Capitulo Trigésimo Quinto

A primeira coisa que Pan fez ao sair do quarto, foi verificar o Cálice de Fogo. As inscrições haviam começado na noite anterior, e ela não pode comparecer ao jantar porque não se sentia nada bem. Severus tinha ido a pedidos de Albus e voltara com as novidades. Ela apenas enroscou-se melhor na cama e dormiu por toda a noite após tomar uma poção que Madame Pomfrey lhe dera. Agora se sentia melhor e o Cálice parecia normal.

Pan teve o dia de folga e Hope veio vê-la trazendo más noticias.

-Sirius não está em casa.

-Como assim? –Pan apavorou-se.

-Eu o procurei por todos os lugares, mas ele saiu de lá. Deixou apenas um bilhete. –ela lhe entregou o papel onde ele tinha escrito apenas: Eu precisava sentir-me livre, meninas. Não se preocupem.

-O que você acha que devemos fazer?

-Fora contar tudo a Dumbledore e pedir que ele ajude a procurar? –Hope estava tensa, beirando o desespero. Pan segurou suas mãos tentando respirar fundo e manter-se serena.

-Hope... Papai é um homem safo. Ele entrará em contato. Eu entrarei em contato, vou rastreá-lo, farei o possível. Agora acalme-se. Eu precisarei para coisas mais urgentes.

-Mais urgente do que manter seu pai a salvo?

-Sim. Retirar minha mãe de Azkaban.

No fim da tarde Pan deixou as masmorras, onde tinha passado todo o dia enroscada na cama e lutando contra os enjoos e foi para sua torre, trocar-se para o Jantar de Dia das Bruxas. Vestiu uma saia godê de cetim verde esmeralda e um corpete preto. Calçou sapatos de saltos altos e prendeu os cabelos num rabo de cavalo. A roupa estava com a cintura um pouco justa, mas ela não se importou. Significava que seu bebezinho estava começando a crescer. Logo precisaria de outras vestes e já idealizava algumas.

-Como andam as coisas lá entre as delegações? –Pan perguntou quando parou ao lado de Minerva.

-Albus diz que está tudo bem. Acho que todo mundo que vai participar já se inscreveu.

-Alguém da Grifinória?

-Além dos Gêmeos Weasley? –Minerva gargalhou, precisando contar-lhes sobre Fred e Jorge tentarem ludibriar a linha etária que Dumbledore instalou- Só Angelina, do quadribol. Mas eu acredito que nós teremos uma surpresa hoje...

-Por quê?

-Pela primeira vez na vida eu estou torcendo por alguém de uma casa rival...

-Quem? -Pan espantou-se.

-Diggory. Ele é digno.

Pan entrou no Salão Principal ao lado de Minerva. Os alunos ainda chegavam, apesar de todas as alunas de Beauxbatons estarem reunidas conversando num francês muito excitado no hall de Entrada. Uma das moças lançou um olhar ofendido a auror. De longe era a moça mais bonita da aglomeração de moças. Tinha uma cascata de cabelos prateados e louros e um rosto de beleza incomum.

-Bonne Nuit! -Pan saudou a todas quando passou, e reparou bem que apenas a moça de cabelos prateados não respondeu.- Sev! –sorriu indo até ele. Aquele dia parecia bastante estranho, já que mesmo estando nas masmorras o tempo todo, ela mal o vira.

-Você está linda! –ele murmurou baixinho beijando as costas de sua mão- Desculpe por deixa-la sozinha por todo o dia. Hogwarts está bastante agitada.

O jantar começou em pouco tempo. Pan esteva sentada entre a avó e Severus. Albus estava muito ocupado conversando com Madame Maxime e Karkaroff, que volta e meia lhe lançava alguns olhares. Ela tentava não importar-se com isso. Hope também estava ali, mas sentada num lugar bem distante, ela conversava com Professora Vector. Parecia pensativa, talvez pelos temas debatidos com Pan mais cedo.

Quando todos tinham esvaziado seus pratos a tensão se elevou consideravelmente. Pessoas roíam as unhas de nervosismo quanto à seleção dos Campeões. Dumbledore fez seu pequeno discurso e começou a tirar os nomes dos selecionados.

-Fleur Delacour, da Academia de Magia Beauxbatons!

A moça ergueu-se com toda sua magnitude e passou diante da mesa Principal, onde os diretores das Escolas participantes, bem como Bagman e Crouch estavam sentados. Delacour era a moça que havia olhado torto para Pan.

-De Durmstrang, Vitor Krum!

Aplausos e gritinhos explodiram no Salão e o desajeitado e desengonçado Krum passou diante da Mesa e foi para a mesma Câmara, atrás do Salão Principal, onde Fleur estava. A espera pelo campeão de Hogwarts foi mais dolorosa. Pan olhava de Angelina para Cedrico tentando decidir o que seria melhor. Claro que Cedrico ganharia de longe, ela podia sentir que ele seria o selecionado, e quando o Cálice de Fogo cuspiu seu nome ela quase não reprimiu um grito de orgulho e satisfação. Ele passou diante dos Professores e Visitantes com um imenso sorriso e foi juntar-se aos outros. De repente o Cálice lança um outro nome, e Dumbledore pega o papelzinho num reflexo. Seus olhos se estreitam e se arregalam e com a voz rouca, mas muito clara ele diz:

-Harry Potter.

Pan desabou a cabeça nas mãos enquanto um burburinho indignado e nervoso percorria o Salão. Ela não tinha reação, ela não sabia o que pensar, ela não podia acreditar no que havia escutado. Não depois de Hope lhe dizer sobre a primeira tarefa envolvendo dragões. Haviam armado para Harry, tramado seriamente e ele estava em perigo. Ela ergueu os olhos e escrutinou todo o salão. Alguém ali queria o mal de Harry, e a pessoa de comportamento nefasto mais capaz de realizar aquilo estava sentada nessa mesma mesa em que ela estava.

-Karkaroff... –ela sibilou para si mesma, o fogo que a preenchia começando a recobrir sua pele. Ela respirou fundo algumas vezes e conteve a explosão que parecia surgir.

-Onde ele está? -Sev sibilou olhando para a Mesa da Grifinória- Pamela, reaja...-ele disse pelo canto da boca vendo os olhos dela fixos em Karkaroff.

-Harry Potter! Harry! Aqui, se me faz o favor... -Dumbledore repetiu, e Harry levantou-se e caminhou para a câmara com a aparência de quem foi atirado a um bando de Trasgos ensandecidos.

-Oh, meu Deus, Sev... -ela gemeu segurando a mão dele com força- Ele não se inscreveu, disso eu sei... Alguém fez isso...

-Pan, você conhece Potter muito bem e sabe que é bem capaz de que...

-Raciocine, homem! -ela ergueu-se indignada- Você acha que ele conseguiria ludibriar um artefato como este? O Maldito Cálice de Fogo? -e seguiu o garoto.

-Harry! Harry me diga o que houve ali... -ela o segurou pelos ombros assim que entrou na Câmara.

-Eu não sei, Pan, eu juro que eu não me inscrevi...

-Eu sei que não, mas...

-Pan, eu estou confuso, eu não fiz nada...

-Eu sei, querido...

-Pan, o que está acontecendo? -Cedrico se aproximou

-Um mal entendido. Já vamos resolver isso...

Bagman chegou e foi interpelado por Fleur Delacour. Instantes depois muita gente entrou na câmara e Pan passou a não compreender nada a sua volta. A sua mente de auror não estava conectada a nenhuma das vozes na sala. Estava além. E para completar, ela começou a sentir-se sonolenta. Era a poção que tomava para manter o alimento no estômago. Ela sentia que iria sufocar. Adiantou-se em sair dali.

Ela sabia que Severus, Minerva, Albus, Madame Máxime, Bagman, Karkaroff e Crouch estavam lá, bem como Moody, que era um dos guardiões do Cálice. Ela imaginava nomes e os assimilava a uma lista de fatos... Nomes que poderiam levar Harry a Voldemort... Sua cabeça girava em torno de Karkaroff... Ninguém mais ali tinha envolvimento algum com Voldemort a não ser ele e Severus, mas Severus era de inteira confiança. Ela já imaginava as acusações chovendo sobre ele.

Não... Dumbledore não ia permitir que Harry competisse. Pan estava certa disso, mas... o Cálice de Fogo era um Artefato Mágico muito poderoso... E em torno dele havia a linha etária de Dumbledore e seus Feitiços de Detecção de Farsas, coisas muito avançadas para qualquer estudante de Hogwarts, até mesmo para alguns professores.

Era coisa de Hope, como Pan gostava de pensar. Coisas criadas por Hope só aurores tinham acesso. Ela saiu da câmara antes de ouvir uma decisão. Ninguém se deu conta de que ela estava saindo. Foi ao Salão, onde o Cálice estava postado ainda, apagado, inofensivo. Sentou-se na mesa vazia da Corvinal e ficou contemplando a imagem do Salão e do Céu de Hogwarts. Sua cabeça estava a mil. Sentindo-se sem forças ela foi para sua torre.

Não queria ouvir mais nada, nem saber de nada. Ela precisava chegar a uma conclusão. No quarto escreveu uma carta a Sirius e enviou Welma. Em sua mente havia apenas uma certeza: Hogwarts não era mais segura.

Se ela estava preocupada que alguém tivesse inscrito Harry no Torneio, ficou em pânico quando descobriu que Dumbledore permitiu que ele participasse. Despertou no meio da madrugada com essa noticia e quase desmaiou de susto. Severus arrependia-se de ter dito qualquer coisa, mas sabia que ela queria saber. Pan foi diretamente aos aposentos dele, ainda um pouco sonolenta pelas poções de madame Pomfrey lhe dava para acalmar os enjoos.

-Dumbie, como você...?

-Dumbie? –ele interrompeu com um sorriso- Você me chamou de Dumbie?

-Força do hábito. –ela cruzou os braços contrafeita e olhou para longe.

-Papoula disse que você anda se sentindo mal.

-É da gravidez, coisas normais.

-Você deveria então ficar mais calma. Sente-se ali. –e indicou o sofá.

Ela respirou fundo e sentou-se. Ele fez o mesmo, na poltrona diante dela.

-Pan, não me restou nada a fazer... -ele abriu os braços como se pedisse clemência- O que nos resta é...

-Cuidar dele. -Severus disse com a voz grave, ecoando pelo ambiente, chegando sem se anunciar.

-Como vocês acham que Harry vá conseguir passar por essas tarefas que vão ser extremamente complicadas e perigosas? Se as coisas seguirem conforme o plano, ele enfrentará um dragão na primeira tarefa! Vocês imaginam um garoto de 14 anos derrotando um dragão?

-Você poderia, por favor, parar de falar manter a calma? -Severus perguntou com cara de poucos amigos.

Pamela calou-se e os encarou parecendo atônita. Eles estavam tensos, mas ainda assim se mantinham menos desesperados que ela.

-Só uma pessoa aqui teria motivos para fazer isso. –Severus disse quando o silêncio se alongou.

-Todas as evidências do mundo indicam Karkaroff. –Pan ajuntou.

-Evidências mandaram seus pais inocentes a Azkaban. -Dumbledore disse com a voz distante, pensativo.- Não vamos falar sobre o Torneio hoje, mas vamos falar de algo ainda mais perigoso e importante, que graças a Deus ainda não envolve Harry muito diretamente.

-O que seria?

-Temos que começar a nos preparar para a chegada eminente de Voldemort. -ele disse olhando-a diretamente- Como você sugere que comecemos, Severus?

-Alguma prática de Artes das Trevas e talvez alguma transgressão que favoreça o Lorde das Trevas.

-Pois bem. -ele disse com um suspiro- Eu imagino que você esteja mesmo disposta a nos ajudar, querida...

-Sim. Eu estou. Mesmo com o bebê a caminho.

-Sabe que tempos nefastos a esperam e que você só terá Severus para se apoiar?

-Eu sei.

-E que seu amor por Harry terá que ser camuflado de diversas formas, já que você precisará convencer a todos que é realmente uma Comensal da Morte?

-Eu sei.

-Ontem você tomou uma atitude que deverá ser o seu modelo de conduta daqui pra frente. -Dumbledore continuou, erguendo-se da poltrona indo postar-se diante da janela.

Severus e Pan viraram-se para observá-lo andar pela sala.

-Todos esperavam por fervorosos protestos seus, no entanto você se retirou sem proferir palavra. Diante de Karkaroff. Se foi ele quem inscreveu Harry, bom, o fato de você permitir que ele compita somou pontos a seu favor com o lado das Trevas. Aos poucos a sua credibilidade deve estar sempre associada ao meu "estranho talento de ver o melhor das pessoas", assim como acontece com Severus.

-Enquanto isso você precisará cuidar dos seus assuntos pendentes. O principal deles é o resgate da sua mãe. –Severus disse- Eu não gosto nada disso, mas eu sei que não podemos mais adiar.

-Eu tenho um plano em mente. Eu precisaria apenas de Hope e um pouco de tempo para aliviar esses sintomas incômodos da gravidez. Já estamos nos preparando e eu logo terei algo concreto para mostrar-lhes.

-Exatamente. -Dumbledore concordou com um brilho diferente nos olhos, algo meio emocional- Precisamos de um lugar, de alguém que possa cuidar dela... Não se apresse muito. Faça as coisas a seu tempo. Você já vão se sacrificar tanto que... -ele suspirou meio cansado, posando uma mão no ombro de Pan e outra no ombro de Severus.

-Não é sacrifício. -Severus disse- É a redenção.

-Tenho certeza de que vocês estarão prontos quando chegar a hora. -ele sorriu- Vocês aceitam mousse de limão?

Com isso ele dissipou a tensão que havia no ar. Algum tempo depois, o casal deixou a diretoria e rumou para as masmorras. Ao cruzar o Salão Principal, encontraram Karkaroff.

-Não me surpreenderia se descobríssemos que foi você quem inscreveu Potter, Snape. - o diretor de Durmstrang alfinetou encostando-se na mesa da Sonserina, diante deles.

-Nem a mim, Karkaroff, quando provarmos que foi você. -Pan disse na sua perfeita imitação de Severus.

-Ora, ora, ora! Vejamos aqui, se não é a garotinha de Dumbledore falando... -ele aproximou-se do casal- Defendendo o noivinho... Uma mulher tão quente envolvida com um...

O soco de Pan atingiu Igor Karkaroff bem no queixo. O homem cambaleou andando de costas. Ela curvou-se sobre a mão, sentindo pelo menos três ossos quebrados. Lágrimas de dor escorrendo por seu rosto contorcido de ódio.

-Deixe-me ver isso... -Severus adiantou-se nervosamente puxando a mão direita dela, que inchava muito rápido- Meu amor, está quebrada! Vamos à enfermaria, Papoula vai consertar isso em instantes...

Com um único puxão, Karkaroff afastou Severus, que tropeçou ate uma das mesas para se equilibrar, mas mesmo assim caiu no chão. A mão do homem se fechou no pulso da mão machucada de Pan, e ela reprimiu um grito de dor, quando os ossos partidos entraram em atrito dentro da carne. Apontando pro rosto dela ele disse de forma letal:

-Isso não vai ficar assim! -a voz engrolada.

-Não. Ficará bem inchado e roxo. Agora me solte! –e num pulso de calor ela o jogou ao chão.

Ele devia ter mordido a língua na hora do soco. Isso justificaria a dificuldade de falar e sangue. Karkaroff estava no chão, caído pouco distante de Severus, que movido pela fúria e por um instinto protetor jamais sentido em toda a vida, o empurrou porta afora tratando-o como um bêbado incômodo ou um cachorro sarnento.

-Nunca mais ouse encostar um dedo nela, verme! Ou eu juro que mato você com as minhas próprias mãos! -ele ameaçava enquanto conduzia o outro pra fora entre safanões.

Karkaroff saiu sem proferir palavra, cuspindo sangue pelo salão. Ele não poderia falar nem que quisesse, a língua estava quase que partida ao meio.

-Braquian Remendo... -Pan curava os próprios ossos quebrados e testava movendo os dedos- Está bom...

-Oh, minha querida... -Severus a abraçou protetoramente- Você está bem? Aquele demônio...

-Me leve pra cama... -ela suspirou tristemente- Estou exausta.

Os dias seguintes foram um pouco piores do que o dia da Seleção. Rony não estava falando com Harry, o que fazia o coração de Pan se espremer, já que ela contava que ele teria o máximo de apoio dos amigos. Pelo menos Hermione não havia se convencido de que Harry colocara seu nome no Cálice, e permanecia ao lado dele. Entrementes, Sirius ainda não havia respondido a carta da filha contando sua localização. Aquilo era algo que estava tirando Hope do sério.

-Eu juro a você que o deixei muito bem instalado e com provisões para semanas! Ele não precisava sair de lá.

-Eu sei. Mas devemos encarar os fatos e admitir que ele não ficaria lá sozinho. E agora a carta escrita para Harry dizendo que estava voltando faz mais sentido. Ele é safo o bastante para estar seguro.

-Sobre sua gravidez, ele já sabe?

-Não exatamente. Eu lhe contei sobre as desconfianças, mas ele se recusava a aceitar. Mas enfim... ele deve estar por perto. Juno irá acha-lo.

Minerva não estava muito satisfeita com a obtusa reação de Pan ao ver Harry como Quarto Campeão. Ela acusou Severus de estar influenciando a moça contra Harry, o que quase culminou numa discussão ainda pior. Quando o assunto mudou para o resgate de Ninna o clima amenizou-se.

No final da segunda semana de novembro, cerca de dez dias antes da primeira tarefa, a carta de Sirius chegou, bem como as notificações da chegada dos Dragões da Romênia em uma semana. Sirius estava na caverna onde ele e a filha encontraram-se pela primeira vez, próximo as terras da família de Hope. Para a visita ao pai, Pan preparou uma boa quantidade de comida e agasalhos para o inverno particularmente frio que se aproximava, produtos de higiene pessoal e levou algumas poções que ele poderia precisar. Quando entrou na caverna, seu coração quase parou de bater com o choque que a visão de Sirius lhe causou. Ele estava mais magro, os cabelos mais compridos, as vestes não o aqueciam mais como deveriam, a caverna estava limpa, mas era quase que visível que ele havia feito aquilo para sua chegada. Deplorável, triste, abatido, mesmo assim sorria maravilhado. Ela atirou-se ao pai e ficou presa em seu abraço por um longo tempo.

-Meu Deus do céu, você parece que não se cansa de ser linda, minha filha...

Ele beijava o rosto da filha e esquadrinhava as expressões dela como se quisesse radiografá-la em sua mente.

-Nós temos tanto o que falar... -ela disse com o pensamento em Severus e temendo as reações de Sirius- E eu preciso cuidar de você enquanto posso.

Ele sorriu enternecido.

-Sou todo seu! -e abriu os braços se rendendo.

Ela estendeu uma toalha no chão e colocou as travessas de comida. Observou o pai comer com voracidade e quase desespero. Ele devia passar por tantas privações e aquele pensamento fez seus olhos queimaram e escorrerem em lágrimas silenciosas. Não entendia ainda porque ele havia deixado o apartamento no Beco Diagonal.

-O que foi?-ele parou de comer, segurando uma coxa de frango e olhando-a alarmado.

-Coma.

-Está tudo bem, meu amor?

-Eu quero tanto te dar uma vida confortável, sem essas privações... Mas você decide fugir e Hope estava desesperada ao descobrir isso.

-Sai de lá faziam quase vinte dias quando ela se deu conta.

-Ela trabalha viajando, e deixou você bastante confortável.

-Você também só se deu conta muito tarde. Você não me visita.

-Bom, eu bem poderia usar mais tempo e disposição. Hogwarts está um pequeno caos. Mas isso não exclui minha negligencia com você.

-Não pense assim. -ele limpou a mão na roupa e tocou o rosto dela com a ponta dos dedos- Eu estou livre, e isso é só o que importa. Tenho você e Harry e em breve Ninna estará comigo...

Ela sorriu e ficou em silêncio. Queria deixá-lo em paz para comer. Via o pai como um homem otimista, vendo o copo meio cheio ao invés de agir como a filha e teimar que ele estava meio vazio. Era um sinal de coragem, e Pan se sentia tão covarde ultimamente... Quando ele já estava satisfeito, apontou o riacho e disse:

-Vamos caminhar um pouco?

-Eu vou cuidar do Harry, ficar de olho em Karkaroff, fazer o que eu puder pra que o Harry não morra... -ela começou prevendo o que Sirius ia dizer.

-E nunca vai confiar em Severus Snape.

-Ele é meu marido. Pare com isso.

-Isso não. -ele disse esfregando os olhos contrariado- Snape é perigoso e ressentido com Thiago. Pode descontar isso em Harry, e Pan, eu juro...

-Pai, tem uma coisa que eu quero te dizer, mas eu estou com medo que você reaja mal... e acabe me magoando ou me forçando a me afastar de você...

Ele se assustou e virou-se para encará-la.

-Eu nunca vou deixar você se afastar de mim.

-E mesmo assim, escapa do esconderijo perfeito que eu armei para você.

-Eu me sentia de volta a prisão. Entenda que eu não suporto mais lugares fechados e solitários. Enquanto Hope estava lá comigo tudo bem, mas quando me vi sozinho...

-Você precisa entender as minhas escolhas e não me julgar... –ela disse, percebendo que aquele momento estranho era o apropriado para determinadas confissões.

-Confie em mim, filha.

-Papai... -Pan respirou fundo e segurou as mãos dele- Eu e Severus vamos ter um filho.

Sirius tossiu como se tivesse se engasgado com uma uva inteira. Quando ele se acalmou, encarou a filha mortificado, sem palavras.

-Nós nos amamos muito e estamos completamente felizes. E estaríamos mais tranquilos se você, por exemplo, aceitasse mudar-se para nossa casa, onde haveria espaço e tudo o que você precisaria para estar seguro e livre.

As expressões que passavam pelo rosto de Sirius faziam Pan pensar que ele estava à beira de uma síncope. Por isso manteve-se séria e impassível, para que a parte difícil daquela conversa não se prolongasse muito.

-Você tem treze anos.

-Não, eu não tenho. E se eu vivo na terra a apenas esse tempo, não condiz com a realidade de quem eu sou.

-Pan, um filho não é um brinquedo. E ter um filho com um homem odioso como aquele...

-Pai, por todos os deuses... –ela implorou chateada- Nós somos marido e mulher.

-Filha, ele é um crápula! Um comensal da Morte que pode muito bem ter jogado Harry nessa enrascada!

-Vê o que eu falei? -ela disse com a voz sofrida- Se você o atingir com palavras ou ações, vai estar me atingindo também. Ver que meu pai não vai ficar feliz com a minha felicidade me destrói por dentro... -ela soluçava- Eu terei um filho e eu jamais me senti tão feliz... E o que você me diz? Você não é capa de alegrar-se! Você será avô, por todos os deuses!

Sirius caiu em si após uns intantes. Pensou a respeito e olhou para o incrivelmente bonito rosto dela e suspirou. Pan estava começando a chorar e ele não sabia lidar com isso. A abraçou forte.

-Me desculpe, meu amor, foi o choque... Já passou...

-Eu o amo, papai. Muito.

-Eu não entendo, não acho certo, mas...

-Eu o conheço de trás pra frente. Confio nele a minha vida. Eu vivo com ele uma excelente vida e nós teremos um filho!

-Você conhece o passado negro dele, e mesmo assim...

-Tenho minhas razões para acreditar que ele é um homem novo, e elas são fortes o suficiente para que eu aposte todas as minhas fichas nisso, sem medo de perder.

-Oh, meu amor... Você já esta apostando.

Era inútil prosseguir, e mesmo com todo o choque, Sirius tentou levar a sério as palavras dela quando ela iniciou a conversa. Raciocinando ele preferiu ter Snape como família a ter Pan magoada com ele.

Ela empenhou-se em contar sobre o plano para resgatar Ninna, enfatizando a contribuição que Severus teria que dar e garantindo que tudo ficaria bem.

-Eu preciso ir. -ela disse quando a noite ameaçou cair.

-Já? -ele entristeceu

-Tenho que estar em Hogwarts a noite e antes eu ainda preciso garantir que você não precise ficar comendo ratos.

Ele sorriu.

-Agora, por favor, cuide-se. -ela abraçou-o e beijou-o- Pai, tudo ainda vai dar certo.

-Eu confio em você, querida. Não confio em Severus Snape, mas em você, sim!

Ela preferiu rir a chamar a atenção dele. Depois das despedidas, ela saiu da caverna e aparatou. Precisava admitir uma série de coisas... e a principal delas era que aquilo tinha sido mais fácil do que o que ela esperava.