Capítulo Segundo
Pamela agora cumpriria cinco anos. Era inteligente e esperta, além de muito observadora. Era alguns centímetros mais alta que Flitwick e seus cabelos eram cortados a altura do rosto, o que emoldurava perfeitamente suas feições suaves. Ela era silenciosa e quieta, apesar de ser teimosa e voluntariosa. Minerva aprendera a ignorar as birras da neta e culpava Severus por isso, não imaginando que na verdade ele era completamente dominado por ela.
Naquela manhã de 08 de Março, Severus foi chamado ao escritório do Diretor. Dumbledore e Minerva pareciam particularmente efusivos, havia alguns pacotes com enfeites coloridos na mesa do diretor, e Minerva observava um vestido rosa cheio de rendas e babados.
-Severus, meu rapaz, bom dia! –Albus disse alegremente tentando alimentar uma decrépita Fawkes, que apenas piava em relutância- Você sabe que hoje é o dia do aniversario de Pan...
-Eu já comprei os presentes dela. –ele disse sério, com uma sobrancelha erguida.
-Decidimos fazer uma festa de aniversário pra ela.
Severus revirou os olhos. Ele interiormente vinha se preparando para isso, já que todos os anos era a mesma coisa. Ele não via absolutamente nenhum sentido em nada daquilo, já que aquela era a festa de criança onde de criança mesmo havia apenas a aniversariante. E todos os adultos presentes, os funcionários de Hogwarts, eram forçados a usar aqueles ridículos chapéus coloridos. Nem mesmo Pan parecia divertir-se, passando a maior parte da festa muito irritada por não lhe permitirem ir logo brincar com seus presentes.
-Sim. –ele disse indicando o pacote de enfeites- Isso eu pude perceber por mim mesmo.
-Excelente! –Albus disse indicando a cadeira livre diante de sua escrivaninha, após desistir de alimentar sua fênix teimosa- Nós gostaríamos que você a levasse até Hogsmeade para que ela escolha todos os doces que queira.
-Eu faria isso, mas essa manhã eu não tenho horários livres. –Minerva explicou- E eu sei que você pode dispor de algumas horas...
-Sim. –ele repetiu pensando que levar a menina a um passeio não seria má idéia. E se eles retornassem logo, ele podia lhe entregar seus presentes, o que a distrairia e deixaria a idéia da festa menos absurda- Ela já esta acordada?
-Sim, está tomando café com os elfos. Você pode buscá-la na cozinha se já estiver pronto pra ir.
-Entendido, com licença. –e se retirou indo diretamente as cozinhas- Pamela? –chamou, depois de localizá-la em meio a dezenas de elfos que a cercavam com tudo que pudesse haver de mais doce e colorido em matéria de comida.
-Sev! –ela exclamou saindo do meio dos elfos e se atirando a ele- Minha avó me disse que você vai me levar na Dedosdemel, é verdade?
-Sim, pequena, é verdade. –ele confirmou erguendo-a nos braços, já com um pouco de dificuldades. Sua pequena já não era assim tão pequena.
-Veja o que ela me deu! –e balançou um saco de moedas que estava preso ao cinto do vestido xadrez que usava- Disse que eu posso comprar tudo isso de doces e que se você não estiver com o mau humor de sempre eu posso convencer você a me levar no Madame Malkins pra buscar minhas vestes novas!
-Bom, eu estou com o mau humor de sempre, mas só porque hoje é seu aniversário você pode pedir o que quiser.
-Você pode me levar de vassoura? –os olhinhos dela brilharam- Por favor, eu sei que você não gosta, mas hoje é meu aniversário, você disse que eu podia...
-Está bem.
-... pedir qualquer coisa, por favor, Sev... Você disse tudo bem? –ela estreitou os olhos azuis em desconfiança
-Sim, eu disse que tudo bem, desde que você não me venha com isso até o próximo aniversário.
-Oh, eu te amo, Sev! –e plantou-lhe alguns beijinhos estalados nas bochechas enquanto esperneava alegremente.
-Eu também... quero-te muito bem, pequena...
Mas Severus não podia supor que aquela seria, de fato, a ultima vez que ela lhe pediria isso. Retornando a Hogwarts com um imenso pacote de doces e algumas bolsas da Madame Malkins, eles subiram ao escritório de Dumbledore, onde ocorreria a pequena festa. Pamela entrara correndo e lançando-se nos braços do velho bruxo. Estava particularmente agitada, talvez pelo excesso de açúcar consumido em apenas uma manhã.
-Veja o que o Sev me deu! –e mostrou um bonito par de sapatos negros, aveludados, que já trazia calçados- Quando eu crescer, eles crescem junto! E ele também me deu um kit de poções!
-Um kit de poções? –Dumbledore estranhou
-São compostos que ela mesma pode misturar para a solução de bolhas. –ele explicou.
-Ah, que interessante, Pan! Estou ansioso por ver suas bolhas pelos gramados, só não deixe que o Filch pegue seu kit, ou te veja espalhando dinossauros e borboletas por ai...
-O que aconteceu com Fawkes? –ela perguntou indo até uma cesta acolchoada de veludo vermelho onde repousava a ave.
-Ele anda meio doente, mas logo ficará bem.
Fawkes piou tristemente, fechando os olhos quando Pan acariciou sua cabeça com os delicados dedinhos. Parecia preocupada e entristecida.
-Não tenha medo, você ouviu o que o Dumbie disse... –ela sussurrou- Você vai ficar bom. –e sorriu quando a ave bicou os pedacinhos de maça que ela lhe oferecia.
Fawkes tentou ficar de pé, com algum esforço, sendo ajudado por Pan. Piou baixinho com a cabeça recostando-se no ombro dela. E numa nuvem de calor, envolvendo-a com as magníficas asas, ele explodiu em fogo, mantendo-a junto dele.
Severus e Dumbledore gritaram apavorados, tentando alcançar uma desesperada Pan que lutava para desvencilhar-se da ave, mas nenhum deles obteve sucesso. À medida que a bola de fogo se tornava cada vez mais violenta a imagem da menina ia se apagando, já não podiam divisar o que havia em seu núcleo e o único som que se podia ouvir ao invés do crepitar das labaredas eram os pios melodiosos da fênix. Nenhum feitiço foi capaz de extinguir as chamas e nenhum esforço físico foi capaz de admiti-los na imensa bola de energia que era aquele cometa ardente. Os quadros gritavam, acusando Fawkes de assassino.
-Pan! -os gritos de Severus iam tornando-se fracos à medida que a compreensão do fato o atingia.
Até que num lampejo dourado o núcleo de fogo se dividiu, e de dentro dos dois globos ardentes surgiram duas fênix, uma ainda filhote, com poucas penugens e tossindo cinzas, e outra imensa, quimeriana, dotada de feições quase humanas. As longas pernas recuaram o corpo ao observar os dois homens a sua frente, as imensas asas rubras ocultavam parcialmente o corpo, muito diferente do corpo que Fawkes possuía quando estava em plena forma, e não apenas pelo tamanho, havia algo consciente espreitando através daqueles imensos olhos negros. Tinha um metro e meio de altura, as garras atingiriam facilmente as três polegadas e eles só podiam imaginar qual seria a envergadura daquele par de asas que ainda ardiam num fogo moderado.
-Pan? –arriscou Dumbledore, o que despertou a criatura que, agitada, bateu as asas ameaçadoramente e piou numa freqüência tão extrema que todos os vidros da torre se espatifaram. Era aterrorizante.
Severus sentiu algo quente escorrer pela lateral da cabeça, de dentro das orelhas. O grito machucara seus tímpanos, fazendo-os sangrar. Ele tocou o sangue com as mãos tremulas e quando a criatura viu o liquido vermelho pingando dos dedos pálidos, lançou-se janela afora, com uma expressão nada menos que culpada percorrendo os olhos negros. Ele correu, tentando impedi-la e não pode deixar de ver a imensa envergadura de asas falhando. Ele gritou, correndo para fora da diretoria e descendo os inúmeros lances de escada que o levariam ao pátio.
Ao chegar se deparou com a imagem de uma jovem de imensos cabelos negros, cercados por uma coroa de penas vermelhas e alaranjadas, que descendia pela nuca e se bifurcava, deixando uma linha de penas que ia dos ombros as mãos, cujos dedos estavam ornados por imensas e ameaçadoras garras. Estava ajoelhada, com os cabelos negros, desgrenhados, ocultando-lhe a fronte. As costas tinham uma imensa queimadura, que iniciava no ombro direito e se perdia na nádega esquerda. Observando melhor era a imagem de uma fênix cuja cabeça repousava em seu ombro, as asas parcialmente fechadas abraçavam-lhe o corpo e a cauda descendia pela nádega arredondada. Estava nua e tremia, mesmo debaixo do sol abrasador daquela primavera.
O grito de Hagrid sobressaltou a criatura, que ergueu a cabeça espreitando o ambiente e posicionando-se em modo de ataque, o que fez com que Snape e Hagrid recuassem ainda mais, engolindo um urro de horror. A face inegavelmente remetia a Pamela, mas agora amadurecida, como se estivesse com seus dez ou onze anos. A testa estava recoberta por uma aveludada penugem rubra, que desenhava o contorno superior de suas sobrancelhas e descendia formando um ângulo sinuoso até a ponta do nariz. Todo o globo ocular era uma massa negra, brilhante e os lábios muito pálidos levemente entreabertos lhe dava a aparência de um animal em agonia. Sua cabeça entortou levemente quando ela analisou as duas figuras a sua frente, impelindo um pouco o corpo na direção de Snape, que deu um passo a frente como se fosse ampará-la. Ela novamente gritou aterrorizada, deixando a mostra sua língua enegrecida. Severus caiu de costas, não podendo impedi-la de entrar correndo velozmente na Floresta Proibida.
A essa altura Dumbledore e Minerva chegavam ao local. Ela ofegante, com as mãos pressionando o osso esterno, como cuidando para que o coração se mantivesse dentro do tórax. Ele com a expressão intrigada, claramente aflito.
-Temos que ir atrás dela!
-Aquilo era minha Pan? –Minerva perguntou horrorizada, sua voz três oitavos abaixo do normal.
-Ao que tudo indica. –Albus murmurou, abaixando-se ao lado do gramado chamuscado, onde ela havia caído.
Havia penas por todo lado, Hagrid dizia que vira uma ave explodir lançando penas e cinzas por toda parte e derrubando aquela moça, que não podia, de modo nenhum, ser Pamela.
-Era Pan. –Severus garantiu- Era ela, crescida, adolescente e assustadora, mas era ela.
-Isso é possível, Albus? –Minerva perguntou com lágrimas escorrendo por seu rosto
-Eu nunca vi nada assim antes. –ele disse em agonia esfregando os olhos- Mas eu também não tenho duvidas de que aquela jovem era nossa Pan. Ela foi queimada pelas chamas da morte de uma fênix, ela foi... Modificada.
-E ela vai ser daquele jeito pra sempre? –Severus perguntou enfurecido- Isso não é natural, Dumbledore, nem mesmo para nós!
-O que nós devemos fazer agora é iniciar uma busca, devemos encontrá-la e impedi-la de fugir. –Minerva disse secando os olhos e respirando fundo- Hagrid, por favor...
-Eu vou reunir os centauros. –ele disse rapidamente- E vou com Canino tentar seguir a trilha.
-Obrigada... –Minerva sibilou- Por favor, não machuquem ela.
-Jamais professora!
Severus olhava para a grama chamuscada. Dumbledore enviava seu patrono com um aviso aos professores. Minerva parecia momentaneamente desorientada.
-Albus... –ela gemeu aproximando-se dele, que a amparou em seus braços, deixando que ela chorasse- Isso não pode estar acontecendo...
-Acalme-se, minha querida... Nós daremos o nosso melhor para resolver isso.
Algo a impulsionava a seguir fugindo, correndo, embrenhando-se cada vez mais na proteção que aquelas árvores lhe brindariam. Movia-se como uma força da natureza, selvagem, instintiva, incontrolável. Mas havia algo, uma parte imensa e confusa, que lhe dizia para parar e gritar por ajuda. Um turbilhão de lembranças e imagens aquecia sua mente a ponto de praticamente fundir sua consciência, fazendo com que ela se apagasse, deixando apenas o instinto como guia, e seu instinto lhe dizia apenas para buscar abrigo. Ela meteu-se na copa de uma arvore particularmente frondosa, não sabendo como podia escalar o tronco grosso, que talvez duas dela não conseguissem abraçar por completo. Sua pele formigava, lançando ondas de calor a toda sua volta, atraindo pássaros e roedores. Ela encolheu-se, abraçando as pernas com força, sua mente fervendo em imagens desordenadas. Recordou ao homem que vira em campo aberto, envolto em negro, e sobressaltou-se ao sentir seu instinto reconhecendo-o e aceitando-o. Foi então que sua cabeça doeu, mas doeu tanto que a deixou desacordada.
Quando despertou não havia luz em nenhum lugar, com a exceção daquele fraco brilho que se filtrava pelas folhas. Ficou de pé, a mente muito mais calma agora, dando-lhe tempo para refletir. Escalou a árvore até o ponto mais alto, de onde podia ver o céu obscuro pontilhado de estrelas que circulavam uma lua cheia imensa e brilhante. Foi quando sua mente vagou até que uma lembrança dominou sua consciência.
-O que segura a Lua no céu, vovó? –perguntou olhando para o rosto severo de sua avó, que relaxou as feições ao sorrir pra ela, deixando as redações dos alunos sobre a mesa e unindo-se a neta no banco da janela.
-Ela pode voar. –Minerva disse afagando os cabelos lisos da neta.
-Ela tem asas como Fawkes? Ou ela esta levitando como o Sev faz com os vidros de poções?
-Hum... Acho que ela esta levitando.
-Será que é o Sev quem segura a Lua ali, vovó? –ela perguntou com os olhinhos arregalados de admiração.
Minerva riu, puxando-a para o colo.
-Você vai ter que perguntar isso a ele amanhã, porque já esta na hora de você ir dormir. Veja todas as suas bonecas já estão dormindo.
-Ah, elas são umas preguiçosas, dormem sempre que se deitam! –protestou a menina agarrando uma das bonecas e pulando do banco. –Boa noite vovó.
-Boa noite, meu amor.
Na copa da arvore Pan secou os olhos, sendo atingida pela compreensão de que estava sozinha no meio da floresta.
-Vovó? Dumbie? Sev? –murmurou amedrontada, abraçando a si mesma com força, sentindo frio- O que eu estou fazendo aqui?
Desceu da arvore num pulo, seus pés golpeando a superfície acolchoada de folhas secas. Olhou em volta, a escuridão reinava, mas sua visão rapidamente se adaptou ao ambiente, e se ela seguisse devagar, podia caminhar sem dificuldades por entre os troncos e raízes. Não sabia quanto tempo levava caminhando, seus ouvidos aguçados lhe denunciavam a presença de qualquer animal num raio de quase uma milha. Ouviu galopes ao longe e se afastando. Gritou uma vez, mas quem quer que fosse estava muito distante pra ouvir. A verdade era que ela não sabia como chegar a Hogwarts, e decidiu esperar haver um pouco mais de luz para seguir procurando.
Enfiou-se num tronco oco de uma arvore e esperou, agasalhando-se como pode com as folhas secas. O frio era opressor, muito embora fosse primavera. Desejava com todas suas forças estar em sua cama, rodeada de suas bonecas. Rendeu-se ao choro quando sentiu uma coceira quase que incontrolável nos braços, onde não podia passar as unhas, que agora eram grandes garras negras e curvadas. O dia demorou muito a nascer, mas quando ela pode perceber que o sol já estava no céu, escorregou para fora do tronco, observando que deixara ali uma pilha de penas lustrosas e vermelhas. Seus braços agora estavam mais normais. Suas mãos também estavam perdendo as garras. Percebeu então que já não era uma criança. Passou as mãos pelo corpo sentindo as curvas provocadas pelos sinais do que logo seriam seus seios e a cintura estreita. Seus cabelos estavam longos o suficiente para lhe cobrir ate o umbigo.
Foi quando os pios de uma coruja a sobressaltaram. Era uma velha coruja das torres que veio pousar em seu ombro, apertando levemente e voando em meio as arvores, piando, num claro chamado. Pan seguiu o mais rápido que seus pés com as imensas garras permitiram. Tropeçou e caiu algumas vezes, emaranhando-se em galhos e cipós, mas seguia na medida do que era possível. Sentiu um cheiro agradável, refrescante e apressou-se, as arvores ficando cada vez mais espaçadas e seus pés afundando em areia clara. O sol ficando forte e aquecendo sua pele, que agradecida, arrepiava-se, deixando que a penugem remanescente caísse. E finalmente atingiu o lago negro, o forte sol agora era abrasador e ela lançou-se de costas na areia, recebendo sobre o rosto a luz tão esperada. Foi ate a margem, já com as mãos em concha, pronta para beber e saciar sua sede, mas antes que pudesse romper a superfície cristalina da água viu seu próprio reflexo. O grito ecoou sobre a água, tão potente e aterrorizado que as aves habitantes do entorno voaram de seus ninhos com estardalhaço. Ela tremia, a imagem daqueles abismos negros no lugar dos seus olhos espalhando calafrios por todo o corpo. Ela não podia voltar, agora ela percebia o motivo do choque nas caras de Severus e Hagrid. Ela não queria assustar ninguém. Agora compreendia a razão de não se sentir mais como ela mesma. Era porque já não o era.
Queridos Leitores!
Veronica D. M : bem vinda! Menina eu te entendo perfeitamente em relação ao vestibular, foi meu pior pesadelo e até hoje eu sou revoltada com as dezenas de vestibulares que prestei apenas para viver uma humilhação atrás da outra. Eu sempre passei muito perto de conseguir entrar, mas chegou o momento q eu não aguentei mais e desisti, e ai fui embora pra Bolivia, e já estou no meu quinto semestre! Melhor coisa que já fiz na vida!
Bom, eu prometo muitas mudanças, como você pode ver, o inicio está bem mudado e vai demorar um pouco para que a história chegue no ponto onde a versão inicial começou. Mas eu acho que assim as coisas ficam mais explicadinhas! Haha
Nota da Autora: Que os novos leitores sejam bem vindos e que por favor, se estiverem assim, a fim e tals, deixa um rewiew só pra eu saber que estou sendo lida! *grande sorriso*
