Capítulo Vigésimo Nono

Amanheceu pela primeira vez naquela casa, agora um lar, onde Severus tinha plena certeza de que conseguiria fazer sua mulher feliz, custasse o que fosse preciso custar. Ele e Pan já tinham dormido juntos algumas vezes, mas nunca de forma tão tranquila. Ele despertou, olhando pela janela semioculta por cortinas marfim e concluiu que precisaria trocá-las por cortinas mais escuras, que preservassem mais o aconchego que apenas a penumbra é capaz de produzir. Pan dormia tão pacificamente que ele tinha medo de que qualquer movimento que fizesse pudesse despertá-la. Sorriu, vendo como a luz do sol era praticamente sugada pela pele e pelos cabelos dela. Aquela era uma mulher tão única que ele jamais poderia encontrar palavras para definir o quanto a queria. Lembrou-se dos votos proferidos na tarde anterior e soube que mesmo tendo dito cada palavra de todo o coração, elas ainda não eram capazes de expressar o quanto ele a amava.

Saiu da cama com cuidado e foi fechar melhor as cortinas para preservar o sono dela. Vestiu um roupão, estando completamente nu, e deixou o quarto. Abaixou as proteções da casa, para que finalmente o elfo doméstico que conseguira em Hogwarts pudesse chegar para preparar o café da manhã. Mas ao invés disso, quase uma dúzia de corujas entrou pela janela fazendo estardalhaço na sala de estar. O Profeta Diário daquele dia, berradores, pergaminhos... a maioria endereçada a Pan, mas alguns para ele mesmo. Antes de abrir o lacre da primeira carta, a lareira estalou em chamas esverdeadas, e ele se viu fitando a cabeça de Hope que flutuava por cima das brasas.

-Severus!

-O que aconteceu? –ele se abaixou diante da lareira, ignorando o estardalhaço que as corujas ainda faziam na sala.

-Houve um ataque no acampamento da Copa de Quadribol. Comensais da Morte... Veja... –ela estendeu o braço para fora da lareira e entregou o jornal a ele, onde na foto o espectro de uma grande caveira verde deixava uma serpente sair de sua boca, como se fosse uma língua.

Ele olhou fixamente para o jornal por um longo momento, lendo a manchete o mais rápido q podia, e logo voltou a dar atenção à moça.

-Onde você está? Estão todos bem?

-Sim, eu estou no Ministério, todos chegaram em casa em segurança. Quando o ataque ocorreu, nenhum de nós estava lá. Foi durante a noite, inicio de madrugada, em verdade.

-Alguém foi preso? Algum suspeito que...?

-É isso o que eu gostaria de saber. –ela o olhou cuidadosamente, um pouco receosa- Algum nome que você possa nos indicar como possível envolvido?

-Não. –ele murmurou após pensar por um instante- Eu não sei de nada, e tenho certeza de que vocês conhecem os nomes de todos os ex-comensais da morte que não estão em Azkaban.

-Eu não posso negar que estou um pouco desapontada, esperava que de alguma forma você pudesse me indicar alguma direção.

-Estou grato em não saber como ajudar. –ele devolveu o jornal pra ela.

-Ok. –Hope murmurou, realmente desapontada- Por favor, não incomode Pan com isso. Está tudo sob controle. Vocês precisam de um tempo sozinhos. Eu vou voltar ao trabalho agora.

-Hope! –ele chamou, quando ela recuou um pouco dentro das chamas- Tenha cuidado, você ainda está se recuperando.

-Eu sei. –ela murmurou olhando para ele com um leve sorriso- Não farei nada estupido.

E se foi. Severus então foi até a cozinha, conseguir alguns grãos para acalmar as corujas que estavam absolutamente possessas agora, e apressou-se em ler a correspondência. Quando o elfo doméstico de Hogwarts chegou ali, ele já tinha uma xícara de café a sua frente, e se perguntava o que Pan faria quando acordasse. Queria poder não contar-lhe nada, tinha tantos planos para aquele dia... Além do que tudo realmente parecia estar em ordem. Perguntava-se apenas o que estaria escrito nas cartas que eram para Pan, imaginando que Cornélius Fudge não perderia a oportunidade de importuná-la, tentando facilitar o trabalho usando as habilidades aguçadas dela.

Pediu que o elfo preparasse uma bandeja com café da manhã e colocou a correspondência dela na bandeja. Subiu as escadas e encontrou a cama vazia, a porta do banheiro fechada e o ruído característico de um chuveiro aberto denunciando que ela acordou bem disposta. Ele pôs a bandeja sobre a cama e esperou. Pan sobressaltou-se quando o viu ali, sentado na poltrona diante da janela com o jornal na mão.

-Querido...

-Bom dia. –ele murmurou com um sorriso olhando para ela, envolta apenas num roupão leve, com os cabelos úmidos e pés descalços.

-Você dormiu bem? –ela foi até o armário e separou uma roupa.

-Bem até demais. Sua correspondência está junto com seu café da manhã.

-Eu tenho correspondência? –ela franziu a testa, pegando os envelopes e pergaminhos da bandeja e repassando-os rapidamente conferindo apenas os remetentes- Fudge, Fudge, Fudge, Dumbie, Hope, Kim... Aconteceu alguma coisa?

-Sim. –ele lhe entregou o jornal e ela caminhou até a poltrona observando a manchete com um ar de quem não estava computando completamente a informação, e sentou-se no colo dele, que a envolveu com os braços, esperando que ela terminasse de ler tudo.

-Quem morreu?

-Ninguém morreu.

-Isso é estranho.

-Estranho? Essa é a palavra que você vai usar pra definir isso?

-Sim, eu imaginei que Comensais da Morte usassem a Marca Negra apenas para marcar locais de assassinatos.

-Também era usual lança-las como aviso…

-O que levou essas pessoas a um ato tão estupido e...? Você certamente já pensou em todas as possibilidades de sobre o que isso representa. O que você acha que estes loucos estavam tentando fazer?

-A profecia que Trelawney narrou na noite em que você ajudou seu pai a fugir tem um fundo incontestável de razão.

-Pettigrew, você quer dizer? Pettigrew organizou isso? O servo fiel se reergueria e tudo mais?

-Não posso afirmar, e sinceramente eu apenas considerei isso.

-Ele está, então, organizando tudo? Convocando os outros seguidores?

-Você sabe o que isso representa.

-Que ele deve estar com Voldemort, que Voldemort está influenciando tudo isso, que as coisas estão se complicando cada dia mais.

-E que devemos nos preparar. Nossas obrigações serão inúmeras e nos exigirão de forma sobre humana.

-Vai dar tudo certo. –ela murmurou sem poder ter certeza, encaixando o rosto na curva do pescoço dele, para tentar esconder o pânico que crescia em seu peito- Vai dar tudo certo, não é?

Ele não respondeu, não querendo de forma alguma dizer uma inverdade. Resumiu-se em beijar o rosto dela e aninhar seu corpo de modo protetor. O que estava por vir não seria fácil ou simples, mas ele faria de tudo pra que ela permanecesse segura e minimamente afetada. Era sua responsabilidade, era sua meta.

-Fudge certamente quer que eu vá ao Ministério. –ela murmurou- Há algo que eu possa fazer?

-Eu não sei, mas Hope disse pra você não se incomodar. Tudo está sob controle. Temos menos de uma semana até que eu precise voltar a Hogwarts e você precise voltar a trabalhar. Talvez devêssemos deixar isso de lado e nos focar um pouco em nós mesmos.

-Esse ano promete ser tão atribulado que eu sequer quero pensar no que temos pela frente. O Torneio Tribruxo representa, pelo menos, que Karkaroff estará em Hogwarts, o que por si só é um tormento a parte.

-Não se preocupe com Karkaroff. Eu darei conta dele, ele sequer olhará em sua direção se quiser se manter vivo.

-Também não faça nada estupido.

-Se ele não fizer primeiro.

Aqueles cinco primeiros dias de casados foram tranquilos e absolutamente perfeitos. Pan, fascinada com a nova casa, forçou Severus a acompanha-la em algumas compras, como tapetes, almofadas, cortinas, roupa de cama e alguns objetos decorativos para dar um ar mais pessoal ao lugar. Do mesmo modo, ela fez questão de ir até a casa dele na Rua da Fiação para recuperar dali o que quer que ele considerasse importante, como a imensa coleção de livros, e organizou tudo na casa nova. Severus começou a pensar em vender aquela casa, com tantas recordações difíceis, mas Pan teve uma ideia melhor.

-Acho que podemos transformá-la num bom esconderijo. Não sei, acredito que ela possa ser útil num futuro provável.

Aquela noite, quando ambos terminavam de limpar o laboratório de Poções que Severus insistiu em montar no porão, ouviram o pequeno elfo doméstico chamar timidamente por eles do corredor. Ele não ousava entrar em nenhum cômodo em que os dois estivessem sem antes anunciar-se exageradamente. Depois de três ou quatro flagrantes constrangedores, o pobrezinho se protegia como podia.

-Mestre? Minha Senhora?

-Sim, Greer, o que você precisa? –Pan foi até ele.

-O professor Dumbledore está esperando por vocês na Sala de Visitas. A Professora Minerva e a Senhora Pearll estão com ele.

-Estamos indo. Por favor, nos prepare um chá.

-Sim, minha senhora. –e curvando-se exageradamente, desvaneceu-se diante dos olhos dela.

Pan chamou Severus e juntos, após espanar um pouco o pó que acumularam durante a limpeza dos vidros e caldeirões, subiram as escadas. Na sala de visitas, Pearll observava as fotos que Pan colocou sobre o console da lareira. Parecia assombrada com uma delas em que Severus de fato, sorria. Era uma foto recente.

-Olá! –ela saudou animada, indo abraçar a avó.

-Devíamos ter avisado? –Minerva perguntou- Você parece cansada.

-Não, vovó! Se vocês não puderem vir na minha casa quando quiserem, quem poderá? Estamos montando o laboratório do Sev no porão. –ela explicou- Eu realmente estou um pouco cansada.

-Bom, tentaremos não demorar. –Dumbledore anunciou, após beijar-lhe a testa- O que eu tenho a dizer é rápido.

-Não tenha pressa. –Severus disse sentando-se no sofá de dois lugares, esperando que Pan se juntasse a ele.

Dumbledore e Minerva também se sentaram, mas Pearll continuou um pouco afastada, observando a decoração, olhando pela janela e deixando muito claro que não estava ali para tratar de nenhum assunto que tivesse relação com o que os pais queriam dizer. Era pessoal e particular, e Pan já imaginava do que se tratava.

-É sobre Hogwarts e as atuais conjunturas. –Dumbledore murmurou- No ano passado, você veio pra Hogwarts porque eu precisava manter você a salvo e longe do seu pai. –ele olhou diretamente para Pan- Eu tentei proteger você, usando suas habilidades para proteger o castelo. Dessa vez, sem nenhuma intenção oculta, eu preciso que você volte. Preciso que você me ajude.

-Você parece um pouco tenso. –ela comentou, olhando fixamente dentro dos olhos azuis de Albus e notando que mesmo que ele dissesse que não havia nada por trás daquilo, algo o incomodava e ele não queria dizer.

-Todos estamos. –Minerva disse- Querida, o que aconteceu na Copa Mundial pode parecer um pouco distante pra você, já que esta afastada desde que se casou, mas quanto mais pensamos a respeito, mais a coisa toma um vulto diferente e perigoso.

-Eu imagino que vocês estejam tensos por receber um ex-comensal da Morte em Hogwarts, quando eles se reuniram pra fazer uma baderna daquelas durante a Copa, estou certo? –Severus disse.

-Espero que você não esteja se referindo a si mesmo com isso?

-Karkaroff. –ele disse, desvanecendo a duvida de Minerva.

-É justamente por isso que eu estou temeroso em trazer você de volta a Hogwarts, num ano onde até mesmo Karkaroff estará lá para importunar você. –Dumbledore disse, olhando Pan nos olhos, claramente preocupado- Mas é o Torneio Tribruxo, e eu usaria de bom grado sua ajuda, suas técnicas, suas características especiais, seu sendo de defesa e sua impossibilidade de morrer.

-Você nem precisa pedir, Dumbie. –ela sorriu- É claro que eu estarei aos seus serviços.

-Mas há muita coisa acontecendo. E mesmo você sendo... você, pode ser perigoso.

-Se é perigoso até mesmo pra mim, porque você insistiria em levar esse Torneio a diante?

-O que seu avô quer dizer é que esse ano você terá muito o que fazer e com o que se preocupar. Sua mãe, o bebê...

-O provável bebê. –ela murmurou um pouco desapontada, por ainda não ter uma confirmação- E sobre minha mãe... Nós podemos cuidar disso de forma tão rápida que...

-Mas e depois? –Minerva perguntou- E quando ela estiver finalmente livre, quem cuidará dela? Como lidaremos com isso? Sua mãe precisará de cuidados médicos específicos, querida.

-Tia P, somos capazes de lidar com isso, certo?

-Obviamente. –Pearll disse com segurança- E Sirius está livre, temos Hope e Remus. Não há de representar problema. Não em excesso.

-Então você tem certeza? –Dumbledore insistiu- Tem certeza de que pode ficar em Hogwarts este ano?

-Onde mais eu iria querer estar? É lá onde meu marido estará e por todos os deuses! É um Torneio Tribruxo!

)))))

Quando Minerva e Dumbledore combinaram tudo com Pan, Pearll fez sinal para que a sobrinha a acompanhasse até a varanda. O vento que soprava ali era forte, mas bastante agradável, e enquanto as duas caminhavam pelo penhasco em silencio, se deixavam hipnotizar pelo horizonte e pela forte luz do luar sobre elas.

-O que houve? –Pan perguntou quando elas se sentaram no banco de ferro e mármore que Severus colocou embaixo da grande arvore onde eles se sentaram durante a pequena festa de casamento.

-Eu tenho pensado bastante sobre Eric.

-Precisamente o que, sobre ele?

-Sobre o fato de que ele talvez não tivesse realmente nenhuma opção a não ser agir daquele modo. Eu tento isolar minha raiva, as mentiras, a frustração de não ter percebido nada, de todo o resto. Eu faço isso pra tentar imaginar porque ele agiu daquela forma.

-Eu já lhe disse o que acho a respeito da atitude dele.

-Eu conclui que se eu condenar Eric por ser Fawkes, como eu poderei conviver com o fato de que você também é uma fênix?

Pan não entendeu o que uma coisa tinha a ver com a outra. Não era como se Pan e a fênix pudessem, de alguma forma, ser separadas ou reconhecidas separadamente. Como se ela tivesse uma vida dupla em alguma instancia. Resumiu-se a encarar a tia de testa franzida.

-Não entendi. –confessou.

-Eu quero dizer que quando penso em Fawkes, em como ele sempre esteve comigo, em como ele sempre me cuidou e me amparou e... como nunca me deixou sozinha... Eu acredito no que você falou sobre ele ter me esperado pela vida toda e não saber como agir quando percebeu o que sentia. Eu me pergunto o que você faria no lugar dele, e vejo que não seria nada muito diferente. A fênix delimita quem vocês são, cria um caminho onde todas as escolhas a serem feitas são difíceis e significativas demais. Muitas vezes injustas. Se eu condenar Eric por ter me escolhido, por ser quem ele é, em alguma instancia eu acabaria condenando você também, e isso eu não posso fazer, eu não tenho como considerar isso. Sobre você.

-Faz um pouco mais de sentido agora. –Pan murmurou- Eu quero que você saiba, ou que considere isso acima de tudo...

-O que?

-Fawkes abriu mão da imortalidade por você. Ele me queimou, me fez oque sou, porque se deu conta de que te ama. De que prefere morrer a não ter tentado estabelecer uma vida com você. Ele apenas não soube achar um caminho certo pra isso.

Pan sorriu quando Pearll não pode evitar deixou um sorriso convencido aparecer no rosto. Ela se sentia muito orgulhosa de si mesma quando pensava naquilo, e tinha toda razão. Fawkes a amava e se tornou Eric por isso. E Eric fazia o que estava ao seu alcance por ela, embora não pudesse ser tão presente.

-E o que faremos agora? –Pan perguntou-Sobre minha vó? Sobre como Dumbie se sente a respeito de Fawkes?

-Eu conversarei com a mamãe pela manhã. E meu pai precisa perdoar Fawkes. Talvez se você contar pra ele tudo o que contou pra mim...

-Eu farei isso. –Pan prometeu- Eu estou feliz, você não sabe o quanto, por saber que esse tema agora já não é tão sensível.

-Eu me dei conta de que eu não posso mais cultivar essa raiva. Eu o amo, eu não sei como fugir disso. Eu gostaria de poder encontra-lo. Você sabe onde ele está?

-Arya precisou achar outro esconderijo para o povo deles. Não tenho a menor ideia de onde ele estará com certeza, mas faria uma aposta de que ele está ajudando a irmã.

-Você sabe onde é isso?

-Não, e ninguém vai me contar. Mas ele deve aparecer em breve, eu posso tentar entrar em contato com ele. Não garanto nada.

-Espero poder resolver tudo. –ela disse um pouco preocupada.

-Eu tenho certeza que tudo dará certo. –Pan garantiu, segurando suas mãos- E mesmo que meu avô não aceite Fawkes por enquanto, você não deve se afetar com isso.

Notas da Autora:

Eu sei... eu juro que sei que foi bem sacana da minha parte pausar a história de novo!

Juro que jamais foi minha intenção, mas a vida da gente muda muito, muita coisa acontece, outras sagas acabam fazendo a gente pirar e plotar desesperadamente e no final, a gente se desvirtua do caminho.

Peço perdão a todos por ter sumido, quero deixar bem claro feito água que não gosto de ser irresponsável com Pan, mas que as vezes não dá pra evitar.

Se alguém ainda estiver por aqui, esperando pra ler e tals... vc nem sabe como me faz feliz!

Obrigada gentes lindas!

mounna