A Hexalogia da Fênix
PRIMEIRA PARTE
"Pequena"
Capítulo Primeiro
Ele ouviu o choro esgoelado ecoando pelos corredores do castelo. Curiosamente os passos que o levavam ao café da manhã no salão principal faziam com que o curioso som, que mesclava medo e indignação na mesma freqüência, ficasse cada vez mais próximo. Foi quando ao irromper ao hall de entrada deparou-se com o objeto mais alheio que já vira ornamentando aquele ambiente: um carrinho de bebe, decorado com coelhos em tons de rosa numa delicada tela de cetim branco. Dentro do objeto, claramente esperneante, um bebe de no máximo quatro meses de vida produzia o sinal de alarme que talvez gigantes adultos não fossem capazes de igualar.
Aproximou-se com cautela, quando os soluços pareceram vencer a criaturinha, que era mais cheia de dobras que um elfo domestico obeso, e tinha cabelos tão pretos como os dele e olhos tão azuis e tão úmidos que podiam formar nuvens. A menina o observou com nada menos que esperança no olhar, o que era curioso para um ser que estava dentro de uma espécie de pijama colorido em tons pálidos, calçando meias vermelhas e usando um lacinho da mesma cor nos cabelos que de tão lisos eram arrepiados. Na sua mão uma sorridente centopéia de pelúcia, tingida em cores primarias sendo esgoelada, claramente babada, por gorduchos dedos rosados. A garota protestou à sua demora recomeçando a chorar, grossas lagrimas contornando o rostinho arredondado, a boca aberta denunciava a ausência de dentes. Suas mãozinhas soltaram a centopéia para agarrar os pés e diante disso o homem mais temido de Hogwarts sorriu enternecido. Estendeu a mão e tocou a frente da criança tentando brandamente niná-la sem realmente saber como se fazia isso. Surpreendeu-se ao notar que seu toque distraíra a menina de seu pranto indignado, e de algum modo ele conseguiu acalmá-la.
-Eu sei... Deixaram você sozinha, pequena...
E quando ela segurou seus dedos com as mãozinhas rechonchudas e pareceu brincar com eles, como toda criança, levando-os à boca, um grito horrorizado vindo das portas de entrada o despertou da hipnose causada por ela.
-Afaste-se dela! –Minerva McGonagall ordenou indo rapidamente até o carrinho e tomando a criança em seus braços, observando por um instante a resistência do aperto da pequena na mão do professor Snape.
-Minerva, o que esta acontecendo? –Albus Dumbledore também entrava, trazendo duas maletas no mesmo padrão do carrinho debaixo de um braço, enquanto a outra mão segurava a alça de uma cesta acolchoada ornamentada com um rosa forte.
-Ele estava... –ela hesitou pensando no que diria.
-Eu apenas ia tomar meu café quando ouvi o choro do bebê, e imaginando quem seria suficientemente irresponsável para deixar uma criança dessa idade sozinha no meio de um castelo repleto de fantasmas e coisas do tipo, tentei acalmar a menina e pensei que seria melhor observá-la enquanto o responsável não aparecesse. Mas já que claramente o bebe é de vocês, eu me retiro.
E com um rodopio da capa, não sem antes olhar para a criança chorosa nos braços da mulher, Severus Snape rumou para o salão principal. Em sua cabeça as peças se juntavam. Aquela menina era a filha de Sirius Black, um partidário obscuro do Lorde das Trevas, enviado a Azkaban após trair a confiança de seus melhores amigos, o que culminou no brutal assassinato deles, matar outro amigo e uma dúzia de trouxas, deixando a filha, na época, recém nascida, sob os cuidados da avó materna, Minerva McGonagall, cuja filha Ninna fora apontada como cúmplice nas acusações. Já fazia algo mais de um mês desde a morte dos Potter e Severus ainda tinha suas noites pontuadas por pesadelos. De algum modo descobrira que não pensar no ocorrido fazia com que tudo ficasse mais suportável, ainda que seguisse infinitamente doloroso.
Mesmo sabendo que uma reação como essa de McGonagall, ainda que exagerada, não era para nada inesperada, ele se sentiu incomodo. Sabia que ninguém, fora Dumbledore, confiava nele e sua presença era evitada ao máximo entre os colegas. Os alunos o elegeram após um misero semestre de aulas, como o professor mais carrasco e temível que já passara por Hogwarts no ultimo século. Tinha uma dúzia de apelidos maldosos pairando sobre sua cabeça, o que em outros tempos teria sido o suficiente para torturar aqueles adolescentes insolentes por algumas horas, mas na atual situação, tudo o que ele queria era, de verdade, recomeçar do zero e cumprir com a palavra dada ao diretor, custasse o que fosse preciso custar.
Diferentemente do que as pessoas achavam, ele realmente estava se esforçando para merecer a confiança que Dumbledore resolvera depositar em seu arremedo de ser. A morte de Lily fora um golpe que ele não esperou levar, tendo, reciprocamente, confiado que o diretor a protegeria. Black, o pai daquela pequena jóia chorosa do hall de entrada, e sua submissa Ninna, foram o furo nos planos do diretor e a mais profunda desgraça para Severus. Perdera assim a mulher que amou mais que a si mesmo, mais que qualquer outra coisa já passada por sua vida, mais do que a própria magia, o mais primitivo elo que os uniu. Não fazia diferença se ela o havia deixado pra trás, se desistira dele e se casara com o monstruoso James Potter, colocando aquela pequena copia dele no mundo. Ela seria eternamente sua Lily, ainda que morta, enterrada e no crescente estado de decomposição a que seu belíssimo rosto deveria estar submetido. Morta, deixando menos que viva a alma no peito do pobre homem atormentado pela culpa.
Os outros professores aos poucos chegavam para o café da manha, daquele chuvoso final de agosto, e se deparavam com a figura carrancuda do rapaz que até pouco tempo atrás fora aluno deles. Não que fosse um rapaz como os outros nos tempos de escola, cujas preocupações com garotas, bailes, quadribol eram prioridades. Ele por sua vez, tinha a mente sintonizada em outra freqüência, que ainda que fosse algo produtivo, culminou levando-o por um caminho errado. A vida de Severus Snape como Comensal da Morte o endureceu ao máximo que era possível. E agora, fora do falido circulo das trevas, gozando da inteira confiança de Dumbledore, ele se sentia protegido o suficiente para tentar refazer a vida, mas isso não era o bastante para que ele se permitisse abaixar os escudos.
Aquela havia sido sua primeira titubeada, assinalava Dumbledore para Minerva, quando terminavam de instalar a pequena Pan no berço ao lado da cama da avó.
-Ainda não consegui confiar nele, Albus. –ela murmurou- Estou cansada e confusa.
-Eu não acho que ele tenha tentado fazer mal a ela. Eu já lhe disse algumas centenas de vezes que eu tenho total confiança em Severus.
-Eu também acho que não quisesse fazer mal a ela e sei dessa sua segurança na pessoa que ele diz ser, mas... Eu não sei, acho que estou ficando neurótica em relação a ela. –e olhou para a menina adormecida- Eu sou responsável por ela agora, e ela ainda é tão pequena e frágil...
Mas foi justamente aquela fragilidade que provocou que Minerva confiasse mais, muito mais no jovem Prof. Snape. Pamela tinha o organismo ainda muito débil, já que seu alimento de recém nascida, o leite da mãe, lhe fora suprimido muito cedo. Suas defesas eram baixíssimas e por coisas muito tolas, como uma corrente mais fria de ar ou uma fruta diferente introduzida em seu cardápio de sucos, provocava reações que iam desde uma gripe forte a uma intoxicação alimentar. Foi Severus quem se ofereceu para tentar elaborar uma poção fortificante que pudesse, ainda que tardiamente, proporcionar aquilo que o leite materno poderia ter feito facilmente. Levou algumas semanas de estudos e observações, mas antes que a menina completasse seus sete meses a poção estava pronta, o que foi um alivio para Minerva que já não sabia como proceder em relação à saúde da pequena. Severus, além de contar com a gratidão da colega, agora também possuía a afeição gratuita da menina, que durante as semanas em que foi observada por ele, forçava-o a alimentá-la, distraí-la e niná-la.
Aquela curiosa e inusitada relação de co-dependência intensificou-se com o passar dos meses e contribuiu muito para afastar o fantasma de Lily da mente de Severus, ao mesmo tempo em que os demais professores surpreendiam-se com a verdadeira adoração da pequena Pan pelo Morcegão das masmorras. Bastava que estivesse em sua presença para que a menina se derretesse em sorrisos, e se ele se aproximava a pessoa que a trazia ao colo já deveria estar preparada para lutar por mantê-la firmemente segura nos braços, porque ela tentaria lançar-se a ele fervorosamente.
Pan, aos nove meses, começou a tentar suas primeiras palavras, dentre elas o inconfundível "Se-eo" para chamar Snape, e antes mesmo de cumprir um ano já dava seus trôpegos passinhos pelos corredores, que precisaram ser encantados para que ela não se aproximasse de escadas e não esbarrasse dolorosamente nas paredes. Praticamente todos os dias ao entardecer Severus a recolhia na torre de sua avó para levá-la aos jardins, até mesmo durante o inverno quando ela, com mãos rechonchudas e enluvadas, tentava suas primeiras bolas de neve, usando-o como alvo. Ainda que não fosse muito agradável ter seu cabelo e suas vestes completamente umedecidos pelas pequenas pelotas de neve, ele não conseguia se aborrecer com a carinha dela aberta num imenso e radiante sorriso de seis dentes.
Foi assim que os anos começaram a passar. Severus havia tomado para si, ainda que inconscientemente, responsabilidades e deveres para com a pequena. Da mesma forma que Pan, com a naturalidade óbvia de quem foi criada rodeada de amor, tomou pra si a melhor parte de Severus, e ele parecia não notar, mas não podia de nenhuma forma, desvencilhar-se daquela pequena que tinha devolvido a ele um motivo limpo e puro para tentar esforçar-se ao máximo em seguir existindo.
