

Duo instantaneamente foi agarrado por trás por outro caçador que mordeu-o no pescoço. Gritou com a dor da mordida.

- Aaaaaaahhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Duo levantou a espada e enterrou-a no lado direito do caçador, girando o pulso e torcendo Yami dentro do caçador que o soltou segurando o próprio ferimento.

Heero viu o momento em que o caçador mordeu seu amado e sentiu seu peito comprimir-se, sentiu sua dor e, distraído foi atingido no ombro. Segurou a garganta do agressor, quebrando-lhe o pescoço com as mãos. Segurou o caçador pelo cabelo e cortou sua cabeça, que tornou-se pó em suas mãos. Voltou seus olhos para Duo, que agora colocava a mão no pescoço.

Duo retirou a mão do pescoço e olhou para o vermelho em suas mãos. A raiva cresceu em seu íntimo e sua espada começou a brilhar, olhou para o caçador com raiva e sua voz soou fria quando gritou.

- Você me mordeu!

O caçador já havia fechado o ferimento e partiu pra cima do humano novamente. Duo pegou uma corrente que encontrava-se no chão, esta possuía uma bola de metal na extremidade. Enrolou a ponta dela no braço e girou a corrente jogando-a na direção do caçador que desviou-se do golpe. Repetiu o movimento e acertou lateralmente a bola de ferro na cabeça do caçador que gemeu de dor e cambaleou por um momento. Então puxou a bola e jogou-a novamente, mas o caçador prendeu-a no braço e puxou a corrente trazendo o corpo de Duo contra ele. Quando viu que o caçador o puxava, Duo posicionou Yami de forma que esta atravessasse o corpo do caçador antes que seu corpo se chocasse com ele. O humano olhou-o nos olhos enquanto dizia.

- Ninguém além do shuhan dos Khushrenada tem permissão para me tocar, morder ou beber meu sangue.

Os olhos de Duo brilharam perigosamente enquanto girava a espada com a mão direita. O caçador ainda tentou acertar o humano com a adaga que tinha escondida, mas Duo conseguiu segurar sua mão, no entanto não conseguiu impedir que esta aranhasse seu rosto. Duo soltou Yami no corpo do caçador e levou sua mão as costas pegando a adaga de prata que Auda havia lhe presenteado ecortou a cabeça do caçador. O corpo imediatamente desfez-se e Duo segurou a espada segundos antes desta cair.

Sentia-se cansado, estava perdendo muito sangue devido aos ferimentos, mas não pararia de lutar, precisavam fazer os caçadores recuarem.

Ele olhou para Heero que lutava com dois vampiros e parecia ter dificuldades em vencê-los. Olhou para Trowa que lutava com Vladz, o vampiro virou-se para ele.

- Vá ajudar Heero.

Duo balançou a cabeça em acordo. Deixaria que Trowa se vingasse por Quatre. O humano soltou a corrente que ainda encontrava-se presa em seu braço e foi até Heero.

Heero não conseguia encontrar uma brecha para atacar os vampiros que eram lacaios de Relena. Eles eram idênticos na aparência e na forma de lutarem, seus gestos e golpes possuíam a mesma precisão e simetria, sendo quase que impossível aparar os golpes. O vampiro queria ajudar Duo, mas não conseguia livrar-se dos dois vampiros ruivos. Heero nem ao menos sabia como Duo estava. Por algum motivo não conseguia sentir a presença dele e isso estava angustiando-o, não sabia se era devido ao cansaço, ou se por alguma coisa que os impedia de se comunicarem. Mas estava quase certo de que era a ultima opção. Foi com alivio que ouviu a voz suave dele ao seu lado.

- Precisa de ajuda Hee-Chan?

- Duo!

- Você não achou que aquele insolente que teve a ousadia de me morder iria conseguir derrotar o Shinigami não é?

- Isso jamais passou pela minha cabeça.

- Mentiroso.

- Hn.

Duo ficou ao lado de Heero para lutarem juntos. Os vampiros de cabelos ruivos olharam um para o outro, Duo aproveitou e investiu contra o que estava a sua direita, o vampiro mal teve tempo de apartar o golpe do humano, mas conseguiu esquivar-se. O vampiro da esquerda foi atacado por Heero.

Trowa não teve tempo de agradecer a Duo pela ajuda. Dissera apenas que ajudasse Heero. Ele simplesmente continua atacando o caçador tentando em vão derruba-lo. Vladz se divertia com o vampiro, ele sentia as emoções sem controle do outro, ao que parecia o humano era muito importante para o vampiro do clã dos Khushrenada, maldosamente resolveu divertir-se com isso. Chutou o vampiro no estomago e atingiu-o no rosto, com um soco que o jogou a alguns metros. O sangue escorreu dos lábios do vampiro que tinha os olhos avermelhados, a raiva não permitia que Trowa pensasse claramente e reagisse aos golpes.

- Eu não sabia que o humano era seu brinquedinho. Se soubesse eu teria cuidado dele com mais carinho.

Trowa levantou-se e partiu para cima de Vladz após ouvi-lo falar de Quatre daquela forma, mas o caçador desviou-se facilmente e conseguiu segurar o vampiro por trás e restringir-lhe os movimentos. O moreno tentou soltar-se, mas não conseguiu. O caçador riu e aproximou seus lábios do ouvido do moreno, lambendo seu pescoço, antes de sussurrar-lhe ao ouvido.

- Ele era tão apetitoso quanto parecia? Ou eu deveria dizer isso de você?.

O caçador torceu o braço de Trowa para trás deslocando-o e fazendo largar a espada. Trowa tentou não gemer devido à dor. O caçador riu deliciado, ao sentir o corpo do vampiro junto a si, ele era atraente, a seriedade quebrada pela raiva em seu rosto. Trowa ficou tenso ao sentir o caçador descer os lábios por seu pescoço, elevou uma das pernas e chutou o rosto do caçador obrigando-o a soltá-lo. O caçador riu e passou a língua pelos lábios, pegando a espada de Trowa. Aproximou-se lentamente do moreno que recolocava o braço no lugar.

- Sabe que você é muito bonito?, acho que vou brincar um pouquinho com você antes de matá-lo. Uma pena que seu amiguinho humano esteja morto..., poderíamos brincar juntos.

Trowa olhou-o com raiva. E partiu para cima, mas não tinha como defender-se, o caçador era forte e ele estava desarmado. E o fato de não conseguir controlar suas emoções serviam apenas para tornar seu adversário ainda mais poderoso. Trowa estava com tanta raiva que não percebeu uma presença ligeiramente familiar e, no entanto diferente aproximar-se. O caçador estava a ponto de atingir Trowa com sua espada quando a lâmina reluzente de uma Heath Scythe aparou o golpe e uma voz fria foi ouvida.

- Não ouse tocar nele.

Trowa levantou os olhos e encontrou um olhar frio e vermelho como o sangue. Quatre tinha recobrado a consciência a poucos instantes e ao abrir seus olhos a primeira visão que teve foi de Auda. O líder do Maganac ficou aliviado ao ver o jovem árabe recobrar a consciência, o azul de seus olhos estava ainda mais claro, como se isso pudesse ser possível. Quatre sentia-se estranho. Todos os seus sentidos pareciam alertas.

Por um momento sentiu-se tonto pela gama de emoções e o cheiro que impregnava o ar. Um cheiro que ele não sabia o que era, mas que despertava nele uma vontade insana de alimentar-se dele. Mas o que mais o afetou foi uma raiva descomunal, uma raiva que sabia existir dentro de si, alguém se sentia como ele e de alguma forma ele conhecia o outro ser que sentia a mesma coisa. Sua mente tentou se lembrar do que o fazia se sentir vivo, completo, mas a pergunta correta não era o que, mas quem. Fechou os olhos tentando lembrar-se e uma cor veio a sua mente.

"O verde das esmeraldas. Manchas pelo vermelho do sangue...o cheiro... sangue... é esse o cheiro que tolda meus sentidos. Sangue quente...sangue humano. Humano? Eu...sou humano...não...eu não sou..não mais.. Sangue... não...não pense no cheiro...não pense nele. Pense em outra coisa...verde...o que ele me lembra? Esmeraldas...não pense no cheiro...raiva...raiva insana e descontrolável...Quem? Quem... se sente assim? O verde...o verde de seus olhos...olhos de quem? Os olhos dele... dele..é ele...o que sinto é um reflexo do que ele sente...Trowa".

Quatre abriu os olhos e estes tornaram-se vermelhos. As emoções do vampiro eram fortes e esmagadoras. Quatre levantou-se, e seu olhar vagou pelo lugar procurando o causador das emoções que sentia, encontrou-o caído, e à mercê do caçador que o atacara anteriormente. Auda apenas olhava para o jovem vampiro, ele podia sentir suas emoções, ele ainda não sabia como escondê-las, elas eram claras em sua mente. Raiva. Era apenas isso que existia, uma raiva gigantesca e que era alimentada por alguém.

A raiva de Quatre cresceu ainda mais ao vê-lo caído no chão, sem pensar pegou as Heath Scythe que Trowa havia lhe dado na noite em que se entregara a ele, na noite em que ele ainda era humano. Auda ergueu-se assim que viu a íris do jovem tornar-se avermelhada e a raiva transparecer no rosto angelical. Ele viu quando o árabe partiu em direção ao vampiro de olhos verdes.

- Quatre!

Um sorriso se formou no rosto de Quatre ao ouvir seu nome ser pronunciado. Com uma habilidade que Trowa não imaginou possível, Quatre moveu as duas lâminas da Heath Scythe e arrancou o braço de Vladz sem que o mesmo notasse ou sentisse dor. O árabe deu um pequeno sorriso que não foi compreendido pelo caçador, até ouvir a voz do novo vampiro.

- Acho que você perdeu uma coisa.

O caçador olhou na direção que o vampiro loiro indicava com os olhos e viu seu braço cortado no chão, segundos depois ouviu a voz fria do árabe e o som de lâminas cortando o ar rapidamente.

- Não se preocupe não sentirá falta dele por muito tempo.

A cabeça do caçador rolou no chão, caindo próximo a seus pés, em seguida virou pó. Quatre olhou para o corpo do caçador que ainda mantinha-se de pé e cortou-o ao meio, passando por cima do monte de pó que havia se formado.

- Isso é pelo que fez a mim e a Trowa.

Trowa por um instante não conseguiu reconheceu em Quatre a imagem de seu anjo. Ele estava repleto de raiva, um reflexo do ele mesmo sentia, no entanto em Quatre esse sentimento parecia ganhar proporções incompreensíveis. Mas quando o loiro agachou-se a sua frente com o mesmo sorriso suave em seu rosto, soube que por detrás da íris vermelha seu anjo ainda existia.

- Quatre você esta bem?

- Estou com fome. O cheiro...eu...eu sinto fome Trowa.

Trowa abraçou Quatre por um instante. Ele podia sentir a fome do loiro crescendo, forte e esmagadora. O cheiro do sangue humano impregnado no ar apenas dificultava as coisas.

- Você precisa controlar-se Quatre. Acha que consegue? Você precisa.

Quatre fechou os olhos por alguns segundos e quando abriu-os a íris azul já havia retornado a seus olhos. Ele sacudiu a cabeça, sabia que precisava controlar-se e ignorar a fome que crescia dentro de si, para o bem de seus amigos e dele mesmo. Sabia que se perdesse o controle os outros teriam que intervir. E ele não queria de forma alguma machucar seus amigos. Trowa sabia o esforço que Quatre estava fazendo para manter-se controlado e ignorar seus novos instintos.

Trowa recuperou sua espada. E procurou controlar suas emoções, agora que Quatre estava a seu lado, precisava controlar-se, pelo bem de Quatre. Olhou para o árabe sentindo que a ligação entre deles retornara, estavam ligados pelo sangue agora.

Duo e Heero estavam muito feridos, os lacaios de Relena eram ótimos lutadores e exímios espadachins. Por mais que atacassem, os ferimentos que haviam causado aos dois era ínfimo comparado ao deles. Por duas vezes Heero teve que ajudar Duo. O humano estava no limite de suas forcas e parecia que a qualquer momento iria desmaiar, e para pior a situação os caçadores ainda os excediam em número.

Duo sentia que a qualquer momento perderia os sentidos; todo seu corpo doía. Sua roupa estava ensopada com seu sangue e ele não tinha mais noção do que fazia; apenas seguia a voz em sua mente que mandava-lhe continuar lutando. Por duas vezes Heero o havia salvo de perder a vida, quando simplesmente não tivera forças para brandir a espada. Sentia a preocupação de Heero, assim como as presenças a seu redor, que mesmo sem olhar tinha consciência de onde estava cada uma delas.

A ligação entre Heero e ele havia se fortalecido quando começaram a lutar juntos, mas isso não era o suficiente para derrotar seus inimigos. Então, de repente; sem que esperassem algo aconteceu.

Mirla começou a sentir a energia e virou-se para Relena, que apenas ria deliciada ao ver que o humano de tranças estava extremamente ferido e os vampiros do clã dos Khushrenada e do clã Maganac continuavam em desvantagem.

- Senhora.

Relena estava tão feliz por ver que estavam ganhando que não ouviu a voz do Necro ao seu lado. Mackaczi olhou para o Necro e depois para Relena que a ignorava completamente. Mirla tentou chamar a atenção dela novamente, conseguindo finalmente sua atenção.

- Senhora temos que ir.

- O que? Ir? Você esta louca. Estamos...

- Vamos morrer se não formos agora.

- O que quer dizer criatura?

Mirla olhou para o líder dos caçadores e apontou na direção de shuhan dos Khushrenada e do humano, como se isso explicasse suas palavras. No entanto nenhum dos dois compreendeu o que o Necro quis dizer, mesmo depois dela pronunciar as outras palavras.

- Eles ativaram o poder delas.

- De quem?

- As espadas. Mande-os recuar antes que todos morram.

Mirla virou-se e preparou-se para sair. Relena segurou seu braço, mas o soltou imediatamente diante de seu olhar. Pela primeira vez desde que a conhecera ela sentiu medo do Necro e do que viu através dos olhos dourados. Mackaczi olhou para o Necro que já se encontrava quase fora da construção e sentiu um arrepio familiar. A criatura tinha muito mais poder do que aparentava e ela sabia muito mais sobre a profecia e as espadas do que havia dito a Relena.

- Vamos Relena; é melhor fazer o que ela disse.

- Mas...estamos ganhando.

- Teremos outras chances de derrotá-los vamos.

Mackaczi puxou Relena pelo braço, enquanto ordenava mentalmente aos caçadores que recuassem. No entanto nem todos obedeceram, a maioria estava convencida de que estavam ganhando e não deveriam recuar. Alexuis e Alexian recuaram imediatamente ao ouvir a voz de Relena.

"Alexuis, Alexian recuem e encontrem-se comigo do lado de fora."

Assim que saíram todo o lugar foi inundado por uma luz brilhante e intensa. Similar a luz do sol. Gritos e urros foram ouvidos, e depois apenas o silêncio.

Algumas horas mais tarde, no castelo dos Khushrenada:

Eram aproximadamente 09:45hs da manhã de quinta-feira. Quatre levantou-se, sabia que deveria estar dormindo, mas ainda não se acostumara ao novo habito de dormir quando deveria estar acordando. Seu estomago roncou, ainda estava com fome. Levantou-se com cuidado para buscar comida. Sem fazer barulho deixou o quarto e os braços de seu amante. Caminhou pelo corredor silenciosamente descendo as escadas. Parou e sentiu as presenças na cozinha. Humanos. Humanos tinham sangue. Sangue quente. Alimento para saciar sua fome. Silenciosamente entrou no recinto, seu olhar observando com atenção o movimento dos empregados que desconheciam a ameaça que agora ele era. Seria tão fácil pegar o que queria.

Quatre se sentiu mal por vê-los como um meio de saciar sua fome. Eles eram pessoas e não comida exposta no supermercado. Ele desejou sair, mas suas pernas se recusaram a mover-se, fechou os olhos claros por alguns momentos e quando abriu-os estes estavam vermelhos. Ele passou a língua pelos lábios deliciado.

Kimitsu estava dando algumas ordens quando algo o fez virar em direção a entrada da cozinha. Ele viu o jovem árabe parado na porta observando o movimento dos empregados na cozinha. Ele viu a íris vermelha e lembrou-se que o mesmo não era mais humano, algo no olhar do árabe o fez imaginar o por que do loiro estar ali. Sabia o que estava acontecendo ao rapaz. Era a fome dos vampiros. O empregado caminhou cautelosamente até o vampiro.

Quatre viu Kimitsu vir em sua direção, mas tudo o que conseguia assimilar era que o empregado tinha o que era necessário para controlar sua fome. Suas presas cresceram. Sabia que deveria refrear sua fome, mas esta era mais forte. A fome não o deixava pensar, lágrimas vermelhas, lágrimas de sangue começaram a cair de seus olhos e ele os fechou.

Kimitsu o mais silenciosamente que pôde ordenou que todos retirassem-se da cozinha pela outra porta sem movimentos bruscos. Temia que acontecesse uma tragédia. Era visível o esforço que o rapaz fazia para controlar-se, mas parecia que sua vontade perdia para a fome. Quando o loiro abriu os olhos novamente ele soube quem havia vencido.

Trowa acordou imediatamente ao sinal de perigo que estava no ar. A fome de Quatre o acordara, levantou-se e correu para a cozinha antes que seu anjo se condenasse. Quatre começou a avançar lentamente em direção a Kimitsu como um caçador avança em direção a sua presa certo de que ela não tem como escapar. Kimitsu não se movia, sabia que seria inútil fazê-lo naquele momento.

De repente o jovem parou e segurou a cabeça com ambas a s mãos. Quatre queria gritar, queria fugir, queria se alimentar, mas algo o impedia. Uma voz. Uma voz em seu intimo. A voz que acalentara sem sono. A voz que lhe dizia que era errado. Que ele deveria controlar seus instintos, controlar sua fome. Que a sua vontade e não a de seus instintos é que deveria prevalecer. Trowa entrou na cozinha vendo Kimitsu parado a poucos centímetros de Quatre. O vampiro de olhos verdes olhou para Kimitsu falando mentalmente com ele enquanto avançava em direção ao loiro.

"Recue devagar Kimitsu"

O empregado começou a recuar devagar como Trowa ordenara. Quatre notou o movimento e fez menção de segura-lo, quando um par de braços fortes segurou-o pela cintura. Trowa indicou com o olhar que Kimitsu podia sair, aguardou que o empregado saísse e sussurrou no ouvido de Quatre.

- Acalme-se Quatre. Você precisa acalmar-se para que eu possa ajuda-lo. Pare de pensar na fome que esta sentindo.

- Trowa...

- Eu estou aqui meu anjo.

- Eu... eu quase...

- Eu sei... esta tudo bem agora. Venha, vamos para o quarto.

Trowa pegou Quatre no colo, e o árabe encostou a cabeça o ombro do moreno soluçando. Trowa virou-se para sair e encontrou Heero na porta da cozinha, o vampiro mantinha as mãos nas costas obviamente escondendo algo, mas que ele já desconfiava o que era. Ele olhou para o loiro em seu colo que chorava lágrimas vermelhas. Passou por Heero em direção ao quarto ouvindo as palavras dele em sua mente.

"Permaneça no quarto junto com Quatre até que ele se controle. Ele é um perigo para si mesmo e os outros."

"Está bem"

"Eu ou Treize levaremos a refeição de vocês. Quatre não deve ter contato com nenhum humano até que aprenda a conter-se. Você entende não é Trowa.?"

"Sim Heero."

Trowa continuou a subir as escadas, trancando-se no quarto junto com Quatre. Heero esperou que o moreno e o loiro estivessem no quarto para sair da cozinha. Seguiu em direção a sala das armas e recolocou a adaga de prata em seu devido lugar. Saindo encontrou-se com Kimitsu no caminho para a escada, este trazia uma vasilha pequena com alguns panos. O empregado entregou os objetos a Heero e olhou-o por um momento. O vampiro respondeu a pergunta que o humano não conseguia pronunciar.

- Eu senti seu medo e as emoções de Quatre. Ele ainda não as controla devidamente.

- O senhor...

- E sim, eu faria se fosse necessário Kimitsu. A segurança dos humanos do castelo é de minha responsabilidade. Não ficaria feliz com o que tivesse que fazer e nem Trowa, mas o faria se fôsse necessário. Ele entenderia e aceitaria com o tempo.

- Eu entendo senhor.

- Quatre ficara confinado no quarto com Trowa, nenhum humano deverá ter contato com o loiro até que eu diga que pode.

- E as refeições deles?

- Serão feitas no quarto e entregues por mim ou Treize.

- Como quiser shuhan.

Heero seguiu em direção a escada para voltar ao quarto, mas deteve-se, virou e chamou por Kimitsu que retornou do caminho para a cozinha.

- Você está bem?

- Sim senhor.

- "timo, nunca mais faça isso de novo Kimitsu, ele o teria matado sem pensar.

- Eu sei senhor.

Heero viu o empregado caminhar em direção a cozinha e seguiu para seu quarto. Ao entrar encontrou Duo deitado na cama os olhos sonolentos e a voz cansada.

- O que houve Heero?

Heero aproximou-se com uma vasilha de água e panos limpos; sentando-se na cama passou a mão nos cabelos de Duo, estes estavam molhados e grudados na testa. Beijou-lhe a testa verificando que esta ainda estava quente, indicando que o humano ainda tinha febre. Com um olhar preocupado, Heero mergulhou o pano na vasilha torcendo-o um pouco e colocando-o sobre a testa de Duo, para ajudar a febre a ceder.

- Não foi nada. Eu apenas... fui trocar a água e pegar panos limpos. Não se preocupe.

Duo olhou pra Heero, sabia que o vampiro estava escondendo alguma coisa, mas sentia-se cansado demais para tentar arrancar a verdade dele. Fechou os olhos novamente tentando ignorar os ferimentos e a dor em seu corpo. Heero observou-o fechar os olhos, rendendo-se ao sono. O vampiro ficou olhando para seu amante, as marcas da batalha em seu próprio corpo já haviam sumido, mas as do corpo de Duo ainda estavam ali, visíveis. Sem contar a febre que não cedia havia dois dias.

Há dois dias atrás eles haviam lutado para defender a cidade. Dois dias em que perderam muito mais do que ganharam. Ele ainda não entendera o que havia acontecido; uma hora eles estavam lutando e perdendo, então do nada alguns caçadores começaram a recuar e, então uma luz ofuscou a todos, gritos e urros terríveis e quando conseguiram abrir os olhosos caçadores haviam sumido e Duo encontrava-se caído no chão. Todos que lutavam do clã Maganac e dos Khushrenada estavam vivos , seus oponentes haviam virado pó.

"Será que eles sabiam o que aconteceria? Mas quem os teria avisado? Alguém sabia o que aconteceria, que eles seriam destruídos. Mas quem?"

Heero inconscientemente sabia que as espadas tinham algo haver com isso, pois sentira um calor terrível irradiar de Hikari segundos antes da luz ofuscar seus olhos. Mas por que ele e os outros não haviam sido atingidos por ela? Eles também eram vampiros, assim como os caçadores. Apenas Duo e Wu-Fei deveriam ter saído vivos de lá, nem mesmo o jovem árabe deveria ter escapado, uma vez que não era mais humano.

Heero lembrou-se de Quatre na cozinha sendo amparado por Trowa. Sabia que não era culpa dele, mas de sua nova natureza. O humano havia perdido sua humanidade e sua vida. Abraçado em meio à luta por Trowa, que fôra incapaz de deixar que o humano se fosse. Agora, ele estava condenado a viver como um vampiro, uma decisão da qual não havia participado. Não podia culpar seu amigo, ele teria feito o mesmo por Duo, caso se encontrassem em uma situação semelhante, mas diferente de Quatre e Trowa o assunto jamais havia sido discutido entre eles.

O humano jamais havia manifestado interesse em tornar-se um vampiro, como Duo havia feito, na primeira noite deles juntos. Agora era tarde demais. Agora ele teria que aprender a lidar com sua natureza, seus instintos e suas vontades. Pelo bem dele mesmo e dos outros. Sabia que Trowa faria de tudo para ajudar Quatre a controlar-se e aprender, mas sabia que não seria fácil. Um descuido, e tudo estaria perdido; e ele teria que fazer o que manda a lei do clã. Heero olhou para Duo que gemeu ao tentar virar-se na cama, caminhou até o amante e deitou-se junto a ele, velando seu sono.

Duas semanas depois

Trowa olhou para a face adormecida de Quatre. Já haviam se passado duas semanas, desde que seu anjo deixara de ser humano e se tornara um vampiro. Duas semanas em que estavam trancados no quarto sob as ordens de Heero, para a segurança dos humanos no castelo. Ele se lembrava do dia em que se virou e encontrou Heero na porta, as mãos nas costas. Ele sabia por que o shuhan dos Khushrenada estava lá. Ele viera fazer o que era seu dever. Matar Quatre caso ele ferisse alguém, ele viu a adaga nas costas do vampiro de olhos azul cobalto ao passar por ele. Não podia recriminar Heero por isso, era o dever dele pensar na segurança dos humanos sob a responsabilidade do clã.

Nos últimos dias Quatre já tinha mais controle sobre sua fome. Havia sido difícil para o árabe. Eles faziam suas refeições no quarto, elas eram trazidas por Heero ou Treize como o shuhan havia dito que seria. Apenas na ultima noite a refeição fôra trazida por Auda com a permissão de Heero. O líder do Maganac ficara fazendo compainha a Quatre por algumas horas, enquanto Trowa descia para conversar com Heero a pedido deste. Trowa passara os dias, ensinando a Quatre sobre a natureza da espécie a qual o árabe agora fazia parte. Ensinara seus costumes, suas leis, hábitos, tudo que ele precisava saber sobre a espécie e para sobreviver a ela.

Desde que Quatre se tornara um vampiro, eles não haviam se tocado. O contato entre eles não ia além de abraços, nos quais Trowa acalentava o sono de Quatre. Ele sentia falta do corpo de seu amante, de seus beijos, as caricias que trocavam quando estavam juntos. Quando Quatre ainda era humano.

A ultima vez que haviam feito amor, foi no dia anterior a sua morte como humano e seu renascimento como vampiro. Era estranho pensar sobre isso, a única coisa que as duas espécies tinham em comum era o sangue. Ambas as espécies precisavam dele para viver, mas para cada um ele representava uma maneira diferente de vida.

O sangue para alguns representa a morte, para outros ele simboliza o renascimento.

Morte para a vida humana. Renascimento como um vampiro. Perde-se um e ganha-se outro. Perde-se o sangue humano e a alma. Ganha-se o sangue amaldiçoado dos vampiros e a imortalidade que ele trás. Viver quando já se está morto. O que realmente significa a imortalidade? Senão apenas caminhar na escuridão e ver todos a sua volta morrerem. Que gloria existe nisso?

Quatre remexeu-se na cama e abriu os olhos claros. Encontrou a íris verde esmeralda de Trowa observando-o e sorriu, esticando seu braço para acariciar o rosto do outro vampiro.

- Bom dia, ou deveria dizer boa noite?

- Como está acordando agora seria certo dizer bom dia.

- Acordado há muito tempo?

- Não. Estava admirando sua beleza.

- Huuummm. Obrigado.

Quatre levantou-se e tomou os lábios de Trowa entre os seus. Trowa passou os braços ao redor da cintura do árabe puxando-o para perto. Sentiu a língua de Quatre invadir a sua aprofundando o beijo. Sentira tanta falta de Trowa, falta de seus carinhos..., seus beijos. Sua mão deslizou pelos ombros dele e apartou o beijo, descendo seus lábios pelo maxilar do vampiro de olhos verdes e atacando o pescoço deste com leves mordidas e lambidas. Trowa gemeu ao sentir os lábios de Quatre em seu pescoço, apertou a cintura do pequeno e deitou-o na cama afastando-se ligeiramente para encarar os olhos de seu amado. Os olhos de Quatre brilhavam como duas safiras cristalinas, ele sorria enquanto seus dedos desenhavam círculos imaginários no peito de Trowa.

- Eu te amo tanto Trowa.

- Eu também te amo.

- Faça amor comigo. Faz tanto tempo.

- Sim faz.

- Ame-me.

- Eu farei.

Trowa inclinou-se sobre Quatre, beijando-o, suas mãos acariciando a pele pálida e fria, em leves apertos, que foram descendo pelo corpo de Quatre. O árabe deslizava suas mãos pelos ombros largos de Trowa descendo pelas costas dele e detendo-se firmemente nas nádegas puxando-o de encontro a seu corpo que já encontrava-se excitado. Ambos gemeram entre os lábios um do outro, ao terem suas ereções imprensadas uma contra a outra. Quatre começou a mover seu corpo contra o de Trowa, fazendo com que este afastasse seus lábios dos do árabe, Quatre sorriu ao vê-lo de olhos fechados à cabeça jogada levemente para trás.

Trowa estava perdendo-se nas sensações do corpo de Quatre movendo-se abaixo dele. O árabe segurava-o fortemente e movia-se cada vez mais rápido. Abriu os olhos e encontrou a luxúria nos olhos claros. Moveu seu braço para as costas e segurou uma das mãos de Quatre retirando-a de uma de suas nádegas. Moveu seu outro o braço fazendo o mesmo. Segurou os braços de Quatre no alto da cabeça do loiro, mordendo a extensão destes.

Quatre gemeu deliciado ao ter os braços presos por Trowa e sentir os lábios dele em seus braços, inclinou sua cabeça para trás dando acesso a seu pescoço pálido que logo foi atacado com luxúria pelos lábios de Trowa. A medida que a excitação aumentava, Quatre gemia mais alto. Fechou os olhos e quando os abriu a íris azul havia se tornado vermelho.

Trowa viu a mudança da cor nos olhos de Quatre. Azul cristalino pelo vermelho profundo sabia que seus olhos também tinham adquirido a mesma cor intensa, ele se via através dos olhos de Quatre. Podia ver a luxúria e o desejo refletido neles. Quatre moveu sua perna, passando-a pela cintura do moreno de forma que a distancia de seus corpos diminuísse. Um sorriso malicioso que prometia as maiores perversões iluminou os lábios pálidos do loiro e a voz com que falou soou altamente erótica a seus ouvidos.

- Por quanto tempo você ainda pretende me manter vestido?.

Trowa gemeu e sorriu fazendo Quatre morder o lábio inferior diante de seu olhar sensual e pecaminoso. A voz do moreno soou rouca e sexy ao falar em seu ouvido antes de morder-lhe a orelha.

- Não por muito tempo.

- "timo.

Trowa beijou Quatre selvagemente enquanto soltava os braços do loiro e percorria o corpo abaixo de si com as mãos. Sua mão pousou na calça do pijama que este vestia, deslizando por dentro da peça de roupa e alcançando o membro já ereto do loiro. Quatre ofegou entre os lábios de Trowa ao sentir a mão deste começar a estimular seu membro com vontade.

"Por Alá!."

"Gosta disso meu anjo?."

"Sim.... muito, mas gosto ainda mais quando o tenho dentro de mim. Me possuindo, me amando."

"Quatre..."

"Me possua Trowa...".

"Sim"

Trowa retirou a mão do membro de Quatre e levantou-se da cama, livrando-se das roupas rapidamente. Quatre continuou deitado, passando uma das mãos sobre o próprio peito enquanto mordia a ponta de um dos dedos. Ao ver o moreno sem roupa, sorriu e ajoelhou-se na cama chamando-o com o dedo. Trowa sorriu e foi até o loiro que atacou-o com os lábios e jogou-o na cama , subindo nele.

- O que acha de brincarmos um pouquinho?

- Do que você quer brincar?

- Hummm devorar o vampiro?

- E como se brinca disso?

- Você não sabe? Pensei que pudesse ler meus pensamentos.

Trowa não acreditou no que viu nos pensamentos de Quatre. Seu anjo havia

tornado-se um demônio com uma mente maravilhosamente pecaminosa. Ergueu o tronco deslizando as mãos pelas costas do loiro, alcançou as nádegas de Quatre por dentro da calça do pijama e apertou-as, deslizando o dedo por entre os dois pedaços de carne macia. O loiro inclinou seu corpo para frente empinando as nádegas de forma a abri-las ainda mais, atacando com voracidade os lábios de Trowa enquanto uma de suas mãos insinuava-se por entre as pernas do moreno para alcançar seu membro.

Trowa ofegou ao sentir a mão de Quatre em seu membro movendo-se na mesma velocidade que seu dedo entre as nádegas do loiro. Como era possível sentir tanto prazer?. Ele estava enlouquecendo com Quatre montado em cima dele estimulando-o, enquanto atacava seus lábios, seu pescoço e inundava seus pensamentos.

Ele alcançou a entrada de Quatre e começou a circunda-la com o dedo fazendo o loiro ofegar. Quatre abandonou o pescoço de Trowa jogando a cabeça para trás; sem aviso segurou a mão de Trowa e empurrou-se contra o dedo em sua entrada.

- Aaahhhhh....

- Quatre.....

Trowa sentiu seu membro endurecer ainda mais nas mãos do loiro, ao sentir as paredes apertadas do canal de Quatre esmagarem seu dedo. O loiro começou a movimentar-se por sobre o dedo invasor, sem esquecer de estimular o membro de Trowa. O moreno rasgou a calça com a mão livre recebendo um sorriso do loiro. Um segundo dedo juntou-se a exploração, alargando a entrada de Quatre.

Quatre rebolava sobre os dois dedos de Trowa sentindo que não agüentaria muito tempo aquela maravilhosa tortura. Ao sentir os lábios de Trowa ao redor de seus mamilos, sugando-os esqueceu-se de continuar a estimular o membro do moreno. Trowa sentia que logo gozaria, mas ele desejava faze-lo dentro de seu pequeno anjo. Retirou os dedos de Quatre e posicionou-se de forma a que seu membro ficasse a entrada do loiro.

Sem esperar Quatre empalou-se com o membro duro e grosso de Trowa, jogando a cabeça para trás. Trowa teve que controlar-se para não gozar no momento em que sentiu seu membro penetrar profundamente em Quatre. Olhou para o loiro, certo de que este tinha se machucado, mas tudo o que viu em seu semblante foi prazer.

"Mova-se comigo Trowa..., me leve ao paraíso"

"Sim meu anjo"

Começaram a movercem, os movimentos cadenciados, sem desviarem o olhar um do outro. Com essa união estavam completando-se, fechando o elo que os unia. Fortalecendo a ligação psíquica que havia se formado entre eles. Os movimentos tornaram-se mais rápidos e mais fortes. Espasmos transpassaram os dois e eles partilharam das sensações que sentiam, amor, luxúria, desejo e paixão. Com um grito onde cada um invocou o nome do amado, ambos alcançaram o ápice do prazer.

Quatre deixou-se cair por sobre o corpo de Trowa, incapaz de manter-se depois do orgasmo que o atingira. Sentia o gozo de Trowa escorrer por sua entrada, assim como sentia sua semente escorrer por entre ele e Trowa.

Trowa levou sua mão ao abdômen para provar da semente de Quatre. O loiro levantou a cabeça sorrindo, e beijou-o, provando-se nos lábios de Trowa em um beijo repleto de carinho e cumplicidade. Quatre apartou o beijo descansando a cabeça no ombro do outro.

- Eu te amo.

- Também te amo meu anjo.

- Que tal um banho?

- Seria maravilhoso.

Algumas horas e muitas sessões de amor no banheiro depois, Quatre e Trowa encontravam-se limpos e deitados na larga cama, quando uma batida interrompeu um beijo que haviam iniciado. Olharam-se, e Quatre sorriu frustrado, o beijo estava tornando-se interessante.

- Entre.

A porta abriu-se e Heero entrou seguido, por Duo. O humano havia insistido em segui-lo, duas semanas haviam se passado e ele ainda não tivera a chance de ver o amigo. Em vão Heero tentou fazer Duo esperar mais um pouco, mas o humano havia sido teimoso em relação a sua decisão. Agora que havia se recuperado dos ferimentos desejava saber como Quatre estava, agora que o loiro era um vampiro. Assim que Duo viu Quatre seus olhos encheram-se de lágrimas ao ver o rosto pálido e a beleza realçada pela imortalidade.

Quatre pôde sentir a tristeza de Duo, levantou-se da cama caminhando até o amigo, tinha tanto tempo que não o via, todas as noticias que tinha dele eram passadas por Heero, Trowa e os que eram permitidos a vê-lo nas ultimas semanas.

Parou ao sentir o cheiro de sangue vindo humano, sabia aquela seria a sua maior prova, seus instintos lhe diziam que Duo era uma refeição apetitosa. Criada apenas para satisfazer sua necessidade.

Duo viu que seu amigo tinha receio de aproximar-se. Sabia que Quatre não ficava frente a frente com um humano há duas semanas, e ele era o primeiro a vê-lo. Mesmo na atual condição do amigo sabia que ele jamais o machucaria, Duo pôde ouvir a voz de Heero em sua mente.

"Duo não aproxime-se muito. Lembre do que eu lhe disse"

"Ele não vai me machucar Heero."

"Você não tem como saber"

"Eu sei que ele não vai. Ele ainda é meu amigo".

Sem que esperasse Quatre viu-se abraçado por braços fortes, enquanto sentia lágrimas quentes e cristalinas caírem em seu rosto, ele sentia o coração batendo junto ao seu e o sangue fluindo no corpo que o abraçava. Afastou-se ligeiramente, olhando nos olhos claros de Duo e tudo o que viu neles foi alegria, não havia medo em suas emoções, apenas felicidade por vê-lo. Quatre sorriu, enquanto lágrimas vermelhas caiam de seus olhos claros, era tudo que ele precisava encontrar.

- Obrigado Duo.

- De nada loirinho.

Ambos riram e abraçaram-se novamente. Tanto Heero quanto Trowa relaxaram, ambos olhando os dois amigos abraçados no meio do quarto. Heero sorriu e dirigiu-se aos dois, beijou e acariciou o rosto de Duo, antes de tocar o ombro de Quatre.

- Nós o aguardamos lá embaixo Quatre, assim que você e Duo terminarem de conversar.

O vampiro de olhos azul-cobalto olhou para Trowa que levantou-se da cama. Quatre sorriu e olhou para Trowa que veio em sua direção. O vampiro de olhos verdes beijou suavemente seus lábios antes de sair do quarto e deixar os dois amigos sozinhos. Seu anjo havia conseguido, ele agora era um deles, a fome ainda persistia, ela sempre estaria presente, mas ele já não era controlado por ela. Agora ele a controlava.

Continua....

Espero que me desculpem pelo tamanho do capítulo, mas sabem como é em amo essa fic e escrever capítulos pequenos dela e como se eu estivesse cometendo um sacrilégio.

Agradecimentos a Dhandara pela revisão.

Agradecimentos a todos os que me mandaram reviews. Em especial a Goddess of Death GW, KaiLi Syaoran-Lover, e a mami Evil que está na estrada.

A sis Lien por ter me ajudado esse tempo todo.

A Tia Daphne por ter me aturado.

Espero que gostem do capitulo e aguardo comentários.