Capítulo Quadragésimo Oitavo
EPILOGO – parte III
-Eu estou com medo.
Severus ergueu os olhos para observar Albus e Minerva. A frase havia sido dita pela mulher, com ar derrotado e preocupado, que de pé ao lado do marido, parecia prestes a desabar em lágrimas. Albus apenas entendeu a mão para segurar a dela. Severus não sabia o que dizer. Ele também sentia medo.
-Não podemos nos desesperar. –Albus murmurou- Não é como se não houvesse nenhuma esperança.
Mas as esperanças eram escassas, tão escassas que Severus não conseguia pensar no que fazer a seguir. Ele não via caminho, não via saída. Era como se ele também estivesse no mesmo abismo em que Pan sucumbia.
-Eles não podem mata-la. –Severus murmurou, mais para si do que para os outros dois- Então eles a jogam num limbo de onde ninguém é capaz de retirá-la.
-Você é o especialista em Magia Negra aqui! –Minerva avançou alguns passos, repentinamente mais agressiva- Trate de resolver isso.
-Eu adoraria saber como. –ele murmurou fracamente, sem forças ou disposição para retrucar.
-Você conhece esse feitiço, certo? –Albus perguntou.
-Não fale como se você não conhecesse. –ele ergueu uma sobrancelha desafiadora.
-Sim. –Albus respondeu soturnamente, como se estivesse profundamente envergonhado daquilo- E pelo que sei dele, sua fonte de poder é motivação.
-O que você quer dizer com isso? –Minerva estranhou- Como assim, motivação?
Albus ficou de pé e deu a volta na mesa. Caminhava lentamente, pensando medindo a situação, planejando o que diria. Minerva estava desesperada. Ela sabia que Pan estava viva, sabia que Pan não morreria. Mas temia que ela jamais viesse a acordar, e depois do que houve com Ninna, perde-la sem a menor explicação, ela estava potencialmente mais sensível com temas como aquele. Pearll e Hope sequer sabiam das perturbadoras novidades, e eles pretendiam manter assim.
-O feitiço foi lançado com ódio. –Severus murmurou- Assim como Maldições Imperdoáveis, esse é um dos feitiços que precisa de algo mais do que habilidade para executar.
-E não haveria, por exemplo, um contrafeitiço? –Minerva arriscou.
-Há uma poção. –Albus murmurou- E mais da metade desses ingredientes já não existe. Sigmund Barts foi um bruxo das trevas formidável e quase infalível. Ele criou um feitiço cuja magia combatente estaria indisponível.
-E diante disso, o que faremos?
-Nós tentaremos. –Severus murmurou- Nós encontraremos cada um desses ingredientes, e o que já não exista nós iremos sintetizar. Não me importa o tempo que leve, mas eu não descansarei.
Albus o encarou com indiscutível alarme no olhar, mas não disse nada. Minerva finalmente tinha um sorriso no rosto, motivada pela determinação do homem.
-Cada dia que passar, será um dia a menos que Meredith teve com a mãe. –Severus continuou- É um dia a mais em que ela se perde no vazio. E eu não posso lidar com nada disso.
-Pan o que? –Pearll perguntou fracamente, como se estivesse ouvindo a mais absurda de todas as afirmações- Como Pan foi... O que? –ela sequer conseguia entender.
Eric se aproximou dela. Ele mordia o lábio inferior e parecia profundamente entristecido. Pearll já tinha visto Eric preocupado e tenso, mas dessa vez isso estava indiscutivelmente mais grave. Ela sufocou um soluço quando pode computar a informação.
-Moody era Bartô Crouch Jr? –Hope parecia ainda mais aérea. Estava sentada na poltrona de Severus, parecia menor do que nunca, e ainda mais frágil- E estava tramando em Hogwarts para enviar Harry Potter para Voldemort no momento propício, é isso? E que ele agora voltou?
-Basicamente isso.
-E no meio tempo, ele tentava livrar-se de Pan. –ela respirou fundo, lembrando-se de todas as vezes em que Pan tinha afirmado que Moody estava muito diferente, de como Pan tinha sido intoxicada com tsetseryn e era Moody quem estava por perto cuidando da investigação- E ele usou a Maldição do Coma.
Eric sequer achou as palavras para responder. Era difícil assimilar os fatos, ainda mais com aquela espécie de certeza permeando as mentes e corações deles: Pan estava perdida. Irremediavelmente. Com isso, a fênix apenas sentou-se ao lado de Pearll e enfiou o rosto nas mãos.
A Maldição do Coma de Sigmund Barts foi criada acidentalmente. O maior bruxo das trevas que vivera na época de Holf Hufflepuff era conhecido pela imensa gama de feitiços malignos que foi capaz de criar, e nesse caso, ao tentar criar um feitiço assassino, tão eficaz quanto Avada Kedavra, ele tinha chegado naquele ponto de congelar as pessoas para sempre num sono infinito. O coração bateria, a alma permaneceria intacta, a mente funcionaria, mas o corpo levaria toda a eternidade naquela situação estática.
Ele havia gostado bastante da ideia de produzir uma morte viva, aparentemente algo mais cruel do que a morte em si, e usou esse feitiço em grande parte dos seus oponentes, alguns deles, mantidos no Departamento de Mistérios mesmo depois de séculos. Vivos. Em contrapartida, Holf Hufflepuff, bisneto do bisneto de Helga Hufflepuff, havia conseguido sintetizar uma poção que conseguia reestabelecer parte das funções do corpo dos atingidos. Nenhum bruxo trazido de volta jamais pode realizar feitiços novamente, mas essas pessoas conseguiram seguir uma vida trouxa normal até suas mortes, que foram, curiosamente, tardias. Infelizmente nem mesmo isso era possível no momento, já que os ingredientes da poção, estavam em grande parte extintos ou perdidos, outro feito de Sigmund Barts, que ao descobrir sobre a poção que anulava sua maldição, tratou de exterminar tudo aquilo que era preciso para sintetizá-la.
Hope estava no chão da casa de seus pais, cercada por livros que não conseguia entender por completo. Magia Negra, cada um mais complexo e sombrio que o outro. Grande parte dos feitiços que havia ali, faziam com que ela estremecesse só de pensar. Era o quinto dia de pesquisas, e seu avanço havia sido mínimo. Severus também estava estagnado.
Ela ouviu um barulho do lado de fora e foi até a janela. Viu Sirius parado na varanda, em forma de cachorro, sentado sobre as patas. Ela suspirou, imaginando que nada poderia ficar pior, nem mesmo conversar com Sirius e ter seu coração esmagado como uma panqueca. Na verdade, ela imaginava que não havia no mundo uma situação em que ela pudesse estar mais deprimida. Abriu a porta, conjurou um roupão e estendeu para o homem, que havia voltado nu, como sempre, da transformação.
-A professora Minerva nunca está nua quando volta. –comentou como se aquilo fosse algo completamente corriqueiro.
-Bem, Minerva é melhor bruxa do que eu. –Sirius vestiu a peça de roupa enquanto Hope olhava na direção oposta.
-Sente-se. –Hope indicou o sofá. Sirius foi até lá e sentou-se com um longo suspiro.
-Vejo que você anda ajudando Ranhoso nessa pesquisa das trevas. –ele indicou a bagunça de livros no chão.
-Alguém precisa fazê-lo. –Hope foi até a lareira colocar uma chaleira no fogo- Como você tem estado?
-Bom... –ele murmurou com a voz fraca- Considerando que minha filha está pior do que morta...
-Não fale assim. –Hope disse com a voz rouca- Ela não está morta. A morte, ela... –e suspirou ganhando coragem- ... é o fim. Pan ainda tem infinitas possibilidades.
-Er... eu... –ele coçou a cabeça, e distraidamente secou o canto dos olhos- Eu não sei Hope. Eu não sei. –e nesse momento ele deixou um soluço escapar.
Aquilo foi ácido no coração da moça, e no instante seguinte Hope estava ajoelhada diante dele, segurando suas mãos. Sirius curvou-se sobre si mesmo até estar com um braço em volta dela e com o queixo sobre sua cabeça. Era um abraço estranho, mas infinitamente reconfortante. Hope chorava, era muito fácil render-se ao choro nesses momentos. Ela não podia lembrar-se sequer de um dia desde a noite no labirinto em que não tivesse se rendido ao choro pelo menos umas três vezes por dia. Por diferentes temas, mas o principal era Pan perdida para sempre.
Sirius ficou de pé e a puxou com ele para poder abraça-la de verdade. Hope jamais tinha estado tão unida assim a ele, e sentia que aquela era a confirmação de que o amava. Seu corpo reagia tremendo naquela confusa emoção. Sentiu Sirius beijar seu ombro e o agarrou o mais forte que podia.
-Eu amo você. –ele disse, e Hope quase não teve forças para manter-se firme em suas pernas- Por mais errado que possa parecer, Hope... Por mais difícil que possa ser para crer. Eu a amo.
-Eu sei. E eu sequer preciso dizer o mesmo, porque você também já sabe.
-Sim. Eu sei. –e alongou o momento do abraço, até que a chaleira começou a piar e Hope soltou-se dele para servir o chá.
Sirius voltou ao seu lugar no sofá ao lado da janela, e encarou a noite de verão. Hope colocou a xícara dele a sua frente, suas mãos um pouco trêmulas. Sirius percebeu o nervosismo dela, e segurou sua mão para beijá-la suavemente.
Era a primeira vez em que eles ficavam sozinhos desde que Ninna surgira, fugira e tudo o que havia sucedido. Era a primeira vez em que ele tinha vocalizado os sentimentos que tinha por seguro que todos já sabiam. E não apenas sabiam como, em grande parte, apoiavam. Os meses antes de Ninna ser resgatada foram bem intensos para os dois. Viviam juntos no apartamento do Beco Diagonal, conheceram-se profundamente, acostumaram-se um ao outro, preocupavam-se um com o outro. Apaixonaram-se mesmo sendo errado.
Hope puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele, tomando pequenos goles do seu chá. Sirius passou um braço pelos ombros dela, e eles passaram um longo tempo daquela forma, Hope aninhada em seu abraço, Sirius ocupado em respirar o perfume dos cabelos dela, e do outro lado da janela uma noite que evoluía até transformar-se em madrugada.
Em Gales, a noite não estava assim tão tranquila. Severus tentava consolar Meredith, mas aquilo não era possível. Ele a aninhava contra o peito, tentava alimentar-lhe com a mamadeira, tentava fazer com que ela dormisse, tentava de tudo... Mas nada parecia surtir efeito e o choro dela apenas se tornava mais e mais enfurecido.
-Meri, por todos os deuses! –ele bradou cansado, irritado e prestes a dar-lhe uma poção para dormir.
A menina parou de chorar por um instante, assustada pelo berro do pai. Ele encarou seus grandes olhos azuis, arregalados de espanto, e sentiu-se o pior dos homens. Meredith recomeçou a chorar ainda mais desconsolada, e ele não sabia o que dizer ou o que fazer para desculpar-se.
-Me perdoe, pequena... Me perdoe, eu não sabia o que estava fazendo. Eu não estou tão irritado, apenas durma, por favor... Durma um pouco. Apenas... –e calou-se com o choro avolumando-se em sua garganta.
Era frustração, era dor, era cansaço. Ele não tinha Minerva, Pearll ou Hope para ajudar essa noite. Ele não tinha Pan para recorrer, ele não tinha nada, apenas Meri, e o que parecia que seria o resto de sua vida. Sem Pan. Sozinho com aquela princesa que poderia transformar-se num campo de batalha em poucos minutos.
Ele subiu as escadas, preocupado por ela não ter tomado quase nada de sua mamadeira, e foi sentar-se com ela na cadeira de balanço que Pan tinha arrastado para o quarto deles tantos dias antes. Ele não queria entrar ali, não com Meredith, mas assim o fez. O quarto estava imerso numa fraca luz, vinda do abajur na cabeceira dele. Pan estava sobre a cama, com uma pesada manta cobrindo-lhe até o meio do peito, as mãos estendidas ao lado do corpo, os cabelos presos soltos sobre o travesseiro. Meredith ainda chorava.
-Está bem, querida... Vamos fazer do jeito da mamãe. –ele sentou-se na cadeira de balanço com ela e impulsionou-se para frente e para trás. De certa forma, Meri pareceu aquietar-se, muito embora ainda chorasse- Mamãe está aqui. –ele disse- Ela ia adorar se você finalmente pudesse tomar sua mamadeira ou dormir um pouco. Ou os dois. Eu sei que não é o mesmo que o seio dela, eu sei... Mas faça um esforço. –e tentou fazer com que ela mamasse, mas não parecia ser possível.
Ficou de pé com ela e foi até o armário de poções que havia no corredor. Abriu a porta e procurou a poção sonífera diluída que havia preparado para ela. Se recusava àquilo, mas Meredith havia chorado a noite inteira, não havia dormido durante o dia, mal tinha comido algo. Ela precisava descansar. Talvez sua irritação diminuísse quando acordasse depois de um longo sono reparador. Imaginava que Pan o azararia caso visse aquilo, mas ele ia tentar. Com o conta gotas pingou duas gotinhas dentro da boca dela. Não sabia se o gosto era ruim, mas ao reparar a careta feita por ela, parecia que sim. Guardou o vidrinho e aninhou o bebê nos braços e esperou. Ela estava adormecida em menos de um minuto. Colocou Meredith em seu berço e voltou para o quarto após um longo suspiro de alivio, grato pelo silencio e por sua menina estar dormindo em paz.
No quarto, Sobre a cama, imóvel, profundamente adormecida, Pamela respirava devagar. O rosto impassível, os cabelos ruivos espalhados a sua volta. Severo sentiu o coração se apertar novamente e aquele estranho luto que ele enfrentava avolumar-se em sua garganta em forma de choro contido. Faltava um sorriso naquele rosto, faltava um brilho intenso naqueles olhos que agora viam apenas a escuridão de suas pálpebras cerradas. Faltava tanta coisa ali que ele sequer sabia por onde começar.
Ele despiu o robe que usava sobre o pijama e sentou-se na cama ao lado dela. Puxou-a para si, abraçando-a forte, beijando seu rosto e lábios, inspirando o cheiro de morango do shampoo que ela usava desde menina. O corpo morno e sem forças pendia molemente de seus braços, a cabeça lançada para trás. Era quase um corpo sem vida, salvo apenas pelo pouco calor que ainda emanava dela, aquecendo-o levemente.
Desde o acontecido, ele tinha preparado uma cama para si no quarto de hóspedes, que quase sempre era ocupado por Hope. Mas essa noite ele tinha decidido dormir ao lado da esposa, por mais mórbido que pudesse parecer. Estendeu-se ao seu lado, aninhando-a contra seu peito como ela costumava fazer todas as noites.
-Descanse minha querida... Descanse bem. –ele murmurou- Meredith está à salvo, você está protegida e eu estou fazendo o que posso pra trazer você de volta. –beijou a testa dela por um longo momento- Muita coisa tem acontecido, mas eu acho que você sabe. Eu acho que você me escuta ou que sua consciência pode estar vagando por ai enquanto nós não achamos um modo de trazê-la de volta. Mas mesmo assim... –ele suspirou- Harry Potter quase foi morto pelo Lorde das Trevas. Nada de muito grave aconteceu com ele, exceto que o Lorde voltou. Não se preocupe... –ele acariciou seu rosto- Nada de muito grave aconteceu até agora. Mas seu avô não perdeu tempo e já me mandou ir até lá. Mesmo com tudo o que estava acontecendo com você. Mas mesmo assim eu consegui Pan. Eu consegui que o Lorde acreditasse em mim, consegui me posicionar do modo como sempre foi preciso. Eu cumpri meu papel. E eu... –ele tentou não chorar- E eu não fiz como Albus me ordenou. Eu não introduzi você. Caso você possa um dia acordar, eu quero que você tome essa decisão sozinha. Eu sei que isso pode ter enfraquecido minha posição, mas eu sei também que isso é o certo a se fazer. Eu não vou impor isso a você, eu não posso. Você vai voltar, Pan. Eu juro que vai. Se Voldemort conseguiu, você também vai conseguir. Eu sei. –e beijou sua testa novamente fechando os olhos e procurando descansar- Eu sei querida... Eu sei.
Fim da Terceira Parte
Notas da Autora: Agradeço imensamente a todas as lindezas que estão acompanhando Pan até aqui! Esse é o fim da terceira parte da saga, e logo teremos a quarta! Eu queria muito finalizar pelo menos essa parte antes das aulas recomeçarem, e finalmente, depois de uma maratona criativa, eu consegui! YEEY! Muitíssimo obrigada a todo mundo e espero seus rewiews pra me dizer o que estão achando! Beijos!
