Eu não quero me levantar. É o mesmo pensamento que eu tenho todas as manhãs, antes de rolar, jogar os cobertores sobre minha cabeça e começar a temer o novo dia. Hoje, porém, não é medo que me ancora na cama, mas um calor inebriante.
"Aí está... aquele sorriso," Peeta sussurra enquanto retira um fio de cabelo, levemente, da minha testa. Tento manter a minha respiração estável para que ele pense que eu ainda estou dormindo.
Peeta sempre está na minha casa pela manhã, muitas vezes, pedindo-me para que eu me levante e saia pela porta, mas eu esqueci como ele é ao acordar: quente e serenamente tranquilo, o oposto das minhas birras da manhã que eu estou tentando superar. Eu espio com apenas um olho e vejo a luz solar fluindo pelas brechas das cortinas, em nossos travesseiros. Um raio de luz atinge a mão do braço estendido de Peeta. Permaneço deitada.
Ouço-o mudar o seu peso e o braço que estava envolto em toda a minha barriga desliza. Acho que ele está se levantando, mas sinto sua cabeça se aproximar de mim. "Obrigado", ele sussurra com uma voz tão baixa que mal posso discerni-la. Eu não cedo quando ele beija o topo da minha cabeça. Se ele pensou que eu estava dormindo quando demonstrou tudo isso, é assim que vai permanecer.
Eu conto até 60 e, em seguida, rolo de frente para ele, sonolenta. Eu pisco meus olhos abertos e tenho um vislumbre de seus cabelos loiros desarrumados e seu olhar com expectativa na minha direção. Eu olho para a parede cor de casca de ovo além dele. Ele põe a mão na minha bochecha. Minha mão cobre a sua. Sua mão é macia e começo a traçar levemente o padrão das cicatrizes e queimaduras que há nela. Meu coração bate alto agora, batendo na minha garganta e ouvidos, quebrando o silêncio da manhã. Eu rapidamente retiro a minha mão e me sento encostada à cabeceira da cama, com meus joelhos no meu peito.
Peeta fica meio adormecido na cama e deposita a sua mão exatamente onde eu estava.
Eu engulo e deixo o momento passar. "Como passou a noite?" Estendo a minha perna e cutuco seu peito com o meu pé.
O peito de Peeta sobe e desce em um suspiro profundo. Ele abraça um travesseiro na minha ausência e fecha os olhos novamente. "Bem", ele finalmente diz.
"Será que isso ajudou?" Meu pé o cutuca novamente. Ele o agarra pelo calcanhar. Meu pé é um dos poucos lugares no meu corpo que parece mais humano do que qualquer outro. É pequeno e minha equipe de preparação com certeza reclamaria sobre as unhas. Ele usa o lado de um dedo para traçar suas curvas com o mesmo movimento lento e deliberado que ele usou para traçar os desenhos no livro de plantas da minha família.
"Vermelho", diz Peeta. "Lembro-me de suas unhas na cor vermelha."
Minhas unhas tiveram todos os tipos de cores nos últimos dois anos: rosa bebê, vermelho, preto, algum projeto desenhado de fogo e eu acho que eles ainda me convenceram a usar azul elétrico uma vez. Concordo com a cabeça.
"E você tem esse mau hábito de ir para a cama com meias e perdê-las nos cobertores."
Eu pareço sempre acordar com os pés descalços. "Então, você se lembra?"
"Flashes aqui e ali."
"Isso é bom, certo?"
"Você não tem idéia." Seu olhar diz que ele quer que eu volte para ele. Estou tentada.
"Eu tenho que ir", eu digo. "Antes que eu fique com muito calor", murmuro. Deixo Peeta olhando para o teto. "Vejo você mais tarde."
"Katniss," ele chama. "Podemos ..." e eu já estou no banheiro trocando de roupa antes de acabar sendo convencida a fazer uma coisa que eu mesma já queria fazer.
Eu ando para a floresta e tento fazer uma lista das coisas que eu preciso fazer hoje: verificar as armadilhas, reunir verduras, obter um coelho para Greasy Sae, verificar se os cães selvagens estão de volta.
"Ei, você aí, Katniss." Agora, eu vou ter de reiniciar minha lista porque eu já me esqueci. É Thom. Eu passei pelo entulho que ele está limpando, onde o barbeiro costumava ser.
"Oi", eu resmungo tentando me lembrar de encontrar um pouco de endro para Peeta.
"Quase não te reconheci com esse salto na sua recuperação. Você deve estar se sentindo bem melhor."
O comentário alegre de Thom me pega de surpresa. Eu não dei um 'salto'. Minha caminhada silenciosa é uma causa para orgulho. "Alguns dias sim", eu digo para não ser rude.
"Bem, é bom ver que você se levantou do lado direito da cama hoje."
É uma expressão antiga. Minha mãe costumava fazer piadas sobre eu me levantar perpetuamente do lado errado da cama. Hoje, apesar de eu chutar o chão com a ponta da minha bota, eu acordei mais do que feliz e tento não pensar no motivo. Coloco meu queixo para baixo para esconder o rubor que eu sei que virá. "Eu acho que sim", eu digo vagamente.
A diferença é que hoje eu estou descansada. Não houve lágrimas, ataques ou esconderijos nesta manhã, houve Peeta. E se tiveram pesadelos, eu não me lembro.
Ele pisca para mim e meus pés deliberadamente saem andando. Algumas passadas e eu noto que há algo diferente. Hoje os meus pés não estão se arrastando, como nas tantas manhãs que eu cacei apenas para passar o tempo.
Minha mente vagueia de volta para o menino tentando recuperar suas memórias complicadas, e como no ano passado, eu não teria imaginado que seria possível para mim deixá-lo entrar no meu coração novamente.
"Katniss, está tudo bem, Katniss acorda."
Abro os olhos. Peeta está sentado comigo na minha cama. Ele está segurando um dos meus braços. Está escuro. Minha garganta dói. Eu estou lutando para respirar. Aperto minha garganta e olho para ele.
"Não chegue perto de mim", eu o empurro para a borda da cama, porque me lembrei do que aconteceu, a mesma coisa que ocorreu quando o encontrei pela primeira vez depois do Massacre. Ele me atacou. Sinto-me tão traída, porque eu pensei tivéssemos passado dessa fase. Eu pensei que ele estivesse melhor.
"Saia da minha casa", eu exijo com raiva. Eu estou levantando agora, na eminência de hiperventilar.
"Respire, Katniss, respire", diz ele com uma voz que é muito calmante para a minha presente raiva. "Você teve um pesadelo. Você está bem agora. Você está segura. Você está em sua cama. SSSSHH".
Eu estou tremendo e agora eu não sei o que aconteceu. Eu caio na porta. Parecia tão real. Poderia ter sido um sonho? Eu deveria fugir, sair de casa e ir pra longe de Peeta, mas estou plantada no lugar.
"O que aconteceu no seu pesadelo? Alguma coisa te machucou?" Sua voz calma, me assustou. Ele não está em seu estado de raiva, então como ele poderia ter feito isso? Mas talvez ele possa ter ficado fora de si.
"Como eu posso dizer o que é real?" Eu quase choro. Ele é o especialista nesta área.
"Conte-me o que aconteceu."
"Você me estrangulou."
Seu rosto cai. "Isso foi há muito tempo atrás. Não hoje."
Eu balanço minha cabeça.
"O seu pescoço está doendo?"
Faço uma pausa com a sua pergunta. "Minha garganta ."
"De gritar. Se eu tivesse te machucado, você teria início de uma contusão em breve."
Isso faz sentido e eu quero acreditar nele. Ele se levanta. "Eu estou indo para casa agora", ele joga suas botas sobre os seus ombros por seus laços, nem mesmo se dando o tempo de colocá-los. "Me desculpe, se eu te chateei."
Depois disso, não há nenhuma possibilidade de eu vou voltar a dormir. Estou apavorada. Se fosse real, eu perdi o meu companheiro. Se fosse um sonho, eu o magoei.
O relógio diz que são três horas da manhã. Perfeito.
"Haymitch?" Eu chamo. Eu ainda estou de pijamas e não quero ficar sozinha.
"Tá gritando pra quem mais ouvir?" ele fala de seu sofá. Uso o fraco brilho da televisão para encontrar o meu caminho através da escuridão em direção a ele, lentamente navegando nas pilhas de garrafas e sujeira. Eu passo em algo viscoso. Eu não olho para ver o que é porque eu não quero saber. Isto é o que eu recebo por não usar sapatos.
"Peeta..." e isso é tudo que eu digo antes de quebrar em soluços. Eu choro até minhas pálpebras incharem, não conseguindo dizer nenhuma palavra sobre o que aconteceu. Acho que estou ficando histérica.
Haymitch não diz nada e mantém seus olhos em uma transmissão que eu não me lembro de ter visto antes. Não é nenhum noticiário e não são os Jogos, mas há muito sangue e pessoas com a pele cinzenta, que surpreendentemente têm algum tipo de modificação estranha no crânio. Eu nunca vou entender a moda da Capital.
Quando meus olhos estão muito inchados para outra lágrima conseguir escapar, o meu mentor me percebe, "Eu vou falar com ele", ele resmunga. "Agora vá para casa. Estou vendo um filme."
Ele ri quando um cara cinzento agarra uma menina bonita e loira, e faz uma confusão sangrenta de sua cabeça. Ugh.
Essa última cena, juntamente com o meu pé pegajoso me deixa um pouco enjoada. Ainda estou enrolada em uma cadeira onde tem um monte de papéis amassados de fora. Eu não quero mais ficar aqui. Eu estou tentando fazer minhas pernas se moverem quando eu ouço o barulho da porta. Eu congelo.
"Haymitch?"
Ele faz um gesto para que eu fique quieta.
"Eu estava esperando por você. Você acabou de perder ela saindo daqui." Ele mente com tanta facilidade. Eu me encolho o menor possível e espero que o escuro me esconda. Vai demorar alguns minutos para seus olhos se ajustarem. Sentei justamente na cadeira mais distante da porta e se ele não olhar para este lado, eu posso passar despercebida.
"Ela acha que eu a estrangulei." Sua voz é dolorosa. Ele está olhando para Haymitch, e não para a minha cadeira.
"E você estrangulou." A voz de Haymitch é firme.
"Não, ela acha que fiz isso hoje à noite."
"E você fez?"
"Claro que não!" Ele é inflexível, mas eu sei que ele é um mentiroso inteligente.
"Você não teve um de seus episódios loucos de sonambulismo e foi até a casa dela? Sem chance?"
"Não. Eu estava acordado - sem flashbacks. Tomo pílulas horríveis pra que isso não aconteça de novo. Os efeitos colaterais... Você nem vai querer saber" Ele se recupera de seu desvio. "Eu acordei porque ela pegou todo o cobertor. Puxei um pouco pra mim e ajeitei sua coberta. E então, ela tocou o pescoço e começou a gritar. Levei uma eternidade para acordá-la."
"Então vocês estavam compartilhando o cobertor no meio da noite?"
Pesadelos são ruins, mas esta questão me deixa gelada como o vento lá fora. Peeta não responde.
"Estou surpreso que tenha demorado todo esse tempo", Haymitch balança a cabeça. "Vão se beijar e fazer as pazes."
Peeta bufa.
"Ah, e leve-a para casa, sim? Ela está naquela cadeira e eu estou tentando assistir TV."
Onde estão os óculos noturnos quando eu preciso deles? Eu teria gostado de ver a reação de Peeta.
Ele caminha, chutando seja lá o que tenha no chão para fora do caminho. "Katniss?" Ele olha para mim.
"Hey".
Ele balança a cabeça para mim, mas parece estar sorrindo. "Oi", ele diz com uma voz tímida, cautelosa.
Este é hora em que eu deveria pedir desculpas. Mas eu ainda estou abalada e não estou pronta pra isso. "Você não fez mesmo?"
Eu quero tanto ser melhor por ele. Estávamos felizes horas atrás, sentados debaixo de um cobertor branco que é quase demasiado grosso para o clima quente. Peeta estava tão entusiasmado em lembrar os menores detalhes: as migalhas de bolinho na cama quando ele insistiu que eu comia e sujava tudo, o caminho das luzes de segurança do trem nos protegendo da escuridão total, até o momento em que a garçonete do trem trouxe o lanche da meia-noite da Effie para o meu quarto por engano, e então prontamente deixou cair uma bandeja inteira de sopa e bolachas no tapete, com a visão de nos ver juntos na cama. Isso me fez rir. Ele ficou aliviado ao saber que não, não tivemos gritos noturnos quando estivemos no trem. Não quando dormimos juntos pelo menos. Isso era tudo criação da Capital.
Brincamos de "Real ou não real" até eu mal conseguir manter os olhos abertos. Peeta está ficando muito bom no jogo. Ele tornou-se cético sobre as memórias que não eram reais. No entanto, algumas de suas lembranças eram tão ridículas que me fizeram rir. De repente, Peeta tinha muito mais memórias ridiculamente engraçadas do que ele tinha o que perguntar. Eventualmente, eu só joguei o cobertor sobre a cabeça e lhe disse para ir dormir.
Ele põe a testa na minha e eu tento voltar das lembranças de algumas horas atrás para a casa de Haymitch. "Não." Sua voz é calma e profunda, dirigida somente para mim e não ao nosso mediador. Ele coloca um fio de cabelo que está pendurado por cima do meu olho atrás da minha orelha e deixa sua mão correr.
Eu relaxo com sua suavidade. "Eu quero acreditar em você."
Eu o deixo vir comigo para olhar no espelho da minha casa, depois que ele mesmo promete que vai voltar pra sua casa para o resto da noite.
No espelho, há uma menina com os olhos inchados vermelhos, bochechas manchadas e cabelos saindo de quase todas as seções de sua trança. Não há hematomas no meu pescoço.
Eu passo os dedos pelo meu cabelo, puxando para fora o que antes era para ser uma trança. Meu cabelo cai, passando dos meus ombros. "Será que eles não se mostraram ainda? Ou será que levam algumas horas?"
"Vamos ver", Peeta puxa para cima sua calça, no lado da perna boa. "Parece que eu tinha esquecido que alguém", ele me dá uma olhada, "chuta quando está dormindo". Há uma marca vermelha. "Você é uma menina perigosa, Katniss Everdeen."
Eu me inclino para baixo e olho sua perna; riscos vermelhos de raiva cruzam-no, descrevendo linhas rosa e brancas. Minha contusão é, em uma grande parte, tirando os enxertos, pele com um aspecto normal. Meus dedos vão para ele e estou surpresa como eu sempre estou machucando esse garoto. Por um segundo, tudo que eu quero é lavar todas as dores dele, como eu fiz com a sua camuflagem dos primeiros jogos.
Eu olho para cima e o bem humorado sorriso de Peeta me faz lembrar do meu pai quando limpava meus ferimentos na minha infância, para logo depois beijar meu machucado. "Sinto muito", eu digo mais a perna do que a ele. É a primeira vez que os meus lábios encontram qualquer parte dele desde o ano passado.
Minha cabeça fica nebulosa quando eu lentamente me afasto e me viro de costas pra ele. Fixo o nada, de frente para o espelho. Peeta ainda está quebrado, cheio de cicatrizes e machucados. E eu estou mais confusa do que nunca.
Peeta chega perto de mim e me abraça, pelas costas mesmo. Ele move meu cabelo para um ombro. Eu congelo. "Eu também sinto muito", ele sussurra em meu ouvido. Eu nem lembro o motivo de ele estar pedindo desculpas, porque eu estou sentindo uma sensação que eu tinha quase esquecido, algo incrivelmente quente. Eu não sabia que eu estava segurando a minha respiração, mas com seu toque eu a solto de uma vez.
Eu fecho meus olhos e digo a mim mesma que isso não está acontecendo. É apenas um sonho. Eu vou abrir os olhos e estar na minha cama. Mas o beijo arde no meu pescoço. Abro os olhos e a cabeça de Peeta repousa no meu ombro.
Pelo espelho, nos olhamos como 'os amantes desafortunados' novamente. Nós não somos mais apaixonados, não têm sido assim a um bom tempo, se já foi assim algum dia. Eu inclino minha cabeça para o lado e olho em seus olhos. "Não", eu sufoco. Não era assim que eu queria que acontecesse, com essas lembranças. É demais. Eu não posso continuar.
"Katniss", ele se defende com seus grandes olhos, quebrando o meu coração.
"Não", eu digo mais alto, e ele se afasta.
"Eu sinto muito." Seu tom é sincero, mas não consigo olhar para ele sem ver o beijo que ia acontecer, camuflado por todos os outros beijos forçados pela Capital.
"Não a tudo isso", eu grito.
Se eu tivesse mais lágrimas, eu começaria a chorar. Porém não há nenhuma, todas já foram derramadas por ele essa noite, então eu entro em erupção. Frascos de xampu, vasos decorativos, a tigela de água do gato, tudo que eu encontro eu jogo no chão. No começo eu apenas atiro uma garrafa para o chão com tanta força que quebra. Peeta comete o erro de agarrar o meu braço, dizendo palavras sem sentido destinadas a acalmar. Eu o empurro e as palavras que eu não quero dizer vomitam da minha boca.
Pela segunda vez esta noite Peeta deixa os sons de meus gritos e eu fico sozinha, atordoada entre os cacos de vidro e as poças pegajosas de xampu.
