Capítulo Oitavo
-Vocês precisam ser ágeis agora. Não há mais espaço para a intervenção dos seus mestres. Caso alguma das bebidas esteja envenenada, vocês deverão atuar com precisão, diagnosticando as reações do veneno em vocês mesmos. –dizia Alastor Moody- Eu não quero ter que enterrar nenhum aluno na véspera da formatura.
Então os aprendizes puseram-se diante da enorme mesa onde vários copos com poções e bebidas diferentes estavam servidos. Eram apenas seis alunos restantes, dos quase vinte que iniciaram. Alguns desistiram, outros se machucaram seriamente e dois haviam morrido num acidente com vassouras amaldiçoadas.
-Há seis de vocês e exatamente seis copos cujo conteúdo é benéfico. Não há margem para erros.
Então Pan selecionou um pequeno cálice de vidro fosco, cujo conteúdo se assemelhava a suco de abobora. Observou a tonalidade do liquido e parecia uniforme. Se havia algum veneno ali deveria ser algo incolor, ou da exata mesma cor do suco. A textura era semelhante ao suco de abóbora normal, mas havia algo diferente naquela taça. E quem tomaria suco de abobora numa taça tão pequena? Oh, sim, fazia muito sentido! O veneno talvez não estivesse no líquido, e sim no vidro da taça. Pan separou esta como amostra de veneno. Depois rumou para o outro extremo da mesa, onde Robbi Stefferson analisava um copo de metal que certamente continha algum líquido com a presença de asfódelo. Ela esperou que ele não bebesse aquilo. Por fim, ela tinha suas duas amostras de veneno e a taça que continha nada mais do que a pura água em seu interior.
Moody examinou o trabalho de todos os seus alunos e pareceu muito taciturno na maior parte do seu trajeto entre eles. Por fim, ordenou que todos os alunos bebessem o liquido que identificaram como livre de veneno. Pan, depois de tomar, descobriu que na verdade havia Veritasserum em sua taça e que aquilo às vezes podia ser mais perigoso do que uma boa dose de veneno de Acromântula. Mas, de algum modo, ela pode se conter quando Moody lhe fez um par de perguntas indiscretas. Em todo caso, parecia que todos haviam se saído bem.
Moody ordenou que todos recolhessem seus pertences e saíssem. Pan se despediu de seus colegas, que comentavam animadíssimos sobre a festa do dia seguinte, onde receberiam seus diplomas, e foi para casa caminhando pelo Beco Diagonal, que parecia absolutamente deserto. Já em casa encontrou Hope, que parecia bastante incomoda, nervosa e reforçava as proteções ao redor do apartamento.
-Você está bem? –Pan perguntou jogando a mochila no sofá roxo que havia diante da lareira- Parece um pouco tensa.
-Sua avó está chegando com Dumbledore. –ela disse séria.
-E o que tem isso de tão aterrorizante?
-Eles vão te dizer. Boa noite, querida. –e abraçou Pan rapidamente, subindo para seu quarto como se mal pudesse esperar para estar longe da amiga.
Pan preparou um chá, e quando começou a se servir, ouviu as características batidas de Minerva na porta. Assim que abriu sentiu os braços da mulher a sua volta. Se Hope parecia incomodada, Minerva estava em pânico.
-Feche essa porta, Albus! –ela ordenou mal havia o homem passado pelo portal.
-O que houve? –Pan perguntou tentando identificar as causas do medo no olhar sempre tão severo de sua avó.
-É melhor você se sentar. –Albus disse- Minha cara, eu lamento lhe informar que Harry está em perigo. Seu pai fugiu de Azkaban.
Pamela nunca tinha visto Harry Potter, mas nutria por ele um sentimento materno, ou se não assim, era intimamente ligada ao garoto. Tecnicamente Harry era um ano mais velho que ela.
-C-c-como ele fugiu? -ela conseguiu gemer após longos minutos.
-Esse é um grande mistério. Nós só podemos imaginar. Mas tem algo que o ministério tem certeza que ele vai fazer.
-Ele irá caçar Harry? -Pan arriscou.
-Claro que irá. -Minerva comentou andando de um lado para o outro- Vai terminar o que começou o Maldito!
-E agora, Dumbie? -Pan perguntou desalentada- Não podemos deixar Hogwarts desprotegida... E a Rua dos Alfeneiros?
-Não se preocupe com a casa dos Dursley's. Já me encarreguei de lá. Quanto a Hogwarts eu tenho certeza que você dará conta do recado. Sem contar que este ano contaremos com Remus Lupin.
-Lupin? O amigo de Black? Isso é uma piada?
-Não, minha querida, não é uma piada... -ele a espreitou por cima dos óculos de meia lua- Ele não é amigo de Black. Ele é amigo dos Potter.
Sirius Black e Ninna McGonagall conheceram-se em Hogwarts. Durante os últimos anos na escola eles foram ficando mais próximos. Ela, uma Sonserina, era a melhor amiga de Lilly Evans, que viera a casar com James Potter, amigo desde sempre de Sirius Black.
Eles foram os padrinhos de Harry, filho dos Potter, enquanto Lupin era o padrinho de Pan. Ninna era filha de Minerva e embora fosse sempre muito voluntariosa e teimosa, era uma boa moça. Sua figura paterna era Dumbledore, já que o pai trouxa nunca soube de sua existência.
Quando Pan era bebê e Harry tinha cerca de um ano, Voldemort invadiu a casa dos Potter e matou Lilly e James, sendo inexplicavelmente subjugado pelo pequeno Harry. Enviados a Azkaban como Comensais da Morte e sem julgamento, Sirius e Ninna Black ficaram conhecidos e temidos.
Os Aurores contavam que Ninna havia enlouquecido em poucos anos, mas Sirius não. Ele mantinha-se consciente, mesmo sendo um prisioneiro de segurança máxima, tanto que fugiu bem debaixo do nariz do Ministério da Magia. Para Pamela era uma questão de honra manter Harry Potter seguro e vivo, já que era culpa de seus pais que ele não tinha mais os seus.
Sua formatura aconteceria no dia seguinte, e ela bem podia imaginar como o ambiente não estaria muito acolhedor para ela. Mesmo assim, separou o vestido que encomendara para a ocasião e deixou que Hope trançasse seus longos cabelos negros. Estava feliz, ainda que parecesse inapropriado dada à atual situação. Durante a cerimônia foi cercada de perguntas a respeito da fuga, mas pode esquivar-se de todas. As pessoas presentes sabiam como aquilo deveria estar afetando a garota, mas sua curiosidade era forte demais para fazê-los se importar. Minerva, Dumbledore e Hope chegaram antes da diplomação e depois da pequena festa voltaram ao apartamento, onde iniciaram o plano para proteger Hogwarts.
-Eu acredito que o mais correto seria estabelecer uma guarda dentro da Floresta Proibida. –Pan dizia apontando locais no mapa dos terrenos que Dumbledore trouxera para ela- E cuidar para que as entradas secretas sejam patrulhadas, o que no caso seria minha função especifica.
-Mas você não acha que estabelecer uma guarda como esta na orla da floresta iria exigir muitos aurores que poderiam estar caçando Black? –Hope perguntou
-Eu não estava pensando em aurores para essa guarda. –Pan disse serenamente- Eu pensei em dementadores.
Minerva deixou escapar um guincho assustado. Albus apenas observou a face de Pan calmamente, tentando ver ali as intenções dela. Hope sorriu em entendimento.
-Eu já posso ver Fudge enlouquecendo quando você solicitar duas centenas de dementadores para o perímetro de Hogwarts! -ela disse- Teremos então que produzir alguns para preencher as vagas dos que você tirará de Azkaban.
-É isso que vocês fazem no Departamento de Mistérios? –Perguntou Minerva aterrorizada.
-Dentre outras coisas. –Hope disse displicente- Mas Pan, seriam necessários aurores, e Merlin sabe como está difícil formar uma boa turma ultimamente! E os que se formam são como Dora Tonks!
-Obrigada. –Pan disse ácida, mas sorrindo em seguida- Não me importa se eu vou precisar de aurores para Hogwarts. Nós sabemos que lá será o alvo de Sirius Black. Todo o ministério sabe.
-Eu não quero você exposta a Black, Pamela. –Minerva disse preocupada- Não quero você caçando Black. Você entendeu?
-Sim. –ela disse- Eu vou me resumir a proteger a escola, tanto porque há algo sobre ética envolvido em tudo isso, e não seria correto sair por ai caçando meu pai.
-Eu gostaria de saber o que Severus tem a dizer sobre o plano. –Albus disse calculando o perímetro.
Depois de proferidas as palavras, os três encararam Pan, que apenas deu de ombros.
-Já basta de toda essa cerimônia a respeito de Severus. –Pan disse chateada- Não é como se ele tivesse me ferido ou algo assim, nós apenas estamos distantes pelas atuais conjunturas.
-Não se engane querida. –Hope disse com um sorriso torto, colocando os cabelos da franja atrás da orelha- Você ainda é apaixonada por ele. Talvez mais do que sempre.
-O que você está dizendo? Eu estou saindo com o Carlinhos!
-E quando vocês se viram pela ultima vez? Quando ele veio na Páscoa ver a família? Não esconda o que sente atrás do pobre rapaz. Não é justo com você, muito menos com Snape.
-Ele não entende Pan. –Albus disse- Ele remói a idéia de que você o odeia. Ele escreveu dezenas de cartas sem resposta!
-Há meses desde que eu recebi uma carta de Severus.
-E o que você queria? Você foi o maior desperdício de pena, tinta e pergaminho que eu já vi. –Minerva disse- Eu apenas me perguntava quanto tempo mais você seguiria culpando o pobre rapaz por você ter se apaixonado por ele!
-Você calejou o orgulho inflado de Severus. –Albus disse com um sorriso- É hora de limar isso um pouco. Vocês são como meus filhos e eu odeio vê-los brigados.
Pan apenas revirou os olhos e anunciou que ia se recolher. Sabia que quando o assunto era Severus aqueles três conseguiam ser ainda mais irritantes do que uma sinfonia de mandrágoras. Mas a verdade é que aquela noite ela decidiu pensar com mais maturidade, e se deu conta de que mesmo que jamais pudesse ser a mesma com Severus novamente, teria que voltar a conviver com ele caso fosse mesmo proteger Hogwarts. Não sabia como fazer isso, mas esperava encontrar uma chance para conversar. Só não esperou que aquela chance fosse aparecer tão subitamente.
-Severus! –ela exclamou perdendo o fôlego, como quem pulou um degrau a mais da escada sem querer.
-Então você está de volta? –disse Snape sobriamente quando encontrou com Pan subindo a escadaria de pedra- Quanto tempo faz?
-Não sei, não estive contando. -ela disse apenas- Vim pelo Harry. –informou, tentando não deixar espaço para divagações.
-Potter. -disse Snape com desagrado- Sempre Potter.
-Pare com essa implicância, Sev! Ele não tem culpa se você...
-Ok. -ele concordou ignorando o uso do apelido que apenas ela usava para tratá-lo. - Noticias de Black?
-Não. -ela assutou-se um pouco pela súbita introdução de seu indesejado pai no meio da conversa - Não quero nem pensar no que vai acontecer se ele pegar o Harry...
-Ele vai matá-lo. E eu não duvido nada que ele consiga isso, com esse Lupin por aqui...
-Bom, ficarei de olho nele. -Pan assegurou- E conto com você, em todo caso.
-Claro. -disse Snape.
-Apesar de que Dumbie confia nele.
-Dumbledore? -Snape disse com desdém- Ele sempre tem a mania de acreditar no melhor dos outros.
-Inclusive com você. -disse Pan com calculado veneno.
-Às vezes ele acerta.
-Claro! -ela desdenhou, odiando-se por estar culpando-o por suas próprias inconstâncias.
Ele abaixou os olhos e continuou a descer as escadas. Tentou não observá-la, mesmo já a mais de dois anos sem vê-la em pessoa. Não queria ver nos olhos dela a dor que aquela rejeição involuntária foi capaz de atingi-la tão profundamente.
-Severus! –ela chamou num tom de voz quase abafado, como se repreendesse a si mesma por estar fazendo aquilo. Ele a olhou por cima do ombro- É bom ver você.
-Eu digo o mesmo. –ela sorriu e ele não resistiu em dizer a palavra que ecoava em sua mente desde o dia em que ela o proibira de dizer- Pequena.
FIM DA PRIMEIRA PARTE
Notas da autora:
-Oi gente! Bom, essa é a primeira parte da Hexalogia, e ela termina como vocês podem ver, no retorno de Pan a Hogwarts. Sirius fugiu de Azkaban e nesse exato momento Lupin está no Expresso de Hogwarts, salvando Harry do dementador.
-Severus mal pode acreditar que Pan está de volta e ela com essa súbita resolução em ver a situação entre eles com mais maturidade mal pode imaginar que está abrindo caminho para que ele possa começar a vê-la como o que ela se tornou: uma mulher.
-Agradeço muitíssimo aos leitores, quem vem me honrando com comentários tão amáveis. Gostaria de pedir encarecidamente a quem ler que me deixe um rewiew, ainda que pequenininho, só pra eu saber se estão gostando, pra dar uma opinião... Enfim! É rapidinho e me deixa imensamente feliz.
-A segunda parte vem em breve!
