Eu sabia que dali em diante eu estaria sozinha, mais sabia que diferente de quando entrei aqui, eu agora era uma pessoa diferente, alguém que com toda certeza pode sobreviver a esse tipo de situação. Sabia que ao fugir dali eu com toda certeza os deixaria loucos, e que eles incansavelmente me cassariam, contudo, não seria tão fácil me achar, eles mesmos garantiram isso.

Quase chorei de felicidade ao sair, mais deixaria isso para quando eu estivesse em um lugar seguro, quando eu estivesse longe o suficiente e fora de perigo, apesar de saber que isso seria impossível, e que pelo resto da minha vida eu viveria fugindo, mas que escolha eu tinha?

"Nós vamos conseguir!"

- "Vamos sim! Eu não serei nunca mais enganada!"

"Não mesmo!" -sorri com o pensamento e andei adiante.

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Minha visita ao Brasil não foi a única saída que tive, pois aquela não foi a ultima vez que sai do Santuário ao longo dos anos, já que Shun e Ikki uma vez por ano sempre saiam comigo para que eu mantivesse contato com minha família, ou seja, meu irmão, cunhada e Leandro meu sobrinho gorduchinho que nasceu a pouco, preciso dizer que quero um para mim? Por que eu quero...

Já fazem mais de três anos que voltei do Brasil para o Santuário com Shun e Ikki, e estes não mentiram em não pegar leve com meu treinamento, algumas costelas fraturadas no começo foram prova suficiente para mim disso. Apesar de todo o sofrimento eu sempre dormia com um sorriso de satisfação no rosto, eu me sentia viva, e mesmo quando eles disseram que eu estava pronta eu não me deixei descansar e sempre treinava com um deles para manter a forma. Não, eu realmente não podia lutar de igual para igual contra um cavaleiro, mais tinha aprendido bem com meu marido como me esquivar de um ataque e meu cunhado tinha arduamente me treinado para derrubar qualquer um que desprevenidamente me tomasse como uma pessoa indefesa. Os outros cavaleiros também entraram na onda, Seiya por incrível que pareça, me ensinou a arte de meditar e ouvir o que está ao meu redor, pode parecer idiota, mais foi graças a isso que consegui concentrar meu cosmo (apesar de ser muito pouco e eu precisar de uma concentração enorme). Dohko me ensinou a lutar com armas, ainda que fosse proibido a cavaleiros de Atena lutarem assim, servia muito bem para mim, já que eu não era uma. Aldebaran e Mu se juntaram para me ensinar sobre rastreamento e sobrevivência em diferentes ambientes, e Kanon me ensinou a esconder minha presença, e passar despercebida onde quer que eu fosse. Eventualmente eu já não os vejam como meus amigos, e sim como minha verdadeira família.

O Santuário foi atacado mais uma vez, fazem uns catorze meses agora, mas devo dizer que foi um massacre geral para as tropas inimigas, já que nem mesmo um soldado nosso morreu. Dessa vez o ataque ocorreu graças a um grupo que ficara de tocaia e depois de meses conseguiram achar a entrada para o Santuário, mais devido a forma como foram rechaçados os Deuses entraram num acordo com Atena. Eles não tentariam mais me pegar e Atena não usava meu poder contra ninguém (como se ela quisesse), e assim uma guerra foi evitada. Não preciso dizer o quão revoltada e aliviada eu fiquei com isso. Revoltada por que os malditos poderiam ter feito isso antes e evitado tanta tragedia e aliviada por que agora eu poderia viver tranquila com minha família, mesmo que só há dois meses atrás eu tenha me sentido segura o suficiente para querer recomeçar.

Sobre a minha vida de casada eu só posso defini-la como maravilhosa. Shun era gentil e carinhoso, sem falar que era um romântico incorrigível e um amante excessivamente "extravagante". Sei bem que é um pleonasmo dizer que o amo, mas foda-se, eu o amo com todas as minhas forças, e ele não cansa de demonstrar o mesmo (como se suas palavras não bastassem como prova para mim). Com os anos aprendemos tudo sobre o corpo um do outro, e mesmo assim era sempre uma loucura quando estávamos sozinhos, e contrariando o que sempre me disseram, os anos só fizeram com que nos desejássemos mais e mais. Nossa cumplicidade era tanta que as vezes só precisamos nos olhar para saber o que o outro queria dizer.

Uma coisa engraçada que eu havia notado em todas as vezes que viajei com Shun é que fora do Santuário ele era excessivamente ciumento, não que ele falasse algo ou demonstrasse na frente dos outros, era algo mais sutil, e que claro, depois de descobrir, eu me aproveitava sempre que podia. Se eu mirasse por muito tempo, ou trocasse o menor olhar que fosse, mesmo que por acidente com um homem, a noite Shun me "castigava", se é que me entende, e eu adorava.

"Me juguem!" -ele fica tão gostoso quando está bravo, que eu não resisto.

Eu estaria mentindo se dissesse que sinto falta de viver na Terra, até por que, os melhores e os piores momentos de minha vida eu vivi aqui no Santuário, talvez por isso que se não fosse pelo meu irmão e sua família eu não teria motivos para voltar aquele mundo. Estranho pensar isso do lugar em que se viveu a maior parte de sua vida, mas era assim que eu me sentia quando pensava sobre aquele local.

Levar flores ao túmulo de Sakura era algo que eu e Shun - as vezes Ikki também - sempre fazíamos uma vez ao mês, mas constantemente haviam muitas flores ali, me dando a entender que não eramos os únicos a ir lá. Aprendemos a lidar com a perda de nossa filha, com toda aquela dor, não que a ferida não estivesse mais ali, mas, estava cicatrizada finalmente. Havíamos enfim encontrado uma forma de seguir em frente, aprendemos a olhar para a cicatriz e se permitir apenas respeitar seu lugar em nossos corações, já que a Sakura sempre seria alguém importante em nossas vidas - na de todos nós.

-Anna. -sai de meus devaneios e me virei para olhá-lo. -Você poderia me passar o e-mail daquela empresa de milhas, talvez eu precise viajar e Shun disse que eu usasse as milhas dele. -sorri para ele, Ikki estava viajando bastante, e eu sabia que nesse angu tinha caroço.

-Claro, me dê um minuto que vou pegar o celular de Shun, o meu está descarregado. -ri sapeca por ser desleixada.

Shun sempre deixava o celular na bancadinha da cozinha (como se alguém realmente ligasse para ele), então foi fácil de encontrá-lo. Peguei o celular e fui direto para o e-mail, achando logo o que queria, e voltei para Ikki passando o contato da pessoa responsável pela conversão de minhas dos cavaleiros.

Pasmem vocês, mais depois do que houve na Guerra Santa, as despesas de qualquer viagem e até uma grande quantia em dinheiro estava disposta para cada Cavaleiro em cada país. Os próprios governantes faziam questão de que os Cavaleiros visitassem seus países, e qualquer despesa deste era por "conta da casa", descobri isso na minha ultima viagem quando perguntei a Shun sobre como ele fazia para pagar por tudo que consumíamos.

Ikki me agradeceu e saiu apressado após pegar o contato, no mesmo momento eu voltei para dentro enquanto brincava de passar os e-mails de Shun, e eu tinha de admitir, meu marido era bem mais organizado do que eu. Não haviam e-mails de propagandas e nem e-mails não lidos e muitos deles tinham tags. Eu estava tão entretida que nem me liguei em prestar atenção no caminho e sem querer bati na estante de livros, o que consequentemente me garantiu uma dor na cabeça e vários livros caídos para arrumar.

"Parabéns , além de tapada é cega!"

- "Calada!" -rosnei.

Deixei o celular na bancadinha onde o tinha pego e me voltei para a estante com cara de choro. Só depois de tomar coragem que me aproximei para começar a arrumá-los, o que apesar do meu drama não demorou muito – taquei eles de todo jeito na estante – como eu havia achado inicialmente. Peguei um livro de capa estilizada preto com verde, e apesar de ter uma esquisita estrela presa a frente eu não o teria aberto se um desenho estranho não tivesse começado a escapar de si. Peguei o desenho, era um Shun com capa e um cordão de estrela (a mesma do livro) pendurado em seu pescoço, e uma mulher de longos cabelos atrás de si. Curiosa sem falar no desconfiada, terminei de jogar os livros que tinham sobrado na estante e corri para o único lugar seguro para ler – seja lá o que estivesse ali – o livro, o banheiro.

Tranquei a porta e me joguei na banheira seca, e abri o bendito.

"Amamiya Shun, 16 anos" -era a única informação contida na primeira folha, então passei para a próxima.

"Mas uma vez acordo suado, nada em comum, apenas mais uma noite de sonhos sórdidos. Apesar de já estar acostumado com eles, não posso negar que não sinto-me menos frustrado por suas continuas assaltas as minhas noites, talvez por ter depositados todas as minhas esperanças que estando longe do Santuário e de tudo que este me representa, as coisas enfim poderiam tomar outro rumo. Agora vejo-me aqui, mais decepcionado do que antes.

A razão me diz para voltar a dormir, ainda está bastante escuro lá fora, e uma chuva torrencial agride minha janela. Sei que daqui a algumas horas terei de ir para o colégio, para a rotina que me impus quando sai do Santuário com a desculpa de que queria completar meus estudos, um subterfúgio simples, que me manterá longe daquele mundo por dois anos. "

Uau aquele era o diário de Shun. Um sorriso malicioso se formou nos meus lábios e eu me vi procurando a data do nosso primeiro encontro, quase que implorando para que ele tivesse escrito algo ali, sobre aquele momento. Quase beijei o livro quando encontrei a data.

"Amamiya Shun, 17 anos, 05 de setembro de 2011.

Primeiro dia de aula, não precisei me apressar, pois os dias já faziam isso por mim. Caminhei observando o meu derredor como sempre fazia, e apesar de ser cedo aquelas pessoas já corriam de um lado a outro presas em suas tarefas.

Quando adentrei na sala, vários risinhos animados poderam ser ouvidos, e até uns colegas vinheram me cumprimentar, mais diferente deles, eu não me sentia alegre aquele dia, não me sentia nem remotamente animado com o tão esperado "ultimo ano" no colégio, por que para mim seria o ultimo ano de liberdade.

Me vi entretido em olhar o vento lá fora, e por consequência não prestei atenção quando o professor entrou na classe, nem mesmo quando ele anunciou que teríamos alguém diferente ali, a única coisa que realmente arrancou-me de meus pensamentos foi sua voz, a voz de alguém excessivamente animada. O tom vibrante e o sotaque extremamente repuxado, era como uma zombaria direta ao meu infortúnio, e no momento em que coloquei meus olhos na criatura que se apresentava a turma tive um calafrio, e soube imediatamente que algo ali daria muito errado, como se o eixo que segurasse meu mundo fosse virado, e a ultima vez que senti isso foi quando Hades me dominou. Me pus em alerta no mesmo instante, e não tive como não observá-la. Mais alta que as meninas ali, e com um corpo tão desenvolvido que fazia as japonesas naquela sala a odiarem imediatamente e os garotos a desejarem, eu podia ouvir vários suspiros ensandecidos dos outros garotos da sala. E não me foi uma surpresa quando ela disse que era brasileira, pois aquele povo já era bastante conhecido por seus extravagantes corpos, rostos e peles exóticas, descendência de longas heras de miscigenação.

Assim que ela terminou sua apresentação o professor a mandou sentar no fundo da sala, porém não demorou muito para sermos escolhidos como representantes e está se enviada para sentar ao meu lado. Levantei-me e carreguei minha cadeira para ficar ao seu lado, e peguei meu livro de álgebra e a todo momento a menina de pele avermelhada mantinha um sorriso triunfante nos lábios, assim contrariando todos os meus sentidos, deliberadamente comecei a conversar com ela.

Meus sentidos de cavaleiro foram a mil, e mais rápido do que um pensamento eu já a segurava firme, não permitiria que ela machucasse ninguém ali, mais meu coração quase deu um salto quando seus olhos esbugalhados me fitaram aflitos e no mesmo momento a voz do Cavaleiro de Áries em uma lembrança a muito esquecida me atingiu.

"A uma lenda Shun de Virgem, de que a cada década uma criança nasce com poderes divinos. Poder esse que pode não só vê através de qualquer feitiço, como também quebrá-lo se esta assim desejar. Contasse que se essa criança gerar um filho de um cavaleiro de ouro ou de um igual de outro Deus, essa criança nascerá com o poder de destruir almas imortais.

Se você encontrasse tal criança, por nossas leis teria o direito de desposá-la, mais saiba você que no fim a escolha sempre será dela, e que o infortúnio sempre a seguirá, já que a cobiça por seus poderes a perseguirá."

Aquela menina era a minha oportunidade de acabar com tudo de uma vez só, a chance de destruir a alma de Hades de uma vez por todas, tudo que eu precisava fazer era mantê-la ao meu lado por tempo suficiente para que quando fosse a hora de escolher, ela não se visse com nenhuma saída a não ser a mim.

Um filho com ela, é tudo que eu preciso de si. E estaria acabado!"