Eu não vou para o lago no dia seguinte. Em vez disso, subo em árvores e procuro ovos. Os pequenos ramos novos se emaranham no meu cabelo. Levo quase uma hora para escovar os nós que se aglomeraram. Estou prestes a cortar os emaranhados, mas não consigo encontrar a tesoura que costumavam estar na gaveta do banheiro. Eu telefono à minha mãe para obter algum tipo de produto que ajude a desembaraçá-los. Ela está em seu intervalo no hospital e está falante, querendo saber o que eu ando fazendo. Ela sempre pergunta sobre Peeta. Não há nada a relatar e eu não falo nada sobre o catálogo de suprimentos, porque ela provavelmente vai sugerir que eu peça as minhas próprias coisas. Mas eu gosto que ela mesma faça isso. Mesmo ela estando no lado oposto do país, é como se ela ainda tentasse tomar conta de mim.

Peeta está me esperando na mesa para jantar quando eu finalmente desligo.

"Minha mãe sempre pergunta sobre você", eu digo quando nos sentamos.

"Fico feliz", ele responde. "Ela sempre foi tão boa comigo enquanto eu estava no hospital."

Isso tudo me faz sentir falta da minha mãe, então eu mudo de assunto. Começo a falar sobre estar ansiosa para colher morangos no verão, o que me faz pensar em Madge. Eu cerro meus olhos e tento desativar esses pensamentos.

Peeta me traz o livro de memórias para que eu possa canalizar minhas lágrimas em algo produtivo. Ele deve reconhecer o olhar. Às vezes a gente trabalha em conjunto. Trabalhamos nele separadamente primeiro.

Hoje à noite eu sento no sofá com as costas apoiadas contra seu peito. Eu escrevo sobre Madge enquanto ele assiste a notícia. No momento em que o noticiário termina falando sobre a inauguração de uma nova serraria enorme que abriu no Distrito 7, para ajudar com a reconstrução, eu escrevo sobre a minha tristeza e sobre sentir o ar fresco da Primavera, como Peeta sugeriu ontem à noite.

Eu me inclino para perguntar se está na hora.

"Eu meio que gosto disso." Ele me aperta ainda mais contra ele, me embrulhando. "É uma sensação tão familiar, como se houvesse algo que eu quase me lembro."

Ele quer que eu diga a ele alguma coisa, mas eu estou cansada de ficar parada. Em um movimento fluido eu escorrego para fora de seu alcance. "Você vem?"

Peeta me segue para fora da porta e pega um caminho ao redor da parte de trás da Vila dos Vitoriosos. Um pouco mais das casas estão ocupadas agora, mas a maioria das pessoas que voltam tentam reconstruir as suas casas na cidade ou na Costura.

Estamos andando de volta à minha casa. Peeta está surpreendentemente silencioso, então eu me concentro no ar quente de cheiro doce. As prímulas na minha casa estão começando a florescer e a brisa carrega seu perfume por toda a Vila.

"Obrigada" eu o cutuco com o meu ombro magro.

"De nada", ele me cutuca de volta.

Nós paramos para dar uma olhada mais de perto nas flores. Meus pensamentos estão direcionados para ela. Em uma noite como esta, ela estaria rindo. Ela me pediria para dançar, ou talvez tentasse uma valsa com Buttercup se eu recusasse.

Eu ouço um estalo e viro a tempo de ver Peeta cortar uma haste verde. Eu não sabia que ele carregava um canivete. Eu tento dar uma olhada melhor para a faca quando ele me presenteia com a única flor amarela do jardim. Eu não esperava por isso. Meu primeiro pensamento é lhe dizer que eu não queria que a flor morresse, mas ele parece tão sincero e orgulhoso de si mesmo. Prim iria aceitar com alegria, então eu aceito sem expressar minha objeção.

"Katniss", ele começa. Eu olho nos seus olhos azuis e sei o que vem depois de me dar a prímula. Ele olha para suas botas, então eu sei que não é fácil para ele dizer. "Será que estamos... Podemos..."

Eu nunca fiquei tão feliz em ouvir um som alto e estridente da casa de Haymitch. Nós dois nos olhamos de uma forma diferente. Peeta balança a cabeça, revira os olhos e olha para mim. Estou prestes a sair para verificar o meu mentor bêbado quando ouço uma série de palavrões. Ele está consciente, então eu acho que ele está bem.

Eu giro a flor em meus dedos para uma distração. Percebo que Peeta não quer continuar com a sua pergunta, mas eu tenho uma suspeita de que eu sei o que ele ia perguntar.

"Você é um bom amigo," eu digo, cheirando a flor. Se ele não ia perguntar sobre a aparência do nosso relacionamento, as minhas palavras podem ser tomadas como agradecimento pela flor em minhas mãos.

Mas dizer as palavras me faz lembrar que eu deveria ser mais gentil com ele. Ele tem sido tão bom para mim enquanto eu estive menos do que sã, muito mais amável do que eu mereço. Eu coloco a minha mão em seu braço, e eu estou prestes a dizer-lhe que ele é a razão de eu estar viva, mas o dia da pílula amora-cadeado inunda a minha mente. Os telhados em volta de mim começam a girar em um círculo. Minha cabeça fica difusa e eu intensifico meu aperto no braço de Peeta para ficar em pé.

O meu delírio volta para a noite em que o esquadrão foi acampar e fiquei ouvindo Peeta murmurar: Amiga. Amante. Vitoriosa. Inimiga. Noiva. Alvo. Mutação. Vizinha. Caçadora. Tributo. Aliada.

Eu deixo parte de mim, na esperança de cair e sentir o chão duro debaixo de mim. Mas eu fico onde estou e sinto o braço de Peeta atrás de mim, recusando-se a me deixar ir.

"Então, nós somos amigos?" afirma. Seu rosto está perto demais para a minha sanidade. Mas ele não é aquele garoto com raiva, ele é o menino que eu tentei trazer vivo dos primeiros jogos, o meu garoto com o pão. Concentro-me em sua pergunta e começo a recuperar o equilíbrio.

Concordo com a cabeça lentamente. Os telhados param de rodar, mas estou incerta. Eu fecho meus olhos e tento me recompor.

"Venha aqui", eu sinto-o dizer em meu ouvido. Eu não tenho certeza se eu corri pra ele ou se ele me puxou para mais perto, mas seu abraço faz com que eu me sinta quente e segura, como se aquele fosse o meu lugar.

"Eu estou tonta", eu calmamente admito em seu peito.

"Eu não tinha ideia de que eu conseguia provocar esse efeito em você", ele brinca.

É realmente um terrível comentário dado o estado da minha cabeça, e mesmo não sabendo de onde ela veio, uma risada, mais uma vez, explode para fora da minha boca, e a minha cabeça clareia e eu volto para a realidade. Dou um empurrão brincalhão em Peeta e ele coloca o braço em volta dos meus ombros e me guia suavemente para a frente.

Os passeios passaram a se tornar um hábito durante um bom tempo. Peeta diz que é bom sair de sua padaria-cozinha e relaxar depois de tanto tempo dentro de casa. Ele me conta sobre o seu dia ou alguma memória do passado que ele está tentando juntar.

Nós não temos uma rota definida e nos revezamos escolhendo nossos caminhos através dos diferentes cantos do distrito. Eu mostro-lhe ao redor das partes da Costura que eu ainda posso suportar percorrer. E quando passamos muito perto de minha antiga casa, a minha mão se encaixa facilmente na sua. Eu vejo como as pessoas voltam aos poucos para o bairro e as casas no começam a ser reparadas. Minha bota tritura a sujeira e o pouco que resta de cascalho, e fico maravilhada com a liberdade de caminhar ao redor do bairro, sem a cerca eletrificada ou a constante ameaça dos pacificadores.

Às terças-feiras Peeta joga o jogo semanal de xadrez com Haymitch. Sua atividade me impede de dormir, mas eu fico sendo a juíza para apitar as faltas no caso de jogadas irregulares e peças derrubadas.

A beleza deste arranjo é que desde que Peeta começou a ganhar de Haymitch, há algumas semanas, Haymitch tem ficado consistentemente menos bêbado às terças-feiras do que em qualquer outro dia da semana. No jogo de hoje, é ele quem dá o xeque-mate em Peeta. Quando estamos nos preparando pra sair, Haymitch decide falar.

"Quase me esqueci," Haymitch inclina a cabeça. "Vocês dois são o assunto da cidade. Ouvi dizer que estavam caminhando pelo centro, de mãos dadas e se beijando."

Eu quase caio do sofá.

"Isso não é realmente o que eu me lembro," Peeta bufa.

"Basta ter cuidado", adverte Haymitch. "A menos que vocês realmente queiram filmar um especial para Plutarch".

Isso significa que não há mais passeios para mim e eu vou embora antes de Peeta tenha a chance de dizer mais alguma coisa.

Ele ainda tenta no dia seguinte. "Vem comigo?" ele aponta para fora da porta.

Eu não cedo. Ele balança a cabeça. "Meus pedidos estão chegando no próximo trem e eu gostaria que você me desse uma mão."

"Eu tenho algumas coisas para fazer em casa." Peeta abafa uma risada, com a mão na boca. Ele lava os pratos. Eu só lavo roupa quando não há absolutamente mais nada para vestir. Eu limpo atrás dos móveis, assim a casa fica limpa o suficiente para me satisfazer. "O quintal também está sujo..." Tento.

"Eu já percebi a dica ", diz ele com desdém.

Eu faço um show para regar os arbustos das prímulas. Eu molho e Buttercup ajuda fazendo um oito entre as minhas pernas e tentando me fazer tropeçar. "Você é um gato podre", eu grito. Ele até ronrona com o elogio.

Peeta volta da estação carregando um daqueles sacos de farinha gigantes que provavelmente pesam mais do que eu. Eu finjo estar distraída com meu regador. Ele coloca o saco no chão e caminha para Haymitch sem nem mesmo olhar para mim quando passa. Eu estou querendo descobrir o que eles estão fazendo, então eu dou uma espiada pela janela de Haymitch. Ele oferece a Peeta uma bebida.

"Peeta, você viu Buttercup?" Eu grito pela janela, inventando a primeira desculpa que me vem à cabeça. "Eu pensei tê-lo visto passar por aqui... Você pode vir aqui fora me ajudar a procurá-lo?"

Peeta se levanta e volta para minha casa comigo. Ele ri quando vê Buttercup sentado nos degraus da frente. "Katniss, você é uma péssima mentirosa. Mas é bonitinho saber que você não quer que eu beba com Haymitch."

Eu me ofendi com 'bonitinho' e cruzo os braços sobre o peito. "Eu não vou cuidar de você quando você estiver bêbado."

"Eu comprei aquela garrafa para Haymitch na estação."

"Eu não preciso de dois bêbados", eu reviro os olhos para ele.

"Vamos lá," ele toma meu braço e me leva para dentro. Nós nos sentamos à mesa. "Por que você não quer passear comigo esta noite? Você parece se divertir andando pelo bairro."

"Você ouviu o que Haymitch disse. Eu não quero nenhuma câmera ao nosso redor. Lembra-se do quão irritante elas eram antes?" Só me ocorre que ele poderia não se lembrar após eu ter soltado a pergunta.

"Então, você não quer ser incomodada por ter que fingir que me ama?" Sua voz é fria.

Eu ignoro a última parte da sua pergunta. "Eu não quero câmeras nos perseguindo de novo. Fingindo ou não fingindo."

"Eu pensei que você gostasse de atenção."

"Isso também era forçado. Filme isso. Filme aquilo. Era tudo parte do show".

Estou começando a ficar chateada, então eu me ocupo fazendo um chá. "Eu só quero ser deixada em paz. Eles não têm o direito de exigir mais nada de mim."

O bule começa a assobiar e eu sirvo o chá. "E você?"

"Coisas muito piores aconteceram comigo pra eu chegar a pensar nisso"

Essa é a hora em que eu começo a me sentir culpada por tudo de novo.

"Ei, mas isso não foi de todo ruim", ele pega na minha mão. "Esses vídeos me deram algumas das minhas memórias de volta." Mas nem todas, eu acho. "Mas se você não quer mais eles por perto, eu posso respeitar isso." Ele muda seu tom de sério para brincalhão. "Então eu não teria que me preocupar se você mat-". Eu coloco minha mão sobre a boca, caso ele termine de dizer o que eu acho que ele pode. "algum repórter", ele diz quando eu retiro a minha mão.

"Não faça com que eu me arrependa é de não ter colocado algo no seu chá", eu digo.

Eu ainda estou hesitante sobre sair com Peeta então ele vai sozinho mesmo, muitas vezes distribuindo as sobras de pão. Ele volta para a minha casa e retomamos nossa tradição de demorar muito tempo na casa um do outro, dormir e ele aparecer no meio da noite. Uma noite, ele demora um pouco mais do que o habitual para aparecer, e Greasy Sae surge na minha casa me pedindo para buscá-lo. Ela diz que ele está na estação de trem e ela não conseguiu convencê-lo a voltar. Ela não podia trazê-lo pra casa à força, então resolveu me avisar.

Ele está sentado em um banco com um caderno de desenhos na mão, embora não haja mais luz suficiente para desenhar. Tento sentar ao lado dele. Ele desenhou uma estação de trem vazia. O lápis ainda está em suas mãos, mas seu olhar está distante.

"Vamos para casa", eu sussurro suavemente. Ele pisca com a palavra "casa", mas por outro lado não responde. Eu ando pela plataforma e finalmente me deito no banco em frente a ele e decido olhar para as estrelas enquanto eu espero que ele volte pra mim, de onde quer que ele esteja.

Os trilhos estão silenciosos e eu ouço o zumbido distante das cigarras. Eu quebro o silêncio. "Peeta, você quer que eu pegue os seus comprimidos?" Estou começando a me preocupar. Não parece que ele está tendo um flashback, mas eu não tenho certeza. "Eu não quero que você fique aqui no sereno a noite toda."

Ele pisca, balança a cabeça e olha para mim. "Eu estava pensando sobre umas coisas."

Eu luto contra a vontade de rir. "Bem-vindo de volta."

Ele se levanta e caminha até mim. Eu estou tomando todo o banco, então ele pega as minhas pernas e coloca-as em seu colo para que ele possa se sentar.

Deveríamos ir para casa, mas eu estou me divertindo com o ar da noite, ainda mais agora que sei que Peeta está bem. Ele não faz nenhum movimento para ir embora, então eu decido ficar o máximo de tempo na estação deserta.

"Está vendo essas três estrelas?", eu digo apontando para cima. "Esse é o cinturão de Orion. Ele era um caçador." A história veio de muito antes dos Dias Negros. Meu pai me contou sobre ele quando eu era mais nova. Eu aponto as diferentes estrelas que compõem a constelação e ele estica o pescoço.

Em pouco tempo eu vejo Peeta sorrindo. Estamos rindo juntos ao mesmo tempo em que o último comboio do dia acelera através da estação. Eu deixo a rajada de vento passar através de mim e ouço como o trem desliza para o Distrito 13 na pista recém-conectada.

A mão de Peeta está na minha perna. "Katniss, me fale sobre as noites no trem." Sua voz é suave e seu humor reflexivo.

"Hmm..." Eu suspiro, ainda olhando para as estrelas. As noites no sofá, as pernas entrelaçadas, é claro que ele se pergunta.

"Eu não posso perguntar isso ao Haymitch."

"Pesadelos", eu começo. "Eu sei que você tem pesadelos todas as noites."

Eu sustento o seu olhar, que busca o meu.

"Eles começaram depois do primeiro Jogos Vorazes".

Eu tenho a sua atenção e eu conto a história lentamente, deliberadamente. Nossas noites juntos começaram nos trens, na viagem da Turnê da Vitória. O estresse da ameaça do presidente fez com que os nossos pesadelos piorassem. Eu acordava gritando todas as noites. "Você passou noites sem dormir, vagando pelos corredores. Você bateu na minha porta para me checar. Você deitou e ficou comigo até eu eu adormecer. E um dia você acabou ficando a noite inteira."

"Foi um escândalo" Eu provoco, levantando-me para voltar para casa. Ele me segue. "Eu me lembro da palestra que Effie me deu agora. Mas talvez ela estivesse apenas com raiva do meu remédio pra dormir funcionar melhor do que o dela." Peeta solta uma gargalhada.

"Será que isso me ajuda? Ficar com você?"

"Nós dois dormíamos melhor."

"Eu não me lembro de nenhuma noite sem pesadelos", ele resmunga. "Mas, você estava sorrindo na outra noite. Eu não posso ignorar isso."

"Você costumava sorrir enquanto dormia também", digo a ele. "Nos trens."

"Oh". Ele pensa por um minuto. "Dormimos juntos só na turnê? Ou foram todas as noites depois?"

"Você acha que minha mãe teria permitido depois da turnê?" Eu tento aliviar o clima.

Claro, houve as noites na Torre de Treinamento, também. Eu não as revelo porque são memórias de noites agitadas, onde os pesadelos de Peeta costumavam ser frequentes. Tanta coisa mudou.

"Mais alguma coisa?" Peeta pergunta. "Porque a Capital me fez pensar que havia mais."

Chegamos à Vila agora e paramos na minha porta. Cada resposta que eu penso não seria boa o suficiente para ele. Se eu disser a ele que era apenas pra evitar pesadelos, soaria frio. Se eu disser a ele que não era romântico, ele vai perguntar sobre o amor. Se eu disser a ele que era a sobrevivência, não pareceria inteiramente honesto. Se eu contar o quanto eu venho sentindo falta dele me mantendo segura todas as noites, bem, ele pode não ser mais a mesma pessoa.

Depois de uma eternidade de silêncio, eu me inclino para ele e enterro minha cabeça em seu peito, sentindo seu cheiro. Ele me envolve com seus braços e de repente eu tenho a resposta certa. Eu o levo pela mão. "Eu tive uma ideia."