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Ninguém se importa com as sombras em um dia ensolarado, mas todos - e sou redundante aqui ao dizer, sem exceções, procuramos desesperadamente uma pequena luz nas sombras de uma noite sem lua.
Sempre ouvi que quando estamos prestes a morrer toda a nossa vida passa diante de nossos olhos, sinto-lhes dizer, mas essa é a mais irrelevantes das mentiras. Pois, pelo menos comigo não foi assim, pois, naquele momento toda a minha mente, meus nervos e certamente cada minuscula célula do meu corpo procurava desesperadamente uma forma de sobreviver.
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Pessoas lutavam por todos os lados, e tinha fogo se espalhando pelas árvores, contudo não tive tempo de prestar mais atenção ao meu redor quando os homens investiram contra Shun, e mais uma vez o brilho dourado o cercou e sua armadura o revestiu.
-Saia da frente cavaleiro, não nos obrigue a ter que machucá-lo, só queremos a garota. -disse o único homem de cabelos azuis, sua voz era excessivamente grossa.
-Ninguém tocará um dedo nela. -Shun disse frio.
-Seu corpo pode ser o do nosso mestre, mais ainda podemos acabar com você, sabemos que só precisamos não matá-lo, não é Pervel? -o mais baixo sibilou, e os dois da ponta direita investiram contra Shun que bloqueou seus ataques.
Não senti o corte em meu rosto, só me dei conta de que algo estava errado quando senti uma dor fina e o sangue em cima de meus olhos.
-Ai. -foi um milésimo de segundo, eu nem consegui acompanhar, quando Shun virou para olhar o que tinha acontecido comigo, e nesse momento ele provavelmente deixou a guarda aberta e foi atingido por dois socos o fazendo se desequilibrar e cair. -SHUN... -medo, todo meu corpo tremia, e quando meu pulso foi puxado e girado com brutalidade eu grite de dor.
Um cara de cabelos excessivamente vermelho me sorria malignamente enquanto me puxava para si, mais esse sorriso foi tirado de si quando Shun apareceu em sua frente e deu-lhe uma cotovelada em seu nariz e me puxou pela cintura, mas o homem que me segurava não me largou e puxou meu braço com tudo, e quando Shun me girou recebendo um ataque direto nas costelas, nos três fomos lançado longe pela força do golpe. Quando o homem largou enfim meu pulso eu já gritava pela dor intensa em meu ombro, que provavelmente estava deslocado, pois o impacto fez com que rolássemos no chão e na primeira virada meu pulso ainda era puxado para trás.
Eu sentia todo meu corpo, parecia que cada célula me alertava, como se um sinal vermelho soasse em minha mente, o sangue em minha cabeça parecia ridiculamente pequeno se comparássemos ao resto do meu corpo, mas quando a dor em minha barriga me fez ficar sem folego tudo ao meu redor pareceu parar.
Shun lutava incansavelmente a minha frente, eu não sei em qual momento esse se levantou, mas quando ele bloqueou um chute e segurou a perna do oponente dando impulso para jogá-lo em cima do cara de cabelo azul que se aproximava eu vi o quanto ele também sangrava.
Eu me contorci com a dor em minha barriga e usei todo meu alto controle para não gritar quando a dor em meu ombro me atingiu.
-Se a garota morrer, não terá serventia para nenhuma de nós Cavaleiro de Atena, e nem para vocês. -o mais baixo disse.
-Pervel teremos de lutar mais a sério, ou acabaremos perdendo a única chance de encontrar e libertar novamente a alma de nosso mestre. -disse o ruivo.
-Vamos acaber com isso. -disse o loiro. -Mas não podemos mata-ló.
Os cabelos de Shun já estavam colados em sua nuca de tanto suor, ou será sangue?
Eu estava começando a ter dificuldades para respirar e uma agonia se apoderou de mim. A dor já tinha passado do limite do meu alto controle a tempo, e apesar disso eu ainda me mantinha consciente para o que estava ao meu redor. Eu sabia que estava perdendo meu bebê, compreendia que se isso continuasse por muito mais tempo eu também morreria pois o sangue que escorria por entre as minhas pernas juntamente com as outras escoriações pelo meu corpo não me negavam isso, mas acima de tudo eu entendia que se gritasse, Shun se desconcentraria novamente e estaria acabado.
O corpo de Shun brilhou e uma luta mais brutal aconteceu ali, minha vista estava começando a embaçar, mas tenho certeza que mesmo que não estivesse tão machucada, ainda assim não conseguiria enxergar o que aconteceria ali.
-Não vai encostar nela. -o homem de cabelo vermelho estava caído a minha frente, e Shun estava com os joelhos em sua costela, o ruivo sangrava e seus olhos estavam brancos, sem íris, sua boca tinha um filete de sangue escorrendo e o chão abaixo de si tinha uma leve cratera, como se o peso de sua queda ali tivesse afundado o chão. Estava morto.
Foi nesse ínfimo segundo, com ele ainda sobre o corpo do ruivo, que nossos olhos se conectaram, e eu podia ver o desespero dele sobre mim, pois ambos sabíamos quais eram nossas chances ali. "Eu te amo", foi o que eu quis dizer e podia jurar que antes de se virar e bloquear mais um ataque daqueles monstros sobre si ele tentou me dizer, "Eu te amo mais". Mais tenho certeza que esse era meu subconsciente tentando me fazer sentir algum alivio em meio aquele caos.
Uma chuva fina começou a cair e eu já não sabia se os espasmos no meu corpo eram causados pelo frio ou pela perda de sangue, eu ainda ouvia o choque de seus corpos contra o dele naquela luta infernal, e o gosto de sangue em minha boca era a única prova que eu tinha de que meus lábios estavam bem fechados, já que meus dentes estavam tão bem cravados neles os fazendo sangrar.
Shun caiu próximo a mim, mais quando o de cabelo azul se aproximou este já estava a sua frente o chutando para longe de mim, e mesmo cambaleante ele se manteve de pé em uma posição de defesa. Tenho certeza de que se eu não estivesse ali ele não estaria tão machucado, provavelmente já teria vencido a luta.
"Ele vai morrer" -mesmo naquela situação eu não podia deixar de achá-lo lindo ali em pé em meio aquela chuva.
- "Eu vou morrer, mais essa ultima cena dele é mais do que eu poderia pedir" -deitei no chão frio e molhado a procura de alivio para a dor, mesmo sabendo que isso era impossível. - "Se eu morrer agora, ele com toda certeza sobreviverá".
"Não seja idiota Anna, Shun está dando a vida dele por vocês, pense no seu bebê também."
- "Ele... ele está morrendo..." -eu queria poder chorar mais do que já fazia, por que aquela dor, não só a fisica, mais a do meu coração não parecia acabar, só aumentar.
"Então não seja covarde, não desista."
- "O que DIABOS eu posso fazer?" -eu perderia meu bebê e o homem que amo, e simplesmente não podia fazer nada além de chorar.
"Sobreviva, lute por sua vida assim como ele está lutando pela de vocês!"
- "Mas meu filho... Eu não quero perder meu filho!" -a chuva aumentou e eu já estava completamente molhada, e com um esforço descomunal me virei e coloquei a mão em cima da minha barriga.
"Faça o que puder para viver, faça valer a pena a vida que ele está oferecendo por você, não se entregue como uma covarde"
-Mamãe não... cof cof cof... mamãe não te viu. -respirei fundo por causa da dor e fechei os olhos. -Não te segurou no colo... ahhh... não, não te ninou a noite, e nem teve tempo de dizer que te ama mais do quê a ela mesma. -apertei o chão juntando um punhado de terra nela. -Mas saiba meu amor, que assim como seu pai eu daria a minha vida se isso o fizesse ficar seguro. -mordi o lábio novamente fazendo a ferida ali se aprofundar e sangrar muito mais, contudo consegui me impedir a tempo de gritar quando um novo espasmo me atingiu e dessa vez senti como se minhas costelas fossem despedaçadas. -Mesmo não te conhecendo... sei que você sabe o quanto te amamos...
Quando abri meus olhos novamente, dei de cara com a armadura dourada, as costas de Shun, eu podia o ouvir ofegar de tão alto que era sua respiração, ele estava sem folego.
-Eu não vou deixar você morrer Anna. -ele disse num folego só. -Nos não vamos morrer aqui.
Eu queria poder responder, queria poder ao menos sorrir, mais já tinha feito mais esforço do que meu corpo me permitia, manter-me acordada era o meu único objetivo agora, pois enfim meu corpo pareceu me dar um descanso, a dor parecia longe, eu ainda a sentia, como sentia a chuva forte lavando as feridas e o sangue de meu corpo, mas tudo parecia tão longe agora.
-Desista cavaleiro, você não é páreo para nos quatro, você mal se aguenta em pé.
-Três. -ouvi Shun dizer em meio a um grito de dor. -Você demorou demais Ikki.
-Cuide da Anna, a partir daqui eu assumo. -a voz de Ikki parecia trovejar e quando me senti ser erguida o vi de relance, mesmo meio embaçado eu o distingui com erguendo com um braço só o cara loiro.
-Anna. -Shun me chamou enquanto me encostava em seu peito, e dessa vez não consegui não gritar de dor quando meu ombro foi encostado em seu corpo. -Me perdoe. -levei a mão ao seu rosto usando um força que eu nem sabia existir e toquei ali, onde havia sangue e lágrimas misturadas.
-Obrigada amor... -puxei o folego com força. -Eu te amo Shun. -ele encostou nossas testa tomando cuidado para não me machucar mais. Shun chorava chegando a soluçar.
-Eu te amo mais... -sorri...
