Capítulo Quadragésimo
Severus voltou pra casa na noite de domingo. Era tarde, por volta de onze da noite. A casa estava mergulhada no mais profundo silencio, e ele quase sacou a varinha de susto quando Pan chamou seu nome. Ela estava sentada na poltrona diante da lareira. Tinha as pernas recolhidas e se aninhava com um cobertor em volta dos ombros. Tomava uma xícara de chocolate quente e parecia bem humorada.
–Está tarde, querida. O que ainda faz aqui? –ele aproximou-se dela, percebendo que ela abria espaço para que ele se juntasse a ela na poltrona estreita.
Curiosamente, perfeitamente abraçados, eles cabiam muito bem ali juntos. Severus arrumou melhor o cobertor sobre ela e tomou um gole do seu chocolate, conforme ela ofereceu. Estava mais doce do que era de seu gosto, mas era um calor bem vindo.
–Eu falei com ela. Minha mãe, eu me refiro.
–E como foi? –ele perguntou, apenas superficialmente interessado.
–Bem. Suponho. Acabamos dormindo abraçadas por horas e horas.
–Então se saiu melhor do que apenas bem. –ele sorriu olhando para ela- E você estava toda insegura.
–Sim, bem... Está tudo mais tranquilo agora. E seus alunos?
–Hum... –ele soltou um longo gemido de desagrado- Deixemos aqueles cabeças-ocas em Hogwarts, que é onde eles pertencem. Mas Lupin terá matacão o suficiente para o ano todo, sem que eu me incomode em preparar.
–Ele está transformado. –ela comentou pensativa e eles apenas ficaram em silencio por um longo momento.
–Eu estou cansado. Acho que nenhum de nós verdadeiramente dormiu nessas ultimas quarenta e oito horas.
–Vamos pro quarto então. –ela desvencilhou-se dele e ficou de pé- Albus disse que precisaremos estar em Hogwarts amanhã. E tia Pearll se encarregará do esconderijo dos meus pais por agora.
–Eles não ficarão aqui? –Severus perguntou, subindo as escadas de mãos dadas com ela, quase não podendo disfarçar sua satisfação.
–Albus disse que seria arriscado. Que devemos esperar que o Ministério venha procurar por eles. E Hope... bem, Hope não pretende ajudar mais.
–Ela já fez muito.
–Mais do que eu faria nessa mesma situação, devo admitir.
A volta pra Hogwarts na Segunda-Feira foi muito mais difícil do que eles imaginaram. Entraram nos terrenos da Escola andando de mãos dadas e logo ao pisar nas escadas de pedra que levavam as portas de carvalho, Rita Skeeter apareceu com um fotógrafo. Meio cega pelo flash, Pan apenas conseguiu fechar sua mão em torno da pena de repetição rápida e puxá-la para fora do pergaminho. Rita enfureceu-se com isso, e tentou avançar para recuperar a pena, mas Severus a segurou pelas vestes, e a Repórter estacou.
–A ditadura dos tempos do Lorde das trevas já passou! Quer fazer o favor de devolver a minha pena, senhorita? E de me soltar, Professor Snape?
–Se você quer uma pena, arranje outra. -Pan quebrou a que segurava no meio- Isso é pelos impropérios que você escreveu sobre o Harry. -e jogou a pena esfrangalhada no meio dos arbustos.
–Então, senhorita, McGonagall... ou será Sra. Snape? -perguntou ela maliciosamente tirando outra pena de repetição rápida da bolsa de crocodilo, ignorando completamente o fato de que eles não pareciam muito colaboradores com a imprensa- Fale-me mais como se sente sobre seu pai ter conseguido, novamente, debochar da cara de todos os aurores do Reino Unido?
–Não vou dizer nada. -Pan respondeu entrando no castelo- E não se atreva a cruzar a soleira desse castelo ou eu vou azará-la, e eu garanto que não vai ser muito confortável.
–Como a fuga de sua mãe de Azkaban afeta o fato de que agora você também enfrenta os desafios da maternidade?
–Contanto que ela e Black não se aproximem de Hogwarts ou do meu filho, isso não é problema meu.
E Severus fechou as portas de carvalho deixando Skeeter do lado de fora com seu fotógrafo. Naquela noite Pan encontrou-se com Harry, Rony e Hermione nos jardins, para lhes contar como foi o resgate de Ninna.
–E como ela é? -Hermione perguntou ansiosa.
–Ela está meio confusa, mas eu acho que e breve isso vai passar.
–O Sirius deve estar muito feliz!
–Muito! –Pan respondeu, não podendo disfarçar as duvidas que tinha com relação a isso. Para ela, Sirius estava bem, mas ele aparentava mais felicidade antes.
–Quando falei com ele achei que ele estivesse muito tenso. –Harry comentou- Deve estar mais tranquilo agora.
–Você falou com ele? -Pan estranhou.
–Sim, na lareira. -Harry confirmou- Ele disse que você tinha prometido que nos encontraríamos, mas que você estava muito ocupada ultimamente.
–Engraçado, ele não me disse nada. -Pan disse incomodada- Eu adoraria saber de que lareira vocês conversaram.
–Ele invadiu a casa de uns bruxos. Isso já faz uns dias, foi pouco após a primeira tarefa.
–Imagino o que ele disse a você.
–Me mandou tomar cuidado com Karkaroff.
–Isso mesmo. Eu tenho muitos motivos pra odiar Igor Karkaroff, e se o meu pai já te disse isso sem conhecer os motivos que eu tenho, imagine o que ele faria se eu contasse. Sem contar que ele provavelmente foi quem me atacou na véspera da primeira tarefa. Infelizmente Hope não conseguiu provar nada disso, nem com a ajuda de Moody, que se encarregou de investigar. Mas eu tenho certeza que foi ele. E ele fez isso muito bem feito.
–Você acredita mesmo nisso? –Hermione perguntou- Muito se comentou sobre esse "terrorismo", mas eu achei que pudesse ser algo mais acidental. Ou uma brincadeira.
–Eu também imaginaria que seria assim, mas não com a poção que foi usada contra nós. Eu e Moody éramos o foco, eu ainda não sei as razões disso, mas imagino que nos impossibilitar de estar ali presente, poderia significar que Harry teria menos ajuda caso as coisas ficassem mais complicadas com o dragão. Você poderia morrer ali, isso eu garanto. Severus se machucou bastante quando testou a arena. E quem faria uma brincadeira daquelas com uma mulher grávida? Eu poderia ter perdido meu filho com aquilo, Madame Pomfrey foi bem clara sobre isso.
–Mas se fosse Karkaroff, ele estaria colocando também a vida de Krum em risco. E Fleur quase morreu.
–Comensais da Morte se importam muito pouco com mortes colaterais.
–Sirius falou de Berta Jorkins e da teoria de que ela contou a Voldemort sobre o Torneio. –Hermione murmurou.
–Severus também está insistindo nessa teoria e isso não é muito difícil de ser a verdade. Você não foi inscrito nesse Torneio a toa, Harry, tenha certeza disso.
Harry contou como foi a prova com o Dragão.
–E o ovo?
Harry engasgou.
–Harry, não ouse fingir que não é com você! Você viu aqueles Dragões! Essa prova pode ser até mais perigosa que a anterior! Na verdade, ela é. –Pan já sabia do que se tratava, Hope lhe dissera quando elas planejavam a invasão de Azkaban.
–Vamos trabalhar nisso. -Rony garantiu tentando limpar a barra de Harry.
–Não, Rony! Harry tem que fazer isso sozinho! -Hermione questionou olhando de soslaio pra Pan.
–O quê? Vocês não ousem deixá-lo sozinho! Ajudem-no o máximo que puderem! Eu provavelmente o farei. Você precisa sair vivo. –ela segurou as mãos dele- Precisa.
Alguns dias se passaram, e Pan só soube noticias dos pais quando Pearll veio a Hogwarts lhe dar mais informações. Eles estavam bem, instalados numa casa de campo bastante confortável e isolada por feitiços. Ficava próximo a Manchester, e Pan finalmente descobriu onde a tia se escondia quando queria ficar sozinha.
Hope chegou na sexta feira, já com os planos da segunda tarefa prontos para serem colocados em ação. Nos bastidores, era preparado o Baile de Inverno. Pan estava praticamente desocupada, já que esquecendo Karkaroff, nada muito grave ameaçava Hogwarts, mas Moody continuava agindo estranho, cada vez mais neurótico sobre estar sendo caçado por algo. Severus estava mais cansado e ranzinza do que nunca. E aquilo as vezes se refletia em Pan.
–Onde você estava? –ele perguntou um pouco bruscamente demais quando ela entrou no escritório, onde ele corrigia trabalhos dos alunos.
–Terminando a ronda. –ela disse como se fosse obvio- E porque razão você está tão grosseiro comigo?
Ele fechou os olhos e respirou fundo. Pan sabia que aquele era Severus, e que se ela quisesse um poço de delicadeza, precisaria ter se casado com outro homem, não ele.
–Desculpe. –ele disse- Mas eu acho que você não deve estar andando por ai com uma barriga deste tamanho, como se ninguém tivesse tentado te matar.
–Quem tentou me matar?
–A pessoa que lançou aquela poção-bomba.
–Ali não havia veneno, Sev.
–Mas um pouco mais daquilo e você poderia ter entrado em coma e perdido o bebê. Se aquela bomba tivesse explodido aqui, nesse escritório, teríamos descoberto se você é realmente imortal ou não. E Hope estaria morta. Então quando eu lhe peço para que se cuide mais, eu não falo isso assim, de forma arbitrária.
Pan respirou fundo e revirou os olhos, tentando não responder aquilo de forma mal criada.
–Irei dormir em casa hoje. –ela informou- Amanhã pretendo ir ao Beco Diagonal, algumas coisas já devem começar a ser providenciadas. Pro bebê, eu me refiro.
–Você irá ao médico amanhã?
–Sim.
–Quer que eu acompanhe você?
–Acho que você saberia que deve me acompanhar mesmo que eu não quisesse.
E saiu do escritório parecendo bastante irritada. Severus percebeu que precisava ir atrás dela. Pan estava muito sensível, ele estava muito estressado, e aquele dificilmente seria o momento certo para eles estarem naqueles termos.
–Amor?
Ela não se virou, apenas continuou colocando peças de roupa numa mochila. Severus se aproximou mais, um pouco inseguro se deveria abraça-la ou não.
–Pan?
–O que? –ela perguntou mais grosseira do que pretendia.
–Desculpe. Eu estou cansado hoje, é isso.
–Por acaso fui eu quem cansou sua beleza?
–Não. –ele a abraçou pelas costas, repousando a mão sobre a barriga redonda- Desculpe. –beijou seu ombro- Não fique chateada comigo.
–Eu entendo como os alunos podem odiar tanto você às vezes.
–Eu sei. –ele riu um pouco- Não é proposital, embora eu sempre saiba que há como evitar a grosseria.
Ela girou em seus braços e o encarou ainda bastante séria.
–Em pouco tempo nosso filho vai nascer. –disse com os olhos estreitos- E eu gostaria muito de saber se você agirá assim com ele. Mesmo que ele seja um... cabeça-oca.
–Não criarei uma criança pra que seja uma cabeça-oca no futuro. Teremos uma pequena Hope, isso eu lhe asseguro.
–E se for um menino?
–Não será. –ele disse- Eu sinto.
Pan sorriu, esquecendo-se de estar enfurecida apenas poucos instantes antes, e deixou que Severus a beijasse.
–Eu vou pra casa com você. –disse- Espere apenas que eu termine de corrigir as redações.
–Ok.
No dia seguinte. Pan e Severus saíram do St. Mungus muito satisfeitos por saberem que o bebê estava completamente bem. A medibruxa lhes perguntou se eles gostariam de saber o sexo do bebê, mas eles recusaram. Preferiam ter a surpresa. Com isso, eles já tinham uma data provável. Dia 25 de Fevereiro. E isso os animava, mas na mesma medida, aterrorizava.
Nos corredores, escadas e salões da Escola fervia a procura por pares pro Baile. Pan notava que Harry e Rony não tinham conseguido nada ainda, e ria interiormente. Harry devia achar mais fácil passar por um Dragão a convidar uma garota pro Baile. Severus lhe fizera o convite para o baile na manhã daquele domingo, quando puderam despertar despidos e enroscados em sua cama.
–Você... –e a beijou- ...quer... –e beijou novamente- ... ir ao baile... –outro beijo- ... de inverno... –mais um- ... comigo?
–Eu não caberei em nenhum vestido até lá, Sev.
–Compre um vestido novo. –ele disse, não acreditando que ela tinha achado uma forma de recusa.
–Nada ficará bem. Não nesse corpo redondo e potencialmente obeso.
–Você nunca esteve tão linda. –ele protestou- E eu nunca estive tão orgulhoso de mim mesmo na vida, como foi quando eu andei com você pelo Beco Diagonal e todos viam como minha bela esposa estava ainda mais bela esperando meu filho.
–Eu sequer sei como você consegue se atrair por mim desse jeito. Quero dizer... não é como se eu fosse a mesma Pan de antes.
–Antes nós mal podíamos nos desgrudar. Agora estamos indo mais devagar, obviamente, há alguém além de nós dois aqui nessa cama. Mas isso não quer dizer que eu esteja desejando menos você. Você está linda, querida. Não pense que a gravidez está afetando isso. Na verdade, seus seios estão ainda mais... interessantes. –ele comentou com um sorriso malicioso.
–Então tudo bem.
–Tudo bem o que?
–Sobre o baile. Ou você já desistiu?
–Ah. –ele riu- Eu sabia que você aceitaria. Nem que fosse pra aparecer com um traje de auror e fazer a segurança da festa.
–Você acha que podemos precisar de segurança? –ela franziu a testa finalmente se dando conta da gravidade da situação.
–Dumbledore convocou aurores. Fique sossegada, você está basicamente de férias.
–De certa forma. Hope ainda precisa de mim para preparar as tarefas.
–E sobre Hope, como ela está?
–Deprimida. –Pan suspirou- E meu pai também não parece o mesmo.
–Quando você pretende ir lá de novo, vê-los?
–Antes do Baile. –ela murmurou- Eu sinto que posso usar mais tempo com Ninna e Sirius. Eles estão vivendo uma vida semelhante a nossa, de recém-casados. A cabana é bem agradável. Mas Ninna ainda não parece exatamente bem. Sirius conta que ela tem pesadelos e lapsos de memória. E ela não consegue usar magia. Albus e minha avó estão cuidando disso.
–Em todo caso... Quando você decida ir ate lá, diga a sua mãe que... –ele pensou por um instante- Diga a ela que eu gostaria muito, de numa próxima ocasião, poder conversar com ela. Sobre você, sobre como nossa história aconteceu. Eu sei que ela ainda não lida bem com isso. Merlin sabe que foi bem estranho pra nós dois estarmos durante aqueles dias nessa casa. E não pode ser assim. Ela terá um neto e ela será próxima dele. E eu não quero que em nenhum momento nosso filho esteja sendo disputado.
–Você quer ficar amigo da minha mãe, em resumo.
–Assim como eu pretendo não armar uma guerra com seu pai todas as vezes em que estivermos no mesmo lugar.
–Você amadureceu mais do que eles. –ela riu, lembrando-se de como os dois se posicionaram na ultima vez em que se viram. Nenhum dos dois era feliz com aquele casamento de Pan, mesmo com ela dizendo ser feliz e mesmo eles tendo visto o tipo de vida que Severus dava pra ela.
–Seus pais são nosso menor problema.
De uma coisa Pan tinha que ter certeza sempre: a sua vida plena, completa e feliz com Severus teria que esperar, mesmo com o bebê. Ela tentou afastar os pensamentos de sua mente e deixou Severus erguer-se da cama e entrar no banho. Ela tinha em mente que eles precisariam enfrentar todo o tipo de provações nos anos que viriam, mas não achava justo que seu bebezinho pagasse por isso. Severus pensava nisso constantemente, e grande parte das vezes, era essa preocupação que mudava seu humor bruscamente. Mas não havia muito o que ser feito sobre aquilo. Ela precisaria se preparar e ele também, e os problemas que viessem, precisavam resolver-se como tudo na vida deles: juntos.
