"Katniss, eu pensei que nós tivéssemos passado da fase de quebrar coisas," diz o Dr. Aurélius durante a minha sessão semanal telefone.
"Huh?"
"Você estava indo tão bem." Eu ouço o som de papéis. "Já se passaram três semanas. Pensei que tínhamos feito progressos. Por que agora?"
"Eu não estou quebrando nada," eu minto. Ele não precisa saber sobre o desastre de algumas noites atrás. Se ele achar que eu estou melhor, eu vou ter menos comprimidos para tomar.
Eu realmente não estou certa de quantos comprimidos eu estou tomando esses dias. Peeta colocava os comprimidos em um copo para mim e eu tomava o que estava selecionado para esse dia. Como não estamos nos falando, ele não tem feito isso. Eu poderia estar tomando medicação para sarampo que eu não desconfiaria. Existem vários comprimidos em tamanhos variados. Os amarelos quadrados me deixam grogue, porém eles não são pílulas para dormir, isso é o que as roxas redondas supostamente fazem. Tem as verdes longas, para quando estou em um dos meus estados de espírito mais vis, pois eles fazem minhas mãos tremerem. Os rosas, coloridos apropriadamente, são para afastar infecções na minha pele nova. E eu não me lembro do resto. Tudo que sei é que as brancas e azuis são para dores de cabeça e que podem impedir as que estão por vir.
"O que foi que deu errado?" ele persiste. Nós tínhamos falado sobre como manhãs foram ficando mais fáceis para mim. Eu nunca mencionei nada sobre a minha falta de lucidez e bom senso na outra noite. Eu nem sequer insinuei sobre a bagunça do banheiro e a reflexão que se seguiu sobre a borda.
"Nem todo dia é um bom dia", eu admito vagamente. "Eu tenho alguns dias ruins."
Uma pausa na linha me permite saber que ele aceitou a minha resposta. "E o que dizer dos pesadelos? Tem sido melhores ou piores ultimamente?"
Ele sempre me pergunta sobre pesadelos, mas tenho a sensação de que ele sabe sobre a outra noite. E já que eu não lhe disse, eu suspeito que meu vizinho tenha lhe contado em uma de suas consultas.
"Eu não sei. Eu tento não pensar sobre eles," eu minto novamente. Eu tive uma boa noite de sono, mas todas as noites desde então tem sido insuportáveis. O sonho de estrangulamento foi só o começo. Algo disparou na minha cabeça e na noite seguinte tudo o que eu sonhei foi com um Peeta tele-sequestrado: pisando em minha cabeça, me jogando em um palco nas ruas da Capital, retalhando o meu rosto com seu canivete por todos os beijos vazios e mentiras.
Eu não acho que os pesadelos poderiam ficar piores, mas eles são uma realidade adquirida. Eles virão, não importa o quanto ele me drogue. E as drogas tem esse efeito de me fazer sentir como se eu fosse uma sonâmbula subaquática com um resfriado pela metade do dia. Este sentimento não ajuda em nada a minha caça.
"Katniss", ele castiga quando estou em silêncio por muito tempo.
"Tudo bem," eu bato meu pé e desisto de enrolar. "Eu tenho pesadelos. Toda noite. Uma noite eu sonhei que estava fazendo um teste na aula de produção de carvão, e para cada resposta errada que eu dava, a Capital iria explodir uma série na minha escola a começar pelo jardim de infância. Dos de cinco anos de idade morreram todos, porque eu não conseguia lembrar a diferença entre linhita e carvão betuminoso. Sonhei que os bestantes de répteis do esgoto estavam me perseguindo pelo bosque e eu fui pega em uma das minhas próprias armadilhas. Eu estava pendurada por uma perna, em uma árvore, enquanto eles se revezavam mordendo pedaços dos meus braços e meu tronco. Então a névoa venenosa apareceu e se infiltrou nas minhas feridas sangrentas. A dor foi horrível e eu não conseguia nem me mexer depois. Uma noite sonhei que estava me casando com Presidente Snow. Tudo era feito de rosas. Até o meu vestido era feito delas. Cheirava a sangue. Ele mesmo envenenou nosso brinde de casamento. "
Eu deixei de fora todos os sonhos sobre Peeta, mas por outro lado tive a esperança de chocá-lo para acabar com a nossa sessão mais cedo. Eu ouço sua caneta rabiscar enquanto ele escreve notas. "O que o sonho sobre Snow quer dizer?" Eu pergunto com entusiasmo, tentando guiá-lo para longe de qualquer coisa que vá fazê-lo querer aumenta a minha medicação.
"Eu acho que isso significa que você ainda está refletindo sobre seu trauma", diz ele lentamente. "Você se preocupa com estes tipos de coisas durante o dia?"
"Eu não posso", eu digo, sem expressão. Quanto mais eu me preocupo com esse tipo de coisas, mais escuros alguns lugares da minha cabeça ficam. Eu me distraio com a caça, nunca perdendo uma seta. Eu recentemente comecei a construir um novo arco. É provavelmente a minha pior tentativa de todas, mas começar de novo sempre me dá algo para fazer.
"Eu acho que nós precisamos ajustar a sua medicação. Vamos tentar duplicar a sua dose de Prozax e eu vou te enviar um novo remédio para dormir."
"Eu disse que não vou tomar medicamentos para dormir. Isso me deixa pior."
Esse vai e vem continua por mais alguns minutos. Eu nunca disse que eu era a paciente ideal. Da maneira que eu vejo, se eu estou dizendo a ele que não vou tomar suas pílulas significa que eu estou falando com ele. Esse é um passo grande, melhor do que o tratamento do silêncio.
Ele finalmente cede. "Eu tenho acesso aos seus arquivos de áudio e se sua condição não melhorar, vou ajustar a sua medicação. Talvez eu envie uma enfermeira para se certificar de que você vai tomá-los"
Sim, sim. "Então, se eu ficar bem, não vou precisar mais de comprimidos?"
"Isso parece improvável, mas sim. Seu tempo acabou. Até a próxima vez, senhorita Everdeen."
E eu estou livre dessa pequena tarefa por mais uma semana. Normalmente eu estaria me desafogando com Peeta sobre o quão desperdiçado meu tempo é.
Mas eu não estou falando com Peeta, não desde aquela noite.
Eu não pude enfrentar Peeta no dia seguinte. Eu não sei se foi culpa dele ou se eu deveria pedir desculpas. Então eu tranquei minha casa, algo raramente feito na Vila dos Vitoriosos e saí mais cedo para a floresta. Cheguei em casa tarde e instruí Greasy Sae que os nossos jantares seriam separados.
Naquela primeira noite Peeta deixou um bilhete na minha porta. Um olhar para ele e toda a caligrafia de Peeta ficou borrada de lágrimas. Sentado ali no chão, com o papel em minhas mãos, eu decidi que seria melhor não saber o conteúdo da carta. Eu não estava pronta para um pedido de desculpas e não queria ler as coisas horríveis que ele poderia dizer. Eu agarrei o bilhete para jogá-lo fora, mas usei força demais e acabei rasgando. Não houve como salvá-lo. Uma e outra vez rasguei-o em pedaços e deixei o vento espalhar os restos entre as raízes dos arbustos prímula.
Venho me debatendo, perguntando se poderíamos simplesmente fingir que nunca aconteceu, mas eu não tive coragem de ir a casa dele fazer isso ainda. Agora, eu quero saber porque ele escreveu pra mim.
Meu peito começa a apertar, logo que eu dou o primeiro passo em direção a sua casa. Realisticamente, não posso evitá-lo para sempre. Somos vizinhos, eu poderia muito bem acabar com isso. Eu só vou fazer uma pergunta. Não há desculpas. Nenhum vidro quebrado .
Isso tudo é culpa dele, eu me lembro. Ele começou. Ou eu comecei? Sua culpa, eu fecho a porta da sua casa mais forte do que pretendo.
Ele está em sua cozinha repondo uma caixinha azul de farinha. "Oi", eu me anuncio.
O constrangimento entre nós é pior do que eu pensei que seria e eu não gosto disso. Eu cerro os punhos e me lembro de não gritar, que eu devo agir normalmente. Mas eu não sei o que é normal para nós nos dias de hoje.
Ele está silencioso quando eu atravesso a cozinha em direção ao balcão onde ele está parado. Ele não me deixa saber se ele está com raiva, preocupado ou aborrecido. Ele, obviamente, não está feliz, não me acolheu de braços abertos. Eu não estava esperando correr vertiginosamente de volta para ele, mas essa recepção já é mais fria do que eu esperava. Ele não diz nada, por isso é a minha vez de começar. Eu pulo a conversa fiada. Eu não preciso saber que tipo de pão que ele fez hoje ou o que ele acha do tempo. "Por que você disse ao Dr. Aurélius sobre o meu pesadelo?" Meus braços estão cruzados na frente do meu peito e eu olho para ele.
Ele olha fixamente para mim, limpando a farinha de suas mãos em seu avental. "Se você veio gritar comigo, pode ir embora, eu não sou obrigado a aguentar isso."
Eu pisco, tentando processar o que aconteceu. Peeta continua a limpar sua cozinha como se eu não estivesse lá e eu me sento em um banquinho do balcão. Eu não tenho certeza de quanto tempo fiquei sentada lá, mas o som de um Peeta irritado, me faz despertar dos meus devaneios.
"Droga de forno estúpido", ele está resmungando. "Maldito pão queimado. Não está mais quente do que da última vez, não ficou mais tempo do que o normal, mas olha só para isso. Arruinado." Ele divaga com algumas palavras bem escolhidas que eu acho que eu dirigi para ele na outra noite.
Eu não tenho certeza se eu já tive a oportunidade de ver Peeta pisar em torno de sua cozinha como um louco, então eu assisto por alguns segundos antes de intervir. "Eu tenho certeza que ele está gostoso", eu digo fingindo não perceber o cheiro de pão carbonizado no ar.
Ele me dá um sorriso dolorosamente forçado, e em seguida, abre a tampa da lata de lixo.
"Eu acho que Haymitch gosta de seu pão de qualquer jeito," Eu tento impedi-lo. "O importante é combinar com o licor branco".
Peeta lança um olhar desconfiado, mas a proposta serve para eu levar os pães e sair de sua casa. Corro para a porta e não olho para trás.
Este é o momento da noite que Haymitch geralmente acorda depois de um longo dia de dormir. Eu abro a porta para a sala previsivelmente escura e coloco o pão para baixo, no local onde Peeta geralmente o deixa. "Eu trouxe um pouco de pão", eu grito para que eu não tenha uma faca atirada em mim, não que ele pudesse acertar alguém com essa faca.
"Docinho", ele diz. "Onde está o seu amor?"
Murmurando em sua cozinha. "Ele não é meu amor," Eu faço uma careta. Haymitch se exaspera.
"Outra briga de namorados? Deve ter sido uma boa, porque ele não tem me deixado ganhar no xadrez, como ele normalmente faz. Patético. "
Eu ignoro seu comentário e acendo uma lâmpada para olhar ao redor da sala. Haymitch usa a pequena quantidade de luz para detectar uma pilha de garrafas que ele acumulou no lado oposto da sala. Ele joga a última garrafa vazia para ele. Meu olhar segue o recipiente transparente, passando pelo buraco na parede onde o telefone foi mais uma vez arrancado. Eu ouço o baque duro de vidro batendo no vidro.
Por que você estragou seu telefone de novo?, eu quase pergunto. Mas desde sempre ele não tem um telefone, então eu faço uma pergunta diferente."Você precisa de alguma coisa? Além de bebidas?"
Ele coça a barriga. Ele precisa de um corte de cabelo e uma escova para cabelos rebeldes. "Eu estou bem. Mas você poderia ser mais agradável com o garoto."
Eu quase protesto. Eu sou boa para Peeta... geralmente, eu acho. Há alguns dias, eu não lembro, então eu não posso ter certeza. E eu provavelmente poderia ter sido mais educada em sua casa mais cedo.
Perfeito, digo a mim mesma quando eu caminho de volta para tentar falar com ele novamente. Eu fecho a porta atrás de mim suavemente, embora eu ainda espere um discurso de Peeta. Ele está sentado à mesa se recuperando de sua discussão com o pão. Eu me sento calmamente na frente dele. Ele realmente parece exausto.
"Katniss, você está de volta." Ele não parece feliz.
Eu dou de ombros.
"Em que posso ajudá-la?" Seu tom de voz está cansado e um pouco gelado. A maneira como ele fez o comentário anterior, me diz que ele não tem paciência para mim esta noite.
Eu olho para as migalhas na mesa ao invés de olhar pra ele. Haymitch me disse uma vez para me colocar na posição de Peeta. Eu olho para Peeta e quando eu realmente penso sobre isso, eu sei que os pesadelos e flashbacks não são as únicas coisas que o deixam esgotado.
Eu estive em sua posição durante anos, cuidando de minha mãe. Peeta às vezes me obriga a comer da mesma maneira que Prim e eu fazíamos com ela. Prim era tão jovem, mas ainda assim lidou com isso melhor do que eu. E mesmo depois de tudo que Peeta faz por mim, eu só grito com ele. "Ok, então, nada de vasos quebrados hoje à noite," eu começo.
"Isso seria bom, Katniss. Como foi seu dia?" Peeta reverte para a nossa rotina do jantar. É estranhamente calmante.
"É por isso que estou aqui", eu digo, mais uma vez olhando para os redemoinhos na mesa de carvalho. "Eu tive a minha hora com Dr. Aurélius."
"Isso é bom. Você precisa conversar sobre algo?" Sua voz me lembra das vozes calmas e condescendentes dos médicos da Capital. Eu me recuso a falar.
Eu sigo os redemoinhos na mesa com o meu dedo indicador. Não houve avanços na minha sessão. Eu sabia antes de ligar o porquê de eu falar essas coisas. Foi apenas um dia ruim. Eu estava com raiva e eu tinha acabado de brigar com Peeta. Eu não sabia o que fazer com toda essa raiva. Há um monte dela que ainda está aqui.
Originalmente eu tinha planejado gritar com Peeta, mas sentando à mesa com ele, eu decidi ir contra isso. "Ele sabia sobre a outra noite."
Ele sai em silêncio e eu não olho para ele. "Eu não disse a ele."
Eu ia parar por aí, mas as palavras continuaram chegando. "Eu tenho certeza que você me discutiu em suas sessões, e eu acho que eu vou ter que aceitar isso. Eu só não quero que ele me drogue mais. Estou cansada das minhas mãos trêmulas, da cabeça nublada. Estou cansada de tudo o que as pílulas fazem para mim. "
Peeta olha para mim, balança a cabeça. "Katniss, eu não disse nada."
Isso não faz sentido. "Então, por que ele me perguntou sobre isso?"
"Eu não acho que eu tenha contado", diz Peeta novamente. Ele olha para cima, como se ele se lembrasse de suas sessões. "Eu perguntei a ele sobre o que ele fez para substituir a parte violenta do tele-sequestro. Eu queria ter certeza de que não houve chance de que eu pudesse ter... você sabe", ele engole.
Peeta tem um dom sobrenatural de me fazer sentir horrível. Enquanto eu estava preocupada em ser orgulhosa, ele estava sendo gentil e tentando me manter segura. "Então, como é que ele sabe?"
"Sua mãe? Haymitch?" Peeta adivinha.
"O Haymitch não tem um telefone desde sempre", digo a ele. Se ele tivesse mantido o telefone, ele poderia pelo menos fazer pedidos de bebidas. "E eu não disse a minha mãe." Minha mãe não precisa saber que Peeta dormiu comigo e que destruiu os vasos que ela escolheu.
Eu repito a conversa com o médico na minha cabeça. Peeta passou muito mais tempo com ele do que eu e sabe mais sobre seu escritório em geral. "Peeta, como é que o médico tem acesso aos meus arquivos de áudio? O que isso significa?"
Peeta aperta as mãos sobre a mesa. Eu sei antes de ele abrir a boca que eu não vou gostar do que ele está prestes a dizer. "Um arquivo de áudio é um arquivo de som, como o som que é gravado para a TV, mas é apenas o som. Eles tocaram algumas de nossas conversas para mim quando eu estava... na Capital".
'Na Capital' tornou-se seu eufemismo para quando ele foi torturado. Estar na Capital soa muito mais agradável. Eu geralmente associo a Capital com todas as coisas más, dolorosas e ruins.
"Eles me fizeram escutar essas conversas, que eu realmente não acho que nós já tivemos. Acho que elas foram modificadas a partir do que você realmente falou. Mas era a sua voz. Era como os gaios tagarelas na segunda arena. Eu não sei. ", ele terminou, com as mãos tremendo. Minhas mãos cobrem a sua antes que eu perceba o que estou fazendo.
"Você não precisa falar sobre isso", eu o lembro, principalmente porque eu estou desconfortável.
"Katniss, por que eles têm essas gravações de nossas conversas fora dos jogos? Por que nós só falamos de coisas importantes fora de casa?" Agora, sua voz é temperada com raiva. Seu pé está batendo um ritmo errático na madeira.
"Porque todo mundo diz que as casas estão sob escuta."
"Exatamente." Peeta explode. "Eu acho que eles ainda estão ouvindo", diz Peeta jogando as mãos para cima.
Porque estou sempre tentando escapar dos Jogos?
Eu não consigo respirar. Eu tento, mas eu não encontro ar suficiente. Estou sufocando, começando a ficar tonta. Eu tropeço em direção à porta e a escancaro para encher meus pulmões com o ar não contaminado. Eu tropeço nos meus passos, ainda ofegante. Então eu me lembro de Peeta, com as mãos trêmulas e sigo o conselho de Haymitch.
Dentro de casa, Peeta está irado, arrancando pedaços de papel de um pequeno caderno e jogando-os no chão, perto do telefone. "Você precisa de um pouco de ar?" Eu pergunto com a voz mais calma que posso reunir, colocando minha mão em seu pulso. Ele está muito agitado. Estou preocupada que ele esteja a poucos minutos de distância de um flashback.
"Eu estou tentando fazer alguns telefonemas", diz ele, segurando a minha mão e se movendo em direção ao telefone. "Vejo você mais tarde", ele me dispensa.
Eu roo as minhas unhas e enrolo para sair. Eu estava tentando ajudá-lo, será que ele não consegue perceber? Independente do lugar que ele esteja ligando, os números estão ocupados. Vou até ele. Eu venho tentando controlar a minha raiva, mas eu estou sem paciência e a cada segundo que eu espero, a raiva ferve dentro de mim um pouco mais.
"Não!" Eu grito com ele. "Você vem comigo, agora."
Ele bate o telefone e me olha de cima a baixo. "Você grita, não fala comigo há três dias e agora quer que eu largue tudo que eu estou fazendo para ir com você, mesmo que eu aparentemente não tenha permissão para ser visto sozinho com você em público?"
Com poucas exceções, eu vi Peeta todos os dias desde que ele voltou para casa. Mesmo nos dias em que ele pareceu ausente, doente ou privado de sono, ele sempre tentou ser agradável. Ele não é o tipo mal-humorado, como Haymitch ou eu. Este é o primeiro vislumbre que eu vejo do menino gelado de antes da Turnê ou o garoto com raiva do Distrito 13. Até hoje, eu pensei que ele nunca fosse voltar a ser aquela pessoa que a Capital criou. Mas hoje ele está com raiva, frio e mal-humorado.
Por essa razão, eu levo exatamente um segundo me sentindo culpada por seu escárnio, mas logo me livro dessa sensação. "Lá fora, agora," eu ordeno. Peeta é muito mais forte do que eu. Eu não posso levá-lo exatamente à força, mas eu não vou recuar.
Peeta começa a murmurar baixinho e põe as mãos em sua têmpora. Eu coloco as minhas mãos em suas costas e começo a empurrá-lo até a porta. Peeta permite que eu o faça por alguns passos antes de fincar seu calcanhar no chão. "O que você pensa que está fazendo?"
"Eu estou tentando ser gentil." Mas sai alto e rude.
"Você tem um jeito engraçado de demonstrar isso", ele retruca, mas vem comigo até a porta.
Estamos poucos metros fora de sua casa. Eu respiro e reformulo. "Você está chateado. Eu pensei que isso poderia acalmá-lo." Eu me concentro nos cadarços de suas botas de couro "Eu não quero que você... fique doente."
Ele leva um momento para considerar. "As pílulas estão no meu bolso, se eu ficar", ele bate em seu bolso direito. Ele mudou de tom. Esta é a voz de Peeta pensativo.
Depois disso, eu levo um segundo para me lembrar de que estamos com raiva um do outro e que essa noite não é como qualquer outra noite. Mas estamos tranquilos. Peeta fica em silêncio, nem tudo são nuvens cor de rosa. E eu também não conto como os meus jantares têm sido dolorosamente silenciosos sem ele.
Sem dizer nada, eu levo Peeta além da borda do Distrito, o mais distante que já caminhamos em direção à floresta, desde que voltamos pra casa. Esta é a primeira vez que eu levo o meu garoto do pão nesse lugar. É a minha oferta de paz. Eu não lhe digo isso, é claro. E não preciso. Peeta tem sua própria maneira de saber.
