Capítulo Trigésimo Oitavo
A cada passo que dava o frio aumentava e ela tentava imaginar que logo estaria com a mãe em segurança, em casa, aquecida e confortável. Talvez fosse o efeito da Félix, ou talvez fosse descuido dos dementadores, mas a porta inferior estava aberta. E em volta de onde ela estava, não havia um único dementador.
Pan caminhou com a varinha em punho para o interior desesperador da fortaleza. Cada passo era feito de pura cautela. Ao longe, ela via o barco onde Eric a esperava, mas não podia vê-lo, ele estaria invisível. A Felix fazia realmente efeito, já que no andar inferior não havia nenhum dementador e todas as celas estavam quietas, algumas até vazias. Sentindo-se mais confiante ela correu pelas escadarias do lado leste até o sexto piso, onde ficava a seção de dementes. A excitação percorria suas veias e ela pode ver a cela da mãe.
-Bombarda Maxima! -e a grade explodiu nas fechaduras e dobradiças.
Ela entrou tentando acalmar a mulher assustada que gritava no fundo da cela. Vendo que não seria possível, a estuporou e com dificuldades, ergueu nos braços. Pan não teve tempo de examinar a figura da mãe, já que sentiu a aproximação dos dementadores vindo atrás da gritaria que irrompeu entre os prisioneiros dementes. Rapidamente levou Ninna para fora da cela e hesitou quando viu as escadas. Alguns dementadores começavam a se aglomerar por ali. Ninna pesava e ela sabia que aquele tipo de esforço era maior do que o que ela podia fazer.
-Incendio! -berrou apontando a varinha para a base da escada, onde uma bola de fogo explodiu os dementadores em milhares de pedaços. Ela sabia que se realizasse um patrono, não haveria ninguém que pudesse acreditar que o resgate de Ninna não fora obra sua.
"Está tudo bem... São apenas alguns dementadores, está tudo quieto, não há nenhum auror por perto."
E ela tinha razão, pois a movimentação ali era incrivelmente nula. Mas Pan sabia que precisava agir logo, pois mesmo com a Felix, ela começava a sentir os efeitos do desespero que os dementadores causavam. Precisava agir e rápido, mas estava um pouco encurralada, já que se usasse a varinha para levitar Ninna pelas escadas abaixo, teria esgotado sua única defesa contra aurores que pudesse encontrar. E devia, a todo custo, manter os poderes da fênix ocultos.
Pensando rapidamente levou Ninna até a janela mais próxima e a lançou por ela, deixando a mulher cair de uma altura de quase seis andares, murmurou um feitiço e desacelerou sua queda. Ninna levitou ao longo da praia rochosa e pousou no barco tranquilamente, provavelmente nos braços de Eric. Mas no instante em que Pan tinha atirado a mãe, um alarme soou. Aquilo fez seu sangue gelar. A sirene berrava em todos os andares, os prisioneiros vinham para as grades ver o que acontecia e logo os gritos de "Sirius Black!" começaram a soar.
Não deveria ter alarme nenhum, ela tinha bastante certeza de que fizera tudo certo, que Ninna inocente poderia sair do prédio sem problemas. Imaginou se Eric ou mesmo Ninna não haveriam tocado na areia... Mas não podia se ater a isso. Correu para a janela e escalou pela parede exterior até a próxima janela, no sétimo andar. De lá encontrou uma escadaria externa e subiu para o terraço da cobertura. Agora vinha a parte final de seu plano. Eric tinha que partir, sem ela. Havia custado muito a Pan conseguir que ele fizesse essa promessa, já que sem a ultima parte do plano, eles seriam interceptados por centenas de dementadores antes de conseguirem abrir distancia. Ela pode ver o barco se afastando, e alguns dementadores seguindo seu rastro na água. A hora era agora.
-Expecto Patronum! –gritou apontando a varinha para o céu. Um grande patrono, uma forte luz sem forma definida, se expandiu até ocupar toda a primeira redoma de proteção.
O Filtro dos Inocentes foi substituído por um repelente de dementadores, prendendo-os ali, impedindo-os de seguir caçando Ninna no barco. Os aurores precisaram parar estupefatos, não podendo acreditar que uma barreira daquele tipo existisse. Só podia ser coisa de alguém muito poderoso, eles imaginavam, e precisavam desesperadamente encontrar a fonte. Os dementadores que se aproximavam muito apenas explodiam, os aurores não conseguiam olhar em volta, a luz muito forte cegando-os momentaneamente.
Pan abaixou a varinha, mas o escudo se manteve ativo por tempo o bastante para que ela pudesse transformar-se em fênix e voar rapidamente para cima, em linha reta, subindo sempre, até que nenhuma das barreiras poderia se sentir. Como fênix ela não sentia frio e sabia que estava muito longe de terra firme. Logo começou a voar em direção à praia, almejando que Eric tivesse conseguido escapar com Ninna em segurança. Voou, sentindo-se realizada, plena. Pousou na praia e não viu nada, o barco, pegadas... Nada.
Eric teria aparatado com Ninna ainda de alto mar, quando as barreiras acabaram? Ela ainda sobrevoou a área procurando-os, e quando viu o barco vazio, soube.
"Eles estão em casa".
Ela estava ajoelhada no chão, sentindo a grama sob seus joelhos e olhando tudo a sua volta. Ninna viu as arvores e a Lua Cheia. Sorriu. Eric, mesmo em pânico por não saber onde Pan estaria ou se ela tinha conseguido escapar, também sorriu.
As portas da mansão dos Snape se abriram e ele viu Pearll correndo em sua direção. Os cabelos negros chicoteando tudo a sua volta, lagrimas duelando contra o sorriso em seu rosto e ela apenas despencou no chão diante de Ninna, que a olhava sem compreendê-la ou reconhece-la.
-Ninna... –ela segurou o rosto da irmã- Ninna... por todos os deuses... –e a agarrou, rendendo-se ao choro.
Logo Severus estava ali, naquela primeira noite de neve, olhando em volta em busca de Pan, enchendo Eric de perguntas sobre como as coisas aconteceram. Precisou explicar que Pearll havia usado um viratempo para estar nos dois lugares ao mesmo tempo. Ela queria estar ali para receber Ninna, assim como sabia que precisavam vê-la no evento. Severus fizera a mesma coisa. E agora, ele era Pan no ministério, enquanto estava ali, mantendo o "Quartel General" em funcionamento e esperando a mulher. Mas Pan não estava em lugar nenhum à vista.
-Ela disse alguma coisa?
-Apenas me instruiu a tirar Ninna de lá assim que ela aparecesse no barco. Ela disse que voaria para longe. E logo surgiu uma grande onda de energia, como um patrono completamente incrementado, e os dementadores ficaram presos numa redoma de poder. Foi o que nos possibilitou fugir, já que se qualquer um de nós usasse os poderes da fênix...
-Seria um atestado de culpa, sim. –Severus olhou em volta, procurando-a no céu vazio.
Frustrado por sua ausência ele se aproximou de Ninna no gramado e a ajudou a se erguer. Pearll precisava urgentemente de algo para consolá-la, e Severus estava contando com Eric para isso. Ninna o reconheceu, e murmurou seu nome, mas não fez mais do que isso.
-Vamos, Melina. –ele disse colocando o casaco que usava sobre os ombros dela- Vamos para dentro.
-O jogo já terminou? Os Grifinórios venceram, certo Ranhoso?
-Certo. –ele disse com um aperto na boca do estômago- Potter pegou o pomo.
Lá, Sirius esperava feito de tensão. Severus tinha pedido encarecidamente que ele ficasse ali, já que eles não sabiam quem surgiria do lado de fora. Algum auror poderia tê-los seguido, alguém poderia aparecer... e as defesas da casa estavam todas desativadas para facilitar o transito. Sirius manteve-se em segurança, mas a duras penas. Quando Severus entrou na casa, o sogro estava no hall, e logo veio retirar Ninna de seus braços.
-E Pan? –perguntou quando pode atestar que era de fato Ninna.
-A caminho. –Severus murmurou, olhando através da janela para o céu tempestuoso.
No gramado, Eric agarrava Pearll com toda a força, e a outra apenas chorava.
-Você viu o estado dela?
-Vi. Mas tudo vai ficar bem agora.
-Ela sequer me reconheceu!
-A ultima vez em que ela a viu, meu amor, você era uma adolescente.
-Tão magra, tão fraca...
-Eu sei... –ele acariciava seus cabelos- Eu sei, querida.
-Minha mãe vai perder a cabeça.
-Ou vai apenas poder se alegrar. –Eric beijou-lhe os lábios suavemente- Vamos entrar.
-Não. Não, deixe Sirius ter um momento com ela.
Mas Sirius e Ninna apenas olhavam um para o outro. Se ela o reconhecia, não dava sinais. Ela parecia a ele como uma caixa bem trabalhada que continha seu bem mais valioso. Mas agora o bem valioso havia sumido, e restava apenas a sombra da mulher que ela fora um dia. Ele a abraçou, mas ela o empurrou para longe e foi enroscar-se diante da lareira. Severus pode ver isso de onde estava, ainda no hall, e apiedou-se um pouco.
-Black... –ele se aproximou, vendo o outro homem dividido entre felicidade e frustração.
-Sim?
-Chamarei Pearll para que ela possa dar um banho quente em Melina, e o elfo irá preparar algo para ela comer. Quando Minerva chegar, ela estará mais apresentável, e sentindo-se melhor.
-Sim. Sim, Snape, obrigado.
E assim fizeram. Pearll e Sirius levaram Ninna para o quarto de Pan, onde Severus tinha preparado um banho e separado uma veste limpa para a sogra. Ele tentava não pensar que Pan estava demorando muito. Desceu as escadas para dar-lhes privacidade, e encontrou Eric velando a noite, esperando Pan.
-Nada ainda. –ele murmurou.
-Você avisou Dumbledore?
-Fui até lá por um instante. Ele e Minerva estão com Madame Maxime na diretoria. Crouch e Bagman também estão lá, eles tem um excelente álibi.
Nesse momento, Severus viu a si mesmo chegando com Pearll e Hope nos gramados. Ele ainda estava na forma de Pan, usando um de seus belos vestidos. Agradeceu mentalmente que o viratempo tinha sido perfeito e ele e Pearll desapareceram antes de que a polissuco perdesse efeito e o revelasse naquelas vestes. Hope veio sozinha até a casa, e Severus foi recebe-la.
-E então?
-Pan ainda não chegou. Mas Melina está no andar superior, com Pearll e Black.
Hope suspirou. Parecia dividida entre o alivio e algo que Severus não pode identificar.
-Você tem álcool aqui? –ela perguntou, indo ate o sofá e afundando nele.
Severus serviu uma dose de hidromel para ela, e uma para si. Sentou-se em sua poltrona, de onde podia ver os gramados através da janela. Hope olhou para a pequena taça de hidromel com um certo desgosto.
-Esperava alguma coisa mais forte? –ele perguntou.
-Sim. Mas não importa. –ele bebeu um pequeno gole- Acho que o que eu precisaria agora apenas um ansiolítico trouxa seria capaz de prover.
-Como foram as coisas na convenção?
-Você sabe, você estava lá. –ela parecia um pouco irritada. Olhou em direção as escadas e Severus percebeu que ela estava incomodada demais.
"Ciúmes. Ela ama Black."
-Melina não o reconheceu. –ele murmurou- É muito provável que ela esteja além de ajuda nesse sentido. Os dementadores retiraram dela toda a sanidade. É claro que isso muda muito pouco. –ele ajuntou, fazendo as sobrancelhas dela se franzirem- É visível Hope.
Com isso ela deixou as lágrimas escaparem. Ele não sabia porque, mas tinha um lugar no coração para Hope e se preocupava muito com o que se passava com ela. Não diria jamais que Sirius era inapropriado para ela, já que muitos disseram isso sobre ele e Pan, mas queria que a moça pudesse ter um relacionamento mais dentro dos padrões. Esperava que aquela paixão passasse, já que estava claro que apenas causaria dor.
-É ela! –Eric anunciou, e Severus rapidamente correu para fora.
Pan estava nua, meio apoiada no chão, em chamas. Severus conjurou um cobertor e a envolveu.
-Querida?
Mas Pan apenas acariciava o ventre, certificando-se de que o bebê estava bem. Sentiu o movimento dele dentro de si e abriu um pequeno sorriso. Ergueu os olhos e agarrou Severus.
-E então?
-Ela está bem. –ele beijou-lhe o rosto- Está sendo cuidada. Você precisa de algo? Porque demorou tanto?
-Eu vim voando a maior parte do trajeto. Tive medo que aparatar produzisse muito fogo e pudesse me identificar. Ela chegou bem?
-Um pouco louca, mas bem.
-Você acha que o Ministério já sabe que ela foi quem escapou?
-Acho que sim. Dumbledore deve ser notificado a qualquer momento, mas Eric já os avisou.
-E minha avó?
-Acho que está mais tranquila agora. Vamos entrar. –ele arrumou melhor o cobertor em torno dela- Eu queria muito saber porque você sempre tem que acabar nua, independente do que aconteça.
Ela riu, e foi levada para dentro.
Ninna foi acomodada num dos quartos de hóspedes. Severus e Pan observam a mulher dormir, enquanto Pearll atendia o chamado do Ministério. Pan tinha a carta urgente de Fudge em mãos, chamando-a, e contando que Sirius havia invadido Azkaban e retirado Ninna de lá. Ela sabia que precisava ir, mas estava adiando. Precisava representar muito bem o papel de choque e inocência e sabia que Pearll se sairia melhor sozinha. Minerva observava a filha com medo e muito ansiosa. Dumbledore chegou quase junto do amanhecer, vindo de Azkaban. Fora chamado para estudar o ambiente e rastrear os feitiços.
-Eles estão perdidos. –comentou entrando no quarto- Completamente perdidos, sequer sabem por onde começar. Estão buscando por Sirius, mas Sirius não esteve lá. Todos os rastros foram cobertos. -então ele se deu conta da presença extra no quarto -Min... -sibilou ele sentando-se na cama ao lado da mulher- É ela mesmo...
-Pan conseguiu. -Minerva sorriu segurando a mão de Ninna delicadamente.
-Ela ainda é linda... -Dumbledore tocou o rosto magro de Ninna- Esse nariz me lembra Ariana.
-Sirius! -berrou Ninna sentando-se na cama de uma vez, assustando o casal.- Me leve, eu não vou resistir!
E então ela se deu conta de onde estava. Minerva estava de pé ao lado dela, olhando-a como se não soubesse como agir, em duvida se a abraçaria ou não. Dumbledore havia recuado um pouco com o susto. Pan e Severus apenas retesaram-se em seu lugar com as varinhas prontas para o que viria.
-Mãe? -Ninna perguntou, a voz firme e segura.
-Melina... -Minerva gemeu.
-Mamãe! -e Ninna ficou de joelhos na cama agarrando a mulher com força- Oh, Meu Deus, eu estou livre! Estou em casa!
-Sim... Sim você está.
Ninna era bonita. Tinha olhos azuis enormes, expressivos, com longos cílios negros. O rosto era anguloso, porem delicado, redondo, um pouco proeminente nas bochechas. Os cabelos eram longos e com um liso inseguro, meio ondulado, num tom variante entre o ruivo e o negro. A pele era branca, bem mais pálida e macilenta do que a de Pan, que vivia andando no sol. A expressão meio insana no rosto dela era algo novo pra Minerva, que sempre vira a filha como uma mulher séria e centrada, mas Azkaban fez estragos na psique de Ninna, e em seu corpo magro e ossudo.
-Tanto tempo... tanto que nem sei contar... Sem minha filha, meu marido, minha mãe... Dumbledore! -exclamou ela vendo-o parado ao lado da porta e estendendo-lhe os braços, ainda tendo Minerva abraçada a ela.
Dumbledore aproximou-se com um imenso sorriso e lágrimas inundado os olhos e abraçou as duas, beijando Ninna na testa e Minerva nos lábios.
-Onde ela está? -Ninna perguntou sentando-se na cama e estendendo as pernas, um pouco machucadas.
-Pan? -Minerva olhou para trás, mas Pamela tinha desaparecido.
Ela estivera ali todo o tempo, enquanto Ninna dormia. Agora que ela estava desperta, Pan não sabia como agir. Severus a abraçava, confortando seu coração que parecia estar inundado em confusão.
-O que houve? –perguntava baixinho.
-Eu não a reconheço, Sev. Não como foi com Sirius. Eu não vejo nela minha mãe.
-Oh, meu amor... –ele beijou-lhe as bochechas- Você precisa descansar. Seus hormônios estão enlouquecidos pela gravidez e você vai ver, tudo ficará bem.
No quarto, Ninna continuava as perguntas, enquanto Minerva a forçava a comer chocolate.
-E Sirius? Ele fugiu, não fugiu?
-Sim. Ele está lá embaixo. Albus vai chamá-lo.
-Não ainda... –ela estendeu a mão impedindo-o de sair- Mãe... -a voz de Ninna soou temerosa- Eu estou horrível, não é?
Minerva sorriu.
-Pra quem passou quase treze anos em Azkaban, meu amor, você está ótima!
Ninna olhou para si mesma e viu-se dentro de uma camisola azul clara, de seda.
-É da Pan. -Minerva informou- Ela é uma moça linda e está esperando um bebê.
-Sim? Mas... –ela franziu a testa- Quanto tempo eu fiquei presa?
-O bastante.
-Ela se casou? Eu sempre imaginei Pan se casando com o filho de James e Lilly. Seria incrível e...
-Severus Snape.
-Ele é filho de Severo Snape? O Ranhoso teve um filho?
-Não, Melina. O marido de Pan é Severus Snape.
O mais provável aconteceu. Ninna desmaiou.
-O Mundo da Magia deve estar em polvorosa agora.- Sirius dizia- E tudo isso vai cair sobre você.
-Não. –Pan murmurou, sentando-se ao lado dele- Eu acho que vai cair sobre você.
-Mas exigirão que você explique, que você resolva...
-Eles seriam tolos se assim fizessem. –Severus pontuou- Pan tem um álibi e dará um excelente depoimento hoje.
-Sua ausência ontem certamente foi notada. –Sirius murmurou ainda bastante preocupado- Você conseguiu cumprir algo incrível, mas ainda assim eu estou preocupado com as consequências.
-Eu sabia de tudo isso antes de me aventurar em algo assim. –Pan comentou, sentada no sofá junto ao marido, enquanto ele distraidamente entrelaçava seus dedos, observando o dia começar pelas largas janelas da sala de estar.
Sirius não os olhava, para ele aquilo era imoral, e Severus tanto sabia disso, que fazia questão daquelas manifestações publicas de afeto na presença do sogro. Suas boas relações com ele estavam presentes, mas ele não podia negar para si mesmo a satisfação que era tortura-lo psicologicamente.
-Eu ainda não tive um segundo com Hope desde que cheguei. –Pan murmurou.
-Ela estava na cozinha. –Severus murmurou- Mas eu duvido muito que ela ainda esteja lá. Não deve estar sendo fácil.
Sirius remexeu-se em seu lugar com extremo desconforto. Do fundo do peito queria dizer algumas coisas pela indiscrição de Severus, mas o homem não dissera nada. Apenas insinuou. Pan estreitou os olhos e encarou o pai. Seus cabelos ruivos começando a brilhar com os raios de sol que atravessavam o vidro da janela.
-Pai?
-Sim?
-Você e Hope não...?
-Não. –ele disse apenas- Não é assim, não... Pan, eu não quero falar sobre isso. Converse você com ela, ela é sua amiga.
-Quero apenas deixar registrado que a moça está sofrendo. –Severus murmurou- E conhecendo Hope desde que ela tinha dez anos de idade e entrou em Hogwarts como uma Granger da Corvinal... bem, eu não diria que ela se apaixonou sozinha, sem encorajamento.
-O que você está dizendo? –Sirius ficou de pé, agora falando exaltado- Que eu seduzi Hope?
-Não me admiraria. –Severus beijou as costas da mão de Pan, olhando para o fogo que morria na lareira- Não conhecendo você também, desde essas tenras idades. E é uma linda moça, não o condeno por não resistir.
-Ora seu...
-Parem. –a voz de Pan soou bem definitiva. Severus sorriu consigo mesmo quando ela soltou sua mão e foi conter o pai.
Black parecia feito de ódio e para Severus aquilo era um atestado de culpa. Logo ele saberia como aconteceram as coisas entre aqueles dois. Hope tinha sido pouco inteligente naquele aspecto, mas ninguém jamais poderia exigir dela clareza mental a todo instante de sua vida. Agir passionalmente era compreensível. Mesmo aquele sendo o desprezível Sirius Black. Mas sim, o homem tinha todo um apelo em sua volta. Pai da melhor amiga, injustiçado e preso por um crime que não cometeu, sem contar o charme da idade. Sim, era compreensível, e Severus se surpreenderia se Hope surgisse com um namorado de sua idade.
-Sirius, Ninna está pronta para ver você. –Minerva anunciou da base da escada. Nenhum deles tinha notado que ela estava li, talvez pudesse ter escutado parte da conversa.
-Eu... –ele gaguejou- Eu irei até ela, obrigado Minerva.
-Pamela, você não vai falar com sua mãe?
Pan olhou em volta, como se pudesse achar um pretexto para evitar aquilo um pouco mais. Severus não a apoiou nesse aspecto e ela precisou dizer com todas as letras aquilo que poderia ferir Minerva. Sirius também a olhava em expectativa, como se quisesse que alguém fosse ajuda-lo naquela grave situação.
-Vovó, eu... –Pan pigarreou clareando a garganta- Ainda não estou pronta.
-Não está pronta? –Minerva murmurou- Como poderia não estar pronta?
-Não é tão simples, eu quero dizer. Não é como se... –ela balançou a cabeça, como se com isso os pensamentos fossem encaixar-se de melhor forma- Eu irei até lá quando estiver pronta. Agora eu preciso ir ao Ministério.
E deu as costas a todos e rumou para fora, após pegar um casaco do gancho na parede. Não sabia o que sentia, apenas que não era algo bom. Apertava seu peito, uma angustia muito forte, e logo ela se viu chorando enquanto caminhava pelo gramado em direção ao penhasco. Tinha a imagem de Ninna muito viva em sua mente, os traços que elas compartilhavam... sabia que era sua mãe. Mas no fundo do peito, não podia sentir-se daquele modo. Era como se ela não precisasse daquilo, havia Minerva em sua vida.
Acariciou o ventre quando o bebê se moveu suavemente, acomodando-se melhor dentro dela e pensou que quatorze anos antes, podia ser ela acomodando-se melhor dentro de Ninna. Secou as lágrimas e olhou para sua casa. Podia ver Severus de pé, diante da janela, olhando para ela no meio do gramado. Ele queria dar-lhe aquele espaço, mas sua preocupação com seu bem estar era maior do que suas convicções e ele estava ali para ver. Pan acenou para ele timidamente e continuou caminhando, indo sentar-se por um instante no banco da sombra do grande olmo. A neve da noite anterior não havia se acumulado, e estava derretendo aos poucos. Ela novamente virou-se para olhar sua casa e viu a figura feminina no andar superior, na varanda, igualmente observando o nascer do dia. Sirius estava ao lado dela, com um braço em sua cintura. Pan sorriu. Tudo se ajustaria eventualmente. Inclusive ela.
