A Hexalogia da Fênix – Parte IV

Capítulo Quadragésimo Nono

-Algum avanço? Sobre ela?

De joelhos diante de Voldemort, Severus apenas balançou a cabeça negativamente. Era um dos poucos momentos em que ele de fato era sincero naquele covil. Quando o assunto era Pan, quando o assunto estava relacionado a ela definhando sobre uma cama, quando o assunto era Meredith crescendo rápido e sem uma mãe.

-Eu devo dizer que se pudesse, lhe ofereceria ajuda. –Voldemort vagou displicentemente pela sala extremamente bem decorada em tons de verde e prateado- Mas eu de fato não tenho vergonha de admitir que não sei o que fazer. Esse feitiço é definitivo demais. Poderoso demais.

-Eu agradeço sua intenção, mestre. –Severus abaixou a cabeça respeitosamente.

-Vamos, fique de pé! –Voldemort ordenou- Agora me diga... –e indicou uma poltrona a um canto, próximo da lareira- ...é verdade o que eu andei sabendo?

-O que seria isso, milord?

-Sobre a Sra. Snape. –Voldemort sentou-se na poltrona de espaldar alto e esperou que Severus ocupasse a que ficava exatamente ao seu lado- Eu soube que ela foi a responsável por retirar a mãe de Azkaban.

-Sim, milord. –Severus confirmou, imaginando de onde Voldemort tivesse retirado aquela informação- Eu talvez ainda não tenha tempo de lhe contar tudo o que Pamela é capaz de fazer, mas eu asseguro que o senhor ficaria impressionado.

-Os relatos que ouvir de Crouch Jr foram bastante elucidativos. –ele disse fitando o fogo- Ele disse que a moça o ama. A você, me refiro.

Severus sorriu presumidamente, tentando disfarçar seu desconforto. O discurso para aplicar naquela ocasião estava muito bem preparado. Ele sofria apenas em pensar proferir aquelas palavras.

-Eu criei a moça. –comentou- Eu estive ao lado dela toda sua vida. Durante a infância... Pan era uma menina comum. Era mais por parte dela do que pelo meu, devo dizer. O convívio. Eu acabei funcionando como seu pai naqueles primeiros anos. E isso era útil de tantas formas que eu acabei me habituando. E se o senhor me perguntar sobre minhas afeições pela menina, eu diria que estavam presentes. Ela era doce, era esperta, inteligente e graciosa. Ela fez de minha vida algo melhor naqueles primeiros anos sem o senhor.

-Entendo. –Voldemort murmurou- Ela sendo neta de Albus Dumbledore e Minerva McGonagall, bem como herdeira direta da família Black... devo admitir que vejo o quão brilhante esse estreitamento foi.

-Exato. –e Severus abriu outro dos seus sorrisos muito orgulhosos de si mesmo. Odiava-se por aquilo- E logo depois, quando ela tinha cinco anos... Em verdade ocorreu no seu aniversário de cinco anos. A fênix, me refiro. A criatura de Dumbledore a queimou em seu fogo de ressurreição. E ai ela surgiu. Poderosa, forte, mística e supostamente eterna até aquele momento. –e a admiração em sua voz era indisfarçável- Foi uma juventude confusa, ela vagou por todas as escolas de magia da Europa, aprendeu muito, desenvolveu-se muito... e num determinado dia... –ele disse com um ar perturbadoramente sonhador e zombeteiro- Ela expressou sentimentos amorosos, carnais, por mim.

Voldemort nesse momento precisou gargalhar. Severus o acompanhou no riso e balançou a cabeça negativamente, como que para evidenciar o absurdo de Pan em sentir-se daquele modo.

-Certamente isso se encaixaria em algo como Complexo de Elektra. –Voldemort disse divertido- Ah, Severus, meu rapaz... E em seguida, o que você fez?

-A rejeitei. Por experiência própria eu sei o que acontece quando a pessoa que amamos nos rejeita. Com isso ela apenas achou uma forma de me amar mais. Passamos assim cerca de três anos sem ver um ao outro, e quando ela finalmente retornou a Hogwarts, tinha se transformado na mais bela mulher que o senhor poderia imaginar.

-Sim, isso eu sei. –Voldemort murmurou um feitiço e a imagem de Pan surgiu. Ela estava grávida, num corredor de Hogwarts, conversando com Severus. Certamente aquela era uma lembrança de Barto Crouch Jr. Severus logo imaginou o que mais ele poderia ter mostrado ao Lorde.

-Então, não foi difícil convencê-la do meu afeto. Não foi difícil cultivar nela o vestígio de amor que ela sentia. Em pouco tempo estávamos firmes e quando nosso casamento aconteceu, ela já tinha Meredith no ventre.

-Você assume amar essa mulher?

-Eu não negaria. –ele disse encarando Voldemort- Não, milorde, eu não conseguiria negar. Eu jamais mentirei para o senhor. É evidente, e eu não me sinto mal em admitir que a ame. Que ame seu poder. Que ame o escudo que ela me proporciona, sempre que alguém interfere e duvida de minha lealdade para com Dumbledore. Que a ame como mulher. Não, Pan não é apenas algo que eu tenha cultivado durante esses anos como um novo padrão em que talvez as pessoas pudessem se apoiar um dia. É minha esposa, e mãe da minha filha. E me escolheu como seu guardião tantos e tantos anos atrás. Mas agora isso não importa mais. Ela está perdida e eu tenho sido um inútil em conseguir trazê-la de volta.

-Você de fato quer trazê-la de volta? Eu me refiro a que mesmo antes do meu retorno ela já representava problemas. Protegendo Harry Potter. Mantendo Hogwarts basicamente impenetrável. Obedecendo Dumbledore e vigiando Crouch Jr.

-Pan é feita de instinto. O instinto dela geralmente é bem certeiro. E ela sabia que havia algo errado com Moody. Mas Pan também tem o lado que eu moldei nela.

-Que seria?

-Artes das Trevas, milorde. Ela gosta do poder que tem, e sabendo usar as artes das trevas como eu sempre me esforço em ensinar... bem... ela sabe que pode ser ainda mais formidável.

Voldemort encarou Severus com seus terríveis olhos vermelhos. A pele cinzenta e esverdeada parecia ainda mais grotesca, mas mesmo diante de tal visão, Severus não deixou o olhar vacilar. Voldemort precisava convencer-se de que Pan era útil. Era o que Dumbledore queria.

-E como Albus Dumbledore se sente sobre isso? Sobre sua neta sendo uma criatura adepta a praticas como estas?

-Dumbledore não tem exatamente muita certeza sobre ser avô dela. Sequer Minerva tem.

-Bem, isso é algo tolo da parte deles. Obviamente Pamela tinha que ter surgido de uma união de sangues puros, e pelo que sei, o primeiro marido de Minerva foi um trouxa.

-Sim. –Severus murmurou- Mas mesmo assim. Ele age como avô dela, mas eles jamais tiveram a certeza. Em todo caso, Dumbledore estimulou Pan a aprender sobre artes das trevas. Ele diz que devemos conhecer aquilo que precisamos combater. Não imaginava ele que ela se fascinaria. Assim como Melina era fascinada na juventude. Tanto que muito me admira que ela não tenha aderido às suas fileiras, milorde.

-E Pamela seria capaz?

-De que?

-De aderir?

-Acho que mais do que isso. –e deixou a frase suspensa no ar.

Pouco tempo depois, Voldemort o autorizou a se retirar. Ele pareceu desapontado, como se estar na presença do Lorde fosse tudo o que ele mais desejasse na vida, e após receber a promessa de que logo estariam reunidos de novo, Severus aparatou para casa.

Era metade do dia, e ele precisava se apressar. Entrou em casa e subiu as escadas apenas para encontrar Hope entrando no laboratório segurando uma xicara de chocolate quente. Ela usava roupas confortáveis, algo semelhante a um moletom, e tinha os cabelos presos displicentemente.

-Ah, olá! –ela saudou quando o viu vindo rapidamente em sua direção- Você conseguiu fazer o que Dumbledore mandou você fazer? O que quer que tenha sido isso?

-Sim. –ele disse apenas, com pressa, entrando em seus aposentos.

Ao entrar precisou parar por um instante, vendo Pan sobre a cama, ainda mais pálida, magra e imóvel que antes. Aquilo espremia seu coração, aquilo exauria suas forças. Mas ele não podia fraquejar. Foi até o armário e retirou de lá uma mochila, onde tinha preparado provisões e vestes para o caso de ter que partir em busca de elementos para a poção. Reduziu a mochila com um feitiço e a colocou dentro do bolso do casaco.

Era metade de outubro e o mundo ainda estava quente como se fosse verão, e a brisa que soprava pelas janelas abertas vinda do mar ela extremamente bem vinda. Já fazia quase quatro meses que Pan estava daquele modo e Severus começava a perder as esperanças que com tanta dificuldade nutria. Sentou-se ao lado dela e acariciou seu rosto, ainda morno.

-Meu amor... –murmurou- Eu estou indo em busca de um dos elementos que Dumbledore conseguiu localizar. Talvez seja a ultima coisa da qual precisamos. O que significa que... –ele suspirou tentando não soar muito iludido- Que você possa estar de volta em breve. Meredith está na casa do seu pai, lá tem sempre uma grande quantidade de gente para entretê-la, ainda que eu não goste disso. Será melhor pra ela ficar lá enquanto eu estou fora. Mas eu prometo que assim que eu retorne, ela irá pra Hogwarts comigo. –ele curvou-se sobre ela e encaixou o rosto na curva do pescoço, depositando ali um beijo- Eu amo você. –beijou seus lábios- Eu amo, Pan. E eu voltarei logo, eu prometo.

Com isso, ele deixou o quarto e foi até o laboratório ver o que Hope estava fazendo.

-Bem... –ela disse colocando um lápis na parte de trás da orelha- Pelo fato de ela estar visivelmente perdendo peso, eu imagino que seu corpo já não esteja assim numa situação tão estática.

-Pior que isso. Nós conseguimos que ela começasse a definhar. –ele soou bastante mau humorado.

-Sim. Mas isso significa avanço. Não seja tão negativo. –ela ralhou- Nesse caso, eu fiz essa poção, repositora de energias, que com algumas modificações pode servir como repositora de nutrição. E mesmo que Pan não ganhe o peso que perdeu, ela pode permanecer como está, o que eu lhe garanto, a deixaria feliz, já que ela ficou um pouco acima do peso após a gravidez.

Severus encarou Hope erguendo uma sobrancelha inquisitiva. Sim, Pan havia engordado na gravidez, mas após o nascimento Pomfrey cuidou muito bem para que ela não tivesse nenhum excesso de pele, e o pouco de gordura que havia sobrado, para Severus, era algo muito bem vindo. Mas ele podia lembrar-se das queixas dela sobre aquele tema delicado e resolveu ficar calado. Não tinha como dizer a Hope que preferia sua mulher com o traseiro de antes.

-Enfim... –ela continuou- Com isso nós podemos seguir testando outras variações da poção.

-Não. –Severus disse- Você irá esperar por mim. Eu estou indo em busca do elemento.

-O que? –ela estranhou- Como assim, Dumbledore conseguiu a localização?

-Ele ou Eric. Mas sim, um dos dois teve sucesso. Eu partirei agora.

-Você não vai precisar de ajuda?

-Não. –ele disse de modo breve- Não dessa vez. Eu agradeço a preocupação.

-Há algo que eu possa fazer nesse meio tempo?

-Sim. Cuide de Meredith. –ele pediu- Não a deixe muito tempo sozinha com aqueles Weasley ou sendo cuidada pelo cachorro do avô. Sem ofensas. -ajuntou lembrando-se que Hope e Sirius agora eram praticamente um casal, mesmo sob o olhar duro de Minerva.

-Eu cuidarei. Precisarei me encarregar de suas aulas em Hogwarts dessa vez?

-Eu agradeceria. –ele virou-se, lembrando-se de que aquilo era de fato uma boa ideia- Dumbledore é muito conivente com os alunos, eu de fato prefiro que seja você.

-Certo. –ela sorriu- Boa sorte, Snape.

-Obrigado, O'brian.

Severus foi até o armário onde Dumbledore tinha guardado a Chave de Portal que ele precisaria usar para atingir o destino. Peru, Amazônia, mais precisamente. Segurando a boia furada firmemente, ele sentiu o puxão habitual atrás do umbigo e foi lançado para frente. Girou no vácuo por um tempo longo, que ele julgou ser a metade de uma hora, e quando seus pés tocaram a terra fofa, coberta de folhas secas, num lugar de mata tão densa que mal se podia ver o sol, ele arrastou-se até uma árvore para vomitar o almoço.

Depois de alguns minutos em que ele tentava se recompor sentado na raiz de uma arvore, Severus se ergueu e sacou a varinha. O suor brotava de sua testa e escorria por seus cabelos. A roupa negra grudava-se na sua pele suada.

E agora?! -ele pensou meio desalentado.

A resposta veio numa labareda de fogo, e diante dele surgiu uma fênix. Num momento de surpresa, Severus achou que fosse Pan, mas ao sentir as garras da ave apertando-lhe o ombro e lhe estendendo a perna fina, onde estava um envelope destinado a ele, com a caligrafia fina e inclinada de Dumbledore, ele concluiu o que já sabia.

-Olá Eric.

A ave piou solenemente e continuou estendendo a pata. Severus desenrolou o pergaminho.

"Severus,
Eu não o deixaria sozinho. Fawkes irá lhe acompanhar na forma alada, já que de outro modo você possivelmente não obteria auxilio. Atenciosamente, Albus."

Ele seguiu a ave na floresta, já que ela parecia conhecer o caminho para a tal tribo Kamewakura. Horas depois de uma tortuosa caminhada, entre tropeços, suor e arranhões, ouvindo os fantasmagóricos ecos da floresta, ele viu o primeiro índio. Ou melhor: índia.

Estava nua da cintura para cima, os cabelos compridos e imundos ocultavam-lhe parcialmente os seios. A pele era avermelhada. Severus achou que ela era terrivelmente feia, com o rosto meio anguloso, os olhos rasgados e estreitos, a boca de lábios gordos. Ela gritou alto numa direção quando o avistou, deixando que uma cesta de palha cheia de raízes caísse no chão e se espalhasse. Fawkes piou e ela silenciou, bem como a meia dúzia de índios que surgiu de uma trilha. Mesmo assim eles seguiram e apontando afiadas lanças para Severus, obrigaram-no a ir adiante. Fawkes voava ao redor do bruxo.

Ele foi conduzido para uma espécie de casa de palha, onde um índio grisalho e enrugado desenhava símbolos estranhos no chão. Um dos índios empurrou Severus e ele caiu de joelhos no chão de barro, duro e vermelho. Falavam rapidamente, nervosos, enquanto cutucavam o bruxo com as lanças. O velho índio, que parecia ser o chefe, segurou o homem pelos cabelos e ergueu seu rosto. Uma lufada de fedor, um hálito muito podre, misturado com peixe e suor, invadiu as narinas de Severus quando o homem falou algo que o bruxo não entendeu.
Receoso, porem obstinado, Severus enfiou a mão no bolso da veste e entregou uma pedra preciosa brilhante ao homem, que estava enfeitiçada como Feitiço dos Idiomas, criação de Hope, que fazia com que o portador e o dono entendessem a língua um do outro.

-Estou aqui a mando de Albus Dumbledore. Eu preciso encontrar uma pessoa. Um bruxo, que possui algo que pode ajudar minha esposa. Ela está enfeitiçada e eu preciso trazê-la de volta.
-Dumbledore? –murmurou o índio idoso num tom de voz meio respeitoso, meio surpreso- Além da montanha, lá. –ele indicou uma direção, que Severus julgou ser o Noroeste- Aqui não.
-Então a pessoa ainda está aqui? Ela ainda habita essa região?

-Sim, ela habita. Lá. –o velho índio continuou apontando- Mas ela vai matar você. Você é Homem Branco, ela não confia em homem branco.

-Preciso da sua ajuda. Eu não quero fazer mal a ela, eu só preciso do elemento. Eu preciso trazer minha esposa de volta.

-Mulher? Você?

-Sim, sim, minha esposa. –Severus confirmou esperançoso.

-Pajé faz o ritual, trará grande Senhora para Dumbledore.

Ele largou a pedra e berrou algo para os outros. Severus sentiu o gosto da terra na boca quando foi empurrado no chão e amarrado pelas mãos. Depois foi arrastado para um canto escuro e jogado de qualquer jeito na terra quente, onde podia ver as brasas de uma fogueira e sentir cheiro de peixe assando. Foi golpeado na cabeça e perdeu os sentidos, lembrando-se apenas de uma nota amargurada de Fawkes pairando no ar a sua volta.

Quando despertou, era noite, não havia mais fogueira ali perto e os barulhos de tambores e vozes humanas cantando muito entusiasticamente latejavam dolorosamente nos seus ouvidos. Ficou ali pelo tempo que ele julgou ser uma hora e meia, até ser arrastado para fora da cabana e jogado aos pés de unhas grandes e sujas de alguém bem velho. Foi desamarrado e colocado de pé. A sua volta, os tambores rugiam e as vozes gritavam sílabas soltas, enquanto o fogo azulado crepitava lançando fachos de fumaça branca para o céu. Os índios estavam pintados e enfeitados com penas.

O Pajé usava uma espécie de saia de finas fibras marrons e adereços de penas. Fez sinal para que Severus fosse despido e pintado, e mesmo julgando aquilo uma coisa desnecessária, ele deixou que seu casaco e camisa, fossem arrancados e jogados no fogo. As calças permaneceram no lugar e ele pode sacar a varinha antes de ver suas roupas queimadas. Dedos frios espalhavam alguma substancia estranha pelas costas dele, depois pelo peito. Por fim, ele teve todo o rosto pintado por uma massa vermelha. Estava extremamente desconfortável.

Os tambores mudaram a cadencia e agora tocavam mais devagar e forte. O pajé dançava entre pulos, giros e gritos ao redor da fogueira. Severus sentia a sede enfraquecendo-o e o ritmo ao seu redor o inebriava. Recuando alguns passos para longe daquela fogueira que poderia ser um pedaço do inferno de tão escaldante, ele pode observar as chamas adquirirem um tom verde esmeralda e de dentro dele surgir uma mulher.

"Pó de Flú." –concluiu.

Os negros cabelos ondulados e a pele branca destacavam-se fantasmagoricamente em meio aquela meia centena de peles vermelhas enlouquecidas. O Pajé caiu de joelhos, sendo imitado pelo resto da tribo. As longas saias bordadas e negras ondulando ao seu redor. Os cabelos pendiam graciosamente, adornados por uma tiara. Ela tinha um semblante austero, sério e poderoso e segurava uma longa echarpe rubra nos ombros, ocultando-a de um frio inexistente. Andava descalça. Com passos lentos veio na direção de Severus, puxando uma espada curta das costas. Severus pode observar os olhos quase brancos de tão cinza se estreitarem numa fenda quando ela ergueu a espada, planejando um golpe certeiro no seu pescoço.

-Expeliarmus! –ele gritou e a espada foi lançada dentro da floresta.

Fawkes surgiu num clarão de fogo, e no segundo seguinte ele percebeu que não havia nenhum índio de pé. Eric materializou-se às costas da bruxa e pressionou um punhal em sua jugular. A mulher se deteve.

-Fawkes. –murmurou.

-Sim, Eneida. –ele disse suavemente- Quanto tempo...

-Não o bastante! Quem esse homem pensa que é para surgir aqui clamando ser Dumbledore?

-Um enviado dele. –Fawkes sibilou perigosamente- Agora se acalme e vamos conversar.

-Estou aqui em missão de paz. –Severus murmurou.

-Paz? Que paz? Vocês bruxos civilizados não conhecem a verdade oculta por trás da palavra paz.

Severus e Eric trocaram um olhar cumplice e cheio de questionamentos. Severus não fazia a menor ideia de quem fosse aquela mulher, mas sabia que o que quer que precisasse conseguir dela, custaria caro. Eric abaixou o punhal e a soltou. O mundo agora reinava em silencio.

-A Fênix, Pan McGonagall, neta de Dumbledore, foi enfeitiçada pela Maldição de Sigmund Barts. Um partidário do Lorde das Trevas a enfeitiçou e ela está presa num coma induzido. –Severus explicou. -Precisamos da sua ajuda.

-E o que leva vocês a acreditarem que eu posso ajuda-los? –ela moveu-se displicentemente pelo lugar- E porque razão eu ajudaria, ainda que pudesse?

-Porque Dumbledore nos enviou. E você tem uma divida com ele.

-E ele quer sanar uma divida dessa magnitude, cobrando de mim uma poção que pode muito bem já não servir mais?

Severus sentiu o coração disparar quando entendeu o que a mulher tinha dito. Ela possuía a poção?

-Nós oferecemos proteção a você, e sigilo absoluto de seu paradeiro. Precisamos da Fênix para acabar com o Lorde das Trevas. Ele está de volta, cada vez mais forte, recrutando pessoas que usarão a maldição de Sigmund Barts em larga escala.

-E talvez a próxima visita da civilização que você receba seja de alguém que pode usar algo mais do que uma divida pendente para conseguir o que precisa.

Eneida sorriu parecendo muito curiosa sobre aquilo.

-Você me parece abalado demais. –comentou olhando em volta, pensando no que poderia fazer para ganhar tempo.

-Ela é minha esposa. –Severus disse apenas.

-Uma fênix, sua esposa? –ela avaliou Severus dos pés a cabeça e riu como se aquilo não fizesse o menor sentido- E eu que julgava que Fawkes produziria uma companheira para si mesmo. Ou foi isso o que você fez e acabou dando errado? –ela desafiou olhando para Eric, que mesmo nu não se abalava.

-Eu tenho uma companheira para mim, agradecido pela sua preocupação. –ele respondeu- Agora pare de tentar ganhar tempo e nos entregue a poção.

-Como posso ter certeza de o que eu estou fazendo é certo? O que me garante que eu não estou agindo mal?

-Dumbledore?
-Sim, ele é relevante sim, mas eu lembro de Dumbledore dos tempos de sua juventude, um bruxinho ambicioso, junto com Grindewald, que desmistificaram grandes feitiços de magia negra. Grindewald, seu amigo-irmão. E o que eles se tornaram? Inimigos e rivais.

-Mas ela não é uma amiga, ela é a neta dele.

-E você? Um homem que possui a marca negra no braço acredita enganar a quem aqui?

Severus estremeceu e fechou a mão no antebraço esquerdo.

-Meu passado é passado. Eu me redimi das escolhas erradas que eu fiz. –ele disse tenso.

-Mas pra mim não é o suficiente. Suas palavras não valem nada diante do que vejo.

-Isso pra mim não é nada. –e indicou a marca- Nada em comparação ao que é Pan.

A bruxa o encarou interessada por um segundo inteiro. Seus olhos cinza esquadrinhando o rosto dele. Então olhou para Eric. Deliberava.

-Essa poção tem pelo menos mil anos de idade.

-Assim como eu. –Eric disse apenas- Pare de atrasar nossa vida, Eneida.

-E se eu lhes der essa poção, ainda que ela não sirva para nada... Estarei livre de Dumbledore? Quero dizer, estarei com minha divida paga e poderei seguir vivendo indefinidamente sem que ele venha até mim por pequenos favores?

-Ele lhe dá sua palavra.

Contrafeita ela respirou fundo e encarou Eric de modo assassino. Estendeu a mão e fez surgir ali numa nuvem roxa uma pequena garrafa de barro. Estava selada com uma rolha de madeira e cera de abelha. Era de fato algo muito antigo, que Eneida não parecia interessada em compartilhar. Entregou a garrafa nas mãos de Severus encarando Eric duramente.

-Espero que ele tenha odiado você quando descobriu que você é humano.

-Ele odiou. Agora você pode viver em paz, certo?

Enfurecida, mas lutando para manter sua compostura, Eneida apenas girou no mesmo lugar e desapareceu num sonoro crac, deixando Severus e Eric sozinhos no meio de dezenas de índios que começavam a recobrar os sentidos. Era hora de sair dali.