Capítulo Quinto

Novamente em Durmstrang, durante aquele outono congelante, Pan percebia que o interesse sobre ela estava crescendo, tanto da parte dos alunos, como também por parte de Karkaroff, o diretor da escola, ex-comensal da morte. Alojada numa das torres onde ficavam as poucas alunas do lugar, localizada perigosamente perto dos aposentos do diretor, Pan havia redobrado sua vigilância ao mover-se entre os laboratórios e seus aposentos.

Aquele era seu ultimo trimestre como estudante, e precisaria apenas aguardar Junho para prestar seus N.I.E.M's. Durante o tempo em que passaria de férias, ela viajaria pela África e Ásia, buscando outras formas de magia. E em Julho, caso aprovada em todos os N.I.E.M's solicitados, começaria seu treinamento de auror, ainda que Minerva protestasse a respeito.

Ela podia jurar que todos aqueles compromissos e viagens nada tinham a ver com seu medo de voltar, porque desde que percebera que havia algo entre Severus e Madame Rosmerta, ela não pode, de nenhum modo, conter a onda de ciúmes que a acometeu. Ela não podia estar tendo aquele tipo de pensamentos justamente com ele! Minerva lhe dissera que aquilo era normal, que ela sempre vira Severus como dela e que perceber um envolvimento, ainda que puramente físico, entre ele e uma mulher, provocaria os mesmos arroubos de ciúmes que teria uma filha.

Mas Pan não se sentia como uma filha. Ela sentia sim, que ele era dela e desejava tão fervorosamente estar no lugar de Rosmerta que aquilo não poderia caracterizar o sentimento de uma filha por um pai. Sabia que haviam explicações Freudianas sobre aquele sentimento, complexos de Electra, Édipo e afins, mas Severus não era seu pai no fim das contas. Esse posto, embora biologicamente fora de Sirius Black, emocionalmente era ocupado por Dumbledore. Severus era como... seu guardião. A pessoa a quem ela seria capaz de confiar sua vida, a quem ela seria capaz de... entregar-se?

Não, não, não... estava divagando demais e exagerando muito, permitindo que a fênix deixasse mais intenso aquilo que deveria estar sendo sublimado. Ela precisava arrumar um namorado, precisava escrever a Carlinhos e ir vê-lo durante esse tempo em que ficaria livre. Ou até mesmo aceitar o convite de Claude para conhecer Dijon. Pretendentes nunca lhe faltaram. Sabia que Severus morreria caso soubesse de algo assim, ou que pelo menos sonhasse com tudo o que ela e Carlinhos Weasley já haviam aprontado durante o tempo que ficaram juntos. Sabia que ele enlouqueceria de ciúmes e cuidados... E se Severus sentisse o mesmo?

Pan assustou-se ao virar um corredor e esbarrar com o Diretor. Karkaroff a segurou pelos cotovelos e a manteve de pé. Ela praguejou mentalmente, estivera tão perdida em divagações que descuidara de sus vigilância naquela área do palácio.

-Mil perdões, diretor! –ela disse em búlgaro- Estava distraída.

-Não foi nada, minha cara! Inclusive eu estava a sua procura, o que torna o esbarrão muito mais agradável.

-Aconteceu alguma coisa?

-Não, nada muito sério... Apenas um velho conhecido do ministério britânico que faleceu esta tarde... Tenho certeza de que você conhece Brian Tilkins.

-Oh! –ela estremeceu- Tilkins foi um grande homem, ele me ajudou muito com...

-A fênix?

Pan recuou, medindo o homem a sua frente com estranheza. As poucas pessoas não autorizadas que por ventura, um dia, souberam da fênix foram atadas por um Voto perpétuo e obrigadas a nunca falar sobre o assunto sem a expressa autorização da própria Pan. Aquelas que faziam parte do plano eram de extrema confiança. Tilkins era uma delas.

-Como você soube?

-Eu já desconfiava. Houveram profecias e mais profecias sobre você. E eu imaginei que esse seria o momento em que ressurgiria a nova fênix, e que quando isso acontecesse, ela estaria muito bem guardada debaixo nas barbas do velho Dumbledore.

-Foi muito perspicaz de sua parte, diretor. –Pan disse respeitosamente- Agora, se me der licença...

-Você sabe o que dizem sobre as fênix... –não era exatamente uma pergunta- Que elas são intensas e que podem... compartilhar a vida eterna com seu escolhido...

-Isso não é verdade. –Pan afirmou, já bastante segura de que a conotação da frase não implicava no mesmo significado que teria a escolha de Fawkes, de um sucessor, e sim como a de um companheiro.

-Você provavelmente deve saber do... fascínio que anda exercendo entre os homens. Mesmo que eles não saibam de sua verdadeira natureza... –ele continuou sibilando, agora aproximando-a de uma das paredes falsas que levava a um corredor de manutenção- E eu não estou completamente interessado em compartilhar isso com mais ninguém.

-Professor, me deixe ir, para sua própria segurança. –Pan murmurou perigosamente- Me deixe ir antes que... –e ela acendeu as chamas sobre o braço, o que fez com que ele recuasse.

-Oh! –ele arfou em jubilo- Oh, isso é fantástico! –e pareceu ainda mais excitado do que antes, sem medo lançando-se a ela e pressionando-a contra a parede.

Pan golpeou a cabeça contra os tijolos, o que por poucos instantes foi o suficiente para dar a vantagem a Karkaroff, que segurou seus braços juntos e cobriu sua boca com a dele. Conforme a percepção retornava a Pan, uma onda de ódio e nojo a atingiu, o que fez com que o homem fosse lançado contra a parede, impactando muito fortemente. Pan correu para sua torre e num único gesto de varinha preparou todas as malas, sendo pressionada pelas colegas a contar o que acontecera.

-Espere! –pediu Hope O'Brian, uma inglesa nascida trouxa que também possuía um cronograma de estudos especial, como Pan, já que para os trouxas ela era tida como superdotada. As duas fizeram alguns cursos juntas, tanto em Hogwarts como em Beauxbatons e era o mais próximo que Pan tinha de uma amiga

-Hope, por favor...

-Me diga o que te aconteceu, por favor...

-Karkaroff tentou me...

-Oh, querida! –e Hope a abraçou por um minuto inteiro, permitindo que Pan chorasse- Ele não podia ter feito isso...

-Hope, eu me sinto tão suja...

-Não se sinta assim. Vamos, eu vou mandar meu patrono a Hogwarts avisando ao professor Dumbledore que você está chegando...

-Obrigada, você sabe que eu não posso lançar um patrono comum...

-Eu sei, eu sei...

Pan diminuiu o tamanho de suas malas até que elas pudessem ser levadas no bolso das vestes e após despedir-se de Hope, entrou na lareira. Girou pelo que poderia ter sido uma hora, dada a longa distancia, e saiu diretamente no escritório da avó, onde Minerva e Albus já a aguardavam.

-O que aconteceu? A senhorita O'Brian apenas disse que você estava fugindo de Durmstrang! –Dumbledore a segurou pelos ombros, observando todo seu corpo em busca de ferimentos.

-Eu... eu... –ela arriscou com a voz trêmula, lançando-se nos braços da avó, rendendo-se ao choro, consciente do que poderia ter vivido contra sua vontade- Karkaroff tentou me... agarrar!

-O que? –Minerva urrou em fúria, apertando a neta com força contra o peito- O que ele te fez?

-Nada, ele não conseguiu fazer nada... –e Pan narrou o acontecido, e precisou repetí-lo quando Severus chegou após sua ronda noturna.

Podia-se sentir as ondas de fúria emanando tanto de Minerva, que parecia arquitetar planos vingativos, quanto de Severus que certamente parecia estar absolutamente homicida naquele momento. Albus mantinha Pan junto dele, enquanto a fazia tomar um chá calmante.

-Sev, por favor... Não faça nada. –Pan pediu- Eu sei que Karkaroff merece uma punição, mas eu não quero que seja você quem cuide disso.

-Pan, você ainda é inocente e não entende o que aquele homem poderia fazer...

-Eu entendo, Sev. Mas o que importa é que eu estou bem. Eu preciso apenas dormir um pouco e amanhã tudo vai estar normal...

-Ele pode expor você!

-Ele não irá. –Dumbledore garantiu, beijando Pan na testa- Eu e Minerva iremos a Durmstrang agora resolver isso, como os responsáveis legais por Pan. Você, Severus, cuide dela. Agiremos conforme as regras.

Pan ficou de pé e foi até ele abraça-lo.

-Vamos Sev... Eu preciso dormir.

Nas masmorras, Severus a instalou no quarto anexo ao seu, que ela quase sempre ocupava. Pan tomou banho, vestiu um de seus pijamas de algodão e foi até o escritório dele, onde ele andava de um lado para o outro parecendo miserável e ainda mais homicida que antes, segurando um copo de firewhisky, já meio vazio.

-Sev? –Pan murmurou parada atrás dele, tirando o copo de suas mãos e evanescendo-o com um simples gesto da varinha- Você tem que relaxar...

-Quando eu imagino aquele crápula com as mãos em você... –ele sibilou perigosamente- Oh, pequena... –ele arfou quando ela o envolveu pelas costas, as mãos pousadas em seu peito- Eu...

-Shhh, Sev... –ela pediu, seu queixo encaixado no ombro dele- Não pense assim... Podia ter sido pior.

-Pior que isso? Oh, meu bom Deus... Pan, aquele homem, nos tempos de comensal, era um estuprador... eu vi aquele homem fazer coisas com uma mulher que...

-Sev! –ela pediu mais urgente, beijando-o no pescoço, inconsciente do que estava fazendo- Eu estou aqui com você agora, estou aqui... –e girou nos seus braços, juntando seus rostos, ele a apertou com força.

Severus segurou seu rosto com a mão direita enquanto observava suas feições, ainda tao joviais, ainda tão inocentes e perfeitas, com aquele ar pueril e frágil... A pele de porcelana contrastando contra os cabelos negros e lisos e brilhantes... os grandes olhos azuis, tão intensos e astutos. O corpo já era o de uma mulher, ainda que estivesse disfarçado com aquelas calças folgadas de algodão e aquela camisa das Esquisitonas. Ele beijou sua testa, e sentou-se puxando-a pro colo.

-Eu juro que vou proteger você de cada ser impuro que ouse te tocar, meu amor. -era a primeira vez que ele a tratava por "meu amor"- Você nunca mais vai se aproximar de Karkaroff, eu te juro...

-Sev?

-Sim, querida?

-O que você tem com Madame Rosmerta?

Ele a encarou confuso e não respondeu, apenas a puxou novamente contra o peito e ficou ali, como se estivesse reaprendendo a respirar.

-Sev!

-Eu não vou falar desses assuntos com você, Pan.

-Que assuntos?

-Assuntos... sobre o que ocorre entre um homem e uma mulher.

Pan gemeu mortificada, os olhos queimando com a confirmação de suas suspeitas. Então era verdade que eles eram um casal, que ele gostava dela e que ele e ela estavam...

-Você está chorando? –ele assustou-se, afastando-a para olhá-la melhor

-Não! –ela gritou enfurecida- Eu não estou chorando, não é da sua conta!

E ficou de pé, pensando em mil palavrões e acusações que fazer a ele naquele momento. Severus a encarou estupefato. Não podia ser, Pan estava enciumada, profundamente enciumada... aquela não era uma reação típica dela.

-Como você pode fazer isso comigo? –ela perguntou, rendendo-se as lágrimas- Você era... você...

-Pamela, você não pode estar...

-Eu sei que eu sou apenas uma criança aos seus olhos, eu sei que você ainda tem essa ilusão de que eu sou pura e inocente, mas Severus... Como você pode?

-Pan, isso é loucura... Isso são coisas da fênix, pequena...

-Não me chame de pequena! –ela berrou, os cabelos adquirindo um tom de vermelho ao serem recobertos por chamas- Eu não serei mais sua pequena se você está se deitando com Rosmerta!

E saiu do escritório batendo a porta violentamente. Severus estava tão surpreso que ficou letárgico. Pan era apaixonada por ele. Pan, para quem ele preparou mamadeiras havia menos de dez anos... A fênix, Pan, ainda tão cheia das contradições da transformação... Não, ele nunca negaria que não queria que ela fosse de ninguém, que por sua vontade ela se manteria a moça pura e virginal pela eternidade, que nenhum homem poderia tocar aquilo que ela era e que ele protegera com tanto amor e cuidado... Ninguém seria capaz de querer tanto o bem dela como ele mesmo. Mas aquilo era muito, aquilo era impossível, social e moralmente. Pan era como se fosse... Não sua filha, mais que isso, uma parte dele. O coração dele, para ser mais exato... E ela estava apaixonada por ele.

-Pamela! –ele gritou no corredor, a essa altura vazio- Pamela...