Lábios de Sangue
Capitulo 16 - Um Brinde aos Mortos
Northhampton – Inglaterra – Castelo de Newtype:
Faziam apenas alguns dias que Lacroan havia chegado ao castelo e comunicado ao senhor Romefeller, conforme o ordenado por Mackaczi há quase duas semanas atrás; sobre os últimos acontecimentos em Epyon. Não queria ter-se demorado tanto em chegar a seu destino mas fora difícil deixar a cidade. Esta encontrava-se, desde a batalha, fortemente protegida pelos vampiros do clã dos Khushrenada. Ele e outros dois caçadores haviam ficado, por quase uma semana procurando um meio de deixar a cidade, até que conseguiram, depois de alguns dias, partir desapercebidos, entre os humanos que começavam a deixar a cidade; fugindo para outros lugares. Como se os mesmos pudessem escapar do fim. Agora, junto a seus companheiros aguardava apenas o momento em que o Duque daria a ordem contra os Khushrenada, e poderia voltar para matar alguns humanos e vampiros.
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Na torre norte do Castelo de Newtype:
Romefeller já estava há alguns bons minutos pensando acêrca do que Lacroan lhe informara ao chegar. Observando o mar agitado que se expandia até o horizonte. Não havia ficado satisfeito diante das notícias trazidas por um de seus caçadores. Imaginava que o clã dos Khushrenada já houvesse sido subjugado, e que todos já se encontrassem mortos. E não que ainda vivessem. Entretanto, deveria imaginar que o pupilo de Treize Khushrenada, o antigo shuhan do clã dos Khushrenada; não havia escolhido um vampiro qualquer para ocupar seu lugar. Seu sucessor tinha que ter a mesma perspicácia e habilidade para manter o clã forte e unido, assim como seu antigo líder. Deixando a janela, caminhou aborrecido pelo luxuoso aposento, detendo seu olhar no corpo sem vida da mulher sobre o sofá. Ela havia sido uma deliciosa refeição e distração na noite anterior.
O pensamento de que humanos eram ao mesmo tempo tão frágeis e tão fortes, desviou seus pensamentos por alguns instantes. Eles eram uma contradição que o divertia cada vez, que resolvia testar a força de suas almas. Mas o fim era sempre o mesmo. Todos, sem exceção cediam a alguma coisa. Dinheiro... poder... amor. Era fácil corrompê-los a sua vontade; apenas dando-lhes o que desejavam. E assim como os humanos; muitos dos de sua espécie possuíam as mesmas fraquezas. Aproximou-se do corpo nu e sem vida; tocando-lhe suavemente a pele pálida e fria pela morte. Deleitou-se em acariciar os seios fartos e frios, cravando os dedos na carne, até que perfurasse a pele, do corpo vazio de sangue. Sorriu diabolicamente sugando os dedos; cujas unhas detinham pedaços da carne da mulher. Afastou-se; resoluto de que deveria tomar logo uma decisão. Afinal não haveria outra oportunidade de destruir Treize e seu clã, como a que se apresentava agora. No momento a ambição de Relena pelo atual shuhan dos Khushrenada era uma vantagem para os Romefeller, e se tudo corresse como desejava, Treize Khushrenada não sobreviveria nem mais uma noite; e poderia simplesmente assumir seu lugar junto aos outros.
- Tsubarov!
Ao ouvir seu nome, um homem de cabelos brancos e óculos entrou; curvando-se ligeiramente para seu mestre, que agora se encontrava sentado junto à janela, observando o anoitecer. Aguardou as ordens que lhe seriam dadas.
- Traga Lacroan até aqui, e mande que os caçadores se preparem.
- Senhor!
Romefeller olhou para o outro e sorriu diabolicamente. Podia ver-lhe os pensamentos, e sabia, que assim como os outros, estes compartilhariam alegremente de sua decisão. Voltou o olhar para a lua pálida, deixando que seus pensamentos se voltassem para Treize Khushrenada e seu desejo em destruí-lo.
- Que você e os outros se preparem para ir a Epyon. Não quero que os Khushrenada sobrevivam nem mais uma noite sob o mesmo céu que os Romefeller.
Os olhos de Tsubarov brilharam malignamente. Nada lhe causaria tanto prazer que cumprir tais ordens. À muito que Treize Khushrenada era um estorvo a ser retirado do caminho de glória dos Romefeller. Uma expressão malévola surgiu em sua face pálida e maldosa, antes de responder:
- Assim será feito senhor, o outro falou com infinito prazer, e curvando-se novamente, deixou o aposento silenciosamente.
O rosto de Tsubarov transmitia um sorriso sombrio e malévolo. Não desejava pertencer ao clã dos Khushrenada quando o restante dos caçadores chegasse a Epyon.
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Epyon - Terra dos Khushrenada:
Quatre olhou para o amante que encontrava-se deitado na cama, de olhos fechados. Haviam acabado de fazer amor, e nunca sentira-se tão feliz como agora. A sensação de paz era reconfortante; para não dizer estimulante. Voltou os olhos para a lua que irradiava no céu, imaginando se Duo e Heero haviam finalmente feito as pazes. Sentira o conflito dentro de Heero. A vontade que o shuhan tinha em atender ao convite recebido no início da tarde, e a vontade de ignorar os sentimentos que sentia para com o humano que amava. Era frustrante ver Duo definhando e não poder fazer nada para ajudá-lo. Gostaria de ter dito algumas palavras para Heero, afim de fazê-lo enxergar a idiotice que vinha fazendo e a forma egoísta em que vivia desde que havia deixado Duo partir.
Fechou os olhos ao sentir o abraço ao redor de sua cintura. Estava tão mergulhado em suas reflexões que não percebêra Trowa despertar e caminhar até ele, até que o sentiu envolver-lhe a cintura.
Trowa despertara no momento em que Quatre havia deixado seus braços e ido para a janela. Entendia seus pensamentos, e compartilhava de sua opinião; embora discordasse do fato de que deveriam ter pressionado Heero. Conhecia-o tempo demais, para saber que nada o faria mudar de opinião. A menos que este assim o desejasse. Mas sabia que o mesmo cederia assim que estivesse frente a frente com Duo. Afinal ele amava o humano mais do que qualquer coisa. Mesmo que o plano elaborado por Treize e Duo, a seu ver; fosse perigoso. sabia que Heero era forte o suficiente para conter sua natureza e impedir-se de ferir Duo.
- Eles estão bem meu anjo. Tenho certeza de que fizeram as pazes.
Quatre sorriu diante das palavras de Trowa. Queria realmente acreditar nisso. Que Duo e Heero haviam feito as pazes depois de longas e angustiantes semanas. Isso sem contar que esperava que o plano de Treize desse certo, e que Duo não acabasse morto por Heero; pois tinha certeza de que se isso ocorresse, Heero certamente sucumbiria, e os outros; que dependiam dele e de Duo, iriam logo depois. Apertou as mãos nos braços de Trowa antes de responder, sem desviar os olhos do brilho pálido que se anunciava na colina ao longe.
- Eu espero... é tão triste vê-los separados... ainda mais sabendo como se amam. Isso nunca acontecera conosco não é? Digo... nos separarmos...
Trowa apertou Quatre contra si. Sabia das dúvidas que permeavam a mente do amante, pois elas também eram as suas. Por diversas vezes se perguntara o quão frágil eram os sentimentos que os uniam. O amor é poderoso em suas diferentes facetas, mas também é frágil ao enfrentar certas particularidades que a vida apresenta. Ainda mais dado à suas naturezas diversas, por vezes tão incontroláveis. Ainda assim; em seu coração residia a esperança de que o que nutriam um pelo outro era forte o suficiente para enfrentar o que se fizesse presente entre eles.
- Nunca meu anjo. Eu sempre estarei com você. Estamos unidos para sempre.
- Para sempre.
Quatre sorriu ao sentir o beijo suave na nuca. Era tão profundo o que partilhavam. Não se sentia invadido por isso, mas completo. Como jamais se sentira. Não havia segredos entre eles. Partilhavam um com o outro o mais profundo de suas almas imortais. Sabia que ainda tinham muito o quê aprender, e que o elo que mantinham não era algo fácil. Muitas vezes era doloroso, como quando suas emoções se encontravam fora de controle. Trowa, mais do que ninguém tinha pleno conhecimento disso. A natureza de Quatre era selvagem, bem mais do que imaginava ser possível. Quem poderia imaginar que ao torná-lo vampiro, despertaria esse lado desconhecido em seu anjo. Sentia-se esgotado a cada vez que seu amado sucumbia ao seu lado selvagem, e ele tinha que ajudá-lo a controlar-se, ou trazê-lo de volta à razão, quando o mesmo ignorava-o mentalmente; repelindo-o de sua mente. Entendia que para Quatre tudo ainda era muito novo, e que o controle só viria com o tempo.
Quatre esfregou a cabeça contra o tórax de Trowa, enquanto observavam juntos a noite dar lugar a um novo dia. Não sabia o que faria se Trowa não fosse tão paciente com ele. O desgaste que lhe causava a cada vez que perdia o controle, enchia-o de pesar. Era tão difícil controlar a vontade de destruir tudo a sua frente. Era tão fácil perder o controle sobre suas emoções. Tão simples ignorar as advertências do amante. Tão fácil repeli-lo de sua mente. Sempre se achara uma pessoa calma e equilibrada, mas agora descobria que não era tão fácil assim ser o mesmo Quatre de quando era humano. Entendia que os vampiros, por natureza; eram seres regidos pela vontade. Pelo prazer. Fosse do sangue ou do corpo. Era ela quem comandava suas atitudes. Alguns a mantinham livre, dando a ela o que desejasse. Como faziam os caçadores, que matavam e se alimentam conforme desejassem, sem se preocuparem com a voracidade de sua natureza. Outros a mantinham sob controle; vigiando-a a cada instante, e matando somente quando necessário. Alimentando-se de diversas formas, e apenas o suficiente para sobreviverem. Como Trowa, Heero e os outros.
Mas não era nada fácil. Era uma batalha a cada segundo. Apenas um simples descuido e sucumbiam. Ainda mais diante da suave e constante lembrança da sensação do sangue escorrendo por sua garganta. Tão quente e espesso. Isso enchia-o de vontade. Quando este então, vinha carregado pelo néctar do medo, tornava-se uma iguaria quase que impossível de se ignorar. Trowa lhe explicara que o sangue adquiria um sabor diferente; dependendo da forma como era colhido. Se fosse oferecido de livre vontade, era ligeiramente mais líquido e levemente salgado mas se fosse tomado de alguém, carregado pelo pavor; tornava-se espesso, encorpado e ligeiramente adocicado. Uma verdadeira iguaria para um vampiro com fome.
Quatre estalou a língua diante das imagens e do sabor que invadiam sua mente, provenientes das lembranças do amante. Trowa deu um meio sorriso, e esfregou o nariz na orelha de seu anjo, para desviá-lo de seus pensamentos. Não era bom que ficasse pensando em comida àquela hora da manhã. Virou Quatre para si, beijando-lhe a ponta do nariz, notando o brilho avermelhado dar lugar ao azul claro de seus olhos.
- Venha meu anjo sedento, logo o sol vai nascer e isso não é hora para pensar em comida.
- Está bem.
Quatre sorriu e deixou-se ser conduzido para a cama. Porém sua mente tinha outros planos quanto a dormir. Afastou-se do amante correndo e, deitando-se na cama, sorriu maliciosamente para Trowa. Viu o moreno balançar a cabeça e cobrir seu corpo com o dele, beijando-lhe os lábios de forma ardente e faminta. Independente das dificuldades que tinham quanto a manterem o elo que os unia, nenhum dos dois estava disposto abrir mão da dádiva que descobriram. Ambos tinham certeza de que aprenderiam e usufruiriam perfeitamente dessas dádivas, dada pela vida. Aprenderiam a buscar forças desse elo e tornarem-se mais fortes pelo que sentiam crescer um pelo outro. Afinal, tinham toda uma eternidade para aprender; e o tempo já não era um fator importante, Detinham-no na palma de suas mãos.
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No vale :
O céu já começava a avermelhar, indicando o nascer de um novo dia; quando Heero e Duo resolveram deixar o lago e voltar ao castelo; após uma nova sessão de amassos e carícias. Caminharam em direção à suas roupas. Ou pelo menos do que sobrara delas. Duo olhava para o estado em que Heero deixara sua calça, fazendo-o franzir o rosto. Não havia jeito de vesti-las novamente. Nem mesmo a peça íntima havia resistido ao ataque de Heero, e não poderia sair por aí sem roupa.
Heero olhou para Duo, que segurava os pedaços do que um dia deveria ter sido uma calça, nas mãos. Rindo suavemente aproximou-se e, abraçou-o pela cintura ouvindo seus pensamentos; e tinha que concordar que não seria bom ele ficar andando por aí apenas com as roupas de baixo, ou sem elas; uma vez que não fazia idéia de onde as mesmas haviam ido parar. Mas pelo que se lembrava havia-a partido em duas metades.
- Heero; eu estou sem roupas.
- Eu não me importo. Poupa trabalho.
Heero mordeu levemente a pele arrepiada, deliciando-se em ver Duo ofegar, embora as palavras seguintes o enchessem de ciúme e possessividade:
- Mesmo se os outros me virem assim?
Duo abriu os braços, exemplificando sua nudez, ganhando um resmungo de Heero:
- Eu não disse isso.
Heero afastou-se, pegando a jarra que outrora continha do sangue de Duo e jogou-a dentro do lago, a,fim de lavar os resquícios de sangue. Pegou a toalha e a sacudiu antes de voltar para perto do humano e enrolá-lo nela.
Duo ficou observando o vampiro enrolá-lo firmemente na toalha, tendo o cuidado de esconder o máximo possível de sua pele. Logo em seguida seus pés deixaram o chão, ao ser erguido nos braços pelo outro.
O vampiro pegou um Duo confuso no colo e começou a seguir em direção ao castelo; com o humano nos braços.
- Heero!
- O quê?
- Você vai me carregar até lá? Eu posso andar Hee-Chan.
Heero rolou os olhos e simplesmente sacudiu a cabeça diante da forma carinhosa com que Duo insistia em chamá-lo.
- Eu sei que pode andar, mas assim eu posso ter seu corpo bem pertinho.
Duo sorriu e beijou a face do vampiro. Por algum motivo, olhou para as árvores e sentiu um ligeiro arrepio; segurando-se instintivamente nos braços de Heero. O vampiro sentiu o receio de Duo e procurou sentir algo. Sabia que alguém os observara durante o ato sexual, mas estava tão concentrado em Duo que não dera importância a isso. Mas agora ao lembrar-se do fato, irritou-se com a invasão de um momento tão deles.
- Está tudo bem Duo.
Duo sabia que estava seguro. Heero jamais deixaria que alguém o tocasse ou machucasse; mesmo assim não pôde impedir-se de tremer ao imaginar quem os estaria observando. Poderia ser apenas impressão sua?
- Você sentiu?
- Sim... alguém estava nos observando.
- Acha... que...
Heero deu um meio sorriso ao ver Duo corar. Não precisava dizer nada para que soubesse o que o mesmo pensava. Sacudiu ligeiramente a cabeça, visivelmente aborrecido pela invasão de sua intimidade. Sabia muito bem quem os observara. Podia sentir-lhes a presença claramente; ainda mais agora que se sentia bem disposto fisicamente.
- É provável. Espero que tenham aproveitado, pois não haverá uma nova oportunidade.
"Sugiro que vá antes que resolva matá-la por seu atrevimento".Heero dirigiu seus pensamentos, advertindo-a de que não seria tolerante, quanto à permanência dela ali. Se estivesse sozinho, já teria ido atrás dela, mas não colocaria Duo em perigo, deixando-o para ir caçá-la; por mais que fosse seu desejo fazê-lo.
Duo olhou para o rosto de Heero, que parecia concentrado em algo; lembrou-se das palavras de Mirla em seu apartamento. A conversa tida com a criatura ainda permeava seus pensamentos, e nos últimos dias de forma ainda mais constante. Embora ainda não houvesse encontrado um significado mais claro para o que ela havia dito.
- Heero... o que você... acha que a Mirla quis dizer...
Heero voltou sua atenção para o humano, olhando-o surpreso ao ouví-lo pronunciar o nome do Necro. Sabia que Duo jamais o faria sem um motivo, ainda mais sabendo do pavor que ele possuía pela criatura.
- Quando você se encontrou com ela?
- Você não soube que ela...
Heero não deixou Duo terminar o que dizia, deixando-o confuso. Quando ouvira-o falar o nome da criatura imaginou que ele estivesse se referindo a algum outro assunto, e não que ele houvesse se encontrado com ela em algum lugar. Como não ficara sabendo que o Necro havia-o procurado? E quando isso ocorreêra?
- O que aquela criatura fez?
Heero parou de repente. Os olhos reluzindo em uma irritação rubra ao ler a mente de Duo. Seus olhos estavam escuros e irritados, e Duo aconchegou-se nos braços do vampiro por instinto, como se assim pudesse acalmá-lo. Não sabia que Heero desconhecia a ida de Mirla a seu apartamento. Imaginara que Trowa ou Quatre houvesse dito algo a ele. Mas ao que parecia nenhum deles havia comentado o ocorrido, restando-lhe o dever de relatar o que houvera.
- Quando eu deixei o castelo... eu fui direto para meu apartamento, pois era o único lugar para onde em poderia ir, uma vez que não queria ir para o templo ficar com o WuFei. E ela foi ou já se encontrava lá... não sei. Embora somente a tenha notado quando saí do banho e fui para a sala. Encontrei-a junto à janela.
Heero olhou dentro dos olhos do amante, vendo todo o medo e pavor causado pelo encontro com o Necro. Sua raiva e irritação deram lugar à preocupação pelo seu estado, e se ela o havia ferido de alguma forma? Se isso houvesse acontecido, ela pagaria seriamente pelo seu feito, pois não a deixaria partir uma segunda vez.
- Ela machucou você? Fez alguma coisa?
Duo sorriu e balançou a cabeça, aconchegando-se ainda mais n os braços do vampiro.
- Não...mas ela disse coisas que me assustaram...
Heero recomeçou a andar apertando mais fortemente Duo em seus braços, ao sentí-lo tremer ao mencionar o ocorrido. Durante o percurso até o castelo ouviu pacientemente suas palavras; embora sentisse vontade de entrar na floresta, encontrar a criatura e matá-la friamente por ter se atrevido a perturbar Duo. Sua mente encontrava-se dividida entre o que ouvia, e o fato do porquê ninguém haver-lhe dito que o Necro havia ido procurar Duo. Esta poderia tê-lo matado se quisesse, e agradecia intimamente o fato de não ser essa sua intenção ao procurá-lo; pois certamente Duo não seria páreo para ela. Se houvesse sido avisado do encontro, não teria permitido que o humano ficasse nem mais um segundo na cidade. Mesmo que Treize houvesse cuidado da segurança dele no tempo em que haviam ficado separados. Ainda assim tinha o direito de saber sobre o ocorrido.
Duo observava atentamente o rosto de Heero, enquanto contava-lhe o encontro com a criatura. Podia notar que; apesar da expressão fechada em seu rosto, seus olhos denunciavam a gama de sentimentos que o preenchiam no momento, e entre eles divisou: raiva, preocupação e dúvida. A voz de Heero soou ligeiramente fria, embora percebesse que ela tinha uma nota de preocupação, quanto ao significado do que a criatura desejava dele.
- Ela disse o que porquê de precisar do seu sangue?
Duo demorou algum tempo para responder, divagando sobre o porquê de seu sangue ser necessário ao Necro. Se não estava enganado, ela lhe dissera que ainda não era o momento, mas que o mesmo chegaria. Mas que momento seria esse? E o que aconteceria quando ele chegasse?
- Não... o que você acha Heero?
- Não sei...
Heero ponderava sobre as palavras de Mirla. A criatura parecia saber de muito mais coisas acêrca da profecia, que eles. E parecia aguardar alguma coisa; e que a mesma era inevitável; e que aconteceria em um futuro próximo. Pelo que Abdul lhe contara, os necros detinham o dom de prever o futuro, e como Mirla era a única ainda viva, deveria deter o mesmo dom de seu clã. Ela então deveria deter o conhecimento de saber o que aconteceria a Duo que a ajudaria a alcançar o que ela lhe dissera ao deixar a cidade, na companhia de Relena. Vingança. Ela dissera que buscava vingança. Mas vingança contra quem? Contra ele? O clã? ou contra todos os vampiros? Heero deixou suas divagações para outro momento, quando estivesse com os lideres do Maganac, e pudesse indagar-lhes mais acêrca do Necro, uma vez que estes, pareciam,conhecer melhor tais criaturas.
- Vamos falar sobre isso depois. Quando descobrir o porquê de ninguém ter me contado sobre a visita dela a você.
- Você não vai brigar com ninguém, vai?
Heero manteve-se calado e Duo não sabia ao certo o quê pensar. O vampiro não disse que não o faria, mas também não disse o contrário.
Não levaram mais que alguns minutos para chegarem ao castelo. E lá, encontraram apenas os humanos responsáveis pela segurança do castelo acordados. Makoto, assim que os viu inclinou-se, em cumprimento a Heero. Este meneou a cabeça, sem se importar com a forma em que se encontravam. Duo por sua vez, escondeu o rosto envergonhado, contra o peito de Heero. Afinal, chegar com os cabelos em desalinho, enrolado numa toalha e nos braços de Heero que não vestia nada, além das calças não dava margem para muitas especulações; a não ser a de que haviam se embolado em algum lugar e ficaram sem as roupas.
Entraram silenciosamente por uma das entradas secretas, localizada na face oeste do castelo, e saindo por uma passagem, em uma das paredes próxima às escadas da sala principal do castelo. Este encontrava-se mergulhado no silêncio, embora Heero sentisse que alguns de seus ocupantes ainda encontravam-se acordados. Duo bocejou, mal prestando atenção no caminho que tomaram. Não que houvesse conseguido ver algo tamanha era escuridão, mas se não estivesse tão cansado, por certo indagaria Heero, sobre quantas passagens secretas existiam naquele castelo.
Heero queria o mais rápido possível, saber sobre o porquê de não terem lhe comunicado sobre os fatos contados por Duo, mas decidiu por ir diretamente para o quarto. Quando levantasse, dali a algumas horas procuraria sanar suas dúvidas e obter algumas respostas. Por hora sua atenção estava direcionada a um humano que já demonstrava sinais de cansaço, e pretendia fazê-lo descansar a seu lado; antes que tivesse de se levantar.
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Junto ao Vale:
Mesmo depois do claro aviso, um par de olhos vermelhos ainda permaneceu por algum tempo no mesmo lugar; apenas observando o humano ser carregado pelo shuhan do clã dos Khushrenada. Em sua mente indagava-se como o outro pudera fazer aquilo. Heero pertencia unicamente a ela. Ela lhe dera a dádiva da imortalidade. O tornara imortal como os seus. E o que ele fizera em retribuição? Traíra-a, unindo-se a Treize e seu clã. E agora tomava outro como seu amante. Um humano que deveria servi-lhe apenas de alimento, e que ainda por cima se atrevera a amar. Não podia negar que o humano era lindo, quase tão lindo e perfeito quanto seu amado Heero. Relena fechou os olhos ao lembrar-se das sensações provocadas pelo toque do humano em seu corpo, quando o mesmo se encontrava preso pela magia do Necro, e pensava estar nos braços de seu amante vampiro.
Encostou-se à arvore observando o céu com certa tristeza; o que não lhe era característico. Em alguns minutos seria dia e não desejava estar ali quando o sol chegasse. Olhou para o Necro, que a observava em silêncio. A criatura era uma tola se achava que não conhecia seus passos, ou que desconhecia o fato de que fôra visitar o humano sem seu consentimento. Não era tola como Mirla ou os outros imaginavam. Não teria resistido ao tempo se o fosse, mas deixaria que pensassem assim. No momento, sua mente tinha outras coisas com que se atormentar. E ela não era uma delas. Nem a mais importante.
- Vamos Mirla, logo irá amanhecer.
- Sim minha senhora.
Deixou que a criatura encobrisse seus rastros, e em poucos minutos chegaram ao esconderijo na floresta, seguras do sol. Relena encaminhou-se até o local onde ficava seu leito, observando Mirla afastar-se e esconder-se em algum recanto mais afastado e escuro da gruta. Voltou seu olhar para Alexius e Alexian que encontravam–se adormecidos... juntos, como se fossem amantes, e não irmãos. Deitou-se entre eles fechando os olhos, e relembrando o que vira há poucas horas. Ofegou ao lembrar-se do momento em que o vira possuir o humano. A forma como ele o tomou... quase tão parecida com a forma como que ele a possuía; apenas com a diferença de que com ela nunca havia sido por amor, e sim por necessidade. A necessidade de suas naturezas vampirescas.
Por um momento quase revelara sua presença, extasiada com o que assistia. Nunca imaginara que ao seguir o humano, fosse presenciar seu antigo amante fazendo amor com seu novo companheiro. Pelo que Mirla havia-lhe contado, o humano e Heero estavam brigados e viu nisto a chance de aproximar-se de Duo e trazê-lo para seu lado. Mas ao vê-los juntos, e o que o humano fôra capaz de fazer para acalmar a natureza selvagem que tanto amava em Heero, dando-lhe de seu próprio sangue, e arriscando a própria vida... pois tinha certeza de que Heero poderia muito bem tê-lo matado... sentiu uma raiva insana do humano, e um desejo ainda maior de possuí-lo.
O cheiro de seu sangue era divino, e espalhou-se rapidamente pelo ar, tal qual o perfume das flores em um campo florido na primavera. Sentiu com prazer a fome com que Heero sorvera cada gole, como se fosse ela mesma a fazê-lo. A forma selvagem com que Heero proclamou sua posse sobre o humano irritara-a imensamente. Seu desejo era matar o humano no mesmo instante, mas sabia que nunca seria páreo para Heero no estado em que o mesmo se encontrava. Acompanhou com inveja cada carícia e toque entre eles. As palavras, os gemidos e ofegos. Nunca o teria de volta. Não enquanto o humano vivesse. Sentiu algo deslizar por seu rosto e levou as mãos aos olhos. Era a segunda vez que chorava, desde que se tornara um vampiro e isso não a agradava.
Lágrimas simbolizavam uma fraqueza que não desejava admitir. Fraqueza esta, que tinha um nome, que ela não conseguia exorcizar de sua alma desde que o abraçara, a mais de trezentos anos. Ele era seu maior ponto fraco e sabia disso. Mas o humano era o ponto fraco dele, e iria usá-lo para trazê-lo de volta para si. Mas primeiramente precisava esmagar o humano; fazê-lo pagar por fazer Heero apaixonar-se por ele. Por fazê-lo amá-lo, quando ele deveria amar apenas a ela. Odiava-o, por ele ter conseguido o que ela jamais conseguira... alcançar o coração frio do vampiro de olhos azul cobalto. E o odiava ainda mais por fazê-la desejar estar em seu lugar.
Enxugou as lágrimas vermelhas e ergueu os olhos, ao sentir-se observada. Encontrou Mackaczi observando-a a alguns metros, e sorriu quando o viu caminhar em sua direção parando à sua frente. Olhou durante alguns segundos para a mão estendida com certo escárnio, antes de aceita-la, e ser puxada para os braços do caçador com força. Tocou sua face, antes de deixá-lo beijar-lhe o pescoço. Lembrou-se que ele lhe havia dito que em breve atacariam e exterminariam para sempre o clã dos Khushrenada. Sorriu maliciosamente ao senti-lo descer a mão por seu pescoço e colo antes de segurar um de seus seios, e descesse os lábios por sobre ele sugando-o. Fechou os olhos e imaginou que fosse não ele, mas Heero a sugá-los, da mesma forma que ele o fizera com o humano. Deixou que Mackaczi a carregasse para seu leito e a despisse. Viu com prazer a íris vermelha carregada pela luxúria. Sabia que ele a desejava, e permitiria que a tivesse, apenas para saciar sua própria vontade naquele momento.
Houve um tempo, quando ainda era jovem e humana, que seu desejo era outro, mas agora seu desejo era e sempre seria apenas Heero, e enquanto não o tivesse novamente em seus braços se conformaria em saciar sua vontade com Mackaczi ou com qualquer outro que despertasse seu interesse.
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Na tarde seguinte:
Duo abriu os olhos de forma sonolenta. Parecia que havia sido atropelado por um caminhão tanque... duas vezes seguida. Deu um meio sorriso ao lembrar-se do porquê de sentir-se dolorido, e embora a dor incomodasse absurdamente, o causador dela seria sempre muito bem vindo para repetí-la em seu corpo. Franziu o rosto ligeiramente mediante o desconforto. Todos os músculos de seu corpo doíam; até mesmo aqueles que nem fazia idéia que tinha. Tentou mover-se lentamente; mas um aperto em sua cintura indicou-lhe que não sairia, a menos que removesse o braço que mantinha-o preso; ou se acordasse o dono do mesmo. Suavemente, segurou a mão fria, e depois o pulso do vampiro, soltando-se. Lentamente, e procurando não fazer barulho, sentou-se na cama; o que se mostrou um erro no mesmo instante, ao sentir certas regiões doerem.
" Merda vai ser um dia daqueles."
Virou-se para olhar o amante, que dormia placidamente. A sensação que tinha era de que Heero estava dormindo, mas sabia que não podia confiar nisso. Sendo assim, levou a mão à frente do rosto do vampiro balançando-a, mas não obteve nenhuma reação. Então levantou-se cuidadosamente da cama, caminhou até o armário do vampiro e pegou uma roupa emprestada, uma vez que não tinha nada para vestir, e não sabia se em sua partida deixara algo para trás. Estava tão distraído que não notou ou mesmo sentiu que era observado.
Duo analisou as roupas penduradas, e abriu algumas gavetas, escolhendo uma calça de moletom e uma camisa sem mangas, estas serviriam até que voltasse ao apartamento e buscasse suas roupas. Precisava apenas encontrar uma peça íntima, que foi encontrada na segunda gaveta da direita. Satisfeito fechou a porta com cuidado, mas ao virar-se soltou as peças assustado:
- Aaaaaaaahhhhhhhh, tinha dado de cara com Heero.
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Quatre abriu os olhos ao ouvir o grito. Sabia que era Duo e que o grito partira do quarto de Heero. Procurou captar alguma outra emoção que indicasse que o amigo precisava de ajuda, ou estivesse em perigo, mas teve seus pensamentos mudados, quando Trowa beijou-lhe o ombro desnudo fazendo-o deitar-se novamente em seus braços.
- Não se preocupe, ele está bem.
- Mas...
- Você ouviu Heero. Duo apenas não o viu e assustou-se.
Quatre aconchegou-se no peito do amante, dando um meio sorriso antes de gemer diante do aperto que Trowa deu em sua cintura.
- Aiiii...
- Sua mãe nunca lhe disse que é feio bisbilhotar o quarto dos outros?
- Eu queria apenas saber o que eles...
Trowa calou Quatre com um beijo. Talvez fosse uma boa idéia mostrar a ele o que deveria estar acontecendo no quarto ao lado.
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Heero deu um meio sorriso diante do grito, avisando mentalmente os seguranças que caminhavam pelo corredor, bem como Trowa, que estava tudo bem, e que não havia necessidade de se preocuparem. Ele não estava dormindo quando Duo acordara. Na verdade passara boa parte do tempo após irem para a cama simplesmente observando o amante em seu sono, pensando no que ele fizera para resgatar sua sanidade, e como isso poderia ter causado-lhe a morte.
Duo sentia seu coração bater forte, e procurou controlar a respiração, tentando acalmar-se:
- Droga Heero! Você quer me matar de susto? Disse, reclamando de forma brincalhona.
Duo ajeitou os cabelos atrás da orelha, olhando para o vampiro que não respondeu e simplesmente percorria seu corpo com olhos ávidos. Corou diante daquele olhar, que parecia desnudá-lo; embora já se encontrasse nu. Por algum motivo recuou, sendo imprensado pelo vampiro contra o armário. Fechou os olhos diante da carícia que a mão fria fêz por seu rosto e pescoço; tremendo ligeiramente diante da proximidade do corpo de Heero. Sentiu-o moldar-se a si, enquanto invadia-lhe a mente, fazendo-o gemer diante das palavras proferidas de forma rouca. Embora não pudesse imaginar como isso era possível.
"É impossível dormir sem você ao meu lado. Pode-se dizer que você acostumou-me mal. Eu adoraria saborear seu corpo novamente, e repetirmos o que fizemos ontem, mas temo que você não agüente, e detestaria ser responsável por uma recaída. Vou contentar-me em simplesmente beijá-lo, e descer para trazer-lhe o café da manhã. Depois que estiver devidamente alimentado, pensarei se vou tomá-lo novamente ou não."
Duo sentiu seus lábios serem esmagados por um beijo ardente, e teve que se segurar em Heero para não cair; quando suas pernas simplesmente não suportaram o peso de seu corpo. Se ele não iria possuí-lo agora, certamente seus lábios e mãos tinham outra opinião a respeito. Mal registrou que foi erguido e colocado novamente na cama, até que abriu os olhos e se viu sozinho no quarto, com apenas a voz de Heero soando em sua mente.
"Descanse mais um pouco meu amor. Ainda faltam algumas horas para que o sol se ponha, e dado o horário em que nos deitamos, você deve descansar um pouco mais."
Duo sorriu ligeiramente, agarrando-se, ao travesseiro de Heero tentando impregnar-se ainda mais com seu cheiro. Olhou para o calendário por sobre a cômoda, notando a data em que se encontravam. Seus olhos entristeceram rapidamente ao notar que faltavam poucas semanas para o aniversário deles. Fazia tanto tempo que não ia visitá-los, e embora a saudade apertasse seu peito, não se lembrava da razão de parar de ir vê-los. Costumava fazê-lo quase todos os dias. Então, de repente; os dias viraram semanas, as semanas viraram meses e os meses viraram anos. Então simplesmente deixara de vê-los, e isso o machucava; tanto quanto ir visitá-los e lembrar que nunca poderia estar realmente com eles novamente.
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Heero encontrava-se na cozinha há apenas alguns segundos quando seu olhar voltou-se para o teto, e seus pensamentos para o humano em seu quarto, ignorando o que Kimitsu dizia-lhe. Podia sentir a tristeza de seus pensamentos, e o quanto ele sofria por eles. Olhou para Kimitsu, pedindo-lhe que preparasse algo especial, decidindo-se por retornar aos braços de seu amante rapidamente. Não desejava que ele se sentisse assim. Havia-lhe dito que ele jamais precisaria sentir-se sozinho novamente, e cumpriria sua promessa.
Subiu rapidamente as escadas, entrando no quarto silenciosamente. Encontrou Duo agarrado a seu travesseiro. O rosto escondido de seus olhos, mas sabia que o outro chorava. Sutilmente deitou-se na cama e tomou-o em seus braços.
Duo não havia ouvido Heero entrar, embora seu coração lhe dissesse que o vampiro estava ali com ele. Foi com surpresa e alegria que o sentiu puxá-lo para seus braços, e deixou que ele o acalentasse e fizesse esquecer, mesmo que por alguns minutos a dor da saudade que sentia. Agarrou-se a Heero tal qual um homem deixado à deriva no imenso mar. O vampiro era sua tábua de salvação. Sem ele sabia que afundaria, e não desejava afogar-se na tristeza; não depois de encontrá-lo e descobrir a alegria de amar e ser retribuído.
- Quer conversar?
Duo balançou a cabeça contra o peito de Heero, negando-se a falar. Tudo o que desejava no momento era ficar ali, abraçado; e sentir que ele o amava e que ficariam juntos.
Heero pôde ouvir os pensamentos de Duo e beijou-lhe o alto da cabeça, enquanto suas mãos deslizavam suavemente pelas costas do humano.
"Então chore o que tiver que chorar meu amor. Estarei aqui para enxugar suas lágrimas por você."
Duo rendeu-se ao pranto, diante das palavras de Heero em sua mente. Há quanto tempo não chorava por eles dessa forma? Há quanto tempo negava à sua alma, tamanho alívio? Mal se lembrava da última vez em que realmente chorara como agora... por eles. Sofria todos os dias sua perda, e aprendera a mascarar sua dor através de sorrisos e piadas. O único que chegara a verdadeiramente ver sua alma completamente, fôra o vampiro que acalentava-o nos braços, murmurando as palavras de conforto de que seu coração precisava.
Afastou-se ligeiramente do corpo frio, olhando na íris azul cobalto que o observava com preocupação, e tocou com a ponta dos dedos a face fria do vampiro. Memorizando cada traço frio do belo rosto. Heero podia ver a alma de Duo através dos olhos embaçados pelo pranto. Era como se olhasse para dentro de si mesmo. Uma parte sua, refletida na alma humana. Os mesmos sonhos perdidos, as mesmas dúvidas e anseios. Tantas perguntas não respondidas, tantas escolhas não feitas. Tocou os lábios vermelhos com os dedos frios, traçando com a ponta destes cada detalhe, que era capaz de descrever de olhos fechados.
Aproximou-se mais de Duo, descendo seus lábios, sobre os do humano, que tremia levemente. O beijo foi lento e suave. Sugou os lábios de Duo, mordiscando-os; antes de adentrar a caverna úmida e quente, sugando-lhe a língua, e enroscando-se nela. Sentiu Duo ofegar por entre seus lábios, e buscar apoio em seus braços. Podia sentí-lo render-se a ele,. Render-se ao amor que sentiam. Abandonando a tristeza e a dor, de forma que esta passou a ser, apenas um mero resquício, de um pensamento esquecido.
Apartou o beijo, tendo o prazer de ver Duo com os olhos fechados, e os lábios vermelhos e inchados pelo beijo. Ao vê-lo abrir os olhos, pôde mergulhar e afogar-se no amor refletido neles. Sua face corava, diante da paixão que sentia crescer dentro do humano. Tão desejável, doce e ardente. E ao mesmo tempo inocente entregue e com tantos segredos a desvendar.
Duo respirava com dificuldade. O beijo havia sido a coisa mais doce e ardente que já sentira. Nunca imaginara que um beijo tivesse tamanha força. Perdera-se naquele beijo. Era como se dentro dele algo morresse para ganhar vida. Como se sua dor houvesse sido retirada. Mal se lembrava que pensamento que tinha antes de Heero beijá-lo daquela forma, ainda mais íntima que o amor que desfrutavam na cama.
E ao abrir os olhos; que fechara quando o prazer toldou-lhe a razão, encontrou-se mergulhado na escuridão dos olhos de Heero, que mesmo frios; transmitiam vida e calor, capaz de aquecer-lhe o mais profundo de sua alma. Podia ver o amor que sentia e dava apenas à ele. O amor que ele estivera guardando em sua alma imortal, para dar a ninguém mais que sua outra metade. Era estranho que a metade que parecia faltar em sua vida, viesse de uma criatura fadada a vagar nas trevas e na obscuridade das eras. De um ser que se imagina estar morto. Morto não apenas fisicamente, mas também em alma. E no entanto a alma de Heero era tão profunda e acolhedora. Tão quente, em contraste com seu corpo frio e sem vida. Acariciou o rosto de Heero suavemente, deixando que seu coração falasse.
- Eu te amo Heero. Com toda a minha alma... eu pertenço a você.
- Duo...
Heero abraçou Duo com mais força, diante das palavras ditas. Fechou os olhos com força negando-se a deixar que as lágrimas deixassem seus olhos. No entanto não foi capaz de fazê-lo. Duo havia penetrado em sua alma. Havia visto o que ninguém jamais observara. E agora dizia que lhe pertencia, quando na verdade era ele quem pertencia ao humano. Fôra o humano quem o resgatara da escuridão dos dias, e lhe mostrara o brilho claro da luz. Mostrara-lhe o amor e a vida; mesmo após a morte. Afastou-se, não se importando que o outro visse seu rosto manchado pelo vermelho de suas lágrimas. Não havia e nunca haveria segredos entre eles. Não necessitavam de máscaras, não precisavam esconder seus sentimentos um do outro. Partilhavam dos mesmos sonhos, dúvidas e anseios. Não desejavam nada, além de estarem juntos até o final dos tempos. Ou até que a morte, verdadeiramente os viesse abraçar.
- Eu te amo com o que restou de minha alma... e pertenço a você.
Duo sentiu seu coração parar e sorriu. Enxugou as lágrimas vermelhas, que escorriam pela pele pálida de Heero:
- Alguém já disse que você fica uma gracinha quando chora?
Heero estreitou os olhos, antes de dar um meio sorriso e imprensar o humano contra o colchão, disposto a castigá-lo pela piada. Os gritos e risadas de Duo preencheram o quarto, em meio aos pedidos de desculpas que não foram ouvidos, mas sim silenciados pelos lábios de Heero sobre os seus. Talvez fosse bom mostrar ao humano que haviam limites para certas coisas, e que conhecia muitos meios eficientes de mantê-lo calado.
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Algumas horas mais tarde:
Quatre encontrava-se na biblioteca conversando com Auda e Abdul, sobre o clã Maganac e sobre quando eram humanos. Ele e Trowa haviam se levantado a algumas horas. Pouco antes do sol se esconder por completo. Haviam se amado maravilhosamente, e bastava pensar no que haviam feito para que sentisse vontade de sair e encontrá-lo para amarem-se novamente. Mas infelizmente teria que aguardar que o mesmo retornasse da cidade, uma vez que havia saído para resolver assuntos. Era fato de que alguns caçadores pareciam estar rodeando perto da cidade, como se buscassem algo. Compartilhava com o amante da mesma opinião; de que Relena deveria estar aprontando alguma coisa. Ela não mostrava suas presas já à algum tempo. Tempo demais em sua opinião. A calmaria que vinham vivendo nos últimos dias incomodava-o. Sabia que algo estava para acontecer em breve. Ela deveria estar apenas aguardando alguma coisa, e tinha plena certeza de que não seria nada favorável a eles.
Pelo que ouvira de Treize e Trowa, duvidava muito que ela houvesse desistido de Heero... ou de Duo. Ao que parecia a outra tinha verdadeira obsessão pelo atual shuhan dos Khushrenada... e verdadeiro ódio de Treize, por ter dado a Heero a chance de se unir aos Khushrenada. As palavras de Mirla no apartamento de Duo e o aviso que esta dera de que Relena não desistiria dele, não deveria ser ignorado. Mesmo que a criatura tivesse seus próprios interesses em seu amigo.
Olhou para os líderes do Maganac, procurando prestar atenção ao que diziam. Pelas informações que deram, outros membros do clã deveriam chegar em poucas horas, e outros em poucos dias; bem como vampiros do clã dos Khushrenada e de outros clãs, que compartilhavam da mesma opinião... de que Relena deveria ser detida. Assim que todos estivessem reunidos, começariam a caçada. A ela e aos caçadores que ainda existiam. A cidade encontrava-se quase deserta. Muitos haviam deixado a cidade. Apenas alguns que entendiam da situação decidiram por permanecer e tentar ajudar. E sua família não era uma delas. Havia conseguido, a muito custo, convencê-los de que era melhor partirem. Até Rashid havia concordado, após o pedido de Auda para que fossem. Partiram buscando refúgio em outros lugares, acompanhados pelos vampiros que Heero enviara para a proteção deles. Mas haveria lugar seguro o suficiente, caso Relena conseguisse seu desejo? Era apenas uma questão de tempo. Tempo esse que sentia escorrer por seus dedos, como água. Esperava apenas que os outros chegassem logo.
Quatre teve seus pensamentos interrompidos por uma presença. Deu um meio sorriso ao sentir a presença humana aproximar-se da biblioteca. Antes mesmo que a porta se abrisse já sabia quem era. Estivera aguardando ansiosamente que o mesmo decidisse abandonar a cama, e o vampiro que mantinha-o nela por alguns minutos, e pudessem conversar. E foi com felicidade que viu Duo entrar na biblioteca.
Duo levantara há alguns minutos, sentindo-se dolorosamente ainda mais dolorido; mas maravilhosamente satisfeito. Havia deixado Heero trocando-se no quarto e resolvêra descer um pouco, antes que o vampiro conseguisse fazê-lo voltar para a cama novamente... não exatamente para descansar. Não que o fato de ser possuído repetidas vezes pelo vampiro o aborrecesse... longe disso. Achava maravilhoso ter um amante tão insaciável, e brilhantemente criativo na cama. Mas sabia também que seu corpo humano merecia o devido descanso após tantas atividades seguidas. Aliado ao fato de que um certo loiro deveria estar subindo pelas paredes, para saber se estava tudo bem com ele. Além do quê, sempre poderia voltar para os braços do vampiro ou ser raptado por este em algum momento, caso o mesmo se sentisse sozinho.
E também não queria estar presente quando Heero resolvesse indagar Treize e os outros quanto à visita de Mirla a seu apartamento. Tinha ciência de que ele não havia esquecido e dificilmente deixaria de descobrir o porquê de ninguém ter-lhe contado o ocorrido. Ele mesmo gostaria de saber porque ninguém contara a Heero. Afinal seria impossível esconder tal fato por muito tempo.
Duo vagou os olhos pela sala, e sorriu ao ver Quatre, mas o olhar malicioso que o mesmo lhe lançou o fêz corar. Podia ouvir os comentários sarcásticos e maliciosos de Quatre em sua mente... como se o amigo não fizesse nada parecido. Desde que o outro havia despertado para algumas de suas habilidades vampirescas, sempre que possível colocava-as em prática, e a que ele mais vinha utilizando era o contato mental, embora Trowa o houvesse proibido de utilizá-la desnecessariamente. Ele e Duo a usavam sempre que possível, embora conseguisse conversar melhor com Heero que com o amigo; dada sua ligação com o vampiro e as espadas.
Duo caminhou até o loiro, cumprimentando os dois lideres do clã Maganac que se encontravam presentes.
- Auda, Abdul; boa noite.
- Boa noite Duo, fico feliz que tenha retornado.
- Digo o mesmo Auda.
- Imagino que sim.
Duo sorriu ficando vermelho. Era incrível a capacidade com que vinha corando, a cada vez que alguém fazia um simples comentário, mesmo sem nenhuma cotação maliciosa. O que não parecia ser o caso de Auda no momento. Ele não tinha a mesma percepção para avaliar as fisionomias dos vampiros, como tinha com as outras pessoas. Estes pareciam dizer uma coisa e pensar outra, e conseguir não deixar isso transparecer em seus olhos.
Abdul balançou a cabeça levemente, de forma repreensiva diante do comentário de seu irmão de sangue. Parecia que o mesmo se divertia em atormentar o humano. Tanto quanto o jovem loiro, mas compartilhava da mesma opinião. De que era bom ver o humano novamente. Havia notado as mudanças que ocorreram no jovem shuhan dos khushrenada e sabia que tais mudanças não eram benéficas a ele. O retorno do jovem humano, certamente traria um bem ao jovem vampiro, tanto quanto ele o era para o humano, que parecia transbordar de felicidade. A ligação que o humano de olhos ametistas, tinha com Heero era forte. Podia-se notar apenas olhando para os dois juntos. Eles eram o que seu povo costuma chamar de Almarquinaq 1, algo muito diferente do que os povos acreditam ser almas gêmeas, ou metade de um todo. Eles partilhavam de uma única alma. E mesmo que a relação do loiro e do outro jovem vampiro de olhos verdes fosse intensa e profunda, compartilhando suas mentes e sentimentos, suas almas eram únicas, porém separadas. Individuais, apesar de unidas.
Bem diferente do jovem escolhido pela profecia, e o shuhan responsável por sua guarda. Quantos ansiavam pelo quê eles tinham encontrado? Quantos jamais conheceriam a dádiva e o tormento de ser uma única alma? Fôra poucos que encontrara que tinham essa mesma benção e maldição. O equivalente a uma gota do imenso oceano. Deu um sorriso triste ao pensar que já faziam séculos que não conhecia a dádiva do amor. A dádiva de estar amando, e ser amado em reciprocidade. Poucos eram os imortais que tinham a dádiva de encontrá-lo. Seja em um humano ou em um da própria espécie. E era por isso que lutava. Lutava para que outros tivessem essa chance. A mesma chance que a vida lhe dera, e perdera pela inexperiência de seu coração.
Olhou para Auda, que se divertia em atormentar os dois jovens. Ele havia sido uma maravilhosa aquisição ao clã Maganac, e mesmo que muitos houvessem se oposto a sua decisão quanto a torná-lo um dos lideres do clã, acertara ao fazê-lo. Mesmo contra o gosto de seu irmão Ahmad. Auda sempre demonstrara curiosidade por sua espécie, e quis o destino que eles se encontrassem e ele o abraçasse. Tornando-se seu irmão de sangue.
Duo nunca imaginaria que Auda fosse pior do que Quatre. Apesar de sua posição como um dos líderes do Maganac, ele agia como um deles, em relação a dizer coisas que deixariam quaisquer um desconcertado, pela capacidade de arrancar a verdade, através de perguntas sutis e maliciosas. Sem perceber, acabara por revelar bem mais do que gostaria sobre o que ocorrera no vale. Sabia que irremediavelmente acabaria por contar a Quatre o que ocorrera, mas não que revelaria a Auda e a Abdul. Se bem que não achava que o outro estivesse prestando atenção ao que dizia.
Quatre notou que Duo estava vermelho como um pimentão, e achou melhor parar de atormentá-lo antes que alguém lhe arrancasse o couro, por fazer Duo confessar sua intimidade.
- Ok Duo, nos contentamos com isso. Não quero que Heero me mate, por fazê-lo contar mais do que devia.
- Agradeço sua consideração.
Duo deu um sorriso sarcástico, antes de voltar seu olhar para a lareira, sentindo-se melancólico. Precisava ocupar sua mente com algo, ou acabaria retornando aos pensamentos que o atormentavam. Olhou para a camisa azul escura que vestia, o que o fez lembrar-se de que precisava buscar algumas roupas.
- Quatre, você se importaria de ir comigo a cidade? Eu preciso pegar algumas roupas. As de Heero ficam um pouco largas em mim.
- De forma alguma. Nos acompanha Auda, Abdul?
- Claro, deve ser mais interessante que ficarmos no castelo aguardando algo acontecer.
- Agradeço o convite Quatre, mas terei de recusar, tenho alguns assuntos a tratar com Treize.
- Entendo, neste caso seremos apenas eu e Auda a acompanhá-lo Duo.
- Ótimo, vou avisar Heero que iremos à cidade. Onde está Trowa? Ainda não o vi.
- Ele foi à cidade resolver umas coisas.
- Ah! Então é por isso que você aceitou ir comigo.
Duo riu diante da expressão de Quatre, que ficara ligeiramente mais pálido, como se houvesse sido pego mentindo. Ele ainda tentou negar, mas Duo não permitiu que ele terminasse com seu gostinho pela vingança por ter sido atormentado pelo amigo e Auda.
- Não negue loirinho, seus olhos dizem claramente que você aceitou apenas por que era vantajoso para você.
- Não pode me censurar por isso.
- Tem razão, mas posso atormenta-lo. Ah! isso eu posso.
Quatre sorriu ironicamente enquanto via Duo sair novamente da sala em direção aonde Heero se encontrava. Ele e Auda despediram-se de Abdul, seguindo até onde se encontrava Kimitsu que rapidamente providenciou um carro para levá-los a cidade. Em poucos minutos Duo retornou, dizendo que não poderiam demorar, mas não se ateve a detalhes, o que não impediu Auda e Quatre de imaginarem a razão. Certamente se Duo demorasse além do esperado, por certo acabariam por retornar ao castelo na companhia de Heero que com certeza iria buscar o amante na cidade.
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Heero deixou o quarto após a saída de Duo. Planejava falar com Treize, mas achou melhor aguardar o retorno de Trowa e Quatre. Afinal o assunto também dizia respeito aos dois e não tencionava fazer as mesmas perguntas várias vezes, quando poderia fazê-lo uma única vez. No momento estava propenso a procurar Abdul e indagar-lhe mais sobre o Necro, precisava estar apto a confrontá-la quando fosse necessário, e tinha certeza de que o momento chegaria.
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No dia seguinte:
Duo e Quatre haviam retornado da cidade há algumas horas. Na verdade haviam se demorado além do que previam, ao encontrarem com Zechs e ficarem conversando. Depois acabaram indo para a casa do árabe que se encontrava vazia, e aproveitaram para pegar algumas coisas e fazerem um lanche, e não foi surpresa alguma que Heero e Trowa aparecessem, perguntando o que faziam sozinhos ali, com o risco de serem atacados. Duo corou diante do sermão. Na verdade eles não pretendiam demorar-se tanto, mas acabaram esquecendo-se de que haviam saído escondidos do castelo, e ficado quase cinco horas fora. Duo interrompeu seus pensamentos e voltou seu olhar para Heero que o observava, levou a mão à garganta diante dos pensamentos que invadiam sua mente atordoando-o. Viu um ligeiro sorriso nos lábios de Heero, segundos antes de ouvir a ordem em sua mente.
"Corra."
Duo levantou-se e deixou a sala correndo, diante da ordem que não aceitaria uma contestação. Todos estranharam o comportamento do humano. Catherine que se encontrava sentada ao lado de Heero, virou-se para perguntar se ele sabia o que havia acontecido a Duo, mas o vampiro de olhos azuis cobalto não se encontrava mais a seu lado ou na sala.
Duo passou correndo por alguns vampiros em direção à porta de entrada. Apesar de sorrir, ele tinha ciência de que precisava deixar o castelo antes que Heero o alcançasse, ou certamente o vampiro faria com ele o que havia lhe mostrado mentalmente, por ter desobedecido a suas ordens, ter saído castelo e tê-lo feito ir atrás dele. Mas infelizmente ao abrir a porta, Heero já se encontrava do lado de fora esperando-o, com um sorriso sarcástico.
- Vai a algum lugar?
Duo recuou e mordeu os lábios, sentindo a excitação tomar conta do corpo.
- Ia.
- Você foi lento demais.
Duo deu um sorriso malicioso e aproximou-se lentamente do vampiro, tendo o prazer de ver a íris azul cobalto avermelhar-se diante de suas palavras, ditas de forma baixa e sugestiva:
- E o que pretende fazer quanto a isso?
- Tenho muitas idéias de castigá-lo, e se bem me lembro ainda lhe devo um castigo pela fuga de vocês essa tarde.
- Não achei que se lembrasse.
- Não costumo me esquecer das coisas Duo, e eu prometi que iria castigá-lo mais tarde.
Duo riu alto, ao ser puxado para fora, ser erguido nos braços do vampiro e ter os lábios tomados de forma ardente e sugestiva. As imagens que povoaram sua mente na biblioteca e que o haviam deixado febril retornaram, e esse se viu gemendo pelo que Heero prometia fazer com ele. A madrugada prometia ser longa e prazerosa.
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Três dias depois:
Wufei olhava com desgosto para o aparelho de som ligado. Não conseguia entender como os dois conseguiam lutar, com aquela porcaria tocando. Ou eles estavam realmente concentrados ou faziam isso apenas para irritá-lo. Mas ao ver Quatre quase acertar Duo com uma nas Heath Scythe no peito soube que a segunda opção era a mais acertada.
- Duo, concentre-se direito. Sua guarda está baixa demais, Quatre poderia abrir um rombo no seu peito.
- Eu estou me concentrando.
- Não parece.
Duo bufou e procurou não ligar para a batida da música, mas sim para as armas que seu amigo vampiro, manejava tão bem. Como se fosse uma extensão dele mesmo. Sua camisa novinha tinha agora um rasgo de quase vinte centímetros de largura do lado esquerdo, na altura do peito. Olhou para Quatre que parecia se divertir, uma vez que tinha um sorriso malicioso, nos lábios ligeiramente pálidos.
Quatre podia sentir a irritação de Duo; mas ele não tinha culpa se o amigo havia se descuidado e aberto à guarda, que permitiria que um caminhão passasse por ela. Além do quê, a decisão de irem para perto da floresta e trazerem o rádio com um cd de música havia sido idéia de Duo. Ele apenas concordara de que seria um ótimo modo de irritar Wufei, uma vez que eles haviam ido buscar o amigo logo cedo, dizendo que precisavam retomar os treinamentos.
- Wufei tem razão Duo, eu poderia tê-lo ferido seriamente.
- Então se concentre para não fazê-lo, e eu me preocupo em não deixar você me acertar.
- E mais fácil eu fazer isso do que você impedir-me de acertá-lo.
- Huuummm... nossa... alguém ficou tão pedante depois que se tornou um vampiro, que nem consigo ver o anjinho que quase tinha um ataque ao acertar um golpe mais forte em alguém.
Duo viu os olhos de Quatre estreitarem-se, assim como um lampejo avermelhado cobrir as íris azuis como o céu, por meros segundos. Uma risada foi ouvida:
- O anjinho morreu e eu não provocaria o demônio se fosse você.
Duo estreitou os olhos, diante das palavras suaves e do aviso escondido nelas; depois começou a rir, ignorando os olhares surpresos de Auda e Wufei, mediante o diálogo entre os dois. Rapidamente analisou sua posição em relação a Quatre, e se teria tempo de acertá-lo, antes que o mesmo reagisse. Posicionou-se melhor, andando em círculos e fazendo Quatre fazer o mesmo:.
- Se eu tivesse medo de demônios, não me deitaria com um; e nem aguardaria ansiosamente que ele me tornasse um. Respondeu-lhe da mesma forma suave.
Quatre estreitou os olhos, ao amparar o golpe de Duo, que lhe abriu um corte de quase um centímetro em seu braço direito. Duo havia se tornado mais rápido no ultimo meio segundo, e sabia que não deveria provocá-lo da mesma forma que o amigo evitava fazê-lo. Mesmo que ele houvesse se tornado um vampiro, e Duo continuasse humano, sabia que não deveria subestimá-lo. Procuraram se concentrar melhor no que faziam, e quase já não ouviam mais a voz de Auda e Wufei a uns bons minutos, preocupados apenas nos movimentos um do outro. Quatre sorriu ligeiramente ao notar que o treino havia evoluído de nível em pouco mais de meia hora, embora talvez, ele pudesse tornar o treino mais acirrado. Conseguiu quebrar a defesa do amigo e empurrá-lo para longe, enquanto mentalmente expunha sua idéia.
"O que acha de irmos para outro lugar e lutar como se deve? duvido que Wufei ou Auda permitam isso, se continuarmos aqui."
"Como se deve!."
"Sim, se quisermos ser fortes, devemos lutar como se nossas vidas dependessem disso. E não iremos conseguir se ficarmos ouvindo Auda e Wufei berrar conosco, cada vez que acertarmos um golpe um no outro."
Duo ponderou por alguns segundos e sorriu, balançando a cabeça, segundos antes de Quatre desaparecer por completo, e ele resolver segui-lo.Wufei viu o olhar de Duo e Quatre tornarem-se sombrios antes dos dois simplesmente correrem de suas vistas em direção a floresta, sem dar-lhe tempo de pará-los.
- Quatre! Duo! Voltem aqui.
Auda viu Quatre e depois Duo correrem sumindo na floresta. Havia notado uma certa tensão entre os dois, mas não imaginava que iriam levar a sério o que via reluzindo em ambos os olhares. Parecia que eles haviam se esquecido completamente de que eram amigos e que estavam apenas fazendo treinamento e não uma luta que terminaria apenas com um deles morto. Viu que a cada golpe desferido contra seu adversário, eles se concentravam mais e mais na luta, esquecendo por completo de que não estavam sozinhos. Viu quando o humano de cabelos negros gritara o nome dos dois, e que ambos o ignoraram. Deveria ter imaginado e tentado pará-los, no entanto ficara maravilhado pela forma como ambos lutavam juntos, quase em sincronia; e deixara que escapassem, mas o treino se é que ainda poderia chamar assim há muito havia tornado-se outra coisa.
Concentrou-se nas presenças dentro do castelo buscando por uma delas. Virou-se para o humano que ameaçava seguir os outros dois dentro da floresta e o deteve, segurando-lhe o braço e balançando a cabeça. Ele não deveria seguir sozinho. Não conseguiria impedir os outros dois. Estes ouviriam apenas a uma pessoa. Mentalmente focalizou sua atenção na presença com que desejava falar e em poucos segundos obteve permissão para contato.
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Trowa ouvia Heero conversar com a pessoa que ele aguardava, quando sentiu um toque em sua mente, seguida de uma sensação de infinita e estranha alegria. Ele afastou-se um pouco, dando ao vampiro que o contatava permissão para entrar em sua mente e falar com ele.
"Trowa acho melhor você e Heero virem aqui agora mesmo."
"O que houve Auda?"
"Duo e Quatre levaram o treino um pouco a sério demais e sumiram dentro da floresta. Temo que se não forem detidos, acabem se machucando."
Trowa ficou em silêncio por alguns instantes, procurando sentir à presença de Quatre, e notando que era dele as sensações estranhas de alegria e contentamento. Podia sentir a alegria e prazer que ele sentia, era como se ele estivesse em uma caçada e não queria nem imaginar quem era a presa.
"Quatre.."
Tentou alcançá-lo mentalmente, mas seu amante bloqueou-lhe os pensamentos, ignorando seu chamado. Irritado, acabou praguejou e chamando a atenção de Heero, que voltou-se para ele, ao notar que algo estava errado. Havia notado que a presença de Duo estava se afastando do castelo. Sabia que ele e Quatre haviam marcado um treino com Auda e o humano chamado Wufei, e não entendia o porquê deles se afastarem tão rapidamente do castelo. Mas parecia que Trowa sabia o motivo.
- O que está havendo Trowa?
Trowa olhou para Heero e para o outro homem que havia chegado já á algumas horas, mas que somente naquele momento havia sido recebido por Heero. Voltou seu olhar para o shuhan, sabendo de antemão que a notícia não o agradaria.
- Auda disse que Duo e Quatre levaram o treinamento à sério demais. E ele teme que ambos se machuquem.
- Ez vzch irnz mafhkou. 2
O homem de cabelos negros viu os olhos de Heero avermelharem-se, e este dizer algo na língua dos vampiros, e que se não estava enganado era uma ameaça clara quanto ao que pretendia fazer aos dois a quem Trowa se referia. Recuou temeroso, diante da frieza e força que sentia vir do vampiro. Não imaginava quem eram os dois, mas era certo de que Heero não ficara muito satisfeito com a notícia que recebera acêrca deles. Voltou-se para o vampiro, ao ouví-lo falar com ele, e meneou a cabeça, antes de desaparecer, afim de cumprir suas ordens.
- Hugh encontre-os. Um deles é meu companheiro, sendo assim não será difícil rastreá-lo. Proteja-o, mas não os machuque.
Trowa viu Hugh desaparecer e olhou para Heero, temeroso quanto a sua decisão. Não achava ser uma boa idéia mandar Hugh atrás de Quatre e de Duo. Heero ouviu os pensamentos de Trowa ao olhar dentro de seus olhos. Ignorando sua expressão de dúvida, pôs-se a caminho de onde seus amantes deveriam estar.
"Não se preocupe com Hugh, mas no que eu vou fazer com eles quando os encontrar."
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Vários minutos depois - Em uma parte da floresta:
Duo respirava pesadamente, e mesmo que fosse impossível ocorrer o mesmo com Quatre, este parecia ter a mesma dificuldade em respirar que ele. Olhou para o estado de suas roupas e para as do amigo. Ambos se encontravam machucados, e com sangue escorrendo proveniente dos golpes de suas armas. Sabia que Quatre poderia muito bem fechar os cortes que deixavam o sangue escorrer por seu corpo, mas o vampiro havia optado por não fazê-lo, visto que o amigo humano não possuía a mesma vantagem. Cada um aguardava que o outro desse o próximo passo. Sabiam que haviam extrapolado no treinamento, haviam deixado que a adrenalina corresse livremente e lhes toldasse a razão, mas não estavam dispostos a voltar atrás.
Quatre olhou para seu estado e para o de Duo. Haviam se excedido. Ele mais ainda, quando deixara que seu sangue fervesse pela batalha, mesmo que a idéia de que deveriam lutar como se fossem realmente inimigos tivesse partido dele. Embora soubesse que se ainda fosse humano, já teria parado a luta há muito tempo, quando a mesma tornou-se violenta demais. Sentira Trowa em sua mente procurando-o, e o bloqueara. Assim ele levaria algum tempo até encontrá-los, dado o fato de que havia aprendido a esconder sua presença e a de Duo, há dois dias atrás, quando resolveram deixar o castelo desapercebidos, e irem a cidade; sem que Trowa e Heero soubessem. Entretanto os amantes os haviam encontrado em sua casa poucas horas depois, e levaram a maior bronca de suas vidas. Mas o fato de haver descoberto mais sobre suas novas habilidades havia valido a pena. Mas tinha consciência que era questão de minutos até que fossem encontrados, e sabia muito bem que seus respectivos amantes não ficariam nem um pouco felizes aos vê-los, e acabariam por levar muito mais que um simples sermão deles.
- Vamos levar mais do que uma bronca quando nos acharem.
Duo deu um meio sorriso diante das palavras de Quatre. Realmente... Heero e Trowa certamente teriam um ataque quando os vissem. Como se não bastasse a fuga de dois dias atrás. Tudo bem que recebêra um castigo maravilhoso, mas havia prometido ao vampiro nunca mais fazer aquilo. E agora faziam uma dessas. Certamente levariam uma surra ou algum castigo e dessa vez duvidava que acabaria no meio do mato com Heero possuindo-o.
- Eles vão dizer que tentamos nos matar.
- E não estarão tão longe da verdade, não é?
Duo arqueou a sobrancelha, diante das palavras de Quatre. Embora estas tivessem um fundo de verdade. Eles realmente haviam quase se matado há alguns segundos atrás, quando Duo alcançara Quatre e por pouco ele não perdera a vida, quando uma das Heath Scythe de Quatre quase o degolara. Talvez o treinamento houvesse escapado de suas mãos, quando resolvêra aceitar a proposta de Quatre e correra atrás dele floresta adentro, ignorando os gritos de Wufei e Auda.
- Tem razão. E estamos num impasse agora.
Quatre sorriu, com os olhos avermelhados brilhando, ao lembrar-se dos gritos de Wufei minutos atrás. Mas a verdadeira lembrança que o fez começar a rir, quase levando-o as lágrimas era bem diferente, e vinha de bem antes deles imaginarem que vampiros existissem.
- Lembra aquela música que você fez quando começamos a treinar e que costumávamos cantar, com o falso argumento de que era para nos envolver na luta? O que irritava Wufei, dizendo que isso apenas tirava nossa concentração?
Duo abaixou as duas espadas e começou a rir, sentindo todo o corpo protestar. Sim, ele lembrava muito bem daquele dia. Wufei quase tivera um ataque quando ele começara a cantar, e do nada, Quatre o acompanhara criativamente, para desespero do amigo chinês. Mas de fato isso o animou no dia, e cada vez que estavam tensos durante o treino de luta, eles a cantavam para coordenar os movimentos ou simplesmente para irritar o amigo... fazia tanto tempo.
- Lembro sim, mas não foi apenas eu, quem fez a letra, você também ajudou.
- O que acha de a cantarmos agora?
Duo balançou a cabeça em acordo, seria bom para se soltarem e não acabarem se matando.
- Legal... mas pode ser ela não surta o mesmo efeito de antes, e acabemos perdendo ainda mais o controle.
- É possível.
Duo apoiou-se nas espadas, sorrindo ao fazer o pedido sincero.
- Promete não me matar?
- Vou tentar... eu prometo.
Duo sorriu, diante do sorriso cínico do amigo, mas sabia que ele faria o possível, para não machucá-lo seriamente. Duo fincou as espadas no chão e retirou o que restara de sua camisa, vendo Quatre fazer o mesmo com a dele. Respirou fundo, e deu um passo a trás empunhando as espadas, procurando lembrar-se da letra. Quatre sorriu ao ouvir o amigo começar a cantá-la, procurando encontrar um ritmo, até que investisse contra ele em uma das frases.
Você acha que pode me deter?
Me ferir e até machucar.
Hn, vou mostrar o quanto eu mudei,
e que não sou mais só um garoto.
Eu sei lutar,
Eu sei bater
e você vai ver como eu sou bom.
Quatre amparou o golpe de Duo, chutando-o no alto do abdômen com força. Este recuou um pouco diante da dor, mas conseguiu impedir que uma das lâminas de Quatre cortasse sua barriga de um lado ao outro, ao ampará-la com Yami, ao mesmo tempo em que girou a outra espada e tentou acertar o vampiro no braço. Quatre amparou o golpe da outra espada de Duo, com a outra lâmina, impedindo que o atingisse no braço esquerdo. Torceu o pulso levemente, fazendo a lâmina da espada de Duo escorregar e encaixar na curva de sua Heath Scythe, prendendo-a.
Lutar? Bater?
As bonecas de minha irmã, causam mais
dano que a carícia que você diz ser um soco.
Vou te ferir e machucar.
Portanto cresça garotinho, porque aos meus
olhos, você ainda tem muito que aprender
até conseguir pensar em me derrotar.
Duo sorriu sarcasticamente diante das palavras cantadas por Quatre, de forma cínica. Wufei teria um ataque se soubesse que eles ainda usavam essa música, se é que poderia se chamar à letra de musica. Era apenas uma troca educada de insultos como Quatre dissera certa vez. Apenas algo para descontraírem juntos. Uma letra criada, há muito tempo, quando nem imaginavam que um dia precisariam realmente utilizar as técnicas ensinadas por Wufei.
Duo usou o joelho para acertar as costelas de Quatre fazendo-o grunhir, e se afastar. Correu na direção do loiro girando o corpo por cima do vampiro, segundos antes de Quatre cortar o ar a sua frente, passando uma das lâminas a milímetros do seu rosto. Um filete de sangue escorreu por sua face indicando que não havia sido rápido o suficiente e que a ponta dela o acertara, mas ficou feliz em saber que Quatre também não havia sido rápido o bastante para evitar que Yami, lhe cortasse as costas. Viu os olhos dele tornaram-se rubros diante da dor, quando o mesmo girou o corpo parando a lâmina da Heath Scythe a centímetros de seu pescoço fazendo-o respirar mais pesadamente.
Eles ficaram olhando-se por vários segundos, mas que pareceram horas. Duo se encontrava em uma posição que o deixava a mercê de Quatre, e no momento não sabia se lidava com seu amigo ou com a natureza sombria dentro dele. Quatre sorriu diante da vantagem, sua língua passando pelas presas em sua boca. O cheiro do sangue de Duo chegava a suas narinas, como um verdadeiro afrodisíaco que não merecia ser ignorado devido ao delicioso aroma.
- Você tem um sangue deliciosamente cheiroso.
Duo estreitou os olhos diante das palavras de Quatre, antes de dar um meio sorriso e provocá-lo.
- E o sabor é ainda melhor, mas você não vai ter a chance de saber.
- Acha mesmo?
Sem saber como, Duo viu-se jogado no chão com força, o que o fez gemer de dor diante da violência inesperada. O ar deixara seus pulmões violentamente e deu-se conta de que tinha um loiro de olhos vermelhos sobre seu corpo a centímetros de sua bochecha. Ofegante diante da surpresa do ataque, Duo olhou nos olhos de Quatre, advertindo-o quanto aos pensamentos que ele deixava transparecer em sua mente.
- Se me lamber, o Heero vai te matar.
- Não se você não contar a ele...se bem que...
Duo viu os olhos de Quatre fraquejarem entre o vermelho e azul, fazendo-o imaginar o que ele não completara, entretanto não teve tempo para divagar sobre isso, quando viu Quatre aproximar-se mais de seu rosto, Duo arregalou os olhos quando Quatre lambeu o sangue em sua bochecha, então tão de repente quanto o atacara, Quatre já se encontrava junto a suas Heath Scythe amparando o golpe de espada de um homem de cabelos negro-azulados. Duo sentou-se a tempo de ver Quatre facilmente desarmar o homem e atacá-lo, prestes a cortar-lhe o braço e a cabeça, pelos movimentos fluidos de seu corpo.
- QUATRE NÃO!
Duo mal teve tempo de pegar Yami e tentar detê-lo, quando se surpreendeu com o fato do desconhecido ter conseguido segurar as lâminas com os dedos.
Quatre estreitou os olhos diante do que vira. O homem à sua frente não podia ser humano; ele era forte, possuía um cheiro desagradável, que lhe causava um certo desconforto com sua simples presença. Entretanto ele não seria derrotado por um mero desconhecido. Tinha suas habilidades, o que lhe ajudava a não depender apenas de suas armas, durante um combate. Concentrou-se, invadindo a mente do homem a sua frente, podia sentir a dor dele, a dor causada em sua mente pela invasão, mas mesmo assim ele não soltou as lâminas. Seus olhos reluziram perversamente imaginando qual seria o melhor meio de destruir a mente dele, estava a ponto de pôr em prática que o decidira, quando sentiu a presença e a voz de Trowa em sua mente.
"Quatre pare. Ele não é seu inimigo"
"Ele me atacou."
Trowa parou, sentindo-se atordoado, pela força dos pensamentos e emoções de Quatre. E demorou-se um pouco em respondê-lo.
"Por Deus Quatre! Você e Duo desapareceram, e pelo que sei, estavam quase se matando, ele tinha ordens de encontrá-los."
Quatre ignorou a voz de Trowa em sua mente, deliciando-se em causar dor ao homem. Notou que os olhos do outro mudaram, tornando-se afilados e maiores. A íris mudou do castanho claro, para ligeiramente dourado, enquanto as unhas de sua mão cresciam, bem como um pêlo escuro começava a cobrir todo seu corpo. Mal registrou quando o homem ou criatura que não sabia o que era, conseguira arrancar as Heath Scythe de suas mãos e o agarrara pelo pescoço. Duo viu a transformação do outro homem, que agora tinha o dobro de seu tamanho. Agarrou a espada e partiu para cima da criatura, antes que esta matasse Quatre. Entretanto a criatura amparou o golpe da espada, e o jogou para longe facilmente. Duo bateu com o corpo no chão violentamente, rolando alguns bons metros de onde Quatre estava. Ele pôde apenas ouvir a voz de Quatre chamando seu nome, enquanto se recuperava da dor que assolava cada músculo do corpo.
- Duo!
Quatre viu o amigo voar longe, caindo no chão com violência. Suas presas cresceram e ele segurou a mão que apertava seu pescoço, apoiando-se nela e jogando seu corpo para trás, pra cima e depois para frente chutando o rosto da criatura o que segurava, enquanto usava sua mente para causar-lhe ainda mais dor. Ele viu os dentes da criatura crescerem, bem como o rugido de dor diante do ataque físico e mental. A criatura sentia sua mente queimando pela invasão mental do vampiro, o que o fez soltá-lo e segurar a cabeça que parecia explodir. Ao ser soltou Quatre aproximou-se de Duo, tocando o amigo, que balançou a cabeça dizendo estar bem. Seu pescoço doía, mas não era nada, comparado ao que faria à criatura por tê-los atacado e ferido. Levou a mão ao pescoço, concentrando sua mente em atacar a criatura, mesmo que isso o levasse ao esgotamento. Mataria-a antes de sucumbir.
Duo olhava para a criatura que os olhava com raiva. Olhou para as mãos dela que tinham dobrado de tamanho, bem como as presas enormes que saiam dos lábios, mergulhados na espuma branca que saía da boca. A criatura parecia um animal raivoso o que não duvidava que fosse exatamente isso que sentia no momento. Procurou levantar-se apoiando-se em Quatre, que mantinha seu olhar preso a criatura que urrava ensandecida. Não sabia o que o amigo estava fazendo, mas certamente era algo bastante doloroso, dada a forma com que a criatura urrava e segurava a cabeça que havia se alongado como as mãos. A criatura viu o humano amparar-se no vampiro, que o olhava com a mesma raiva. Embora houvesse um toque de perversidade em seus olhos avermelhados. A invasão a sua mente doía muito, causando-lhe confusão e raiva mas não deixaria o vampiro sair-se bem:.
- Olha Duo, acho que temos um cachorro gigante como adversário.
A criatura rosnou e abriu mais a boca, mostrando uma fileira de dentes longos e afiados, que fez Duo engolir seco, ao imaginar o quanto de carne aquela criatura poderia arrancar dele com apenas uma mordida. A criatura socou o chão com ambas as mãos, abrindo uma cratera, antes de uma voz gutural replicar as palavras irônicas de Quatre, fazendo Duo sentir todos os pêlos de seu corpo arrepiarem-se diante da voz sinistra que tinha a criatura, e não podia contestar; esta tinha a aparência de um cão, embora mais selvagem.
- E olha, ele tem dentes grandes.
- Bem mais que você vampiro, e vou adorar estraçalhá-lo.
- Vai precisar de mais que uma fileira de dentes desenvolvidos para acabar comigo totó.
Duo olhou de soslaio para Quatre que já parecia ter se recuperado do golpe, e trocava farpas com a criatura que parecia não mais um cachorro selvagem, mas uma criatura enorme, como nos filmes de monstros. Duo manteve a espada erguida, ao ver a criatura avançar com incrível velocidade contra eles, diante das palavras de Quatre. Duo engoliu em seco, pronto a contra atacar, mesmo que sentisse cada pêlo em seu corpo reagir à figura sinistra que investia contra eles. Firmou Yami com ambas as mãos, pronto a atravessar o peito da criatura, ciente de que não sairia ileso do combate. Quatre juntou suas costas a de Duo, empunhando as Heath Scythe que havia recuperado, pronto a fatiar o cachorro gigante. Os olhos de Quatre estreitaram-se e ele manejou as lâminas de suas Heath Scythe, de forma separar os braços do corpo da criatura de forma que ela não tivesse tempo de ferir Duo ou a ele mesmo:
- Parem! Ouviram a voz de Heero, e a criatura parou a poucos centímetros de Yami e das Heath Scythe, ao ouvir a ordem.
Heero não sabia se matava Duo e Quatre, se torturava os dois, ou se deixava Trowa castigar o amante, enquanto ele se encarregava de Duo. O estado em que os dois se encontravam não era dos melhores. O cheiro de sangue impregnava o lugar, mesmo com a brisa suave e qualquer vampiro os encontraria facilmente. Ele viu Hugh a poucos centímetros do fio da espada de Duo e das lâminas das Heath Scythe de Quatre e não precisava ser um gênio para saber que ele os estava atacando.
- Recue Hugh. Duo abaixe a espada. Quatre detenha-se suas Heath Scythe.
Hugh recuou com um ligeiro rosnado, retornando à sua aparência normal em segundos. Duo abaixou a espada e olhou para Heero que tinha os olhos vermelhos, e olhava para ele e Quatre com verdadeira irritação. Quatre quebrou o contato mental com a criatura a contragosto, abaixando as Heath Scythe e voltando a aparência angelical de sempre. Trowa adiantou-se para ficar ao lado do amante, mas Heero ergueu a mão impedindo-o de aproximar-se dos dois. Ele queria explicações antes, e as teria; de uma forma ou de outra.
- Expliquem-se.
A voz fria e imperiosa de Heero fez os dois voltarem-se um para o outro. Nenhum dos dois sabia o que dizer. Não diante da irritação que sentiam vir de Heero. Hugh olhou para o loiro e para o outro de cabelos longos, aguardando que dissessem algo, mas parecia que nenhum dos dois parecia saber por onde começar. Quando chegara há algumas horas, não imaginava que teria que começar a trabalhar tão cedo, embora não houvesse sido difícil encontrar o rapaz de olhos ametistas como Heero pedira. O humano tinha o cheiro do vampiro impregnado no corpo inteiro. A voz fria de Heero cortou-lhe os pensamentos e fez Duo e Quatre pularem internamente.
- Ainda estou aguardando. E Hugh, que eu me lembre eu pedi que os encontrasse; não que lutasse com eles.
Heero deu um passo a frente fazendo Quatre e Duo recuarem, diante de sua voz que soara ainda mais fria. Hugh deu um passo a frente diante da acusação, afinal o loiro o atacara e o humano tentara ferí-lo.
- Eu o encontrei como ordenado, o vampiro ia mordê-lo e me atacou. O que queria que fizesse? Ficasse olhando?
Heero direcionou seu olhar a Quatre, que recuou. O loiro olhou para Trowa, que tocou o braço de Heero, fazendo olhá-lo de soslaio. Ele não tencionava ferir Quatre, apenas porque não acreditava que o vampiro fosse capaz de morder o amigo realmente, mas Hugh não teria dito tal coisa se não os houvesse achado numa posição que indicasse tal fato. Heero olhou para Duo ao vê-lo entrar na frente de Quatre, como se fosse interceder a seu favor. Duo enfrentou o olhar de Heero, colocando-se entre ele e o amigo, dando um passo na direção do vampiro; olhando para Hugh com os olhos irritados diante da posição em que o mesmo os colocara. Sua voz soou tremida, o fazendo praguejar mentalmente, afinal ele estava na frente do amante e não de um desconhecido que iria machucá-lo.
- Nós nos... empolgamos um pouco Heero, mas não foi...
- Nada de mais!
Duo calou-se diante das palavras de Heero que soara ligeiramente sarcástica. Heero aproximou-se de Duo, ficando a apenas poucos centímetros dele. Os olhos do vampiro percorreram seu corpo, notando cada corte, arranhão e machucado proveniente do nada de mais que não completara. Deixou o amante lentamente, e aproximou-se de Quatre que sustentou-lhe o olhar, apesar de sentir cada pêlo de seu braço arrepiar-se, diante da análise do shuhan em seu corpo. Trowa deu um passo, ao ver Heero seguir na direção do amante, e parou diante da voz em sua mente.
"Não vou feri-lo Trowa, não se preocupe. Embora ache que não apenas ele, como também Duo, mereçam um castigo adequado desta vez."
Duo virou-se para Heero vendo-o fazer com Quatre o mesmo que fizera com ele. Embora seus olhos não tivessem a mesma centelha de luxúria que aparecera há poucos instantes quando o vampiro percorra seu corpo com o olhar. Olhou para Trowa, que balançou a cabeça, diante da pergunta silenciosa. Não tinha a mínima idéia do que Heero planejava fazer. Sentira ímpetos de; colocar-se ao lado do amante, e o faria se Heero não lhe houvesse dito de que não feriria Quatre.
Auda assistia a cena ao lado do humano Wufei, que não conseguia acreditar no que os amigos haviam feito a si mesmos. O estado deles estava bem pior do que quando sumiram por entre a vegetação da floresta, e não queria nem imaginar como terminaria se não houvessem sido encontrados.
Heero afastou-se de Quatre após o termino da análise, e voltou-se para Duo; agarrando o braço do humano com força, fazendo-o gemer ligeiramente em desconforto pelo aperto. Heero lançou um olhar para Trowa que meneou a cabeça. Duo foi arrastado na direção de alguns arbustos, longe dos olhos dos outros, lançou um último olhar para Quatre, que recebia o mesmo tratamento por parte de Trowa, arrastando-o para algum lugar.
Duo foi arrastado por Heero por alguns metros antes de ser solto, e notar que tinha um novo arroxeado no braço. Massageou o local suavemente, enquanto Heero permanecia de costas, mas parou e escondeu o braço assim que o vampiro se virou, despejando sua raiva e irritação:.
- Vocês poderiam ter se matado sabia?
- Heero... reconheço que fomos um pouco longe demais, mas...
- Mas... o que? Se Hugh não houvesse aparecido, o que vocês fariam? E não me diga que estavam treinando.
Duo calou-se e abaixou a cabeça, erguendo-a quando sentiu um toque em seu braço.
Heero estava observando o rosto de Duo, aguardando uma resposta satisfatória à sua pergunta, quando notou o braço e a marca que causara no amante, ao segurá-lo com força e arrastá-lo com ele. Aproximou-se, tocando-lhe o braço e beijando suavemente a marca arroxeada que causara. Estivera tão nervoso que não contivera sua força.
- Sinto muito.
Duo sorriu diante do pedido de desculpas do amante por tê-lo marcado. Sabia que o fizera sem querer, diante da irritação que ele e Quatre causaram. Deslizou sua mão sobre a de Heero cobrindo-a:
- Não, eu que peço desculpas. Nós acabamos perdendo o bom senso. E concordo que poderíamos ter nos matado.
Heero balançou a cabeça concordando por hora. Puxou o humano para seus braços, perdendo-se no calor do corpo junto a si; correndo a mão pela longa trança silenciosamente, deixando que Duo repousasse a cabeça em seu ombro, abraçando-o pela cintura. Sabia que Quatre e Duo jamais se feririam de propósito, mas com os ânimos alterados pela adrenalina achava meio difícil que ambos se contessem por completo, o que poderia ter causado um dano muito maior um ao outro. E jamais se perdoaria se deixasse isso acontecer.
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Quatre se deixou ser arrastado por Trowa, enquanto via o mesmo ocorrer com Duo. Sabia que estavam bem encrencados dessa vez.
Trowa soltou Quatre, e olhou dentro dos olhos claros do amante antes de abraçá-lo. Deveria o estar repreendendo, mas estava tão feliz por ele estar bem e ileso. Quer dizer, parcialmente. Livre da raiva de Heero que não se contivera. Quando Auda comunicou-os mentalmente de que Quatre e Duo haviam se enganchado fervorosamente na batalha, que havia desaparecido na floresta e que alguém deveria detê-los, preocupou-se. Ainda mais quando Heero mandou Hugh atrás dos dois. Sabia que ele não iria ferí-los, mas sabia também que os dois certamente atacariam Hugh, e conseqüentemente o mesmo iria se defender, mesmo que isso fosse ir contra as ordens de Heero e o que encontraram certamente era o esperado. Trowa soltou Quatre, e olhou para o amante, que não parecia nem um pouco preocupado com a situação dele, ou do que Heero poderia ainda vir a fazer, fato esse que não saia de seu pensamento. Sabia que certamente Heero não deixaria passar em branco essa segunda vez. Entretanto, outra coisa o perturbava. O fato de Quatre ter enfrentado Hugh, expondo Duo ao perigo, mesmo o amante sabendo o que o outro era. Porque sabia muito bem, que Quatre tinha conhecimento do que Hugh era.
- Droga Quatre, Hugh poderia tê-los matado sabia?
- O cachorro gigante!
Trowa olhou friamente para o amante, diante da gracinha que não vinha em boa hora, em sua opinião.
- Ele não é um cachorro, mas um Lycan3.
- Lycan! É uma raça de cachorro?
- Quaatreee...
Quatre calou-se diante do tom de Trowa. Ele sabia o que era um Lycan, e sabia que não havia chances de sair ileso se lutasse com um.
- Desculpe. Não parei para pensar que ele era um.
- Isso não justifica o que você e Duo fizeram.
- Não pretendo me justificar.
Trowa olhou para o amante, que sustentava seu olhar... fazendo-o, mesmo a contra gosto sorrir. Seu anjo estava se tornando impossível... e maravilhosamente impetuoso. Mesmo contra sua vontade isso o excitava, e sabia que Quatre tinha ciência disso.
Quatre sabia que por hora estava perdoado, e resolveu desculpar-se pelo ocorrido, uma vez que tinha sua parcela de culpa.
- Seremos menos... afoitos, da próxima vez.
- Duvido que Heero permita uma próxima vez.
Quatre sorriu e beijou o amante com paixão, excitado pelo cheiro dele. Trowa apertou os braços de Quatre afastando-o, quando o mesmo tentou entrar dentro de suas roupas. Não estavam distantes o suficiente para que não fossem ouvidos. E mesmo que Quatre acreditasse, não o havia perdoado completamente.
- Mais tarde, em ainda pretendo castigá-lo.
- Mal posso esperar... por isso.
- Não é esse tipo de castigo que tenho em mente.
- Veremos.
Quatre sorriu maliciosamente e Trowa balançou a cabeça, passando o braço sobre os ombros do amante e voltando para perto dos outros que os aguardavam.
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Heero afastou-se de Duo, acariciando-lhe o rosto suavemente. Deu-lhe um beijo rápido, ciente de que precisavam juntar-se aos outros e retornar ao castelo, pois ainda tinha assuntos a resolver, e não podiam demorar-se mais.
- Vamos. Deixei Treize resolvendo assuntos que são de minha competência, e não devo me demorar mais do que já o fiz.
- Desculpe Hee-chan.
Duo olhou-o com culpa, fazendo o vampiro sorrir carinhosamente para ele.
- Está tudo bem, apenas prometa que se você e Quatre resolverem se matar novamente, não irão para tão longe.
- Eu prometo amor.
Heero segurou a mão de Duo e voltou pelo mesmo caminho que fizera ao arrastar o humano com ele. Quando chegaram, encontraram todos já reunidos e Heero resolveu apresentar Duo a Hugh de uma vez.
- Duo, este é Hugh Montcheps, seu guardião, quando eu não estiver por perto. Hugh este é Duo Maxwell, será sua responsabilidade a segurança dele.
- Sim meu senhor.
- Mas Heero!
Duo olhou para o homem que os atacara a pouco, e que Heero colocara sob sua segurança. Heero sorriu diante da confusão de Duo, e olhou para Quatre que pareceu não gostar da notícia:
- Ele atacou Duo, e vai colocá-lo sob a guarda de um Lycan?
- Lycan!
Duo olhou para Heero, que encarava Quatre com severidade. Heero não havia gostado do tom de Quatre ao referir-se a Hugh. Já ouvira tal tom antes. Soava preconceituoso e raivoso. Não eram poucos os vampiros que não simpatizavam com a espécie de Hugh; ele mesmo já fora como Quatre, até que Treize mudara seu pensamento quanto aos Lycan's.
- Sim Quatre eu vou. Tem algo contra isso?
Quatre estreitou os olhos olhando para Hugh com desprezo, antes de voltar seu olhar para Heero e responder de forma fria.
- Não vejo necessidade de responder.
- Eu vejo. E sugiro que acate minha decisão, e não volte a me desafiar novamente. Acho que vocês dois já aprontaram muito essa semana, para que eu releve mais alguma coisa.
Quatre viu o olhar de Heero, tornar-se frio e amedrontador. Meneou a cabeça ligeiramente virando-se para retornar ao castelo, sendo seguido por Trowa. Heero continuou a observar Quatre, antes de voltar seu olhar para Duo de forma mais branda. Sabia que teria problemas com Quatre e Hugh, mas esperava que ambos tivessem bom senso em não perturba-lo, e resolvessem suas pendências de uma vez.
Duo olhou para Heero, que sorriu ligeiramente para ele. Podia ver nos olhos do vampiro que a atitude de Quatre não o agradara e por um momento achou que Heero fosse fazer alguma coisa quanto à atitude do amigo. No entanto parecia que o japonês deixaria passar por enquanto a insolência de Quatre. Duo voltou sua atenção ao homem que Heero dissera chamar-se Hugh e que seria seu guardião, quando Heero não estivesse com ele. Lembrou-se que Quatre dissera que Hugh era um Lycan, mas não fazia idéia do que isso significava. Sua atenção voltou-se para Heero, quando o ouvir explicar-lhe o que Hugh era.
- Duo, Lycan é uma outra palavra, usada para lobisomen.
- Lobisomens existem!
Auda riu diante da expressão de assombro de Duo que ficou vermelho, olhando para o homem de cabelos negros que o encarava com curiosidade. Heero abraçou o amante pela cintura, balançando a cabeça, antes de responder de forma sarcástica, o que fez Duo ficar emburrado:
- Sim Duo, lobisomens existem. Mas não o coelhinho da páscoa ou Papai Noel.
Hugh suprimiu um riso, o que não foi seguido por Auda, que se permitiu rir abertamente da expressão de Duo diante das palavras de Heero. Wufei arqueou as sobrancelhas diante da descoberta da existência de seres que não imaginava existirem, além da literatura e obras de ficção. Ficava imaginando que outra criatura fantástica ainda iria encontrar em sua vida.
Duo tentou soltar-se de Heero. Não precisava do vampiro para passar por idiota. Sabia que não deveria ter ficado surpreso, afinal ele dormia com um vampiro, mas foi inevitável não fazê-lo. Entretanto, Heero não precisava tirar sarro de sua ingenuidade dessa forma, muito menos na frente dos outros. Tentou se soltar, mas o vampiro mantinha-o preso pela cintura firmemente.
Heero procurou manter uma expressão neutra e não sorrir diante da atitude de Duo, que tentava em vão soltar-se de seu abraço, e era excitante, para não dizer estimulante para sua libido, vê-lo tão emburrado.
- Desculpe Duo, você não tem obrigação de saber sobre certas coisas.
- Hn.
Duo afastou-se de Heero assim que o mesmo o soltou; caminhando até o homem ou Lycan que seria seu guardião. Sabendo agora sua identidade, não podia culpá-lo por atacar Quatre; uma vez que ele desconhecia os fatos que causaram a cena em que ele os encontrara. Ele parecia ser uma boa pessoa ou criatura, e se ele iria ficar por perto, era natural que procurasse manter uma certa amizade com seu protetor.
- Muito prazer em conhece-lo Hugh, e lamento se o atacamos, não sabíamos que era amigo.
Hugh sorriu e apertou a mão do rapaz, analisando-o melhor. Podia notar como era belo. Com os fios longos ligeiramente dourados emoldurando um rosto atraente, com olhos de um violeta singular. Era jovem demais em sua opinião, mas entendia os motivos de Heero tê-lo tomado por companheiro. O humano a sua frente não era alguém que se pudesse ignorar, tamanho o magnetismo que parecia exercer inconscientemente. Saberia Heero o efeito que seu companheiro causava nos de sua espécie?
- O prazer é meu. E não se preocupe, vocês apenas tentaram se proteger, é natural a qualquer raça que se sinta ameaçada.
Duo sorriu e puxou a mão, sentindo-se estranho. Recuou temeroso, e por algum motivo agarrou-se a Heero, que entendeu completamente o que ocorrêra, embora tal fato houvesse sido esquecido por ele. Entretanto sabia que Duo estaria em segurança. Felizmente Lycan's costumavam ser fieis a suas parceiras, e sabia que a família de Hugh chegaria em alguns dias.
"Não precisa ter medo. Jamais o colocaria em perigo, apesar de Quatre ter insinuado, que o faria."
"Eu sei. E que..."
"Eu entendo."
Heero acariciou a mão que Duo usara para cumprimentar Hugh e olhou para o Lycan que meneou a cabeça desaparecendo logo em seguida. Duo olhou para o amante que o puxou para que voltassem ao castelo. Mais tarde, quando estivessem a sós contaria a Duo mais acêrca dos Lycan's e que não precisava temer Hugh. Este não lhe faria mal ou ousaria tocar nele. Entretanto tinha assuntos a tratar também com um certo loiro de olhos azuis, que estava precisando de um conselho quanto a não tocar no que não lhe pertencia. Auda, Wufei e os outros seguiram de volta ao castelo, cada um conversando sobre o ocorrido e mergulhado em seus próprios pensamentos acêrca do que Duo e Quatre haviam feito.
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Algumas horas depois:
Duo despertou lentamente, sem saber quando havia adormecido. A última coisa de que se lembrava era de estar conversando com Heero acêrca dos novos habitantes do castelo. À tarde, a parte do clã Maganac que era aguardada chegara. Era estranho caminhar entre tantos vampiros e saber que você seria um belo banquete para qualquer um deles. Depois de certo tempo, decidira ir para o quarto. Desconfortável por ser um dos poucos humanos entre eles; e embora todos soubessem que era companheiro do shuhan dos Khushrenada, olhares lascivos em sua direção eram notados, o que o deixava um pouco constrangido. Wufei despediu-se dele e de Quatre poucos minutos depois, dizendo não se sentir confortável no castelo, e visto que eles não iriam treinar mais naquele dia, ele retornaria ao templo; enquanto ainda estava claro. Duo sorriu maliciosamente ao lembrar-se de que Sally insistira em acompanhar Wufei, e o amigo não soube como evitar a companhia dela, chegando a ficar vermelho quando ela segurara-o pelo braço, levando-o consigo. Parecia que ela estava mais do que disposta a quebrar a barreira erguida ao redor do chinês. Não que duvidasse que ela conseguisse. Na verdade acreditava que Wufei estava mais do que propenso a aceitar os avanços dela, independente do que ela era.
Duo espreguiçou-se, acariciando a marca em seu pulso; sentindo um estranho formigamento.Uma sensação de relaxamento fez-se presente ao tocar a marca que simbolizava a posse de Heero sobre ele. Há alguns dias atrás, quando Heero o consolara a respeito da saudade que sentia de seu tio e da irmã Helen, partilharam algo profundo ao unirem seus lábios; e a sensação ainda permeava em sua mente, dando-lhe uma paz que não conseguia entender. Ambos haviam confirmado, o quanto estavam unidos, e o quanto pertenciam um ao outro. Não apenas em corpo, mas no mais profundo de suas almas. Coçou o pescoço ligeiramente, franzindo o rosto diante da dor, bem no lugar que Heero o mordera quando fizeram amor. Sentiu um pequeno espasmo no baixo ventre ao lembrar-se da forma como fôra possuído, ao deixar-se morder novamente por Heero, o que parecia estar se tornando um ritual entre eles. Que o deixava esgotado, mas prazerosamente satisfeito.
"Acho melhor parar de deixá-lo me morder, ou vou acabar sem sangue, ou pior; sem poder me levantar durante algum tempo."
Aconchegando-se mais as cobertas, Duo pensou no que Heero havia lhe contado sobre Lycan's e sobre seu novo guardião. Era estranho pensar que existiam criaturas tão estranhas no mundo, mas como Heero mesmo havia dito, tudo na vida é baseado em fatos, e a maioria deles muito mais reais do que se gostaria que fosse. Heero lhe disse que Hugh estaria sempre por perto, mas que ele jamais o veria, a menos que pedisse ao Lycan para se mostrar a ele. Seu amante disse que queria vê-lo seguro, mas que respeitaria sua privacidade mantendo Hugh por perto, mas escondido. Duo ergueu o corpo olhando para o relógio sobre a lareira, já passava da meia-noite, e já tinha algum tempo que não via Heero. Não fazia a menor idéia onde o amante se encontrava. Embora ainda fosse cedo demais para se recolher, Heero não costumava deixá-lo sozinho durante muito tempo. Por certo ele deveria estar ocupado, visto que a chegada de outros vampiros ainda era aguardada durante a madrugada.
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Enquanto isso na sala das armas:
Heero encontrava-se sentado na espreguiçadeira junto à janela. Sentia-se ligeiramente irritado e cansado, e embora soubesse que era um cansaço mental e não físico, isso não diminuía o mal estar de estar ali. Seu desejo era de estar junto a Duo, desfrutando do prazer de sua presença e seu corpo, e não ali no escuro, cuja única iluminação era proveniente do brilho pálido da lua a passar pelas janelas abertas, aguardando que Quatre viesse falar com ele conforme suas ordens. Sabia que a demora dele se devia a Trowa. Certamente o amigo temia que ele pudesse ferir seu amante, e não podia mentir dizendo que a idéia não lhe passara pela cabeça e lhe soava tentadora depois de descobrir que Quatre se atrevera a lamber a bochecha de Duo, provando de seu sangue.
Sangue esse, que pertencia apenas a ele. O único que podia prová-lo e sentir seu sabor doce nos lábios. A porta da sala abriu-se, revelando o vampiro que aguardava, podia sentir a presença de Trowa do lado de fora, e deu um meio sorriso diante disso. Mesmo tendo avisado-o de que não o queria por perto quando resolvesse discutir o assunto com Quatre, este se mantinha próximo; mesmo contrariando suas ordens. De certo modo já aguardava por isso.
- Aproxime-se Quatre.
Quatre deixou o amante que insistira em acompanhá-lo, aguardando-o do lado de fora. Mesmo contra a vontade. Havia sido difícil convencê-lo a deixá-lo entrar sozinho na sala das armas. Não acreditava que Heero fosse matá-lo de fato. Talvez agredí-lo ou outra coisa qualquer... mas não matá-lo. Bem como sabia que o shuhan do clã saberia que ele tocara seu amante, mesmo que nem ele ou Duo terem comentado algo a respeito, sabia que Heero teria essa conversa com ele. Às vezes, saber sobre fatos futuros podia ser uma coisa extremamente desagradável, mesmo já se estando preparado para ele.
A irritação, para não dizer raiva; que sentia emanar de Heero, era poderosa o suficiente para que seus passos se tornassem receosos à medida em que se aproximava. Heero mantinha o olhar preso a ele, e apesar de saber os fatos futuros, não sabia de tudo. Procurou manter os olhos em Heero; mas mesmo assim não conseguiu ver o momento em que este deixara o lugar em que se encontrava para estar a seu lado com Hikari a centímetros de seu pescoço. A voz de Heero soou fria, fazendo-o tremer ligeiramente mesmo contra a vontade.
- Volte a tocar nele novamente, e o mato.
Quatre sentiu-se como um garotinho perdido no meio da floresta à noite. Cercado de animais perigosos. Obrigou-se a subjugar o medo que sentia e controlar seus pensamentos. Não desejava que Trowa invadisse a sala temendo por sua vida. Heero sorriu ligeiramente, abaixando a espada e aproximando seu rosto de Quatre, que evitava olhar nos olhos do japonês.
"Olhe para mim Quatre."
Quatre obrigou-se a obedecer à ordem dada em sua mente, e olhou nos olhos de Heero, que se encontravam tão vermelhos que pareciam, duas esferas negras, tamanha a intensidade de seu olhar e da fúria que via reluzindo nelas. Caiu no chão devido à força que emanava de Heero, sentindo-se subjugado e fraco, tentou dizer algo, mas suas cordas vocais pareciam paralisadas, e não soube ao certo o que aconteceu, apenas ouviu a voz de Trowa soando na sala, antes de ver-se livre da pressão que ameaçava sufocá-lo completamente:
- Heero por favor... poupe-o.
Heero olhou para Trowa que encontrava-se ajoelhado a seu lado, pedindo pelo amante. Olhou para o loiro que se encontrava caído no chão, apertando a própria garganta e deu-se por satisfeito. Não pretendia ir além do que já fizera, mas Quatre tinha que ser castigado e aprender que deveria manter seu lugar. Os olhos de Heero adquiriram novamente o brilho azul frio de seus olhos, e ele voltou ao lugar em que se encontrava sentado a pouco, vendo Trowa rastejar e abraçar Quatre, que mantinha os olhos presos em Heero, enquanto lágrimas vermelhas manchavam seu rosto pálido. Diferente do tom anterior, a voz de Heero adquiriu um tom mais brando, quase paternal ao dirigir-se aos dois.
- Quatre, você tem um potencial que muitos de nós não tem. Isso o torna arrogante, uma vez que ainda é jovem em nosso meio, e ainda não aprendeu a controlar devidamente sua língua e habilidades.
- Heero... eu...
- Silêncio... e escute-me.
Quatre meneou a cabeça descansando-a contra o peito de Trowa, que mantinha o olhar em Heero, que podia ver-lhe o sofrimento pelo que havia causado, não apenas ao árabe, mas ao amigo também, visto que ambos partilhavam as mesmas emoções. Levantou-se, caminhando até os dois, e ajoelhando-se na frente deles, notando o olhar de medo na íris azul clara de Quatre, bem como uma centelha de rebeldia. Sorriu ligeiramente, acariciando a face pálida com carinho e vendo-o fechar os olhos ante o gesto. Olhou para Trowa com a mesma atenção e sentou-se à frente deles, uma cena de fato estranha para quem entrasse e os visse.
- Duvido que você venha a mudar muito, e nem peço que o faça; senão você não seria a pessoa por quem Trowa se apaixonou.
Quatre virou-se para o amante que lhe sorriu, e voltou sua atenção para Heero; ouvindo suas palavras com atenção, pois sabia que ele não voltaria a repetí-las.
- Tudo o que peço é que tenha apenas mais paciência. Não é fácil ser o que somos. Nossas paixões nos queimam por dentro, nos atormentam e o que nos difere dos animais é nossa capacidade de medir nossos atos. Você é forte, não precisa demonstrar isso a ninguém. É impetuoso, mas não precisa desafiar a todos para mostrar isso. Viva calmamente cada dia, porque cada ato impensado causa dor, e não é apenas você quem sofre. Porque Trowa sofre com você.
Quatre balançou a cabeça em acordo. Sabia que Trowa sofria com ele, mas quando sua natureza vinha à tona toldando-lhe a razão, o amante desaparecia de sua mente por completo e tudo em que pensava era em saciar suas vontades e paixões.
- Eu sinto muito.
Heero meneou a cabeça, vendo o olhar culpado que Quatre dirigia ao amante; e mesmo sabendo que o outro sentia-se realmente culpado, apenas desculpas não resolveriam a situação deles. Quatre necessitava de disciplina, e um certo controle sobre suas emoções. O que sabia, viria somente com o tempo.
- Eu sei. Assim como sei que você deverá aprontar outras, antes que aprenda a se conter, e não o censuro. Mas houve uma época em minha vida, que eu teria dado tudo para que alguém me guiasse além das mortes que minhas mãos trouxeram. Muitos não têm a mesma sorte que você Quatre. Você tem Trowa para ajudá-lo, e a mim se desejar, e espero que você reconheça isso.
Quatre olhou novamente para o amante, segurando-lhe a mão suavemente, fazendo Trowa levá-la aos lábios, sorrindo diante dos pensamentos do seu anjo.
- Eu sei Heero, o quanto faço Trowa sofrer com minhas atitudes e vou procurar me controlar mais daqui por diante.
- Eu espero que sim... pelo bem dos dois. Mas não serei tolerante no que concerne a Duo. Se tem algo que jamais admitirei é que toquem nele. Independente de quem seja. Sei que são amigos há muito tempo, quase como irmãos, mas...
- Não podemos controlar o que sentimos, por quem amamos. É nossa fraqueza e nossa força.
Heero sorriu, por não precisar terminar de dizer. Sabia que Quatre entenderia, que o que sentia por Duo era forte demais, para que conseguisse controlar sua natureza em protegê-lo e seu ciúme quando alguém o toca.
- Sinto se o machuquei, não foi minha intenção fazê-lo, mas lembre-se. Você é forte, mas tornasse fraco se não souber usar sua força.
- Lembrarei-me disso Heero.
- Ótimo. Outra coisa... tente não ofender Hugh, ele é leal a mim e não ao clã. Lycan's e vampiros não são os melhores amigos, então não o irrite e ele não fará o mesmo com você. É natural que não goste dele, eu era como você quando o conheci, mas ele conquistou meu respeito e eu sua lealdade.
- Tentarei... eu prometo.
- Duo continuará a ser seu melhor amigo, não se preocupe. Eu ainda confio em você para protegê-lo quando for necessário.
Quatre piscou confuso e Heero sorriu deixando-os a sós. Sabia como Quatre se sentia em relação a Hugh. Era natural a antipatia que os vampiros tinham com Lycan's. Além de que o jovem loiro tinha ciúmes de perder a amizade de Duo, visto que seu melhor amigo teria agora um guardião pessoal. Entretanto, isso não significava que Quatre não mais o protegeria, e esperava que com o tempo ele descobrisse que Hugh era alguém com quem poderia contar, mesmo pertencendo a uma espécie que alguns vampiros odiavam.
Trowa olhou para o amante acariciando-lhe o rosto ternamente. Por alguns momentos temeu que Heero o matasse. Sabia o quanto o mesmo se tornara possessivo em relação a Duo, ainda tinha em mente a conversa dele quanto à visita de Mirla ao humano. E por alguns momentos não apenas ele como Treize, ficaram receosos quanto ao fato de Heero não perdoá-los por não haver contado a ele o acontecido.
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Alguns dias antes:
Trowa havia retornado da cidade após a verificação pedida por Heero. As notícias não eram de todas agradáveis, embora não pudesse dizer exatamente se ele ficaria contente ou descontente com elas. Ao encontrá-lo pela manhã achou-o um tanto quanto irritadiço, e imaginava que a reconciliação com o humano amenizaria o humor do amigo. Mas parecia que ele continuava no mesmo estado de humor de quando partira para encontrar com Duo no lugar combinado. Caminhou em direção a biblioteca onde, segundo Kimitsu; Heero o aguardava. Estranhou o fato de entrar e encontrar Treize e Quatre em um silêncio estranho. Heero voltou-se para Trowa ao sentir-lhe a presença, indicando ao mesmo que se sentasse com um simples olhar em sua direção. Ele o viu cumprimentar o amante com um beijo, antes de sentar-se ao lado do mesmo.
Heero estivera aguardando o retorno de Trowa, para que pudesse enfim colocar às claras a razão de ninguém tê-lo informado da visita do Necro a Duo nas semanas em que ficaram afastados. Heero sentou-se na poltrona vermelha, olhando para cada um deles silenciosamente. Havia prometido a Duo que seria benevolente ao ouví-los, e procurou não se aborrecer, ou soar irritado ao indagá-los quanto ao assunto que não saia de seus pensamentos.
- Eu quero saber o porquê de não ter sido informado da visita do Necro à Duo?
Os anos ao lado de Heero, haviam ensinado muito a Treize quanto a respeito das reações do vampiro. Tanto que pudera sentir que Heero, se continha ao perguntar sobre Mirla. Sabia muito bem que Duo tinha algo a ver com isso, e agradecia ao fato do humano ter tanta influência sobre Heero. De outra forma tinha certeza de que ele simplesmente não teria perguntado, mas exigido uma explicação. E tal ato não seria nada indolor, visto que Heero não retornaria a seu estado normal tão cedo, uma vez que sua real natureza havia aflorado há poucos dias. Trowa olhou para Quatre que segurava sua mão preocupado, diante das sensações que sentia emanar do shuhan do clã. Ambos voltaram seu olhar ao ouvirem a voz de Treize soar calma, ao explicar o porquê de não terem contado a ele.
- Você não se encontrava em seus melhores dias Heero. Quando Quatre me informou sobre a visita de Mirla a Duo, achei por bem não lhe trazer mais preocupações.
Heero estreitou os olhos diante das palavras de Treize. Considerava-o mais que um amigo, e era por isso que o simples fato dele não ter-lhe contado incomodava-lhe tanto. Entretanto sabia que o mesmo tinha razão. Não conseguiria nem imaginar o que seria capaz de fazer se houvesse descoberto tal fato antes. Por certo teria ido atrás da criatura e colocado a si mesmo em perigo. Ainda assim, sua natureza se recusava a aceitar o fato. Deveria ter sido informado.
- Acho que cabe a mim decidir com o que devo ou não me preocupar. Ainda mais quando diz respeito a Duo, que é minha responsabilidade. Acharam realmente que eu não saberia?
- Na verdade, eu esperava que demorasse um pouco mais.
- Hn...
Heero balançou a cabeça, levantando-se diante do tom sarcástico de Treize. Bufou, olhando pela janela; procurando não deixar que sua natureza prevalecesse sobre sua sanidade. Não queria que os esforços de Duo em trazê-lo de volta à razão fossem em vão.
- Nunca mais me escondam nada sobre ele. Se ele espirrar eu quero ter conhecimento. Se alguém o visitar, ou falar com ele quero ser o primeiro a saber. Falou sem se virar.
Heero voltou seu olhar frio para os três, que menearam a cabeça diante da frieza e força emanada dos olhos avermelhados. Sabiam que não seriam poupados uma próxima vez, e nem queriam imaginar o que Heero faria.
- Quanto a Mirla, eu mesmo cuidarei dela, no tempo devido. Por se atrever a procurá-lo.
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Heero havia deixado bem claro, que não aceitaria mais nenhum tipo de segredo em relação a qualquer coisa que ocorresse com Duo, independente de seu estado físico ou emocional. Trowa não havia ficado satisfeito quando a isso, e não podia censurá-lo, talvez agisse da mesma forma com Quatre se o mesmo recebesse uma visita tão perigosa e ardilosa. Ele não havia deixado claro o que faria a respeito, mas dissera que tal ato do Necro não ficaria impune, e não desejaria estar na pele dela, quando Heero a encontrasse. O amigo não costumava quebrar seus juramentos e o japonês jurara perante Treize e os outros de que Mirla pagaria por ter se atrevido a aproximar-se de Duo. Mas antes descobriria o porquê dela ter tanto interesse nele. E contra quem era sua vingança.
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Num dos quartos - No andar superior do castelo:
Duo fechou os olhos; cansado de esperar por Heero de olhos abertos. Não havia muito o que fazer, e não queria ter que deixar o quarto e ir procurá-lo; certo de que ele deveria estar ocupado; uma vez que não se encontrava com ele. Talvez fosse uma boa idéia pegar a televisão em sua casa, trazê-la para o castelo e instalá-la no quarto. Pelo menos teria alguma coisa para fazer quando estivesse sozinho. Sentia-se um pouco sonolento, mesmo já tendo cochilado um pouco, e deixou que o tique-taque do relógio o embalasse, não percebendo o abrir e fechar da porta do quarto, nem a figura que sorrateiramente aproximou-se da cama.
- Ai!
Duo gritou e virou-se, dando de cara com Heero. Olhou para o vampiro que sorria sadicamente, e remexeu-se incomodado, olhando para a mordida dada pelo outro. Aquilo havia doido; não muito é verdade, mas o bastante para incomodá-lo e assustá-lo, uma vez que estava quase dormindo e não notara o vampiro entrar e subir na cama. Virou a cabeça para o amante, que ainda se encontrava com a boca na região que havia literalmente mordido. Heero andava com umas manias estranhas, mas não menos eróticas quando se encontravam na cama. Morder seu corpo era apenas uma delas. Parecia que o amante havia adquirido o hábito de marcá-lo, para depois lambê-lo completamente, e não apenas na parte mordida, mas todo o conjunto que vinha com ele. Sorrindo maliciosamente Duo apoiou o rosto nas mãos, observando Heero que olhava para sua coxa, como se fosse comê-la a qualquer momento.
- Tá querendo arrancar um pedaço meu é?
- Talvez.
Heero sorriu maliciosamente, antes de lamber a parte avermelhada, proveniente da mordida que dera na parte externa da coxa de Duo. Não havia resistido à tentação de mordê-lo. Ainda mais ao vê-lo placidamente descansando na cama, com a coxa a mostra. Nos últimos dias era quase que impossível resistir a tal vontade, mas procurava sempre tomar cuidado para não feri-lo. Afinal não queria tirar um pedaço de sua deliciosa carne. O vampiro começou o ritual de lambê-lo completamente; detendo-se na tatuagem que o humano havia feito a alguns meses atrás, antes que enfrentassem os caçadores. Nela estava literalmente escrito a quem Duo pertencia, embora o apelido Hee-Chan pudesse, em sua opinião; ter sido omitido. Mas havia sido uma forma carinhosa de Duo expressar que o amava de corpo e alma. Não que tivesse alguma dúvida. Ouviu Duo gemer, e sorriu cobrindo o corpo menor com o seu, detendo-se na mordida do pescoço. Lambeu a marca, fazendo-o ofegar, e o coração bater mais rápido. Sorriu ligeiramente, antes de chupar a região. Extraindo mais gemidos.
- Eu vou fazer amor com você.
- Eu sou seu para fazê-lo.
Duo abraçou Heero, deixando que o vampiro tomasse posse de seu corpo. Entreabriu as pernas, acomodando-o sobre si, sentindo-o seduzir e tomar posse do que lhe pertencia. Sorriu diante da promessa em sua mente, de que não o morderia novamente. Pelo menos não no pescoço. Bem, ele não se importava onde Heero o mordesse, contanto que ele continuasse a amá-lo da mesma forma selvagem e apaixonada que sua natureza pedia. Ele não tinha do que reclamar.
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Em algum lugar na floresta:
Mackaczi ouviu atentamente as informações dadas por um de seus caçadores, que havia acabado de retornar da cidade, e sorriu diante do que o mesmo lhe contara. Dispensou-o rapidamente, caminhando até Relena que se deliciava com o sangue de um dos poucos moradores que os caçadores haviam conseguido capturar. Observou o Necro fazer o mesmo ritual com os corpos sem vida que lhe eram entregues por Relena. Vendo-a deixar a gruta arrastando o corpo enrolado nos fios brancos de seu cabelo, afim de escondê-lo em algum lugar até que pudesse devorar a carne putrefata. A existência dela o intrigava, assim como sua real intenção ao permanecer junto a Relena. Podia notar por seu olhar que a criatura apenas a tolerava, e parecia aguardar por algo que ainda descobriria o que era. O episódio dela indo visitar o humano, amante do shuhan dos Khushrenada; não fora esquecido por ele, e a verdade era que ainda não entendia o interesse dela nele, visto que ela poderia muito bem tê-lo matado ao visitá-lo. Mas o simples fato dela não tê-lo feito e nem trazido-o a Relena, comprovava que ela tinha interesses pessoais em relação ao humano que diferenciavam dos Peacecraft e dos Romefeller.
Diferente dos vampiros ela não estava presa à regra de que não podia entrar sem ser convidada. Por descender de uma linhagem diferente dos vampiros, ela podia entrar em qualquer lugar que desejasse e poderia muito bem trazer o humano até eles se fosse de sua vontade fazê-lo. Sabia que a criatura tinha certo poder mental sobre o humano, quando o mesmo se encontrava longe de Heero Yuy, havia-a visto atormentá-lo durante a batalha. E Relena lhe havia confidenciado as tentativas frustradas em agarrar o humano e trazê-lo para seu lado. Então se ela possuía tamanho poder, porque permanecer ao lado de Relena? E porque não simplesmente tomar o humano?
Relena jogou o corpo sem vida para longe, vendo a voracidade com os caçadores devoravam o corpo sem vida, arrancado pedaços de carne, como leões famintos. Ela viu Mackaczi acompanhando Mirla com o olhar e sorriu diabolicamente. Achava engraçado a preocupação dele para com a criatura, bem como achava engraçado a forma como Mirla acreditava que não conhecia suas intenções. Sabia o que ela buscava, e esse era um dos motivos porquê a mantinha por perto. Queria saber como ela executaria sua vingança contra aqueles que foram responsáveis pelo extermínio de seu clã. Podia imaginar a raiva que ela tinha contra os da sua espécie. A necessidade que tinha em vingar-se. Podia sentir sua raiva cada vez que tinha que obedecer a cada uma de suas ordens. A cada vez que a humilhava e a culpava por algo que dava errado. Mantê-la a seu lado a fazia ficar ciente do perigo que corria. Sabia que ela poderia matá-la no momento em que quisesse, mas não era totalmente vulnerável ao Necro. Havia um pequeno detalhe que a criatura ignorava a seu respeito, e não tinha a menor intenção de contar-lhe antes do necessário.
Relena caminhou até Mackaczi, tocando-lhe o braço gentilmente, e ganhando sua atenção. Sorriu sedutora, deslizando os dedos frios pelo braço do líder dos caçadores. Sua pele arrepiou-se diante da luxúria que via em seus olhos e lembrou-se dos momentos compartilhados em seus braços há alguns dias. O prazer que tivera com ele fôra fantástico e a fez esquecer por alguns momentos o desgosto de ver o humano nos braços de seu antigo amante, mas mesmo após tão maravilhoso ato, o vazio fez-se presente como sempre. E a sensação de solidão que a acompanhava desde que Heero partira sufocou-a. Ainda assim ela se permitia viver o prazer que ele poderia oferecer-lhe. Como todos os outros com quem se deitava, e eram incapazes de permanecer imunes ao prazer que ela podia e sabia como proporcionar.
- Não se preocupe com ela. Mirla é tão perigosa quanto eu ou você.
Mackaczi estreitou os olhos diante das palavras de Relena, que acompanhava a figura do Necro sumir na escuridão. Por seus olhos podia ver que ela não ignorava por completo as atitudes dela e sabia muito bem como se precaver contra o que Mirla estivesse planejando. Pegou a mão dela, quando esta deslizava por seu tórax, levando-a aos lábios, antes de lhe contar a informação que pedira que descobrisse.
- Encontrei a pessoa que pediu. E parece ser quem você esperava.
Relena não poderia ter recebido melhor notícia. Então era realmente ele. Seus olhos não a haviam enganado. Era reconfortante encontra-lo depois de tanto tempo, quando imaginou que todos já estivessem mortos. Uma vez que fez questão de matar a todos. Mackaczi viu os olhos de Relena brilharem e avermelharem-se ao ouvir o que lhe era contado. Ouvi-a gargalhar alto, fazendo com que os outros olhassem para eles. O sorriso que permaneceu nos lábios pálidos dela era assustador, para não dizer demoníaco. O que o fez sorrir. Não queria ser o humano, quando ela resolvesse visitá-lo, pois tinha certeza de que ela o faria em breve.
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Duas semanas depois – Terra dos Khushrenada:
Zechs desceu do carro e caminhou lentamente até a porta do castelo. Era a primeira vez que ia até ali desde que o castelo voltara a ser habitado. Olhou ao redor, notando o quanto o jardim era belo e bem cuidado. Muito diferente de alguns anos atrás, quando ninguém habitava as terras dos Khushrenada. Respirando fundo, tocou a campainha, observando a vegetação ao redor com curiosidade, e aguardando que fosse atendido. Não sabia ao certo se o que descobrira seria de alguma utilidade ao clã dos Khushrenada, mas como Duo havia lhe dito que qualquer informação era útil, decidira ir vê-lo e contar o que descobrira há algumas semanas. Olhou para o cone em sua mão e o pequeno embrulho que trazia, erguendo os olhos assim que a porta se abriu e se viu perante um senhor com traços orientais que parecia examiná-lo minuciosamente.
- Pois não?
- Boa tarde, eu me chamo Zechs Marquise e gostaria de falar com Duo Maxwell , se possível.
- Sinto muito senhor, mas o senhor Maxwell ainda está descansando no momento.
- Eu poderia aguardar que acordasse, eu realmente preciso falar com ele.
- Não creio que...
- Algum problema Kimitsu?
Zechs ouviu uma voz suave e olhou pela porta entreaberta, vendo um homem de porte elegante parado alguns metros atrás. Pela tez pálida e o fato dele parecer incomodado pela claridade que passava pela porta, soube imediatamente que o homem a encará-lo de longe era um vampiro. Kimitsu virou-se e curvou-se ligeiramente em sinal de respeito. Treize meneou levemente a cabeça, mantendo seus olhos presos no humano à porta. Lembrava-se de já o ter visto mais de uma vez na cidade, e pelo que sabia ele era amigo de Duo e Quatre, e em sua opinião atuara de forma magnífica durante a batalha contra os caçadores na cidade. E sabia que muito se devia ao humano a encará-lo. Treize voltou sua atenção a Kimitsu ao ouvi-lo falar-lhe.
- Ele deseja falar com o senhor Maxwell, senhor Khushrenada.
Treize ouviu a explicação de Kimitsu pensando durante alguns segundos, sobre o que fazer. Pelo que sabia Heero e Duo haviam se recolhido no inicio da madrugada e deveriam levantar-se somente em algumas horas. Olhou para o humano novamente, sentindo-o repleto de dúvidas quanto a sua vinda. Ao que parecia, ele se indagava sobre o real valor da informação que trazia. Se ela seria importante a eles ou se apenas se precipitara. Curioso, decidiu que talvez devesse receber o humano e ouvir o que o mesmo tinha a dizer.
- Seria apenas com Duo? Ou eu poderia ouví-lo?
Zechs ficou surpreso ao ouvir o homem que atendera a porta, chamar o outro de Khushrenada. Ele deveria ser apenas pouco mais velho que ele. E era estranho saber que possuía o mesmo nome das terras ao redor do castelo, uma vez que não se tinha noticias de parentes ou herdeiros a mais de um século. Seria ele o dono da propriedade? Pelo que sabia, as terras estavam na família dos Khushrenada a séculos, e no museu da cidade havia um pouco da historia do castelo e seus habitantes. Mas nada que denunciasse que a mesma pertencia a vampiros. Quantos anos deveria ter então o vampiro que lhe sorria agora, aguardando sua resposta? Zechs balançou a cabeça ligeiramente, ao dar-se conta de que simplesmente ficara observando o vampiro, ao em vez de respondê-lo. Deixaria para depois sua curiosidade, quanto a identidade de seu anfitrião.
- Não senhor. Se puder me escutar eu ficaria agradecido, embora não saiba se será de grande ajuda o que descobri recentemente.
- Isso nós veremos, quando me contar o que sabe. Deixe-o entrar Kimitsu. Receberei o senhor Marquise na biblioteca.
- Perfeitamente senhor.
Kimitsu afastou para que Zechs pudesse entrar. Treize caminhou até o humano sorrindo-lhe ligeiramente, e estendendo-lhe a mão fria, que foi prontamente aceita. Não pudera evitar ler de a mente do humano, quando o mesmo ficara encarando-o, uma vez que seus pensamentos eram dirigidos a si tão abertamente.
- Eu sou Treize Khushrenada, e eu sou ainda mais velho do que você imagina.
Zechs sorriu envergonhado, havia se esquecido completamente que tais criaturas podiam facilmente ler-lhe os pensamentos.
- Eu sou Zechs Marquise, e me desculpe por meus pensamentos.
- Não há porque se desculpar, é uma curiosidade normal; acredite-me.
- Eu espero não o estar incomodando, o sol ainda não se pôs e...
Treize interrompeu-o gentilmente com uma das mãos, não havia necessidade de pedir-lhe desculpas, visto que já há algum tempo, encontrava-se acordado, perambulando pelo castelo.
- Não se preocupe, eu já estava acordado há algum tempo, além do mais você veio até aqui por um motivo, e acredito que seria desagradável retornar a cidade sem antes ter podido falar com alguém a respeito.
Zechs sorriu sarcasticamente diante das palavras do vampiro. Ao que parecia ele parecia ter um certo conhecimento quanto ao assunto que o levara ali.
- Pensei que vampiros não lessem a mente dos outros sem permissão.
Treize sorriu diligentemente, antes de abrir a porta da biblioteca e permitir que Zechs entrasse seguindo-o logo em seguida.
- Há vampiros que fazem muito mais, do que apenas ler mentes sem permissão meu caro. Mas devo-lhe desculpas. Raramente faço isso. Entretanto confesso que fiquei curioso. E tal ato apenas foi para assegurar-me se de fato deveria recebê-lo, ou pedir que retornasse à noite.
Zechs sorriu diante da resposta polida. Havia simpatizado com o vampiro, e realmente não se sentiu incomodado pelo fato dele ter lido sua mente. Duo já havia lhe falado um pouco acêrca dos habitantes do castelo, entre eles o antigo shuhan do clã dos Khushrenada e ele era exatamente como o amigo o descreveu. Educado, sagaz e carismático.
- Tudo bem. Na verdade não me incomodou e nem ao menos saberia que o fez, se não me houvesse dito.
- Certos contatos mentais são indolores e imperceptíveis, quando se sabe como fazê-lo. Venha, vamos nos sentar.
Treize conduziu Zechs pela biblioteca, indicando que se sentasse em uma das poltronas. Zechs aguardou que Treize se sentasse para fazer o mesmo. Seus olhos percorreram rapidamente o ambiente, se surpreendendo com a quantidade de livros presentes nas estantes.
Treize sorriu diante do olhar admirado do humano, e aguardou que o mesmo terminasse a exploração visual, antes de iniciarem o assunto que o levara ao castelo.
- Então me diga, o que queria contar a Duo?
Zechs acomodou-se melhor, depositando o que trouxera a seus pés, e voltando sua atenção ao vampiro que o observava. Ainda tinha duvidas quanto à natureza do que viera contar, e sobre o que descobrira ao acaso se é que poderia afirmar assim tal fato.
- Quando Duo me explicou mais sobre os vampiros que atacaram a cidade e que se encontram escondidos na floresta...os...
Treize meneou a cabeça respondendo a palavra que Zechs não conseguia lembrar-se, o fazendo balançar ligeiramente em acordo.
- Caçadores.
- Isso... sobre eles, Relena e seu clã, eu achei o nome Peacecraft familiar, embora não entendesse o porquê. Então me lembrei que há algumas semanas um parente distante faleceu, deixando-me algumas pinturas, e coisas de família que chegaram poucos dias antes da batalha. E com todos os problemas na cidade e outras coisas, não tive muito tempo para verificar o que havia recebido como herança. Entretanto, anteontem decidi verificar, os pertences deixados para mim. E encontrei uma pintura que me chamou a atenção.
Zechs pegou e abriu o tubo que trazia, retirando de dentro dele uma pintura antiga, e desgastada pelo tempo. Um leve odor de bolor e cinzas preencheram o lugar, indicando que a mesma havia sido queimada e não era manuseada já a algum tempo. Levantou-se e estendeu a pintura sobre a mesa próxima, revelando a imagem de três jovens. Treize levantou-se para ver melhor a pintura, e seus olhos estreitaram-se, em reconhecimento a duas delas, embora apenas uma delas lhe causasse irritação. Aproximou-se, tocando a pintura com os dedos. A pintura estava faltando algumas partes que haviam sido destruídas pelo fogo, mas não havia dúvidas quanto à identidade da jovem ao centro. Apesar dos olhos demonstrarem doçura, era perceptível para ele uma criatura habituada às trevas, ver a maldade escondida em olhos tão jovens, e o pintor que retratara a jovem soube captar perfeitamente essa maldade.
Desviou seus olhos para os outros dois jovens e virou-se para o humano. A imagem do outro jovem retratado na pintura era idêntica a do humano ao seu lado. Zechs balançou a cabeça, quando o olhar do vampiro voltou-se para si. Ele também ficara surpreso ao ver seu rosto quando jovem retratado na pintura. Cada traço e detalhe. Como se ele mesmo houvesse posado para aquela pintura antiga. A semelhança era impressionante e assustadora. Ainda mais sabendo quem era a jovem na pintura. Tentou não soar tão assustado, mas Treize pôde sentir perfeitamente que o fato do humano ver seu próprio rosto em uma pintura que deveria ter séculos de existência não o agradava em nada. Ainda mais ao lado de quem se encontrava.
- Ele é Milliardo Peacecraft irmão mais velho, de Relena Peacecraft e Austin Peacecraft.
- Impressionante. Então você pertence à linhagem de Relena?
- É o que parece.
Treize deu um meio sorriso diante do ar de desagrado do humano ao afirmar tal fato. Não podia censurá-lo. Ele também não gostaria de descobrir que pertencia a família de uma mulher morta há séculos, e que era um verdadeiro demônio.
- Imaginava que todos os parentes dela estivessem mortos?
- Nem todos. Ao que aparece Milliardo teve uma filha antes de morrer. E de certa forma agora entendo o porquê de muitos de minha família, pelo menos da parte materna, optarem pela mudança do sobrenome, ou simplesmente deixarem de mencioná-lo. Mesmo eu, embora não soubesse até então o motivo, também o evitava. Raramente uso o sobrenome Peacecraft, uma vez que meu pai optou por não esconder tal fato. Na verdade são poucos os que conhecem meu nome. Acostumei-me a ser chamado de Zechs Marquise ou apenas Milliardo. Sempre perguntei o porquê de meus pais não me chamarem por Milliardo Peacecraft, mas sim por Marquise, ou pelo apelido de batismo, e agora depois de tantos anos, venho a entender o motivo.
Treize continuou a observar a pintura, antes de responder, as palavras do humano.
- Não os censuro por isso. De certa forma eles deveriam saber algo quanto a ela, e de alguma forma tentaram preservá-lo.
- Imagino que sim, mas isso não torna tudo mais agradável.
Treize meneou a cabeça, em acordo. Nada poderia tornar o assunto mais agradável e até mesmo poderia imaginar a razão pela qual os pais do humano houvessem omitido durante anos tal fato.
- É impossível censurá-lo por sentir-se desconfortável com isso. Creio que qualquer um que a conheça desejaria não ter parentesco com ela.
Zechs deu um meio sorriso, tendo que concordar com Treize. Tal parentesco em sua opinião, poderia ter continuado desconhecido para ele, pois não fazia a mínima questão de ter sua pessoa ligada a Relena. Procurando esquecer o aborrecimento que isso lhe causava, voltou sua atenção a pintura, procurando lembrar-se do que descobrira em sua pequena pesquisa acêrca da obra.
- Não faz idéia de como foi terrível descobrir isso, ainda mais agora. Mas o fato é que a pintura foi feita em 1647, e foi um presente pelo aniversário de 16 anos dela, a idade que ela tinha quando a pintura foi feita.
- E Milliardo?
- Ele tinha 19 anos e Austin 12 anos. Pelos diários que li, Milliardo e Relena eram muito unidos apesar da diferença de idade entre eles. Há uma dedicatória dele atrás da pintura, pelo menos o que o fogo não destruiu.
Treize virou a pintura encontrando o que havia sobrado que um dia havia sido uma dedicatória.
"A minha doce irmã.
Uma pequena lembrança de seu irmão, que a distância se torne menor..."
Não havia o resto, todo o restante havia sido queimado, ele varreu os olhos notando que havia alguma coisa escrita embaixo, garranchos que parecia haverem sido feitos com pressa. Quase não se dava para notar devido ao tom claro, havia apenas uma pequena parte, como o final de uma frase.
- Há mais uma coisa escrita aqui.
Zechs olhou para o local onde Treize havia apontado, quase não dava para enxergar, apenas se soubesse onde procurar e prestasse muita atenção. Ainda assim tinha que forçar seus olhos, para entender o que havia sido escrito. Virou-se ao ouvir a voz calma de Treize ler a pequena frase, tentando imaginar o que ela significava.
- Livrar a alma de minha doce irmã.
Treize ficou em silêncio ponderando o que isso significava. Não tinha dúvidas que o autor era Milliardo e que o mesmo se referia a Relena, mas o que exatamente ele estaria querendo dizer quanto a livrar a alma de sua doce irmã? Saberia ele o monstro que sua irmã havia se tornado? Não havia muito que pudesse ser lido e que esclarecesse suas dúvidas, talvez apenas a própria Relena pudesse esclarecê-lo. Mas jamais a procuraria para perguntar-lhe tal coisa. Voltou sua atenção a Zechs, e não era necessário ler sua mente para saber que o humano, pensava o mesmo que ele. Outro fato que o intrigava era; porque da pintura estaria queimada?
- Você saberia dizer porque a pintura foi queimada?
Zechs voltou seu olhar a dedicatória, balançando a cabeça em negação.
- Não. Eu entrei em contato com minha tia, mas ela também não soube dizer, tudo que ela me disse foi que nunca gostou da pintura, mas que meu tio tinha verdadeira fascinação por ela e pela história da jovem na pintura.
- História?
Zechs caminhou até onde estivera sentado e pegou o outro embrulho que trouxera consigo, entregando-o a Treize, que o segurou, olhando para o que parecia ser um pequeno caderno. Abriu-o folheando as folhas antigas e desgastadas pelo tempo. A maioria delas se encontravam preenchidas por uma letra firme e delineada. Ao que parecia, seu dono, não o preenchera até o final, pois havia varias páginas em branco. Voltou seus olhos ao humano, quando o ouviu revelar a identidade do dono do diário.
- Este diário pertenceu a Sir Michael Peacecraft, o pai de Relena.
Treize ficou surpreso, e sentou-se novamente, sendo acompanhando por Zechs, que continuou a falar.
- Eu li algumas partes, e nele, ele fala parcialmente sobre ela. Foi quando me lembrei que em 1695 o Conde de Bright, irmão mais velho de Sir Michael mudou seu sobrenome Peacecraft, adotando para si o sobrenome Marquise. Como uma forma de tentar esconder e esquecer as atrocidades e dores ligadas ao nome Peacecraft.
Treize meneou a cabeça. Lembrava-se bem dessa época; e do terror que acometera a nobreza inglesa. Naquela época ele procurava alguém que pudesse sucedê-lo no clã e ficara frustrado ao não encontrar nenhum vampiro digno de fazê-lo.
- Se me lembro bem o nome Peacecraft causou muita dor no século XV, embora eu não saiba como essa associação foi feita na época. Logo o nome Peacecraft caiu no esquecimento, embora ainda causasse terror. Esse é um dos motivos pelos quais ela deseja tanto que a profecia se realize. Quer que seu nome seja novamente reconhecido e temido.
Zechs e Treize ficaram em silêncio por alguns instantes. Cada um tentando assimilar o que conversavam. Não era um assunto agradável, mas não havia como não desejar saber mais sobre ele. Depois de algum tempo Zechs ouviu a pergunta do vampiro e demorou-se alguns segundos antes de responder-lhe.
- No diário diz como ela foi abraçada?
- Não... apenas fala de como ela andava estranha, como se houvesse sido possuída.
- Entendo. Naquela época isso era algo muito comum. A maioria das pessoas desconhecia nossa espécie. Muitos poucos na verdade acreditavam em nossa existência. E mesmo tendo-se passado tanto tempo, e o mundo e a sociedade tenham evoluído, hoje em dia costumam associar tais mudanças repentinas com drogas, bruxaria e seitas.
Zechs deu um meio sorriso e pegou o diário das mãos de Treize, localizando a parte onde Sir Michael falava sobre a possível possessão de sua jovem filha. Entregando novamente o diário ao vampiro que leu o relato angustiado do humano.
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16 de Junho de 1648
"Já faz quase um mês, que minha jovem filha está doente, e temo que sua doença nada tenha a ver com motivos naturais. Ela anda cada vez mais distante e estranha, sua pele antes corada e repleta de vida, apresenta uma estranha palidez, quase mórbida. Seus olhos antes bondosos, agora me causam pavor. Não deveria haver tanta maldade refletida neles. Ou eles sempre foram assim e eu apenas me neguei a observá-los melhor? O que aconteceu para que o véu que cobria meus olhos, revelasse agora o ser que chamava de filha?
Relena passa seus dias, trancada no quarto, e recusasse a comer a dias. Vive a esconder-se da claridade do dia, como se o mesmo a ferisse. No entanto parece que a noite se tornou sua companheira e ela vaga pela escuridão da casa; enquanto todos nós dormimos. Posso senti-la caminhar silenciosamente por cada cômodo, como um terror noturno a nos espreitar. Ouvi ontem um dos empregados contar a Sophie que as vestes de minha filha se encontrava manchada de sangue, como também ouvi que alguns animais haviam sido mortos e o sangue deles sumira completamente. Não sei o que passa, mas temo que o demônio tenha tomado o corpo de minha doce filha, por isso decidi procurar o padre. Talvez ele descubra o que aconteceu com a minha pequena Relena."
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Treize pulou algumas páginas, onde o pai de Relena apenas fazia menção de outros assuntos, não pertinentes a mudança da filha. Deteve-se na narração da visita do padre, voltando então a ler em voz alta.
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"O padre veio vê-la essa tarde, e pediu-me que o deixasse sozinho com ela. Disse -lhe que como não ia à igreja, precisava se confessar, e havia chamado o padre para vê-la. Ela deu-me um estranho sorriso que tremo somente em lembrar, mas aceitou a visita. Entretanto, passado-se alguns minutos pude ouvir uma risada que me encheu de terror, bem como a voz do padre que recitava trechos da bíblia como se quisesse exorcizar o mal. Abri a porta, temeroso do que encontraria, para vê-lo passar por mim com o rosto lívido, como se houvesse a pouco estado perante o próprio satanás. Ele sussurrou algumas palavras antes de deixar minha casa, como se tentasse fugir de alguma coisa, voltei meus olhos para minha filha que sorria para mim, como se soubesse meus pensamentos. Não queria acreditar no que o padre me dissera, de que a jovem no quarto não era mais minha filha, que de minha doce Relena não havia sobrado nem sua imagem."
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Treize sentiu presenças se aproximando e parou a leitura, segundos antes da porta da biblioteca abrir-se, dando passagem a Heero e Duo. Eles entraram na biblioteca, encontrando Zechs e Treize em silêncio. Duo sorriu, ignorando o clima pesado na sala, e deixou os braços do amante, aproximando-se do amigo, que se levantou assim que o americano se aproximou. Abraçaram-se, e Heero cumprimentou o humano com um aceno de cabeça. Heero olhou para Treize, sentindo que algo estava acontecendo. Ele viu um pequeno caderno na mão do antigo shuhan, e pelo estado supôs que o mesmo fosse bem antigo. Duo olhou para Heero, que olhava para Treize e depois para Zechs. Eles haviam deixado o quarto a pouco, quando receberam o recado de Kimitsu, informando que Zechs encontrava-se na biblioteca com Treize, e que o amigo viera vê-lo.
- Kimitsu disse que você veio falar comigo Zechs. Aconteceu alguma coisa na cidade?
Zechs sacudiu a cabeça diante da preocupação do amigo. Felizmente a cidade andava tranqüila e completamente deserta. Pelo menos quando o sol ainda brilhava no céu, o que não se podia dizer quando a noite caia, trazendo sons estranhos e diabólicos.
- Lembra que eu comentei que tinha recebido algumas coisas do meu tio que morreu na Inglaterra, há algumas semanas antes da batalha?
- Lembro sim, você disse que tinha um monte de coisas antigas fedendo a mofo.
Zechs sorriu ao ver Duo franzir o nariz, ao mencionar a conservação das peças que recebera. Ele mesmo tinha náuseas apenas em lembrar-se do estado de conservação de muitas delas. Embora algumas em particular estivessem bem conservadas, indicando um manuseio assíduo por parte de seu tio. A pintura, o diário eram apenas alguns desses itens.
- Isso mesmo. Bem, eu resolvi dar uma olhada e encontrei algumas coisas.
- Alguma coisa de valor?
- Bem, depende do que você chama de valor.
- Do tipo que você pode vender e consegui uma boa grana.
Heero apertou a cintura de Duo que riu, voltando-se para o amigo que também ria, aliviando a sensação perturbadora de alguns instantes.
- Ahahahhahahah, eu acho que ainda não cheguei lá.
Treize tomou a palavra, indicando com o braço o que o humano havia trazido com ele.
- Bem, seu amigo descobriu coisas curiosas sobre o passado de uma determinada pessoa, e seu parentesco com ela.
Heero olhou para Treize e depois para o humano, voltando seus olhos para a mesa que tinha a pintura ainda exposta. Aproximou-se dela, deixando Duo. Imediatamente seus olhos avermelharam-se, ao reconhecer Relena. Tornando sua voz fria e desprovida de sentimentos menos a raiva.
- É Relena, não é?
Zechs sentiu todos os pêlos do corpo arrepiarem-se, diante da voz do vampiro. Não era algo a que estivesse acostumado, e parecia que ele estava prestes a descontar sua raiva em alguém. Duo tocou o braço de Zechs e piscou, indicando que estava tudo bem. Embora ouvir o nome de Relena ser pronunciada pelos lábios de seu amante o houvesse aborrecido.
- Sim é ela.
Duo olhou para Heero e depois para Treize quando o ouviu confirmar. Aproximou-se da pintura, vendo a imagem de Relena, juntamente com a imagem de Zechs. Abriu os lábios e voltou-se para o amigo, com os olhos surpresos diante da semelhança.
- Zechs é você!
Zechs balançou a cabeça em desagrado, revelando a identidade do jovem retratado na pintura.
- Não... é Milliardo Peacecraft, o irmão mais velho de Relena. E meu antepassado.
- Você é parente da Relena! Cara eu sinto muito por você.
Zechs riu diante do tom debochado de Duo. Apenas ele para quebrar o clima que se instalara. Realmente não era a coisa mais agradável de se afirmar, mas era a verdade, e agora entendia claramente o porquê de tantas coisas. Uma delas, a carta de sua avó a sua mãe, falando acêrca de um de seus antepassados.
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Doze anos atrás – cidade de Bride – Inglaterra:
Um jovem de cabelos loiros, caminhava silenciosamente pela casa. Não se sentia à vontade vivendo lá, mas seu pai lhe dissera que partiriam em alguns dias para uma nova cidade, em outro país onde poderiam recomeçar a vida, sem a lembrança triste do que acontecêra a sua mãe. Sabia que seu pai encontrava-se na cidade, resolvendo alguns assuntos e foi até o quarto principal, onde sua mãe costumava costurar a beira da janela. Sentia tantas saudades dela. Seu sorriso, sua alegria, seus afagos antes de dormir. Antes dela partir, ali era um lugar repleto de vida, mas após sua morte tornara-se um lugar sombrio ao cair da noite. A maioria dos empregados fora demitida, e apenas alguns deles ainda permaneciam na casa, embora seus serviços fossem ser dispensados na manhã seguinte.
Viver ali era quase como viver em um sepulcro. Era como se algo maligno ronda-se cada cômodo da casa. Abriu a porta do armário, ajoelhando-se perante ele. Vasculhou no fundo do mesmo, encontrando uma grande caixa com antigas cartas. Retirou-a com cuidado, abrindo-a e depositando as cartas de sua mãe no chão. Durante horas leu cada uma delas, detendo-se em especial na carta enviada há alguns anos por sua avó a ela. Ao ouvir o som dos cavalos se aproximando, recolocou rapidamente as cartas dentro da caixa, colocando a de sua avó no bolso do colete que vestia. Fechou o armário com cuidado retornando a seu quarto e fechando a porta. Correu rapidamente até a cômoda e abriu uma das gavetas, depositando nela a carta que retirara dos pertences de sua finada mãe, segundos antes que a porta de seu quarto se abrisse permitindo a entrada de seu pai.
Richard Moreau olhou para o filho com cuidado. Havia recebido a notícia de que o mesmo passara o dia todo fechado no quarto de sua esposa. Temia que ele houvesse descoberto algo que não deveria, uma vez que não havia se desfeito das coisas de Margareth. Sobretudo as cartas que ela mantinha com a mãe. Ao lembrar-se da esposa falecida há apenas dois dias, sentiu seu peito doer de saudade, mas no momento não podia permitir-se sofrer sua perda. Em breve partiriam, cumprindo a promessa feita a ela, de que levaria Milliardo para longe, onde ninguém os conhecesse ou pudesse contar sobre eles. Respirando fundo sorriu aproximando-se de seu único filho.
- Já arrumou suas coisas?
- Sim.
- Partiremos depois de amanhã ao amanhecer.
Aproximou-se do filho, acariciando os fios dourados herdados de sua esposa, os olhos azuis perspicazes pareciam buscar respostas que jamais viriam. Não dele. Muito menos de algum parente próximo. Zechs buscava nos olhos de seu pai, respostas para suas dúvidas. Embora desejasse partir, não entendia o porquê dele desejar fazê-lo com tamanha rapidez. Viu quando o pai momentaneamente olhou ao redor antes de deixá-lo sozinho, dizendo ter coisas a resolver. Aguardou que saísse, para que pudesse abrir a gaveta da cômoda e pegar a carta, começando a lê-la. Não sabia que sua avó mantinha contato com sua mãe. Na verdade nem sabia que possuía uma avó. Sua mãe, bem como seu pai jamais mencionara-lhe sobre qualquer parente. Dizendo sempre que não tinham mais parentes vivos, por parte materna e ainda assim, tinha em mãos uma carta daquela que dizia ser sua avó. Subiu em sua cama, lendo mentalmente o conteúdo da carta.
"Querida Margareth,
É triste saber que o passado nos espreita. E que alguns fantasmas nunca adormecem por completo, mas apenas se escondem na obscuridade de nossas mentes, nos confrontando a cada segundo como uma maldição.
Temo que o pior deles, ainda venha a se revelar a nós e o que mais tememos venha a nos arrastar novamente para o mar de dor e sangue que cobre nossos antepassados.
Temo por Zechs que nada tem a ver com o mal nascido a eras, mas que assim mesmo vem manchar suas inocentes mãos com o horror do que tentamos esquecer e esconder, e que no entanto se encontra ainda mais vivo do que antes.
Peço que deixe a Inglaterra o quanto antes, leve o menino para longe, para um lugar aonde ela não possa encontrá-lo. A semelhança dele com um de seus antepassados, há de pesar sobre sua vida, uma vez que ela já sabe sobre sua existência.
Ignoro como ela veio a descobrir, uma vez que a linhagem a muito se perdeu entre as eras, embora haja aqueles que nunca a esqueceram completamente.
Diga a Richard que o tempo se esvai rapidamente. E que cabe a ele revelar toda a verdade ao menino, antes que ele venha a descobrir da pior maneira possível.
Não tenho mais tempo... ela virá procurar-me logo... eu posso sentir. Apenas espero que esta carta encontre seu destino, antes que eu venha a encontrar o meu.
De sua mãe, com amor..."
0..0..0..0...0...0Fim-FlashBAck 0.0.0.0.0.0
- Zechs?
Zechs piscou os olhos confuso. Havia se perdido em pensamentos, e não ouvira Duo chamá-lo. Lembrava-se bem que pouco antes da meia-noite daquele mesmo dia, haviam deixado a casa com apenas a roupa do corpo, que se resumira ao pijama que vestia. Seu pai parecia assustado, quando irrompeu em seu quarto e o tomara-o nos braços, levando-o para fora, onde um carro já os aguardava. Pôde ouvir gritos que vinham de dentro da casa, da direção oposta pelo qual saiam. Lembrou-se que se agarrara a ele com pavor, e que ele simplesmente dissera que tudo ficaria bem, que ela jamais o encontraria.
Duo olhava para Zechs que tinha o olhar perdido, e sua mente parecia mergulhada em lembranças. Havia-o chamado algumas vezes, sem obter qualquer reação do amigo que parecia não ouví-lo.
- Você está bem?
Zechs balançou a cabeça e procurou sorrir, antes de explicar a razão de ter ficado mergulhado em lembranças.
- Estava me lembrando da noite em que eu e meu pai partimos para Epyon. Lembro-me de ter sido acordado por meu pai, e que o empregado que o seguia ateou fogo em meu quarto e por todo o caminho que percorremos até os fundos, por onde deixamos a casa. Lembro dos gritos ecoando da parte da frente, e da imagem da casa em chamas, enquanto o carro percorria rapidamente a estrada deixando tudo para trás. Nunca entendi o que havia acontecido àquela noite, e meu pai nunca quis falar sobre o assunto.
- Acha que era...
- Relena? Talvez. Lembro que meu pai disse as seguintes palavras: Tudo ficara bem, ela jamais o encontrará.
Zechs ficou em silêncio durante alguns instantes. Procurando afastar a sensação aterrorizante que o acometera anos atrás e que sempre o acometia, a cada vez que se lembrava do episódio. Olhou para Duo, que tocara seu braço e lhe sorria de forma compreensiva. Zechs tocou a mão em seu ombro sorrindo, voltando a falar.
- Embarcamos assim que chegamos a cidade, com apenas a roupa do corpo. Viajamos por dias, antes que chegássemos aqui. Perdi a conta de quantos trens, ônibus e aviões tomamos para encobrir nosso rastro e apenas agora percebo isso. Até o nome meu pai mudara, me fazendo prometer que jamais diria meu nome a alguém, apenas meu nome de batismo.
- Acho que entendo o que ele tentou fazer.
- Proteger-me.
Duo sorriu, balançando a cabeça e abraçando-o pelos ombros. Olhou para Heero que manuseava um pequeno caderno, ouvindo a explicação de Treize de que se tratava do diário do pai de Relena, alheio ao diálogo que ele tinha com Zechs. Era estranho pensar que Relena possuía um passado como qualquer outro. Que ela nem sempre fôra o ser vil e diabólico que conhecia, e que ouvia os outros vampiros comentar. Mas que um dia fôra humana. Não que a imagem retratada na pintura a fizesse parecer mais humana ou bondosa. Na verdade, a seus olhos a jovem retratada lhe parecia tão má quanto a imagem atual, embora de forma mais branda. Lembrou-se das palavras que seu tio dizia. Todos nascem com o mal dentro de si, mas apenas alguns permitem que esse mal tome forma.
- Tio...
As palavras deixaram suavemente seus lábios, que sentiu seu peito doer diante das lembranças de seu tio. Era tão duro pensar nele. Afastou-se de Zechs, caminhando até a janela. No segundo seguinte sentiu a mão de Heero pousar em sua cintura fazendo-o abandonar momentaneamente os pensamentos tristes. Virou-se, encontrando a íris repleta de compreensão e carinho, e sorriu; agradecido pelo amor do vampiro.
Heero estava lendo o diário, quando sentiu repentinamente seu peito apertar-se, e sua mente encher-se de uma profunda tristeza. Imediatamente soube que esta vinha de Duo. Ouvira-o mencionar tristemente o padre, e entendia seu sofrimento. Embora tal sentimento o houvesse desconcertado por alguns segundos. Jamais imaginou que o amante carregasse tanta dor dentro de si. Nos poucos segundos que sua mente ligou-se a de Duo, pôde sentir e ver completamente seus mais profundos segredos. A dor, a culpa por não estar com eles no dia em que morreram. A solidão que o consumira durante anos.
Não pôde evitar olhá-lo com carinho e compreensão. Entendia o que ele sentia, embora soubesse que de nada adiantaria se continuasse a sofrer dessa forma. Já havia perdido a conta das pessoas que vira morrer durante os séculos. Jovens brilhantes. Mulheres. Homens. Crianças. Enquanto ele se encontrava fadado a percorrer os séculos, vivendo na escuridão dos dias, quando tudo o que desejava era poder dar descanso à sua alma. No entanto, agora havia encontrado uma razão para viver. Havia encontrado um sopro de vida, quando já não mais acreditava que isso era possível. Já se estando morto. Carinhosamente, e ignorando a presença de Treize e do outro humano, Heero puxou Duo para um canto, tocando-lhe a face macia e angustiada.
- Deixe-o descansar meu amor. Sua alma não terá paz se não o deixar partir.
- Eu...
Heero sorriu e sacudiu a cabeça. Se Duo continuasse a carregar esse sofrimento em seu coração, isso continuaria a acabar com ele.
Duo abraçou Heero fortemente, soluçando. Queria esquecer. Queria deixar seu tio e a irmã Helen descansarem, mas não conseguia. Achava que não tinha esse direito. Não quando deveria estar na igreja com eles. Não deveria ter brigado com seu tio, apenas porque não queria conhecer o restante da família, que não quisera saber dele quando fôra deixado sozinho. Procurou refrear o choro, olhando nos olhos de Heero. Ele estava certo. Sabia disso. Mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Entretanto achava que talvez esse fosse o momento de fazê-lo; mesmo que em seu coração fosse incapaz de pensar nisso.
- Eu vou tentar.
- Você não está mais sozinho. Eu estou, e sempre estarei com você.
- Eu sei.
Heero beijou Duo de forma suave, fazendo-o esconder o rosto em seu peito. Este afastou-se envergonhado, ao lembrar que se encontravam na biblioteca com Treize e Zechs, e não sozinhos. Estes encontravam-se silenciosos, observando o casal; fazendo Duo corar ainda mais:
- Bem Zechs; o que mais você pode nos contar sobre a bruxa? Falou com um sorriso zombeteiro, quebrando o clima, e retornando ao assunto que trouxera o amigo ao castelo.
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Quatro horas depois:
Zechs estava retornando a pé para a cidade. Seu carro enguiçara antes que a houvesse alcançado. Não gostava de andar pelo escuro. Não com tantos caçadores a solta e sem uma arma para se defender. Mas não tinha escolha agora. A cidade estava mais próxima do que se tentasse retornar ao castelo. Decidiu que seria melhor ir correndo. Colocou o diário no bolso do casaco, enquanto segurava o tubo com a pintura de Relena. Não queria correr o risco de alguém roubá-los. Já podia ver a cidade ao longe, e se pudesse alcançá-la sabia que estaria parcialmente seguro. Entretanto soube que não seria assim tão fácil.
O simples fato de não conseguir ouvir nenhum som, além do seu coração era um problema, ainda mais estando tão próximo à floresta. Deveria haver inúmeros animais e insetos que geralmente fariam algum tipo de som. Sentiu-se observado, e um arrepio percorreu-lhe a espinha ao ouvir seu sobrenome ecoar na escuridão. Sabia que deveria continuar a correr mas parou, virando-se ao sentir algo assoprar em seu ouvido. No entanto não encontrou ninguém, mas ao virar-se novamente para frente deu de cara com Relena que sorria, acompanhada de dois rapazes ruivos.
- Faz tanto tempo que não encontro um parente.
- Relena..
- E vejam, ele também me conhece.
Os ruivos sorriam e Relena abriu ainda mais o sorriso ao ver o medo nos olhos do humano. Desde que o vira na cidade soubera que ele era um descendente de sua família. Não tinha como estar enganada, ele era a cópia perfeita de seu irmão. E estivera procurando-o há tanto tempo. As informações que Mackaczi lhe dera eram verdadeiras afinal, e lhe fôra muito útil que o mandasse vigiá-lo e seguí-lo. Informando o momento em que o mesmo estaria sozinho e longe de proteção. Não havia sido difícil danificar o veículo que ele usava, e deixá-lo no meio do caminho, e a mercê de sua vontade.
- Não precisa ter medo de mim. Eu não mordo.
Relena riu, aproximando-se de Zechs. Ela retirou o cone de seus braços, jogando-o longe, antes de tocar-lhe o braço que encontrava-se incapaz de se mover. Erguendo-se na ponta dos pés sussurrou no ouvido dele, falando sarcasticamente e aumentando o pavor que ele sentia.
- Quero dizer..., muito forte.
Zechs ofegou ao sentí-la afastar a gola da camisa e deslizar a língua por seu pescoço, antes de se afastar. Tentou se mover, mas suas pernas não obedecia-lhe. Pareciam pregadas no chão. Relena notou e sorriu, balançando o dedo em sinal de negativa.
- Você não vai se mexer até que eu queira. Não se preocupe não tenho a intenção de matá-lo... ainda. Faz muito tempo que não encontro alguém da família. Não mais do que conversar com um humano antes de devorá-lo... Milliardo. Não se importa se eu o chamar assim não é? Soube que costuma usar seu nome de batismo, como é mesmo?
Relena fingiu pensar durante algum tempo, antes de dizer o nome que já conhecia a muito tempo.
- Zechs Marquise, se me permite dizer Milliardo; é muito mais bonito irmão.
Zechs conseguiu encontrar coragem para retrucar. Não podia permitir que ela o dominasse completamente. Embora não soubesse como conseguiria livrar-se dela.
- Eu não sou seu irmão.
- Ah, eu sei disso tolinho.
Relena sorriu e abraçou Zechs segurando-o pela cintura e repousando a cabeça em seu peito ouvindo o coração dele bater acelerado. Podia sentir o medo em cada poro de seu corpo, como um doce aroma convidando-a para um banquete maravilhoso. Mas antes tinha algumas coisas a perguntar à imagem de seu irmão. Ainda abraçada a ele, respirou o perfume de seu corpo, reagindo a força que emanava dele, tão parecida com a de seu real irmão.
- Você é apenas uma casca semelhante a ele. A essência é totalmente diferente. Embora não menos agradável. Além do mais, Milliardo está morto a séculos. Coitado, achou que eu pudesse ser salva... ahahahahahahaha como se eu precisasse ser salva de alguma coisa.
- Você o matou?
Zechs ficou chocado ao descobrir que Relena matara o próprio irmão. Embora tal fato tenha passado por sua cabeça, ouví-la confessar causara-lhe surpresa. Relena afastou-se e riu da expressão de incredulidade do humano. Ele era tão adorável. Tanto quanto seu querido irmão, ao descobrir o que ela havia se tornado.
- Claro que sim, porque não o faria? Eu lhe dei a chance de ser como eu, mas ele não quis, não viu a dádiva que eu lhe ofereci.
Zechs pôde notar a raiva imperando na voz outrora suave. Parecia que o fato de Milliardo negar-se a compartilhar com ela a imortalidade a aborrecia, apenas ela para achar que tal coisa fosse algo fabuloso.
- Dádiva? Você chama de dádiva isso o que você é?
Relena estreitou os olhos, para logo em seguida suavizar o olhar e sorrir ironicamente, retrucando as palavras do humano.
- E o que eu sou? Não precisa responder... eu sei... hunpf... como Milliardo você não vê a magnitude do que somos. Se eu tivesse sido paciente, ele estaria ao meu lado hoje, mas como dizem o tempo é o melhor professor, e eu tenho todo o tempo do mundo.
Zechs olhou para Relena, tentando imaginar ela como humana. A imagem da doçura e inocência, mas apenas se olhasse superficialmente, sem encarar-lhe os olhos azuis que certamente como agora deveriam transmitir toda sua maldade. Afinal não há como se esconder uma semente ruim, mesmo que se tente durante algum tempo. Ainda assim como ela pudera matar o próprio irmão? E pelo que lêra, era seu ente mais querido.
Relena olhou para a cópia de seu irmão e sorriu. Os humanos eram tão simples de se decifrar. Podia ver-lhe os pensamentos através dos olhos claros. Sempre tão curiosos, mesmo diante da morte. Os humanos se mostravam curiosos quanto ao seu executor.
- Você quer saber não é? Eu posso ver em seu olhar e ler sua mente facilmente. Você quer saber como é, e porque o matei. Tudo bem vou... satisfazer a sua curiosidade Zechs.
Zechs sentiu um arrepio ao ouví-la pronunciar o seu nome devagar. Relena jogou os cabelos para trás e caminhou até os dois ruivos que juntaram os braços como uma cadeira onde ela se acomodou, olhando para o humano, pouco antes de fechar os olhos procurando se lembrar de seu passado. Ao abrir os olhos ela tinha uma expressão irônica e sua voz saiu suave e calma, o que não lembrava em nada o demônio que era.
- Papai já estava desconfiado que alguma coisa estava errada, e não poderia estar mais certo. Embora sua suposição sobre o que estava acontecendo comigo e os motivos em si estivessem completamente errados. Mas não posso culpá-lo. Ele foi sempre tão ignorante em certos assuntos.
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Inglaterra 1648 – Norte de Northhire's :
Uma mulher de cabelos claros, e olhos de um azul cristalino, aguardava ansiosa a chegada de seu marido. Ela estava preocupada com o bem estar de sua única filha, que há alguns dias, se recusava a deixar a escuridão do quarto. A porta da frente abriu-se e ela ouviu passos apressados vindo até onde se encontrava. Levantou-se da cadeira ,encontrando o marido antes que o mesmo entrasse na sala de leitura. Michael notou o semblante preocupado da esposa. Recebêra o recado dela no banco e viera correndo para casa. Já ciente de que a situação não era das melhores.
- Onde ela está?
- No quarto. Não quis se levantar novamente e se recusa a abrir as cortinas. Eu estou preocupada Michael. Ela não quer sair do quarto de jeito nenhum.
Ele olhou preocupado para cima, imaginando o que poderia ter acarretado tal comportamento em sua única filha. Relena sempre fôra cheia de vida. Adorava passear, fazer compras. E agora mal saía de casa. Quanto mais do quarto. Voltou sua atenção a esposa, ao ouví-la supor o motivo da mudança comportamental de Relena.
- Seriam saudades de Milliardo?
Michael demorou-se alguns instantes antes de responder, meditando sobre tal possibilidade. Não acreditava que as atitudes da filha se dessem por causa da partida de Milliardo há algumas semanas. Lembrava-se bem, que Relena sentira a partida do irmão mais velho, mas conformara-se com isso. Visto que ela não permanecera trancada no quarto por mais do que algumas horas na manhã seguinte a partida dele.
- Não sei o que pensar, mas não creio que haja ligação.
- Ela não é a mesma desde àquela noite; em que foi a festa na companhia de Josephine.
Michael procurou lembrar-se da noite ocorrida à quase três semanas atrás. De fato, quando Relena voltara da festa parecia um tanto quanto pálida e estranha, e havia ficado acamada durante alguns dias. Adormecida na verdade. E quando acordara, começara a agir estranhamente. Ainda assim não consiguia imaginar o que poderia ter acontecido na festa para que acarretasse tamanha mudança na filha.
- Acha!
- Não sei querido. Realmente eu gostaria de encontrar um motivo.
- Vou falar com ela.
Michael caminhou em direção as escadas, detendo-se ao chamado da esposa, que se lembrara de algo ocorrido pouco antes da chegada do marido.
- Tenha cuidado querido... Relena está ainda mais estranha. Ela me assustou hoje. A forma como me olhou quando fui ao quarto para vê-la...
Michael notou a dificuldade da esposa, em terminar de falar. Não sabia o que havia acontecido nas poucas horas em que esteve ausente. Mas era certo de que havia preocupado seriamente sua mulher. Sophie não sabia ao certo como explicar, e temia estar imaginando coisas. Embora o medo que vira nos olhos do filho caçula, e o que vira nos olhos de Relena, não pudessem ser meras ilusões.
- Diga querida.
Ela olhou para cima, antes de voltar seu olhar ao marido e voltar a falar. Tinha a sensação de que eram observados, e que tudo o que diziam era ouvido pelas paredes da casa.
- Ela pareceu que estava pronta a me atacar. E hoje à tarde, quando Austin foi vê-la, ele disse que ela tentou mordê-lo.
Michael franziu o rosto diante do que ouvira e balançou a cabeça antes de seguir seu caminho até o quarto da filha. Bateu na porta ouvindo a permissão para entrar. Como vinha ocorrendo nos últimos dias, encontrou Relena deitada na cama. As cortinas fechadas e o quarto iluminado apenas por velas. Sentou-se na beira da cama, olhando nos olhos da filha que o encarava em silêncio. Não conseguia mais ver através de seus olhos sua doce filha. Sua doçura parecia que havia dado lugar a outra coisa. Algo de que não gostava. E por algum motivo sentiu medo dela e do sorriso quase perverso com que ela agora o encarava. Pôde ouvir a voz suave, carregada de ironia e sarcasmo.
- Está com medo de mim papai?
Michael sentiu um calafrio estranho, e obrigou-se a sorrir e responder, mesmo que por dentro sentisse exatamente o contrário do que dizia.
- E porque diz isso querida? Porque deveria temer minha própria filha?
Estranhamente, teve a impressão de ouvir a voz dela em sua mente, dizendo-lhe conhecer a verdade de seus pensamentos. Viu-a sorrir, e sentiu seu coração falhar uma batida, tamanha a sensação que passou por seu corpo e mente. Relena torceu os lábios em um sorriso irônico, antes de sentar-se e responder.
- E o que seus olhos me dizem.
- Não tenho porque teme-la... você é minha doce filha.
Relena não pôde deixar de rir da tolice que ouvia. Será que ele não percebia que não era mais a mesma?
- Doce? Ahahahahahahahah papai... tão tolo...
Michael estreitou os olhos diante da resposta, mas antes que pudesse repreendê-la, ouvia-a perguntando:
- Quando Milliardo volta?
- Está assim por causa da viagem de Milliardo?
- Não, mas não creio que você gostaria ou esteja preparado para saber papai.
Michael levantou-se imediatamente, ao ver um ligeiro avermelhado substituir o azul claro dos olhos de sua filha por meros segundos. Piscou, e quando voltou a olhá-la não havia sinais do que achara ter visto, e Relena apenas o encarava com um olhar estranho. Seguiu até a porta, sem dar as costas à filha, que parecia divertir-se com seus atos.
Relena sorriu ao ouvir o pai gaguejar, e pôde ver o medo espelhado em seus olhos.
- O... o padre virá vê-la essa tarde. Sua mãe diz que você precisa se confessar, já que se recusa a ir a igreja para fazê-lo.
- Acha que ele vai me perdoar de meus pecados?
- Releena...
- Eu estou cansada e com fome.
Relena sorriu, olhando para o pai. Os olhos presos em seu pescoço. Passou a língua pelos lábios e ele não teve certeza do que viu, devido à pouca claridade no quarto, mas por alguns segundos achou que os dentes haviam crescido, como se fossem duas presas. Deixou o quarto, ouvindo a risada de Relena, e encostou-se na porta, obrigando-se a afastar-se. Embora a risada ainda continuasse a ecoar em sua mente.
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Tempo atual:
- Ele trouxe o padre e se o mesmo não houvesse trazido uma cruz, teria sido um petisco saboroso. Mas eu tive outros petiscos com que me satisfazer àquela noite. Afinal alimentar-se do sangue de animais, não é tão agradável e saboroso quanto o sangue humano. Os empregados da casa foram os primeiros, mas foram poucos para a minha fome. Eu queria mais, muito mais do que alguns humanos, então eu parti para minha família. Austin foi o primeiro, depois mamãe. Enquanto papai me olhava paralisado pelo medo, sem acreditar que sua doce filha se tornara um demônio. Quando o sangue de mamãe se extinguiu em meus lábios foi a vez de papai.
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Inglaterra 1648:
Michael não podia acreditar que o demônio a sua frente fosse sua filha. A pela clara de seu rosto manchada pelo sangue de sua esposa. O rosto doce e inocente, agora encontrava-se transfigurado pela perversidade, brilhando nos olhos vermelhos e nas presas em seus lábios. Não se sentia capaz de fugir daquele olhar maldoso, e logo pôde sentir as presas dela em seu pescoço. Sendo incapaz de afastá-la. Ouviu um grito, que não soube dizer se era o seu, antes que mergulhasse na escuridão.
Relena segurava com força o corpo inerte de seu pai. O sangue descia por sua garganta. Quente e espesso. Nunca provara algo tão maravilhosamente doce. Nada poderia comparar-se a tal sabor. Nem mesmo os doces que costumava provar, feitos nas mais requintadas docerias da cidade, igualavam-se em sabor ao que provava neste momento. Entretanto ela desejava mais de tal magnífico sabor. A fome que sentia parecia aumentar a cada gota que esvaia-se do corpo junto ao chão. Seus olhos avermelhados, voltaram-se para o retrato por sobre o piano. Se ao menos ele estivesse ali, ela poderia provar de seu gosto, e até mesmo torná-lo como ela, da mesma forma que o jovem de cabelos negros fizera com ela na festa onde estivera com Josephine. Então ela sentiu no meio da fome, uma nova fonte de alimento. Quente e viva.
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Tempo atual:
Relena olhava com divertimento para o humano, que se encontrava agachado no chão,vomitando. Olhou para os gêmeos, vendo-os rir com prazer, diante da repulsa do humano.
Zechs sentia-se nauseado diante das palavras de Relena, quanto ao que ela fizera a própria família, e o que sentira ao banquetear-se com o sangue deles.
Relena olhou para o humano, sentindo a fome apertar sua garganta como uma garra fria. Lembrar-se de seu passado deixava-a com mais fome. Olhou para Mirla, falando com ela mentalmente, ordenando que trouxesse comida para ela, enquanto terminava de contar a seu "parente" o que ocorrêra depois. A criatura afastou-se sorrateiramente, e ela olhou na direção do castelo, sorrindo antes que a escuridão ao redor encobrisse sua forma. Relena viu-o limpar os lábios na manga da camisa e sorriu, jogando as madeixas loiras por sobre os ombros, retornando ao relato de seu passado, como se contasse um filme qualquer.
- Milliardo chegou naquela hora. Ele viera fazer-nos uma surpresa e não posso dizer que não fôra em boa hora. Deixei o corpo de papai no chão, em frente à sala que tinha nosso retrato e me escondi, para que não me achasse até que eu assim desejasse.
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Inglaterra 1648:
Milliardo abriu a porta da casa com uma estranha sensação. A casa encontrava-se mergulhada num estranho e mórbido silêncio. Mesmo pelo avançado da hora, deveria haver alguém ou algum empregado acordado. Entretanto, parecia que havia entrado em um cemitério. Diante do total silêncio e semi-escuridão. Caminhou no escuro, sentindo-se observado. Virou-se, ao pensar que havia alguém a suas costas, mas não havia ninguém. Pensou ouvir uma risada e caminhou até onde achava que ela estava. Parou em choque ao ver o corpo de seu pai no chão e correu até ele, notando-lhe o corpo ainda quente, indicando que morrera há pouco. Agarrou o corpo contra si chorando, imaginando onde estaria os outros. Soltou-o e olhou ao redor, levantando-se e correndo até as escadas, para encontrar o corpo de sua mãe, também sem vida, caída ao pé da escadaria.
Seu grito ecoou pela casa, encontrando somente o silêncio. As lágrimas nublaram seus olhos e ele correu ao quarto de seus irmãos menores, temendo o que iria encontrar. Ao chegar ao quarto de Austin, encontrou-o ainda na cama, a face tão pálida e tranqüila que achou que este estava apenas dormindo, mas ao aproximar-se, notou que suas roupas encontravam-se manchadas por sangue. Indicando que ele fôra morto enquanto dormia.
- NÃO!
Deixou seu corpo cair, chorando diante da tragédia que acometera sua família. Que tipo de monstro entrara e matara seus pais e irmão? Sua mente obrigou-o a erguer-se e procurar por sua irmã. Correu para o quarto onde esta dormia, não a encontrando. Imediatamente seu coração alegrou-se, com a possibilidade dela ter escapado da tragédia, e correu para seu quarto, no intuito de buscar a espada que ganhara em seu último aniversário. O assassino ainda poderia encontrar-se na casa, e não pretendia deixá-lo partir antes que pagasse pelo que fizera. Pegou uma vela e desceu cautelosamente as escadas, procurando Relena pela casa. Seguiu na direção da cozinha, não encontrando nada além de corpos sem vida. Pegou junto ao fogão um pedaço de madeira em brasa, que iluminaria melhor seu caminho que uma vela. Em cada cômodo que percorria a apreensão o assaltava. Não tinha esperanças de encontrar sua doce irmã. Chegou na sala do piano que se encontrava escura e acendeu a lareira, chorando sua dor, até que uma voz suave e maldosa o fez virar-se.
- Não chore irmão.
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Tempo atual – Terra dos Khushrenada:
Quatre encontrava-se inquieto. Alguma coisa estava acontecendo. Podia sentir a morte rondando a seu redor. Ela gritava pela vida de alguém próximo. Fechou os olhos, sentindo seu peito comprimir-se, e suas presas feriram seus lábios, diante das imagens que invadiram sua mente, sufocando-o. Trowa sentiu as sensações de Quatre e correu até o amante que se tornara silencioso na última hora. Estavam conversando tranqüilamente quando Quatre simplesmente calara-se, e saíra de seus braços indo até a lareira que se encontrava apagada. Sua cabeça pesava como se fosse tivesse toneladas, e teve que se apoiar na parede de rochas sobre a lareira. Trowa segurou as mãos pálidas de Quatre que tremia diante do que sentia. Não conseguia compreender o que acontecia, mas já havia sentido as mesmas sensações antes, e sabia que logo teria uma resposta.
Heero entrou na sala, seguido por Duo. Eles estavam no quarto conversando sobre o que haviam descoberto sobre o passado de Relena, quando receberam o chamado mental de Trowa há poucos instantes, quando Quatre convulsionou em seus braços atordoado.
O loiro abriu os olhos que tinham perdido toda a cor e o brilho, causando arrepios em Duo que agarrou-se ao braço de Heero sem entender. Trowa olhou dentro das orbes brancas, como se visse através de um espelho. Era como se em seus braços segurasse um zumbi, e não seu amante vampiro. Podia ver o que se passava com ele e o que o mesmo enxergava através de suas novas habilidades ainda inexploradas. Voltou-se para Heero que tinha o semblante fechado e aguardava o desfecho do que acreditava ser uma visão de Quatre. Já havia ouvido falar de vampiros que tinham a habilidade de ver o curso do tempo. Fatos que se desenrolavam no mesmo instante, como se assistissem a um filme. Em sua maioria, quando humanos; possuíam um dom empático que lhes permitia sentir as emoções ao redor. Alguns, quando tinham uma empatia elevada, tinham a capacidade de ver trechos de um futuro próximo, isso quando aprendiam a conviver com suas novas habilidades sem enlouquecerem, o que não esperava ser o caso de Quatre. Pois certamente Trowa sofreria com o amante, o peso de carregar tal habilidade antes que pudesse controlá-la.
- Zechs...
Duo soltou-se de Heero indo até Quatre ao ouví-lo murmurar o nome do amigo que há poucas horas deixara o castelo.
- O que tem o Zechs, Quatre?
Quatre fechou os olhos, ofegando em dor, antes de abri-los revelando a íris azul claríssima repleta de dor e preocupação, revelando o que acreditava ser o que acontecia a poucos quilômetros do castelo.
- Relena está com ele. Ela vai torná-lo um de nós.
- Hugh!
Ao ouvir o nome de Relena, Heero voltou-se imediatamente para a porta. No mesmo instante em que o Lycan, aparecia respondendo ao chamado.
- Encontre o humano que esteve a pouco no castelo. Avise-me assim que achá-lo.
Hugh desapareceu rapidamente, procurando seguir o cheiro do humano que vira deixar o castelo a pouco mais de uma hora atrás.
Trowa abraçou Quatre, que balançou a cabeça em sinal de que se sentia melhor. De fato, sua cabeça pesava menos, embora se sentisse esgotado pelo que vira. Voltou seu olhar para Duo, sorrindo fracamente. Duo meneou a cabeça e ergueu-se indo até Heero que dava ordens a alguns vampiros. Correu até o quarto, indo de encontro às espadas, resgatado-as de sua câmara. Se Relena ousasse abraçar Zechs ela pagaria caro por fazê-lo.
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Tempo atual:
Relena parou ao ouvir a voz de Zechs carregada de asco e descrença. Os humanos eram tão tolos.
- Como pôde matá-los dessa forma?
- Matando. O que acha que somos Zechs? Anjos? Até eles matam, o que dirá nós; que somos predadores por natureza.
Relena riu acompanhada dos outros vampiros. Zechs olhou para os outros. Tendo a real dimensão do que Relena realmente era, e do mal que representava. Ouvindo-a continuar a contar o que acontecêra àquela noite, quando matara a própria família.
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Inglaterra 1648:
Milliardo olhou para irmã indo até ela, mas parando ao notar-lhe as vestes manchadas de sangue. Sua consciência o fez oscilar e ele recuou, sem acreditar em seus pensamentos. Não podia ser verdade. Aquela não podia ser sua Relena. Sua doce e amada irmã. Relena sorriu diante da descrença que via nos olhos de seu irmão. Rapidamente livrou-o da espada, jogando-o contra a parede mais próxima, e vendo-o rastejar até o canto, procurando afastar-se dela.
- Eu tive tantas saudades irmão. Não sabe como desejei vê-lo novamente.
- O que é você? O que fez a meus pais e irmãos?
Relena olhou-o com fingida surpresa, ao agachar-se em frente ao irmão, inclinando a cabeça levemente.
- Não me reconhece Milliardo? Sou eu, Relena.
- Não... não... não pode ser.
Milliardo tampou os ouvidos, balançando a cabeça em negação. A criatura que sorria malevolamente não podia ser Relena. Ou o sangue a cobrir-lhe as vestes e manchar-lhe o rosto pálido seria dos corpos sem vida espalhados pela casa escura e silenciosa. Aborrecida como uma criança mimada e sem paciência, Relena segurou com força os pulsos do irmão mais velho, fazendo-o encará-la, sem desviar o olhar de seus olhos vermelhos.
- Eu sou ela. E sim, o sangue é de todos da casa. Eu estava com fome, o que queria que eu fizesse? Eu estava tão sozinha Milliardo. Fique comigo.
Relena soltou os pulsos do irmão e abraçou-o; fingindo soluçar como uma criança. A criança que costumava acordar assustada no meio da noite, com pesadelos e corria para o quarto do irmão mais velho, para que ele a protegesse dos monstros da noite. O mesmo monstro em que ela se tornara. Com o ouvido colado ao peito de Milliardo podia ouvir o coração dele batendo rapidamente. O sangue fluindo pelo corpo quente, convidando-a a prová-lo. Ela deslizou as mãos pelo peito forte do irmão, inclinando-se ligeiramente em direção a seu alvo. Não deixando que este notasse sua real intenção. A de alimentar-se dele.
Milliardo abraçou a irmã ao ouvi-la soluçar. Não sabia o que fazer. A criança em seus braços afirmava ser sua irmã, e a responsável pela morte de todos. Não fazia idéia do que estava acontecendo a ela, ou o porquê dela ter dito que estava com fome. Afinal os outros não eram alimento a serem devorados. Ele fechou os olhos chorando, sentindo-a mover-se sutilmente em seus braços. Afrouxou o abraço, abrindo os olhos e gritando diante da dor em seu pescoço.
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- Eu me alimentei dele, e pela primeira vez eu chorei. Minhas primeiras lágrimas vermelhas, ao ver o olhar de pena dele quando conseguiu afastar-me. Embora não houvesse muito a ser feito. Eu não pretendia realmente exceder-me, mas o sangue é como um doce, que quanto mais se prova, mais se quer.
Zechs olhou surpreso para Relena ao ouví-la confessar que chorara. Por alguns míseros segundos vislumbrou o arrependimento em seu olhar. Arrependimento por tê-lo de fato matado e não o abraçado, como era seu real desejo. Ela havia se deixado levar pela fome de sangue. Relena balançou a cabeça afastando os pensamentos que a atormentavam, não era mais como aquela menina. Era forte, e todos se curvavam a sua vontade, ou pereciam por suas mãos.
- Ele conseguiu nesse meio tempo, afastar-se de mim e ir até a lareira. Pegou a tocha que deixara nela e tacou fogo na sala onde estávamos. O fogo começou a consumir a sala em segundos, e eu o vi por entre as chamas, segurar o retrato de nós três juntos ao peito e jogá-lo pela janela. Em pouco tempo a casa inteira ardia em chamas, mas apenas uma pessoa saiu ilesa de dentro dela. E acho que você já imagina quem foi.
Zechs meneou a cabeça, imaginando como alguém conseguia mudar tão rapidamente de humor. Uma hora demonstrando dor e arrependimento, em outro apenas sarcasmo e malícia.
- Dias depois eu fui levada à corte, onde morava um tio, por parte paterna. Ele recebeu-me como uma filha de fato. Embora soubesse o que eu era. Uma vez que fez preparativos para que eu viajasse e chegasse apenas à noite em sua casa.
- Porque ele a recebeu se sabia o que era?
Relena surpreendeu-se ao ouvir a pergunta do humano. Não esperava que ele fosse perguntar-lhe algo. Zechs a viu fechar os olhos e estender os braços rodopiando como se dançasse alguma musica silenciosa, como se estivesse em um baile. Parou abruptamente, olhando diretamente nos olhos, ao respondê-lo.
- Ele nunca soube. Talvez ele não acreditasse realmente, ou quem sabe estivesse apenas curioso. Quem sabe?. Em todo caso, sentia-me culpada por não ter conseguido trazer meu irmão para meu lado, e procurei aprender e controlar minha natureza.
Relena viu o olhar de incredulidade, e os pensamentos do humano, quanto a não acreditar que ela aprendera a controlar-se. Relena aproximou-se de Zechs erguendo-lhe o corpo, com um dos dedos em seu queixo, deixando-o na altura de seus olhos.
- Sim, eu aprendi; e encontrei outros como eu. O fato de não me importar em matar, como alguns, não significa que eu não conheça minha natureza. E sim que sou fiel a sua vontade.
Relena soltou Zechs rindo sarcasticamente, abraçando um dos gêmeos, que lhe beijava suavemente o pescoço pálido, fazendo-a virar-se e beijá-lo com ardor. Relena afastou-se ao sentir a presença de Mirla e sorriu; deslizando a língua pelas presas diante da entrada que iniciaria o banquete a ser-lhe servido.
Mirla jogou os corpos desacordados de dois humanos. Deveriam ter entre trinta e quarenta anos. Zechs os conhecia de vista. Se não estava enganado, pertenciam ao castelo. Virou o rosto nauseado, ao vê-la morder o pescoço de um deles com voracidade, enquanto o outro era devorado pelos outros quatro vampiros ao redor.
Relena manteve os olhos presos ao humano, enquanto alimentava-se com o sangue fresco do humano em seus braços. Soltou-o, dando-o a Mirla, que acabou por terminar de sugar o restante do sangue, antes de preparar o corpo do mesmo para alimentá-la quando este alcançasse o estágio perfeito de putrefação.
Relena aproximou-se de Zechs lambendo-lhe o rosto, e limpando o sangue que manchara seus lábios na camisa clara que o humano vestia.
- Onde estava? Ah sim... vamos encurtar um pouco a história. Não temos a noite inteira não é mesmo? Bem, eu vivi alguns meses na corte e aprendi muito no tempo em que estive lá, mas o que me surpreendeu foi o que descobri mais tarde. Que Milliardo possuía um filho. O engraçado é que eu jamais descobriria, se a vadia com quem ele se deitara, não houvesse tomado conhecimento de meu tio e o tivesse procurado. E talvez nem houvesse me tornado quem sou. Quem vai saber? Mas voltando ao assunto... parecia que a visita de Milliardo era para contar-nos que iria se casar, pois havia se enamorado e engravidado a tal moça. Não é preciso adivinhar que ela não era bem-vinda por mim.
Relena olhou com rancor para Zechs ao lembrar-se da jovem. Longos cabelos castanhos, olhos de um verde profundo. A pele clara como a dela. Seu tio ouvira a história e se convencêra de que era verdade. Após as devidas investigações. Ainda lembrava-se do rosto dela, e de como ela tentara tornar-se sua amiga. Tão tola por achar que a aceitaria. Relena afastou as lembranças do encontro com Emanuelle de sua mente, atendo-se apenas ao que achava que o humano deveria saber sobre seu passado.
- O desaparecimento repentino dela e da criança que carregava, seria apenas um detalhe facilmente a ser resolvido por mim e alguns amigos que fiz, se meu tio não houvesse desconfiado de minhas intenções àquela tarde, quando a convidei para um passeio, junto ao bosque da propriedade.
Relena se lembrava bem que fora por pouco que não conseguira matar Emanuelle. Infelizmente seu tio Alfred já desconfiava de sua natureza, visto que seu pai, através de uma carta enviada a corte lhe confidenciara sobre seu estranho estado, poucos dias antes de falecer. Avisado de seus atuais hábitos estranhos, e comprovando o mesmo com sua permanência ao recebê-la em sua casa. Não demorou muito para que ele se precavêsse contra a verdade que ele supunha entender. Na verdade, achara estranho encontrar tantos objetos sagrados pela casa, visto que a família não costumava ser tão religiosa. Aliado ao fato de estar sempre acompanhada por perto, não lhe sendo permitido jamais, estar sozinha realmente.
- Meu tio possuía uma mente mais esclarecida que meus pobres pais. Afinal ele vivia na corte. Onde fatos estranhos eram mais comuns que na pequena localidade onde morávamos. Ele tinha conhecimentos sobre certos fatos da vida, e sobre os da minha espécie, bem como conhecia pessoas que tinham conhecimentos mais profundos sobre nossos hábitos, e que tinham apenas um objetivo. Caçar-nos. Ainda existem muito deles espalhados pelo mundo. Descendentes dos primeiros caçadores de vampiros. Embora sejam outros tempos. E eles tenham se tornado mais discretos, Suas armas mais modernas e seus métodos mais eficientes.
Naquela noite ela havia tido o desprazer de enfrentar um deles; mas ele fora estúpido por achar que conseguiria matá-la tão facilmente. Se outros não houvessem aparecido, certamente agora não estaria olhando para Zechs neste momento.
- Meu tio ajudou-a a fugir, e tentou matar-me, ao ver o que eu era. Como retribuição eu não descansei, até que encontrei cada um daqueles que tinham o sangue dos Peacecraft correndo nas veias, matei-os um a um. Até mesmo Emanuelle. Embora não a tenha matado eu mesma, e sim assistido com prazer sua morte. Mas não matei a criança de meu irmão. Por algum ato divino ela me escapou, e dela surgiu uma nova descendência. Mas com o mesmo sangue que corre em suas veias. Há doze anos eu cheguei perto de encontrá-lo Milliardo, mas seu pai fugiu com você no meio da noite. Então descontei minha raiva nos empregados da casa. Você ouviu os gritos deles não foi? Enquanto você e seu pai fugiam covardemente pelos fundos.
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O relato sobre o passado de Relena fôra surpreendente, para não dizer, ao mesmo tempo macabro. A carnificina que ela promovera apenas para matar a mulher e o filho de seu irmão. Sentia seu coração batendo fortemente, e sabia que ela não o pouparia. Afinal ela estivera atrás dele por anos, e agora que o encontrara iria satisfazer sua vontade.
Cansada de tantas lembranças, Relena gesticulou para Alexius e Alexian que foram até Zechs e o fizeram levantar-se. Segurando-lhe os braços para trás. Ela deleitava-se diante dos pensamentos de Zechs. Podia sentir o pavor diante da inegável constatação do que faria com ele.
- Como dizem... quem espera sempre alcança não é?
Relena olhou para os gêmeos que soltaram o humano, deixando a mercê da vontade de sua senhora. Zechs sentiu as presas de Relena pressionadas contra seu pescoço, e tentou inutilmente empurrá-la e impedi-la. Mas ela era muito mais forte que ele. As presas afiadas perfuraram sua pele e podia ouví-la em sua mente, à medida em que sentia sua vida sendo sugada pelos seus lábios frios.
"Tão delicioso, tão quente e denso."
Mirla olhou para a mata e depois para Relena, no mesmo instante em que um uivo soou perto deles. Relena sentia-se deliciada ao provar-lhe o sangue. Fazia tanto tempo que não provava do sangue de um dos seus, que ficou tentada a tomá-lo até a última gota. Podia sentir-lhe a resistência e sorriu. Havia decidido. Ele seria como ela. Como deveria ter sido desde o início. Se ele não houvesse se rebelado contra sua vontade, e ela não fosse ainda muito jovem para entender as dádivas de sua nova natureza. Quando a inexperiência trabalhou contra ela, ao tentar trazê-lo para seu lado. Mas não pretendia cometer o mesmo erro novamente. Conhecia suas habilidades e sabia como tirar proveito delas. Apenas mais um pouco e ele seria dela pela eternidade.
- Aaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh.
Relena afastou-se abruptamente, gritando mediante a dor que repercutiu em seu braço esquerdo. Segurou o braço ferido, olhando furiosamente para o responsável por seu ferimento. Ao ver-se livre de Relena, Zechs precipitou-se para o chão, sendo entretanto, seguro por uma criatura semelhante a um cão gigante, que amparou-lhe a queda súbita.
Quatre segurava em sua mão uma arma semelhante a um bumerangue, de formato circular. Da lâmina afiada, escorria o sangue de Relena. Ele sorriu maliciosamente diante da raiva em seus olhos; por não ter percebido suas presenças, e nem o golpe que a atingiu. Olhou ao redor e Mirla colocou-se a seu lado, assim como os outros vampiros. Concentrou-se em fechar o corte, mantendo o olhar raivoso no vampiro de cabelos loiros, até desviá-los ao ouvir a voz de seu amado.
- Afaste-se Relena.
- Heero.
Relena olhou para o atual shuhan dos Khushrenada com algo que Duo vislumbrou ser carinho. Entretanto, qualquer sentimento que ela pudesse estar sentindo no momento em que olhara para Heero, foi substituído por ódio no momento em que o olhar dela encontrou o seu. Por meros segundos Duo sentiu pena dela; entretanto foi apenas o tempo de ver seu amigo caído nos braços de Hugh, para que se lembrasse quem realmente ela era. Aproximou-se de Zechs que parecia desacordado, temendo que houvessem chegado tardiamente em salvá-lo dos planos dela. Ajoelhou-se ao lado dele, no mesmo instante em que Quatre fazia o mesmo, e avaliava o estado do amigo.
Quatre ignorou a presença de Hugh, verificando se Zechs estava bem, sorriu ao constatar que ele ainda era humano, com um pouco de sangue a menos, mas estava vivo, e ficaria bem.
- Ele está bem.
Duo sorriu e voltou seu olhar para Relena, que olhava para Heero como se assim pudesse fazê-lo notá-la. No entanto, o vampiro apenas tinha olhos para o humano, que agorapreenchia sua existência imortal. Heero olhou para Mirla falando com ela mentalmente, embora seu desejo fosse outro no momento.
"O que você quer Mirla? Sei que seu desejo não é o mesmo de Relena."
"Já disse uma vez, eu quero vingança."
"Contra quem? E porque procurou Duo?".
Heero viu a criatura sorrir e voltar seu olhar para Duo que sentiu calafrios ao ver o olhar dourado sobre ele. Ele oscilou quando sua mente foi invadida por ela, sentindo a escuridão tentando engolfá-lo. Heero olhou para Duo, ouvindo as palavras dela, e voltou-se para a criatura segurando Hikari; lançando-a na direção do Necro, que cortou o contato, invocando silenciosamente o Αίμα que outrora havia trazido o humano até ela e que colocou-se no caminho da espada. O Αίμα desfez-se no mesmo instante, levantando uma nuvem de poeira, com o cheiro acre de sangue. Quando a mesma se desfez Relena e os outros já haviam desaparecido, encobertos pela magia de Mirla.
Heero voltou-se para Duo que ofegava, amparado por Trowa. Por segundos ficou indeciso entre ir atrás dela e voltar, mas sabia que Zechs necessitava de cuidados e Duo encontrava-se enfraquecido por causa de Mirla. Ele já tinha parte da resposta que queria e como a criatura mesma dissera, ela iria ter com ele em breve, restava apenas aguardar sua vinda.
- Vamos retornar ao castelo. Trowa, providencie para que os corpos sejam enterrados devidamente e que a cidade receba mais proteção ainda hoje. Reúna todos os humanos da cidade no clube. Eles estarão seguros lá.
Trowa meneou a cabeça desaparecendo juntamente com Quatre, que lançou um último olhar à Duo que sorriu, antes de amparar-se em Heero, que recebia Hikari das mãos de Treize.
Heero voltou sua atenção ao amante, prendendo as espadas a suas costas e tomando-o nos braços, recebeu um olhar emburrado, mas não menos agradecido do humano, que o abraçou pelo pescoço, descansando a cabeça em seu ombro.
- Vamos para casa... eu cuidarei de você.
Duo sorriu e fechou os olhos, sentindo a presença de Heero envolvê-lo completamente, o livrando do cansaço mental que Mirla lhe causara. Mais tarde perguntaria, sobre o que Mirla poderia querer falar com o amante. Por hora, tudo o que desejava era descansar e saber como Zechs ficaria.
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Uma semana depois:
Quatre caminhava pelo corredor, vindo do quarto que Zechs vinha ocupando desde o encontro com Relena, em direção a seu quarto; visto que o dia estava prestes a amanhecer. O amigo estava completamente recuperado graças os cuidados de Kimitsu e dos conhecimentos de Treize; que por insistência do mesmo acabara por permanecer no castelo após sua recuperação. Os dois haviam se tornado , e não era raro encontrar Treize jogando xadrez com Zechs na biblioteca. Quatre parou ao sentir a presença desagradável a poucos metros a sua frente.
- Vejam se não é o anjinho sem presas.
Os olhos de Quatre avermelharam, e olhou com desdém para Hugh que sorria sarcasticamente, e que agora era a sombra de Duo sempre que o mesmo não estava na companhia de Heero. O que significava que tinha que cruzar com o Lycan, sempre que desejava falar com o amigo. Duo não sabia se ria ou gemia de frustração, a cada vez que Hugh e Quatre se encontravam e começavam a trocar farpas e insultos. Não entendia a implicância que Quatre tinha com o Lycan, mas podia entender a de Hugh em relação ao amigo. Afinal ter sua mente invadida e quase destruída não deveria ser nada agradável.
Hugh, apesar de calado; era uma ótima pessoa ou criatura em sua opinião. Possuía um vasto conhecimento em literatura e música e por alguns segundos imaginou que isso pudesse criar uma amizade entre ele e Quatre, que possuía a mesma paixão. Entretanto, bastou mencionar o fato ao amigo para acabar tendo que ouvi-lo reclamar e tecer comentários nada agradáveis sobre o Lycan. certo de que o outro podia ouví-los. Uma vez que Hugh estava sempre por perto, mesmo que não o vissem. Ao final de três horas, seus ouvidos doíam e sua cabeça parecia que iria explodir. Cansado e sem ânimo para rebater as palavras de Quatre, o deixara, alegando que Heero o aguardava. O que não era uma mentira em si, mas uma meia verdade, dado ao fato de que o amante estava ocupado com os outros membros do clã. Mas qualquer coisa era melhor do que ficar ouvindo Quatre reclamar de Hugh e vice-versa. Os pensamentos de Duo foram interrompidos por um rosnado abafado e a voz de Quatre soando sarcasticamente.
- Guarde sua língua entre os dentes totó, ou posso me esquecer, invadir sua mente e destruí-la, até que não reste nada dela. Se bem que não há muito o que destruir.
Duo colocou a mão no rosto, antevendo mais uma sessão de palavras e insultos, ainda mais quando Hugh aproximou-se de Quatre com as unhas já transformadas em garras. Quatre olhou para Hugh com desprezo, deixando-o ainda mais irritado, ao simplesmente se afastar resmungando algo que fez o Lycan rasgar o tapete a poucos centímetros dos pés do vampiro.
- Quieto totó.
Duo ouviu a risada de Quatre e olhou para Hugh com tristeza. Seu amigo parecia outra pessoa, ainda mais quando cismava em atormentar o Lycan com suas palavras. Iria ter uma conversa com Quatre sobre isso, mas no momento sua preocupação era outra. Hugh tentava se controlar em não matar o vampiro. Havia prometido a Heero e Trowa que não encostaria um dedo ou garra no loiro, mas não sabia durante quanto tempo iria suportar suas palavras. Em outro tempo o vampiro não teria terminado nem a primeira palavra. Mas devia sua vida a Heero bem como sua lealdade, embora fosse um dos poucos de sua espécie que ainda serviam aos vampiros.
- Perdoe-me por Quatre, ele geralmente não é assim. Embora tenha mudado muito depois que se tornou um vampiro.
Hugh olhou para o humano que lhe tocara o braço gentilmente, e meneou a cabeça ao vê-lo sorrir. O humano era diferente do que imaginava. Quando recebera o recado de Heero em Londres, pedindo que viesse a Epyon, com a missão de proteger uma pessoa, não imaginava que a mesma fosse ser o amante do vampiro. Nem mesmo quando o encontrara na floresta com o vampiro com cara de anjo, imaginou ver tão bela criatura, que se não reconhecesse o cheiro, jamais diria ser humana.
- É difícil Duo, seu amigo sabe como ser desagradável.
- Tenho certeza de que serão amigos ainda. Assim que Quatre cair em si. Você gostaria dele como humano, realmente ele era um anjinho. Às vezes me pergunto como Trowa o agüenta.
- O amor torna tudo possível.
Duo olhou surpreso para Hugh, antes de vê-lo desaparecer repentinamente. Duo sorriu ao ver Heero, junto às escadarias vindo a seu encontro. Realmente Lycan tinha razão..., o amor torna tudo possível.
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Algumas horas depois:
Heero olhou para o amante que não parava quieto desde que haviam se deitado há algumas horas.
- Durante quanto tempo você vai ficar se remexendo na cama?
Duo virou-se para Heero, com o semblante cansado e aborrecido.
- Eu não consigo dormir Heero.
- Mas você não disse que estava cansado?
- Eu tô cansado; mas não consigo dormir.
- Há alguma coisa te incomodando?
Duo abaixou a cabeça, sem saber como dizer. Vinha pensando nisso já a algum tempo e achava que seria a melhor solução no momento, mas não queria incomodar Heero com o mesmo assunto novamente. Ainda assim sabia que alguma coisa tinha que ser feita.
- Não há um meio de você dispensar o Hugh? Quer dizer, ele não precisar ser meu guardião em tempo integral né?
Heero estreitou os olhos diante do pedido e bufou. Já deveria ter imaginado que eles deveriam continuar brigando, mesmo que longe de seus olhos.
- Porque? Quatre e ele ainda continuam brigando?
Duo balançou a cabeça ligeiramente, aninhando-se nos braços do amante de forma cansada.
- Eles vivem discutindo a cada vez que se encontram. Isso já tá me irritando. Pior que eu vejo que Hugh faz um esforço tremendo para não voar no pescoço de Quatre, que parece divertir-se com isso.
Heero meneou a cabeça, disposto a colocar um basta nisso e tranqüilizar o amante.
- Não se preocupe, darei um jeito nisso amanhã. Agora descanse um pouco.
- Mas eu...
Heero levou sua mão até a nuca do amante e apertou-a em um ponto que fez o humano apagar na hora. Ajeitou o corpo de Duo na cama, esticando-se ao lado dele, observando-o ressonar. Tocou a face serena com carinho, permitindo-se sorrir diante da face tranqüila que este apresentava. Sabia que Duo estava esgotado, e que não vinha descansando devidamente nos últimos dias. Estava dormindo pouco mais que três horas por dia, ficando acordado até quase amanhecer fazendo-lhe companhia, e levantando algumas horas depois do sol ter se levantado para treinar. E as brigas entre Quatre e Hugh apenas o desgastavam ainda mais. Uma vez que sabia que ele procurava amenizar as discussões. Teria uma conversa com Trowa, e conseqüentemente com Quatre e Hugh. Isso não podia continuar assim.
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Dois dias depois:
Duo olhou para Quatre, que mesmo abraçado a Trowa, tinha o semblante fechado; e depois para Hugh que possuía a mesma expressão. Levou a mão aos lábios, reprimindo uma risada diante da situação. Não sabia o que Heero havia dito aos dois, mas de certa forma havia resolvido o problema. Pelo menos eles não trocavam mais farpas a cada vez que se viam. Apenas um ligeiro ar de desagrado. Mas se obrigavam a aceitar a presença um do outro em silêncio. Duo olhou para o relógio e sorriu. Estava quase na hora. Levantou-se, atraindo a atenção de Quatre que arqueou as sobrancelhas. Torcendo, de forma egoísta; que Duo tivesse algo a fazer que o obrigasse a levar Hugh com ele.
Duo sorriu e deixou a sala na companhia de Hugh que agradecia o fato de não ter que continuar a olhar para o vampiro com cara de anjo. Não entendia o porquê de Heero ter ordenado aos dois, de que eles teriam que; pelo menos uma vez ao dia, estar na mesma sala sem trocarem uma única palavra. Em sua opinião era desnecessário ter que suportar o vampiro com cara de anjo, mas Heero havia deixado bem claro sua decisão quanto a isso.
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Hugh havia recebido o recado de Heero e foi encontrá-lo no jardim. Assim que o viu, curvou-se ligeiramente, rosnando ao sentir a presença do vampiro loiro, que não escondia o ar de desagrado. Heero olhou para os dois e sacudiu a cabeça. Na noite anterior, após fazer Duo adormecer, pensou numa forma de fazer com que Quatre e Hugh se entendessem. No entanto não conseguira imaginar nada além de fazerem tolerar a presença um do outro.
- Soube que continuam se agredindo verbalmente; mesmo depois de minhas ordens.
Quatre voltou seu olhar vermelho para Hugh que simplesmente mostrou os dentes para o vampiro, sentindo seu corpo inteiro arrepiar diante da voz de Heero novamente.
- Eu deveria matá-los e me poupar do trabalho de ter que repreendê-los cada vez que o fizerem, mas infelizmente outros sentiriam a falta de vocês. Então vou fazer outra coisa. A partir de hoje, independente do que sentem um pelo outro, vocês vão ficar uma hora no mesmo ambiente, sem trocarem uma única palavra um com o outro. Se quiserem agir como crianças, serão tratados como tal.
- Mas Heero...
- Sem mais Quatre! Não quero ter que repetir.
Quatre calou-se diante do tom de Heero, ao lembrar do que ele fizera com ele a alguns dias trás na sala de armas. Quando este quase o matara por tocar em Duo. Hugh meneou a cabeça, vendo pelo canto dos olhos Quatre fazer o mesmo antes de se retirar.
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Duo parou assim que deixou a sala, voltando-se para Hugh; antes que o mesmo resolvesse desaparecer de suas vista.
- Hugh; há alguma chance de você me deixar ir sozinho à cidade?
- Nenhuma, a menos que Heero me peça para deixá-lo sozinho.
- Entendo. Neste caso eu tenho algumas coisas a fazer e assuntos a resolver na cidade. Gostaria que me deixasse sozinho a sua maneira.
Hugh sorriu e desapareceu das vistas de Duo segundos depois. O humano sorriu, imaginando como alguém com a estatura de Hugh conseguia se locomover tão rapidamente. Caminhou pelo castelo, procurando por Kimitsu encontrando-o na cozinha, dando algumas ordens aos demais empregados. Assim que Kimitsu o ouviu chamá-lo aproximou-se, curvando-se ligeiramente em respeito, ao companheiro do shuhan.
- Kimitsu.
- Sim senhor Maxwell?
- Será que tem algum problema se eu pegar algumas rosas do roseiral?
- De forma alguma senhor. Eu posso providenciar para...
Duo ergueu uma das mãos:
- Não... não se incomode. Eu mesmo gostaria de colhê-las. Eu sempre levo rosas para ela, quando vou visitá-la.
Kimitsu estranhou as palavras, mas não as demonstrou. Simplesmente sorriu, respondendo de forma polida.
- Perfeitamente senhor.
- Poderia me arrumar um vaso para colocá-las?
- Perfeitamente.
Kimitsu abriu um dos armários, retirando um vaso de cristal, que entregou a Duo que sorriu, e dirigiu-se ao jardim, nos fundos do castelo. Haviam varias rosas. Todas lindas. Mas ele sempre levava as vermelhas para ela, pois geralmente eram as mais belas e perfeitas. Duo colheu seis das melhores rosas e colocou-as no vaso. Ao retornar encontrou alguns lírios e colheu-os também, caminhando até a cozinha para avisar que iria à cidade e que demoraria um pouco para voltar. Heero estava ocupado no momento e não queria atrapalhá-lo pedindo que fosse com ele, afinal o vampiro já tinha coisas demais com que se preocupar, ainda assim tinha que avisá-lo de sua saída.
- Kimitsu pode avisar Heero, quando este terminar a reunião que eu fui à cidade e devo demorar um pouco? Mas para que ele não se preocupe? Estarei bem. Hugh irá comigo.
- Eu darei o recado senhor.
- Obrigado.
Duo saiu do castelo e pediu que Chold o levasse a cidade e o deixasse lá. Mais tarde ele daria um jeito de voltar. Ou ligaria pedindo que fossem buscá-lo. Mas estava mais propenso a caminhar um pouco.
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O carro cruzou a cidade deserta e silenciosa. Era estranho pensar que um dia ela já fora repleta de gente. Com crianças correndo pelas ruas. Afinal não passava das nove da noite. Ainda muito cedo para que todos dormissem, e no entanto era o que parecia acontecer. Se não fosse a presença dos vampiros do clã, caminhando pela rua deserta e pelo clube que se encontrava iluminado. Mal se lembrava a última vez em que cantara. Haviam acontecido tantas coisas nos últimos meses. O carro parou diante do sinal de um dos vampiros que interceptara o veículo. Após ver seu ocupante, o vampiro meneou a cabeça permitindo sua passagem. Duo suspirou profundamente quando o carro parou em frente ao cemitério da cidade. Desceu do veículo com a sacola que trouxera, sentindo um estranho estremecimento tomá-la.
- Obrigada Chold, você pode ir.
- Tem certeza de que não quer que o espere senhor?
- Tenho, obrigado.
Chold meneou a cabeça partindo. Duo assistiu o carro afastar-se, e caminhou até os portões do cemitério, abrindo-os. Ouviu o ranger dos portões ecoar pelo silêncio da noite. Ligou a lanterna, caminhando silenciosamente por entre os túmulos, até encontrar aqueles que viera visitar. Ofegou ao ver as lápides, sentindo as lágrimas acumularem em seus olhos. Fungou, limpando-as na manga da jaqueta e sorriu antes de dirigir-se a seus entes queridos.
- Oi Tio. Já faz um bom tempo que não venho, e eu peço desculpas por isso. Mas aconteceram tantas coisas e..., eu... eu acho que eu fiquei com vergonha também.
Duo suspirou e sentou-se em frente ao túmulo de seu tio, começando a retirar as ervas daninhas que haviam se acumulado, pelo tempo que não ia vistá-los. Ficou ali durante vários minutos, apenas executando a tarefa que sempre fazia quando vinha vê-los, sem importar-se que suas mãos ficariam sujas ou feridas. Com cuidado limpou as lápides, retirando o mato, e colocando o jarro de rosas vermelhas no túmulo da irmã Helen e o buquê de lírios brancos, no túmulo do tio. Tocou as letras gravadas na lápide, sentindo novamente as lágrimas se formando nos olhos.
"Ao meu amado tio, que me foi como uma luz, recebendo-me como um filho quando ninguém mais o fêz. Que o Senhor Deus recebera-o com o mesmo carinho com que cuidou de mim. De seu amado sobrinho Duo Maxwell. 1950 a 2000".
Duo ofegou e chorou diante do túmulo, sem importar-se se Hugh estaria o observando ou não. Sentiu a velha dor apertar-lhe o peito de forma esmagadora, e abraçou a lápide como se esta fosse seu tio, e não um simples objeto de concreto.
- Tio eu... eu... queria tanto... que... que estivesse aqui... você e a irmã Helen.
Duo calou-se durante vários minutos. Ouvindo apenas seu soluçar ecoando ao redor. Procurando enxugar as lágrimas que sempre o brindavam neste dia. Fazia quase quatro anos que eles haviam morrido, e as lembranças daquela noite ainda o atormentavam, as vezes. Não tanto agora, porque tinha Heero. Deu um meio sorriso ao lembrar-se do vampiro. Já podia até mesmo imaginar o choque de irmã Helen se a mesma fosse viva, quando descobrisse que além de estar envolvido com alguém do mesmo sexo, o mesmo também era um ser das trevas. Ainda assim não negaria o que sentia por Heero. Tocou a marca em seu pulso, encarando as lápides, como se estivesse encarando seu tio e a irmã Helen. Corou :
- Tio... irmã Helen... u conheci uma pessoa. Ela é um dos motivos d'eu não vir a algum tempo. Não que ele impeça de vir, mas é que as coisas não são mais como costumavam ser. Aconteceram tantas coisas nesses últimos meses, que talvez vocês nem acreditassem, ou talvez sim... eu não sei.
Um vento começou a soprar levemente fazendo Duo arrepiar-se. Olhou para os lados sentindo-se desconfortável. Mas sabia que não estava completamente sozinho na escuridão do cemitério, Hugh deveria estar em algum lugar, embora sentisse que a presença em si não vinha dele. Era algo parecido como quando acordava no meio da noite, assustado por algum pesadelo, e seu tio vinha lhe fazer companhia até que voltasse a dormir protegendo-o de seus medos. Ou quando irmã Helen o embalava em seus braços, cantando hinos e sussurrando que não havia nada a temer, pois não estava sozinho. Abraçou o corpo soluçando, sentia tanta saudade deles. Eles eram o que mais perto tivera de um pai e de uma mãe. Considerava os Winner como sua família, mas não era a mesma coisa quando eles estavam vivos e morava na igreja.
- Eu conheci alguém... e o amo muito. Tanto que estou disposto a abandonar tudo aquilo que me ensinaram apenas para estar com ele... ser como ele.
Duo sorriu tristemente, encarando a lápide da irmã Helen, ao saber que jamais concretizaria o sonho dela em vê-lo casado e com filhos.
- É não é uma garota... como a senhora vivia dizendo que eu encontraria irmã... eu até tentei encontrar a tal garota que me faria feliz e que eu desposaria como minha esposa... mas acho que não era o meu caso.
Duo fechou os olhos e os abriu com um sorriso, diante da sensação que o preencheu. Procurou enxugar os olhos, não desejando que ele os visse manchado pelas lágrimas. Sua voz adquiriu um tom mais alegre e suave ao falar de Heero, deixando que seu coração demonstrasse aos dois, todo o carinho que tinha pelo vampiro.
- E apesar... dele não ser alguém que vocês aprovariam, ele é... alguém especial... gentil e sensível para respeitar esse momento e manter-se afastado, mesmo eu sentindo sua presença.
Heero deu um meio sorriso ao saber que fôra descoberto e aproximou-se de Duo, que se levantou e abraçou-o:
- Tio, irmã Helen, este é Heero Yuy, a pessoa de quem falava. Heero estes são tio Maxwell e a irmã Helen.
Duo apresentou-o aqueles que fizeram parte de sua vida e que tiveram influência no que ele havia se tornado.
Heero curvou o corpo ligeiramente diante dos dois túmulos, em sinal de respeito. Quando soube que Duo havia deixado o castelo para ir a cidade, resolvera seguí-lo. Ainda mais quando Kimitsu lhe dissera que ele levara algumas rosas vermelhas e alguns lírios brancos. Duo andava calado demais em sua opinião, e agora sabia o porquê. Quando chegou, dispensou Hugh, e ficou observando-o conversar com os túmulos a sua frente. Sentiu-se estranho por invadir um momento tão especial dele. Mas agora sabia que havia feito a coisa certa.
- É um prazer conhecê-los. E quero que saibam que Duo está em boas mãos.
Duo ofegou, abraçando Heero diante de suas palavras. O vampiro abraçou-o, deixando que ele chorasse sua saudade e sua dor. Voltou seu olhar para uma árvore próxima vendo dois vultos luminosos sorrindo-lhe em aprovação. Meneou a cabeça ao homem que possuía os mesmos olhos de Duo e para a mulher de cabelos castanhos que possuía o ar mais bondoso e cálido que já vira. Heero voltou seu olhar para Duo, que ainda soluçava um pouco, acariciando-lhe a face. Eles estavam livres para seguir em frente, assim como Duo, que finalmente os havia deixado partir em paz.
- Eles estão em paz agora. Vamos para casa.
Duo deixou que Heero o levasse, sentindo seu coração mais leve. Sim; ele havia finalmente os deixado partir. Havia dado à sua alma e à deles o descanso que mereciam. Ainda assim no próximo ano, se ainda vivesse; os visitaria novamente e dessa vez, não estaria sozinho.
Continua...
1 Almarquinaqeu inventei a palavra, então se ela existir, perdoem-me se possuir algum outro significado que não o proposto na fic.
2 Ez vzch irnz mafhkou significado da sopa e letrinhas: Eu vou matá-los.
3 Lycan outro termo para lobisomem.
Até que enfim terminei.
Depois de milênios atrasado, eis que surge mais um capítulo.
Gente desculpe a demora, sinceramente. mas sabe como é. Yoru tem andado meio ocupada, e sinceramente meia desmotivada. De vez em quando bate uma depressão que ninguém merece.
Mas o cap saiu, né.
Agradecimentos a Dhandara pela revisão.
A sis Dee pela ajuda e apoio.
A mami por seu maravilhoso apoio.
A sis Litha por seu incentivo e ajuda.
E a todos os fãs que me imploraram por mais um cap. Espero que tenha atendido a todos.
Aguardo comentários, quem sabe outro cap não vem antes.
