Capítulo Trigésimo

Quando Pan voltou pra sala, Albus e Minerva tinham ido embora. Pearll aparatou do jardim, e Severus estava pegando uma manta no armário.

-Sua tia?

-Já foi. –ela disse- Meus avós precisavam de mais alguma coisa?

-Não. Eles lhe deixaram um beijo. Caminhe comigo. –convidou- A noite parece estar agradável.

-Sim, ela está. –ela segurou a mão dele e o seguiu pra fora.

Depois de caminharem até a beira do penhasco, e Severus estender a manta no chão e convocar uma garrafa de hidromel e duas taças da adega, sentaram-se juntos, recostando-se nas pedras. Severus serviu as taças e deitou-se apoiando a cabeça nas pernas dela, que cuidadosamente acariciou os cabelos dele.

-Irei pra Hogwarts pela manhã.

-Eu devo ir junto? –ela perguntou.

-Você talvez devesse ir ao Ministério, reportar-se agora que as férias acabaram. Nos veríamos no almoço, se tudo corresse bem.

-Eu também gostaria de ver meu pai. Não tivemos exatamente muito tempo pra conversar no casamento.

-É uma boa ideia.

Eles ficaram em silencio por um tempo, absortos pela paisagem perfeita que parecia ser apenas deles.

-Remus está transformado. –Pan comentou fitando a lua.

-Sim. –Severus murmurou indiferente.

-Espero que ele nos deixe saber quando precisar da Poção.

-Eu o deixei com um estoque bem guarnecido, como você pediu.

Outro longo silencio.

-Você se sente pronta para fazer outro teste de gravidez? –ele perguntou- Sua menstruação ainda esta atrasada e talvez agora não seja mais indefinido, o que quer que isso signifique.

-Você acha que devemos?

-Com toda certeza.

-Farei isso amanhã. –e instantaneamente ela se sentiu ansiosa e preocupada- Eu não sei se estou pronta para saber se sim ou se não.

-Eu imaginei que você quisesse saber, que você estivesse tão ansiosa quanto eu.

-Eu estou, mas eu tenho medo. De que esteja grávida e que tudo se torne... mais confuso e perigoso... Ou de não estar e me desapontar com isso.

-Não é como se nós não pudéssemos resolver isso facilmente caso você ainda não esteja grávida. O que eu acho difícil, diante de tantas e tão intensas tentativas...

-Eu sei. –ela disse rindo- E se eu estiver?

-O que nos resta a não ser fazer o que for preciso para amar e proteger nosso filho?

-Nada. –e sorriu mais abertamente, curvando-se um pouco sobre ele e beijando-lhe a boca- Eu ainda não me imagino com um bebê nos braços, mas já tenho na mente sua imagem com nossos filhos nesse jardim.

-Filhos? –ele murmurou com um sorriso- Mais de um?

-Mais de dois. –e o beijou de novo- Quantos venham.

-Sim... –ele a puxou e fazendo-a deitar-se a seu lado, beijou-a de um modo intenso e mais passional- Quantos venham...

Quando Pan se deu conta do que estavam fazendo, ele já estava por cima dela, com uma mão explorando seu corpo, tateando por baixo da blusa... Ela o envolvia pela cintura com as pernas e sentia a ereção aparente com uma mão curiosa.

-Devemos entrar? –ele perguntou rouco e sem fôlego.

-Porque deveríamos…? –ela desabotoou o cinto dele, seus olhos queimando de excitação e seu corpo reagindo com todas suas células em resposta a ele.

Ela se perguntava se havia algo naquele homem que ela não amasse, desejasse, e até mesmo, de um modo que ela não sabia explicar, tivesse certa devoção. Não aceitava que ele fosse considerado asqueroso, repulsivo e feio. Ela via beleza ali, os traços e seus complementos. O cheiro bom, amadeirado e um pouco cítrico, proveniente do perfume que ele mesmo fazia para si, aprovado por ela... que até mesmo em contato com um pouco de suor era agradável... Os cabelos que diziam ser sebosos, em verdade lavados diariamente e macios como os dela não eram, eram realmente um pouco oleosos, mas aquilo não seria jamais um defeito a se considerar. Severus tinha músculos, um abdômen definido, braços fortes, muita força e disposição... Tinha olhos profundos e misteriosos como abismos, tinha um sorriso torto que era impossível não ser imitado, tinha uma risada desacostumada que Pan às vezes jugava pertencer apenas a ela... E tinha também, por ultimo, mas não menos importante, uma habilidade sexual que era capaz de satisfazê-la tão completamente que ela duvidava, ainda que conhecesse apenas ele, que outro homem seria capaz de igualar. Ela o amava tão completamente que se surpreendia.

-Você está muito concentrada no meu rosto, alguma coisa errada? –ele perguntou, após fazer amor com ela por tanto tempo sua energia permitiu.

Ela girou sobre a manta e enroscou-se no corpo nu dele, deixando o luar refletir-se na pele branca e cheia de pequenas cicatrizes do peito dele.

-Eu acho você bonito.

Ele riu quando computou o que ela dizia.

-Bonito? Você está preocupada que nossos filhos se pareçam mais comigo?

-Eu estaria grata se fosse assim. Com meu nariz, logico.

-Eu posso ser tudo Pan... mas bonito não.

-Você é. –ela o beijou- Aos meus olhos, e isso é o que deve importar.

-Diferente de você, que é bela aos olhos de todos, desejável por todos, indiscutivelmente perfeita em vários sentidos...

-Você acha que sem a fênix eu seria tudo isso? Quero dizer... bela assim, e tão desejável?

-Talvez não para qualquer outro homem, mas sempre seria a criatura mais perfeita do mundo pra mim. Muito do fascínio alheio por você se dá pelo seu poder, pelo que você é.

-Mas você consegue me ver, apenas a mim, sem a fênix?

-Sim, afinal foi com você que me casei. Não é como se esse fosse como o caso de Eric e Pearll.

-Mas a fênix faz parte de mim. Na verdade, é o que rege minha vida, basicamente.

-Eu sei. O que eu quero dizer é que embora eu ame tudo a seu respeito, eu não me casei com seu poder, e sim com você como mulher. A fênix pertence a você, para que você a utilize como desejar. É algo a parte, seu, não você. Você é a menina doce que eu vi crescer e a mulher esplendida que eu vi se formar... o coração puro e sem preconceitos, a força e a vitalidade. A mulher especial o bastante pra que uma criatura milenar desista da imortalidade em seu favor. Não Pan... Você tem um dom, mas esse dom ainda não define quem você é. E mesmo que seja intrínseco o bastante pra que você não possa definir onde você acaba e isso começa, eu vejo claramente esse limite.

-Você me amaria sem a fênix?

-Sim. Sem duvidas. Sem pensar. A fênix não é minha pra que eu a considere. Ela é sua e eu estarei do seu lado para apoiar você no que seja preciso, para ajuda-la em suas dividas, para sustentar e entender suas escolhas e decisões. Mas tudo depende de você. E apenas de você.

Na manhã seguinte, quando despertou já um pouco atrasado por ter ido dormir excessivamente tarde preparando malas e organizando o laboratório, ele procurou Pan na cama e não encontrou. Às vezes se sentia um pouco velho e devagar quando percebia que ela despertava sempre com a primeira luz do dia, não importava a hora em que tivesse ido dormir, e era raro vê-la preguiçosa ou enrolando na cama. Preparou-se para sair, e quando desceu as escadas, pode sentir um cheiro estranho de queimado. Parecia que Greer estava tendo problemas com o café da manhã.

Mas quando ele chegou na cozinha viu que Greer não era o problema. Pan, usando um avental bordado e concentrando-se em virar cuidadosamente suas panquecas, pedia instruções ao pequeno elfo.

-E agora? –perguntou. – As panquecas estão prontas, o bacon e os ovos também. Não estou muito segura se o café parece estar como o Sev gosta, mas...

-Eu acho que está tudo certo, minha senhora. –o elfo, que parecia ter sido ordenado a ficar sentado na mesa da cozinha com as pernas pendendo, observava o resultado do rompante culinário de Pan.

-E esse cheiro de queimado? –Severus perguntou, antes de dizer qualquer outra coisa.

-Bom dia! –Pan sorriu, tentando parecer ao máximo com uma dona de casa.

-Bom dia. –ele se aproximou e a beijou por um instante- Você sabe que não precisa cozinhar pra mim.

-Bom, eu queria fazer algo e ver se sou mesmo minimamente dotada com coisas de casa. E antes que você reclame, eu queimei as primeiras panquecas, mas depois da terceira ou quarta acabei pegando o jeito.

-Sim, isso eu posso ver. –ele examinou o resultado do esforço dela- Devemos comer agora, ou você ainda tem que preparar mais alguma coisa?

-Não, está tudo certo, eu acho. –e olhou para Greer um pouco ansiosa.

-Sim, minha senhora, parece que está.

-Ok, Greer, obrigada pela ajuda! Você pode sair dai.

E parecendo aliviado, o pequeno desapareceu da cozinha, deixando o casal a sós. Eles comeram após certificarem-se de que estava tudo tragável. Severus estava quieto e silencioso, um pouco pensativo. Pan imaginava que faltariam horas naquele dia para que ela pudesse fazer tudo o que tinha em mente.

-Eu estava pensando... –ela começou- Que talvez nós não precisemos ficar em Hogwarts. Não sempre.

-Eu estava pensando em virmos pra casa nos fins de semana. Ou talvez um pouco mais, antes das delegações chegarem.

-Me dá pena... Nós apenas nos casamos, apenas nos instalamos aqui e precisamos deixar tudo pra trás.

-Sim, é uma pena. Mas não estamos deixando nada pra trás. É apenas uma pequena pausa. Sempre teremos um lugar pra onde escapar.

-Sim. –ela disse apenas, ainda pensando que de fato não queria sair dali por mais do que um dia de trabalho. Queria voltar pra casa durante as noites, dormir em sua cama, preparar seu café da manhã e sair pra correr no bosque. Mas sabia que não podiam evitar aquilo.

-Estive pensando sobre como ficaremos em Hogwarts. Temos as masmorras, sua torre... Não vejo sentido algum em estarmos separados.

-De fato. Eu apenas gostaria de manter meu escritório onde ele é agora. Estrategicamente falando. Embora eu considere que Dumbie vá solicitar que eu desocupe a torre para alguma delegação, ou não sei... Isso não significa que eu perderei a oportunidade de dormir com você todas as noites.

-Espero que não signifique mesmo. –ele comentou com um riso torto e levantou-se da mesa.

Foi até ela e a beijou, elogiando o café da manhã na medida do possível sem soar critico ou bajulador demais.

-Você vai melhorar, se realmente quer aprender. –prometeu, beijando-a mais uma vez, dizendo que a esperava em Hogwarts pro jantar.

Mas não foi possível pra Pan chegar lá na hora combinada. Levou mais tempo do que ela imaginou no Ministério aquela tarde, e quando finalmente pode ir ver o pai, anoitecia. Enviou um aviso para Severus, de que dormiria em casa e estaria em Hogwarts na manhã seguinte, e saiu com Hope para comprar comida chinesa. Jantaram e conversaram até que Pan se deu conta do tarde que já era, e foi pra casa pensando nos tópicos da conversa que tivera com Sirius. Ela precisava se acostumar a ter um pai, principalmente um pai que odiasse Severus.

Despertou na manhã seguinte com Greer chamando seu nome, dizendo que um homem, Amos Diggory, estava esperando para falar com ela na lareira. Pan apenas enfiou-se num roupão e desceu as escadas, ainda esfregando os olhos.

Ela avistou o homem dentro da lareira, muito concentrado observando o ambiente em que saira, claramente surpreso por aquela ser a casa de Severus Snape. "Claro!" ele pensava, "que isso não é nem de longe obra daquele homem. Isso é bem o tipo de lar que eu imaginaria para aquela moça."

-Sr. Diggory? –Pan chamou, já diante dele, de pé no tapete.

-Oh! Oh, srta. McGonagall, é muito bom vê-la, bom dia!

-Bom dia! –e ela ajoelhou-se diante da lareira, jogando os longos cabelos ruivos para trás- O que posso fazer pelo senhor?

Pan vestia uma camisola curta de seda azul marinho, de alcinhas finas. Estava com os cabelos soltos suavemente esvoaçantes por conta das chamas. A única coisa que a resguardava era o robe, mas ele estava aberto, e ela se sentava sobre as pernas longas e nuas, olhando para Amos Diggory, que como bom observador que era, já tinha escrutinado todo o corpo dela.

-Sr. Diggory? -ela o estimulou a falar, puxando os lados do roupão para cobrir melhor o corpo.

-Sim? -perguntou ele atordoado

-O que o senhor deseja?

-Ah... bom, é sobre Moody. -ele pareceu ter despertado do seu transe.

"Não há no mundo mulher tão bonita, de fato não há... O que eu não faria para descobrir se a pele dessas pernas é tão macia quanto parece! E esse colo, deuses!"

-Moody?!

-Sim, ele teve uns problemas essa noite e... –Ammos Diggory definitivamente não estava concentrado- E eu acho que a senhorita foi convocada a Hogwarts esse ano de novo... e...

-O senhor poderia, por favor, ser um pouco mais profissional e focar em sua missão? –ela irritou-se

-Oh, desculpe! -ele ruborizou- Mas é que... Eu não sei explicar, jamais seria capaz de justificar minha distração com sua beleza, o que implicaria nisso culpa de sua parte, porque de fato a senhorita não tem a menor culpa, culpa de nada...

-Peço desculpas por estar descomposta. –ela disse com um suspiro cansado- Mas o senhor deve concentrar-se em outra coisa que não eu. O que acha de falar olhando pro meu elfo?

-Seu elfo?

-Greer! –Pan chamou, e o pequeno logo estalou ao seu lado.

-Minha senhora de Greer chamou?

-Sim. Por favor, fique parado aqui. –Ammos Diggory encarou o pequeno- Agora o senhor pode falar, Sr. Diggory.

-Pois bem, muito melhor assim. –ele suspirou aliviado, olhando para Greer- Como eu dizia, como Moody vai ficar como professor de DCAT, eu acho que a senhorita devia ser informada. Kingsley Shakelbolt me pediu para deixá-la a par de tudo.

-Ok, então. O que ele aprontou?

-Não sabemos ao certo, de fato não podemos considerar esse rompante como algo válido. Mas ele garante que sua casa foi atacada noite passada, e ele apenas se defendeu.

-Ele provavelmente estava vendo mais coisas onde de fato existe. Alguém saiu ferido?

-Não. –ele respondeu- Mas se Olho Tonto vai seguir agindo assim, eu imagino que ele possa significar um risco para os alunos em Hogwarts. Veja bem, meu filho está no sétimo ano, eu sei que ele pode se cuidar, portanto já não me preocupo tanto. Mas e os mais jovens?

-Eles terão a mim. E eu lhe garanto, Alastor foi uma dos professores mais dedicados que eu tive no curso de auror. Obviamente ele é um pouco perturbado, mas isso não representa perigo. Eu lhe garanto a segurança das crianças. Algo mais?

-Bom... era... era só isso. –ele desviou os olhos de Greer e encarou Pan por um instante- Eu lhe felicito pelo casamento.

-Oh, obrigada! –aquele era um dos primeiros momentos em que alguém parecia sincero em parabeniza-la por ser a Sra. Snape.

-Sério... –ele continuou- Há algo assustador naquele homem, mas a maioria de nós, quero dizer... bruxos e pessoas em geral... tem uma estranha tendência em confiar no que a senhorita confia. Então se você o ama o bastante para casar-se...

-Severus Snape é um bom homem. –ela encerrou a questão. -Até mais, Sr. Diggory.

-Cedrico está mandando-lhe um abraço.

-Outro para ele.

-Er... até logo. –e com um pequeno estalo, desapareceu entre as chamas.

Greer encarou sua senhora e esperou. Pan ainda olhava para dentro do fogo imaginando que se Moody fosse chegar em Hogwarts mais instável que nunca ela teria muito mais trabalho do que jamais imaginou que teria. Torneio Tribruxo, As delegações, Karkaroff, Moody instável... e por ultimo mas não menos importante, na verdade a coisa mais importante daquela equação... um bebê a caminho. Suspirou profundamente e criando coragem pôs-se de pé.

-Minha senhora, devo preparar-lhe café da manhã agora, ou a senhora voltará a dormir?

-Não, querido. Certifique-se de que minhas malas estejam prontas. Eu estou indo pra Hogwarts agora.

Notas da Autora:

Meus amores, muito feliz por encontrar ainda sobreviventes do hiatos aqui!

Sou muito grata a todas que seguem lendo!

Mil e um beijos!