É o último de hoje meus queridos, amanhã posto mais dois, grande beijo!
Tudo mudou nos últimos dois anos, tudo, menos a floresta.
Eu demoro alguns momentos, sentido o cheiro dos pinheiros e ouvindo o zumbido das cigarras. Este é o meu lugar, a única coisa que está praticamente inalterada em relação a minha vida há dois anos. As bombas não caíram muito longe daqui, mas, por algum milagre, a floresta não queimou. As árvores ainda são as mesmas. Os cães selvagens também são, provavelmente, os mesmos.
Logo após a linha das árvores, um afloramento de granito começa. Várias pedras grandes pontilham a área. Subo em um que é tão grande como uma escada, tem forma de degraus. Geralmente eu estou tão focada na caça que não me preocupo com coisas como rochas, muito menos subo em cima delas. Esta pedra... Faz tanto tempo desde que eu a escalei. Eu me empoleiro, subindo até seu ponto mais alto.
Peeta se inclina contra uma árvore e me olha com uma expressão divertida. "É aqui, não é? Este é o lugar onde você passa os seus dias?"
"Não exatamente aqui," eu indico, porque eu normalmente eu não fico em um pedaço grande de granito. "Mas, em geral, sim."
Eu não sei bem o que falar depois da nossa conversa. Não há muito a dizer, e não há nada óbvio para tentar começar.
Peeta se agacha e começa a rabiscar na terra com um graveto. "Você não trouxe seu arco."
Eu não planejei isso realmente. Eu só queria sair de casa. Se fosse Peeta, com certeza teria planejado alguma coisa. Eu poderia ter pensado em algo melhor do que sentar em uma pedra irregular fria, se eu soubesse que iríamos estar aqui esta noite. Se não fosse tão tarde, ele poderia me ajudar a colher algo, mas não há muita luz do dia. Eu também teria trazido mais do que a pequena faca de caça que permanece presa no meu cinto. Com isso e o canivete vermelho que Peeta mantém sempre com ele, eu acho que nós vamos ficar seguros o suficiente de esquilos crescidos que gostam de correr entre as rochas nesta parte da floresta.
"Já estivemos aqui antes?" Peeta pergunta.
Demoro um pouco para responder. Peeta parece ser uma parte tão grande da minha vida a muito mais tempo do que apenas os últimos dois anos e que o pão quando eu tinha 11 anos. Eu nunca o trouxe aqui após os primeiros Jogos porque não estávamos nos falando. Após a surra de Gale, a cerca foi eletrificada. "Não." Minha resposta me surpreende. Eu começo a descer da pedra.
"Nós devíamos costumar a fazer alguma coisa", Peeta olha para seu desenho feito com o graveto. "O que nós costumávamos fazer?" Ele diz que gostaria que tivéssemos sido melhores amigos desde a infância. Eu posso não ter certeza, mas eu acho que Peeta lembra de sua infância o suficiente para saber que eu não era uma parte dela.
Eu corro a lista na minha cabeça. "Acordos", eu rio a palavra para ele. "Acho que estamos ficando muito bons nisso."
"Definitivamente há espaço para melhorias", ele não demonstra nenhuma expressão. Ele se senta ao meu lado com as costas contra a borda inferior da pedra.
"Então, da próxima vez, mais palavrões e menos coisas quebradas?" Eu começo o assunto dessa noite terrível. Nós vamos ter que falar sobre isso alguma hora. Pelo menos aqui fora, na floresta, não há nada para quebrar e nem vizinhos para ouvir. "Ou, mais coisas quebradas e menos palavrões?"
Peeta balança a cabeça. "Onde foi que você aprendeu a xingar daquele jeito?"
Eu realmente não deveria estar orgulhosa das coisas que eu disse, mas eu consegui me lembrar de uma quantidade impressionante de palavrões de uma vez só. "Você quer que eu te ensine?"
Ele tenta se segurar, mas acaba rindo, de qualquer forma, antes de cobrir o rosto com as mãos. Todas as minhas imagens de menininha em vestidos bonitinhos devem tê-lo enganado. "Você pode perguntar aos médicos do 13," Peeta diz. "Eu que poderia ensiná-la, menina."
"Bom, se for como hoje, no 'maldito pão queimado', eu prometo tomar notas da próxima vez." Eu tento brincar. O clima pesado entre nós dissipa um pouco. É uma sensação agradável ver Peeta olhando alegremente para mim novamente. Suas mãos sem tremerem.
Ele espera alguns segundos em silêncio, e em seguida bate a ponta da minha bota com a dele. Eu tomo isso como um sinal de que estamos fazendo as pazes e começo a respirar um pouco melhor. Depois de observar a minha reação, ele volta ao seu desenho na terra, um mundo de pinhas cobertas com palha. Ele desenha uma linha, em seguida, outra um pouco maior. É a base para uma casa. Janelas e persianas aparecem. "E agora?", pergunta, vendo que eu estou olhando para ele.
"Árvores", digo a ele. Qualquer boa casa precisa de muitas árvores em seu quintal. "Árvores que você possa subir." Ele decide e desenha árvores frondosas. Ele ainda acrescenta maçãs. "Um gato," eu digo a ele e um gato desgrenhado com um rabo torto e orelha mordida aparece.
Eu me inclino para tocar em seu desenho, sentindo os recuos entre as partículas ínfimas do cascalho no solo. A maneira como ele desenha linhas retas perfeitamente me fascina. Eu me pergunto o que passa pela sua cabeça quando ele faz isso, o que faz suas mãos serem tão firmes neste momento. Eu posso firmar minhas mãos para disparar um arco, mas isso é completamente diferente.
"Eu senti sua falta", ele suspira no meu ouvido. Suas palavras ecoam através dos meus ombros e braços fazendo-me estremecer, parando o meu próximo movimento.
Eu engulo e ensaio um sorriso nervoso, tendo um súbito interesse em um cogumelo de mel a poucos metros de distância.
Quatro palavras pequenas, doces, sentimentais e carregadas de amor. Mas é o seu tom, até mais do que as palavras, que são um lembrete da nossa história e da expectativa. Nós. Os amantes desafortunados do Distrito 12. Eu escolhi ser amiga de Peeta. Todo mundo, minha mãe e Haymitch inclusive, espera que sejamos mais. Ele mesmo não sente como se fosse a minha escolha. E eu estou tão cansada de todo mundo decidir o que fazer com a minha vida. Depois dos Gamemakers, de Snow e do julgamento que eu não sabia que tive, eu só quero tomar as minhas próprias decisões.
Eu inclino minha cabeça junto a Peeta. Ele não deve ter visto o medo em meus olhos, porque ele me mantém a par de tudo que ele fez durante os nossos dias separados. Ele me conta sobre Haymitch despejando a água do jarro sobre a mesa da cozinha enquanto celebrava a sua vitória de xadrez. Sobre o pão de passas que ele acidentalmente aromatizou com cominho em vez de canela. Esta é a forma como ele queria que a nossa noite fosse. Conversas sem sentido. Chata mesmo. Ele teve emoções suficientes com os Jogos e a guerra. Agora ele só espera que seus dias passem sem incidentes.
Eu geralmente fico quieta quando ele fala. Peeta é o carismático. Ele provavelmente poderia convencer um esquilo a fornecer a localização secreta de sua loja de nozes. Ele normalmente consegue tirar algumas palavras de mim: eu estou bem. Um mosquito me mordeu. Minha mãe me enviou um novo creme dental. Eu não estou dizendo nem ao menos isso esta noite. "Você está bem?" ele finalmente indaga.
Ele me faz esta pergunta várias vezes ao dia. Eu sei que ele só está tentando ajudar. No início, era chato, agora eu só aceitei. Eu posso responder se eu quiser. Às vezes eu o faço. Peeta esfrega meu braço. "Seja o que for que esteja chateando você, está tudo bem."
Não está tudo bem, eu só quero gritar. Nada disso está bem. E eu posso sentir a raiva chegando, a forma como a minha cabeça, o meu pulso, meu peito, tudo começa a se agitar e perder o foco ao mesmo tempo. Eu tento segurar, para não ir para aquele lugar escuro.
"Eu fiz biscoitos.", diz Peeta. "Esta manhã. Nós podemos comer quando voltarmos."
Eu me concentro nos biscoitos: um destaque doce para um dia um tanto amargo. E eu estou de volta na floresta, com Peeta. Eu suspiro, perguntando o que é que estamos fazendo. Eu estou delirando. Eu não deveria estar. Esta é a minha casa. Peeta, está apenas sentado em um lugar desconhecido à espera de uma menina que joga vasos na cabeça dele.
Estamos aqui porque estamos evitando a Vila dos Vitoriosos e o que realmente precisa ser dito. As piadas são um curativo, quando o que precisamos saber é no que tropeçamos antes de ver se ralamos o joelho.
Eu não quero ter essa conversa, mas sei que tenho que fazer.
"Peeta". Espero que ele olhe para mim antes de continuar. "Podemos simplesmente esquecer o que aconteceu na outra noite,?"
"Não", diz Peeta com firmeza. "Eu esqueci das coisas o suficiente." É sua tentativa de uma piada. Ele é tão engraçado quanto Plutarch, quando ele não está caindo para trás em uma tigela de ponche.
É a solução mais simples. Nós vamos continuar como estávamos, então é claro que ele não concorda. "Por que não?"
"Foi bom ouvir você rir naquela noite", diz Peeta com uma sinceridade que me impede de ficar brava com ele.
"Tudo depois da meia-noite?" Eu me proponho.
Ele ergue a sobrancelha, abre a boca para dizer algo, mas para e me estuda.
"Isso não pode acontecer de novo." Meus olhos apontam pra ele com raiva, e em seguida, para uma um par de pinhas a metros de distância. A tentativa de uma festa do pijama, o beijo em frente ao espelho, tudo isso é direcionado para essa frase. "Eu não deveria ter feito isso. Eu não estava pensando direito." Eu jogo a vara que eu estava brincando o mais forte que eu posso.
"O que me faz lembrar..." ele quebra sua vareta em dois.
E esse é exatamente o problema, o que ele lembrou.
"Nós somos amigos." Esta se tornou a minha frase delicada, que eu uso para afastá-lo. Os amigos não se beijam, especialmente no pescoço. Eu olho para outro pedaço de madeira e quero arremessa-lo. Parece muito menos ameaçador do que dizer 'eu não te amo'. Eu me importo com ele, sempre vai ser assim. Mas diferente das conversas no jantar e um cochilo ocasional sobre os ombros um do outro, eu realmente não sei o que será de nós.
"Tudo bem. Eu só estou confuso com algumas das coisas que você faz." Frustração paira em sua voz. Ele está dizendo que a culpa é minha e eu não gosto disso.
"Há uma linha," eu digo a ele, perdendo toda a calma que a floresta tinha restaurado.
"Onde?" Ele diz isso sem rodeios. "Onde está a linha entre o dormir juntos no sofá e..."
Ele se cala. Um beijo. Isso é o que ele não está dizendo.
"Eu não sei." Eu realmente desejo que eu não precise ficar longe dele.
"Você sabe ou você não teria dito isso."
Por que Peeta está sempre certo? Eu não respondo a ele, porque eu estou muito ocupada bufando. Eu só quero fugir. O sol vai começar a se pôr. Ele provavelmente vai ficar com a ideia errada sobre isso também. Por que eu estou empurrando Peeta pra longe de novo? Eu escondo a minha cabeça em meus cotovelos com um palpite sobre isso. Ele fica com as costas contra a rocha, desenhando novamente com a metade da vara ele arrebentou.
Mas eu não saio. Eu fico com Peeta, despreparada para enfrentar a cidade, minha casa ou os pesadelos que eu conheço, e estarão esperando por mim quando eu voltar, sem ele.
"Eu só estou tentando entender isso", Peeta diz suavemente.
Eu fico olhando para ele. Eu também preciso descobrir. "Estou confusa". É a minha resposta honesta. Acho que eu sei exatamente onde essa linha está - nada com os lábios envolvidos. Com as outras coisas, bom, talvez eu não devesse me preocupar com isso ainda.
Respiro fundo - um dos meus médicos me disse uma vez que é bom para clarear a minha cabeça. Quando eu tento isso agora, tudo o que eu percebo é que há uma brisa com rajadas severas contra este lado da rocha, perfurando a minha camisa de algodão.
Eu me aconchego um pouco mais perto de Peeta, deixando o vento bater nele, não em mim. Ele faz um barulho como se tivesse pó de carvão preso no fundo de sua garganta. "O que você acabou de dizer?", pergunta ele com uma voz que é totalmente inocente demais para ser convincente.
"Cale a boca".
"Você está com frio?" É quase uma provocação.
"Não", eu xingo, mesmo que eu esteja pensando em esconder os braços sob a minha camisa. "Eu ... hum ... talvez," Eu desisto.
"Venha aqui", ele ri. "Nós não podemos permitir isso."
As mãos quentes de Peeta alcançam meus braços. Apenas uma de suas mãos cobre praticamente todo o meu braço e permanece lá por mais tempo do que eu gostaria. Meus arrepios não estão reclamando, no entanto.
"Isso," eu me movo de uma forma que pode ser interpretada como carinhosa. "só é aceitável porque eu estou com frio." Eu tenho que engolir meu orgulho para dizer a última palavra.
"Claro. Eu não sonharia com isso de outra forma", diz ele com uma seriedade falsa.
"Nada dessas outras coisas," eu me encolho.
"Que coisas?", pergunta ele.
Ele sabe muito bem o que quero dizer. "Você sabe."
"O quê?" Ele mostra seu rosto inocente. Ele usa a máscara também. Ele está tentando me fazer dizer a palavra. Estou evitando-a como Haymitch evita barra de sabão e detergente. A palavra parece quase tão perigosa quanto o ato em si.
Eu balanço minha cabeça.
"Os pães de queijo? Eu tenho certeza que você não pode viver sem eles."
Agora, ele está apenas sendo ridículo. Eu bato em seu braço. Não forte, mas apenas o suficiente para fazer o meu ponto. "Não.",
Ele esfrega o local em seu bíceps como se ele estivesse realmente ferido. Eu me pergunto se eu vou receber uma palestra sobre suprimir minhas tendências violentas. Já me disseram que eu não deveria manifestar minhas frustrações batendo nos outros. Perfurar Peeta conta? Eu realmente não tenho certeza, especialmente neste contexto.
Ele respira fundo e se vira para mim. "Katniss, eu entendo." Ele deixa todas as referências a uma determinada palavra de quatro letras e seus pães de queijo para trás. "Estou feliz que nós sejamos amigos." Ele coloca as mãos sobre os joelhos. "E eu gostaria de permanecer desse jeito."
Peeta sempre quis mais do que amizade. Talvez ele não possa me amar mais, não depois de tudo o que passamos. "Sério?" A resposta sai mais alto do que eu esperava.
Um aceno de cabeça. Lento e deliberado. Seus olhos encontram os meus. Ele está sendo sincero e eu estou pensando, chocada, em um mundo sem os beijos de Peeta.
Minha mão vai para o meu pescoço. Dias já se passaram, e o sentimento não sumiu completamente. Mas quando eu realmente penso, não era por isso que eu estava com raiva. Era uma lembrança pungente de uma noite há um ano, quando um menino e uma menina tão diferente de nós compartilharam sopas em uma caverna. Não, minha raiva foi provocada pela reflexão muito familiar sobre um casal que nunca foi de verdade. Éramos apenas peões, torres talvez, em um jogo de xadrez, onde tudo me deixa confusa.
"Além disso", diz Peeta depois de uma pausa, esfregando aquela mancha no braço novamente. "Eu prefiro tê-la como uma amiga, do que..."
Eu ergo o punho e lhe mostro o meu melhor olhar ameaçador.
"Exatamente", ele ri e está resolvido.
Ele se levanta, espana as calças e pergunta se está na hora de ir. Hesito. Levou todo esse tempo para resolvermos nossos problemas, e a minha ansiedade, e encontrar um ponto onde nós dois estivéssemos confortáveis novamente. Seria uma pena sair daqui e não resolver nada, mas sem discutir. Não, eu quero que Peeta veja porque eu amo este lugar. Eu quero dar-lhe um pequeno agradecimento por me aturar.
Eu olho para o bosque de árvores. Como uma resposta à minha pergunta silenciosa, um vaga-lume solitário pisca à distância. Em seguida, outro. Eu não pego um desde que eu usava meu cabelo em duas tranças e de repente eu tenho o impulso irresistível de correr atrás deles, para ver aquela pequena centelha de perto, segura entre os meus dedos.
Eu saboreio a sensação da terra se movendo rapidamente debaixo dos meus pés. A luz está desaparecendo rapidamente, mas há o suficiente ainda para que eu faça um caminho livre de obstáculos.
"Katniss, onde você está indo?" Peeta grita. Eu paro.
"Venha aqui." Aceno.
Peeta me segue em um ritmo mais lento. "É perigoso?" Eu posso ouvir a sua apreensão, mas ele me segue de qualquer maneira.
"Não, você vai gostar disso", eu quase canto. Minha voz praticamente anuncia a feliz surpresa.
Eu fico de frente para ele, tão perto que poderíamos colar nossas testas se ambos se inclinassem. "Me dê suas mãos." Eu prendo as suas com as minhas. "Feche-as como eu."
Minhas mãos passam nas dele, e de repente estou cheia com a mesma alegria infantil que eu tive naquela noite com meu pai, há tantos anos.
"Isso faz cócegas." Ele me dá um sorriso cauteloso. "O que é?"
Ele abre as mãos e o vaga-lume voa. Quando ele pisca amarelo entre nossos narizes , eu não sei o que é mais brilhante, a sua luz ou o sorriso de Peeta.
