Capítulo Décimo Segundo.
Hogwarts amanheceu em frisson na primeira visita do ano a Hogsmeade, no dia das Bruxas, que era uma data que Pan, de verdade, apreciava, não apenas pelo significado geral, como também pelos presentes que costumava receber. Não eram presentes caros, mas eram pequenas coisas que serviam para reafirmar o carinho que seus amigos e pessoas mais próximas tinham por ela. Então, como era de se esperar, aos pés de sua cama de correntes, no alto de uma torrinha perto da Grifinória, havia diversos embrulhos. Ela surpreendeu-se ao ver ali um presente de Severus, que havia muito tempo não constava mais em sua lista de presentes de Natal ou Halloween.
Era uma corrente de ouro branco, com um pingente pouco maior que um galeão, de ouro branco, amarelo e envelhecido, em formato de Fênix, com as asas abertas. Pelo peso, notava-se que era uma joia cara. Não vinha acompanhada por nenhum cartão ou um bilhete que fosse. Pan guardou a caixinha na gaveta, pensando que deveria devolver. O que seria uma pena, já que era um colar muito bonito.
De Hagrid ganhou um aquário com três peixinhos mágicos que podiam sair da água e andar por horas antes de sentirem falta de água novamente. Dentro havia um bilhete escrito em garranchos: "Pan, feliz dia das Bruxas! Estou lhe enviando um trio de Fíbtios, você deve lembrar-se deles, não é? Eram os seus animais favoritos do lago. Você se lembra de quando eles viraram praga e nós tivemos que capturar centenas deles, que ficavam correndo pelos gramados? Foi divertido, não é verdade? Lembre-se: eles só comem ovas de rã."
-Hagrid! -ela riu, imaginando que a noite levaria s peixes de volta a lago antes que eles roessem todos os seus sapatos.
O presente da avó estava embrulhado num fino tecido de pétalas de flores, que exalavam um delicioso perfume pelo quarto. Era uma capa de viagem de veludo vermelho, forrada com couro negro. Havia também caixas de doces e fitas para cabelo. De Dumbledore, ganhou um cachecol de fios de seda e linho, na cor vinho, e um livro sobre a Aritmância, que era um dos assuntos favoritos da moça. Resolveu tomar o café da manha no quarto e depois de um banho foi à Sala dos Professores para ajudar nos preparativos do passeio a Hogsmeade.
Ela avistou Severus antes de qualquer outra pessoa. Ele parecia um pouco mais tenso que sempre essa manha e olhava distraído para a porta, como se esperasse por nada. Sobressaltou-se ao vê-la entrar. Com a caixinha do presente guardada no bolso, Pan rumou diretamente para ele, que sorriu com o canto da boca.
-Você... você está linda... –ele disse antes que ela pudesse abrir a boca.
-Obrigada. –Pan agradeceu automaticamente.
-Eu sei que pode parecer estranho eu enviar um presente a você... Mas é que eu fiquei pensando que em todos os anos que você passou em Hogwarts eu nunca deixei de te dar o presente de Halloween.
-Você não precisava, ainda mais um presente tão caro.
-Não é como se você não merecesse um presente assim. Eu daria qualquer coisa pra que você não me olhasse com tanta dureza assim novamente.
-Severus...
-Pan, se você não quiser aceitar, não precisa. –ele acrescentou com tons de indiferença na voz, mas uma sombra pesada de tristeza sobre os olhos.
Silenciosamente ela enfiou a mão no bolso e pegou a caixa, refletindo seriamente se estava ainda tão magoada. Não parecia valer à pena dar um desgosto tão imenso a ele. Mas guardar o presente lhe daria falsas esperanças sempre que o olhasse. Sem dizer nada, ela colocou a caixa sobre a mesa e se retirou para o outro lado da sala.
Minerva a encarava com uma crua frieza no olhar.
-Eu não criei você pra ser tão rancorosa! –ela rugiu num tom de voz muito baixo, indo até onde Severus estava sentado e pegando a caixinha que ele apenas olhava sem reação. Murmurou um feitiço e a caixa se abriu para deixar que o colar saísse voando rapidamente e se enroscasse no pescoço de Pamela, que gritou assustada.
-Minerva! –Severus exclamou ficando de pé e indo até Pan, que arfava do susto.
-Oras, não é como se estivesse machucando! –Minerva disse- E se machucou, é bem merecido! Já chega de tanto joguinho! Se ele lhe deu um presente, aceite, nem que seja por educação. E você não vá rastejar por essa criatura mimada! –ela disse apontando o dedo para Severus, que tentava retirar o colar que pendia graciosamente do pescoço de uma estupefata Pamela.
-Eu não consigo retirar, Pan... –ele dizia, observando o queixo dela tremer como sempre acontecia quando ela estava á beira das lágrimas.
-Você não vai conseguir retirar o colar. Apenas eu posso fazer isso, e garanto que não estou com a mínima vontade.
-Me desculpe Sev... –Pan gemeu deixando que as lágrimas rolassem por seu rosto- Desculpe!
-Você não tem que se desculpar por nada, essa velha intrometida da sua avó é que...
E Severus engoliu as palavras quando Pan o abraçou com força. Deixou que as mãos deslizassem pelo pescoço dela e a segurou pelos ombros, com força, junto a ele.
-Pequena...
-Está na hora de vocês conversarem. –Minerva disse- Você precisa se acalmar, Pan.
-O que está acontecendo? –a professora Sprout perguntou quando entrou e viu os soluços de Pamela.
-Não é nada demais. –Pan se recompôs e largou Severus, que cuidadosamente secou suas lágrimas com os polegares- Eu preciso me preparar para as rondas.
E saiu. Enquanto andava pelo corredor de volta a sua Torre, Pan sentiu algo novo e forte surgindo no fundo do peito e vindo rapidamente em direção a garganta. Era mais que apenas um soluço, ou aquela angustia de culpa. Era algo semelhante a uma necessidade física. Era uma urgência temperada com um calor, forte, praticamente palpável.
-Pan! –ela ouviu a voz aflita de Severus chamando pouco antes da entrada da torre.
-Sev, eu não estou me sentindo muito bem agora... nós não podemos conversar outra hora?
-Eu não quero mais esperar. –ele disse quando ficou de frente pra ela- Não me importa se é errado, se vão me julgar por isso, ou se eu não mereço você... Mas tenha certeza de que eu lutarei por você, por seu amor, até o fim.
-Você sabe o que eu sinto... você sabe que nossos sentimentos não são compatíveis, sabe que...
E ai, como se cada célula da mulher a sua frente pertencesse a ele, Severus a tomou nos braços e a calou num beijo. Um braço forte a mantinha segura pela cintura, enquanto uma terna mão apoiava sua nuca. Pan resistiu apenas enquanto o susto a dominava, mas logo em seguida o agarrou com força. E como se o tempo não existisse, eles ficaram ali sem pensar em mais nada.
Era tão intenso que Severus não sabia como fazer para parar. De repente, estava encostado na parede, arfando, com o corpo de Pan pressionado contra o seu, e as mãos dela contornando seu rosto.
-Você é a imagem mais familiar e confortável que eu tenho. –ele disse.
-Eu sei. –ela sussurrou- E você é uma das únicas pessoas pela qual eu faria qualquer coisa sem pensar duas vezes.
-Eu me sinto tão perdido quando você não está por perto...
-Eu prometo que sempre estarei por perto. Tanto porque eu não sei como me afastar. Foi muito duro ignorar você esse tempo todo, tentando matar esse sentimento confuso que me tirava à razão... Eu não sei como pude resistir tanto tempo, mesmo sabendo que você sentiria minha falta, que estaria magoado com minhas atitudes infantis...
-Não era infantil, pequena. Era a forma que você tinha pra se defender de algo que não entendia. Não pense em nenhum momento que eu não a amava, eu sempre vou amar você... Mas esse tipo de amor que você esperava na época era muito diferente do sentimento paternal que eu sentia antes.
-E como isso mudou? –ela perguntou.
-É como se pra poder estar do seu lado eu precisasse me adequar, evoluir com você... Você é tão parte de mim que minha vida e meus sentimentos sempre vão se moldar ao que você precise. Eu sou o que você quiser que eu seja.
-Eu só quero que você seja o meu guardião... em todos os sentidos.
-Ter você nos meus braços é a melhor sensação do mundo. –ele disse aproximando seus rostos.
-Eu amo você. –ela declarou roçando seus lábios nos dele, que a beijou lentamente- Eu estou ficando com calor... –ela confessou quando ele finalizou o beijo.
E o olhar perfurante de Severus em seus olhos não ajudava em nada para apagar aquele bendito calor. As mãos dele escorregaram por suas costas e seguraram firmemente sua cintura. Ele girou com ela, pressionando-a na parede. Com os braços pendendo molemente ao lado do corpo, Pan apenas relaxou e deixou-se beijar.
-Pamela?
-O quê? -sussurrou ela com a voz fraca.
-Você... está bem?
-Muito bem... -ela sorriu timidamente.
-Eu devia... estar coordenando meus alunos que vão à Hogsmeade.
-Eu deveria estar fazendo minhas rondas e dando uma olhada em Harry Potter.
-E nós estamos no meio de um corredor perigosamente perto da Grifinória.
-Nós devemos ir... trabalhar. –ela sussurrou.
-Sim. –Severus concordou respirando o cheiro do shampoo dela- Eu não quero ir.
Ela riu e o afastou.
-Mas nós precisamos. Eu procuro você quando terminar a ronda.
-Vou estar no meu escritório.
Pan deixou Severus e saiu em direção às escadas sentindo os olhos dele acompanharem cada um dos seus passos. Já nos jardins, ela precisou parar um pouco e respirar, buscando assimilar o acontecido. Sorriu para um gnomo que se esgueirava por ali, brincando distraidamente com o pingente de fênix. Severus também a amava... Ele disse coisas tão lindas! Beijá-lo era tão natural! Era uma intimidade tão logica e fácil que fazia com que ela tivesse total certeza de que ele era o homem da sua vida.
Depois das rondas, Pan decidiu procurar por Harry. Estava decidida a estabelecer uma relação de confiança com o garoto, já que precisaria estar bem próxima a ele para protegê-lo de forma mais efetiva de Sirius Black. Viu Rony e Hermione despedirem-se dele no Saguão de Entrada. Acenou discretamente para os dois quando eles sorriram para ela, juntando-se aos alunos que a Profa. Minerva conduzia pelos gramados. Harry subiu a escadaria de pedra parecendo absolutamente frustrado. Pan resolveu segui-lo.
-Oi, Harry.
-Ah... Olá, Srta. McGonagall.
-Pamela é o suficiente. –ela sorriu.
-Haaam... Ok, Pamela.
-O que você vai fazer agora? Eu vi que seus amigos foram para o vilarejo.
-É. Eu preciso ir à biblioteca. Tenho uma redação para o Prof. Binns.
-Ai, que droga! -comentou ela com uma leve careta- História da Magia num sábado ensolarado... Você quer ajuda?
-Não. Não, obrigado.
-Ok. -disse Pan menos animada- Boa sorte, então.
O garoto virou-se para ir embora e Pan ficou sem reação. Não esperou que Harry fosse tão reservado.
-Harry! –ela chamou quando ele já estava a alguns metros de distância- Você não quer me acompanhar numa partida de quadribol?
Ele sorriu instantaneamente, mas sombreou o rosto olhando para alguma coisa que vinha por trás de Pan. Estranhando as mudanças na expressão facial do garoto, Pan olhou pro corredor e quase esbarrou com Severus.
-Sev! –ela sorriu.
-Pan. –ele disse simplesmente.
-Eu acho melhor jogarmos outro dia, Srta. Pan. Eu realmente... tenho que ir.
-Tudo bem. –ela concordou com um leve sorriso maternal- Se você precisar de qualquer coisa... Qualquer coisa mesmo... Procure-me.
-Hum, ok. Obrigado. –e desapareceu dali o mais rápido possível.
-Você realmente intimida o garoto, Sev! –ela comentou deixando que Severus segurasse seu cotovelo, conduzindo-a numa das passagens às masmorras.
-Eu causo esse efeito. –ele murmurou- Não que seja intencional.
À noite, na festa do Dia das Bruxas, Pan refez todo o perímetro do castelo e trancou algumas das portas mais afastadas e pouco utilizadas. Sentiu que o castelo estava seguro o bastante e foi jantar. Minerva a observava com interesse, tentando decifrar se alguma coisa havia mudado entre Pan e Severus e quando percebeu que ele parecia indiscutivelmente mais leve essa noite, com um sorriso de canto de boca quase imperceptível, começou a cochichar animadamente com Albus. Lupin parecia um pouco enjoado essa noite, e permanecia bem calado, limitando-se a responder quando falavam com ele.
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Quando Dumbledore mandou os alunos de volta as suas Casas, Pan subiu ao seu quarto e se surpreendeu quando viu um pacote amarrotado e sujo sobre a cama. Desembrulhando o papel já bastante rasgado, ela encontrou uma carta e um prendedor de cabelo em formato de libélula, com as asas em vidro colorido, sobressaindo o vermelho.
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Curiosa, abriu o envelope onde estava escrito "A Srta. Black. Feliz dia das Bruxas!". Num pedaço de papel amassado escrito possivelmente com carvão, as seguintes palavras:
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"Este prendedor ficava lindo nos cabelos negros de Ninna, e ficarão lindos nos seus também. Papai ama você, muito mais do que amou alguém um dia. Estou orgulhoso do que você é apesar de estar meio temeroso por saber que estará me caçando.
Não esperaria nada diferente de você.
Amo você.
Sirius Black."
Ao ler o nome do pai, Pan sentiu que todo o ar de seus pulmões lhe era roubado. Sacou a varinha e desceu a torre pulando vários lances de escadas. Por sorte a torre era próxima à Grifinória e rapidamente ela chegou ali. Diante da pintura da Mulher Gorda, passagem secreta para o salão comunal da Grifinória, Pan encontrou todos os alunos da Casa e alguns professores. Ofegante, conseguiu produzir duas palavras.
-Sirius Black!
-Black?!. -exclamaram várias pessoas.
Pan não reprimiu um grito ao ver o retrato da Mulher Gorda dilacerado, rasgado como que por garras.
-Oh, meu Deus! Onde está ela? Madame Fat Ma?! -gritou chamando para os outros quadros. -Estão todos bem? -perguntou voltando à atenção para os outros.
-Sim. Todos bem. -disse Snape que estava por ali, tenso e alerta.
-Ok. Ouçam todos. Sirius Black está no castelo. Monitores conduzam os alunos ao Salão Principal. Profa. McGonagall por favor, acomode-os lá esta noite. Os outros vasculhem as torres. Lupin, você vem comigo.
Pan segurou Lupin pelo cotovelo e o conduziu por uma passagem, direto ao quinto andar.
-Quero que você me ajude com uma das passagens que levam para fora de Hogwarts.
-O que te faz pensar que eu sei como ajudar?
-Ora, não se faça de santo, Lobisomem! Eu sei muito bem que você era um dos criadores do Mapa do Maroto!
-Como você sabe do Mapa?
-Roubei ele da casa dos meus pais anos atrás, na única vez que estive lá.
-Então você deve saber quais são. -disse Lupin meio surpreso de que Pan tivesse sido dona do Maroto.
-Não. Havia algumas que eu não conseguia usar. E algo me diz que essa é a passagem que Black está usando.
Eles pararam diante de uma tapeçaria onde uma bruxa dava aulas de Poções para três Gnomos.
-Esta passagem ruiu há anos, Pan. Quase morremos ai. E pra passar por ela é preciso usar uma varinha, coisa que duvido muito que Black possua. Podemos tentar a Estátua da Bruxa de Um Olho só.
-Não acho provável que ele iria querer sair no porão da Dedosdemel com dementadores vasculhando todos os estabelecimentos.
-O... O salgueiro Lutador! Venha! -exclamou Lupin com o rosto iluminado.
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Lupin agarrou o braço de Pamela e a arrastou para fora do Castelo, correndo em direção ao Salgueiro Lutador.
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-Lupin, você enlouqueceu? O Salgueiro vai esmagar a gente!
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Ele parou de correr e procurou uma vara longa, com a qual cutucou o nó no tronco do Salgueiro, que parou de agitar seus galhos. Então, Pan, que já havia podado aquela arvore sabe-se lá quantos milhões de vezes, quebrando braços e costelas, aprendeu a imobilizar o salgueiro Lutador no momento mais esquisito de sua vida. Lupin pegou-a pelo braço e desceu por uma passagem que levava a um túnel subterrâneo comprido.
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-Lumus. -sibilou Pan, esperando encontrar Black parado diante dela com enormes garras e dentes a mostra.
-Lumus. – Lupin a imitou.- Cuidado, querida.
-Cuidado você. - retrucou Pan com moderado desdém e seguiu rapidamente pelo corredor estreito, parando para se arrastar pelo chão no momento em que a passagem ficou apertada demais para seguir de pé.
Lupin a seguia de perto, varinha erguida e a mão esquerda sobre o ombro dela. Tenso era a palavra certa para descrevê-lo.
-Está com medo?
-Devíamos chamar um dementador. -ele sibilou- Sou contra eles, mas neste caso, Pan... Seu pai é um homem louco!
-Ele.não.é. ! -berrou ela pontuando cada palavra- Meu pai é Albus Dumbledore!
-Pensei que o seu pai fosse Severus. -zombou Lupin um pouco diferente do que costumava ser.
-Não seja idiota.
-Ora, o que você quer que eu pense? Veja como vocês dois são sincronizados, veja como você se move em torno dele, Pamela. Se você soubesse quem é Severus Snape...
-Eu sei muito bem o que ele FOI. E isso pra mim não faz diferença.
-Tudo bem. Você sabe muito bem o que Lucius Malfoy foi, e pra você isso faz diferença.
-Você fala com ciúmes. -despejou Pamela andando mais rápido, virando uma curva.
-Sim. Ciúmes. -ele agarrou o braço dela e a segurou firme, diante dele.- Eu devia ter criado você, não ele.
-Ora! -Pan gargalhou gostosamente- E o que um Lobisomem poderia fazer com uma criança, Remus? E Sev não me criou. Vovó me criou.
-Eu sou seu padrinho!
-Vocês, Marotos, não sabem escolher os padrinhos dos seus filhos. -disse ela desvencilhando-se das mãos dele.
-Severo não deveria ser o seu exemplo paterno.
-Não, ele não é. -disse Pan, subindo alguns degraus tranquilamente. - Eu não tenho Complexo de Édipo.
Demorou um minuto inteiro de silencio para Lupin compreender as palavras dela.
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-Édipo? -sussurrou meio aéreo- Você e Snape...? -e riu, quase histérico.
-Qual é a graça? -perguntou Pan com petulância.
-Graça nenhuma. Nenhuma mesmo. Black odiaria isso. Ele seria capaz de invadir o castelo para matar Severus se descobrisse que o cara que ele mais detestava estava aos beijos com a garotinha dele!
-O pegaríamos se tentasse. Por acaso... Nós estamos na Casa dos Gritos?
-Oh, sim. Vamos Sra. Snape. Vamos procurar o papai.
Vasculharam toda a casa, que estava em ruínas e parecia que iria cair a qualquer momento. Não encontraram nada, nem pegadas na poeira, nenhum indicio que Black pudesse ter estado ali.
-Pista errada, Padrinho. -disse Pamela sarcástica.
De volta souberam que Black tinha conseguido fugir novamente. Pan não mencionou a carta que recebera até estar sozinha com Severus. Não agiu deliberadamente, apenas estava tão tensa e cansada que não pensou naquilo até estar mais tranquila.
-Se eu fosse você colocaria uma senha na sua torre.
-Não era necessário antes, mas agora parece ter se tornado indispensável.
-Eu ficaria mais tranquilo. Foram as senhas que salvaram a Grifinória.
-Tratarei disso logo mais. Agora preciso descansar. -e aninhou-se nos braços dele, que a envolveu carinhosamente, vendo pelas janelas novas que havia instalado para ela, o dia nascer preguiçoso.
Acordaram com as batidas desesperadas da Profa. Minerva na porta da Masmorra.
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-Eu não queria aceitar que você estaria aqui! -disse ela quando Pan apareceu a porta esfregando os olhos- Se fosse um aluno você estaria ainda mais encrencada!
-Como assim, ainda mais encrencada, Minerva? -perguntou Snape postando-se ao lado de Pan.
-O Ministro da Magia está no escritório do Diretor. Tem uns 10 Aurores com ele. Sem contar com os membros do Conselho Diretor da Escola.
-O que está acontecendo? -Pan assustou-se correndo a lavar o rosto numa bacia de pedra e secando-o numa toalha alva que havia sobre a mesa.
-Não sei, mas eles estão aqui por sua causa. Albus disse que era urgente.
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Pan correu o mais rápido que pode, tomando todos os atalhos que conhecia para chegar mais rapidamente a Sala de Dumbledore. Diante da Gárgula, que sequer esperou por ouvir sua senha, saltando de lado rapidamente, Pan derrapou ao tentar frear, e caiu de joelhos no chão. Subiu as escadas sentindo as rótulas dos joelhos reclamarem o esforço. Praticamente gemendo, adentrou a Diretoria. A varinha bem presa à perna e a mão segurando firmemente seu cabo por entre as saias de rendas.
-Com licença. -disse andando devagar até parar do lado de Dumbledore.
O sorriso de Lucius Malfoy era zombeteiro. O restante dos membros da Diretoria estava sentado em volta da lareira tomando do delicioso Hidromel da Madame Rosmerta e sequer fingiram notar que Pan havia chegado. Os aurores, vários ex-professores de Pan, como Alastor Moody, pareciam incomodados com a ocasião. Fudge pigarreou tomando a palavra.
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-Srta. McGonagall Black. -começou ele- Temos aqui a indigesta missão de... de conduzi-la a Azkaban.
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Pan olhou assustada para Dumbledore, que repousou a mão em seu ombro e apertou levemente, encorajando-a.
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-Com que propósito? -ela perguntou tentando manter a serenidade.
-Sob acusações. -disse Malfoy
-Que acusações? -Pan insistiu.
-Facilitar a fuga de Sirius Black.
Os aurores riram gostosamente, como se já esperassem a piada. A própria Pan não pode deixar de rir.
-Ok. Ministro, o que o senhor faz aqui, de verdade?
-Eu vim para... enviá-la a Azkaban.
-Isso é ridículo! -Pan berrou perdendo a paciência- Como eu facilitaria a fuga de Black? E o principal: Por quê?
-Você é uma fênix! Poderia carregá-lo para fora da prisão! E seus motivos são emocionais! Ele é seu pai!
-Ele é um assassino traidor, Ministro! -ela berrou possessa.
-Você diz isso agora, Srta. Black. -soou a voz arrastada de Lucius Malfoy- Para nos convencer de meias verdades.
-E quantas meias verdades você teve que contar para se sair das acusações que pairaram contra você durante o verão, Malfoy? -desafiou ela com a voz firme e violenta.
-Que acusações? -ele desafiou com uma empinada superioridade- Nada foi provado contra mim.
-E que provas vocês tem conta mim? -Pan desafiou a todos.
-Provas não. Temos evidencias. -disse Fudge desenrolando um pergaminho- O dia em que Black fugiu foi uma quinta feira. 14 de Julho. Neste dia você estava de plantão na sua ultima aula em Azkaban. Neste dia seus professores procuraram por você para ajustar as ultimas pendências da formatura. Você não estava em nenhum lugar.
-Eu já disse que ela me informou que precisaria estar em Glasgow mais cedo. -rugiu Alastor Moody, seu olho mágico indo de Fudge para Malfoy.
-Isso só confirma que ela tinha planos para contrabandear o pai para fora de Azkaban! -acrescentou Malfoy olhando perigosamente para a moça.
-Ahhh... Estou entendendo o que está acontecendo aqui, senhores... -Pan sibilou calmamente, caminhando lenta e elegantemente entre os presentes- O Sr. Malfoy abriu um processo contra o nosso Guarda Caças, Rúbeo Hagrid, por conta de um acidente envolvendo seu filho Draco e um hipogrifo. Tendo eu testemunhado a favor do animal, ele está buscando formas vis e indignas de vingar-se de mim.
-As duas coisas são completamente divergentes, Srta. Black. -Fudge falou com certa autoridade- Estamos falando de traição, aqui.
-O que você acha que Black estava fazendo em Hogwarts noite passada, Srta. Black? –Malfoy perguntou maldosamente.
-Eu não tenho como saber, mas sei de um lugar por onde ele certamente passou. –e tirou do bolso o bilhete que o pai lhe escreveu.
Os olhos de Dumbledore se estreitaram curiosos quando Pan lhe entregou o bilhete.
-Isso estava no meu quarto, junto com um prendedor de cabelo que foi da minha mãe.
-Você realmente acha que Black se arriscaria tanto apenas pra lhe dar um presente?
-Eu não acho que esse foi o único motivo, tanto por que ele tentou invadir a Torre da Grifinória arado de faca, o que culminou num dano quase total a uma obra de arte centenária.
-Pelo que consta nos nossos registros, havia um prendedor de cabelos na relação de coisas que Ninna McGonagall usava quando foi presa. -informou Lon Roberts, auror, consultando uma lista num enorme fichário. - Foi uma dos únicos objetos que McGonagall pode manter na cela.
-Alguma ocasião especial? -zombou Malfoy.
-Você não presenteia sua mulher e sua cria no Halloween? –Pan rebateu.
-Sim, mas não é necessário que eu invada um castelo como Hogwarts, que deveria estar bem mais protegido com sua presença aqui.
-Você não está insinuando que...
-Eu estou sim! Você ainda é uma criança, e está sendo manipulada por Black!
-Senhores...senhores, vamos nos acalmar. Estamos falando de Pamela McGonagall. –disse Moody tentando conter os ânimos.
-Dumbledore é obvio! Ela como fênix o tirou de lá! E agora planeja salvar a mamãe também! -bradou Fudge.
-Ministro, me desculpe, mas vocês estão especulando muito. -comentou a Sra. Bariwmoore, auror, sentando-se numa das cadeiras no fundo da sala e guardando a varinha. -O que faz vocês acreditarem que Pamela, que por acaso foi minha aluna nas missões de Azkaban, teria acesso à cela de Black, na área de segurança máxima, onde nunca, nenhum auror aprendiz jamais teve acesso? Vocês estão insinuando que todos nós aqui participamos da fuga de Black?
-Claro que não, Keira. -disse o Ministro mais ameno- O fato é que de certa forma, esses acontecimentos estão interligados. Ninna Black passou a falar de uma música depois do dia que Pamela McGonagall esteve de plantão em Azkaban. Os dementadores dizem que a mulher está num frisson inimaginável para alguém que está há doze anos em Azkaban. E a lucidez dela parece estar voltando. O que é muito perigoso! E se Black tiver ensinado a Ninna como sair de Azkaban? E os Lestrange, primos dele? E como ela me explica este prendedor de cabelos que não deveria ter saído de Azkaban?
-Eu concordo que há coisas que precisam ser explicadas, mas nem sempre as evidencias são provas, Cornélius. -disse Dumbledore- Pan me falou que viu a mãe em Azkaban, quando patrulhava a ala de semidementes. Se ela recebeu este prendedor ontem, tenha sido de Black ou não, foi como presente. Ela não tinha como saber que fora de Ninna. E eu nem preciso citar que essa acusação de que foi Pan quem tirou Black de Azkaban é hilária, já que Pan foi criada por nós, aqui em Hogwarts, e nós lhe ensinamos muito bem quem foi seu pai e agora, melhor até mesmo do que eu, Pan sabe o que Black pretende e está aqui para proteger Harry Potter, com quem tem uma ligação emocional. Se for só isso, senhores... Acho que já terminamos.
Fudge balançou a cabeça, abobalhado pelas palavras de Dumbledore. Era do conhecimento de todos no Ministério que ele estava fazendo o possível e o impossível para por as mãos em Black, e que não estava tendo sucesso nenhum com isso. As pessoas começavam a questionar a capacidade dele, e levando alguém preso sob a acusação de ter facilitado ou proporcionado à fuga do homem, renderia pontos a seu favor. O que era uma injustiça sem precedentes.
-Pois bem, senhorita, McGonagall. -continuou Fudge recompondo-se- Você está suspensa dos turnos em Azkaban e será afastada de Hogwarts.
-O que?! -Pan berrou assustada- Afastada de Hogwarts? Por quê?!
-Estou pensando na segurança de Potter. Não estou convencido de que você é inocente.
-Cornélius, eu acredito que se você fizer isso ficaremos sob o julgo dos Dementadores. Pamela está aqui para monitorá-los, e eu posso assegurar que ela tomou as melhores medidas ontem à noite, mesmo não conseguindo pegar Black, Pan teve o total domínio da situação.
-Ministro, Dumbledore sempre será a favor da garota, mesmo que nós provemos o envolvimento dela com as Artes das Trevas. -desdenhou Malfoy com sua voz arrastada.
-Da mesma forma que provamos o seu, Malfoy? -rugiu Moody.
-Senhores! -exclamou Dumbledore tentando manter os ânimos mais amenos- Pan é funcionária do ministério, portanto está sob o comando de Cornélius. Se ele decidir por afastá-la, não haverá nada que eu possa fazer, a não ser... Contratá-la de volta, como funcionária de Hogwarts, coisa que ainda está sob o meu domínio. Seria calamitoso se ela se retirasse daqui, Ministro. Tenha certeza.
-Apoiado. -disse Moody com fibra.
-Apoiado. -Keira Bariwmoore uniu-se ao coro que se formou entre os aurores.
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Repondo o chapéu coco na cabeça, Cornélius Fudge saiu seguido por Malfoy. Todos os aurores vieram apertar a mão de Pan, desejando-lhe sorte. Os membros do Conselho Diretor da Escola retiraram-se após cumprimentar Dumbledore. Quando restou apenas o diretor e a auror na Sala, ele pediu explicações sobre o prendedor de cabelo.
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-Parece uma coisa fútil, eu sei, mas Pamela, este adereço podia ter lhe custado uma passagem só de ida para Azkaban.
-Eu não pensei em procurar você ontem. Estávamos todos aflitos e cansados.
-Foi assim que você soube que Black havia estado na Escola antes de encontrarmos a Madame Fat Ma?
-Foi, Dumbie, foi... Mas eu não podia imaginar que causaria tantos problemas. E eu nem estou assim tão convencida que foi Black quem me enviou.
-Devemos ter mais cuidado. Uma próxima armadilha de Lucius pode ser mais eficaz.
-Ok. -suspirou exausta desabando numa cadeira diante do avô, que a observou por um instante e sorriu marotamente.
-É verdade que... você e Severus...?
-Dumbie, por favor, já me bastam os comentários sarcásticos de Lupin.
Dumbledore sorriu amplamente.
-Minerva tinha razão. Ela sempre tem.
