Peeta pica um cogumelo em uma tigela com verduras recém-colhidas. Eu mantenho a minha cabeça baixa e espeto um cubinho de pão torrado para terminar de montar a salada kebab que eu fiz para o jantar.
Os sons de mastigação e o tilintar dos garfos preenchem a sala, enquanto eu espero que ele fale primeiro e me conte sobre o recheio ele colocou no bolo do aniversário de casamento de Thom. Entretanto, parece que ele teve a mesma ideia, visto que ele permanece calado. Talvez ele espere que eu conte sobre a codorna que eu vi na minha curta excursão para a floresta hoje pela manhã. Porém, tudo que ouvimos é o som da mastigação de ambos. Bom, isso acontece até a porta da frente ser escancarada de forma estrondosa.
"Nem é terça-feira" Eu resmungo, sem a necessidade de olhar para cima. Há apenas uma pessoa que atacaria minha porta com todo o requinte de um trem de carga.
"Como vai você, Senhorita Everdeen?" Haymitch diz com cortesia fingida. "Como você está nesta bela noite?"
De repente, eu gostaria de ter um balde de água gelada.
Apesar de sua recepção calorosa, Haymitch puxa uma cadeira na cabeceira da mesa e observa Peeta com um olhar presunçoso. Eu escolho permanecer em silêncio durante o nosso jantar.
"Não vejo vocês dois há alguns dias e concluí que eu deveria ter a certeza de que não tinham se matado'", ele oferece quando ninguém mais começa. "Há algum corpo que eu precise cuidar?" Ele olha diretamente para mim quando diz isso.
Eu não tenho certeza se foi uma piada, realmente.
"Vocês dois tem se comportado?", continua ele. "Há alguma coisa que eu precise saber?"
"Estamos aveludados como um pêssego" murmuro, me perguntando quando o interrogatório vai acabar.
"Como muitos pêssegos então. Eu tenho observado", ele murmura baixinho.
Peeta empurra uma cesta com pães para nosso mentor estranhamente preocupado, e pergunta sobre o seu dia. Quando fica claro que Haymitch veio apenas para comer, Peeta lhe passa uma tigela cheia de salada. Nada de ensopado esta noite. Comigo passando o dia no calor da floresta e Peeta no calor de sua cozinha, decidimos por um jantar frio. Greasy Sae foi feliz para sua casa esta noite.
Haymitch olha para a salada como se fosse uma das carnes surpresas de Greasy Sae. Ele um dia descobriu que a carne surpresa dela é dura como um sapato velho.
"Comida de coelho?" Farinha de rosca parcialmente mastigada cai pra fora de sua boca escancarada. Não é o que ele estava esperando. Ele me olha como se eu pudesse, magicamente, produzir um esquilo frito. Quando eu não respondo, ele agarra outro pedaço de pão, lançando um olhar indignado na direção de Peeta.
Peeta empurra um pedaço de acelga no prato de Haymitch, enquanto alterna olhares entre nós dois. Parece que há algo que ele quer dizer, mas por causa de um ou de outro, ele não está dizendo nada.
Haymitch pega todas as cebolas de salada para comer com o pão. Eu sorrio para Peeta. Ele sorri de volta. Haymitch limpa a garganta e minha carranca volta.
"É bom vê-lo hoje à noite," Peeta diz ao nosso mentor. "Sinto muito que não tenha nenhum guisado. Podemos ter um pronto para você da próxima vez? Katniss o que você trouxe da floresta hoje?"
"Eu não encontrei nenhuma árvore licor se é isso que você está perguntando." É tudo que eu ofereço.
Ao invés de ser sugada para outra rodada de conversas sobre a preparação de um jantar delicioso para Haymitch, eu coloco a minha tigela na pia e faço o meu caminho habitual para o sofá. A última vez que a conversa foi centrada em Haymitch, Peeta enumerou vários contras para que Haymitch ainda não fizesse sua própria bebida alcoólica. Seria como uma explosão esperando para acontecer.
"Se achar me avise, docinho." Soa quase como se Haymitch estivesse suprimindo uma risada.
Peeta pede a Haymitch as notícias sobre a reconstrução nos outros distritos. Escuto os grunhidos de Haymitch enquanto ele conversa com Peeta. "Você não tem que dar uma de anfitrião. Posso comer minha folhagem e ir embora", ele finalmente diz. "Vá em frente. Ela está esperando por você", Haymitch encoraja Peeta, apenas alto o suficiente para eu discernir.
Infelizmente, a minha ausência torna mais fácil para eles falarem sobre mim. E Haymitch aconselhando Peeta sobre a nossa relação me irrita, principalmente porque ele está certo. Isso é exatamente o que estou fazendo, à espera de Peeta para vir sentar-se ao meu lado, assistir ao noticiário e retomar a rotina pacata que nós construímos. Eu preferiria que Haymitch estivesse de volta em sua casa imunda adicionando mais pratos sujos à sua enorme pilha, e não distribuindo o que eu só posso supor que são conselhos amorosos.
"Ela está cansada," Peeta responde.
"Cansada de esperar por você. Vai lá. Não ligue pra mim." Eu não tenho certeza, mas parece que ele acrescenta "Vocês nunca ligaram pra platéia."
A cadeira de Haymitch range quando ele a empurra para debaixo da mesa. "Eu vou deixar vocês dois sozinhos." Eu me agacho a tempo de ver Haymitch se espreitando para pegar o último pedaço de pão. "Desde quando vocês dois já se importaram com uma multidão?" ele balança a cabeça para ninguém em particular.
"Não façam nada que eu não faria", ele grita da porta.
Com isso, estamos sozinhos novamente.
"Talvez a gente realmente deva fazer uma coisa que ele não faria," Peeta ri da cozinha enquanto lava os pratos do jantar. Isso é definitivamente algo que Haymitch jamais faria.
Quando a água com sabão é drenada da pia, Peeta olha para mim com um sorriso torto, suas covinhas da bochecha aparecendo. Ele está tranquilo novamente. E talvez seja isso que Haymitch insinuou quando disse que ia nos deixar em paz, mas tudo o que posso pensar é que eu quero me enrolar em Peeta novamente. Haymitch estúpido.
"Posso sentar aqui?" Ele aponta para a almofada em que meus pés estão apoiados.
"Não", eu praticamente bocejo.
Ele arqueia a sobrancelha e eu o deixo pensar que eu estou sendo cruel, um segundo antes de eu me sentar e lhe oferecer o lugar onde minha cabeça estava. Assim que ele se senta, retomo a minha posição. Ele suspira e reclina a cabeça para trás sobre a almofada. Espero que ele não tenha grandes planos sobre discutir em como ele esteve animado ao produzir o bolo para Thom, porque eu tenho grandes planos para cochilar.
"Você estava realmente esperando por mim?" ele pergunta como se já soubesse a resposta.
"Não."
"Não parecia que estava de qualquer forma", ele passa a mão sobre o espaço entre as minhas omoplatas.
Minha respiração se aprofunda a medida que os minutos passam tranquilos. Tenho alguns instantes longe do sono.
"Eu acho que é tão bonitinho", ele brinca consigo mesmo. "Quando você dorme assim. E você ainda acha que não dorme à noite."
Deixo que ele pense que eu estou dormindo. Minha guarda está completamente baixa. Foi descendo mais e mais em torno dele. É estranho como isso aconteceu, e perfeitamente esperado ao mesmo tempo. Como eu confio nele de novo, durmo com ele por perto. Aos poucos, os olhares acusatórios foram substituídos por sorrisos manhosos. Nós não somos os mesmos que éramos há um ano, ou até mesmo quando ele veio da Capital pela primeira vez. Nós não somos os amantes desafortunados criados pela Capital para garantir a nossa sobrevivência. Nós não somos mais obrigados a estar um com o outro. Fazemos isso porque queremos, e é estranhamente libertador. Eu agora tenho até expectativas elevadas para viver. Eu não tenho que me jogar em sentimentos que eu não estou pronta para ter. Então, eu posso apenas deitar aqui e desfrutar de uma mão quente nas minhas costas.
"Peeta," eu dou a entender que estou parcialmente acordada, enquanto ele arrasta um dedo ao redor da curva do meu ouvido. Eu tento esconder os calafrios que se estenderam pelos meus braços.
"Oi", ele finge endireitar um fio de cabelo que caiu para fora da minha trança. "Eu queria ter a certeza de que eu agradeci à você por ter cuidado de mim na noite passada." Ele beija as minhas costas. "Foi muito gentil da sua parte."
"Hum hum", murmuro como se não fosse grande coisa ficar com ele, vê-lo quebrado. Por mais que eu tente não pensar no que ele está dizendo, eu não posso. Há algo que eu preciso saber.
"Peeta" me viro para que eu possa ver a sua expressão. "Seus flashbacks são sempre tão ruins assim?" Eu tenho mais um milhão de perguntas. Com que frequência eles vêm? O que eu devo fazer? O que ele faz normalmente?
"Não." Tento olhar nos olhos dele quando ele diz isso, mas a partir deste ângulo, é mais como olhar o seu nariz. "Esse foi definitivamente o pior desde que eu voltei. As tempestades parecem desencadear os episódios, mas você foi perfeita."
Ignoro o elogio. Eu estive ao redor de curandeiros o suficiente para saber que quebrar em soluços durante um ataque não é o protocolo adequado. "O que você fez da última vez?" Eu direciono a conversa de volta para ele. Não foi a primeira vez que tivemos uma tempestade.
As bochechas de Peeta se contraem, como ele faz quando vai rir. "Eu tomei um monte de remédios pra dormir e peguei no sono no sofá até a tempestade passar."
Isso soa um pouco demais como Haymitch para o meu gosto. Eu prefiro que isso não tenha que voltar a acontecer, não enquanto eu estiver por perto. Eu sou a razão de ele ter esses episódios, por isso faz sentido que eu cuide dele. "Você vai ficar bem hoje à noite?" Eu coloco a pergunta propositadamente entre as outras questões, com o peso apenas o suficiente para parecer casual.
"Tenho certeza que sim", diz ele, tentando parecer confiante.
"Oh". Essa não era a resposta que eu estava procurando. Mas é o que eu deveria ter esperado.
"Tem certeza?" Eu tento de novo.
"Sim, assim como em qualquer outra noite."
"Porque se você precisar..." Eu paro. Eu termino o pensamento? Ou deixo que ele tenha a iniciativa?
O clique constante do ventilador de teto é o único som que eu escuto. Peeta não quebra o silêncio como eu quero que ele faça.
"Fique". Dessa vez é imperativo, e é todo o meu discurso enquanto eu aperto a sua mão. Não tenho certeza se eu devo abraçá-lo apertado ou deixá-lo decidir.
Uma palavra. É tudo o que precisa ser dito. Significa ficar comigo. Cinco minutos. Cinco horas. Durante toda a noite. Por toda a vida. "Deixe-me estar de olho em você, para caso você fique doente de novo esta noite".
Ele entrelaça seus dedos nos meus. "Tudo bem", ele sussurra.
"Peeta" Eu o cutuco. "Acorda".
"Umph", ele resmunga, obviamente, dormindo profundamente.
Seu braço pesa sobre as minhas costelas e sua cabeça está no meu ombro. Estou parcialmente presa por seu peso e pela massa de almofadas e cobertores que acabaram no chão da sala. "Eu vou sair", digo a ele. "Eu volto para buscá-lo na hora do almoço, ok?"
Ele rola. "Bom dia." Ele nem se incomoda a piscar os olhos fechados. Ele é geralmente um madrugador, mas não posso culpá-lo por querer mais alguns minutos de sono. Eu mesma não quero levantar.
O piso não é realmente a minha primeira escolha de um lugar para dormir, mas ontem à noite eu estava cansada demais para fazer mais do que ir até o armário atrás da mesa do café e arrancar um travesseiro, dormindo nas proximidades do sofá. Peeta seguiu o meu exemplo e acabamos acampados no chão. Não houve tiros ou explosões. Ninguém acordou à meia-noite aos gritos. Dormimos e hoje eu estou descansada. E depois de dois dias privados de caçar, tenho algumas coisas para recuperar.
Enquanto eu estou calçando minhas botas, eu me lembro de deixar para Peeta um bilhete dizendo aonde eu fui. Não consigo encontrar um pedaço de papel. Eu tenho um marcador preto, mas nada para escrever. Peeta está espalhado através de alguns travesseiros, com um braço jogado para fora dos cobertores. "Almoça comigo?" Escrevo no verdadeiro estilo Distrito 13. Ele não será capaz de ignorar isso.
O sol aquece o meu nariz e ombros, enquanto eu levo um menino com uma mochila ao redor dos espinhos e árvores da floresta. Vestido com mangas longas e um calça de caça, ele irradia felicidade por todo o local, colhendo alguns pés de endro selvagem. Ele reúne, enquanto eu espio, um pouco de manjericão que eu não tenho certeza de ter visto recentemente.
"O almoço?" Ele descansa a mão no meu braço, me distraindo da minha busca por folhas perfumadas.
Ai, não. Eu me esqueci. Eu fiquei jogando conversa fora com Greasy Sae, quando fui ao encontro dele e ignorei o mais importante. Bom, eu acho que nós vamos ter que encontrar alguma coisa.
Peeta abre a mochila e tira dois sanduíches. Um piquenique. Claro.
O sanduíche que eu estive esperando é um bolo branco quebradiço, uma surpresa completa.
"Qual é o motivo?" Pergunto ao tirar uma mordida. Tenho certeza de que deve ser o que sobrou do bolo de ontem.
"Nenhuma razão. Achei que você gostaria do recheio".
Eu furo o dedo na cobertura pegajosa. Queijadinha. Aparentemente, eu sou tão previsível como ele é.
Comer bolo na floresta. Não é algo que eu já me imaginei fazendo. Mas é agradável o suficiente para que eu, por alguns minutos, me esqueça do que nos trouxe até aqui. Peeta se inclina para trás ao meu lado, olhando para as nuvens. "Eu posso ver porque você gosta tanto de estar aqui."
É um tipo diferente da calmaria que há na Vila dos Vitoriosos. O zumbido dos insetos, o canto dos pássaros, os esquilos correndo no meio dos arbustos. Dr. Aurélius chamava de terapia da natureza. Essa é uma área que eu sei que estou progredindo.
Eu observo Peeta enquanto ele se espreguiça em um cobertor de grama de pelúcia verde. Ele parece tão contente, relaxado. Uma leve brisa sopra o seu cabelo para fora das ondas rosas de queimaduras em sua testa.
Ajoelhada, eu me inclino e traço os redemoinhos de seus cabelos com as pontas dos meus dedos. Eu toco onde suas sobrancelhas estão crescendo. Seus olhos estão fechados e há um meio sorriso preguiçoso em seus lábios. Ele abre os olhos e eu congelo.
"Eu-", eu começo a explicar, de repente, com medo de ter feito algo errado. Você parecia tão calmo, eu quero dizer a ele.
"Está tudo bem", ele me tranquiliza, colocando uma mão na lateral do meu rosto, me puxando para mais perto. Sua mão treme enquanto ele traça o meu queixo. Eu poderia me afastar, mover a cabeça para mais longe da sua, mas eu não faço. As pontas dos seus dedos param nos meus lábios.
Está tudo bem? Pergunto com meus olhos. Estou apavorada ou isso é algo totalmente diferente? Por que ainda estou me apoiando nele? Ele arrasta os seus dedos para longe dos meus lábios, mas é como se eu ainda pudesse senti-los em minha boca.
Antes de eu ter um segundo para me opor, sua boca está na minha. É macio e urgente ao mesmo tempo. A pressão aumenta no meu peito e eu percebo que não estou respirando. Estou tonta e me pergunto se as árvores estão girando ou se é culpa de alguma concussão. Eu pisco um olho aberto e as árvores ao nosso redor parecem paradas o suficiente. Deve ser um sonho, então, porque tem gosto de queijadinha e é doce como um glacê.
Ele se afasta. Não estou pronta para esta parte do sonho chegar ao final, então eu puxo seus lábios de volta para mim, por tanto tempo que, quando me dou por satisfeita, eles estão ficando dormentes.
"Real ou não real?" ele pergunta quando colapso de volta na grama.
"Eu não tenho certeza", eu suspiro, correndo minha língua sobre o que sobrou do açúcar nos meus lábios. Sonhos geralmente não têm um gosto, mas o que eu sei sobre sonhos normais, afinal?
Seus lábios me encontram de novo, pequenas cócegas nas minhas mãos marcadas, no interior do meu cotovelo, no meu ombro, no meu pescoço, na minha orelha. Com os olhos fechados eu permito que ele pare para me observar algumas vezes, mas eu acabo sempre o puxando de volta, lembrando do quanto eu queria fazer isso quando ele foi resgatado da Capital, do quanto eu queria que ele voltasse para mim meses atrás, do quanto eu queria sentir seus lábios mais uma vez.
"Eu senti sua falta." É mais um guincho de uma confissão. É a primeira vez que eu digo isso em voz alta, e quando eu termino de falar eu sei que eu perdi mais do que apenas poucos meses no ano passado. Ele suspira algo em meu ouvido que é mais fôlego do que palavras e aperta minha mão.
O que era para ser um passeio na hora do almoço e uma colheita de ervas e verduras para Peeta, se transformou em uma tarde que eu não esperava. Claro, Peeta sempre será mais do que um amigo.
"Gostaria de entender uma coisa", reflete Peeta. Ele está deitado de costas, com os cílios piscando para o céu azul.
"O que?" Eu me inclino ao seu lado, para obter uma melhor vista dele.
"O jeito que você me beijou na missão", ele começa e se move, de modo que ele esteja olhando para mim. "Eu tinha que tentar de novo."
"Isso foi há muito tempo", eu digo sem pensar. Eu não devia ter sido tão confusa, no entanto. Ele esperou 11 anos para falar comigo. Mas isso era o velho Peeta, que apesar de tudo o que eu tenho visto, está retornando com o passar do tempo.
"Eu não quero perder você de novo." Ele enfia um fio de cabelo atrás da minha orelha.
Fazer declarações é algo que eu não estou muito familiarizada e não há nada que eu saiba dizer para corresponder. Então, eu não digo nada e faço o meu melhor para evitar discursos mais sinceros. Meus lábios encontram os dele, sua suavidade, seu hálito quente, a maneira como ele está grudado em meu lábio inferior.
Peeta fica rígido em volta de mim, tremendo.
Não, de novo não. Um calafrio me percorre. Um sonoro "não" escapa da minha boca aberta. Será que Peeta não pode ter um momento de paz?
Ele segura o braço na minha frente, me dizendo para manter distância. "Me dê um segundo", diz ele com os dentes cerrados. "Eu acho que isso vai passar. São apenas um monte de lembranças."
Peeta se senta na grama, com os olhos bem fechados, em uma expressão de dor e intensa concentração.
Eu confio em seu julgamento e mantenho distância. Ando alguns metros de distância e retorno ao objetivo original. Enquanto eu não encontro um pé de manjericão, eu tento formar um buquê perfumado de flores amarelas e brancas. Estas pequenas flores nunca estiveram em nenhuma arena e não crescem na Capital cheia de concreto, de modo que, provavelmente, não tem nada a ver com as memórias contaminadas. Eu calmamente paro de pé, em frente a Peeta e ofereço um punhado. Ele ainda está tremendo um pouco, mas não é como se ele estivesse tendo, de fato, um flashback.
"Você está bem?" Pergunto com cautela.
Seu gesto não é inteiramente convincente.
"Eu trouxe uma coisa." Eu não sei se ele precisa de uma distração ou não, mas desde que ele não me mande embora de novo, vale a pena uma tentativa. Eu seguro no fim de uma das pequenas flores e entrego a ele. "Aqui".
Peeta, hesitante, segura a pequena flor amarela. Eu não acho que essas flores tenham crescido na cidade, porque ele não sabe bem o que fazer com elas. Lembro-me de colher um monte quando eu era pequena, antes mesmo de saber o que eu deveria fazer.
"Madressilva", eu digo. Ele ri quando eu mostro a ele o que fazer com elas. Nós dividimos o punhado de flores cheias do néctar doce que eu peguei. Em pouco tempo Peeta parece mais relaxado, alegre mesmo.
"Katniss, você sempre me surpreende", diz ele.
"Às vezes eu gosto de surpresas", medito, plantando minha cabeça em seu ombro.
E, em uma clareira gramada na floresta, eu percebo que eu não é como se eu estivesse me apaixonando por ele novamente. Isso já foi consumado há muito tempo atrás. Agora é mais como se eu tivesse caído em um buraco e permanecido lá por muito tempo. Agora estou apenas me puxando de volta para cima do buraco que eu estive sem ele.
Nós aproveitamos o dia, realmente não dizendo nada em particular. O sol está mais baixo no céu do que quando chegamos, mas não fazemos nenhum esforço para levantar ou sair. Não há nenhum outro lugar que eu gostaria de estar.
Peeta encontra um dente de leão e leva o seu tempo soprando os pequenos pára-quedas brancos ao redor de nós. As sementes difusas enfeitam a minha trança e eu dou risada.
Eventualmente, é hora de ir embora e Peeta pega a minha mão para me ajudar a levantar. Nós andamos de mãos dadas para fora do nosso refúgio gramado, em direção à cidade.
As ruas parecem mais ocupadas do que antes, ainda destruídas, porém como se as pessoas estivesse voltando para a cidade. Peeta acena para os conhecidos e eu desejo que a loja de doces seja reconstruída rápido, para que eu possa pegar um pedaço de chocolate ou um morango com sabor doce.
Entre a luz do sol, os devaneios de doces e a mão familiar que detém minha, eu me sinto tão longe da menina morrendo de fome obrigada a estar no confinamento da sala de treinamento...
Peeta para em frente a padaria de seus pais e deposita algumas flores que ele escolheu em nosso caminho de volta. Deixo que ele fique ajoelhado lá por quanto tempo for preciso. Eu coloco a minha mão em seu ombro. "Vamos reconstruir", diz ele.
Dou a Peeta o mais carinhoso beijo em sua bochecha que sou capaz. E como eu estou pensando em sua família e sua padaria, eu não observo ao meu redor. Não posso imaginar o que está por vir.
