Mal dei cinco passos quando senti uma dor em meu pescoço e tudo escureceu.

Senti o cafuné em minha cabeça, e o colchão fofinho em que estava deitada, me remexi curtindo o carinho em minha cabeça manhosamente, mas ao me lembrar do que tinha ocorrido me obriguei a abrir os olhos, rezando para tudo aquilo não ter passado de um sonho ruim.

Safiras me fitavam penetrantes, e ao ver sua face preocupada a me analisar eu sentia minhas esperanças se esvaindo. Shun tentou algumas vezes me falar algo, mais parecia perdido em uma batalha interior para conseguir encontrar as palavras certas.

-Eu quero ir embora. -me peguei dizendo antes de ponderar o que aquelas palavras significavam. O impacto delas sobre ele foi imediato, seus olhos me fitaram suplicantes e uma cara de dor surgiu em seu rosto.

-Não pode, não podemos...

-Você prometeu, prometeu que voltaríamos para o Japão. -ele fechou os olhos me impedindo de ver o que minhas palavras causavam nele. -Vai quebrar essa promessa também?

-Também? -sua voz estava límpida, não me dando indicio de seus sentimentos.

-Você me prometeu que nada de mal me aconteceria lá, e que me protegeria. -disse acusatória. -Mas me diga, o que houve para que eu acordasse aqui?

-Eu desacordei você, quando virou as costas para o Grande Mestre e tentou fugir. -ele me olhou impassível. -Ele poderia mandar te prender pelo que fez, então agi antes que qualquer um deles, e te trouxe em segurança para casa.

-Essa não é minha casa. -ele estreitou o olhar felino. -E você quebrou sim uma promessa Shun, você me machucou.

-Eu não tinha escolha Anna, por Atena, entenda a situação em que estamos.

Me levantei sentando em cima de minhas pernas em uma forma japonesa perfeita, e ele fez o mesmo sem tirar os olhos felinos de mim. Estávamos quase no meio da cama, nos analisando, um esperando que o outro começasse aquela guerra, em que eu sabia plenamente que não haveria um vencedor.

-Eu vou ter de viver o resto da minha vida aqui? -olhei ao redor enquanto falava e ele suspirou.

-Sim.

-Você não poderia me levar para Terra? Você cuidou de mim lá por quatro meses, por que não poderia fazer o mesmo agora? -ele respirou contido.

-Eu não sabia dos riscos, eu apensas achava que era arriscado para você, e se fosse só você eu poderia te proteger. -ele não me olhava.

-Shun... Eu não entendo... -mordi o lábio segurando o choro.

-Pessoas morreriam por sua causa Anna, eu teria de entrar em uma guerra, matar novamente... Sangue seria derramado pelo simples capricho de você querer viver longe daqui. -apertei fortemente minhas mãos, cravando as unhas na palma desta. -Eu jamais permitiria que isso acontecesse, jamais permitiria que você fizesse isso. -aquilo me doeu, não o contexto, mais a forma como foi dito, como se ele repudiasse a minha existência, como se me repudiasse. -A única coisa que você pode escolher agora é com quem quer viver. Nenhum de nós tem o direito de te rejeitar, escolha com quem de nós você quer casar... -não o deixei terminar e com toda a minha raiva bati em sua face.

-NÃO ME TRATE COMO UM OBJETO SHUN. -eu gritei enraivecida, mesmo tendo o batido com toda a minha força não foi o suficiente para fazê-lo virar nem um milimetro do rosto, nem mesmo uma marca ficou ali.

-Eu não a estou tratando como um objeto Anna, não me compare com seu pai. Estou apenas lhe apresentando os fatos, cabe a você decidir o que quer fazer. -ele continuava indiferente.

Ficamos em silêncio, eu o olhava mortalmente, mas ele nada me disse, em momento algum mudou sua postura. Quando resolvi que aquela conversa não nos levaria a lugar nenhum sai daquela posição para me sentar confortável, mas ao me apoiar na mão senti uma dor quase que insuportável.

-Aii, droga. -a mão que eu o havia batido estava com o pulso inchado. -Ótimo, era só o que me faltava.

-Deixe-me vê! -ele pediu já puxando meu braço. -Parece que você torceu, vou pegar umas faixas.

Não disse nada, apenas observei-o sair e depois de um tempo voltar com as bandagens. Deixei que ele fizesse um tala em meu braço impedindo-me de mexer a mão, em momento algum nos olhamos ou fizemos menção de querer conversar, acho que ambos estávamos felizes por termos algo que nos ocupasse. Quando ele acabou, me mostrou uma cartela de analgésico os colocando em cima do criado mudo.

-Se precisar de mais alguma coisa é só pedir, vou buscar algo para você comer. -eu nada disse, nem mesmo o olhei, apenas me deitei novamente.

Escondi meu rosto no travesseiro e deixei as lágrimas silenciosas enfim rolarem pelo meu rosto. Patética, era assim que eu me sentia, uma completa idiota que deixava sempre os outros tomarem as rédeas da minha vida. Foi sempre assim, primeiro com meus pais, depois com Shun e agora o "Grande Mestre".

A quem eu queria enganar, eu não estava nem aí por não poder sair daquele lugar, lógico que era angustiante saber que viveria em um lugar desconhecido por mim, mais eu poderia aprender a viver, e na Terra eu não tinha mais ninguém esperando por mim, não deixei ninguém que fosse ao menos se preocupar com meu aparente sumiço. Eu estava agindo como uma criança mimada, eu sabia que tudo que estavam fazendo era para minha própria segurança. Se eu fosse sincera comigo, admitiria que todo o meu choro era pela forma de como Shun havia me tratado, de como ele foi indiferente comigo.

-A comida está aqui, deveria comer enquanto está quente. -eu não o ouvi entrar, mais também não lhe dei atenção continuei ali escondida pela escuridão que o travesseiro proporcionava aos meus olhos.

Ouvi quando depois de alguns minutos ele saiu do quarto, e nem assim me dignei a me mexer, tudo que eu queria era ficar ali pensando "na morte da bezerra" como diria minha falecida avó.

"Você está mais para jumenta"

- "Nem vem, o que porra você queria que eu fizesse?" -conversar comigo mesma tinha virando uma mania desde a minha infância. Já que eu não tinha amigos, só me restava a mim mesma para brincar e fofocar, talvez por isso eu seja tão bipolar.

"Que perguntasse o que ele queria, se algo havia mudado. Ele mesmo disse que estava se apaixonando"

- "Você viu como ele agiu. Ele me tratou como se eu fosse algo ruim." -me exasperei sentindo uma dor no peito.

"Você estava agindo como uma idiota, o que queria que ele fizesse? Que estendesse o tapete e beijasse o chão para você passar? Pqp Anna, você queria começar uma guerra por puro capricho"

- "Ele me olhou como se tivesse nojo de mim. Me deixou escolher quem eu quisesse como se não se importasse a mínima comigo"

"Ele só disse a verdade, a escolha é sua, não dele."

- "Não, se ele sentisse algo por mim ele teria dito, ele que me trouxe aqui, foi com ele que convivi durante meses. E em nenhum momento ele me deu brecha para rejeitá-lo. Talvez por que achava que eu tinha sido destinada a ele, e agora que sabe que não é bem assim, viu a oportunidade de se livrar de mim."

"Eu não sei..."

- "Ele me disse que eu poderia escolher quem eu quisesse que não seria rejeitada, mas pareceu querer ao máximo se excluir, ele... ele não sente nada por mim."

"Então tudo se resumi a ele?"

- "Sim!"

Mais uma vez minha consciência tinha me alertado para a verdade, mais enxergar isso não me ajudava em nada a decidir o que eu queria, o que eu faria. Então me deixei ficar ali deitada, e com o tempo comecei a pensar se realmente havia alguma necessidade de levantar dali.

Minha vida era um estorvo para todos que me cercavam, sempre tinha sido, eu nunca contradizia, apenas seguia o fluxo ao qual meu barco era direcionado, então pela primeira vez eu me peguei pensando. Valeria viver? Se sim, pelo quê eu viveria? Que metas eu tinha?

"Parabéns Anna, na única vez que te dão chance de decidir sobre seu futuro você pensa em morrer. Quer que eu vá buscar uma gilete para você cortar os pulsos?" -bufei indignada.

-"Merda de vida!"

Não sei quanto tempo fiquei ali perdida em meus pensamento e divagando comigo mesma, sei que cochilei e acordei algumas vezes, sei que a comida foi levada embora e outra foi posta em seu lugar. Sei que meu pulso doía. Mais era isso, isso era tudo que eu sabia.

Um peso afundou a cama ao meu lado, e depois de alguns minutos senti aquele cafuné gostoso em minha cabeça novamente, aquilo só fez a angustia dentro de mim explodir.

-Por favor, como algo Anna. -fiz que não. -Fazer greve de fome não vai te levar a lugar algum...

-Me desculpe por está sendo um estorvo para você Shun. -eu estava triste e não esconderia isso dele, não esconderia de ninguém, o que eu tinha a perder agora?

-Você não é um estovo Anna. -havia preocupação em sua voz.

-Não minta para mim Shun, você me odeia agora, por ser quem sou, e pelo que eu posso causar.

-Anna de onde você tirou isso? -me virei para ele criando coragem para olhá-lo.

-Você mesmo disse. -ele parou o cafuné e dirigiu sua mão ao meu rosto fazendo um carinho suave ali.

-Quando eu te disse isso?

-Você me mandou escolher qualquer um...

-Você tem o direito de escolher qualquer um, mas isso não quer dizer que eu não te quero, que eu não faria de tudo por você...

-Mas você odeia o que represento, o que minha existência pode causar Shun. -me exasperei e tentei voltar a esconder meu rosto no travesseiro, mais ele foi mais rápido e segurou meu rosto pelo queixo e se aproximou de mim quase colando nossos corpos.

-Esculte bem o que vou dizer Anna, por que só direi uma vez. -seus olhos brilhavam num verde vivo, como se uma lanterna se acendessem dentro deles. -Não importa o que sua existência seja, eu vou protegê-la de qualquer um e de você mesma, nem que para isso você venha a me odiar. E se por esse motivo você decidir não mais ficar comigo eu vou aceitar, mais não vou deixar que ninguém te faça mal.

-Shun...

-Está vendo aquela porta. -ele apontou com a cabeça, mais em nenhum momento tirou seus olhos de mim, e só continuou quando afirmei. -Ela está aberta, se desejar não mais viver comigo tire o anel e saia por ela, mais se sair, saiba que não poderá mais voltar. -engoli em seco, ele não estava sendo frio, não estava sendo grosso, mais ainda assim eu me arrepiava com cada palavra. -Se ficar. -respirou fundo. -Se ficar, eu farei o impossível para que sejamos felizes.

-Por que? Se for só uma paixão e depois você acabe percebendo que eu não sou quem você realmente queria? Antes você achava que eu era destina a você, mas agora...

-Em nenhum momento eu duvidei que você estivesse destinada a mim Anna. -ele me sorriu e aquilo encheu meu coração de esperança.

-Como você afirma isso com tanta certeza Shun?! -ele me puxou para baixo de si, colocou um braço de cada lado de mim e se apoiou nos cotovelos, e nos joelhos que também circularam meu corpo.

Eu estava presa com ele por cima de mim, mais sem encostar. A única parte de seu corpo que me tocava eram seus lindos e exóticos cabelos verdes. Suas safiras ainda tinham um brilho incomum, e fitavam cada movimento meu.

-Por que eu nunca me senti assim por ninguém. Na verdade eu sempre achei que não merecia. E depois da guerra eu tive certeza disso, eu tenho sangue demais em minhas mãos e minha alma está manchada de um jeito que você não pode imaginar Anna. Mas você é alguém que está destinada a viver com alguém como eu. Por isso me perdoe, mais eu não consigo me arrepende do que sinto por você, não consigo não te desejar. -ele aproximou mais seu rosto do meu. -Então por favor, enquanto eu ainda posso me conter. -suas lágrimas agora se misturavam com as minhas em minha bochecha. -Se não me quiser, vá. Vá enquanto ainda pode. Porque nesse momento eu mal consigo conter meu egoismo, meu desejo sobre você.