Com o desaparecimento da febre e alguns dias de descanso, eu sigo o caminho familiar mais seguramente do que eu tenho feito desde que voltei. Eu me familiarizo com o meu arco, tomando meu tempo com o objetivo, praticando meus tiros. Meu primeiro esquilo é estraçalhado no meio da barriga. Apenas no terceiro, eu consigo acertar no olho. É uma grande vitória. Eu me sinto como uma menina de novo e quero correr para mostrar a alguém. Mas eu estou sozinha na floresta então tenho que me contentar com isso.
Eu me perco na caça. Eu organizo a linha de armadilhas, tentando não pensar em Gale. Cansada, depois de tantas semanas de inatividade, decido descansar. Na parte da tarde eu cochilo contra uma árvore. Não foi a melhor caçada que eu já tive, então eu vou precisar de um ritmo melhor da próxima vez. Abato um coelho antes de voltar para a cidade. Eu precisava desse dia.
Sae está em êxtase quando eu largo o coelho em cima do balcão da sua casa. Ela promete um jantar especial. Estou de bom humor e eu educadamente pergunto se ela se importaria de fazer uma bandeja para o Haymitch. Ela concorda, contanto que ela não precise entregá-la. Pra isso eu nomeio Peeta.
Na casa em frente a minha, eu sinto o cheiro de torta. Torta queimada. Eu invado e apresento o seu pedido como se fosse um prêmio. "Bem no olho", eu digo.
E antes que eu possa descobrir o que está distraindo-o ao ponto de fazê-lo queimar as tortas, eu estou fora de sua casa.
Naquela noite, Peeta e Sae me trazem o jantar. Peeta fala sobre a torta queimada, e eu escuto. É o mesmo por vários dias. Me embrenho ainda mais dentro da floresta e falamos um pouco mais nas conversas do jantar. Como alguém poderia falar tanto sobre pão, eu não ainda não descobri.
Peeta vem me acordar todas as manhãs. Ele me dá um empurrãozinho para fora da porta quando eu estou muito preguiçosa. Se eu não sair de casa, ele insiste que eu faça alguma tarefa doméstica para me manter ocupada. Se eu não sair da cama eu tenho que trabalhar no livro de memórias. Ele diz que não vai mais permitir que eu fique horas olhando para o nada. Se eu quiser fazer isso eu tenho que ir para a floresta. Mas quando eu chego lá, há sempre tanta coisa para olhar...
Nos dias em que eu acordo pior, eu ainda me escondo atrás das fileiras de calças do meu armário. Não é o meu melhor esconderijo e Peeta sempre me encontra, pega uma cadeira e permanece em silêncio na porta, como o Dr. Aurélius costumava fazer, até eu sair. Às vezes ele traz consigo seu caderno de desenhos. Vê-lo me traz o foco e, em várias ocasiões sou atraída para fora do meu mundo particular só para ver o que ele está desenhando. Ele sempre está trabalhando em esboços para o livro ou cenas de todo o distrito, o passado e o presente: a forma como a praça da cidade parecia antes dos atentados do último verão, como as casas parecem inclinadas quando as olhamos agora e um monte de retratos de sua família e sua padaria.
Ele para, sentando na soleira da porta, centímetros mais perto de mim, com o passar dos dias. Um dia, ele toma meu braço e com o carvão que estava desenhando começa a escrever: Caçar. Jantar. Tempo livre.
Não funcionou no 13, mas quando é Peeta quem faz isso, me parece divertido. Isso vai me ajudar a manter o foco? Eu não sei, mas alguns dias são exatamente o que eu preciso para acabar com o meu mau humor.
Ele começa a escrever o menu de jantar no meu braço ou uma memória que quer discutir. Eu seguro a sua mão e aponto a minha para sua caneta uma manhã, pedindo para participar do jogo. Ele sorri até eu escrever 'vá embora'.
Isso se transforma em um jogo que fazemos algumas vezes por semana. Meu humor está melhorando, mas algumas vezes eu escrevo pedidos de pão em seu braço ou enquanto ele responde "lave os pratos."
Ele se senta perto de mim nestes dias. Eventualmente, seus braços me encontram. Ele me embrulha. Por mais que eu tente me soltar, ele sempre me puxa de volta. Eu paro de lutar contra ele e, provavelmente, fico lá por muito tempo, não sabendo o que fazer a seguir.
O gesto não é inteiramente bem-vindo porque eu não sei de fato o quanto eu quero abraçá-lo. Eu não sei o que pensar disso, o que me faz querer chorar. Então, ele me segura quando eu começo, embora eu realmente não saiba o porquê de eu estar chorando.
Eventualmente, senti-lo ao meu lado me acalma. Eu escuto a ascensão e queda de sua respiração e me concentro na minha respiração. Ela limpa a minha mente, especialmente nas manhãs ásperas quando raiva e tristeza me envolvem.
Em vez de um esconderijo, o armário se torna uma espécie de porto seguro. Eu ainda me escondo de todos, exceto de Peeta. O pequeno espaço me ajuda a clarear os meus pensamentos fazendo com que os meus problemas pareçam menores e invisíveis do resto do mundo.
Em uma dessas manhãs eu pego uma caneta e seguro o braço de Peeta. Enquanto eu estou decidindo o que escrever, eu traço o padrão de sua pele com a ponta dos dedos. Ele se inclina para mim. Nossos narizes estão a menos de uma polegada de distância. Minha respiração acelera quando ele olha fixamente nos meus olhos. Eu acho que sei o que vai acontecer a seguir, mas tão rapidamente quanto ele se inclinou ele vira a cabeça para o lado oposto.
"Desculpe", ele balbucia. "Eu não sei por que fiz isso." Ele sai antes que eu tenha tempo de registrar o que aconteceu.
Ele não vem para o jantar naquela noite e eu tento contar. Tornou-se um hábito para nós. Na minha cabeça, contar acalma minha ansiedade quando algo quebra a minha rotina. Resolvo levar uma bandeja de comida para sua casa, caso ele tenha perdido a hora trabalhando em algo. Entretanto, eu posso sentir que algo está errado no momento em que percebo que sua porta está aberta. Eu posso ouvir a água correndo da torneira, ver a espuma ondulante na pia da cozinha, mas Peeta não está lá.
Eu desligo a água e ouço. Há movimento não muito longe dali e acabo encontrando-o na sala de jantar. Ele está segurando uma cadeira com uma mão, sentado em uma mesa coberta de caixas. Ele ainda está se contraindo um pouco e as poucas gotas vermelhas no chão provavelmente tem algo a ver com a faca que ele está segurando. Há um kit médico em sua frente que eu abro pra ele. Com uma mão ele toma um comprimido amarelo, seguido de uma pílula em gel azul. Seus olhos estão muito nublados e escuros novamente. Tomo sua mão sangrando na minha. Retiro a faca de lá. A ferida não é profunda o suficiente para precisar de pontos, então eu apenas limpo o corte e coloco alguns pequenos, mas resistentes curativos nele. Acho que Prim os chamava de 'bandagens-borboleta'.
Nenhuma palavra foi trocada naquele momento. Peeta repousa a cabeça sobre a mesa. Ele está, obviamente, com dor e eu tento ajudá-lo a caminhar até o sofá, aonde ele vai se sentir mais confortavelmente. Tento fazer com que a luz bata no rosto dele. Seus músculos estão rígidos e suas pupilas são as mais pequenas que eu já vi desde a última missão na Capital. Eu sento no braço do sofá para ficar ao seu lado.
"O que eles fizeram com você..." Murmuro. E eu estou sobrecarregada de culpa, atormentada por visões de jaleco branco, cientistas loucos, botas pretas e sangue. Minhas mãos caem no movimento familiar de acariciar seu cabelo e eu lentamente me acalmo. Peeta dorme mais em paz agora e eu também estou quase cochilando. Eu levanto e rapidamente escorrego para fora de sua casa e para a noite. Eu não acendi todas as luzes da minha casa, mas não é difícil de fazer o meu caminho de volta. Eu não tinha planejado demorar na casa de Peeta e isso me confunde.
Quando o sol nasce eu ainda estou inquieta na cama e decido voltar para a casa de Peeta para vê-lo. Eu abro a porta e ele está lavando a louça.
Ele está sorrindo de orelha a orelha. "Bom dia Katniss. Eu tive um sonho maravilhoso na noite passada."
"Oh".
"Eu sonhei que estava lavando a louça quando eu tive um dos meus flashbacks. Cortei minha mão em uma faca na pia e você veio para me salvar. Você ainda ficou comigo até eu adormecer."
Estou sem expressão, em silêncio, não querendo deixá-lo me ler.
"Eu acho que foi um sonho de qualquer maneira. Eu não me lembro de ontem à noite." Ele esfrega o olho e seus curativos são visíveis.
"Eu trouxe uma coisa." Eu digo, traída por um toque de entusiasmo em minha voz. Eu tinha feito o pedido para ele logo após Peeta ter retornado ao 12, mas eu tinha esquecido sobre isso até esta manhã. Eu pego uma chaleira. Quando o leite ferve, o acrescento na mistura e lhe entrego uma caneca.
Ele olha dentro dela, que não contém o nosso chá de costume. Ele inclina a cabeça e me dá um olhar estranho.
"É chocolate quente... um de seus favoritos.", Eu respondo.
Ele toma um gole da bebida quente e cheira a caneca. Ele fecha os olhos e tenta se lembrar. "Ah, sim, disso eu gosto."
Começo a relaxar, e por um minúsculo segundo, admirando o seu sorriso, permito a mim mesma sorrir.
A primavera tem me deixado mais feliz. As folhas me receberam de volta com a minha cor favorita, as árvores estão florescendo e os tordos assobiam canções de seus ninhos. A floresta está tão viva hoje que a caminhada é mais longa do que a que eu costumo fazer. Eu vou ao lago pela primeira vez desde a equipe de televisão me trouxe aqui no ano passado. O clima está tão quente que eu mergulho no lago, me sentindo uma pessoa renovada logo depois.
Eu até me surpreendo cantando algumas notas no chuveiro quando eu chego em casa. Minha voz ecoa nas paredes do banheiro fazendo parecer mais cheio do que o centro de treinamento. Buttercup fica rondando as minhas pernas enquanto eu seco e começo a trançar meu cabelo. Nossa brincadeira é interrompida quando eu ouço o movimento no corredor.
Peeta chegou para jantar e está parado do lado de fora da porta. Meu primeiro pensamento é para dizer algo grosseiro apenas para implicar com ele, mas quando eu olho a tigela de pães de queijo em suas mãos, o meu estômago vazio e grato me faz desistir dessa ideia.
"Você acertou em cheio, Peeta. Estou morrendo de fome", eu como um.
Ele sorri para mim e desce as escadas para juntar seus pães ao jantar que Sae preparou pra nós.
Peeta assiste as notícias, depois do jantar, como ele faz todas as noites. Deixei que ele colocasse o braço em volta de mim, até porque estou muito cansada do meu dia de caça e natação para me opor. Eu devia agradecer-lhe por lembrar dos pães de queijo, mas eu deixei minha cabeça em seu ombro dizer isso a ele.
Minha cabeça é empurrada para cima porque eu, aparentemente, cochilei. A risada suave de Peeta me cumprimenta quando eu tento acordar. "Eu ia te perguntar se você gostaria dar um passeio", diz ele. "Mas..."
Estou com sono, mas noites de primavera podem ser tão bonitas. "Eu estou acordada", eu respondo, ainda piscando os olhos.
Ele balança a cabeça. "Que tal amanhã?"
Eu meio que sorrio concordando, e penso em voltar a dormir. Normalmente, esta seria a minha deixa para ir para a cama, mas eu permaneço onde estou me permitindo apreciar sua companhia, como ele às vezes faz. Estou acostumada com a sua presença agora.
Ele desliga a televisão e pega um catálogo de suprimentos que ele deixou na minha casa há alguns dias. Ele folheia páginas de alimentos enlatados, sementes de plantas e todos os itens de dia-a-dia de uma família.
"Precisa de alguma coisa?, pergunta ele.
"Minha mãe cuida disso para mim", eu digo com a consciência pesada. Ela provavelmente faria o mesmo por ele, mas ele realmente não parece se importar marcando as caixas para a farinha, o fermento, o açúcar, os ovos, chá, medicamentos e algumas novas camisas. Percebo que estou observando com muito interesse o que ele está fazendo. "Estou te incomodando?"
"Claro que não." Ele sela seus pedidos em um envelope o coloca em cima da mesa. "Se você passar pela cidade amanhã de manhã, você pode enviar pra mim?"
É claro que eu não me importaria de deixá-la na caixa de correio na estação de trem.
Quando ele retorna ao sofá, ele reclina para trás e coloca as mãos atrás da cabeça. Eu coloco minha cabeça de volta em seu colo. Eu faço isso sem pensar e, assim que eu penso, eu tenho que contar na minha cabeça para me acalmar. Enroscar-me com ele já se tornou um hábito, mas não é algo que eu tenha certeza de que eu deveria fazer agora. Estou prestes a me levantar, mas ele parece tão feliz enrolando meu cabelo. A próxima coisa que eu sei é que já são algo em torno de meia-noite e eu dormi por algumas horas. Eu normalmente não me importaria de dormir no sofá, mas minha cabeça não está sobre um travesseiro.
Levanto-me levemente, e quando eu começo a ir em direção às escadas, a mão de Peeta escova o local onde minha cabeça estava descansando e ele abre os olhos. "Bom dia", diz ele durante o alongamento.
"Por que você me deixou dormir por tanto tempo?" enquanto ele é gentil, eu não passo de uma chata mau humorada.
Ele encolhe os ombros. "Eu não queria perturbá-la." Eu realmente não sei o que dizer sobre isso. Ele começa a ir em direção à porta. "Além disso, é bom ver você sorrir."
