Capítulo Vigésimo Quinto

Pearll apenas olhava do pai para a sobrinha e só então focava sua atenção em Fawkes. Parecia miserável, dolorida e enfurecida. Percebendo que ela não diria nada, Albus sentou-se na mesinha de centro e tomou as mãos dela nas suas.

-Querida, nós estamos esperando.

-Eu não sei qual a melhor forma de abordar isso. –ela confessou olhando para suas mãos, protegidas na concha formada pelas do pai.

-Se você for direto ao ponto...

-Oh, você não vai estar preparado para que eu vá direto ao ponto.

-Fawkes? –Pan sibilou aproximando-se da ave- Porque minha tia catalogaria você como "um cafajeste" ?

- É vergonhoso de diversas maneiras.–Pearll gemeu desalentada.

Albus ficou de pé e foi até a ave, que curiosamente pareceu encolher-se.

-Cafajeste é um termo que se usa para tratar homens vulgares. –ele murmurou olhando para a neta e logo em seguida para Fawkes, como se convidasse Pan a pensar junto com ele- Há um humano dentro de toda fênix, como Arya nos explicou quando você queimou minha neta e a marcou como sua igual.

-Oh, Meu Merlin! –Pan gritou- Eric? Eric, é você?

Não houve resposta, mas pela intensificação do choro de Pearll, eles compreenderam do que se tratava. Fawkes voou até o quarto de Albus.

-Eu.. eu não posso acreditar! Como eu nunca percebi isso? –Pan murmurou enfurecida- Eu deveria saber, deveria ter percebido!

-Ele tomava bastante cuidado para não ser descoberto. –Pearll informou, observando o homem surgir vestido num dos efusivos roupões de seu pai.

Albus estava boquiaberto, e olhava para o poleiro sem nada dizer. Apenas quando Eric surgiu, ele esboçou uma reação mais efetiva. Avançou a passos lentos e deteve-se diante do homem, seus punhos cerrados.

-Como eu devo me sentir?

-Albus, eu nunca tive más intençõ ê me conhece há décadas.

-Não, nem de longe eu conheço você! Eu tive por perto de mim, da minha familia, não uma criatura pura, mas sim uma capaz de trair tão intensamente que muito me admira que você seja de fato uma fênix e não uma serpente!

-Não se refira assim a mim, meu querido mestre! Não me magoe quando eu nunca tive a intenção de ferir ninguém. Eu jamais poderia causar algum mal intencional a Pearll, amando-a tão ferozmente como o faço.

-Olhe para ela e me diga se você ocasionou algum bem! –Albus berrou, ficando muito vermelho e trêmulo.

-Dumbie, venha... Venha, sente-se aqui! –Pan adiantou-se- Respire fundo e fique calmo, nós vamos contornar toda essa situação.

- Você vai desaparecer daqui, até que eu esteja pronto para lidar com você de novo. Independente de todos esses anos, Fawkes, independente de todo nosso companheirismo... -ele ergueu uma mão, restringindo e adivinhando o que a Fênix iria dizer- Minha família supera isso. -seu rosto que já estava triste, sombreou ainda mais- Eu sinto que você me traiu, eu sinto que você poderia ter feito isso de outra forma. Eu sempre estive aqui, eu saberia como proceder se você tivesse me perguntado a respeito, se tivesse feito como Severus fez, em relação à Pan. Mas você enganou minha filha. Minha única filha. Enganou a todos nós. Quando, e se ela o perdoar, voltaremos a conversar. Por enquanto, encontre um lugar longe de mim.

-Albus!

-Pamela, não o defenda!

Pan ficou estática, olhando da tia para Eric e então para Dumbledore, mais furiso do que ela jamais vira na vida. P parecia assustada devido à explosão de fúria do pai, mas sua mágoa superava isso e ela apenas abaixou os olhos , fugindo da sobrinha. Eric estava surpreso, tentou aproximar-se de Albus, mas Pan o deteve.

-Eric, vá. –ela pediu.

-Deixando tudo desordenado assim? –ele tentou resistir.

-Não há nada que se possa fazer agora. Vá. E não deixe minha avó descobrir nada por enquanto. -Pan murmurou- Ela encontraria uma forma de te matar de verdade.

-Pearll...? –ele se aproximou dela, e o feitiço de Albus não o atingiu por meros centímetros.

Todos se sobressaltaram, inclusive o proprio Albus pareceu se dar conta do que havia feito. Ele atacara Fawkes, num impulso cruel, mas atacara.

-Apenas vá embora. –ele disse derrotado- Vá embora, nos dê algum espaço pra pensar.

Eric dirigiu-se até a porta e saiu. Pan ajoelhou-se diante da tia.

-Você está bem?

-Descubra o que puder. –ela sibilou, encarando a sobrinha diretamente nos olhos.

Pan acatou o pedido, ficou de pé e correu para a porta, rezando para encontrar Eric antes que ele fosse embora. Ele estava sentado na escadaria. Pan sentou-se ao lado dele.

-Nós podemos conversar, se você quiser. –Pan disse, segurando o braço dele.

-Você não me repudia?

-Como eu poderia? Eu sou um pedaço de você, eu tenho muitas das suas memórias, eu conheço você e sei que você é bom. Eu ainda não entendo porque você não se identificou nunca, mas eu posso acreditar que houve um motivo sério para isso.

-Como eu poderia me identificar? Como eu diria a Albus que me apaixonei pela filha dele?

-Você deve saber que Albus ia preferir isso a ser enganado. Eu jamais o vi tão irado.

-Nem eu. Me entristece ser o motivo disso, eu poderia muito bem modificar algumas memórias, mas eu não quero viver o resto da vida de Pearll sendo um amante negligente. Eu sei que a partir de agora, minha ajuda efetiva será mais necessária.

-Então você está se revelando?

-Sim. É o que me resta fazer.

-Vamos até a masmorra, o Sev deve estar por lá.

-Falar sobre isso, Pan? Com Snape? –ele parecia miserável- Acho melhor evitar mais julgamento indefinido.

-Se o Sev te ouvir, ele vai te entender.

-Pode ser que sim. Mas no momento, eu quero que você se foque em outra coisa.

-Eu vou cuidar da tia Pearll, fique tranquilo.

-Eu duvido que ela permita que alguém cuide dela, preparem-se para que ela desapareça. Mas não é problema, eu sei como encontrá-la, sei como encontrar você. É o suficiente, agora que Albus me repudia. Em todo caso, não era isso que eu ia dizer.

-Então diga.

-Não esteja grávida. Por favor, pense sobre isso, coloque-se no meio de uma guerra e imagine como será com uma criança ali. Eu tive um filho, não existe nada mais forte nesse mundo do que o que seriamos capazes de fazer por nossos filhos.

-Como eu evitaria estar grávida?

-Há modos trouxas, você sabe. Talvez ainda esteja em tempo.

-O Sev enlouqueceria, Fawkes. Ele não concordaria. E eu jamais faria isso sem combinar com ele. De qualquer modo, eu quero o bebe que provavelmente esteja carregando. Não sei explicar como eu sei disso tão intensamente, mas eu quero.

-Então me prometa uma coisa.

-Talvez eu prometa.

-Se acaso surgir uma guerra, como todos imaginamos, nós vamos escondê-lo, ocultá-lo do mundo... Ainda que signifique afastar seu filho de você. Ele ficará vivo e você jamais morrerá. Sempre pense nisso.

Pan apenas observou o ponto onde Fawkes aparatou, deixando o roupão dourado de Albus no chão. Pousou a mão no ventre e abaixou a cabeça. Ela faria qualquer coisa por aquela criança. Qualquer coisa.

Com isso em mente, ela decidiu ir até as masmorras e dar espaço para que Pearll e Dumbledore pudessem ajustar os animos. Encontrou Severus adormecido, e ajustou-se ao corpo dele mesmo sabendo que não conseguiria dormir. Ficou presa em seus pensamentos, imaginando que havia sido bom que Albus estivesse tão furioso sobre Eric que conseguisse esquecer do que havia acontecido entre ela e Severus. Imaginava também que Pearll eventualmente perdoaria Eric, ou Fawkes, e que tudo se resolveria. Ela sabia que aqueles dois se amavam e que mesmo com todo mistério envolvendo Eric, Pearll jamais deixou que aquilo abalasse a relação dos dois.

-Como está Hope? –Severus perguntou quando abriu os olhos, muito tempo depois da chegada dela, e a viu ali, perdida em pensamentos, encarando o teto.

-Ela está bem, afortunadamente. Tia P conseguiu pensar numa solução.

E contou todo o acontecido a ele, reiterando que mesmo que não conseguisse compreender as motivações de Eric, estava do lado dele.

-Não deve estar sendo um dia muito bom para Albus. –ele comentou no final- Primeiro ele descobre sobre nós, depois que vai ser bisavô e por fim que era sogro do proprio passarinho. Ele deve estar possesso.

-Eu não quero nem pensar no que pode acontecer quando a vovó descobrir tudo.

-Ela não precisa saber de nada. Albus não é louco de contar, mesmo estando furioso. Ele sabe que há coisas das quais não se pode fugir.

-Eu tentarei ter tudo pronto para o casamento antes de precisarmos dar muitas explicações.

-Sim, eu acho mais apropriado que casemos antes de começarem a falar muito a seu respeito. Se bem que já falam muito a seu respeito há anos.

-Você deve voltar a dormir. –ela murmurou, acariciando o rosto dele- Eu tenho certeza de que você passou a noite em claro, com tantas preocupações em mente.

-Está enganada, querida. Eu passei o dia inteiro cochilando aqui do seu lado. –ele mentiu- Mas eu acho que é melhor eu descansar um pouco mais. Você ficará aqui?

-Sim. Eu vou apenas ler minha correspondência, tomar um banho, comer alguma coisa e volto pra cama.

-Eu deixei suas cartas na primeira gaveta da cômoda. –ele apontou para o móvel no canto do quarto.

-Ok. –ela o beijou- Boa noite.

Pan pegou as cartas e foi para o escritório. As primeiras que leu, apenas queriam noticias sobre Hope, e atualizações sobre o caso que ela fora designada a investigar. Precisaria conversar com Albus para saber o quanto deveria informar ao Ministério sobre Pettigrew e Voldemort. A quinta carta que abriu, era sua escalação para estar de guarda na Copa de Quadribol. Seu turno iniciaria justamente depois do jogo, e ela era grata por isso. Pelo menos poderia ver a partida e aproveitar bem o ingresso que reservara havia meses. A sexta carta era de Pearll, perguntando desesperadamente onde ela estava. A sétima e ultima, era de Fudge, informando que ela deveria estar ciente de que precisaria se apresentar no Ministério na quarta feira.

Finalmente, já devorando o sanduiche que pedira aos elfos, ela se recosta confortavelmente no sofá imaginando que se for para o quarto, Severus irá despertar. Com a cabeça cheia de coisas em que pensar, Pan adormece imaginando que a cor do seu vestido de casamento deveria ser vermelho.