Capítulo Quadragésimo Quarto
Papoula Pomfrey concentrava-se em curar Pan. Feitiços, poções, e uma boa quantidade de dicas sobre como cuidar do bebê.
-Que poção é essa? –Severus perguntou, quando viu a enfermeira despejar o conteúdo numa taça.
-Poção Revigorante. –e entregou o cálice a Pan.
-Não. –ele disse, impedindo a mulher de beber aquilo- Você não precisa ficar acordada ou ativa. Você precisa dormir e descansar naturalmente.
-Mas Severus...
-O dia foi terrivelmente longo Pan. –ele disse- Essa poção vai apenas prolongar mais esse dia. Você tem que descansar.
-Mas logo agora que minha filha nasceu? –ela protestou- Agora que eu posso vê-la, e passar um tempo com ela? Oh, eu estou exausta, sim, mas eu jamais abriria mão de cuidar dela para ter uma noite de sono.
-Por enquanto. –Minerva comentou com bom humor, com a bisneta nos braços. – Depois tudo o que você vai querer é uma noite de sono.
-Mas então? Você vai tomar a poção ou não? –Pomfrey perguntou.
-Eu estou tão cansada... –ela disse num gemido- E sim, eu gostaria muito de dormir. Mas sim, eu também quero muito estar com ela.
-Você estará com ela a vida toda. –Severus prometeu- Descanse.
-Eu poderia, pelo menos, tomar um banho antes? –ela abriu um sorriso cansado- Eu sei que estou limpa e curada, mas eu preciso de um pouco de agua quente.
Severus a ajudou a ficar de pé. Ela se surpreendeu por não sentir sequer a mais mínima dor. Era como se estivesse finalmente recuperada de uma forte gripe. Ainda assim, estava um pouco tonta, e deixou que o marido a ajudasse no caminho até o banheiro, onde ele preparou um banho quente para ela. Pan se despiu, ainda achando bastante estranho seu ventre estar liso e plano depois de todos aqueles meses em que Meredith se formava dentro dela. Era como se ela nunca tivesse estado gravida, muito embora, os seios cheios de leite, indicassem o contrário.
Ela entrou na água sentindo a excelente sensação de relaxamento apoderar-se dos seus músculos. Severus sentou-se na borda da banheira e observou a mulher acomodar-se fechando os olhos evidenciando todo seu cansaço.
-Você foi uma guerreira hoje, meu amor. –ele disse, beijando a mão que segurava.
-Todas as mães são, eu acredito. –ela murmurou- Não imaginei que fosse tão difícil.
-Mas você enfrentou tudo isso e agora nosso premio está nos braços da avó, pronta para ser colocada no berço.
-Ela é perfeita, certo? Você contou seus dedinhos? –e Pan pareceu preocupada, como se aquilo fosse de vital importância.
-Sim. –ele riu- Eu contei. Verifiquei suas orelhas, agradeci aos deuses por ela ter seu nariz, e sim, de fato, é uma menina.
Meredith chorava no quarto, de forma inconsolável. Minerva sabia que aquele choro podia ser consolado apenas pelo seio da mãe, e com isso, levou a pequena até onde Pan estava, ainda dentro da água quente, sentindo toda a tensão do seu corpo se esvair.
-Ela está com fome. –informou, murmurando um feitiço que deixou a pequena despida, e a entregou a mãe, que a acomodou em seus braços, ainda dentro d'água.
Meredith se espreguiçou, muito grata por estar de volta a um ambiente aquático e tão aconchegante como aquele. Pan já havia passado mais de uma hora apenas admirando o rostinho dela logo que ela nasceu, mas não parecia ser o bastante.
-Como eu devo fazer? –ela olhou para Minerva.
-Apenas deixe que ela sugue.
O desconforto era grande, mas Meredith estava muito grata por estar sendo alimentada. Pan sentia uma estranha dor, mas logo aquilo se acalmaria, Minerva garantiu. Severus permanecia ali, junto com elas, pronto para vivenciar cada pequeno momento. Quando Meredith estava, por fim, saciada, Pan a entregou ao pai, que cuidadosamente envolveu a filha numa manta felpuda, e a levou para o quarto. Minerva ajudou Pan a sair do banho, secou seus cabelos, entregou-lhe uma camisola e a colocou na cama, cujos lençóis tinham sido trocados por um dos elfos. Ela, por fim, adormeceu.
Ao despertar, Hope estava com ela. Sentada numa cadeira de balanço, embalando Meredith no que parecia ser a metade da manhã.
-Veja só, Meri... –ela conversava com o bebê- Veja quem acordou...
Pan sorriu, sentando-se na cama, ainda sentindo-se muito cansada. Hope veio trazer Meredith para a mãe e sentou-se junto da amiga.
-Onde estão todos? –Pan esfregou os olhos bocejando.
-Seus avós estão em Hogwarts. Pearll acaba de levar sua mãe de volta a cabana com Sirius. Ela não parecia exatamente muito confortável aqui.
-Ela conheceu Meri? Porque não me acordaram para que eu pudesse vê-la?
-Você realmente esta perguntando isso? –Hope riu- Depois de todo aquele esforço?
-Bem... sim.
-Ninguém pensou em despertar você. Mas sim, sua mãe passou um tempo cuidando da neta, e logo pediu que fosse levada de volta.
-Minha mãe não está bem... –Pan comentou beijando a cabecinha da filha.
-Eu pude notar. Há algo que eu possa fazer para ajudar?
-Não, querida. –Pan agradeceu- Eu acho que será assim daqui por diante.
Meredith estava cumprindo o primeiro mês de vida, e a rotina da casa dos Snape girava em torno dela. Pan tinha, solenemente, se desligado de tudo o que envolvesse seu trabalho ou o que quer que fosse que não estivesse relacionado com sua pequena. Severus voltava para casa todos os dias, como todo pai de família comum, e passava a noite cuidando da filha, enquanto Pan tinha seu merecido descanso. Hope era presença constante, e Pan era completamente grata por isso, já que ela e Meredith tinham um claro vinculo.
Sirius e Ninna estavam sempre por perto, embora Ninna estivesse cada vez mais distante e confusa. Costumava sair para caminhar pelo bosque por longas horas. Sirius geralmente a acompanhava, mas as vezes ela insistia que precisava ficar sozinha. Ele a entendia, após tanto tempo trancafiada em Azkaban, e sendo ela uma pessoa tão adepta a natureza, que era bom estar livre daquele modo novamente. O casamento deles não era exatamente um casamento. Numa das vezes em que encontrou Hope na casa dos Snape, Ninna comentou naturalmente, como se estivesse debatendo sobre o clima: "Ah, então você é Hope? A moça que Sirius ama?"
-Você tem que admitir que nenhum de vocês dois está, exatamente, disfarçando isso. –Pearll comentou, sentada na bancada da cozinha, enquanto Pan servia chocolate quente para elas. Meredith dormia calmamente numa cesta acolchoada sobre o balcão.
-Não pode ser. –Hope disse parecendo profundamente miserável, depois que Eric saiu para levar o casal embora- Não é certo.
Pan não dizia nada. Ela começava a pensar que aquilo sim, era o correto. Sua mãe precisava de ajuda, precisava de cuidados, e todos ali estavam se esforçando para que aquilo fosse possível. Sirius era a principal peça na recuperação da esposa. Mas Ninna não mostrava melhora alguma, e Hope parecia cada vez mais apelativa com aquela sua postura de negar seus sentimentos até para si mesma. Sirius estava completamente envolvido, mesmo quase nunca vendo a moça.
-Treze anos na situação em que eles estavam. –Pearll dizia- Treze longos anos. O casamento deles sucumbiu, assim como a mente de Ninna. É duro para mim dizer com todas as letras, mas essa é a verdade. Sirius tentou, mesmo claramente apaixonado por você, manter o casamento vivo. Mas não há mais forma disso ser possível.
-Aquela mulher passou treze anos apodrecendo em Azkaban, tendo sua mente sugada por dementadores... Ela perdeu tudo! E quando finalmente está livre, eu deliberadamente arrancarei dela seu marido? Você está ouvindo a si mesma, Pearll? Sua irmã?
-Eu não estou dizendo que você deva fazer isso. Estou dizendo que o fim do casamento deles não é sua culpa.
-Eu não condenaria nenhum dos dois, se por acaso... –Pan interrompeu-se.
-Se por acaso...? –Pearll estimulou.
-Se por acaso vocês decidissem ficar juntos. Minha mãe conversa comigo como se eu fosse Tia P, por exemplo. Ela me conta alguns detalhes, ela não tem filtro com isso.
-Ela nunca teve. Ninna sempre foi extremamente progressiva.
-Ela me conta sobre as intimidades deles, que são basicamente inexistentes. E quando digo intimidades, me refiro ao que vai desde beijos ao ato em si. Eles tentaram muito no começo, estavam indo bem. Mas ela piorou.
-Sirius contou a ela que ama outra pessoa. –Pearll comentou.
-E como ela reagiu? –Hope parecia chocada.
-Surpreendentemente bem. Ela se alegrou por ele. Disse que aquilo fazia sentido. E logo em seguida, perguntou se ele poderia, por favor, colocar no canal de culinária.
-Ela não esta magoada?
-Ela simplesmente não se importa. –Pan respondeu- Ela está livre, está bem e feliz. E meu pai é seu amigo. Não é mais seu marido.
-O que você viu em Sirius, Hope…? –Pearll comentou balançando a cabeça- Eu posso entender Pan e Severus, eu juro que sim. Mas você e Sirius ainda não me entra na cabeça.
-Não existe "Hope e Sirius". –ela disse apenas- Existe apenas uma garota apaixonada pelo pai da melhor amiga, intrigante o bastante para que ele se interesse de volta. Você podem dizer o que quiserem, mas Sirius se sente atraído e apenas isso.
Pan sabia que não. Sirius tinha contado a ela como tudo havia começado. Como eles tinham construído aquilo, muito embora lutassem contra. Hope era linda, seus cabelos de cobre, seus olhos e o belo formato dos lábios. Era madura, interessante, boa. Ele falava dela e cada palavra saia permeada de amor. E ela o fazia do mesmo modo, embora parecesse muito mais sofrida do que apaixonada.
Para completar, os problemas começaram a surgir. Pan e Meredith visitavam Hogwarts pela primeira vez desde que ela nascera. Nos braços da mãe, que caminhava com ela pelo jardim, enquanto o pai as acompanhava, Meredith parecia muito curiosa, observando tudo a sua volta. Para um bebe de pouco mais de um mês de vida, ela era bem ativa. Foi quando Eric, em sua forma alada, surgiu diante deles. A mensagem que ele transmitiu para a mente de Pan era muito clara:
-Ninna está desaparecida.
Atordoada, ela observou a fênix desaparecer. Severus, ainda bem assustado pela estranha aparição, encarou a esposa, que tinha um certo pavor no olhar.
-Minha mãe... –ela disse passando Meredith para os braços de Severus, já que temia que perderia as forças e deixaria a pequena cair- Minha mãe está desaparecida!
-Desaparecida? –ele aninhou a menina nos braços- Como?
-Não sei. –ela virou-se para voltar ao castelo, andando rapidamente- Mas eu vou descobrir.
E aparatou. Surgiu diante de Dumbledore, que parecia estar bem preocupado, embora apenas permanecesse tenso, olhando para frente com a cabeça apoiada na ponta dos dedos. Minerva, por sua vez, parecia um furacão.
-O que aconteceu?
-Sirius me enviou seu patrono para dizer que Ninna não está em lugar nenhum. –Minerva respondeu- Disse que ela saiu essa manhã para uma de suas caminhadas e jamais voltou.
-Pearll e Eric foram ajudar a procurar. Você também deve ir.
-O que vocês acham que pode ter acontecido? –Pan estava apavorada.
-Não sei... Estou pensando numa forma de descobrir o que houve.–Albus disse calmamente.
-Usarei um viratempo para dar minhas aulas e ajudar a procurar. –Minerva disse, indo até o armário do marido e tirando de lá um artefato com sua correntezinha de ouro.
-Vovó...
-Eu não posso ficar aqui! –ela disse bastante contrariada- Não posso ficar sentada como Albus está fazendo!
-Minerva... –ele disse balançando a cabeça- Eu estou pensando.
-Enquanto deveria estar agindo. –e completamente furiosa, ela saiu do escritório.
-Pan, encontre sua mãe. –Albus parecia triste- Eu irei me reunir a vocês em breve. Peça que Severus vá com você.
-Mas, Meredith...
-Deixe Meri comigo.
Pan estreitou os olhos. Se havia algo que ela ainda lembrava muito bem, era da ocasião onde ele sugeriu que ela abortasse seu bebê. Pan sabia que Albus via Meredith como um instrumento para o retorno do Lorde das Trevas, e embora pudesse ter encontrado em seu coração lugar para compreendê-lo, ela jamais o perdoaria por aquilo. Seus instintos de fênix, outrora adormecidos durante a gravidez, gritavam agora como se o desaparecimento de Ninna, fosse um plano de Dumbledore para poder estar sozinho com Meredith.
-Pan, eu apenas contatarei Hope. –ele disse, percebendo através do rosto dela no que ela estava pensando.
-Eu faço isso.
E se retirou.
-Precisamos tomar as medidas necessárias para nos proteger... -Severus dizia quando depois de horas de busca, eles se reagruparam na cabana- Se ela for pega nós teremos graves problemas...
-Ela pode contar tudo. –Pearll murmurou- Ela sequer saberia que está contando, tão confusa ela está.
-A extração de memórias comprometerá a todos nós. O testemunho dela já não será o nosso primeiro problema.-Pan dizia- Hope acabou conseguindo usar isso como recurso novo do Ministério. Não podemos deixar que ela seja capturada e não podemos nos expor.
-Black precisará de outro lugar para se esconder. –Severus pontuou, ignorando o sogro que estava ali, em forma de cachorro- Essa cabana, embora muito acolhedora, está comprometida.
-O que você já tentou, Tia Pearll?
-Todos os feitiços rastreadores e já segui uma coruja.
-Não vamos encontra-la. –Eric murmurou, usando um roupão de lã, após voltar da forma de fênix.
Pan estava na mesma situação, usando um robe de seda conjurado pelo marido, quando ela voltou da transformação, após sobrevoar o bosque por horas. Ela também acreditava que eles não a encontrariam.
-Porque não? –Pearll murmurou.
-Ela não quer ser encontrada. Ela pegou a varinha de Sirius e aparatou para longe daqui.
-Não há rastros. –Pan suspirou, sentando-se na banqueta que ficava no balcão da cozinha, segurando os lados do robe bem juntos ao corpo- Ela fugiu.
-Que motivos ela teria? –Sirius perguntou, voltando à forma humana, enquanto ocultava a nudez atrás da cortina.
-Não sei. –Pan respondeu depois de respirar fundo.
-Ninna não estava bem, quero dizer... mentalmente. Mas ela estava feliz aqui. E mesmo com todas as dificuldades desse abismo de treze anos entre nós, estávamos tentando. Ela não fugiria simplesmente.
-Ela poderia imaginar que estava abrindo caminho para Hope. –Pearll comentou.
-Dificilmente. –Sirius disse- Muitas vezes Ninna sequer sabia que estava fora de Azkaban. Ela mal sabia sobre Hope. E no fim das contas, sequer há algo para ela saber.
Eles ficaram em silencio. Pearll refletia se devia ou não contar sobre suas desconfianças após os depoimentos no Ministério. Eric, conhecendo cada detalhe da mente dela, sabia que ela estava prestes a fazer isso, e a impediu.
-Acho que devemos encontrar Albus. –disse no exato momento em que Pearll tomou coragem para falar, impedindo-a de continuar.
-Ele ainda está em Hogwarts?
-Não, ele está tentando fazer algo muito elaborado nesse bosque, para definir realmente o que houve.
-Se o Ministério a encontrar, você saberia, Pan? –Sirius perguntou.
-Imagino que eles já teriam vindo atrás de nós, se fosse o caso.
-E o que eles fariam com ela? –Sirius insistiu, estremecendo.
-O que eles fariam com você, caso fosse pego?
E com isso, deixou a informação suspensa no ar, criando coragem para sair em busca de Albus e ajuda-lo no que quer que ele estivesse tentando fazer.
