Férias com o Cicatriz
Título: Férias com o Cicatriz
Classificação: M
Shipper: Harry Potter and Draco Malfoy
Aviso: Harry Potter não me pertence, é tudo da Jk. Eu não ganho nada com essa fic. Só um sorriso feliz a cada review, então ajude-me a encontrar a felicidade!
Aviso 2: Palavrões, sexo, homossexualismo. Quem costuma ler minhas fics, sabem que é minha marca registrada. Estão avisados.
Capítulo dois:
Maldita solidão
Harry só se permitiu parar e suspirar quando chegou na cozinha. Estava tentando ser educado, tentando manter uma relação amistosa com Draco, afinal, ele não queria viver por sabe-se lá quanto tempo na presença de alguém que não podia vê-lo e já o estaria agredindo verbalmente. Além disso, Draco estava diferente, se comportando de um jeito mais… conformado. Maduro, talvez. Aquela situação não deveria estar sendo fácil pra ele também, e, mesmo assim lá estava ele, agindo com aquela falsa indiferença como se nada o estivesse atingindo. Harry achou melhor tentar. Tentar segurar sua língua, tentar segurar a necessidade de puxar a varinha e lançar uma lista de azarações no sonserino. Ele ia se segurar porque Malfoy era importante para a Ordem, e ele não estava sendo tão idiota assim. Pelo menos ainda, porque Harry não ficaria quieto se o rapaz passasse dos limites.
Ele já tinha separado um saco de biscoitos e estava despejando o chá num pequeno bule quando ele ouviu o som da garagem.
- Droga! – praguejou, tentando segurar duas xícaras, os biscoitos e o bule. Não estava funcionando.
Harry olhou para os lados a procura de uma badeja ao mesmo tempo em que a porta era aberta. Apertou os olhos, congelando. Agora era só esperar. E enfrentar.
- Você deveria tirar folgas mais vezes, papai.
- Ser um homem poderoso tem suas vantagens, Duda, mas para isso é necessário cautela e muito, muito trabalho. Aprenda com o seu pai.
- Eu concordo com Duda. Você tem trabalhado demais, Valter, nós merecemos uma boa folga de vez em quando. Esquecer de coisas como…
Harry encostou-se no balcão e ergueu os olhos a tempo de ver a tia entrando na cozinha e parando abruptadamente ao dar de cara com ele ali.
- Você – ela cospiu, e Harry não entendeu a surpresa na voz dela.
Ele dispensou os cumprimentos educados. Há muito desistira deles.
- Dumbledore avisou que eu viria.
Se perguntassem, Harry diria que aquele suspiro que a tia soltou em seguida era falsa e excessivamente trágico. Demais para a ocasião.
- Eu esperava que tivesse sido sonho ruim. Ou que talvez seu trem quebrasse e na confusão eles mudassem de ideia e te mandasse para um outro lugar.
- Você sabe que um trem quebrado não atrapalharia em nada – Harry respondeu, sem evitar um meio sorriso ao prever a reação da mulher – Não quando poderíamos consertá-lo em segundos com magia. Além disso – ele continuou, não ligando para a lamúria da tia, o que traiu a atenção do Dursley mais novo até a cozinha. – Além disso, eu não vim de trem. Vim por flú.
- E sujou todo o seu tapete novo, mamãe – Duda entrou na cozinha, um sorriso maldoso distorcendo os lábios enormes de uma face igualmente enorme. Harry observou o brutamontes em que seu primo se transformou, e franziu as sobrancelhas. Ele não estava naquele tamanho todo há quase um ano atrás.
- Ei, Duda. Ainda está tomando anabolizantes?
- Não preciso disso pra quebrar você no meio.
Harry olhou-o de cima abaixo novamente.
- Aposto que não. – murmurou, sem fazer caso.
- Você sujou meu tapete de novo? – Petúnia resmungou, saindo apressadamente dali para checar o estrago. Harry se preparou para esfregar os tapetes da casa toda por uma semana em troca disso. Da última vez que sujara de cinzas o tapete de estimação da tia (que na época era um totalmente diferente) fora obrigado a esfregá-lo por três dias. Não que as cinzas demorassem a sair, mas a tia de repente o julgara culpado também pelas marcas antigas de refrigerante que Duda certa vez derramara, e as marcas redondas de café de quando Valter se esquecia dos pires e apoiava sua xícara ali, escondido da mulher.
Só que Harry teve o azar da tia enxergar todas essas minúsculas manchas quando fora "inspecionar" o estrago.
Ele foi considerado culpado imediatamente, e dessa vez não seria diferente. Harry esperava que ela encontrasse menos manchas.
Enquanto tentava puxar na memória quanto tempo fazia que Duda pegara o vinho do pai escondido e derramara no tapete, virando-o depois para que a ponta suja ficasse debaixo do sofá e a mãe não notasse nada, outra figura imensa e praticamente sem pescoço entrava na cozinha. Valter provavelmente esbarrara na mulher na sala e ela lhe contara que a "aberração" enfim chegara, pois o tio não demonstrou surpresa ao vê-lo.
- Vai ficar até quando?
- Não sei – Harry respondeu, sinceramente, sem ligar para o pouco tato do tio, já estava tão acostumado que nem notava mais. – Espero que não muito tempo.
Valter apenas resmungou; concordava com ele, mas o simples fato de concordar com algo que ele dizia já era demais para que fosse dito em voz alta.
- Quando aquele velho maluco te levou no ano passado e disse que precisaríamos abrigá-lo aqui mais uma única vez, eu aceitei por ser caridoso demais. Agora olha aqui, garoto, e presta bastante atenção: se você continuar causando problemas, eu não vou piscar antes de pô-lo pra fora da minha casa, ouviu bem?
Harry sentiu seus próprios olhos estreitarem tanto que os dois Dursley a sua frente quase saíram de foco. Ele soltou o balcão atrás de si e cruzou os braços, impedindo-os, assim, de tremerem. Eles tinham essa mania quando Harry perdia a calma.
- Isso não está nas minhas mãos, nem nas suas – falou pausadamente. – Acha que eu quero ficar aqui? Acha que eu não preferia ir morar embaixo de uma ponte a ficar com vocês? Infelizmente o que eu quero não está em questão aqui, muito menos o que você quer. Por Merlim, há uma guerra acontecendo lá fora, será que você não entende? Uma guerra! E não importa o quanto você grite aos quatro ventos que isso não faz parte do seu mundo, porque o seu mundo está bem no meio dela! E se por ela eu tenho que ficar enclausurado dentro dessa casa com vocês, eu fico! E você deveria aceitar também, uma vez que seu próprio traseiro também está em jogo!
Ele tomou fôlego, vendo o rosto de seu tio inchar rapidamente e assumir um vermelho berrante. Fora longe demais, falara demais, e tinha plena consciência disso. Mas por Deus, estava tão cansado! Ele não queria estar ali! Não queria estar ali com eles, não queria estar ali com Draco, não queria…
Draco. Esquecera-se completamente do rapaz no andar de cima. Precisava voltar até lá antes que os gritos chamassem a atenção dele e ele descesse ali. Claro que ele não podia evitar o encontro da família com Malfoy, mas adiaria o máximo possível.
Olhou para os biscoitos na mesa e o bule de chá. Rapidamente avistou a bandeja tão procurada antes da entrada dos tios, pôs tudo ali, e a equilibrou em uma das mãos. A outra, numa decisão rápida, tirou a varinha do cós da calça, agradecendo efusivamente a Merlim pelo choque ter sido o suficiente para paralisar o homem por alguns instantes.
Era o único jeito de passar pelo tio e sair inteiro, depois do que falou.
Ele acompanhou os olhos se arregalarem quando notou a varinha apontada para si.
- O que você… o que pensa que…
- Não penso nada. Só quero passar, abra caminho. Por favor – acrescentou, em tom ríspido, apenas para calar a vozinha de sua consciência, lembrando-o de sua educação.
Valter recuou para longe da porta, os olhos ainda arregalados, a face ainda púrpura de raiva.
- Você não pode fazer... Aquele velho disse que você não pode fazer…
- Eu estou cansado das pessoas me dizerem o que eu posso ou não fazer. Só me deixem em paz aqui, ok? Vai ser melhor pra todos nós.
Antes de passar por Valter, Harry se lembrou de acrescentar:
- A propósito, tio Valter, o senhor não me aceitou aqui de volta por caridade. Aceitou porque estava morrendo de medo de Dumbledore, e todo mundo aqui sabe disso.
O alívio que Harry sentiu ao pôr os pés pra fora da cozinha, porém, terminou no instante em que ele olhou para a sala.
Ele quase derrubou a bandeja.
O motivo da sua tia ainda não ter gritado para que ele já começasse a limpar o tapete, era porque ela não estava sozinha ali. Draco Malfoy estava confortavelmente instalado num dos sofás, as pernas displicentemente cruzadas e um pequeno sorriso nos lábios, que se desfez assim que ele notou Harry e a varinha que ele segurava firmemente nas numa das mãos. No lugar do sorriso, o cenho franzido.
A surpresa era ainda maior ao olhar para a tia, no sofá de frente ao sonserino, sentada na beirada do móvel com um sorriso quase tímido no rosto, e as bochechas rosadas. Que diabos…?
- Petúnia? – o Sr. Dursley chamou, parecendo também estranhar.
- Válter, querido, venha conhecer esse doce de rapaz. Ele estava me contando que mora numa mansão em Wiltshire, você sabia?
Draco poderia ter prestado atenção no olhar que ambos trocaram, mas estava ocupado demais notando a tensão que saía de cada poro de Potter.
- Uma mansão? – o Sr. Dursley repetiu, seus olhos brilhando. – Sério? De que tamanho? 6 quartos?
Parado ali, com a bandeja nas mãos, Harry se sentia estúpido. Ele devia adivinhar que Draco encantaria os tios com todos os galeões de sua conta bancária.
- Estou lá em cima – ele rosnou, desejando poder deixar a bandeja ali sem se sentir ainda mais ridículo. Deu as costas e ameaçou subir as escadas, mas Duda estava em seu caminho.
Sem titubear, Harry ergueu a varinha.
- Precisa de alguma coisa, Duda?
O rapaz recuou até se esconder parcialmente atrás do pai. Com o caminho livre, Harry subiu as escadas.
Então ele não viu o olhar de pouco caso com que Draco se voltou para o Dursley pai:
- 40, se você desconsiderar as masmorras.
Os olhos ambiciosos de Dursley quase pularam das órbitas. Os de Petúnia também saltariam se ela não estivesse tão ocupada suspirando.
Draco não esperava realmente que o papo "eu sou podre de rico e você tem que beijar os meus pés" funcionasse com a família de Harry Potter, mas quem era ele para reclamar, não é? Assim ele pelo menos se livrava de um problema.
- Bem – exclamou, se levantando graciosamente. Petúnia disfarçou outro suspiro quando ele sorriu para ela. – Se os senhores não se importarem, eu vou terminar de guardar minhas coisas. Obrigado pela recepção calorosa. Com licença.
Ela ainda lançou um olhar curioso de cima a baixo na criatura gorda e assustada que se escondia atrás do pai. Não pôde evitar achar a situação meio patética.
- Uma graça de garoto para um deles, não acha?
Draco quase deu meia volta, mas se conteve. Crispou os lábios. Então sabiam o tempo todo que ele vinha de uma família de comensais? Essas pessoas eram mais falsas que muitos sonserinos, mas ele não daria o braço a torcer. Entraria no joguinho.
Quando abriu a porta, deparou-se com um Harry Potter estirado na cama, olhando para o lado oposto.
Draco bateu a porta, mas o garoto não se moveu. Encostou-se nela e cruzou os braços, olhando curioso para o grifinório que fazia questão de fingir que não o notara, mas Draco podia ver seus olhos piscando, mesmo com o rosto voltado para o outro lado, então a desculpa de que estava dormindo não colaria.
Ele estava pronto para perguntar o que diabos fora aquilo lá fora. Draco não era o que se podia chamar de muito perceptivo, mas não precisava ser um gênio para saber que algo estava errado naquela família. Ele tampouco queria se meter, mas considerando que seria obrigado a ficar por um tempo ali, era de se esperar que tivesse alguma explicação sobre como as coisas funcionavam.
Mas ele interrompeu-se, porque nunca tinha parado para notar como O escolhido tinha a aparência mais longe impossível do responsável para salvar o mundo.
Ele observou os braços cruzados por trás da cabeça, a manga da camiseta justa pelos músculos que Draco nunca imaginou que ele tivesse. Os olhos cinzentos seguiram a linha do abdome, hesitaram um pouco nas coxas escondidas pelos jeans que eram um pouco mais justos nessa parte, e então chegaram nos pés com tênis baratos cruzados despretensiosamente ao pé da cama. Grandes pés, grande altura, para uma cama pequena. Draco nunca tinha reparado no tamanho dos pés de Potter.
Afinal, por que diabos ele faria isso?
- O que você quer, Malfoy?
Draco coçou o pulso distraidamente.
- É impressão minha, ou você se incomodou por eu ter me aproximado da sua família, Potter?
- Eles não são minha família.
- Você entendeu o que eu quis dizer.
- Não, não entendi!
Harry sentou-se na cama e o fuzilou com os olhos, praticamente o desafiando a falar. Draco estreitou os dele.
- Eles são seus únicos parentes vivos, Potter. Desculpe se sua titia não resistiu ao charme de um Malfoy, não é como se eu tivesse tido que me esforçar muito...
- Seu charme? Eles não resistiram ao charme de sua conta bancária, isso sim! Mas não se engane, Draco, se não fosse por ela você seria mais insignificante do que a mancha de fuligem do tapete!
Draco crispou os lábios, esforçando-se para não dar uma resposta infantil. O comentário de Potter, contudo, trouxe a tona novamente o que ele ouviu assim que saiu da sala.
- Sei reconhecer um par de sanguessugas ambiciosas quando vejo um, Potter, não precisava que me dissesse. Só estou curioso do motivo que fez a família do grande herói salivar nos sapatos polidos de um filho de comensais da morte.
O riso de Potter incomodou Draco.
- Você poderia ser o próprio Voldemort, Draco, que eles não se importariam desde que, nas mesmas palavras que você usou, seus sapatos continuassem polidos. O que, você tem que assumir, você não sabe por quando tempo vai poder manter.
- Engraçado – disse Draco, sem se segurar. – parece que meus sapatos polidos me fizeram ter uma recepção muito mais calorosa do que a sua. Talvez você devesse polir os seus, quem sabe assim receberia um pouquinho mais de atenção da sua família.
Foi muito rápido. Num impulso Harry estava de pé, os dedos estirados em sua direção. No segundo seguinte, esses mesmos dedos estavam no colarinho de sua camisa, suas costas pressionadas dolorosamente contra a parede e seus pés se elevavam quase que completamente do chão. Não teve tempo de reagir a não ser por uma pequena exclamação de surpresa. Não é que o testa rachada era forte?
Mas o pensamento aleatório se foi assim que se viu encarando de perto as hastes tortas dos óculos redondos do dito cujo.
- Muito bem, Malfoy, fez a descoberta do século. A única família viva de Harry Potter o detesta desde que ele nasceu. Parabéns! Você conseguiu conquistá-los pelos galeões que possui, mas não se engane. Eles não dão a mínima se você é, foi um comensal, ou que seja o próprio diabo. Eles podem te tratar bem pelo seu dinheiro, mas odeiam qualquer gota do sangue das suas veias apenas pela magia que existe nele. Aproveite bem a sua estadia aqui, porque quando eles descobriram que o dono do seu dinheiro é na verdade o seu pai, de quem, aliás, você foge, e de que provavelmente nunca mais verá um sicle sequer, é você quem será mais insignificante do que a cinza de poeira no tapete.
Harry soltou-o. Draco ficou um instante ocupado tentando recuperar o ar e quase não ouviu as próximas palavras. Sentiu-se queimar de raiva e humilhação, porém, quando seu cérebro identificou o significado do que o outro dizia.
- E da próxima vez que quiser falar de família, Malfoy, dê uma olhada na sua. A minha família morreu tentando me manter vivo. A sua quer você morto. Você ainda tem dúvida de quem aqui foi mais amado?
Draco ainda estava tentando recuperar o ar para que dissesse qualquer coisa. Mal reconheceu a louça que o moreno chutou antes de entrar feito um furacão no banheiro, o que representava seu lanche perdido.
Com raiva e com fome, Draco se jogou na cama de coberta verde e fechou os olhos.
Não queria se deixar abalar, mas as palavras do outro eram repetidas feito ecos insistentes em sua cabeça. Maldito testa-rachada! Malditas palavras, maldita verdade!
E maldito o momento que ele teve que vir até ali para ouvir aquele idiota dizer o que quisesse a ele.
Malditas circunstâncias que o levaram até ali. Maldito Voldemort.
Segurou a respiração quando muito tempo depois a porta do banheiro se abriu, passos hesitantes caminharam até a cama ao lado, e um suspiro, quase arrependido, se fazia ouvir.
Então, alguns minutos depois, soltou a respiração, e deixou com ela escorrer uma lágrima cristalina que ninguém viu.
Maldita solidão.
