Dizem que quando sofremos uma grande perda o mundo perde a cor, mais uma vez eu sinto em lhes informar, isso é mentira, uma mentira nada bonita sinto dizer.
Sentada em uma cadeira de rodas em frente ao tumulo pequeno de nossa filha, com Shun e Ikki a ladear-me, cada um ao meu lado e assim como eu perdidos em seus próprios pensamentos e dores, com um belo sol estava malditamente a banhar-nos, com certeza zombando de nós em seu esplendor.
Um pouco mais a frente de nós algumas pessoas choravam copiosamente, e uma mulher já havia saído carregada - provavelmente desmaiada – por um homem que imagino ser seu marido. Ela estava aqui antes de mim chegar e chorava a perda do filho mais velho. Mas diferente daquela família a minha -e me incluo também – não chorava, apenas estávamos ali a deixar nossas flores e fazer nossas orações, que no meu entender era uma ação completamente infundada já que os mortos estão mortos, nenhuma daqueles flores faria diferença, pois eles jamais sentiriam seu cheiro ou as veriam murchar, assim como jamais saberiam que estivemos ali.
Shun e Ikki estavam vestidos com suas armaduras de ouro, desde o ataque a quase um mês agora, que todos os cavaleiros estavam em alerta, e somente hoje eles haviam sido liberados de saírem de suas casas para ir ao cemitério. Shun não tinha nem mesmo uma marcar em seu corpo que mostrasse que havia lutado e quase morrido para me proteger, Ikki parecia um pedestal de tão duro que estava, enquanto eu, eu parecia um trapo velho, toda remendada. Minha clavícula tinha deslocado, e estava presa com um gesso que me amarrava do braço ao peito e pescoço, meu rosto tinha tantos arranhões que parecia que eu tinha brigado com um gato, um curativo grande em minha testa escondia uma ferida profunda que até poucos dias estivera ligado por alguns pontos. Havia também uma bota de gesso em meu pé esquerdo e tive que ficar no hospital por vários dias por causa da perda de sangue.
-Podemos ir? -Shun me perguntou acordando-me de meus desvaneio. -apenas mexi a cabeça afirmando.
Com Ikki a nossa frente e Shun empurrando a minha cadeira, saíamos vagarosamente do cemitério infantil, que tristemente estava cheio. Dezenove crianças haviam sido mortas naquele ataque ao Santuário, cinco meninas incluindo a minha filha e catorze meninos. Sim eu soube naquele mesmo dia que esperava uma menina, Sakura, foi o nome que escolhemos em meio ao choro da perda.
"Sakura Lopes Amamiya" foi a única coisa em que me dignei a ler em seu tumulo antes que esse me sumisse de vista, pois nenhuma das outras palavras escritas ali importava, nenhuma bela frases sobre sua pouca existência ou quem "era" me confortaria.
Eles andavam devagar, e eu sabia que isso era por minha causa, eles faziam de tudo para que eu não sentisse uma misera dor, tanto que eu havia aprendido nesses últimos dias a me esconder por trás de uma mascara, já que a menor cara feia que fazia Shun correria para meu lado preocupado.
Pessoas chorosas passavam por nos e mesmo aquelas que não choravam apresentavam um semblante triste, mais ainda assim prestavam seus respeito aos dois Cavaleiros de Ouro (e consequentemente a mim), não só por sua classe, mais acima de tudo, por que de alguma forma todos ali sentiam sua dor, todos ali perderam alguém. Como aquele era o primeiro dia que todos haviam sido liberados de suas obrigações como cavaleiros, a cidade estava apinhada, e assim como nos, todos quiseram prestar suas lamentações e honrarias a seus mortos.
Passamos pela casa de Áries e de Touro, e como antes, seus respectivos cavaleiros se curvaram para mim, em um pedido mudo de desculpas, o que eu sorria negando. Claro que eu sabia que assim como eu Shun e Ikki, eles se culpavam, e por mais que eu dissesse que eles não tinham culpa alguma, estes sempre ainda assim me pediam perdão. Como Cavaleiros de Ouro, era sua obrigação como tal protegerem suas casas, ou seja, durante o ataque nenhum dos cavaleiros pode sair de sua casa para nos ajudar, e Ikki que vinha seguindo nossos atacantes a algum tempo, só pode nos dar auxilio por que assim como Shun estava fora de sua casa antes do ataque, não que eu duvide que mesmo que ele estivesse em sua casa ele não sairia para nos auxiliar, ele com toda certeza preferia morrer a ficar parado em sua casa apenas esperando sua vez de lutar enquanto outros morriam.
Ikki ficou na casa de Leão, sua respectiva casa enquanto nós seguimos para a casa de virgem, nossa casa. Mas uma vez me dei conta de como o dia estava lindo, e quando uma brisa fresca brincou com meu rosto me fazendo sentir o cheiro de flores, eu me irritei, me revoltei, em como tudo poderia parecer tão belo ainda quando tudo que eu via eram rostos em dor e desespero. Os Deuses com toda certeza gostavam de brincar com a vida dos mortais.
Shun beijou o topo da minha cabeça e saiu detrás de mim e se ajoelhou a minha frente, puxou minhas mãos e as prendeu entre as suas.
-Você está bem? -o sorri, ambos sabíamos que era algo mecânico, falso em todos os sentidos, mais ainda sim era automático a forma que meu corpo reagia a ele.
-Sim, foi mais fácil do que eu imaginava. -ele me deu um sorriso triste e beijou minhas mãos as depositando novamente em minhas pernas.
-Foi. -ele se limitou a me dizer, e voltou para trás de mim e empurrou a cadeira de rodas para que entrássemos novamente em casa.
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Nove meses, esse foi o tempo necessário para que meu corpo estivesse totalmente curado, claro que marcas no mesmo seriam sempre visíveis, como uma lembrança daquele dia, (isso era até ridículo de se pensar), como se as feridas em meu coração me deixassem esquecer de algo.
Eu estava no jardim tirando a neve de frente da bancadinha, Shun estava na sala conversando com June que tinha vindo visitá-lo e eu apenas tinha arrumado uma desculpa para deixá-los sozinhos. Na verdade, desde nossa ultima conversa eu havia me prometido que não atrapalharia mais sua vida, e que faria o possível para que ele fosse feliz.
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Eu chegava em casa após três meses enfim pude tirar o gesso, estava acompanhada de dois cavaleiros de prata que tinham sido designados a me levarem ao médico já que os cavaleiros de ouro tinham sido convocados para uma reunião, lógico que eu sabia que Shun nesse momento já estava em casa, pois ao passar pelas casas que antecedem a nossa fui recepcionada por seus respectivos cavaleiros. Desde o ocorrido que todos os cavaleiros me liberam passagem por suas casas, eu não precisava solicitar passagem, podia ir e vir sem problema, mesmo que estes não estivessem ali.
Agradeci aos homens pela companhia e proteção e entrei em casa, Shun estava no sofá com a cabeça virada para cima observando atenciosamente o teto, tão sereno, tão belamente sereno que me senti mal por estar ali e o vê sair daquela posição para me olhar.
-Está tudo bem? -era sempre sua primeira pergunta ao me vê, já tinha virado uma rotina que a muito já tinha deixado de estranhar.
-Sim, o médico me disse que meu pé estar 100%. -ele me olhou com uma acusação implícita ali e eu bufei. -Só terei de fazer fisioterapia por um tempo, mas o osso já está curado. -ele levantou e me segurou pela cintura e me ajudou a sentar no sofá.
-Sinto muito não ter podido ir com você. -ele disse numa voz cansada e eu neguei.
-Não foi nada demais, e você tem outras obrigações além de mim. -ele me olhou feio, e bufou.
-Eu já pedi para você parar com isso Anna. -passou a mão no cabelo provavelmente se segurando para não brigar comigo.
Desde que sai do hospital que Shun havia começado a cuidar de mim, claro que no começo isso foi imprescindível para minha recuperação já que eu não podia fazer nada sozinha, mas mesmo depois e até agora ele continua excessivamente cuidadoso, tanto que já brigamos mais de uma vez por isso. Eu me sentia uma completa inútil, um peso morto que ele tinha que carregar pelo resto da vida.
-Ikki e Seiya irão sair em missão. -ele começou cauteloso.
-Então enfim sabem quem começou o ataque e exatamente o porque. -eu disse mesmo já tendo uma ideia da verdade.
-Sim. -foi tudo que me disse e eu o fitei seria, ele teria de me contar tudo, ou eu não o deixaria em paz, ele mordeu o lábio e ficou apreensivo, e levou um tempo me olhando, por fim suspirou cansado e segurou minha mão firme. -Não se culpe por favor Anna. -respirei fundo. -O ataque foi provocado pela união de alguns deuses menores, que deram alguns de seus soldados e cavaleiros a um grupo de espectros sobreviventes da ultima guerra. O acordo foi que eles entregariam você aos outros deuses depois que você os ajudassem a encontrar Hades. O acordo só foi feito por que os únicos que sabiam como entrar aqui eram os espectros, e os Deuses menores almejavam possuir seu dom como arma de guerra. -mordi o lábio inferior sentindo a cicatriz fina ali. -Não sabemos como eles descobriram que você estava aqui, e por isso Ikki e Seiya sairão, não só para descobrir isso como também para acabar com todos que saibam como entrar aqui.
-Não estou surpresa, sempre soubemos que a culpa do que tinha acontecido tinha sido minha. -ele apertou minhas mão e eu as soltei das dele. -Não importa o que me diga, eu não vou me esquecer nunca mais de quem sou, eu não vou mais me iludir com uma felicidade passageira, e me perdoe, sinceramente me perdoe Shun por te arrastar para isso. -o olhei triste.
-Anna...
-Eu não quero envolver mais ninguém nisso, não mais, nunca mais. -apertei as mãos enfiando as unhas nas pernas, eu precisava lhe dizer minha decisão, mesmo sabendo que isso o faria sofrer e me odiar, sem falar que com o tempo ele se arrependeria amargamente de ter se casado comigo.
-O que você quer dizer com isso Anna, eu não estou entendendo. -se virou completamente para mim no sofá.
-Eu não quero mais ter filhos Shun.
-Anna... -ele mal conseguiu pronunciar meu nome.
-Você quase morreu para me proteger, e...
-Aquilo foi uma fatalidade, Ikki e Seiya não deixarão sobrar nenhuma poeira daqueles que sobreviveram. -ele argumentou. -Nunca mais seremos atacados daquela maneira, sem falar que todos estamos mais do quê alertas agora amor.
-Nada nos garante que a informação não foi falada a outros, sem falar que agora que sabem da minha existência outros Deuses com toda certeza tentarão me ter. -o olhei firme. -Eu não quero envolver uma criança nisso, pois nem mesmo você pode lutar enquanto protege duas pessoas. -ele me olhou magoado. -Eu não quero...
-Eu já entendi. -disse frio. -Se é isso que você "quer" tudo bem, quem sou eu para...
-Shun...
-Não Anna! Eu não concordo com sua decisão e apesar de você não querer discutir o assunto comigo eu vou respeitar sua vontade, se é assim que você quer que as coisas sejam, assim será. Apenas me dê um tempo sim. -fiz que sim e ele se levantou me deixando ali.
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Desde então não conversamos mais como antes, não, ele não deixou de cuidar ou se preocupar comigo, mesmo agora ele ainda é extremamente cuidadoso, como se a qualquer momento eu fosse quebrar.
Eu sabia que estava fazendo com que fossemos infelizes, eu sabia que não estava cumprindo com meu papel de mulher já que apesar de ver o desejo nos olhos do meu marino eu havia me fechado pare ele de tal forma que este não ousava me tocar. E por isso que em uma ideia louca eu o deixei só com June, como sempre fazia ultimamente quando ela vinha aqui. Eu queria que ele encontrasse em outra o que eu não podia mais oferecer, já que estava quebrada de uma forma que eu não achava que um dia pudesse concertar.
"Devo te chamar de idiota agora, ou só quando você se arrepender dessa burrice!"
- "Me deixe em paz!"
"Não Anna, você está sendo mais estupida do que o normal"
- "O que infernos você quer que eu faça?"
"Quero que pare de empurrar seu marido para outra, como se ele fosse algo descartável. Sun não é um objeto Anna"
- "Eu não estou fazendo isso."
"Não, então me diga! Por que enquanto vocês eram um casal feliz você não o deixava ficar com ela, mas agora que algo de ruim aconteceu você o empurra para outra. Ele não é um brinquedo para você só pegar quando quer ou quando está feliz."
- "Eu só quero que ele seja feliz como antes!"
"Você é a mulher dele, e não June. Não jogue suas responsabilidades para outra!"
- "Eu..."
-Anna. -Shun me agarrou por trás e beijou meu pescoço. -O que você está fazendo?
-Tirando a neve do batente. -ele inspirou fundo e me soltou.
-Já disse que não precisa fazer isso. -ele brigou tomando a pá de minhas mãos.
-Desculpe é que eu estava um pouco entediada. -ele me olhou como se me estudasse.
-Se estava entediada por que não ficou na sala conversando conosco, achei que tinha dito que estava com dor de cabeça. -senti meu rosto esquentar por se pega na mentira.
-Desculpe, eu só não queria atrapalhar a conversa de vocês. -disse displicente me virando. -Vou preparar algo para jantarmos.
Preparei o jantar e coloquei as coisas na mesa e até então Shun não tinha aparecido, então fui o chamar, procurei em toda a casa e nada dele, então me decidi pelo único lugar que faltava, o lugar onde o tinha visto pela ultima vez, nosso jardim.
Ao chegar lá me surpreendi ao vê-lo ali no escuro, quase na mesma posição que o tinha deixado, ele olhava fixamente para o horizonte agora escuro, iluminado apenas pela beleza de uma noite de lua cheia.
-Shun. -toquei seu ombro que estava frio, mas nada me preparou para a visão de seu belo rosto banhado de lágrimas. -Shun o que houve? -ele balançou a cabeça negando e se virou novamente.
Me pus a sua frente e segurei seu rosto entre minhas mãos limpando e esquentando ali.
-Por favor Shun, me diga o que está acontecendo! -pedi aflita e ele fixou os olhos em mim.
-E porque eu deveria Anna Lyana Lopes Amamiya? -fiquei estática, era a primeira vez que ele me chamava pelo nome completo.
-Exatamente por ser Anna Lyana Lopes Amamiya, sua esposa. -disse firme, e ele deu um leve sorriso de escarnio me assustando.
-Agora você lembra que é minha esposa e quer conversar comigo? -ele me perguntou ainda com aquele sorriso nos lábios e eu o soltei me afastando.
-Do que você está falando?
-Não se faça de sonsa Anna, ambos sabemos o que quero dizer, não querer conversar comigo tudo bem, não se sentir bem ou se sentir destruída também é completamente aceitável, por que eu também me sinto assim, apesar de que gostaria de dividir isso com você para que pudéssemos seguir em frente do jeito certo, mas juro que realmente entendo, e que esperaria até que estivesse pronta para isso, não importando quanto tempo levasse, por que é isso que um marido que ama sua esposa faz. -ele me olhou firme. -Mas ter minha mulher duvidando do meu caráter é algo que eu não posso aceitar, é algo que não consigo, juro que não consigo por mais que pense, eu não consigo entender.
-Shun. -ele me segurou pelos ombros.
-Eu casei com você Anna, mesmo que para você aquilo possa não ter validade, mas para mim, para mim você é e sempre será minha esposa.
-Eu nunca pensei que nosso casamento não teve validade Shun.
-Se é assim por que não me respeita mais como seu marido? -ele me apertou, e eu me senti mal por ter feito-o se sentir assim, ele não merecia mais isso, não merecia alguém como eu. -Por que está me jogando para June, como se eu fosse o tipo de homem que não respeita minha mulher, por acaso eu alguma vez a desrespeitei? -fiz que não e abaixei a cabeça envergonhada.
-Me desculpe. -ele me abraçou.
-Eu entendo que esteja confusa, que esteja triste e magoada, mais Anna eu estou aqui, eu vou sempre estar aqui, não importa o que aconteça.
-Eu...
-Eu Amo muito você Anna, e isso não vai mudar, mesmo que você queira.
-Eu também amo você Shun. -ele levantou meu rosto pelo queixo para si e as primeiras lágrimas já escorriam do meu rosto, as primeiras desde a morte de Sakura.
-Eu sei que como eu você se sente culpada pelo que aconteceu, mas Anna, me deixe te ajudar, me deixe ficar ao seu lado, por que Deuses eu preciso de você. -ele colou nossos lábios e meu coração acelerou como a muito não fazia.
-Eu só queria que você fosse feliz Shun, eu achei que ela poderia...
-Ninguém pode me fazer feliz mais que você, mesmo agora todos os meus pensamentos são voltados para você, eu não vou te deixar mais assim, eu pretendia te dar todo o tempo e espaço que precisasse, mais sinto muito, eu não vou deixar mais as coisas assim. -ele me colocou no colo e saiu comigo. -Eu vou te mostrar o quanto te amo, vou te mostrar todos os dias para que você nunca mais se esqueça o quanto te amo, ou se quer ouse sonhar em deixar de me amar...
