Capítulo Vigésimo Sexto

Pan apresentou-se no Ministério naquela quarta-feira de acordo com o que Fudge solicitara. Usava o traje de auror, já que vinha diretamente de um de seus turnos. Imaginou que receberia as ordens diretamente do Ministro, mas quem a recebeu foi uma mulher estranha, que Pan conhecia apenas de vista, e que usava diversos tons combinantes de rosa. Dolores Umbridge.

-Hem hem. –ela pigarreou, para chamar a atenção da auror e o máximo que conseguiu foi que Pan olhasse para os lados, imaginando o que teria produzido um som tão estranho- HEM HEM! –ela pigarreou mais alto, e dessa vez, Pan virou-se completamente, e a encontrou parada no meio da sala de espera do Ministro.

-Devo perguntar quem é a senhora? –Pan arriscou, após ser observada atenta e longamente pela bruxa de veludo rosa.

-Eu sou Dolores Umbridge. Secretária Sênior do Ministro. Eu conduzirei nossa reunião de hoje.

-Suponho que devamos nos sentar então? –Pan sugeriu, já que estava começando a ficar incomodada em estar olhando para baixo.

A mulher apenas indicou uma porta, e Pan seguiu por ela. Tomou um susto quando percebeu que aquele era o lugar mais rosa que ela já vira em toda a vida. Tudo. Paredes, teto e piso. E todos os padrões de ornamentação variavam em tons que iam do mais leve rosado ao violeta. Sentou-se numa cadeira de madeira, acolchoada em veludo pink, conforme indicado pela mulher.

-Como Secretária Sênior do Ministro eu tenho acesso a informações que a maior parte dos outros funcionários do Ministério não tem, como por exemplo, que você ainda possui A Marca.

-Me desculpe, o que?

-A Marca, que todos os bruxos adolescentes possuem até atingirem a maioridade.

-Ok... –Pan disse, imaginando onde ela chegaria com aquilo.

-Não sei se você sabe, mas A Marca não serve apenas para controlar o uso indevido de magia por aqueles que ainda não estão aptos. Ela serve para localizar bruxinhos que por ventura venham a se perder, serve para proteger a identidade dessas crianças em meio a comunidade bruxa e indicam, quando numa idade muito precoce, relações sexuais, o que na maior parte das vezes pode ser considerado abuso.

Então como se tivesse sido esbofeteada, Pan soube. A Fênix fizera com que ela crescesse muito rápido, mas para o Ministério da Magia, ela não devia ter mais do que treze anos. Sim, aquilo acontecido entre ela e Severus seria considerado abuso sexual e era obrigação de algum encarregado cuidar disso. Quando alguém bateu na porta, e a mulher rosa levantou-se para abrir, admitindo Minerva e Dumbledore, Pan sentiu que sua vida tinha acabado ali.

-Pan? –Minerva murmurou, indo rapidamente até a neta- O que você faz aqui?

-Oh, Merlin... –Pan gemeu, pedindo ajuda a Dumbledore.

-Sentem-se, por favor! –Umbridge indicou um par de cadeiras, surgido do nada, que ladearam Pan.

Então, calmamente e depois de elogiar o senso de decoração de Dolores Umbrigde, Albus sentou-se, indicando que Minerva, que olhava para todos muito desconfiada, fizesse o mesmo.

-Tenho certeza de que o que está acontecendo aqui é o mal entendido mais hilário de todos! –ele disse alegremente, mas nem assim conseguiu disfarçar seu desconforto.

-O que nos traz aqui é um delicado assunto de abuso sexual. –a mulher, Umbridge, não estava nem um pouco disposta a facilitar as coisas.

-Abuso sexual? Em Hogwarts? –Minerva alarmou-se, falando em falsete.

-Nas masmorras, mais precisamente.

Então após um minuto inteiro de reflexão, em que foi mantido o mais tenso dos silêncios, Minerva se ergueu e deixou o escritório. Albus sequer se desculpou e foi atrás dela. Pan se sentia a mais humilhada das criaturas, mas aquilo não ia ficar assim.

-Eu não sei o que aconteceu com sua avó, ou com o Professor Dumbledore, mas eu acredito que devemos continuar com o seu depoimento. Quem foi seu agressor, Pamela?

-Não houve agressão. Mas agora nós estamos prestes a testemunhar um assassinato! Ou um Processo Administrativo muito bem aplicado! Anos atrás, quando eu recebia uma carta para qualquer magia produzida fora de Hogwarts quando eu estava estudando na Escola Preparatória de Aurores, eu solicitei, com o aval dos meus avós e responsáveis, que fosse retirada de mim essa maldita Marca. O processo foi julgado e considerado pertinente. E porque agora, quando eu já me transformei numa mulher feita e estou planejando meu casamento, o fato de eu ter perdido a virgindade resulta numa reunião completamente humilhante e vexatória como essa? O que vocês pretendem? Apenas me constranger, ou o que mais?

-Severus Snape foi seu parceiro?

-Isso não é assunto seu, Dolores Umbridge! –Pan estourou, sacando a varinha- Não ouse indiciar ninguém por isso, e que esse assunto não saia de dentro dessas paredes! Você deve saber o quão perigosa eu posso ser, e eu sugiro que você evite cruzar meu caminho!

E se retirou, batendo fortemente a porta ao passar. Buscou em sua mente por lugares onde Minerva poderia estar, e identificou que ela estava saindo do Ministério, e Albus estava com ela. Certamente iriam para Hogwarts, ou para casa. Procurando Severus em sua mente, Pan identificou-o num lugar distante e estranho. Podia aparatar para lá, mas Minerva nesse momento era mais importante. Quando sentiu que eles estavam em casa, aparatou diretamente na sala de jantar.

-Vovó, eu posso explicar! –ela começou, observando a face de desgosto de Minerva, que sentada numa poltrona, com uma almofada no colo, parecia prestes a chorar.

-Então comece a falar! –ela berrou- Como, por todos os deuses, eu descubro que você se entregou a Severus numa sala cor de rosa no meio do Ministério da Magia? Por que você não falou comigo? Por que não me contou?

-Ficou mais complexo do que isso... –Pan sentou-se ao lado dela- Tudo o que importa agora é que nós estamos nos preparando para casar. Fomos longe demais, eu sei. Não foi como se um de nós pudesse evitar.

-Vocês irão se casar? –ela perguntou chorosa.

-Muito, muito em breve. –Pan segurou suas mãos- Estamos buscando uma casa. Desde que tudo aconteceu, poucos dias atrás, nós decidimos que não seria decente permanecer dessa forma.

-Severus está comprometido nisso?

-Sim, ele está. –Pan sorriu abertamente- Talvez mais do que eu, ele se sente imensamente mal por termos ido tão longe antes de estarmos casados. Acho que a mente dele funciona numa frequência entre a de meu namorado e a de meu pai.

-Eu sei. Eu posso... ajudar? –Minerva pediu, deixando Pan perplexa. Ela imaginava precisar proteger-se alguns feitiços enfurecidos, mas Minerva parecia apenas um pouco desgostosa- Quando sua mãe se casou, ela apenas fugiu para Las Vegas e apareceu aqui com um imenso diamante no dedo. Eu quero estar com você quando isso aconteça... eu quero, participar. Eu juro que não estou magoada, Pan. Eu entendo você, eu sei como as coisas acontecem. Mas...

-Eu estava pensando num vestido... –Pan segredou-lhe- Eu sei que faltam muitos outros preparativos, legais principalmente, mas eu não posso evitar de pensar no meu vestido!

-Os preparativos legais ficam por minha parte. –Albus anunciou- Cuidarei também para que A Marca seja definitivamente retirada de você. Eu já enviei meu patrono a Severus, e ele deve estar chegando a qualquer instante.

-Vovó, por favor... Não pegue pesado com ele.

-É, Minerva. –Albus disse sentando-se entre as duas- De alguma forma, nós já sabíamos que isso estava por vir. E eu não esperava um casamento, não da parte de Pan. Mas ele faz questão, então entenda que o rapaz tem a melhor das intenções.

-Por mim está tudo ok. –ela disse, séria e com uma sobrancelha erguida- Eu não vou me alterar porque sei que quando Sirius descobrir sobre isso ele vai enlouquecer. Não vou gastar meu tempo lamentando sua virgindade, eu já não esperava que você a tivesse faz alguns meses.

-Vovó!

-Eu lhe disse que estar envolvida com um homem mais velho implica em coisas que nós não conseguimos evitar.

Nesse momento, Albus ergueu-se para atender a porta, já que ouvira o som da aparatação de Severus no jardim. Quando ele entrou, sentiu diretamente o clima de desconforto no ar. Pan ficou de pé e foi até ele, abraçando-o.

-Você está bem? –ele perguntou segurando o queixo dela por um instante, observando seu rosto.

-Estou. –ela sorriu- Dumbie e vovó, eu quero conversar com ele antes. Iremos até a biblioteca, vocês se importam?

-Não, eu vou preparar um chá. –Minerva disse ficando de pé, sua mente muito longe do que estava acontecendo na sala. Albus segurou sua mão e eles foram juntos até a cozinha. No caminho Pan escutou- Você acha que Pan gostaria de usar branco em seu casamento?

-Branco não é exatamente a cor dela, amor. Comece a pensar num vermelho...

-O que está havendo? –Severus, que também ouvira a interação entre os dois, encarou Pan meio alarmado.

Rapidamente Pan lhe contou sobre o acontecido no Ministério. Severus estava lívido, entre o furioso e o envergonhado.

-Eu não acredito que você precisou passar por isso! –ele disse profundamente ofendido- E Minerva apenas se retirou do local?

-Acho que ela ficou tão indignada pela situação como você. Eu já não devia ter A Marca, e em casos de abuso sexual, a notificação aos pais e responsáveis é feita imediatamente. No meu caso, eles esperaram alguns dias, eles realmente quiseram me colocar numa situação constrangedora. Ou estavam tentando montar um caso sólido contra você.

-Então agora o fato de que vamos nos casar já não é, de nenhum modo, segredo para ninguém?

-Apenas para meu pai. E tia P. –Pan murmurou- Enviarei uma coruja a ela, pedindo que venha me ver, que preciso dela. Fawkes está secretamente de olho nela. Já meu pai... eu não consigo encontrá-lo e ele não respondeu minhas cartas. Nem as de Harry.

-Agora me diga, amor... –ele sentou-se na escrivaninha de mogno, no meio da biblioteca, segurando Pan pela cintura e puxando-a para perto dele- Você sonha com um casamento onde todos estejam e uma festa... com um banquete...?

-Não. Não, Sev, por favor, não vamos por esse caminho. Eu sei que você não ficaria confortável e que as pessoas presentes nos encarariam com certa desaprovação. Não é a energia que eu quero presente no lugar onde eu me unirei a você até que a morte nos separe.

-Até que a minha morte nos separe. –ele disse, mas a frase que deveria ser dura soou divertida, já que ele tinha um sorriso simpático nos lábios.

-Apenas se eu permitir. –ela o beijou- Apenas também, se eu abraçar a imortalidade.

-Não é hora para falarmos disso. –ele encerrou o assunto- Veja... –enfiou a mão no bolso e retirou de lá algumas conchas peroladas, ainda sujas com um pouco de areia do mar- Encontrei uma casa. Eu achei perfeito para que possamos criar nossos filhos longe de quase tudo.

-Numa praia?

-É mais um penhasco. Um grande penhasco. Você precisaria ver para entender o que quero dizer. Será bem quente no verão, e eu imagino você dentro de um biquíni tomando o sol da manhã, e no inverno imagino que será bastante frio, o vento que vem do oceano não tem nenhuma barreira até atingir a casa. Instalarei feitiços protetores, principalmente em todo o penhasco para que não tenhamos nenhuma preocupação quando as crianças comecem a andar. E não é longe de Hogwarts, ou seja, de lareira ou aparatando, eu nunca levaria mais do que cinco minutos para estar aqui.

-A casa foi construída pro bruxos?

-Era uma das casas de Nicolal Flamel e Perenelle. Albus sugeriu. Eu irei comprá-la de Anabeth assim que você me diga se está aprovado.

Anabeth era uma tataraneta de Flamel. Pan a conhecera anos antes, ela já devia ter seus oitenta anos, talvez mais, a idade bruxa confundia muito a mente dela até hoje.

-Você gostou do lugar? –Pan perguntou.

-É perfeito. Eu estive lá noite passada. Eu nunca vi o céu daquela forma. Há um laboratório de Poções no Porão. Cinco quartos. Uma imensa biblioteca, ainda repleta de exemplares raros e que ainda tem espaço para todos os livros que eu tenho na antiga casa dos meus pais. Há janelas de dois metros de altura por todos os lados... é uma pequena mansão, marfim. Tem um imenso ipê rosa na frente. A Sala de Estar é ampla... um pouco luxuosa demais, mas bastante ampla. Tem eletricidade. Há uma cidadezinha bem próxima de lá, pode-se observá-la bem abaixo, mais perto da praia. É uma cidade trouxa, mas isso não tem problema, não é?

Severus fazia a ideia parecer excelente, longe de toda e qualquer perturbação. Um lugar que seria fácil de proteger. E principalmente, para quem viveu uma infância terrível numa casa odiosa, Pan sabia que ele jamais escolheria um lugar que não fosse dar as mais doces recordações aos seus filhos.

-Mas se você preferir, há uma bela casa no Beco Diagonal, três pisos e um porão...

-Não, eu acho que se pudermos pagar por essa casa do litoral... é perfeito.

-Você sequer viu o lugar!

-Eu estou vendo que você amou o lugar. É o suficiente. E se eu for cuidadosa, certamente terei como voar sem ser vista, sobre o oceano.

-Há um enorme bosque que circula todo o lugar. Você também pode ter seus momentos "fênix na floresta", como faz em Hogwarts.

-Então... é perfeito. –Pan o beijou- Está tudo perfeito. Eu apenas...

-O que?

-Eu preciso encontrar meu pai. Já vão quase dois meses nisso, Sev... Ele não me responde, estou começando a me preocupar.

-Ele estará bem. Ele não foi pego.

Pan aconchegou-se nos braços dele, respirando o cheiro de maresia que havia em seus cabelos. Era um cheiro reconfortante e agradável.

-Lista de convidados? –Minerva murmurou, segurando um bloco de papel e entrando na biblioteca, ignorando o fato de poderia estar interrompendo algo.

-Hope, Lupin, Tia P, você e Albus. –Pan respondeu.

-Alguém mais, Sev?

-Não da minha parte.

-Mas apenas meia dúzia de pessoas? –Minerva pareceu desapontada.

-Lupin e Hope serão os padrinhos, certo? –Severus perguntou a Pan.

-Sim. Se a Tia Pearll aparecer, ela também pode ser uma testemunha.

-Albus disse que realizará a cerimônia e eu preciso estar lá para entregar você a ele. –Minerva ajuntou.

-Temos a quantidade exata de pessoas. –Pan deu o ultimato-Eu preciso voltar ao trabalho. Eu sequer devia ter deixado o Ministério, hoje é meu dia de alerta. E pela manhã terei que ir a Azkaban.

-Azkaban? –a voz de Minerva tremeu- Você...?

-Eu ainda não posso tirar a mamãe de lá, vovó, me perdoe. Eu preciso que tudo esteja perfeitamente articulado. Mas eu juro que irei vê-la, juro que... farei o possível para deixá-la mais confortável.

Mas aquilo não foi possível. Pan estaria numa ala perigosa e não poderia deixar seu posto até a hora de partir. Em todo caso, quando descia as escadas para pegar o barco que levaria os aurores no final daquela missão de 24 horas, ela teve um vislumbre da cela de Ninna. Ela estava com os cabelos sem vida jogados sobre um ombro, usava uma escova para alinhá-los. As vestes estavam limpas e ela parecia menos selvagem do que da ultima vez.

Moody observou Pan parar diante da cela, guardando uma certa distancia, segurando a varinha. Ambos podiam ouvir que ela cantarolava uma canção indecifrável. Moody pôs uma mão paternal sobre o ombro de Pan e a puxou de leve, como estimulando-a a sair dali. Mas Pan avançou alguns passos e observou mais de perto.

-Nos parecemos. –ela disse, após esquadrinhar o rosto de Ninna- Ela tem o cabelo vermelho... algo no nosso nariz se parece.

-Ela me lembra Minerva mais jovem. Os olhos grandes, algo nos lábios.

-Você a conheceu? Quero dizer, quando ela estava na Ordem da Fênix, ou era mais jovem...?

-Ninna era a garotinha de Dumbledore. Ela sempre estava onde ele estava, mesmo quando Minerva e ele haviam se separado. Eu jamais poderia imaginar vê-la num lugar assim. Não é certo, apenas... não é certo. –e com isso ele conseguiu fazer com que Pan o seguisse para fora- Como seu avô costuma sempre dizer: são nossas escolhas que definem quem realmente vamos ser.

-Sim... –Pan ainda olhou longamente para trás- Nossas ações também podem ajudar a definir nosso caráter. Somos guerreiros ou vítimas, Alastor?

-Somos guerreiros. –ele disse com convicção- Do tipo mais valoroso: escolhemos uma guerra para lutar.

-E uma causa.

-Justiça. –ele disse ajudando-a a entrar no barco.

-Justiça... –e olhando pela ultima vez para a fortaleza de Azkaban, Pan decidiu que quando voltasse ali, levaria Nina consigo. Custasse o que fosse preciso custar. E que fosse logo, antes que sua barriga atrapalhasse os planos- Justiça. –sibilou apenas para si mesma. Seria tudo ou nada.

Notas da Autora:

( Oe \o

( Então ~se esconde~ faz tempo né? Mas estou por aqui ainda... muita coisa pra fazer e zás... vocês certamente entendem né?

( Por isso, por serem queridos leitores muito compreensivos, aqui foi um capitulozão! Espero as rewiews!