Antes, ela sentia muito medo de suas memórias, essa mistura de ignorância e temor que lhe despertavam. Mesmo assim, ela forçava-se a lembrar - queria descobrir quem ela era.

Agora, entretanto, ainda sentia medo. Dessa vez, não por desconhecimento; mas justamente porque sabia de tudo - porque tinha consciência de que, no fundo, não importassse o que dissesse a Kaname, talvez ela não fosse capaz de deixar para trás lembranças e pessoas que lhe eram queridas.


"Se eu pudesse.. também gostaria de esquecer certas coisas. Apesar da diferença de motivos... Quanto mais tentamos esquecer, mais o sentimento se fortalece... Quanto mais resistimos, mais ficamos amarrados a esse sentimento. E com o passar do tempo... ele se transforma numa força parecia com uma maldição. Isso é melancólico, não acha?" (Shaman King)


Laços

Ele sente a palha se afundar ao seu lado. "Achei que estaria aqui", alguns fenos batem em sua perna, "a aula de educação física já vai começar." A égua no compartimento vizinho relincha. Yori ri, e, "não se preocupe, hoje não vai ser aula de equitação, White Lily."

Ela se ajeita, enconstando-se junto à parede, e permanece em silêncio. Zero sente o olhar dela sobre si, mas finge não perceber, esperando.

O sol entra por uma pequena fresta e bate na palha do estábulo, fazendo-o parecer dourado.

"Eu sinto falta dela", Yori confessa, a voz pequena. Zero não sabe se é o silêncio, ou algo na voz dela que se quebra.

Ele não diz nada, ou lhe dirige o olhar, dando-lhe privacidade à qual ela só pode ter ao lado dele.

É solitário se lembrar de tudo, ele sabe.


Não há mais turma da noite, mas, por vezes, ainda é necessário fazer rondas no perímetro do colégio, para afastar eventuais vampiros. As noites são longas. Ele retorna pouco antes do amanhecer, e tem que se arrumar rápido, porque agora ele não mora mais no dormitório, então tem de se apressar.

Ele se olha no espelho, a gravata em mãos.

Olha para o seu lado, e balança a cabeça, ele lembra, ela, humana, morreu; ela está com Kaname, ela está bem, está feliz.

Ele tenta se esquecer (ele também tem medo).

"Esse nó está torto, Zero!", ela diz, arrumando a gravata do uniforme. Ou tentando, ao menos - Yuuki não é muito habilidosa. Ele suspira, cansado. O nó está frouxo, como tantas outras vezes ele vê o rosto dela. "Não olhe assim pra mim, Zero!", ela reclama, as bochechas coradas, emburrada. "Ah não faça isso!", ela diz, quando ele faz menção de desfazê-lo. "Vai se soltar, mesmo", diz, e ele puxa e quer esquecer e despreender-se e desatar-se, e-

- e ele não consegue soltar.