Capitulo Quinquagésimo

Severus aterrissou no chão do penhasco, caindo pesadamente sobre seu cotovelo. Olhou em volta apenas para ver Eric caído e imóvel a um canto. Ergueu-se um pouco tonto e foi até o outro, conjurando uma manta e jogando sobre sua nudez. Irritava-se por ver que Eric e Pan costumavam acabar sempre nus, não importava o que quer que tivessem feito. O corpo de sua esposa não era novidade para ninguém.

-Eric? – ele chamou, mas o outro não se moveu- Eric!

Eric abriu os olhos e fitou Severus sentindo a visão entrar e sair de foco. Sentou-se, atando a manta em volta de sua cintura e deixou um gemido escapar, pressionando as mãos sobre os olhos. Severus estranhou aquilo. Já vira Pan transportar a ele e Hope, estando grávida, sem sequer pestanejar. Eric parecia fraco e pálido. O fogo característico da aparatação deles apenas inexistia agora.

-Você está bem? –Severus perguntou.

-Sim, bem... Eu acredito que a fênix está me deixando, agora que Pan foi renascida nas chamas. Então acredito que isso seja normal.

-Você... –ele titubeou- Você está se tornando mortal?

-Acredito que seja isso.

Ficou de pé, ainda um pouco inseguro. Olhou em volta e percebeu que tinha conseguido levar Severus ao local onde ele deveria estar. Olhou para o homem parado a sua frente parecendo preocupado, mas recusando-se a demonstrar isso explicitamente.

-Suponho que deveríamos entrar, certo? –ele murmurou, segurando melhor a manta em torno da cintura- Eu poderia usar uma cama por algum tempo?

-Claro. –Severus murmurou- Eu levarei essa poção para Hope testar.

Eles se dirigiram para a casa. No caminho Eric pediu:

-Não comente nada sobre isso. –parecia um pouco envergonhado- Com Hope ou P, eu me refiro.

Severus imaginou o que estava se passando na mente dele por imaginar que ele se sentaria com as moças a conversar sobre assuntos que não eram de seu interesse. Percebeu que ele estava apenas tentando manter aquela transição em segredo, possivelmente para não causar preocupação a ninguém.

-Fique tranquilo.

-Não que eu esteja sugerindo que isso seja do seu feitio.

-Eu entendo.

Já na casa, Severus indicou um dos quartos para que Eric pudesse descansar. Apenas então procurou Hope, que estava no quarto de Meredith, brincando com a afilhada no tapete. Meredith ergueu a cabeça para olhar para o pai, e prontamente abandonou os brinquedos para engatinhar para o colo dele. Severus se ajoelhou no chão e a pegou nos braços, ignorando o fato de estar completamente sujo. Meredith estava crescida, já com seus oito meses de vida, os cabelos negros e extremamente lisos impedidos de cobrir os olhos por uma franja que Hope havia cortado, os olhos azuis de Dumbledore, as bochechas redondas, as mãos gordinhas, o pequeno nariz de Pan... era perfeita e linda.

-Oh, princesa... –ele beijou sua cabecinha- Você se comportou bem esses dias?

Ela lutava para responder, já tentando balbuciar algumas palavras, mas ainda muito jovem para conseguir. Ela estava vestida num pijama cor de rosa, pronta para ser colocada no berço.

-Você conseguiu... –Hope perguntou- Você conseguiu o "elemento" a que o Professor Dumbledore se referia?

Severus enfiou a mão no bolso e desfez os feitiços de proteção eu tinha colocado na garrafa e a entregou a Hope, enquanto Meredith se ocupava em lutar contra o colarinho de suas vestes.

-Isso é, supostamente, uma amostra da Poção de Holf Hufflepuff.

-Isso...? –ela hesitou olhando para a garrafa em sua mão, e finalmente se dando conta de que aquilo que segurava era a vida de Pan- Isso é a poção? Como você conseguiu?

-Eu não faço a menor ideia de como Albus rastreou isso, mas sim, supostamente é a poção.

-Ok! –ela parecia entregue à excitação- Você pode ir tomar um banho enquanto eu começo a catalogar os ingredientes que compõe isso aqui...

Assim Severus fez, e quando entrou no laboratório, após verificar que Meredith estava bem acomodada em seu berço, brincando com Bronn enquanto o sono não a vencia, percebeu que Hope já tinha o trabalho bem adiantado.

-Ao que me parece, sim, é a poção! –ela disse animada, sorrindo de orelha a orelha- Você acha que devemos contatar Dumbledore?

-Eu já fiz isso. Ele, Minerva e o pai de Pan estão a caminho. Não sei se meu patrono encontrou Pearll, pelo que soube ela estava trabalhando com harpias em Barcelona.

Ele não se permitia estar animado quanto àquilo, mas via que Hope vibrava. O trabalho parecia não estar tão longe de ser concluído, e ele apenas via como ela quase não podia se conter.

-Você quer que eu continue? –Severus perguntou, quando mais um dos elementos se confirmou e ela apenas precisou parar e enfiar o rosto nas mãos, contendo-se para não chorar de excitação.

-Não... –ela murmurou, respirando fundo e parecendo bastante convicta- Eu termino.

E quando os últimos elementos se confirmaram, Severus sentiu a onda de adrenalina varrer seu corpo. Olhava para conteúdo que havia sido vertido numa taça de cristal e quase não podia acreditar. Hope recuou até a parede e escorregou por ela, agora chorando sem restringir a si mesma. Ele não podia acreditar. Ele precisava convencer a si mesmo daquilo, ele precisava...

-Oh, Merlin... –gemeu quando se deu conta de que Pan podia acordar a qualquer momento- Hope?

-Perdoe-me, eu apenas não consigo entender ainda o que estamos prestes a fazer.

-Eu não acredito. –ele disse como se sua vida não fizesse sentido- Tanto trabalho, meses buscando e por fim...

-Eu sei. Eu me sinto anestesiada também.

Foi quando Bronn surgiu para dizer que Albus e Minerva tinham chegado. Sirius veio de lareira pouco tempo depois. Severus e Hope desceram as escadas para encontra-los ali, e Severus rapidamente explicou como havia sucedido a missão. Logo Hope informou que a poção era, de fato, a que eles precisavam. Isso foi o bastante para fazer Minerva recuar até o sofá e sentar-se ali sem forças. Severus sentiu-se melhor quando viu que não era apenas ele que se sentia anestesiado diante da perspectiva de acordar Pan.

-O que estamos esperando? –Sirius perguntou, sua ansiedade aparecendo de modo distinto.

-Estávamos esperando vocês chegarem. –Hope respondeu, parada ao lado dele, segurando sua mão.

Então eles subiram as escadas e foram até o quarto onde Pan tinha sido acomodada. Nem Sirius nem Minerva tinham tido a coragem de ir até ali, vê-la. Eles, de fato, não conheciam os aposentos do casal Snape, e perderam um instante observando o lugar, já que mesmo ante a perspectiva de despertá-la, eles não conseguiam lidar bem com a imagem de Pan morta.

Severus sentou-se na cama junto a Pan e a puxou para si, deixando-a mais sentada do que deitada. A cabeça dela pendeu pra trás e os braços se abriram molemente. Dumbledore sentou-se por trás dela, servindo de encosto, e acomodou a cabeça dela o melhor que pode. Com isso, Hope, trêmula, entregou o cálice para Severus e nesse instante, mesmo Minerva e Sirius pararam pra ver, ainda que a imagem fosse dolorosa para eles. Cuidadosamente Severus verteu o conteúdo da poção na boca dela, e massageou sua garganta para ajudar na deglutição.

Quando ela tinha sorvido todo o conteúdo, as pessoas no quarto apenas prenderam a respiração e esperaram. E nada aconteceu. Severus chamou por ela, mas Pan continuava imóvel. Eric apareceu no quarto, usando as roupas que Severus tinha providenciado pra ele, e apenas observou Pan seguir tão imóvel quanto nunca nos braços de Dumbledore. O olhar de Hope parecia perdido, incrédulo, frustrado, e ela abraçou Sirius antes de render-se a um choro totalmente diferente do que o que havia antes. Minerva se aproximou da cama e examinou a neta cuidadosamente, mas não pode perceber nenhuma mudança. Albus apoiou o rosto no topo da cabeça dela e a apertou em seus braços, sentindo o peso da frustração dominar seus sentidos.

Severus lançou a taça vazia no outro lado do quarto e praguejou quando percebeu que aquilo tinha sido em vão. Nem mesmo a poção tinha sido capaz de trazê-la de volta, e ele estava completamente enfurecido com isso. Por sua vontade expulsaria todas aquelas pessoas dali e se isolaria naquele quarto pela eternidade, mas ouviu Meredith chorar em seu quarto e preferiu ir até lá. Pegou a menina no colo, percebendo que ela tinha sido deixada sozinha ainda desperta, e ele sabia que aquilo não era a melhor estratégia para fazê-la dormir. Abraçou a pequena, tentando consolar-se e consolá-la no mesmo gesto, mas mesmo com ela parando de chorar, ele continuou desconsolado. Sentou-se na cadeira de balanços com ela em seu colo e tentou fazê-la dormir, agradecido por ninguém ter ido até ali interromper seu momento.

No quarto, Dumbledore acomodava Pan na cama, e Minerva apenas observava a neta parecendo completamente inexpressiva. Sirius tinha deixado sua frustração escapar em forma de pragas murmuradas e Hope se encolhia em seu abraço e deixava aquilo fluir. Parecendo muito com alguém que recebe a noticia de morte de um ente querido, o casal de idosos acompanhou Eric para fora do quarto. Ele, mais do que tudo, pálido e abatido.

Sirius encarou Hope e secou as lágrimas dela. Respirou fundo imaginando o que restava a eles pra que aquela situação pudesse ser amenizada.

-O que faremos agora?

-Eu não sei. –ela respondeu fracamente- Esperar, talvez a poção atue tardiamente.

-É isso que está escrito nos livros?

-Não, mas pode ser que funcione assim. Pan não é completamente humana, no final das contas.

-Vocês trabalharam muito duro para... nada. –Sirius murmurou- Eu estou triste por Pan e aflito por Snape. Como ele não deve estar se sentindo sobre isso...

-Sim. –ela suspirou- Pobre Severus. Ele chegou aqui coberto de poeira, lama, sangue e suor. Conseguir essa poção deve ter sido mais que difícil.

-E mais uma vez... –Sirius murmurou olhando para Pan desalentado- Eu não fui capaz de fazer nada por ela.

-Não pense assim. –Hope murmurou franzindo a testa, secando as lagrimas de frustração que ainda estavam em seu rosto.

-Mas é a verdade, amor. A verdade.

No andar inferior, Minerva estava sentada numa poltrona encarando o vazio e fazendo aquilo que tinha feito durante àqueles penosos últimos meses: buscado uma solução. Albus sentou-se na poltrona de Severus e apoiou a cabeça na ponta dos dedos, divagando. Eric, parecendo-se muito com alguém que estava prestes a vomitar, se apoiou no parapeito da janela e ficou ali por um longo momento, imaginando se não se sentiria melhor na forma alada, imaginando se ainda teria poder pra isso.

Foi quando a lareira se encheu de fogo cor de esmeralda e Pearll saiu de dentro dela, um grande corte mal curado na testa, os cabelos desgrenhados, as vestes sujas de sangue, lama e fuligem. Parecia afoita, e quando viu o trio reunido na sala com cara de derrota, soube.

-Ok, não deu certo…? –perguntou olhando de Albus para Eric, que apenas acenaram negativamente com a cabeça.

Ela respirou fundo, como se tivesse levado um par de socos no estômago e encheu-se de coragem.

-Isso já foi longe demais! –disse apenas, uma resolução impelindo-a à subir as escadas.

-Pearll? O que você vai fazer? –Albus ficou de pé, preocupado pela impetuosidade dela.

-Apenas observe. –berrou por sobre o ombro.

Albus a seguiu, mas não foi capaz de acompanha-la muito de perto. Pearll invadiu o quarto do casal, e encontrou Hope e Sirius ainda de pé, ao lado da cama, conversando em tons de luto. Pan permanecia exatamente como antes, excetuando a magreza que parecia mais evidente.

-Não conseguimos. –Hope disse em tom de quem pede desculpas.

Pearll precisava de coragem para fazer o que tinha em mente. Respirava fundo, ofegante, vendo sua sobrinha naquela situação... Ela sentou-se ao lado de Pan na cama e tocou o rosto que estava, inclusive, perdendo o calor. Aquilo não podia seguir, já tinha se prolongado o suficiente, e todos já tinham tentado algo efetivo por ela. Mas Pearll não lidava bem com aquilo desde o primeiro momento, e estava sempre fugindo, como fazia quando era demais para tolerar, e seguia trabalhando e procurando Ninna, já que parecia ser a única que ainda se importava. Mas isso agora acabaria, e ela tentaria algo pouco ortodoxo, mas que precisava ser testado.

Quando Sirius viu a lâmina na mão de Pearll já era tarde. Ela cravou um punhal no coração de Pan. O choque daquilo tinha sido tão imenso que as reações basicamente inexistiam, e quando Sirius achou voz para começar a berrar, aquilo foi engolido por um som muito mais bem vindo: o crepitar das chamas que consumiam Pan. Albus, que havia chegado ao quarto instantes antes de Pearll apunhalar a sobrinha, apenas se deixou cair de joelhos, e no meio do quarto, flutuando sobre a cama, Pan queimava e se retorcia. Severus entrou ali parecendo apavorado, alarmado pelos gritos de Sirius, ainda segurando Meredith. Ele não sabia o que faria, até que a mulher nua caiu sobre o assoalho, porque a cama, o papel de parede e o tapete e as cortinas, assim como parte das vestes dos presentes haviam queimado numa velocidade incomum. Pan estava apoiada sobre um joelho, os cabelos, como era usual, queimando devagar, e ela apenas ergueu a cabeça e olhou exatamente para onde Severus estava, os olhos completamente negros, a marca de fênix que havia nas suas costas desde o primeiro dia parecendo viva. O punhal que havia sido cravado em seu peito, caído ao lado de sua mão. Ela olhou para a arma, olhou em volta escrutinando o lugar e apenas ficou de pé. Séria, mística, confusa.

Ninguém podia acreditar, ninguém tinha considerado jamais tentar aquilo, mas era a prova de que o poder da fênix era superior a qualquer classe de magia negra. Hope foi a primeira a reagir, e chamou por Pan baixinho, atraindo a atenção dela que estava focada em Severus e Meredith.

-Pan, você sabe quem nós somos?

Pan entortou a cabeça para o lado e encarou a amiga, tentando computar suas palavras. Ela não sabia se aquelas pessoas eram suas conhecidas, ou quem ela mesma era, o que fazia ali, porque havia uma arma com seu sangue aos seus pés... Mas ela sabia que aquela criança era sua, a criança que a encarava com grandes e curiosos olhos azuis.

-Pamela? –Severus murmurou dando alguns passos à diante, controlando-se para não agarrá-la e beijá-la, ou vesti-la num robe- Pan, você está bem agora... –e sua voz se quebrava de emoção- Você...

-Meredith. –ela disse, a voz clara como uma taça de cristal, então sua mente clareou- Meredith... –deixou escapar num suspiro.

-Pan... –Severus avançou os últimos passos que a separavam dela e deixou que ela tocasse a filha, que apenas a olhava com estranheza. Ele segurou seu rosto e Pan o encarou diretamente pela primeira vez- Você está de volta...

-Eu estive fora? –perguntou- Sev, eu...? –e olhou novamente em volta, seu pai, Hope, Albus e Pearll prendiam as respirações em antecipação- Eu morri de novo? Eu... –e olhou Meredith muito mais crescida do que ela lembrava antes.

Recuou alguns passos, percebendo seu quarto queimado, as pessoas chamuscadas e tudo a sua volta parecendo irreal. Ela percebeu sua nudez e enroscou-se em torno de si mesma no chão. Pearll murmurou um feitiço e a vestiu com um de seus vestidos. Ela ofegava, pensando em como aquilo parecia errado.

-Quem me matou?

-Eu. –Pearll respondeu- E se quiser ficar chateada, pode ficar. –cruzou os braços com indiferença.

-Você...? –Severus engasgou, olhando para Pearll com estranheza e incredulidade, o rosto contorcido de horror- Você o que…?

-Funcionou. –ela deu de ombros, apanhando o punhal do chão- Precisava ser testado, e se eu sugerisse, você me baniria dessa casa, então eu cansei de esperar e agi. E ai está ela.

-Ela poderia ter morrido!

-Foi exatamente o que ela fez. Ela é a droga de uma fênix, pergunte a Eric, não há forma de matar uma fênix definitivamente enquanto ela não ceder a dádiva a outro ser. Agora parem de drama... –ajoelhou-se ao lado da sobrinha, que mesmo aturdida, sorriu e a abraçou.

-Então eu... Eu não estou entendendo.

-Longa história, meu amor. –Dumbledore anunciou- Muito longa história. Uma história para outra hora.