Capítulo Quinquagésimo Primeiro
Pan não entendia como todos sentiam tanto sua falta, sendo que para ela, era como se os tivesse visto ainda na noite anterior. Todos falavam rapidamente a sua volta, exalando felicidade, mas ela apenas olhava para Meredith aninhada nos braços do pai, tentando acreditar que perdera tanto da vida dela sem se dar conta disso.
–E então Harry voltou para Hogwarts trazendo o corpo de Cedrico Diggory... –Minerva continuava dizendo, nesse momento fungando levemente.
Pan não estava escutando, mesmo sabendo que aquelas palavras eram para seus ouvidos. E se escutava, era apenas parcialmente. Estava concentrada no modo como a filha tinha agora uma franja e seus cabelos já quase atingiam os ombros. Tomou um pequeno gole do seu chá e mudou de lugar, indo sentar-se no braço da poltrona em que Severus tentava embalar Meri. Eles se olharam por um instante, e sorriram. Pan curvou-se para beijar a testa dele, enquanto tocava o rostinho redondo da menina, com seus cabelos bem lisos e suspirou quando os olhos delas se encontraram e Meri sorriu timidamente.
Foi então que Minerva se deu conta de que aquelas eram palavras para outro momento. Hope e Sirius ouviam tudo sentados no banco da grande janela que se abria para o leste. Pearll e Eric já não estavam ali, preferiram se retirar visto que Eric não parecia bem.
–Pan, minha querida...
–Sim? –ela virou a cabeça ao ouvir seu nome ser chamado- Vovó?
–Você precisa descansar, eu acho que devemos ir embora.
–Oh, eu... –ela viu que seu comportamento estava sendo bastante insensível. Ficou de pé e foi até Minerva e Dumbledore, que estavam sentados no sofá a sua frente- Me desculpem, é que eu me sinto pouco concentrada em qualquer coisa que não esteja relacionada a Meri. As noticias são preocupantes, eu sei. Sobre Voldemort, Harry e tudo mais. Mas... Eu preciso de um pouco mais de tempo pra entender tudo com calma. Desculpem-me.
–Não há com o que se preocupar, querida. –Dumbledore beijou sua mão- Estaremos em Hogwarts e você precisa apenas ir até lá para que conversemos sobre tudo isso. Não demore em ir.
–Na verdade... –ela sentou-se na mesinha de chá que havia no meio do tapete- Eu tenho lembranças de Fawkes. Elas vieram logo após o fogo, naquele estranho momento de confusão que eu tive. Eu sei o que houve, talvez não detalhadamente, mas eu sei. Estou disposta a me apresentar ao trabalho amanhã mesmo.
–Eu estou tão feliz por vê-la acordada. –Minerva precisou dizer novamente, curvando-se para agarrar as mãos da neta- Oh, meu amor... –soluçou.
–Eu estou perfeitamente bem. –e beijou as mãos da avó- Eu sei que vocês devem ter sentido minha falta, e sinto muito por isso.
–Perdemos Ninna, e não tínhamos certeza se a veríamos assim de novo... –Minerva continuou- Eu estou tão aliviada.
–Eu posso ver. –Pan sorriu satisfeita, o que enrugava os cantos dos seus olhos.
–Vamos pra casa, Min. –Albus murmurou num suspiro- Vamos deixar Pan e Severus conversarem e fazerem Meredith lembrar-se do quanto ela ama essa mãe que tem.
–Sim. Sim, ela sentiu sua falta como louca. Mas é um bebe, e eles se acostumam com novidades de modo bem mais simples do que adultos.
E após as despedidas, quando Hope levou Sirius para a Sede da Ordem da Fênix, mesmo sob protestos, Pan pode sair da casa e caminhar pelo gramado do penhasco, reparando que tanto frio só podia indicar o inicio do inverno. Foi quando sentiu que realmente fazia muito tempo que seu corpo não experimentava a sensação do vento batendo na pele, do gosto salgado da maresia... Retirou os sapatos e enfiou os pés na grama. Deixou um gemido de satisfação escapar por seus lábios e correu.
Pela janela Severus observava a mulher redescobrindo sua selvageria mística, sempre tão oculta por seus modos polidos. Sorriu, agora com a filha adormecida nos braços, imaginando que Pan merecia voar o quanto quisesse aquela noite antes de voltar para junto dele. Quando viu o bola de fogo e a fênix, agora ainda mais impressionante, com um rastro de chamas ainda mais comprido e pios fortes que se podiam ouvir melodiosamente até na vila, ele soube. O que quer que estivesse destinado para Pan se tornar, tinha começado agora.
Acomodou Meredith em seu berço. Sentiu a garganta seca, não falava havia horas, o som de sua voz não havia sido requisitado em nenhum momento. E com Pan ele não precisava falar. Entre olhares eles se entendiam. Um simples curvar de lábios era o bastante. As vezes, mesmo um piscar de olhos mais demorado. Ele sentia-se vibrante, tão cheio de contentamento por vê-la viva, bem, ativa, voando e espalhando aquele belo rastro de fogo por sobre o mar, que sequer queria pensar no que viria depois. Bronn veio acomodar-se no tapete aos pés do berço de Meri, e com isso ele pode pegar um casaco e ir para o penhasco.
Caminhou até a beira, onde o banco de pedra o esperava úmido e gelado. O vento era opressor de tão frio. Era aquilo que Novembro sempre reservava, mas nada seria mais forte do que a alegria dessa noite. E quando ela voou até ele, e transformou-se de volta em si mesma, com os pés mal tocando o chão, e o corpo nu brilhando ao luar, ele soube que em seus braços jamais haveria frio. Ela tinha um sorriso torto e sensual nos lábios, os cabelos desgrenhados e uma atitude felina, quase predadora. Era o bastante para fazer com que o longo suspiro que ele semeava no peito escapasse por seus lábios.
–Eu imagino que você sentiu minha falta. –ela disse dando dois passos a frente, e logo ajoelhando-se sobre ele.
Severus estava extasiado, olhando para ela como se um sonho se materializasse em sua frente. Hesitante, nervoso como um virgem diante de Vênus, ergueu as mãos para segurar a cintura dela. Não disse nada, não era preciso. Ela sabia de suas dores e agonias apenas ao ver a ruga entre suas sobrancelhas. Ela sabia o quão aliviado e feliz ele estava por vê-la desperta. Ela sabia o que ele sentia sem a necessidade de termos semânticos evidenciando isso.
Bem devagar, ele acariciou suas costas e levou uma mão a sua nuca. Gentilmente, sem pressa, sem apuro, ele a puxou para mais perto, e mais perto, até que os lábios se tocaram e ele pode sentir a maciez da pele dela colando-se na sua. E a nudez, por mais provocante que fosse, não tinha nesse momento conotação sexual. Ela representava pureza, ela representava vida, representava nenhuma inibição ou receio entre aquelas duas pessoas, que não tinham nada a não ser amor um pelo outro.
E esse beijo não foi único. Muitos outros o seguiram, e quando o sol despontava no horizonte, Severus viu a si mesmo, erguendo-se com a esposa adormecida nos braços e levando-a para casa, pronto para descansar ao lado dela, dessa vez sem medo que ela não fosse acordar.
–O que você está fazendo? –ela perguntou, quando despertou após a porta bater mais forte do que Severus planejava.
–Levando você pra cama. –ele disse.
–Oh, não! Eu tenho certeza de que passei mais tempo que o recomendado nessa cama. –ela protestou- Me coloque no chão, eu vestirei algo decente e irei ver Meredith.
–Ela esta dormindo, não despertará até sentir fome. Bronn esta cuidando dela.
–Eu não quero dormir, por mais sonolenta que esteja.
–Eu poderia usar seus braços para esse cochilo antes que a hora para ir a Hogwarts chegue.
–Não há sentido para você ir a Hogwarts hoje... Dar aulas, eu me refiro. Eu acabei de voltar, pensei que um dia apenas nosso seria bem vindo.
–Eu penso do mesmo modo, meu amor. –e a colocou no chão, arrumando a capa sobre seus ombros- Mas eu preciso ir, pelo menos essa manhã. Você pode ter o dia inteiro com Meri, e a tarde eu virei para almoçarmos juntos, e conversarmos sobre... coisas que devem ser conversadas.
–Sobre Voldemort. –ela disse desvendando a preocupação nos olhos dele.
–Sim.
–Mas não se preocupe agora.
Ela apenas o abraçou, enfiando o rosto no decote de sua camisa meio desabotoada, e imaginando que a provação dele havia começado e ela sequer estava ali para menizar suas aflições.
–Eu nunca mais o deixarei sozinho, Sev. –ela prometeu- Eu juro.
–Eu fico feliz em ouvir isso. –e beijou sua testa- Agora eu preciso de um banho quente e algo para comer. Já é quase hora de ir trabalhar.
–Eu prepararei café da manhã enquanto você se prepara.
E dito isso, Pan murmurou um feitiço que a deixou vestida num pijama qualquer, e foi para a cozinha. Bronn ainda devia estar de sentinela junto a Meri, e mesmo não sendo uma excelente dona de casa, ela conseguiu preparar café, ovos, torradas e bacon, tal como ele gostava. Viu diversas embalagens de diferentes tipos de comida pra criança por ali. Papinhas de maça e morango, iogurtes e biscoitos macios. Havia brinquedos por toda a casa também. E alguns livros sobre a mesa da cozinha que ela sabia ser de Hope. Com isso podia deduzir como aqueles meses em sua ausência se passaram. A ligação entre Meri e a madrinha era visível e forte. E Pan se alegrava por isso, ao mesmo tempo que sentia inveja. Seu bebezinho mal a reconhecia.
Em pouco tempo, Severus veio pela escada, trazendo uma Meri de olhos inchados e chorosa, vestida num pijama de flanela com tema de bichinhos estranhos que ela não sabia definir o que eram.
–Mamãe, nós já escovamos os dentes, lavamos o rosto, trocamos a fralda e estamos prontos para o café da manhã! –Severus disse, arrancando uma risadinha tímida da menina após girar com ela pela cozinha antes de coloca-la em sua cadeira alta.
–O que ela gosta de comer pela manhã? –Pan perguntou, sentindo-se uma péssima mãe por não ter certeza sobre aquilo.
–Eu cuido disso. –ele respondeu, indo até a geladeira pegar uma mamadeira e preparar a primeira refeição do dia da filha.
Pan sentou-se ao lado dela, que observava os desenhos do tampo da cadeira em que sentava, tentando fazer os bichinhos se moverem.
–Olá, querida. –Pan murmurou, afagando o queixo dela- Você dormiu bem?
E Meri balbuciou algumas frases ininteligíveis antes de abrir um sorriso de seis belos dentes serrilhados.
–O que você sonhou essa noite?
–Provavelmente com desenhos animados da televisão. –Severus brincou- Ela faz isso todo o dia agora, após essa temporada com Hope. Sua amiga é uma má influencia em alguns aspectos. Como uma mulher daquela idade pode, realmente, se empolgar com tanta informação sem sentido, focada em crianças?
–É uma excelente distração para nossa pequena.
–Ela mima Meredith muito mais do que o recomendado.
–É sua madrinha, essa e a real função! –Pan riu.
–Sempre um brinquedo novo, uma pelúcia nova, uma roupa com orelhas e rabo de bicho diferente, horas de brincadeira no tapete e mais doce do que os curandeiros recomendam para um bebe dessa idade.
–Não seja rabugento! Veja como ela parece saudável e feliz!
–Aqui... –e entregou a mamadeira para a filha que com suas próprias mãozinhas a levou a boca e tomou todo o conteúdo. Pan parecia impressionada diante de sua filha tão amadurecida de modo, para ela, tão repentino- Se você está impressionada com isso, imagine só quando você vir ela tentando tomar sopa com a colher, sem ajuda.
–Ela faz isso? –Pan alarmou-se.
–Todas as noites.
Após o café da manhã, Severus entrou na lareira e foi trabalhar, deixando apenas Meri e a mãe, que ela agora mal reconhecia. Não demorou muito para que ela começasse a olhar em volta, procurando alguém com quem se sentisse segura. Pan queria chorar ao ver que era quase uma desconhecida para Meri agora, e não sabia como mudar isso. Pegou a menina no colo e a levou para a sala de TV, onde encontrou um tapete rosa pink, bastante felpudo, apinhado de pequenos bonecos estranhos. Era claramente o local onde Meredith brincava. Sentou-se junto dela, e ela logo engatinhou até um rato amarelo com rabo em forma de raio e orelhas pontudas. Ligando a TV, Pan viu-se diante de um cartoon, onde um rato era perseguido por um gato cinza, e sempre conseguia escapar. Meredith devotava a isso agora toda sua atenção, deixando gritinhos e risadas escaparem sempre que um deles levava um tombo, ou ficava muito evidente que o rato finalmente seria pego, ate que ele escapava novamente.
–Ela prefere animes. Acho que as palavras em japonês divertem ela. –Hope aparecia ali, dando um susto em Pan que estava bem concentrada no que acontecia na TV.
–Hope! –Meri gritou batendo palminhas e esforçando-se em engatinhar até a madrinha.
Meredith já chamava por Hope. Pan sentiu o golpe, principalmente quando a menina agarrou-se a madrinha como quem está encontrando salvação após puro desespero.
–Vim ver como você está. –e Hope sentou-se no tapete junto de Pan.
–Está tudo um pouco fora de lugar, mas eu logo me ambientarei novamente.
–Claro. –Hope sorriu- As coisas mudaram um pouco por aqui, tenho certeza que você percebeu. Uma casa com um bebe acaba sofrendo modificações sem que ninguém realmente as planeje.
–Meredith é o que mais me surpreende. Como ela está esperta, grande e cheia de gostos próprios. Ela já fala, inclusive.
–Meri, querida, quem é essa moça? –Hope perguntou, apontando para Pan.
–Mami. –ela disse apenas.
–Mamãe de quem?
–Meri. –e abriu um sorriso, como se gostasse do som de seu nome. E ficou por algum tempo repetindo o nome dela, enquanto dizia o nome do rato amarelo.
Pan sorria abertamente agora. Sua filha sabia quem ela era, e por mais que não se sentisse tão ligada à mãe, elas não eram duas estranhas.
–Nós jamais permitimos que ela esquecesse você. –Hope explicou- Eu praticamente me mudei pra cá enquanto você estava... fora. Meredith precisava de companhia e cuidados femininos, e Severus muitas vezes não conseguia lidar com tudo sozinho. Também havia a busca pelos ingredientes da poção, e todos nós usávamos toda a ajuda que podíamos para que tudo desse certo, e rápido. Eu pensava, todas as noites após colocar Meri no berço, que aquilo não estava certo, que aquilo não podia continuar. Meredith não podia continuar crescendo sem você por perto.
–Eu sinto que agora nós mal nos conhecemos. –e olhou para a filha, agora batendo com o rato amarelo numa simpática rã verde água, que usava uma mochila sem graça em forma de flor, que tinha longos tentáculos cujas pontas eram folhas. Meri dizia "Buba buba buba".
–Isso não vai durar muito. –Hope prometeu- Eu vim buscar minhas coisas, agora não há mais necessidade em ficar integralmente aqui. Tudo o que vocês vão precisar agora é de espaço. Além do mais, eu e Sirius precisamos de mais tempo juntos.
–E como estão as coisas na Ordem da Fênix?
–Você precisa ver para entender.
–Pika? –Meri entregou o rato amarelo para a mãe.
–Todos eles têm nome? –ela perguntou, olhando da pequena para Hope.
–Você também precisa ver isso para entender. Toda tarde, às 15h, canal 12. –e riu gostosamente. Agora eu preciso ir.
–Mas...? –Pan olhou para a TV, e para a filha, e sentiu-se perdida, agora recebendo uma borboleta de cores tristes.
–Essa é Butterfree. –Hope disse- Aquele é o Bulbasaur, a Tartaruga simpática é o Squirtle, o lagarto narigudo é o Snivy e o rato amarelo que ela adora é o Pikachu.
–Você deu nome a todos eles?
–Não, eles já tem nome. Meri aprendeu porque eles repetem muito isso. Sua filha é realmente uma mocinha inteligente.
–Sim, estou notando. Tão pequena e já tão...
–Geek. –Hope riu- Sim, eu sei. Prometo influenciar menos. Agora eu realmente preciso ir. Seria bom se você fosse ver seu pai em breve, após ajustar o que precisa ser ajustado por aqui. Ele sente sua falta feito louco.
–Eu irei. Amanhã. Prometo.
–Ah... não traga Severus com você.
–E porque não?
–Você não vai gostar do que vai ver.
Notas de Tia Mona
OI GENTE! Sentiram saudades?
Pois é... sabe como a vida anda difícil né. Medicina não brinca em serviço e hoje, especialmente, eu to um bagaço humano no mais alto grau de esbagaçamento. Mas vim postar o capitulo, pq sei que abandonei vcs por muito tempo, e Pan está implorando por ser escrita (?) já que a tensão agora vai começar mais forte do que nunca.
Desculpaê o sumiço. Love U todas.
