Deitada em minha cama com os olhos fechados numa forma de me obrigar a pensa, mesmo com um sorriso nos lábios que a dias não sai da minha face, eu me obrigo, eu sei que preciso. Fazem quase quatro meses agora que estou morando com Shun, e acho que não preciso dizer que estou adorando. No começo foi estranho, até porque foi tudo muito rápido, mas Shun é do tipo de pessoa alegre e que gosta de conversar, e talvez por isso eu tenha me acostumado a viver com ele sem problemas.
Admiro o anel em meu dedo, e consigo me lembrar nitidamente daquela primeira noite em que vim morar aqui, a memória é tão nítida em minha mente que poderia jurar que a situação tinha acabado de ocorrer, apesar de saber que tudo aconteceu a meses atrás.
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Eu tinha passado o que me pareceram ser horas de baixo do chuveiro, e depois de pensar e pensar, cheguei a conclusão de que eu no mínimo era retardada, pois quem diabos aceitaria uma situação como aquela de bom grado.
"Há nem vem, o cara é lindo, do que diabos você está reclamando?" -minha consciência nada pura gritava.
Claro que eu percebi que o cara é lindo, mais é apenas isso, isso é tudo o que sei sobre ele, além do que ele me contou. Um cavaleiro de ouro, puts eu nem perguntei a que Deus ele serve, vai que ele seja um servo de Hades?
"Tá viajando na maionese, você sabe muito bem que os servos de Hades são chamados de espectros! E ele falou algo sobre os inimigos de Atena, e te proteger deles, então é provável que ele seja um dos cavaleiros dela, um herói kyaaaaaaaaaaaaaaaaa" -minha irritante consciência gritava, então bufei batendo em minha cabeça.
Que droga, o que eu faria agora, como lidaria com isso? Eu enfim estava longe de casa e da minha família lunática, tudo que eu queria era me divertir em um lugar que não houvesse ninguém me dizendo o que fazer ou como me comportar, e no primeiro dia de aula eu acabo noiva? Sério isso produção? PQP, eu só queria ser livre, é pedir demais?
Esmurrei o criado mudo, e no mesmo momento pude ouvir batidas suaves na porta, minha vontade era de o mandar para o quinto dos infernos, mais pude ouvir sua voz calma me avisando que o jantar estava esfriando, e meu maldito estomago quase me engoliu me lembrando que eu mal havia comido algo hoje. Mordi meu lábio inferior e me dirigi a porta abrindo-a e dando de cara com ele que me sorriu coçando a nuca envergonhado.
-Desculpe incomodar, mas se ficar muito frio não vai ter o mesmo gosto, yakisoba só é bom quente. -foi inevitável não pular alegre, amo yakisoba.
-Eu que me desculpo por demorar tanto. -ele conteve uma risada e me guiou para fora de casa, passamos pela cozinha e saímos em um jardim, que dava para o que parecia ser um precipício, mas a visão da noite com aquela maravilhosa floresta dava a tudo um ar de beleza selvagem, pura e magnifica.
-Imaginei que você gostaria de jantar aqui fora. -eu apenas balancei a cabeça confirmando, ainda abismada pela beleza do lugar.
-Aqui é lindo. -ele puxou uma cadeira e me indicou para que sentasse, e eu assim o fiz.
-Quando a ultima guerra santa acabou, eu resolvi procurar um lugar calmo para viver, e esse lugar me pareceu perfeito. -apenas assenti e começamos a nos servi.
Foi um jantar silencioso, nada incomodo, apenas comemos admirando a beleza ao nosso redor, a comida estava maravilhosa, eu tinha de admitir, Shun cozinhava melhor do que minha mãe.
"Ai jezuz ela está dando o braço a torcer, não acredito, vai chover" -eu rir com esse pensamento.
-Eu fiz algo engraçado? -ele pergunto inocentemente curioso.
-Não, eu só estava pensando o quanto você cozinha bem. -ele ficou vermelho.
-Obrigada, eu sempre gostei de cozinhar, fico feliz que pelo menos isso eu possa fazer por você depois de tudo. -ele me olhava ainda com as bochechas vermelhas. -Eu sei que as coisas não aconteceram do jeito que você queria, mas elas com certeza aconteceram do jeito que precisavam.
-Uou, isso foi um tapa na minha cara. -eu rir e ele ficou desesperado.
-Não, não, me desculpe eu não quis ofender. -seu desespero só me fez rir mais.
-Tudo bem, eu acho que entendi o que você quer dizer, mas ainda acho tudo isso muito estranho, você não vai fazer nada estranho comigo, não é? -perguntei maldosa e ele se levantou vindo até mim.
-Eu jamais machucarei você novamente, isso é uma promessa. -ele me estendeu a mão e eu a segurei, então ele me ajudou a levantar e assim ficamos frente a frente. -Me perdoe.
-Tudo bem. -eramos quase do mesmo tamanho e a proximidade ao qual estávamos me fez ficar envergonhada, então ele se ajoelhou.
-Sei que é muito cedo, então não vou fazer o pedido oficial, mas gostaria que aceitasse o anel para que pelo menos saibam que nosso noivado deve ser levado a sério. -ele tirou do bolso uma caixinha preta e dela um anel incrustado com esmeraldas. Apenas afirmei e ele o colocou no meu dedo beijando minha mão. -Não vou forçar a você mais do que já o fiz, então daqui em diante tudo será ao seu tempo Anna-chan. -disse ele numa voz suave, e depois se afastou.
"Jezuz apaga a luz, PQP, morri e fui pro céu, esse homem é demais"
-Então, em meias palavras, você só vai me tocar se eu quiser? -perguntei na boa, mais vendo o quão vermelho ele ficou, me senti envergonhada também.
-Éh, é, bem... sim.. bom é... quer sobremesa, eu vou... vou buscar a sobremesa. -ele saiu estabanado entrando na cozinha e me deixando ali.
"Qual é? Foi uma pergunta simples não?" - rir não só com meu pensamento mais com toda a cena, eu não imaginei que ele ficaria tão desconcertado com uma simples pergunta.
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Eu ainda ria todas as vezes que lembrava dessa cena, e de todas as outras que meu jeito aberto de brasileira nos colocou em situações parecidas. Nunca consegui entender como alguém tão inocente tinha se tornado um cavaleiro, alguém que teve de lutar não deveria ter essa amabilidade toda. Mas com a convivência percebi o quão gentil e sincero é o Shun, e isso é que me deixa mais "atrás" com ele, será que ele é realmente assim, ou está apenas tentando me iludir? E daí vem a pergunta do ano, o por que de me iludir, ele não precisa disso, pois obviamente é mais forte que eu, se ele quisesse me força a algo ele faria não?
Shun é fodidamente lindo, e seu jeito inocente acaba o tornando sexy sem que ele perceba, já cansei de ver as meninas suspirarem por ele, e ainda sim toda a sua atenção é para mim, para o meu bem estar, e isso está me enlouquecendo, eu tenho medo de me apaixonar e acabar descobrindo que ele não é o príncipe que imagino, isso me mata, pois cresci com a ideia de que príncipes não existem, apenas homens que iludem as meninas para terem o que querem delas e depois as jogarem fora, eu já vi acontecer, tantas e tantas vezes que não consigo acreditar que ele seja diferente, mais convenhamos que sendo quem é, ele poderia ter todas. Claro que tem o lance de eu ser a escolhida e blá blá blá... E sinceramente eu não entendo bem essa situação, e Shun não conseguiu me explicar direito, na verdade eu suponho que nem ele entenda, tanto que vamos passar o fim de semana na Grécia, onde ambos conversaremos com "Mu", o homem que segundo ele pode me responder melhor.
Me levantei revoltada, não adiantava ficar especulando nada, eu não tinha o que fazer, não podia resolver uma equação sem todas as variáveis, e aquele era o sentido daquela situação, tem lacunas demais para que eu possa ligar os pontos, no fim resolvi que deveria estar pensando no que viria a seguir ao invés de estar perdendo tempo com algo que não poderia resolver agora.
Liguei o notebook e conectei o cabo da internet, respirando fundo para o que viria a segui. Ainda faltavam 10 minutos, e por mais que eu tivesse me preparado para aquele momento ainda sentia um frio na barriga, que só piorou quando Shun bateu na minha porta perguntando se ele podia entrar, o deixei, mais ao vê-lo adentrar o comodo tão bem vestido fez a situação parecer mais real em minha mente, e eu ainda tentaria persuadi-lo mais uma vez daquela loucura.
-Shun, tem certeza que não quer desistir? Já disse que isso não é necessário. -ele me sorriu e se aproximou de mim, segurou minha mão e beijou minha testa carinhosamente.
-Já te expliquei que precisamos fazer isso, ou depois será mais difícil explicar a todos como aconteceu. Precisamos disso para dar veracidade no futuro Anna. -suspirei me afastando dele.
-Diz isso por que não os conhece, eles não aceitarão isso facilmente Shun. -me exasperei, estava começando a me desesperar.
-Não precisa se preocupar Anna, tudo vai dar certo, do que você tem tanto medo? -ele veio até mim carinhoso e segurou minha mão.
-Do que eles possam dizer a você. -ele sorriu, um sorriso magnifico como poucas vezes o fez, era algo tão sincero que acabei sorrindo junto e de alguma forma aquilo amenizou um pouco minhas preocupações.
-Obrigada. -foi tudo que me disse antes de me abraçar, e ficamos assim por um tempo até que percebi que era a hora, então me afastando dele me dirigi para o notebook e iniciando a chamada de vídeo do skipe.
-Lya sua praga ingrata, espero que tenha comprado meu playstation. -gritou meu irmão assim que a conexão se iniciou e não tive como não rir.
-Já o envei sua peste, ele deve está chegando essa semana. -respondi animada, eu e meu irmão sempre nos demos bem, e apesar de ele ser mais velho e já esta casado, era o tipo criança grande.
-Você não deveria ter feito isso filha, seu irmão tem uma família para cuidar agora, não pode perder tempo jogando. -disse a voz irritada de minha mãe antes mesmo que ela pudesse aparecer na tela.
-Ele que pediu mãe, não posso fazer nada. -respondi prontamente.
-Sua mãe está certa Anna, e pelo jeito quatro meses longe a tornaram uma sem educação já que nem a "benção nos pediu", e peça desculpas a sua mãe por respondê-la, não lhe demos essa educação.. -meu pai apareceu na tela já reclamando, deuses dai-me paciência.
-Me desculpem, bença pai, mãe, e não, eu não a quis responder, me perdoe. -apertei minhas mãos fortemente uma na outra.
-Deus a abençoe. -disseram juntos. -Que roupa é essa que esta vestindo mocinha? Não a deixamos ir estudar no Japão para que se vestisse como uma anticristo. -minha mãe quase berrou.
Eu vestia uma calça preta e uma blusa da mesma cor, com um desenho de uma borboleta na frente, e tinha tomado o cuidado de tirar todos os acessórios do corpo, ou seja, eu estava simples, e mesmo assim eles ainda reclamavam. Sim, meus pais eram cristãos fervorosos, e isso sempre foi um problema de convivência entre nós, já que eu acreditava em deuses, princialmente depois do que aconteceu com a "guerra santa", a os quais meus pais se recusaram a acreditar dizendo que era tudo coisa de gente que não tinha Deus no coração.
Uma risada ao meu lado me fez acordar de meus devaneios e pelo jeito não foi só eu que notei.
-Quem está aí com você Anna? -perguntou meu irmão e meu pai me olhou acusador, já minha mãe parecia aflita.
Eu gelei, e me virei para Shun que me sorria. Ele segurou minha mão e veio ficar ao meu lado aparecendo na tela.
-Eu sou Amamiya Shun, é um prazer conhece-lós senhores e senhora Lopes. -ele disse amigável, mais eu podia notar que os olhos de meus pais pareciam se dirigir para nossas mãos entrelaçadas. -Eu vim aqui pedir para namorar sua filha. -eu puxei o ar com força e Shun apertou mais firme tentado me passar confiança. -desde que decidimos conversar com meus pais que Shun vinha estudando português com mais afinco, e talvez o fato dele saber latim tenha facilitado as coisas o deixando apenas um um sotaque engraçado.
-Lya você enfim arrumou um namorado, parabéns monstrinha. -disse meu irmão feliz, e pareceu ser a gota d'água para meu pai que estava inchando, ele começou a gritar, estava vermelho de raiva.
-NÃO MESMO, NEM PENSAR, enviamos você para o Japão para que estudasse, e não para que ficasse de namorico. -gritou ele e minha mãe tentou acalmá-lo.
-Não estamos de namorico, por isso vim pedir sua permissão senhor...
-Não minta para mim rapaz, conheço bem pessoas como você. -disse meu pai, mesmo meu irmão tentando alertá-lo para que parasse. -E você, quero você de volta em casa o mais rápido possível, pensei que podíamos confiar em você sozinha, mais pelo visto...
-Que eu saiba a Anna-chan está aqui por meritos próprios, e não com o seu dinheiro senhor, ela não tem obrigação alguma além, de lhe respeitar, ou seja, ela não tem de ouvir esse tipo de coisa, ela não fez nada de errado para isso. -Shun o cortou, ele assim como eu, provavelmente sabia o que meu pai diria.
-Lya filha, você foi estudar no Japão para ser uma médica de respeito, como pretende conseguir isso se distraindo com um namorado. -minha mãe também cortou me pai, antes que ele falasse de novo, para que ele não dissesse o que sempre quis dizer sobre mim, mas eu sempre soube. Assim como sempre soube, que ela mesmo tentando, não ficaria do meu lado.
-Eu disse a você que não deveríamos tê-la deixado ir Anita, eu disse que ela só queria ser como as outras. -meu pai dizia a minha mãe quase gritando com ela.
-Sinto muito mãe, pai, mais as vezes precisamos abandonar a vida que tínhamos planejado, porque já não somos mais a mesma pessoa que fez aqueles planos. -eu disse e Shun sorriu de lado.
Minha mãe arregalou os olhos e meu irmão sorriu mateiro, ele diferente de mim sempre enfrentou nossos pais, já eu sempre abaixei a cabeça e fazia tudo que me mandassem, mais não dessa vez, dessa vez eu diria o que pensava, dessa vez diria o que queria.
-Escute bem o que vou dizer Anna Lyana Lopes, se você pegar um avião para casa ainda hoje, esqueça que tem uma família. -ele sentenciou e todos ficamos em silencio. -Eu não terei uma filha vagabunda, eu não passarei por essa vergonha.
-Pai, você...
-CALADO LYON, isso tudo é culpa da sua má influencia. -meu pai apontou o dedo para meu irmão, e minha mãe chorava com os olhos suplicantes para mim.
-Um pai deveria amar sua filha e não a tratar-lha como um objeto. -Shun tinha dito revoltado, e aquilo me doeu mais, era exatamente isso que eu não queria que ele presenciasse.
-Sinto muito, mais eu vou ficar. -eu disse num fio de voz.
-Lya filha, volte, quando o intercâmbio acabar o que você fará, não pode ficar sozinha. -minha mãe tentou me persuadir, e ela estava certa, eles eram minha família, tudo que eu tinha, eu dependeria deles novamente quando o intercâmbio acabasse.
-Ela não estará sozinha, se ela decidir ficar eu cuidarei dela. -Shun me abraçou e sua voz estava tão firme e mordaz que todos o olhamos espantados. -Eu pretendo me casar com sua filha senhor Lopes, e não voltarei atrás de minhas palavras.
-Eu não tenho mais filha. -aquilo me doeu, doeu tanto que tive de esconder o rosto no peito de Shun que começou a alisar minha cabeça, e continuei a chorar – só deus sabe quando eu tinha começado a chorar – eu comecei a soluçar e ele me apertou mais forte contra si. -Esqueça de nós Anna, pois a partir de agora nós esqueceremos de você. -ele disse impiedoso.
A chamada foi desligada, mas mesmo assim eu podia sentir o peso que aquela conversa nos deixou, eu não conseguia parar de chorar, minha cabeça já doía como se tivesse sendo comprimida.
-Me perdoe por te obrigar a se afastar de sua família. -ele me pediu triste.
-A culpa não foi sua Shun. Eu sabia que ele reagiria assim, eu nunca uma boa filha para ele. -disse colocando em palavras aquilo que sempre esteve em minha mente.
-Você é uma pessoa maravilhosa Anna, e seu pai um dia vai enxergar isso. -ele beijou o topo da minha cabeça. -E até lá eu cuidarei de você, prometo. -levantei a cabeça o olhando.
-E eu de você. -dei um impulso para frente o abraçando pelo pescoço. -Obrigada Shun.
-Eu que agradeço. -o soltei voltando a ficar sentada, então ele limpou minhas lágrimas e nos fitamos.
-Shun... -eu me aproximei e ele ainda com as mãos em meu rosto me puxou de leve para si e encostou nossos lábios.
