Capítulo Quadragésimo Segundo
-Ontem Karkaroff me procurou muito alarmado. -Severus disse desamarrando a faixa do vestido de Pan, quando eles puderam chegar finalmente em casa, já numa hora muito avançada da madrugada.
-Alarmado? -Pan franziu o cenho.
-Bom, era por isso que eu estava estranho. Mas ele estando com a mesma dúvida e...
-É a Marca Negra? -ela perguntou segurando o braço esquerdo dele- Tem ardido?
-Eu estou seriamente preocupado com isso. Indica que nosso tempo está se esgotando e que logo você irá fazer parte de uma coisa pra qual eu não gostaria de voltar.
-Sev, eu permanecerei como estou: Do seu lado.
-Eu sei e sou egoísta o suficiente pra me alegrar por não precisar me afastar de você, mas outro pedaço de mim sofre, porque você vai estar em perigo, e se ele voltar ainda mais poderoso e nervoso do que ele já era, eu não quero nem imaginar o que poderá acontecer com você.
-Era muito ruim? Quero dizer, ele maltratava os próprios seguidores?
-A cruciatus nunca foi tão usada no mundo...
-Oh Sev! -ela segurou o rosto dele vendo, não sabia como, as lembranças dele ao ser torturado por não conseguir satisfazer as vontades do mestre.
Pan recuou alarmada. Caiu na cama como se as visões dele fossem suas e ela não podia, segundo Fawkes, ler mentes ou ter sua mente lida. Severus também notou que ela tinha invadido suas memórias sem perceber, e ele era um exímio oclumente.
-Pamela... –Severus adiantou-se em checar se ela estava bem, mas Pan pressionava as mãos nas têmporas e sentia uma pontada atravessar seu crâneo- Querida, você está bem?
-Vai passar... Vai... Oh... –o bebe remexeu-se muito rápido e incomodado dentro dela, e aquilo plantou uma nova dor em seu púbis- Sev! –ela o encarou arregalando os olhos e segurando o ventre- Sev, ele não está bem... Oh!
Atordoado, Severus apena olhava em volta, procurando algo que pudesse ajudar. Sentou-se ao lado dela, segurou suas mãos e pediu que ela respirasse devagar. Pan o atendeu e logo tanto a dor de cabeça quando os movimentos revoltados do bebê se acalmaram. Ela se tranquilizou aos poucos e quando tudo parecia estar normal, Severus terminou de despi-la e a acomodou na cama.
-Por que nós estamos tão ligados mentalmente? –ela perguntou, tomando o copo de leite morno que Severus pediu ao elfo doméstico.
-Não sei. Você supostamente deveria ter a mente bloqueada, não foi isso que a Rainha Elve disse?
-Isso. Sim. –ela murmurou- Eu não sei o que fiz ou como fiz. Desculpe-me por invadir sua mente.
-Não se preocupe com isso. –ele afagou o rosto choroso dela- Não há culpa nisso, e nada presente em minha mente deve ser segredo a você.
-Não quero que se repita. Pelo menos não enquanto o bebê não tenha nascido. Ele não gostou nada da sensação.
Ela acariciou o ventre onde o bebe ainda se movia, mas agora menos contrariado.
-Mas... e então, o que você disse a Karkaroff? –ela mudou de assunto.
-Mandei que ele se acalmasse e disse que eu continuaria em Hogwarts. Acabei esbarrando em Potter e Weasley. Acho que eles entreouviram a conversa.
-Harry é muito esperto...
-Se fosse verdadeiramente esperto estaria estudando o ovo, e não perdendo tempo com a vassoura e Quadribol. Creio eu que ele ainda não conseguiu nada.
-Mas 24 de Fevereiro está a um passo... É basicamente a data prevista para o nascimento.
-Eu sei. E eu estou preocupado. Você não estará em condições de fazer nada na segunda tarefa e de nenhum modo nós podemos permitir que algo passe.
-Eu provavelmente estarei grande demais sequer para estar em Hogwarts. –ela bocejou.
Amanhecia e Pamela estava adormecida, deitada de lado com um travesseiro entre as pernas. Severus se perguntava incansavelmente se era realmente verdade que a vida a tinha conduzido diretamente a ele... Em seus pensamentos, neste momento, uma cena de anos atrás.
"-Pense nas coisas que você quer esquecer. -ele dizia com uma ruga atípica entre as sobrancelhas- Depois mentalize o feitiço Memorium Exumai. Eu tirarei as lembranças da sua mente. Para você será como se as coisas que aconteceram não passassem de algo que você ouviu falar.
-Mas eu vou precisar relembrar tudo agora? -perguntava Pan com a voz tremida, os enormes olhos azuis arregalados de terror.
-Pela ultima vez. -Snape prometeu- E você nunca mais precisará temer por isso.
-Você vai ficar comigo...?
-Sim, eu ficarei. -a voz grave dele retumbava nas paredes frias das masmorras- Apenas concentre-se.
Severus Snape observou a menina fechar os olhos e franzir o cenho em concentração. No momento em que ela ergueu a mão, Severus segurou a varinha junto com ela, extraindo três lembranças, colocando-as em três diferentes vidrinhos. Ela abriu os olhos sorrindo.
-Funcionou! -comemorou ela em uma exclamação contida.
-Creio que sim. -Snape murmurou secando duas grandes lágrimas do rosto dela com os polegares.
Pan abraçou o mestre de Poções, já bastante habituado aos seus rompantes calorosos, mal podendo imaginar o quanto ela já gostava dele.
-Me perdoe por isso. -ele disse apoiando timidamente as mãos sobre as costas da garota.- Por insistir que seria bom para você estudar em Durmstrang...
-A experiência me ensinou muita coisa. -ela o interrompeu- O professor Karkaroff foi apenas um contratempo.
Ela o soltou e voltou ao sofá.
-Posso pedir-lhe uma coisa, Severus?
-O que quiser. -ele garantiu.
-Me prometa que não verá essas lembranças até eu estar pronta para dividi-las com você...
-Eu não pretendia ver. -ele garantiu erguendo uma sobrancelha- Se eu vir o que ele fez, ninguém me garante que eu me contenha e não dê a ele um destino semelhante ao dos Longbottom.
Ela riu com a indignação do homem. Aquilo era o mais próximo de uma declaração verbal de afeto que Severus Snape era capaz de dar.
-Igor Karkaroff é presa minha. -Pan disse.
Snape riu com sarcasmo.
-Você duelando com Karkaroff? -ele continuou rindo diante da expressão divertida dela- Karkaroff foi um Comensal da Morte, Pamela. Ele sabe duelar muito mais do que...
-Não importa sob que circunstancia. Ele será minha vitima.
O riso de Snape esmoreceu e ele a fitou com certo respeito e medo.
-Se você está tão certa disso... -e ele deu de ombros- Apenas sugiro que você se esforce muito.
-Oh, eu vou me esforçar. -ela disse com um largo sorriso- Ainda expulsarei muitos crápulas como Karkaroff da Comunidade bruxa, você estará próximo o suficiente pra ver."
Snape não sabia o porquê de estar relembrando isso, mas acreditava que tivesse a ver com o fato de que Pan acertara todas as coisas que dissera, afinal, era uma auror. Aos poucos ela cumpria o que havia prometido a si mesma anos atrás e suas lembranças estavam seguras. Ele, sinceramente, não desejava ver nada daquilo. A forma com que ele a assediou ou até mesmo as palavras que ele disse pra tentar convencê-la a ceder aos seus caprichos. Ele e Karkaroff possivelmente estariam no mesmo barco, em breve, se as coisas continuassem a tomar o rumo que estavam tomando. Mesmo Pamela, grávida como estava apresentava mais de foco nos caminhos pelos quais sua vida enveredava e assumia uma postura mais felina e combatente.
Um mês após o Baile, Pan e Hope decoravam o quarto do bebê. Haviam escolhido cores neutras, nesse caso amarelo pálido, já que não sabiam o sexo da criança. Enquanto Pan dobrava as minúsculas roupinhas, sentindo que não havia forma daquela criança crescer mais dentro dela, elas conversavam.
-Eu me sinto extremamente diferente. –dizia- É como se pela primeira vez desde que Fawkes me queimou eu fosse apenas uma mulher.
-E porque será isso?
-Acho que a maternidade é magia o bastante para uma pessoa. Mesmo uma bruxa. Eu desfruto intensamente de fazer tudo com minhas próprias mãos, sem usar magia, sou capaz de passar horas sentindo o bebê se mover e não há, pelo menos por agora, aquela sensação meio selvagem, aquele instinto que me regia antes. Eu me sinto calma, serena e há em mim uma sensação de dever cumprido que eu não sei explicar.
-Você e Severus estão construindo uma vida plena da melhor forma possível. E eu me sinto extremamente feliz por vocês. Quando esse bebê nascer será a confirmação de que o destino de vocês realmente pertence um ao outro.
Hope terminou de fixar o mobile de corujas coloridas sobre o berço, e veio sentar-se junto de Pan.
-Há algo que eu gostaria de conversar com você. Algo que me preocupa.
-O que houve? É sobre meu pai?
-Não. –ela fez uma pequena careta- Eu não seria obtusa o bastante para debater esse sentimento indigno que tenho por Sirius com você. Não quando ele e Ninna pareciam tão bem no casamento dos seus avós.
-E o que foi? O que aflige você?
-É Potter.
-Harry? O que há?
-Potter ainda não desvendou o Ovo.
-Mas... a essa altura eu acho que até Delacour já sabe o que há no ovo...
-Krum e Diggory eu sei que já sabem. -Hope garantiu- Só pelo teor das pesquisas que eles fazem já dá pra notar que eles desvendaram a pista. Quanto a Delacour eu não sei...
-Ela deve estar esperando que o Ovo diga que ela vencerá o Torneio só com a força exacerbada de sua beleza...
-Bem provável. –Hope riu- Delacour deve ter alguma coisa boa debaixo daquela beleza toda ou então o Cálice de Fogo não a teria escolhido. Ela dificilmente deixa isso transparecer, mas em todo caso, espero que ela já saiba do que se trata.
-E o que você quer de mim?
-Que você diga a ele.
-Hope! Como organizadora das provas do Torneio muito me admira que você estimule essa transgressão!
-Mas Pan... –ela argumentou- O garoto sequer deveria estar competindo. E ele tem a clara desvantagem de ainda ser do quarto ano. Se você perguntar a Pearll sobre as criaturas que ela conseguiu para o Lago... Você vai realmente querer que ele saiba com o que está lidando.
-Você sugere que eu conte então?
-Discretamente. Sugiro que ao menos lhe dê a pista de abrir o ovo debaixo d'agua. Dificilmente os outros competidores fizeram isso sem receber uma dica. Ou utilize a mocinha... Granger.
-Eu farei isso. –Pan suspirou abrindo um sorriso- Quem vocês pretendem deixar no fundo do lago?
-Eu ainda estou estudando o caso de Delacour, mas provavelmente será sua irmã menor. Harry resgatará Ronald Weasley. Krum está claramente apaixonado por Hermione, e Cedric tem a namorada, Cho.
-Eu gostaria de poder ajudar. –Pan disse com ar sonhador- Parece ser realmente bem animado.
-Você estará recuperada pra tarefa final, e isso é a melhor coisa que poderia nos acontecer. –Hope comentou- Eu vou precisar da sua ajuda o máximo que der.
-Estaremos lá. –ela prometeu- E no labirinto os campeões precisarão trocar uma fralda quando cruzarem determinado corredor.
Hope gargalhou, e Pan sentiu saudades de ouvir aquela satisfação em sua voz. Hope estava mudada desde que tudo aconteceu envolvendo Sirius. A verdade era que Pan notava as mudanças desde que ela quase morreu após o ataque do pet maligno de Voldemort. Agora ela parecia melhor e logo estaria completamente recuperada. Corações partidos saram, ela concluiu.
E o frio instalado pela neve não abandonava Hogwarts. Os dias passavam e Harry nada tinha feito com o ovo. Pan estava no ultimo mês de gestação, e o bebê claramente queria nascer o mais rápido possível. Ela temia que as datas se adiantassem. Em verdade, ela começava a temer o parto, mesmo com Minerva garantindo que tudo ficaria bem.
-Na verdade não fica assim tão bem. –Ninna comentou, servindo a filha de chá na cabana que ocupava com Sirius.
Pan já via aquele lugar como a casa de seus pais. Desde que descobrira que subir e descer escadas com o ventre inchado daquele modo era arriscar-se indevidamente, ela desistiu de ficar em Hogwarts. Severus ia para casa dormir ao seu lado todas as noites, e ela tinha mais tempo de ficar com a mãe.
-Como assim? –Sirius murmurou- Pan nasceu tão rápido.
-Eu sofri por horas, Sirius, o que você está dizendo? Era interminável, eu mal sabia se me manteria sã depois de tudo aquilo. Era como se eu fosse Alice Longbottom e Bella Lestrange me torturasse até a insanidade. E quando você finalmente nasceu...
Pan tinha um olhar aterrorizado e parecia prestes a sair dali e ir para um mundo onde ela não estivesse às vésperas de dar a luz. Sirius parecia mais sensibilizado sobre isso do que Ninna, que claramente tinha deixado as habilidades sociais de confortar alguém em algum lugar do passado.
-Ninna! –Sirius disse para conter a mulher de seguir falando- Querida, vai ficar tudo bem. –ele prometeu acariciando o ventre de Pan, onde seu neto se movia bem devagar- Severus provavelmente esta criando uma poção para que você não sinta tanta dor.
-É, claro. –Ninna percebeu que tinha falado tudo da maneira errada- Que depois de toda a dor e a terrível sensação de que algo maior do que devia está saindo por um lugar que não parece comportar aquilo... há a satisfação. Você olha para aquela pequena coisa coberta de sangue e líquidos estranhos e sabe que depois de um banho nada no mundo será mais importante que isso. Mesmo com todas as fraldas pra trocar e o choro durante as noites e que em algum momento, pessoas do Ministério podem aparecer para arrancar seu bebe dos seus braços e lançar você em Azkaban. Mas vale a pena. –ela sorriu.
Pan encarava o pai com extremo desconforto. Ela sabia que Ninna não estava normal, mas não imaginava que os traumas dela fossem tantos e tão aparentes.
-Pelo menos eu sei que vou sofrer. –murmurou, caminhando com Sirius pela orla do bosque- Muito embora ela tenha falado demais e de forma pouco reconfortante, há a mais pura sinceridade no que ela diz.
-Sim, isso sim. Você ficará na sua casa, até o bebê nascer?
-Eu talvez vá a Hogwarts, ver a Segunda Tarefa, caso ainda tenha condições para isso. Mas provavelmente estarei na minha cama, esperando que ele decida vir ao mundo.
-Eu gostaria de estar com você quando isso acontecer.
-Sim. –ela beijou sua mão- Eu também gostaria disso. Tia Pearll virá busca-lo quando a hora chegar. Até lá... Preste atenção nela. –e olhou para a cabana, onde Ninna tricotava uma veste para o neto- Eu sinto que ela está ficando mais confusa.
-Bem, sim, ela está. Mas deve ser assim mesmo. Não se preocupe com ela. Eu gostaria de conversar com você sobre outra coisa.
-Sobre?
Sirius olhou para longe quando encontrou coragem e palavras para dizer o que pretendia.
-Como está Hope?
Pan suspirou. Aquilo tinha custado muito a ele, ela podia ver.
-Bem. Ocupada com o Torneio.
-Remus esteve aqui, você sabe. Pearll e Eric o trouxeram após o casamento dos seus avós.
-Sim.
-Ele me disse que você o convidou para ir ao Baile como par de Hope.
-Imaginei que seria bom pros dois. Eles são livres, e se dão bem.
-Pan, não faça isso. –ele pediu, sem olhar para a filha, sentindo que não podia encontrar as palavras para dizer aquilo sem soar como um cafajeste.
-Você a ama?
-Oh... –ele balançou a cabeça, como se assim pudesse negar mesmo para si- Eu sou uma pessoa podre, querida, eu sei.
-Não... –ela segurou o rosto dele e o fez encará-la- Você não é, pai. Não é de modo algum. Vocês conviveram de perto e eu bem sei quem é aquela pequena. Você se apaixonou e é natural. Ela se apaixonou e também é natural.
-Não é justo. –ele disse- De nenhum modo. Comigo, com ela ou sua mãe.
-Não. Não é. Mas vocês vão superar isso. -ela olhou uma ultima vez para a cabana antes de abraçar o pai. -E o que tiver que ser, será.
