Capitulo Decimo Sétimo
-Você está sendo irracional. –Severus disse, e Pan apenas fingiu que não estava escutando sua voz.
-Pan, não faz sentido. –Minerva disse trêmula- Você e sua tia devem parar com isso!
-Tia Pearll não tem nada a ver com isso. E se estivermos certas?
-Pamela... Suas esperanças são as esperanças de um tolo. –Albus disse após ponderar por um longo tempo- Você está proibida de buscar Sirius Black.
-Eu sou uma fênix, Professor Dumbledore. Eu tenho todo o respeito do mundo por você, mas eu não aceito ser proibida de nada.
E deixou a diretoria completamente incrédula de sua própria ousadia. Albus era sua figura paterna e a segunda pessoa que ela mais amava na vida, atrás apenas de Minerva. Tratá-lo com desrespeito era doloroso, não apenas para ele. Mas ela também não podia continuar sendo tratada como uma criança e não se deixaria prender por nada. Ela já tinha uma ideia fixa em sua mente e lutaria por ela até o fim.
-Albus? –Minerva andou até ele, que encarava a porta estarrecido- Não fique assim...
-Ela... ela... Você ouviu o que ela disse? –ele exclamou angustiado- Você ouviu que ela disse que vai caçar Sirius Black na esperança de inocentá-lo? Você acha que alguma coisa boa pode sair disso?
-Não adianta, Albus... Sabíamos que chegaria a hora em que Pan iria tomar consciência do próprio poder. –Severus disse.
-Ela vai conseguir apenas se machucar. –ele murmurou sentando-se, aceitando o afago de Minerva- E eu apenas não sei ficar tranquilo diante disso.
-Eu não sei qual é esse problema entre vocês, mas eu quero que vocês se resolvam agora. –Minerva disse em tom de ordem- Ela vai precisar de você, Severus.
-Eu não sei se ela quer resolver nada. Nem sei se ainda há alguma coisa para ser resolvida.
Pan percebeu que estava ficando obcecada com o que Hope lhe mostrara. O que era absolutamente compreensível, mas assustador.
Anoiteceu enquanto ela terminava a ronda. Era véspera de seu aniversário e ela imaginava muitas coisas que adoraria fazer ao invés de precisar lidar com o ritual –outrora agradabilíssimo, e agora desconfortável- de sempre. Imaginou se Hope não gostaria de acompanha-la ao Três Vassouras para uma noite das amigas, mas precisaria de alguém para enviar-lhe um patrono e uma coruja não seria tão veloz. Mesmo assim, sentar-se sozinha no bar não parecia tão á ideia e ela caminhou até Hogsmeade perdida em pensamentos.
Chegou ao Três Vassouras e escolheu uma mesa afastada. Mesmo o bar não estando exatamente cheio ela não queria ter que socializar com outras pessoas. Pediu uma cerveja amanteigada ao garçom, que por sorte não era Madame Rosmerta, ex-affair de Severus. Era uma sensação agradável sentar-se ali observando as pessoas. Havia um casal no que parecia ser um primeiro encontro e duas ou três moças conversando animadas numa mesa próxima a porta. No balcão, um senhor cabisbaixo que tomava um uísque de fogo após o outro.
No entanto a sensação agradável se dissipava quando ela imaginava que logo seria meia noite e ela estaria sozinha no seu aniversário. Desde que Severus rompera com ela, Pan evitava sua presença e decidia trata-lo com o máximo de desprezo possível para que ele sentisse o quanto sua atitude lhe havia feito mal. Albus e Minerva estavam contra ela em relação a Sirius Black, coisa pelo que ela não podia condená-los. Hope certamente estaria ocupada e Lupin não devia estar muito bem devido a Lua Cheia que chegaria na noite seguinte. De repente sentiu-se estupida, levemente embriagada e solitária na mesa de um bar onde a qualquer momento apareceria Rosmerta com seu corpo exuberante e sua idade adequada e faria Pan sentir-se ainda pior em relação à Severus.
Decidiu ir embora. Pagou a conta e saiu do Bar, para a noite clara de um céu quase sem nuvens. Hogsmeade era um lugar agradável na madrugada, como era a maioria dos lugares quando não havia o movimento exaustivo do dia e a luz exagerada do sol. Pan adorava o jeito ameno e melancólico das noites.
-Severus! –ela ouviu uma voz feminina pronunciando o "nome proibido" numa rua estreita próxima ao bar.
-Eu disse que viria.
-Mas eu não acreditei. –e a voz se fez mais baixa e ronronada, coisa captada apenas pela excelente audição de Pan.
Ela parou na esquina da rua e pode divisar a imagem de Severus diante da porta de Madame Rosmerta, que vestia um robe etéreo azul-royal e tocava o peito dele com ambas as mãos.
-Você não quer entrar? –ela perguntou com um sorriso enviesado nos lábios odiosamente atraentes.
-Claro.
E entrou. Pan sentiu que sua respiração lhe abandonava e seus olhos queimavam. De repente, estava abaixada numa esquina escura e chorando como se não pudesse conter a dor que havia dentro do peito. Tomou a pior decisão: continuaria bebendo.
Foi ao Cabeça de Javali e sentou-se no balcão. Pediu um whisky de fogo e esvaziou o copo em poucos goles. O barman voltou a encher o copo, que ela voltou a esvaziar. Suas lágrimas molhavam a superfície do balcão. O copo de vidro balançava em seus dedos. Os cabelos caiam em volta do rosto, como uma cortina negra. Não tinha certeza de como o whisky a ajudava, mas sabia que estava ajudando de alguma forma. Aos poucos a verdade se esvaia de sua mente e ela vagava até um paraíso estranho onde Black era inocente, Lupin não era lobisomem e Snape não estava dormindo com Rosmerta nesse exato momento. Riu sozinha imaginando isso. Quando se deu conta do que estava fazendo, Pan estava tão alcoolizada que não tinha certeza de como faria para chegar em Hogwarts. Novamente pagou a conta no bar e saiu. Os saltos de seus sapatos não colaboravam com sua força de vontade em seguir caminhando, e no meio do caminho ela abandonou os sapatos e seguiu descalça.
Caminhou sozinha pelas passagens escuras que levavam ao castelo. As lágrimas continuavam a escorrer por seu rosto e quando a ideia do que Severus estaria fazendo nesse exato momento fez com que seu estomago revirasse. Ela apoiou-se numa arvore e vomitou como nunca fizera antes. Sentiu-se fraca e sonolenta, mas obrigou-se a seguir andando. Então, como uma onda forte que pega um banhista desavisado, os dementadores se fizeram sentir.
-Sou eu!- Pamela disse com a voz rouca.
Mas eles não recuaram. Pan pegou a varinha do cós da calça e continuou andando. Então ela se deu conta de que eles estavam avançando, o ar pegajoso obstruía seus pulmões e sua imaginação lhe dizia que eles estavam perto o suficiente pra tocá-la. Sentiu medo. Ela sempre evitava usar o Patrono, porque seu patrono não era comum. Era uma imensa fênix de fogo que queimava tudo a sua volta. Inclusive enviara Moody a hospital com severas queimaduras ao final da aula onde ele tentava ensinar-lhe a conter o poder. Mas nessa ocasião, era necessário.
-Expecto Patronum! -e nada aconteceu- Expecto Patronum! Expecto Pa...
E tudo desabou a sua volta quando o corpo alcoolizado e a mente perturbada não conseguiram mais lutar em busca de uma boa lembrança. Então ela foi enviada a um dos piores momentos de sua vida... muito antes do que ela podia lembrar.
Um corredor materializou-se a sua frente. Passos estridentes de saltos altos batendo na pedra ecoaram em seus ouvidos. Era como se ela estivesse sendo carregada.
-Crucio!
Um grito cortou o ar como uma faca faria com um pedaço de queijo.
-Ninna! Não, por favor, não toquem nela! -era a voz rouca de seu pai desesperado.
-Crucio! -e Ninna gritou novamente ainda mais alto, ainda mais próxima de Pan.
-Pamela! -exclamou Black, e ela pode ver de relance seu rosto aterrorizado- Por favor, tire ela daqui... por favor eu estou implorando, tirem a Pan daqui...
-Ela está sob nosso poder! E não hesitaremos em usá-la! Veremos o que vocês dois amam mais: Sua filha ou Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.
-Mas ela é uma criança, uma inocente! -berrou Ninna em desespero.
-Crucio!
E Black gritou de dor.
-Sirius! -berrou Ninna e Pan começou a chorar assustada, a visão do teto da cela embaçando-se pelas lágrimas e o peito explodindo em um choro aterrorizante. -Pan! Filha está tudo bem... acalme-se querida, acalme-se... -soluçava Ninna em meio aos gritos contidos de Sirius.
-Onde está Você-Sabe-Quem?
-Harry acabou com ele! -disse Sirius embargado pelo sofrimento, mas ainda assim bastante petulante- Vocês não souberam das noticias?!
-Só os idiotas acreditariam nisso, Black! Um bebê acabando com o Lorde das Trevas! Ora, francamente! Onde ele está?! -berrou a mulher de voz ríspida, que segurava Pan.
-Eu não tenho como saber!
-Tragam a menina!
-Não... -gemeu Ninna- Por favor, não...
-Malditos! -berrou Sirius- Afastem-se dela! Não!
Severus vinha pela rua escura, ainda bebendo uma cerveja amanteigada. Pensava que nunca mais iria fazer aquilo de novo. Não era uma boa sensação. Rosmerta era uma companhia agradável e sempre confessara sentimentos por ele, mas não era certo substituir Pan com o corpo de outra mulher. Ele apenas não podia lidar com aquilo... Não podia de repente começar a ver Pan como uma mulher e a deseja-la desse modo. Não Pan. Ela estava presente em cada aspecto de sua vida e ele jamais deixaria de amá-la, mas ela precisava de alguém que pudesse oferecer-lhe uma vida normal. E ele jamais poderia fazer isso.
Então despertando do seu devaneio alcoolizado, ele deparou-se com uma das piores cenas de sua vida. Dezenas de dementadores lançavam-se sobre uma figura pequena, de capa vermelha, como se fossem abutres sobre uma carcaça putrefeita.
-Expecto Patronum! -e uma corça prateada surgiu na ponta de sua varinha e avançou sobre os dementadores que recuaram quase instantaneamente.
Severus correu e quase caiu ao ver Pan ali, estendida no chão, o rosto inexpressivo e pálido, cheirando a bebida, com a varinha frouxa na mão fria.
-Pan! Fale comigo... Pamela, abra os olhos! Pan, por favor...
Mas ela não se movia, não reagia, sequer parecia estar respirando. Severo curvou-se sobre ela, as mãos tremulas quase não conseguira puxá-la para seu colo.
-Pan, por favor... Não vá com eles, não vá... -e lágrimas escorreram por seu rosto, a voz vacilou perdendo-se no caminho da boca- Eu amo você... Fale comigo...
-Mãe... -ela sibilou com a voz tão fraca que ele mal distinguiu a palavra.
-Mãe? -balbuciou ele sem entender
Estava delirando, mas estava viva. Ele a ergueu nos braços e a levou até o castelo. Pan murmurou palavras desconexas por toda a noite e não despertou, por mais que Madame Pomfrey forçasse chocolate quente por sua garganta. Minerva tremia sentada ao lado da neta, segurando sua mão gelada. Albus segurava Minerva pelos ombros, de pé atrás dela, o rosto preocupado e tenso. Lupin apareceu no meio da noite e em silencio examinou Pan.
-O que você acha? -perguntou Dumbledore.
-Eles não deram o beijo, mas...
-Mas? -insistiu Minerva
-Ela já devia ter reagido.
-Mas ela reagiu! Ela falou e continua falando. -Snape sussurrou, o rosto apoiado nas mãos, cada célula do seu corpo estava tensa com a espera.
Ela uma fênix, nunca um dementador poderia fazer aquilo com ela, ela sempre estaria um passo a frente e se protegeria... Pan era muito forte, muito bem treinada, muito astuciosa. Aquilo não estava certo, não estava normal... A não ser que algo tivesse desestabilizado ela emocionalmente. E a embriaguez era ainda mais estranha. Pan nunca bebera além da conta e ele não via motivos para aquele porre.
-O que vocês acham que aconteceu com ela? –Lupin perguntou.
-Ela bebeu muito e não pode combater os dementadores. –Albus disse apenas- Pan não está emocionalmente bem.
-E o que estaria deixando Pan instável a esse ponto? Beber descontroladamente e não poder se defender?
-Isso apenas ela pode responder. –Minerva murmurou- Mas com certeza tem a ver com Sirius e com esse rompimento ilógico com Severus.
-Eu estou tentando protege-la.
-Está funcionando muito bem, Severus. –Lupin disse com ironia- Se você sabia que não conseguiria lidar com ela, porque deixou que ela se envolvesse em primeiro lugar?
-Lobisomem, isso não é assunto seu. –ele defendeu-se com desprezo no olhar- Eu amo essa garota mais do que você possa supor. Não me venha com esse paternalismo vazio.
E num único golpe, Lupin rompeu o nariz de Severus, que caiu ao chão com o rosto sangrando. Antes que Severus pudesse reagir, Albus lançou Lupin ao outro lado da enfermaria, enquanto Minerva ajudava Severus a estancar o sangramento.
-Seu lobisomem imundo! –Severus gritava de varinha em punho- Eu vou arrancar sua pele e fazer um tapete!
-Venha, Ranhoso! Vamos ver quem aqui é homem suficiente!
-Já chega! –Minerva gritou.
-Acalmem-se! –Albus disse com vigor, finalizando a discussão que embrenhou-se por termos cada vez mais degradantes.- Remus, você passou dos limites! Eu vejo você na sua sala em alguns minutos e trate de acalmar seus ânimos! Severus você aprenda a controlar sua língua e vá chamar Poppy para reparar esse seu nariz imenso antes que você consiga uma anemia!
Finalizada a discussão, Minerva ainda tremula voltou ao lado da neta, que estava começando a acordar.
-Ouvi gritos. –ela disse num sussurro rouco.
-Oh, minha querida! –Minerva não conteve o choro- Eu não aguentava mais esperar você acordar! Eu estava tão angustiada...
-Vovó... eu não me lembro de nada. O que aconteceu comigo?
-Você bebeu muito e foi atacada por dementadores. Severus conseguiu chegar a tempo e trazer você.
-Minha cabeça dói muito. E tem um gosto horrível na minha boca.
-Você agora percebe porque não deve beber tanto?
-Não era minha intenção... eu só me sentia cada vez melhor e então segui bebendo. Quem você disse que me encontrou?
-Severus. Ele está bem.
-Agora eu me lembro porque bebi tanto. –Pan murmurou- Eu não acredito que ele siga vendo Rosmerta! Eu seria capaz de mata-los nesse momento!
-O que? Severus e Rosmerta? Novamente? E vocês?
-Eu não sei... Nós terminamos definitivamente agora. –e Pan desistiu de fazer-se de forte e enquanto Minerva computava a informação, o queixo tremulo de Pan a traiu.
-Querida... –Minerva a abraçou.
-Eu sou apenas uma criança, vovó. Uma criança tola que está iludida a respeito de um homem. Nem serei a primeira nem a ultima...]
-Você não está iludida. –Severus retornava com o nariz cheio de algodões. Sentou-se ao lado dela, na poltrona e apoiou a cabeça para trás- Eu não sei lidar com isso Pan. Eu achei que soubesse, mas eu não posso ver você como uma mulher. Não é certo de nenhuma forma.
-Severus, eu acho melhor vocês conversarem outra hora...
-Não, Minerva. Eu não vou esperar. Se você nos der licença, eu acredito que Pan e eu temos que discutir nosso futuro agora.
Notas da Autora:
Daniela Snape e Eroneechan:
Continuaaaando...
Obrigadão por ler gente bonita!
