Há tantas coisas que eu quero te dizer.


Carta

Yuuki nunca fora uma aluna exemplar. À primeira vista, não parecia, porque ela redigia concentrada sobre a escrivaninha. Quem chegasse mais perto poderia ver que, em verdade, ela escrevia cartas ao invés de respostas para o questionário que Aidou lhe havia dado. Não havia problema, entretanto; quando seu tutor - ainda não havia acostumado com a idéia, ainda que fizesse quase um ano - descobria, ele simplesmente calava-se, e então lhe falava que se fosse possível, ele até enviaria suas cartas à Yori. Ela sorria e dizia a ele que compreendia, e que ele não precisava se desculpar.

E ele realmente não precisava se desculpar - não porque ela compreendia, mas porque ela se desculpava. Precisava pensar que era por mera força de situação - e não por falta de coragem, também.

Aquilo começara quando ela reaprendia a ser vampira. Não se tratava apenas de uma questão de história, tradições e costumes, mas, sobretudo, de valores. Tudo que até então ela havia tomado como certo, era colocado à prova, a uma nova perspectiva. Tudo o que ela era antes já não lhe cabia mais.

Como se ela não fosse mais ela mesma.

Era sangue-puro, então deveria ter cautela, ser comedida em seus atos, e ela era tão desajeitada. Desejava sangue, mas lembrava aquele primeiro Level E, a neve, e sentia medo e repulsa de si. Kaname a amava e lhe dera tudo, desistira de tudo por ela, então não deveria pensar naquele que havia deixado pra trás.

Yuuki odiava-se tanto, e não conseguia evitar, pensava em Zero e se perguntava se era assim que ele se sentira também. Quase enlouquecendo, tentando conciliar duas vidas completamente diferentes, a humana e a vampira.

Ela sabia, mas só agora sentia, realmente compreendia, e pensava, era assim que você se sentiu o tempo todo?, pensava em como ele se adaptara, em como ela aprendera com ele e assim, ficara mais fácil, mais difícil, para que ela pudesse entender tudo.

Talvez fosse essa a única coisa que compartilhassem, que tinham em comum agora. Apenas a partir daquele momento, pôde realmente apreender a dimensão real do que Zero havia sofrido, como nunca pôde tê-lo feito antes.

Como se conseguisse, de alguma forma, ficar mais próxima dele.

Chorou, sem saber exatamente por quê. Foi a partir daquele dia que começou a escrever cartas para Zero, embora estas nunca fossem enviadas - e era estranho que, ainda assim, de alguma forma, ela sentisse que era correspondida.