Percebendo a presença hostil daquele chakra conhecido, o Uchiha olhou em direção de onde vinha sua fonte, constatando o óbvio. Tobirama apareceu por entre as árvores, com aquela postura ofensiva, encarando-o de forma mortal. Pela forma que seu chakra apresentava, pôde chegar a seguinte conclusão: no que dependesse daquele homem, travariam uma luta ali mesmo. Na verdade, havia certa desconfiança por parte de Madara há tempos, ele não era nenhum um pouco tolo para não perceber algo tão explícito. Não notar que tudo aquilo que o irmão mais novo de Hashirama fazia era por ciúmes, e não um ciúme bobo de irmão. Tobirama estava apaixonado por Hashirama, uma paixão carnal, muito diferente de amor fraterno. Percebeu isso ao notar o ciúme descomunal do outro demonstrava, algo muito além de amor ou admiração de irmão.

Naquele instante, sentiu uma pontada de indignação pela audácia daquele homem em demonstrar isso sem intenção alguma de esconder seus sentimentos. Pensou, por alguns instantes, se Hashirama havia sequer se dado conta desse comportamento do irmão, porém, logo descartou a possibilidade, haja vista que o amigo parecia muito tapado para enxergar o que acontecia bem debaixo do seu nariz.

Depois de Tobirama ter passado a mensagem sobre a convocação dos líderes dos Senju e Uchiha, pôde ver a expressão reprovadora do homem de cabelos alvos para o irmão mais velho. Não demorou até Tobirama voltar seu olhar para o outro homem de cabelos negros, numa tentativa de intimidar o Uchiha, que institivamente ativou o Sharingan, demonstrando a mesma postura ofensiva que o Senju mais novo se colocou.

Percebendo que as coisas ali tendiam a piorar a cada segundo que passava, Madara resolveu partir. Hashirama ainda tentou o acompanhar, porém, o Uchiha foi sorrateiro, se desvencilhando do outro. Pulou pelo penhasco, chegando ao chão rapidamente, sumindo por entre as árvores. Saiu dali não por medo de Tobirama, sabia que ele não era páreo para enfrentá-lo num combate direto, e sim porque precisava ir a um local específico, e, agora que havia se recuperado melhor, aproveitaria a oportunidade. Na realidade, o comparecimento de Tobirama foi uma saída perfeita que surgiu naquele momento. Seguiu pelas árvores, saltando sobre os galhos frondosos, numa velocidade impressionante, digna de um ninja bem treinado como ele era.

Durante o percurso, pensou em Tobirama sendo um obstáculo em potencial que poderia atrapalhar seus planos. Porque pensar em qualquer trégua com aquele homem prepotente era a última opção que cogitaria. Dadas às circunstâncias, sempre demonstrando um ódio descomunal, e a forma como via os Uchiha, definitivamente, em algum momento, Tobirama influenciaria Hashirama, e não seria a primeira vez que faria isso, pois o seu amigo sempre fora facilmente manipulado pelo irmão mais novo. Fato que irritava Madara de certa forma.

A única saída que lhe restava era buscar uma forma de se precaver para o que estaria por vir, caso Tobirama resolvesse trazer à tona as suas artimanhas e tentar algo que pudesse prejudicar seu clã. O Uchiha não poderia ignorar que o Senju mais novo era, de fato, muito sagaz, logo, não desperdiçaria uma oportunidade de armar algo para si. Isso se já não estivesse com algum plano mortal em mente. Apesar de sua motivação não ser somente essa, não poderia deixar passar despercebido essa situação.

E foi com esse pensamento que resolveu ir ao lugar que não frequentara a algum tempo, desde que adquiriu o Mangekyo Sharingan. Encontraria nesse local algumas respostas que necessitava para ajudar fortalecer seu dojutsu.

Chegando aquele local conhecido, Madara caminhou lentamente até a entrada do Santuário Naka, o templo antigo onde seu clã fazia reuniões secretas. Adentrou o salão principal, seguindo até o sétimo tatame do lado direito. Ativou o Sharingan, executando uma sequência de selos específicos, uma espécie de senha, fazendo com que a pedra que cobria a entrada secreta se movesse para o lado, revelando uma escadaria que descia ao subterrâneo. Desceu as escadas lentamente, chegando ao final, onde pôde visualizar o que procurava. Precisava descobrir mais sobre os segredos em torno da técnica ocular característica de seu clã. Queria mais poder para, finalmente, conseguir alcançar seu objetivo. Acreditava que através do poder, conseguiria trazer a ordem para o mundo, dissipando de uma vez por todas as lutas incessantes que viriam a ocorrer. Afinal, aquele momento pacífico em algum momento iria se findar e ele não iria esperar para ver tudo acabar repentinamente sem fazer nada. Após despertar o Mangekyo Sharingan, Madara conseguiu um poder acima do que qualquer outro integrante do clã Uchiha poderia conseguir – exceto Izuna, o único que conseguiu chegar neste nível -, e utilizaria tal poder para governar, ainda que fosse necessário derramamento de sangue.

Ao entrar no salão secreto, onde se encontrava a tábua de pedra contendo os segredos do clã Uchiha, Madara se aproximou, parando em frente aqueles escritos, analisando minuciosamente cada código a ser decifrado. Contudo, como havia presumido, o Mangekyo Sharingan não seria o suficiente para desvendar tudo. Precisava de uma técnica ocular mais poderosa: o Rinnegan. A questão seria como o desenvolveria, e isso deixava Madara impaciente, pois sabia que para adquirir esse poder, seriam necessários muitos sacrifícios. Mas, já havia feito muitos no decorrer de sua vida, afinal, um Uchiha nunca possuiu limites no que se referia à conquista de poder. Queria mais informações e o fato de não possuir o Rinnegan estava limitando seu avanço nessa descoberta. Suspirou profundamente, soltando o ar de forma pesarosa, fitando a tábua. Após alguns segundos encarando o objeto, notou algo que lhe chamou a atenção de imediato: Em uma linha específica, um nome peculiar o fez se aproximar mais e se agachar, deslizando o dedo indicador sobre os escritos. Sorriu satisfeito com o que conseguiu constatar naquelas linhas. Havia acabado de conseguir uma informação valiosíssima, então, levantou-se e seguiu para a saída daquele templo.

Fitou a floresta logo à frente, e, em um salto certeiro, alcançou nenhum problema o galho de uma árvore, seguindo assim, seu trajeto de volta para o pequeno vilarejo Senju. Na realidade, não queria voltar agora, não quando um Tobirama possesso de ciúmes estaria lá para destilar insultos e isso, definitivamente, não deixava Madara com a mínima vontade de retornar, contudo, lembrou-se de Hashirama e do alarde que ele faria se não retornasse logo.

"Argh, aquele cara sempre com essa preocupação excessiva.".

Pensou, imaginando a enxurrada de perguntas que seu amigo lhe faria e, sinceramente, não estava com nenhum pouco de paciência para tolerar essa demonstração super protetora do amigo para consigo. Grunhiu, irritado com os possíveis sermões que o outro lhe aplicaria, porém, era só fazer o de sempre e ignorar com sua cara de "ninguém liga" no melhor estilo Uchiha.

E foi imerso em pensamentos que cruzou uma clareira, entretanto, um estrondo, que parecia de uma árvore sendo partida ao meio e cair, chamou a sua intenção, fazendo-o parar de súbito. O Sharingan se ativou por instinto, tendo em mente de que poderia ser algum inimigo.

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Tobirama desviava de uma árvore e outra, às vezes, golpeando alguma delas de maneira impaciente. Queria extravasar toda sua fúria e frustração, mas, sabia que nenhuma bebida ou acompanhante surtiria algum efeito, apenas o deixaria mais irritado do que estava. Então, pensou que treinar seria uma opção menos pior. Ao chegar numa clareira, ponderou por algum instante o que realmente queria fazer ali. Seus pensamentos se encontravam numa tremenda confusão. Era estranho se ver numa situação assim, por sempre ser um homem centrado, focado, sutil, contudo, os sentimentos acumulados dentro de si o deixavam desnorteado, completamente fora de controle.

O ciúme realmente estava o deixando doente, cego, e não sabia como escapar disso. Todas as vezes que via Hashirama apenas conversando de forma mais íntima ou amigável – fato que sempre ocorria por seu irmão ser alguém muito sociável – era motivo para Tobirama quase sair de si.

Se não fosse o seu notável autocontrole, já teria acabado com a raça dessas pessoas que ousavam se aproximar de maneira mais íntima de Hashirama. Mas, agora, com a presença do Uchiha, era praticamente inconcebível para o Senju mais novo conseguir manter a sanidade, principalmente depois daquelas palavras de seu irmão mais velho, afirmando com todas as letras que amava Madara. Cada uma ainda ecoava em sua cabeça, machucando com a mesma proporção de antes.

Ergueu a cabeça, observando a lua crescente e várias estrelas cintilantes, vendo aqueles astros distantes e ao mesmo tempo em grande harmonia. Nesse momento, imaginou se algum dia haveria paz em seu coração. Paz que agora fora roubada por um certo Uchiha. Imediatamente a lembrança do beijo entre Madara e Hashirama veio num lampejo, assim como aquela cena digna de um romance a beira do penhasco. Esse pensamento encheu Tobirama de ira, fazendo-o desferir um golpe furioso numa árvore gigantesca a sua esquerda. Atravessou o tronco robusto sem nenhum problema, deixando um buraco enorme no local. Não demorou muito até que o tronco começasse a desmoronar. Então, com a ajuda do seu ninjutsu, Estilo da Água: Jato de Água Cortante, técnica que consistia em formatar o chakra no estômago e convertê-lo em água, fazendo com que consiga expelir um fluxo de água pressurizada tão cortante quanto uma lâmina, permitiu-lhe fazer cortes em toda a extensão do corpo grosso sem dificuldades.

Permaneceu ali por um bom período de tempo, numa tentativa falha de se acalmar, porém, sua ira não aplacava. Sua frustação era grande demais para ser desfeita em apenas alguns golpes. Mesmo assim, continuou com aquela atitude desesperada de afastar toda aquela raiva e dor acumulada em seu peito. Então, notou um chakra em particular se aproximando daquela clareira. Seu sorriso se alargou de canto a canto, afinal, de todas as pessoas, não esperava que justamente este fosse capaz de aparecer, dadas as circunstâncias em que se encontrava. Contudo, fingiria que não havia notado, e continuou desferindo golpes mais violentos ainda, imaginando a sensação que seria poder fazer isso com aquele Uchiha. Queria ver o sangue dele escorrendo, lentamente, enquanto o torturava da pior forma possível.

Havia prometido para si mesmo que esperaria o momento mais oportuno para fazer isso, todavia, uma boa oportunidade não poderia ser desperdiçada dessa maneira. Era como uma presa praticamente implorando para ser estraçalhada por seu predador. E, sendo quem era, deixar a oportunidade de uma luta passar seria praticamente um insulto. Esperaria o momento ideal para que ele desse as caras, e tinha certeza absoluta que ele também havia notado sua presença. Deixaria a lebre vir de encontro ao lobo.

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Madara observou melhor a situação, constatando ser a pessoa que menos queria ver no momento, desferindo golpes furiosos contra as árvores, derrubando-as em segundos. Parou por alguns instantes, espionando aquele espetáculo monótono que o outro exibia. Pela densidade do chakra que ele emanava, parecia bastante enfurecido, com um requinte de frustração. Ponderou em ir e provocá-lo, contudo, sua cabeça agora estava direcionada a outra situação. Suspirou pesadamente, desencostando da árvore, virando-se para sair dali, porém, sentiu o chakra de Tobirama se intensificar ainda mais, tomando uma forma muito ofensiva. Olhou por cima do ombro, percebendo que o outro agora encarava a árvore em que estava.

- O que é Uchiha? Vai ficar aí escondido só observando? – Tobirama cruzou os braços, sorrindo sarcasticamente – Ou quer se juntar às árvores que acabei partindo em pedaços? Se quiser, saiba que é muito bem vindo... Principalmente se for para você acabar como uma delas. – Riu ainda mais, acertando um golpe preciso num tronco denso, partindo-o em diversos fragmentos de madeira. – Vem, vamos brincar um pouquinho, Uchiha. Garanto que vai ter um final indolor.

Tobirama o provocava e sabia que não seria muito fácil convencer Madara com suas provocações. O Uchiha apenas suspirou cansado, não dava a mínima para a infantilidade do outro e iria embora dali, pois havia coisas mais importantes a se fazer.

- O que foi? Com medo de que eu faça contigo o mesmo que fiz com seu irmãozinho? – zombou, queria acertar o ponto chave – Como se ele chamava mesmo? Hm...

Madara o fitou com desprezo, e, apesar da ira do outro ser evidente por causa da densidade que seu chakra tomara agora, não se intimidou. Dessa vez, Tobirama tocou no ponto fraco do Uchiha, que não esperou nem mais um segundo e pulou da árvore, caminhando lentamente em direção ao Senju, mantendo a postura calma. Encarou o outro com aquele olhar de desdém, rindo de canto.

-Acha mesmo que pode me derrotar, Senju? – cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha – Como sempre, um idiota arrogante como você não possui nenhuma noção do perigo.

Mirou Tobirama em seus olhos, o olhar num denso escarlate, sendo correspondido com a mesma intensidade pelo outro.

- Acha mesmo que só porque matou meu irmão você é mais forte? – riu com escárnio da audácia do outro – Você é apenas um imbecil convencido, mas vive escondido na sombra de seu irmão. Você não chega nem perto do nível de Hashirama. Nem em mil anos conseguiria isso.

Madara o provocou e sabia que aquelas palavras inflariam ainda mais a fúria de Tobirama, porém, não estava nem um pouco preocupado com isso. Aliás, se divertia muito com aquele joguinho de insultos, aguardando a parte mais importante, o confronto que teriam. Queria acabar com aquele homem, fazê-lo implorar por sua vida miserável. E não imaginava que essa ótima oportunidade viria mais cedo do que imaginava.

- Sim, meu irmão é realmente muito forte, não posso negar isso, mas, tenho certeza que eu sou o suficiente para derrotá-lo, afinal, você nunca foi capaz de vencê-lo mesmo.

Tobirama devolveu a provocação, mantendo a pose altiva, prepotente de sempre. Queria ferir o orgulho do Uchiha a qualquer custo antes de fazer qualquer outra coisa.

- Ora, Tobirama, toda essa sua irritação se deve ao ciúme de seu irmão? – Nesse instante, Madara conseguiu chegar ao ponto exato que queria quando viu a expressão de Tobirama mudar de repente – O que foi? Inconformado porque Hashirama prefere estar comigo do que com você? Não se preocupe, não vou roubar seu irmão, mas, confesso que ele é bem, digamos, interessante... É, realmente, Hashirama não é de se jogar fora. Acho que posso me divertir muito com ele.

Aquelas últimas palavras foram a gota d'água para que Tobirama avançasse contra Madara, fazendo os selos de mão para invocar o jutsu clone das sombras, formando vários clones de si mesmo, fazendo-os atacar o Uchiha ao mesmo tempo.

Com o Sharingan ativado, Madara se desviou dos golpes, fazendo o selo de mãos rapidamente, liberando sua técnica, Estilo do Fogo: Aniquilação por Fogo, derrotando diversos clones de uma só vez. Com sua técnica ocular, a tarefa de identificar o verdadeiro foi fácil. Tobirama tentou atacá-lo pelo flanco esquerdo, juntamente com o outro clone que restara. Então, Madara fez o selo novamente, invocando seu poderoso Susanoo.

-Essa sua técnica é interessante. – o Uchiha fez a observação de dentro do Susanoo – Mas, não é o suficiente para me derrotar. Vai precisar mais que isso, maldito.

Com isso, Madara desferiu um golpe com o Susanoo, fazendo Tobirama utilizar habilidosamente o selo de mãos para formar a Parede de Água a sua volta, interceptando o ataque do Uchiha prontamente.

-Heh, acha mesmo que vai ser fácil, Uchiha? – Riu sarcástico – Vou fazer você pagar por ter cruzado meu caminho, bastardo!

Aproveitando a proteção da parede de água, Tobirama conseguiu fazer com precisão os quarenta e quatro selos de mão necessários para moldar uma grande quantidade de água com seu chakra, invocando sua técnica Ataque do Dragão Marinho.

-Dessa vez, você não tem como escapar, Madara. Aqui será seu túmulo! – e, com um movimento, fez com que o grande dragão de água atacasse o Uchiha com todo o seu poder.

Os dois ninjas lutaram impetuosamente, Tobirama sempre atacando, enquanto Madara se mantinha sob a defesa do Susanoo, o que facilitava ver os movimentos do seu adversário com precisão. Para o Uchiha, aquele Senju nunca fora um adversário a altura para enfrentá-lo, entretanto, não perdoaria a imprudência e audácia dele em fazer todos aqueles insultos, ainda mais quando esses insultos eram referidos à Izuna.

Com seu chakra um pouco esgotado, Tobirama, baixou a guarda por um milésimo de segundo, e isso fora o suficiente para Madara contra-atacar com o Susanoo, desferindo um chute no abdômen, fazendo-o bater contra uma árvore. Em questão de segundos e sem tempo para sequer revidar, o Senju se viu imprensado contra uma árvore com uma kunai apontada para o pescoço. Ele mirou o Uchiha, completamente exasperado, enquanto cuspia uma quantidade considerável de sangue.

-Achei que iria ao menos me divertir um pouco aqui. – Madara disse em um tom entediado – Vejo que não me enganei, você não tem um terço do que Hashirama possui de força e habilidade.

-Acaba logo com isso de uma vez, maldito. – O homem de cabelos alvos grunhiu com desprezo, tossindo mais sangue.

-Queria te dar uma morte mais dolorosa... – O Uchiha pareceu pensativo por um instante, como se ponderasse que tipo de tortura infligiria à Tobirama – Quem sabe assim, Hashirama deixaria essa besteira de sentimentalismo e me enfrentaria dignamente. – Vendo a cara de desdém do rival, pensou em algo mais eficaz para provocá-lo– Se bem que usar os sentimentos que ele tem por mim parece algo mais interessante. Poderia manipular suas atitudes, usar aquele corpo como eu bem entender...

No mesmo instante, Tobirama fez menção de avançar, contudo, a kunai que se encontrava em seu pescoço acabou fazendo um pequeno corte, obrigando-o a recuar.

-Desgraçado, eu juro que se você não me matar agora, vou te perseguir até o inferno se for preciso. – o Senju praticamente rosnou, possesso de ódio, fazendo questão de enfatizar bem as últimas palavras.

Madara apenas sorriu minimamente de canto, fitando aquele homem encurralado e indefeso lhe proferindo ameaças absurdas, dada a posição em que se encontrava naquele instante.

-Você é patético. – suspirou desanimado – Como desejar, Senju Tobirama.

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Hashirama procurou Madara em todos os pontos do vilarejo dos Uchiha, não obtendo sucesso. Estava preocupado com o amigo, ele saíra do penhasco sem dizer uma palavra sequer. E, conhecendo o Uchiha, imaginou se ele desapareceria como da outra vez. No entanto, sabia da responsabilidade que seu amigo possuía por ser um líder, então, logo descartou essa possibilidade, apesar de ser uma hipótese, ainda que remota.

Enquanto vasculhava em sua mente possíveis lugares em que o outro possa ter ido, de repente veio à memoria um que não havia pensado ainda. Na realidade, o local era apenas rumores que seu pai e alguns outros anciões comentavam, não havia comprovação que o mesmo existia, porém, continuava sendo uma possibilidade, e essa não poderia ser descartada. E, apesar de não saber exatamente onde se localizava, ouviu dizer que ficava numa área um pouco distante daquele vale onde construiriam a vila. Decidido a encontrar Madara, embrenhou-se na floresta, desviando das árvores numa precisão incrível. Percorreu um bom perímetro, tendo a mente imersa em pensamentos que gostaria de afastar a todo custo.

Sabia que não seria nada fácil manter sua amizade com o Uchiha devido ao seu irmão mais novo que o repudiava. Apesar de Tobirama não poder fazer nada para impedir o que sentia, o fato de seu melhor amigo e seu irmão, as pessoas que mais amava, se tratarem com rivalidade era muito desconfortante para si. Prezava pela paz e seu maior desejo era ver essas pessoas felizes ao seu lado. Pode parecer egoísta da parte de Hashirama, porém, prezar pelo bem daqueles que lhe eram importantes tornava-se uma excelente justificativa. Queria estar ao lado de ambos, cuidar, apoiar, dar atenção, e, acima de tudo, amá-los. Nunca conseguiria odiar qualquer um dos dois, apesar de não ser o sentimento que compartilhava por ambos não ser o mesmo. Seu amor por Tobirama era bem diferente do que sentia por Madara. Tobirama era seu irmão querido, Madara, por sua vez, alguém que amava mais que um amigo. Tinha uma atração peculiar pelo Uchiha e só conseguiu entender isso perfeitamente conforme o passar do tempo. Ele parecia uma parte de si que fora perdida desde tempos remotos. Como se faltasse metade de seu coração. E, apesar de não entender bem que esse tipo de ligação que possuía com o Madara significava, havia a certeza de que não poderia ficar longe, agora que o reencontrou.

Ainda divagando, lembrou-se das palavras duras que disse a Tobirama, e em como se sentia culpado por ferir o irmão daquela forma. No fundo, sempre soube dos sentimentos que seu irmão mais novo nutria, todavia, para não magoá-lo, achou melhor fingir que não sabia e deixar as coisas como estavam. Nunca foi sua intenção permitir que Tobirama sofresse, e faria qualquer coisa para reverter a situação, no entanto, as coisas haviam saído de seu controle desde aquela época em que o mais novo se afastou por determinado tempo do clã. Seu desejo era que Tobirama entendesse que esse amor nunca seria possível, porque, além de serem irmãos consanguíneos, o seu coração pertencia a outro. E agora que havia encontrado essa pessoa, não deixaria que escapasse. Doía em sua alma ver seu precioso irmão definhar a cada dia na amargura que era amar sem ser correspondido da mesma maneira, entretanto, infelizmente, tudo isso estava muito além do alcance do que poderia fazer para amenizar as coisas.

Conversar com Tobirama abertamente sobre esse assunto havia passado inúmeras vezes em sua cabeça, contudo, o medo da reação do seu único ente querido o assustava mais ainda. Com isso, Hashirama se via numa circunstância da qual não poderia se livrar facilmente. E a presença de Madara piorava muito as coisas por causa dessa rivalidade ridícula que seu irmão travou com ele. No entanto, não conseguiria abrir mão de nenhum deles, se sacrificaria igualmente por ambos, ainda que tudo isso fizesse de sua vida um inferno todos os dias. Estava disposto a pagar o preço, porque, em seu íntimo, acreditava que o amor poderia transcender qualquer coisa, inclusive a rivalidade de seu irmão com seu amigo.

Imerso em tantas questões, Hashirama notou dois chakras familiares para si.

"Esses chakras... Será que eles...".

Sentindo um calafrio na espinha ao pensar na possibilidade de um confronto entre Madara e Tobirama, voltou a correr na mesma velocidade de antes, aliás, nem percebeu que havia desacelerando. Um aperto no peito surgiu, fazendo sua pulsação subir à medida que se aproximava. Seguiu o chakra que emanava de uma clareira logo à frente, e, quando conseguiu visualizar de quem se tratava, parou abruptamente, atônito.

Madara e Tobirama estavam no centro da clareira, de frente um ao outro, totalmente estáticos, como se estivessem conversando. No entanto, assim que conseguiu ver melhor a face de ambos, notou que nenhum deles se movia. Achou estranho de início, afinal, aqueles dois nunca tomariam essa postura sem trocar insultos ou discutirem. Foi então que notou o Mangekyo Sharingan de Madara ativado, então, veio a certeza de que o amigo estava controlando a mente de Tobirama. Aproximou-se do Uchiha, chamando-o imediatamente.

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Ao se aproximar de Tobirama, Madara ativou o Magenkyo Sharingan, fitando bem os olhos do rival, acionando o Tsukuyomi, a técnica que requer contato visual para ser executada, prendendo o alvo dentro de uma ilusão completamente sob o controle do usuário. Isso permitiu Madara alterar a percepção do tempo com facilidade dentro do genjutsu, fazendo alguns segundos parecerem horas, de forma a torturar seu alvo. O que acaba resultando na vítima sofrendo trauma psicológico incapacitando-o por um período de tempo considerável. Logo, Tobirama se encontrava dentro do genjutsu, o qual lhe deu a ilusão de um combate mortal entre os dois. Madara manipulou todo aquele espaço com seu poder ocular com muita destreza, de forma que poderia realmente matar Tobirama ali mesmo. Só não o fez por ter sentido o chakra de Hashirama se aproximando, e, em seguida, escutou o amigo chamando seu nome. No mesmo segundo, o Uchiha desativou seu Makenkyo Sharingan, liberando o irmão mais novo de seu amigo daquela ilusão.

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Madara, sem dizer qualquer palavra, desativou o Sharingan, e, no mesmo segundo, Tobirama se desequilibrou e quase caiu se não fosse Hashirama ampará-lo em seus braços.

-Madara, o que está acontecendo aqui?

Hashirama, preocupado com o irmão, questionou o amigo, que nada respondeu além lançar de um olhar frio, sem nenhuma emoção como resposta.

- Você usou o seu genjutsu nele? Madara, espera...

Ainda em silêncio, o Uchiha deu as costas e sumiu pela mata rapidamente, deixando para trás seu amigo cheio de dúvidas e claramente transtornado. Hashirama quis correr atrás dele e arrancar as respostas que ansiava, contudo, não poderia deixar Tobirama sozinho naquele estado.

Ergueu o seu irmão, apoiando-o em seu ombro, seguindo direto para casa, algo que seria um pouco mais dificultoso por Tobirama não estar em condições de andar normalmente.

De uma coisa Hashirama tinha certeza, procuraria Madara para saber o houve e dizer a ele que, não importava o que houvesse ocorrido naquela clareira, nunca o odiaria. Afinal, o amigo fora muito piedoso em apenas utilizar o genjutsu em Tobirama, mesmo que, se fosse ao contrário, certamente não seria da mesma forma, haja vista a intensidade do ciúme de seu irmão mais novo.

E esse fato só fazia Hashirama admirar e se encantar ainda mais pelo Uchiha, como se fosse possível se admirá-lo mais.

Deixou Tobirama em casa, e, vendo que ele apenas estava se sentindo um pouco atordoado graças ao efeito do genjutsu, decidiu que não esperaria o dia amanhecer para ir atrás de Madara e buscar respostas, mesmo tendo ideia do que se tratava aquele "confronto" entre ele e Tobirama.

Dessa vez, tinha uma noção de onde o Uchiha estava, então, não demorou muito tempo encontrá-lo. A lua crescente clareava boa parte do local e, como na primeira vez quando fora ali há muito tempo, sentiu-se atraído pela pessoa que agora estava assentada à beira do riacho, imerso em pensamentos. Hashirama se aproximou, sabendo que o outro já deveria ter sentido sua presença, contudo, não se intimidou e continuou caminhando até parar ao seu lado, sentando-se em seguida. O silêncio permaneceu por muito tempo ali, mais do que queria, entretanto, não era algo que incomodava nenhum dos dois amigos. Na realidade, parecia apreciar aquilo, apenas a companhia um do outro, enquanto as lembranças surgiam em suas mentes.

A primeira vez que se encontraram, a rivalidade amigável que logo se instalou entre eles, e os laços de amizade que foram se intensificando e se tornando mais sólidos a cada encontro. A forma como se completavam, assim como o yin yang, todos os momentos bons que aquele riacho trouxera no passado; as conversas, os sonhos compartilhados, até mesmo as brigas infantis que travavam, tudo aquilo era muito nostálgico para os dois homens que agora fitavam a correnteza imersos em doces lembranças.

Desejavam que tudo fosse diferente entre eles, que pudessem ter continuado com a amizade, conseguisse ficar juntos, compartilharem as boas conversas e o fio de afinidade que encontravam em meio a todas as diferenças que carregavam entre eles. Eram completamente diferentes e ao mesmo tempo se completavam, como se a existência deles não fosse totalitária quando não estavam próximos.

Hashirama olhou de canto para o amigo, vislumbrando a serenidade naqueles olhos ônix. Nem de perto lembrava o homem calculista, líder extraordinariamente engenhoso, do ponto de vista do Senju.

A princípio, sua intenção seria perguntar o que ocorreu entre ele e Tobirama naquela clareira, contudo, seus questionamentos se dispersaram no mesmo instante em que o viu ali, sentado sobre a grama úmida pelo orvalho, enquanto fitava a correnteza. Ergueu a mão, um pouco vacilante, em direção ao rosto do amigo, retirando uma mecha de cabelo que encobria uma parte o rosto pálido, colocando-a atrás da orelha dele. Nesse instante, achou que haveria algum protesto do outro, porém, apenas recebeu um suspiro pesado. Em outro tempo, Madara acharia essa atitude incômoda e um tanto inconveniente, todavia, estava se acostumando com o modo carinhoso como Hashirama agia consigo. Talvez, começaria a aceitá-las com mais frequência daqui em diante. Por outro lado, sustentar uma ilusão não fazia parte de seus planos. Naquela noite em que se beijaram, agiu por puro impulso, sem pensar nas consequências que um simples ato acarretaria. Fora inconsequente de sua parte, disso ele estava totalmente ciente, afinal, despertar esperanças em Hashirama era a última das suas intenções, entretanto, até mesmo alguém centrado como Madara poderia se deixar levar por seus instintos mais primitivos. E, apesar da tempestade de emoções que se formara dentro de seu peito, demonstrar qualquer indício de que correspondia os sentimentos de Hashirama, mesmo que não fosse com a mesma intensidade, seria algo que o Uchiha orgulhoso jamais faria. Ao menos se empenharia ao máximo para que essa situação não viesse à tona.

O Senju inspirou fundo, demonstrando certa impaciência diante daquela quietude do amigo. Resolveu falar, já que havia vindo justamente para perguntar algo, mesmo que agora houvesse mudado de ideia sobre o assunto que abordaria.

-Vamos iniciar a construção da vila, nossos companheiros estão animados para começar os preparativos amanhã mesmo. – ainda fazendo uma leve carícia na numa mecha do cabelo de Madara, Hashirama enroscou o dedo indicador numa outra mecha, dedilhando os fios negros – A questão é... – Respirou fundo, ponderando bem as palavras, antes de continuar – Você e Tobirama são muito importantes para mim, e, nada me deixaria mais feliz do que ver vocês ao menos tentando manter a boa convivência. Eu entendo que a dor causada pela perda do seu irmão o deixou magoado. E sei que nada do que eu fizer ou disser vai mudar isso, você não precisa ser o melhor amigo dele, sei que seria um absurdo pedir isso, mas, por favor, seja paciente, eu sei que você consegue se manter complacente nas piores situações. Ainda me lembro muito bem da sua bondade em me deixar escolher entre minha vida e a do meu irmão. Eu conversarei com Tobirama mais uma vez, sei que ele irá se comportar melhor, eu prometo que farei o possível para que isso não se repita, então, volte comigo.

Madara continuou em silêncio, porém, desta vez, fitou Hashirama com um olhar vazio, sem expressão. Pensou em diversas hipóteses de como tudo aquilo poderia dar muito errado; claro que Tobirama não cederia fácil, e nem ele mesmo estava com vontade de ceder, todavia, uma parte dentro de si não conseguiria negar isso à Hashirama. Não quando nesse exato instante, seus sentimentos por aquele homem gritavam dentro de sua cabeça para aceitar sua proposta e irem embora dali, apesar de seu corpo não querer se mover do lugar onde estava. Após alguns segundos de conflitos internos, quase uma batalha travada dentro de sua própria mente, finalmente permitiu um pequeno sorriso de canto delinear os lábios finos. Levantou-se, estendendo a mão para o amigo, que aceitou prontamente, apertando-a. O Uchiha desviou o olhar para o lado, sentindo-se um tanto envergonhado pela animação que o amigo lhe demonstrara.

-Vamos, anda logo.

Ordenou num tom monótono, fazendo Hashirama sorrir largo, com uma alegria que mal cabia no peito. Ele se levantou num impulso, pondo-se de pé em frente à Madara. Por causa desse movimento repentino, acabaram ficando bem próximos, tanto que podiam sentir as respirações um do outro. E, devido a essa proximidade, de repente os corações aceleraram, descompassados, alertando que algo aconteceria se eles continuassem a se encararem daquela maneira hipnotizadora. Madara foi o primeiro a ficar em estado de alerta, engolindo seco. Então, resolveu tomar a atitude e começou a caminhar, ficando alguns passos a frente do amigo. Mesmo que sua emoção gritasse dentro de sua mente para abraçá-lo, envolvê-lo bem apertado em seus braços, sua razão dizia para ir embora logo, ou não resistiria aos encantos do homem a sua frente, e isso seu orgulho não permitiria, não iria avançar porque sabia que, uma vez submerso naquelas emoções, seria impossível emergir. E isso o Uchiha não poderia permitir, porque estava ciente do que tudo isso implicaria no final.

O Senju, ainda sem reação, piscou atônito, como quem acabara de sair de um transe. Aquela proximidade o fez até mesmo se esquecer de como respirar adequadamente. Então, vendo o amigo se afastar mais alguns passos, se obrigou a mover os pés, começando a seguir o outro a sua frente.

Ambos seguiram silenciosamente todo o percurso, ainda que houvesse muitos questionamentos, incertezas e sentimentos confusos pairando na cabeça dos dois amigos.

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Nos dias que se seguiram, os preparativos para as construções ocorriam sem maiores problemas. Em poucas semanas, com o trabalho em conjunto dos homens de ambos os clãs, várias casas tomaram formas. Logo, algumas pessoas de outros clãs começaram a se agregar a pequena vila, e a notícia percorreu por todo o país do Fogo. Hashirama e Madara ainda precisavam se reunir com o daimyo, todavia, o trabalho na vila ocupava todo o tempo dos líderes. Após muito esforço, e com todos cooperando para esse sonho se realizasse, a vila ia se expandindo por aquele vale extenso, e a tendência era só aumentar.

Agora, com várias famílias vivendo ali, a paz parecia finalmente ter chegado para os shinobis que ali se instalaram. As guerras aos poucos foram cessando, o que deixava os vários sobreviventes esperançosos por dias melhores.

Finalmente o sonho de Hashirama e Madara havia começado a tomar forma. Então, entenderam que não poderiam mais adiar as coisas e foram ao encontro do daimyo. E este, vendo que a situação da vila ficava cada vez mais próspera, aconselhou aos líderes que logo aquele local precisaria nomear alguém como líder interino, uma posição hierárquica para que a vila tivesse alguém para responder por si, o que acabava se tornando uma forma de proteção.

-Vocês entendem o que quero dizer com isso, certo? – o homem fitou os dois líderes assentados à sua frente naquela mesa redonda de madeira escura – Que o mais forte da aldeia deverá ser nomeado como líder.

Hashirama olhou de canto para Madara, já havia se decidido há algum tempo, e, certo de sua decisão em indicá-lo para liderar a vila, conversaria com o amigo assim que retornassem. O Uchiha manteve-se em silêncio, pensativo, aquela recomendação do daimyo lhe parecia um tanto presunçosa, haja vista que isso poderia formar uma nova guerra pelo poder, entretanto, tinha que admitir que a ideia de ter alguém responsável pela vila se fazia necessária para manter a ordem entre os aldeões.

Os amigos concordaram, regressando a vila para retomar os atividades que restavam para acelerar o crescimento daquela comunidade. No caminho, Hashirama falava com muita devoção sobre o sistema shinobi que queria implantar. Madara concordava, apesar de achar algumas coisas equivocadas, como a questão de haver shinobis sendo treinados para alguma eventual batalha. Essa ideia parecia bem contraditória em relação aos planos pacíficos que o outro defendia com tanta convicção. Naquele momento, enquanto retornavam, era como se tivessem voltado aos tempos de infância, aquela época em que discutiam várias questões, discordavam e acabavam se entendendo a sua maneira. Então, neste exato segundo, Madara pensou se realmente conseguiria viver feliz ali, mesmo sem a presença de Izuna, aquele a quem havia jurado cuidar e proteger quando toda aquela guerra findasse. Entretanto, precisava superar e seguir em frente, e Hashirama parecia lhe mostrar esse caminho a cada dia.

Assim como a cada dia parecia impossível se afastar do amigo, na realidade, queria estar o mais próximo que pudesse. Compartilhar seus momentos com ele, fazer dele seu confidente, seu porto seguro. Na medida em que essas coisas se passavam na mente de Madara, ele percebia o quão preso estava à Hashirama. Algo que não saberia dizer em que ponto aconteceu, apenas sabia que não podia mais se ausentar da presença dele. Hashirama era como seu sol particular, aquele que o iluminava, trazendo dias ensolarados a sua vida. E, pela primeira vez, percebeu que as feridas causadas pela perda de Izuna estavam começando a cicatrizar. A saudade ainda era presente, obviamente, porém, a dor havia amenizado de maneira considerável com o passar do tempo. E, por alguns segundos, pensou que aquela estratégia que formara quando decifrou aquelas escrituras no Santuário Naka não pareciam necessárias. Imaginou que poderia viver nessa ilusão de felicidade, onde as pessoas coexistiram pacificamente. No entanto, a realidade retornou bem depressa, retirando-o desses devaneios, afinal, não poderia descartar as hipóteses de que ainda havia inimigos em outros lugares. E também não confiava em Tobirama o suficiente para deixar isso de lado, apesar de que o comportamento dele tem sido aceitável na medida do possível para ambos, o que de fato parecia bem estranho diante do ocorrido naquela clareira. O que Hashirama havia conversado com o irmão, era algo que aguçava a sua curiosidade, mas, não fazia seu estilo se intrometer em assuntos alheios, ainda mais sendo casos de família. O mais importante disso tudo foi que Hashirama havia convencido seu irmão a dar uma trégua e se focar no interesse em comum deles: o crescimento da vila.

Dias se passaram desde o início da construção da vila, e agora boa parte do vale estava tomada de casas, as ruas foram pavimentadas, e pequenos comércios foram se instalando. As coisas estavam indo conforme o sonho dos dois amigos, que idealizaram um local assim. Todos os moradores dali os respeitavam muito, mostrando-lhe a devida reverência e admiração quando eles passavam pelas ruas. Hashirama era o mais popular entre os aldeões, com sua simpatia e bom humor, havia conquistado a empatia das pessoas, enquanto Madara ainda era um pouco temido por alguns, embora igualmente respeitado.

Hashirama queria muito mudar essa situação, conhecia muito bem seu amigo e sabia que ele não era nada daquilo do que aparentava. Então, a proposta do daimyo do país do Fogo voltou em sua memória após esses dias que se seguiram. A vila havia crescido numa proporção significativa e isso não passaria despercebido pelos demais países, e, com essa ideia em mente, resolveu que indicaria Madara como o líder interino, ou melhor, o Hokage, um título que demonstraria perfeitamente a vontade do país do Fogo. O Senju havia pensado há algum tempo sobre isso, e achou o nome para esse título muito adequado, imaginando que combinaria perfeitamente com o Uchiha.

Hashirama considerava seu amigo melhor capacitado, conhecia o quão centrado ele era em relação à tomada de decisões, e, certamente, seria um líder bem justo, complacente, que iria liderar aquela vila de forma sábia. A ideia o empolgou tanto que mal podia se conter em contar a novidade ao amigo, então, resolveu marcar um encontro naquele local no penhasco, o qual sempre ia para conversar sobre diversos assuntos. Apesar de toda a ocupação que as coisas burocráticas poderiam trazer, achava que o amigo conseguiria dar conta de tudo com maestria. Tanto que fora Madara a se ausentar diversas vezes para tratar desses assuntos. E, nesse exato momento, ele estava fora justamente resolvendo essas coisas. Esperaria ele retornar à vila para conversar com ele sobre o assunto, não perderia a oportunidade de persuadi-lo a aceitar o título de Hokage.

Cinco dias se passaram, o que pareciam uma eternidade, deixando a ansiedade de Hashirama cada dia mais eminente para rever logo o amigo. As horas pareciam se arrastar e ele não se cansava de olhar pela janela, numa expectativa de que o outro apareceria a qualquer momento na rua logo abaixo. Estava com alguns papéis importantes de tratados de paz com outros clãs, os quais necessitava ler para analisar os termos e dar seu veredicto, afinal, o serviço chato havia ficado sob sua responsabilidade. Tobirama o ajudava como podia, contudo, Hashirama era quem precisava dar a palavra final como líder, e isso o deixava bastante impaciente e incomodado. A única coisa que queria era ver Madara o quanto antes, sua mente fora tomada pela vontade de rever o amigo que ficaria fora durante aquela semana. Hashirama achou que morreria de saudades de Madara se ele demorasse mais que isso para voltar. Nos poucos momentos em que podia procrastinar – sem a presença de Tobirama, obviamente – pegava-se admirando um retrato do seu amigo, um que ele havia pegado "emprestado" sem que o outro percebesse, o qual escondia bem no fundo de sua gaveta com tranca, fitando a beleza do outro entre suspiros, com o olhar perdido, enquanto passeava o indicador vez ou outra sobre o rosto, contornando-o com a ponta do dedo, parando nos lábios.

Como adoraria poder prová-los novamente, ser tragado para uma outro plano por aquela língua macia e sedutora. E, num gesto instintivo, fechou os olhos, aproximando a fotografia de seus lábios, beijando-a com devoção. Sua distração era tanta que nem percebeu a presença de alguém adentrando o recinto. Só se deu conta de que havia outra pessoa ali, assim que a mesma pigarreou propositalmente para lhe chamar a atenção. Hashirama se assustou de imediato, corando no mesmo segundo ao constatar de quem se tratava. Escondeu a fotografia rapidamente atrás de si, de um modo bem desajeitado por causa da surpresa. Num instante, conseguiu recompor a postura, levantando-se, aproximou-se do amigo rapidamente, dando-lhe um forte abraço saudoso, com muito carinho.

Madara sentiu as bochechas queimarem de vergonha, abstendo-se apenas a um abraço sem muita demonstração de afeto, dando leves tapinhas para que o amigo parasse de sufoca-lo com seu abraço de urso.

Após alguns minutos tentando convencer Hashirama a soltá-lo, finalmente conseguiu respirar aliviado, para então continuar com os relatórios que havia trazido consigo.

-Bom, devo começar pelo País da Terra, que resolveu apoiar a nossa causa, já não posso dize o mesmo do País do Vento e da Água, que ambos os líderes torceram o nariz para algumas propostas, porém, os daimyo disseram que pensariam com cautela. Ah, eles sentiram falta de sua presença nas reuniões. E eu não os culpo, afinal, ter os dois líderes mais influentes do País do Fogo traria uma grande credibilidade.

Hashirama ponderou muito bem aquelas informações, e, sinceramente, para ele, aqueles arrogantes só estavam procurando motivos onde não existiam para travar novas guerras desnecessárias. E sabia que Madara pensava da mesma forma e não se sentia confortável com essa situação, tampouco queria causar uma luta desnecessária. Faria o possível para que a situação mudasse ao favor da paz, para o bem estar das pessoas que viviam na vila, e que agora desfrutavam de tempos pacíficos, onde poderiam criar suas crianças sem medo da guerra. E, para isso, contaria com ajuda de seu melhor amigo, aquele que, como ele próprio, se encontrava disposto a cooperar para que esses objetivos fossem bem sucedidos. E Hashirama não confiava em alguém mais apto para fazer isso do que Madara.

Conversaram por horas sobre o assunto, cada um expondo seus pontos de vista, discordando em determinados momentos, concordando a maioria das vezes com as possibilidades de convencer os demais a aderirem à trégua que ajudaria a criar um mundo shinobi pacífico.

Após horas cansativas de discussões, apesar de o sol ainda estar alto e brilhante lá fora, Hashirama pensou que seria o momento ideal para expor sua ideia, entretanto, não falaria disso em uma sala abarrotada de papéis, precisava expor isso num local especial, o assunto merecia algo assim. Convidou Madara a seguirem até o penhasco. E, apesar de sua desconfiança em relação às intenções do amigo, o Uchiha atendeu seu pedido.

Seguiram juntos pelo caminho, não se demorando a chegar ao local destinado. Agora, à beira do penhasco, vislumbrando uma vista bem diferente daquela que viram há algum tempo atrás, o vasto vale, que antes era composto de uma extensa floresta, hoje estava povoado com diversas pessoas, casas, comércios. Madara olhou aquilo admirado com a rapidez com que as coisas se modificaram ali. Hashirama, igualmente bastante surpreso com a visão, mal acreditava que tudo aquilo fora construído em pouco tempo. Ficaram observando aquela vila que tanto sonharam quando crianças, e, após alguns instantes, o Senju resolveu falar.

-Você se lembra? Quando conversávamos aqui quando éramos crianças? – Hashirama falou com um tom nostálgico.

-Sim. – O outro respondeu, sentindo-se um tanto nostálgico também, apanhando uma folha que voava sem rumo ao ritmo que o vento ditava – Naquela época, tudo isso não passava de ilusão. Mesmo que eu tenha dito que não poderíamos fazer nada...

- Nossos sonhos se tornarão realidade, olha tudo o que conseguimos. – Hashirama falou com um sorriso de satisfação, fazendo o amigo, que até então estava um pouco disperso enquanto observava a pequena folha em sua mão, olhar para si – E agora, precisamos nomear um líder para esses shinobis, aquele que protegerá a vila, o Hokage. O que acha?

- E o que isso significa? – Madara o encarou surpreso com a novidade.

- O líder do País do Fogo nos pediu para decidirmos quem será o líder da vila, lembra? E eu não consigo pensar em ninguém melhor do que você para ser o Hokage. – o Uchiha continuou em silêncio, ainda digerindo aquelas informações. De fato, era verdade que o daimyo havia exigido que um líder fosse escolhido, só não imaginava que Hashirama tomaria essa iniciativa, e ainda dizer que ele seria um líder melhor. – Seus irmãos estão mortos, então, eu gostaria que você visse todos os shinobis dessa vila como irmãos de agora em diante. – Hashirama tocou o ombro do amigo, demonstrando seu total apoio – Quero que cuide deles.

- Não pude proteger nem mesmo meus próprios irmãos... – Madara falou com pesar, lembrando-se de Izuna, aquele a quem havia jurado cuidar e proteger.

-Não temos tempo para discussões. – o Senju disse de forma enérgica. – Lembra dos agregados que têm vindo para cá? Parece que os clãs Sarutobi e Shimura querem se juntar a nós.

-Isso é sério? – Madara fitou o amigo atônito com aquela informação, aqueles eram clãs famosos.

- Eles não são os únicos. Estou te dizendo, esta vila vai crescer ainda mais. – Sorriu largo para o amigo, gesticulando com as mãos o quanto a vila ainda haveria de aumentar – Por isso, precisamos escolher um nome. Você tem alguma ideia?

Pensativo, o Uchiha desviou o olhar, fitando a folha em sua mão com atenção, como se ela fosse lhe dizer algo. Observou o pequeno buraco que havia no meio, e, erguendo-a a altura do rosto, olhou pela fenda, mirando a paisagem à frente.

- A Vila Oculta da Folha, o que acha?

- Que simples, não tem nenhum diferencial. – Hashirama fingiu estar desapontado, somente para irritar o amigo.

- Digo o mesmo para "Hokage". E, nossa, você continua com esse seu problema depressivo? – Esbravejou com a audácia do outro em fazer pouco caso do nome que havia escolhido. – Você é ridículo. – Cruzou os braços, virando as costas para o amigo.

Hashirama riu alto, abraçando o amigo emburrado por trás, envolvendo-o pela cintura. Madara continuava o mesmo temperamental de sempre. Nesse momento, o Senju percebeu que finalmente haviam voltado à amizade de antes, que poderiam voltar a serem bons companheiros e compartilhar suas vidas, ideais, sorrisos. Sentindo-se feliz por estar ali junto com seu melhor amigo, suspirou, inspirando o cheiro do cabelo dele. Aquele cheiro gostoso que tanto amava. Continuaram assim até o Uchiha se pronunciar.

- O Hokage vai sempre permanecer na vila para cuidar dela? – Perguntou ainda fitando o horizonte.

- Sim, mas não apenas isso. Com o crescimento da vila, o Hokage ficará muito ocupado, por isso, quero entalhar seu rosto nesse grande rochedo, como um símbolo de que você sempre protegerá a vila. – Desfez o abraço, fitando o amigo. Juntou os dedos indicadores e polegares em posições contrárias, como se estivesse captando o rosto do outro numa fotografia. – O escultor vai ter de se esforçar bastante para melhorar essa sua cara psicótica, mas tudo vai dar certo. – Deu uma piscadela, rindo da careta que o outro fez.

- Você 'tá tirando uma com a minha cara? – Madara quase o socou, se Hashirama não desviasse a tempo.

-Relaxa, a única dificuldade que o escultor terá é de reproduzir esse seu rosto lindo com perfeição. – Hashirama pegou o rosto de Madara entre as mãos, apertando as bochechas, como se faz com uma criança.

Os rostos nesse instante ficaram muito próximos, então, os corações se aceleraram, ansiosos, afoitos, porém, não queriam se afastar. No entanto, Madara se lembrou que eles haviam marcado uma reunião com os senhores do País do Fogo, e que a mesma estava prestes a começar. Afastaram-se de súbito, com os rostos enrubescidos, desviaram os olhares.

-Precisamos ir logo, a reunião com os senhores do País do Fogo irá iniciar em breve. – Madara se pronunciou, numa tentativa de manter sua cara de paisagem, obrigando-se a começar a caminhar, sendo acompanhado por Hashirama. Deixaram o local, mesmo que a contragosto.

Naquele momento, pela primeira vez, Madara sentiu vontade de dizer como se sentia em relação à suas emoções, estava realmente radiante com a atual situação. Não por ter sido indicado pelo próprio amigo a ser o Hokage, mas sim por poder sentir que ele poderia confiar completamente em Hashirama. O amigo havia lhe mostrado de várias formas sua devoção, confiança, amizade, e queria poder retribuir tudo aquilo, a questão era que não sabia como o faria. Entretanto, daria o seu melhor para compensar tudo o que Hashirama estava fazendo por ele. Mais que um amigo, ele havia se tornado sua esperança, o guiando para um caminho do qual ele nunca pensou que poderia trilhar novamente. Hashirama devolvera sua alegria de viver, sua determinação em começar de novo, e até mesmo a recuperação do trauma que foi perder Izuna. E, com um pequeno sorriso delineando os lábios, se permitiu fazer algo que, em outro momento, jamais faria. Nunca demonstraria esse tipo de afetividade, ainda mais com uma pessoa que antes era considerado inimigo, então, andando lado a lado com o amigo, aproximou sua mão na da dele, segurando gentilmente os dedos alheios. Eram quentes, transmitiam uma sensação boa de calor para sua palma fria. Hashirama observou o pequeno gesto, mas, não menos importante, principalmente vindo de Madara, e sorriu de canto, entrelaçando seus dedos nos dele, apertando-o com carinho. E, assim, seguiram o caminho até saírem da parte da floresta, de mãos dadas. Hashirama então começou a pensar que alcançar o coração daquele Uchiha talvez não fosse a tarefa árdua que ele imaginava, e, embora não seja correspondido de forma recíproca, se contentaria se ele apenas o amasse, não importando qual fosse a maneira.