Capítulo Sexto

Pan entrou no escritório de Dumbledore, onde não havia ninguém. Chorava tão sofridamente, tão incontrolável que Fawkes, ainda muito jovem e depenado, piou triste em solidariedade. Na mente dela fervilhavam lembranças e sensações que vivera estando com Severus. Ele a protegia, cuidava, alegrava, ensinou tudo o que pode ensinar. Havia algo nele, algo quase primitivo, algo que a arrebatava, que a seduzira desde a infância, desde que era apenas um bebê. Uma força, uma frequência que ressonava na dela. Podia ver com clareza agora, podia imaginar-se ao lado dele, quase podia sentir suas bocas se unindo... Estremeceu.

-Fawkes, você é um homem, não é? –ela perguntou, ouvindo a Fênix piar afirmativamente- O que eu estou sentindo é de verdade? Pelo Sev?

Fawkes apenas a observou por um longo instante, como se refletisse sobre a resposta. Por fim, piou solenemente.

-Você tem certeza? –Pan murmurou- Eu tenho tanto medo de estar enganada e acabar estragando tudo... Mas eu saberei, não é? Eu saberei se ele for a pessoa certa pra mim?

-A pessoa certa nem sempre é a pessoa que o destino guardou pra você. –Dumbledore disse, saindo do quarto, usando um robe de algodão bastante branco e pesado.

-Dumbie... o Sev está saindo com Rosmerta! –Pan disse em sofrimento- Ele está com ela!

-Minha filha, Severus é um homem jovem, saudável e livre. –Dumbledore assinalou calmamente- Rosmerta, embora não tenha uma boa fama apenas por ser dona de um bar, é uma moça excelente.

-Mas o Sev... –ela hesitou pensando no que diria. Afirmar que Severus pertencia a ela seria muito estranho.

-Severus sempre será o mesmo Severus para você.

-Dumbie... –ela chorou, abraçando o velho homem- Eu amo o Sev, Dumbie... Eu o amo.

-Merlin... –Albus comentou preocupado- Eu achei que isso fosse apenas mais uma explosão hormonal, ou uma afetação da fênix, mas você parece segura demais...

-Eu o quero, e eu o perdi!

-Pan, eu não acho que isso que Severus e Rosmerta tem é algo assim tão solido. Severus não me parece para nada envolvido, eles foram colegas quando estudantes, eles apenas estão se vendo.

-Mas ela certamente está interessada nele, ela já é... uma mulher. –Pan disse envergonhada após reiterar sua adolescência.

-Isso não quer dizer nada, minha filha. –ele explicou- Você ainda precisa de tempo. Você ainda precisa se descobrir completamente antes de aventurar-se em outros mundos. A fênix fez de você muito intensa, muito precoce, muito forte e ao mesmo tempo muito desamparada. –ele disse sentando-a no sofá e indo preparar um chá - Aquilo que se ama e que é para ser seu volta pra você. Não importa por aonde ele vá, se é seu ele vai voltar pra você. Nada nessa vida é tão definitivo que uma decisão não possa mudar. Eu achei ter perdido sua avó quando ela se casou, mas ela não durou muito tempo casada. Quando eu e Minerva finalmente nos entendemos não havia duvidas nem medos. Eu sabia que ela me amava, que ela decidira aquilo, que ela tomou seu tempo para refletir e me escolheu, enfim.

-Você esta dizendo que eu devo esperar, mesmo que indefinidamente?

-E eu esperaria sua avó pela eternidade se ela pedisse. –ele sorriu bondosamente- Você precisa de tempo e Severus também. Você ainda tem muitas coisas a enfrentar, muito que viver, um mundo por descobrir. Não tenha medo, não se desespere, não se apresse. Tudo ocorre a seu tempo. (*)

-E parece que eu tenho muito tempo sobrando.

Dumbledore riu passando uma xicara de chá para as mãos da garota, que enfim parecia mais calma.

-Se tem uma coisa da qual eu estou certo em tudo isso é que não há nada que Severus ame mais nesse mundo que você. Talvez não como você esteja esperando, mas você é o elixir da vida que o mantém respirando.

-Pensei que fossem as promessas que ele lhe fez quando os Potter morreram.

Dumbledore hesitou por um segundo enquanto deliberava a respeito do que acabara de ouvir. Teria Severus contado tudo a Pan?

-Não se preocupe, são coisas da fênix. Com certeza você sabe que eu tenho muitas lembranças de Fawkes, talvez todas elas. Eu sei de tudo a respeito disso. E sei que o Sev jurou proteger Harry Potter e que em setembro ele vai ingressar em Hogwarts.

-Sim. –Dumbledore disse- Harry vai precisar de todo o apoio para poder adaptar-se a sua nova vida. Infelizmente você não vai estar aqui para ajudar.

-Eu não acho que o Harry gostaria de ter contato comigo. Eu sou filha do casal de necromantes que entregou seus pais a Voldemort.

-Não pense assim. –Dumbledore disse- Você não tem culpa de nada.

-Dumbledore, me fale sobre minha mãe.

-Ah, Ninna... –ele sorriu rejuvenescendo uma década- Ela era como Minerva, muito calada, estudiosa, muito correta. Até que um dia, sem muitas explicações, ela e Sirius estavam namorando. Você deve imaginar como eu fiquei aturdido com essa noticia, afinal, para todos os efeitos eu sou a figura paterna que ela sempre teve. Sirius não era um rapaz ruim, mas não era conhecido por seu bom comportamento. Eu confesso que perder Ninna para as artes das trevas foi i golpe mais duro que eu já enfrentei. A vida dela com seu pai parecia ser absolutamente perfeita. Logo após o casamento você nasceu. Nenhum de nós jamais pode imaginar que Ninna e Sirius estavam envolvidos com Voldemort. Quando eles foram presos eu realmente acreditei que Minerva não fosse suportar. Eu pensei que eu não fosse suportar, mas você era apenas um bebezinho e necessitava nossa total atenção. Você começou nos salvando, aos três, quando chegou a Hogwarts.

-Vocês nunca perceberam que ela estava envolvida ou que ela tinha interesse em artes das trevas?

-Nós víamos algumas coisas, mas você sabe bem, querida, que todos os jovens tem um certo interesse pelo proibido. Ela embora gostasse de ler alguns livros obscuros não significava que ela fosse uma necromante. Ninna era uma Sonserina, eu não sei se Minerva lhe disse algo a respeito.

-Minha avó nunca me disse nada sobre minha mãe. –Pan disse chateada- Eu sei que deve ter sido difícil pra vocês ver a filha ser jogada em Azkaban, mas...

-Vamos pensar que Minerva só tentou te proteger.

-Ela protegeu a si mesma da vergonha. Ela deve se perguntar continuamente onde errou.

-Onde nós erramos. –Albus disse sombriamente.

-Eu tenho sentido tanta raiva de tudo...

-Você não pode estar com raiva de sua avó!

-Claro que não! –Pan riu- Eu não conseguiria! Mas eu gostaria de... eu não sei, um pouco de normalidade talvez. Eu, você e a vovó em Hogsmeade, como era antigamente...

-Bolas de neve nas férias de inverno... –Albus disse animado.

Pan sorriu, e deixou-se observar o fogo enquanto terminava seu chá. Albus observava a garota que tinha como sua neta e se perguntava se haveria algum momento na vida dela em que Pan pudesse se sentir normal. Temia que aquele sistema em que decidiram cria-la tivesse dificultado ainda mais a vida da menina. Por outro lado ele sentia que eles fizeram tudo o que estava ao seu alcance para prepara-la do melhor modo possível.

-O que Karkaroff disse sobre o que aconteceu mais cedo? –ela perguntou encarando Dumbledore.

-Ele negou. –o velho homem sorriu- Eu tive que usar de toda a minha força para conter a fúria de Minerva, mas agora eu acho muito difícil que Igor Karkaroff vá tentar tocar na nossa garotinha outra vez.

-E onde está vovó?

-Dormindo. –ele disse apenas, indicando a porta de seus aposentos com um meneio distraído da cabeça- O que, decididamente, é o que esses dois insones deveriam estar ao menos tentando fazer também.

-Dumbie, eu quero visitar Arya nesse tempo livre que eu consegui. –ela disse bastante séria- Sinto muita falta dela. E talvez seja bom passar um tempo distante de tudo isso.

-Tudo bem, você tem minha permissão, resta saber se Minerva vai aprovar. Minha única restrição é que antes que você parta... –ele hesitou ao observar os olhos dela se estreitarem numa cópia tão fiel a avó que era difícil não intimidar-se ainda que apenas sutilmente.

-Antes que eu parta...? –ela estimulou, já que ele parecia ter desistido de falar.

-Que você e Severus passem um tempo juntos, que você não vá se afastar durante meses deixando assuntos mal resolvidos aqui.

-Dumbie, eu sempre odiei desobedecer você. –ela disse calculando as palavras- Mas é exatamente de Severus que eu estou tentando fugir.

(*) Para conhecer o inicio da história de Albus e Minerva, leia o primeiro capítulo de Intrínseco.