Capítulo Quinquagésimo Terceiro
Pan aparatou de casa diretamente no escritório de Dumbledore. Ele sentiu o calor antes da imagem dela formar-se a sua frente, e quando pode ver o terror em seus olhos, soube do que se tratava.
-Fawkes procurou você?
-Severus estava aqui até uma hora atrás. Porque você não contou a ele sobre as condições de Fawkes? –ela disse de modo meio abrupto- Estávamos planejando meu ingresso em meio aos comensais.
-Eu imaginei que vocês se permitiriam conseguir algum tempo antes de partir pra ação de forma tão efetiva. –defendeu-se- Pelo visto não querem perder tempo.
-Já perdi muito tempo.
-Não se pressione tanto. –ele aconselhou com um olhar piedoso.
Ela não sabia porque se sentia arisca, mas era inegável que suas reações estavam mais inquietas que sempre. Ela anuiu com a cabeça, já que concordar com Dumbledore era sempre a melhor opção, ou do contrario ele seguiria falando sobre aquilo até vencê-la, nem que fosse pelo cansaço.
-Eu disse a ele, nesse momento, exatamente o que ele precisava saber, Severus está exausto. E enquanto ele recupera as energias, nós conversamos e planejamos. Ele informará a Voldemort sobre você em sua próxima visita, ele vazará a informação que a Ordem da Fênix estará lutando para manter segura.
-Que informação?
-Que supostamente não confiamos que você esteja preparada para estar ativa. Serão tempos difíceis para você. O ministério questionará suas capacidades, você não virá efetivamente para Hogwarts, a Ordem da Fênix a negará. E isso será o empurrão que você necessitaria para unir-se a Severus nesse novo caminho. E quando os disfarces precisarem ser expostos, em algum momento do futuro, você estará justificada.
-Mas Fawkes acredita que eu estarei segura por um tempo, e eu devo isso a ele, eu...
-Não considero que você seja uma pessoa fácil de matar. –Albus balançou a cabeça- E eu duvido muitíssimo que Tom Riddle vá querer eliminar você, ou que seus comparsas o façam sem suas ordens. E nós manteremos nossa palavra, e Fawkes não precisará perder-se mais. Eu não toleraria perde-lo, Pan. Você deveria saber. Tudo isso é para que tenhamos o máximo de tempo possível.
-Eu imaginava, eu apenas não quero tomar nenhuma decisão ou dar nenhum passo sendo que eu não saberei se estou sendo justa com todos os envolvidos.
-Mas eu asseguro que você estará. Diante da atual situação, permanecer ao lado de Fawkes e aprender o que ele tiver a ensinar é a melhor opção. E enquanto isso, enfraqueceremos sua posição em relação ao mundo bruxo, duvidaremos de suas capacidades, forjaremos uma grave falha e colocaremos à prova tudo o que diga respeito a você. E quando chegar o momento, você poderá mudar de lado sem que ninguém ache isso abrupto. Nem Tom, nem a Ordem da Fênix.
Ela respirou fundo computando as informações e precisando admitir que aquele plano era muito bom. Também estava satisfeita por aquilo comprar-lhe o tempo necessário com Meredith, Fawkes, seu pai... E ainda que tivesse que deixar Severus enfrentando aquilo tudo sozinho, ela sabia que aquilo poderia reforçar sua posição ao lado de Voldemort. Era uma informação valiosa demais. Ela sentou-se na cadeira que havia diante da escrivaninha de Dumbledore e observou o homem. A expressão de calma no rosto dele era inquietante.
-Eu me sinto mudada.
-Você não apenas parece mudada, como eu não tenho duvidas de que de fato esteja.
-Então eu deveria começar agindo diferentemente agora?
-A que você se refere? –ele franziu a testa.
-Eu deveria demonstrar fraqueza ou incapacidade? Deveria parecer instável ou algo do tipo?
-Não hoje, não com seu pai. –ele abriu um pequeno sorriso, fazendo com que ela sentisse que pelo menos naquela noite, deveria tentar ser menos estranha- Você e Sirius precisam de um tempo.
Eles fizeram silencio. Ela observando a janela entreaberta deixar as cortinas balançarem suavemente. Ele focado em desvendar as expressões da neta.
-Então seremos apenas nós três contra o mundo? Você, Severus e eu?
-Fawkes não está indo a lugar nenhum, eu lhe prometo.
-Mas ele acha que está morrendo. –ela disse, demonstrando mais pavor do que pretendia.
-Ele está, de certo modo, se rendendo e não está conseguindo ver mais além do que de fato precisa. Fawkes precisa sentir que sua missão pode ter acabado, mas isso não significa que sua vida também precise.
-E como vamos fazer com que ele perceba isso?
-Teremos que descobrir, você não acha?
Pan preferiu não dizer nada, e ficou divagando a respeito daquela parte em especifico da conversa. Fawkes era alguém que a entendia completamente. E ela o amava desde que tinha memória. Então seu relógio sinalizou que havia chegado a hora em que Severus lhe pediu para chama-lo, e ela voltou para casa. Encontrou o marido ainda dormindo profundamente, e com um aperto no peito o despertou.
-Hora de acordar... –ela murmurou suavemente, sentindo a mão dele erguer-se preguiçosamente para afagar seus cabelos- Eu estive com Albus agora.
-E o que ele disse? –Severus murmurou ainda meio adormecido.
-Ele não orientou você a nada no encontro dessa noite?
-Ele ainda não sabe que eu estou indo. Pensei em ir até Hogwarts antes de apresentar-me ao Lorde.
-O que ele lhe disse quando vocês estiveram juntos mais cedo?
-Que uma grande operação está a caminho, mas que teremos bastante tempo até que precisemos considerar isso.
Pan contou todo o acontecido. Sobre Fawkes, sobre o plano que eles estavam formando, sobre como ela sentia muito que ele precisasse continuar sozinho.
-Não estou sozinho. –ele disse observando o rosto preocupado dela- E esse plano é brilhante. Isso vai nos conseguir todo o tempo que precisamos.
-Mas se você estiver em perigo eminente, Severus... Se você precisar de apoio e de ajuda em campo?
-Então eu tenho você, certo? –ele sorriu com o canto da boca- Eu falo sério querida, não se preocupe.
E nesse momento, Meredith chorou em seu berço, anunciando que seu descanso tinha chegado ao fim. Pan assustou-se pelo choro, seu instinto reagindo como se aquele sinal de alarme significasse que seu bebê estava em grande perigo. Seus olhos escureceram, sua pele brilhou em fogo, e ela ficou de pé tão rápido que Severus não pode ver seus movimentos.
-Pan! –ele atirou-se a ela, agarrando seu braço com força- Pan, está tudo bem... –ele disse, puxando-a para a cama- Querida, ela apenas acordou...
Mas Pan ofegava, olhando para a porta, e então para a mão restritiva de Severus em seu pulso.
-Ela está chorando. –murmurou.
-Ela apenas acordou. –Severus explicou- Eu vou busca-la no berço, mas você se acalme. Ela é um bebê, e por mais bonito que eu considere você coberta de fogo com esses olhos de puro poder, ela pode se assustar.
Pan virou o rosto e encarou a si mesma no grande espelho que havia ao lado da porta que levava ao closet. Sim, ela era terrivelmente bela naquela forma, mas podia ser um pouco demais para sua pequena. Ela olhou para o marido parecendo um pouco envergonhada.
-Eu preciso de um instante sozinha para me livrar disso tudo... –murmurou- Desculpe, eu não queria me descontrolar.
-Eu vou ver, Meri. –Severus ficou de pé e beijou a mulher na testa- Respire fundo e se acalme.
Ele saiu e logo o choro da menina cessou. Aquilo foi o bastante para que o instinto de Pan fosse adormecendo, e quando Severus entrou no quarto, trazendo a menina, ela ria gostosamente, ouvindo-o usar uma voz macia para imitar um dos bichinhos estranhos que ela adorava. Pan olhou-se novamente no espelho e seus olhos estavam voltando ao normal.
-Pan? –ele chamou, e ela virou o rosto para observá-lo- Melhor?
-Sim. –ela sibilou.
-Excelente! –e entregou Meri aos braços da mãe, que por um segundo mal soube como segurá-la.
-Olá... –murmurou, olhando para a pequena que ainda ria, agarrada ao bichinho.
-Você irá com ela até a Sede da Ordem, certo?
-Eu devo?
-Você precisa.
-Eu não queria ir. Eu... Você viu o que acabou de acontecer!
-É exatamente disso que precisamos, se Dumbledore quer mesmo fazê-los acreditar que você esteja instável. Apenas evite que as coisas fiquem estranhas com Meredith por perto.
E entrou no banho. Pan olhou a filha, que observava a própria imagem refletida no espelho do quarto parecendo divertida com outro bebê por perto. Pan estendeu-se ao seu lado, e também encarou o espelho. Meri então olhou para a mãe e para o reflexo, logo para a mãe novamente e apontou com o pequeno dedo para o reflexo dela. E então viu a si mesma com o dedo levantado no espelho e olhou para a própria mão e deixou uma expressão de assombro surgir, fazendo sua boquinha abrir-se num perfeito e gracioso "o".
-Sim, meu amor... É você ali.
-Meri? –ela chamou- Meri!
Pan riu gostosamente agora, imaginando que nem tudo estava tão mal. Meredith apenas agora começava a se dar conta das coisas a seu redor, e ela estava junto da filha para presenciar isso. Quando Severus saiu do banho, as duas estavam sentadas no chão, fazendo estranhos movimentos com as mãos e caretas engraçadas.
-Pa! –Meredith exclamou, apontando para a imagem do pai, que surgia do espelho.
-Sim, sim, sou eu. –ajoelhou-se ao lado delas- Você realmente descobriu o espelho.
-Acabou de se dar conta do que é um reflexo, e está encantada.
-Ela vê uma copia de si mesma, da coisa mais perfeita do mundo, obviamente ficaria encantada, principalmente tendo a mãe mais bonita do universo ao seu lado. –ele a beijou por um longo momento- Eu vejo você mais tarde.
-Eu não demorarei na Ordem.
-Estarei em casa antes da meia noite. –ele prometeu, beijando o pescoço dela carinhosamente- Você deve ficar com seu pai o quanto sentir que precisa, não se preocupe em voltar logo.
-Mas eu... –ela começou.
-Faça isso por aquelas pessoas, se não quer fazer por si mesma. Eu sei que você quer se esconder por um tempo e acostumar-se com tudo isso novamente, mas isso não traria bem algum.
-Eu me sinto um pouco egoísta.
-Bem, deveria. Fique o quanto achar que precisa, mas vá. Vá, eles devem estar ansiosos por ver e falar com você, por contar-lhe tolas novidades e coisas do tipo. Hope precisa desesperadamente de tempo ao seu lado. Você pode lidar com isso certo? Com Hope?
Ela anuiu com um gesto de cabeça e sorriu para tranquiliza-lo.
-Meri, dê um beijo no papai. –ela disse, e observou a menina estalar um beijo úmido no rosto do pai, agarrando os cabelos dele com as pequenas mãozinhas- Tenha cuidado.
Ele a beijou nos lábios em resposta e saiu. Olhando para o próprio reflexo agora Pan precisou espelhar-se na coragem do marido e ergueu-se do chão, com Meredith em seus braços.
-Vamos colocar uma roupinha mais aquecida, querida... Estamos indo visitar o vovô.
-Hope?
-Sim... sim, ela também. E que Merlin nos ajude.
