Eu não sei se quero que ele fale. Silêncio é a única coisa que parece suportável. Mas Peeta sempre teve jeito com as palavras. Elas o curaram. Às vezes, elas me curam. Então eu continuo com meu rosto sobre o seu coração, com um ouvido escutando um barulho rítmico constante e outro para o seu remédio, suas palavras.

"Não fique com raiva de mim, por favor. As garras de urso foram só uma desculpa... Eu só queria que você ficasse mais tempo aqui. Essas tempestades ruins podem desencadear meus episódios. Estou me sentindo como se eu estivesse ficando doente e eu não quero ficar sozinho. Fica comigo?".

Meu primeiro instinto é gritar com ele por ser tão ridículo, é claro que eu ficaria. Ao invés disso, empurro essa raiva para dentro e tento ser gentil, como ele seria comigo.

"Shhh," Eu coloco meu dedo em seus lábios. "'Sempre', se lembra? Nós cuidamos um do outro. Basta pedir quando você precisar de ajuda. É por você que eu estou aqui."

E eu não quero ficar sozinha, também. Não hoje. Foi por isso que eu vim para a casa dele pra início de conversa. Mas eu sufoco essa parte dentro de mim e não digo isso a ele. Uma pequena gota rola no meu rosto e outras espirram em sua camisa. "Sinto falta de Prim." É um sussurro quase abafado pela calmaria sonolenta da chuva nas janelas.

Eu odeio o quanto eu preciso dele nesse momento. Eu esqueço que ele está doente e que eu quem deveria confortá-lo. Nós combinamos, um par cheio de dores e perdas. Deixo que ele me abrace e eu choro. Eu odeio chorar. Me faz sentir tão fraca, mas hoje eu sinto como se fosse uma limpeza da minha tristeza e eu não quero que isso acabe.

"Hey," ele sussurra, esfregando o meu braço. "Vai ficar melhor. Eu sei." Ele é o único doente e está tomando conta de mim.

Eu tento limpar a água dos meus olhos e sufocar um soluço e aí ele me solta. Eu não quero que ele se afaste, eu quero que ele fique até que as lágrimas sequem.

"Vamos limpar você", diz ele em voz baixa. "Há algo que eu quero no banheiro no andar de cima também."

Peeta se levanta e oferece sua mão. Eu quero lhe dizer que eu não quero sair do lugar, que eu vou ficar aqui, mas ele está tão instável de pé que eu me levanto para me enfiar debaixo do seu braço e ajudá-lo a subir as escadas.

Sento-me na borda da banheira enquanto Peeta procura alguma coisa na pia. Ele se junta a mim na superfície fria. "Feche os olhos."

Ele não parece estar brincando, assim eu faço. Ele coloca uma toalha molhada em meus olhos fechados. É quente em minhas pálpebras inchadas. Eu não tenho certeza se está tudo bem em gostar disso, mas eu sou traída por um longo suspiro.

Eu não posso me ver no espelho agora, mas se eu pudesse eu acho que eu veria que ele está me tratando tão suavemente como a minha mãe ou Prim já fizeram.

Quando o pano fica frio, eu o coloco na pia. Enquanto Peeta fica pronto para dormir, ele me pede para encontrar um frasco em seu armário de remédios. Vasculhando os analgésicos, pílulas, medicina do sono e várias garrafas e tubos, lembro-me que Peeta é o único que precisa de cuidados.

"Porque tantos remédios a sua volta?" Eu pergunto, indicando todas as direções, enquanto ele lava o rosto.

Mesmo com todo o resto, eu não sabia que Peeta tinha problemas nas costas. Ele definitivamente não deve tentar me pegar no colo.

"Às vezes, os flashbacks tensionam meus músculos", ele pega o pote de mim. "Isso me faz sentir como se eu tivesse gripado. Com isso e as pílulas para a dor e eu vou ficar bem", ele me assegurou. Eu realmente duvido.

Sinto que o quarto de Peeta não é muito utilizado, assim como os quartos da minha casa que eu nunca entro. Ele pára em frente a uma cômoda e tira uma camisa. É a primeira vez que eu me sento na cama de Peeta. É maior do que a minha e eu me sinto pequena sentada sobre ela. A cama é feita de uma madeira de cerejeira escura como uma grande mensagem masculina. É mais perto do chão do que a minha cama, e quando ele se senta está na altura perfeita para ele ajustar a perna mecânica durante a noite. Seus lençóis são brancos, cobertos por uma manta azul escura.

Ele tira suas botas e um par de meias, listradas de cinza. "Eu vou trocar de camisa", alerta, apontando para eu parar de observá-lo.

"Está tudo bem", eu digo imperturbável. Ele nunca foi o tipo modesto e eu não o vejo sem camisa há muito tempo. Ele parece incerto e, em seguida, eu me lembro das queimaduras. Talvez ele não queira que eu as veja. Eu levanto a parte inferior da minha camisa e ele pisca um pouquinho ao ver o ínfimo pedaço do meu estômago. "Comigo é a mesma coisa." Ele viu semanas atrás, quando eu estava com febre.

"Estou cansado. Você pode apagar as luzes?" Ele balança a cabeça.

Eu fico em desvantagem neste assunto, mas eu faço o que ele me pediu, demorando-me no caso de ele precisar pegar mais alguma coisa no quarto.

Há uma tênue luz vinda de fora, então eu ainda posso ver Peeta sentado na beira da cama lutando com as mangas da camisa e as costas. "Tudo bem?" Eu caminho de volta para a cama.

"Hummm", ele quase sussurra a palavra que paira sobre ele por tanto tempo. "Eu estou tentando alcançar este lugar nas minhas costas. Mas eu não consigo", ele me dispensa, jogando um braço na frente dele como se ele não quisesse que eu chegasse mais perto.

Sinto o cheiro de menta e sei que ele abriu a pomada do seu banheiro. "Onde?" Eu pergunto, chegando perto e pegando a pomada do lado da cama.

No tempo que leva para responder, eu consigo olhar para o que ele está obviamente tentando esconder. Eu não consigo ver todas as cicatrizes e queimaduras, mas eu posso ver o suficiente.

"Katniss", ele adverte. "A última vez que você viu minhas queimaduras, as coisas não acabaram bem. Por Favor."

Então tenho um estalo. Ele acha que eu vou ficar chateada ao ver sua carne queimada. E eu poderia até ficar. Eu acho que ele precisa ser melhor em pedir ajuda. Nós devemos nos ajudar, a Haymitch ainda mais.

Isso seria muito mais fácil se nós dois não fossemos tão quebrados, mas é assim que é. Eu respiro fundo e coloco a mão em seu ombro. "Onde?" Pergunto novamente.

"No meio", ele finalmente cede. "Em qualquer lugar que eu não tenha alcançado."

O creme pegajoso, que deve ter sido enviado pela do Capital ou pelo Dr. Aurélius, entorpece a pele e ajuda a relaxar os músculos tensos. Minha mãe nunca teve nada parecido, mas teria sido muito popular entre os mineiros, que sempre voltavam para casa com dores nas costas.

Eu me ajoelho na cama e penso no meu pai quando eu passo o creme nas costas tensas de Peeta. Eu sempre brincava com ele antes que ele fosse pra minas de novo, para que as coisas ficassem mais leves. Lembro-me de meus pais tendo essa conversa, então eu guardo para mim mesma.

"Peeta, já pensou como seria se você tivesse que trabalhar nas minas?" Eu pergunto quando suas costas parecem suficientemente pegajosas. A pergunta pode parecer fora de lugar para ele, mas ele não perde uma batida.

"Eu certamente nunca quis. Mas quando eu era pequeno e um pedaço de pão caia quando eu estava assando ou eu perdia o ponto do glacê, a minha mãe ameaçava me deserdar da padaria. Ela usou isso para manter todos nós meninos na linha. Havia sempre essa ameaça que três irmãos e suas famílias não poderiam executar uma única padaria". A voz de Peeta está tão pensativa quando ele me diz isso... A história é fria, deprimente mesmo. A coisa parece tão real que quase posso sentir o cheiro do fermento de pão.

"Lave as mãos", diz ele depois de seu longo tempo de reflexão. "Senão vão ficar dormentes."

Ele não faz nenhuma tentativa para se levantar então eu trago de volta um pano para lavar as mãos. Ele está ajustando sua prótese quando eu volto. Ele às vezes dorme com ela acoplada. Foi personalizada para ser um ajuste perfeito para ele e, assim, é bastante difícil de tirar e voltar a posicioná-la para que ele não bambeie ou machuque, ou seja, nem muito solto ou muito apertado.

"Aqui", eu ofereço porque ele parece estar tendo problemas. "Eu posso fazer isso. Tenho dedos menores." Mesmo no escuro eu posso ver que ele está olhando para mim enquanto eu deslizo para fora o seu membro artificial.

"Eu esqueci que você sabia como fazer isso", ele murmura.

Concordo com a cabeça em silêncio e deixo que ele considere um tempo que eu saiba pelo menos alguns de seus segredos. Meus dedos ainda acariciam o toco rosado onde a perna deveria estar. Eu quero dizer a ele que eu sinto muito, pelo torniquete, as queimaduras, a tortura - nada disso teria acontecido se não fosse por mim. Mas as palavras nunca seriam capazes de preencher a lacuna da dor que causei a ele.

Ele desliza sob o seu cobertor, segurando uma parte para mim, cheio de culpa. Estou prestes a entrar debaixo das cobertas antes mesmo de pensar no que está acontecendo. É o que eu quero, mas eu congelo. "Eu...", eu vacilo e, em seguida, não sei o que vem a seguir. Eu não tenho certeza sobre a sua oferta.

Se eu pudesse apagar o ano passado, poderia ser a coisa mais fácil do mundo. Na verdade, apenas algumas noites atrás eu estava convencida de que seria fácil. Eu o levei para o meu quarto e ele foi contundente sobre dormir na cadeira. Demorou alguma persuasão, mas ele fez a minha vontade e eu acordei feliz. Ele praticamente apareceu na minha casa de pijamas na noite seguinte. Agora, eu sou a única com dúvidas.

"Só porque eu tive um flashback não significa que eu vou te machucar", ele tenta.

E eu sei disso, mas eu fujo para a parte mais distante da cama, abraçando meus joelhos no meu peito, determinada a não fugir. Alguém precisa ficar com ele e eu lhe devo isso.

"Você não confia em mim", suas palavras cortam o quarto escuro, me picando. Eu não podia me sentir mais cruel, mais egoísta. Peeta não me machucaria. Pelo menos eu acho que não. Eu estou bem sobre dividir meu espaço com ele e como nós passamos o dia, mas algo cruzando essa linha, partilhar a cama, me deixa com o pé atrás. Eu não sei o que eu devo sentir, se está tudo bem por ser confortável, se eu quero que ele me proteja dos pesadelos de novo, se não há problema em querer correr meus dedos por essa pequena cicatriz em seu pescoço, que está tirando a minha concentração...

"Eu confio" eu me ouço sussurrar tão baixinho que eu quase espero que não alcance seus ouvidos.

Ele se desloca pra perto de mim, jogando a borda do cobertor sobre as minhas meias. "Você pode me ajudar a lembrar das minhas pílulas à meia-noite? Se eu puder terminar esse último lote, talvez possamos ter um bom dia amanhã."

Eu estendo a mão e aliso uma mecha de seu cabelo. "Isso eu posso fazer." Ele está me dando a opção de sair, apenas pedindo que eu volte em algumas horas. Ele merece coisa melhor, então eu estico as pernas na minha frente, dando a entender que eu vou tentar ficar.

Ele já está deitado ao meu lado, mas ele se estende para ficar mais confortável e acaba colocando sua cabeça nas minhas pernas, seu rosto acima do meu joelho. "Eu gosto disso." Ele está meio adormecido, talvez mais. Dou-lhe um pequeno tapinha na cabeça.

"Por muitos meses, a única razão pela qual alguém me tocou foi para derramar meu sangue ou para enganchar eletrodos na minha pele. Você não, embora tudo apontasse o contrário", ele brinca. "Você nunca fez com que eu sentisse como um experimento científico", ele exala. "Você sempre faz com que eu me sinta..."

Imagens de quartos de hospitais e médicos histéricos começam a piscar na minha mente.

"Melhor".

É mais do que eu posso aguentar. Eu escorrego para baixo do cobertor, ao lado dele, sentindo o cheiro dele, alecrim. Seus braços se instalam em volta de mim e minha mente vagueia através do nosso dia, quando eu começo a ouvir sua respiração mais pesada. O dia começou com pensamentos tristes de ele não estar na minha cama. Mas, de alguma forma, eu acabei na sua no final do dia.