Capítulo Décimo
-Eu posso falar com você? – Pan perguntou aproximando-se de Severus ao fim do banquete.
-Claro. –ele disse olhando meio nervoso em volta para certificar-se de que não havia muita gente por perto.
-Você pode me acompanhar até a minha torre?
Sem dizer nada, pela mais pura falta de voz, Severus a seguiu, não sem notar que Lupin os observava interessado. Teria Pan estado em contato com ele durante aqueles anos? Quanto a Dumbledore e Minerva eles também pareciam estar sem voz, já que apenas cutucaram um ao outro e trocaram olhares tensos.
-Eu estou feliz que você esteja de volta. – Severus disse quando eles deixaram o Salão.
-Obrigada. É bom estar em casa.
-Sobre o que você quer conversar?
-É que eu encontrei algumas passagens nas masmorras que podem levar para fora do castelo. E vice-versa. Gostaria de confirmar com você se elas são realmente o que parecem ser. Gostaria que você olhasse os mapas, afinal, não há ninguém que conheça melhor as masmorras do que você.
Severus apenas a observou, talvez mais sem voz do que antes. Pan queria tratar com ele assuntos que não tinham a ver com o que ele esperava. Passagens nas masmorras? Sério?
-Não há nenhuma passagem nas masmorras que leve para fora do castelo. – Severus disse- Se era apenas isso, com licença.
E saiu rapidamente com direito a um rodopio da capa. Pan ainda cogitou a possibilidade de chamá-lo, afinal não era apenas sobre aquilo que ela gostaria de conversar. Limitou-se apenas a gritar um agradecimento o que o fez parar por um milésimo de segundo para depois seguir sem nenhuma minima reação.
-Você é o filho da mãe mais dificil que eu já conheci, Severus Snape.
A manhã seguinte foi realmente cheia, ainda mais com Minerva insistindo em monitorar os estudos de Pan em Animagia, que começaram antes mesmo de o dia nascer.
-Vovó, você vai acabar se assutando com isso. –Pan avisou, descalça sobre o tapete da avó, com um pijama velho e a varinha na mão.
-E porque eu me assutaria com isso? – Minerva perguntou dentro de um roupão de tartã azul petróleo, levando uma xícara de café aos lábios e encarando a neta por cima dos óculos quadrados.
-Não sejamos tontas, Professora McGonagall. Nós sabemos qual é a forma que eu procuro ter estudando animagia.
-Fênix, claro.
-E o que é que tem a ver com uma fênix?
-Imortalidade.
-Fogo. – Pan disse arregalando os olhos incredula de que sua avó pudesse estar pensando tão superficialmente. Perdoou a mulher por ser ainda muito cedo.
-Se você queimar meu tapete...
-Minha preocupação não é o seu tapete. Minha preocupação é você.
Minerva estreitou os olhos por um instante, deliberando.
-Melhor eu pegar minha varinha. –ela disse arrancando risadas da neta.
Pan esperou a avó voltar e sentar-se, dessa vez muito concentrada. Pan respirou fundo e deixou que o fogo fluisse tentando de algum modo manter o controle. A Animagia necessitava uma serie de encantamentos, mas no caso de Pan, a única coisa que ela aproveitaria dos estudos era aprender a liberar a sua forma animal. Controlar a forma animal é que não era exatamente simples.
-Oh, não! –ela disse quando extinguiu o fogo.
Minerva gargalhou. Pan tinha um bico.
-Você está evoluindo, ninguém pode negar isso meu bem! –e ergueu-se para reparar os danos da tentativa, extinguindo o bico da neta com um simples feitiço.
-Você está com as sobrancelhas chamuscadas. –Pan disse com um sorrisinho.
-Pensei que esse cheiro de cabelo queimado fosse seu. Bom, mesmo com essa evolução crescente eu acredito que nós devemos controlar melhor essa parte da liberação do seu eu animal. Isso com tanto fogo não está dando muito certo.
-É que eu tenho medo. –ela disse ajudando Minerva a por o escritorio em ordem- Há um momento assustador. Eu sinto que estou me perdendo, me abandonando e algo em mim interrompe a transformação.
-Nós precisamos pensar nisso também. Eu nunca senti como se me perdesse quando estou me trasformando. É como se eu me libertasse. –Minerva explicou segurando as mãos da neta, que parecia nada menos que triste com a confissão- Me sinto algumas decadas mais jovem inclusive.
-Talvez eu não deva sentir-me livre. –Pan disse- Eu sempre me sinto tão presa pelas obrigações que vieram com a fênix...
-Querida...
-Eu não sei vovó. Eu não sei se eu já aceitei meu destino como tenho demonstrado. Eu sinto um vazio constante...
-Meu bem, você vive neste mundo a apenas doze anos... é compreensivel que você ainda tenha suas inseguranças...
-Eu vivo a doze anos e tenho memórias de guerras que aconteceram a séculos!
-Meu amor... –Minerva a abraçou- Eu sequer posso imaginar o que acontece na sua mente, mas eu te juro que mesmo que eu possa constantemente ter minhas sobrancelhas chamuscadas... –elas riram- ... eu estarei aqui. Por você.
-Obrigada vovó.
-Você quer tentar mais uma vez?
-Depois daquele bico? Não, obrigada!
-O que meus amores estão fazendo de pé tão cedo? –Albus perguntou saindo do quarto vestido num roupão- Despertei e não te vi na cama. Fiquei preocupado. –ele beijou Minerva.
-Estamos treinando animagia. –Pan disse recebendo um abraço dele- Mas eu já estou exausta.
-Você chamuscou as sobrancelhas da sua avó. –ele riu reparando o dano- E como vai o seu progresso?
-Lento. Mas gradual. –ela disse calçando as pantufas de leopardo- Eu vou me arrumar para começar a ronda. Vejo vocês no café da manha.
Severus acordou no horario de sempre e cumpriu toda sua rotina antes de sair para o grande salão. No hall, olhando pelas janelas por um instante, pode ver Pan caminhando pelo gramado com alguns sensores de detecção de dsfarces nos braços. Ela usava uma calça jeans comum e um casaco de couro azul, muito justo. Os cabelos negors estavam meio presos numa trança displicente e seguiam o ritmo da brisa leve que soprava. Ela estava absolutamente adoravel com aquela expressão concentrada. Imaginou se ela iria tomar café com eles, mas decidiu não criar esperanças em vão. Não faria muita diferença se ela estaria ou não no café da manhã, ela não estaria ali com ele. Severus fechou os olhos com força, como se tentasse esmagar aqueles pensamentos nada reconfortantes com o peso de suas palpebras.
-Bom dia, Severus –saudou Remus Lupin aproximando-se devagar da janela- Ela se tornou uma mulher incrivel, não é mesmo? –disse ao notar Pan instalando os sensores- Apenas posso imaginar como deve estar sendo dificil para ela. Como se já não bastasse tudo com o que ela tem que lidar, o maldito do Sirius ainda decide fugir e complicar ainda mais a vida dela.
-Eu espero que você não seja também uma complicação, lobisomem. –Severus rugiu afastando-se do outro com um rodopio da capa- E fique longe dela. –ele avisou enquanto andava firmemente em direção ao Salão.
