Eu estou olhando diretamente para o cano preto da lente de uma câmera. Ela está diretamente apontada para mim e não há dúvidas de que eles tiraram uma boa foto. Eu fico paralisada. Uma mão está sobre a faca no meu bolso, mas nada de bom sairía disso. O instinto me assume. Preciso fugir.

"Peeta, Katniss!" o trio de repórteres com vestes neon suplica. "Só um minuto do seu tempo!"

Eles já tiveram muito do meu tempo. Não mais. O que eles estão fazendo no bombardeado Distrito 12, eu não sei, mas não vou ficar por aqui para descobrir.

Peeta levanta a mão para bloquear o flash. "Agora não. Por favor, nos deixe em paz."

Mesmo que suas palavras estejam na negativa, ainda é uma traição. Mesmo sabendo quem são, Peeta está dando algo para ser gravado, andando em linha reta em direção à uma armadilha.

Quando ele levanta a mão para se desviar da foto, seus dedos momentaneamente afrouxam o seu aperto dos meus e eu saio correndo. Atrás de mim, os ouço gritar: "Como estão as coisas agora que vocês estão de volta ao Distrito 12? O casamento ainda está de pé? Vocês já conseguiram encontrar a felicidade, agora que a guerra acabou?"

"Estamos nos recuperando, da mesma forma que o resto do país", diz Peeta finalmente. "Agora realmente, se você tem mais perguntas é melhor marcar uma entrevista."

Entrevista? Eu corro para mais longe de sua voz. Não haverá nenhuma entrevista. Eles precisam ir embora. Não haverá gravação, nenhuma aparição, mesmo que isso signifique ficar escondida em minha casa durante o tempo que for preciso.

Eu atravesso becos e teço um caminho através do labirinto destruído que é a cidade. Se eles sabem onde eu moro, provavelmente ficarão acampados do lado de fora da minha casa. Estou sem fôlego e chorando quando eu chego à trilha que passa atrás da Vila dos Vitoriosos. Desço pela janela do porão na parte de trás da minha casa para escapar das lentes que possivelmente me esperam. Eu me escondo em um armário sob as escadas antes de cair em um estrondo. Eu pensei que eu tivesse deixado isso para trás. Por que minha vida não pode ser privada? Por que todo o país precisa saber se eu sou uma lunática em estado de choque ou mesmo quando eu alcanço um pouquinho de felicidade?

No andar de cima, o telefone toca e vibra. A sirene estridente me lembra que isso não é um pesadelo.

A equipe de filmagem poderia estar acampada há semanas, como aconteceu no nosso retorno do primeiro Jogos, há dois anos. Eu não vou ser capaz de sair de casa sem ser convidada a anunciar possíveis nomes de bebê. Eles vão querer exclusividades - cada uma mais desconfortável do que a última. Eu esperava, agora que a guerra acabou, que houvesse algo mais atraente do que adolescentes recém-saídos do hospital psiquiátrico.

O chão de cimento é frio embaixo de mim quando eu abraço meus joelhos no meu peito. Fora estar sendo perseguida novamente, eu sei que Peeta vai trazê-los diretamente para mim. O assoalho range no andar de cima e eu temo o pior.

Passos rastejam para baixo das escadas. Um conjunto deles. Respire. Talvez ele não me encontrem. Eu me escondo nas sombras apenas para ganhar pegajosas teias de aranha no meu cabelo. Os passos se aproximam. Eles vão me encontrar.

"Que diabos você fez?" Isso é o que gritam comigo quando a porta do armário é aberta. Só que não é Peeta. Não é uma equipe de filmagem. É Haymitch e ele tem olheiras horríveis, uma meia preta sob os olhos e roupas amarrotadas. Ele provavelmente dormiu assim por uma semana. E mesmo no meu lugar entre as prateleiras, no final do armário, eu posso dizer que ele cheira significativamente pior do que o de costume. No entanto, ele é a única pessoa que eu estou quase contente em ver. "Aqui estou eu, tentando conseguir dormir honestamente por um dia inteiro, quando um bando de doidos da Capital, cheios de fru-fru nos cabelos, bate na minha porta perguntando sobre você. Sobre Peeta. Sobre vocês dois."

Ahh, então eles não tem certeza se eu estou aqui. Eu pisco para ele.

"E não me diga que não foi nada. Se não fosse nada, você não iria brincar de esconde-esconde com as aranhas como você está fazendo agora."

"Eles nos viram", eu confesso. "Nós estávamos na cidade e eles nos viram."

"Inferno", Haymitch cospe. "Foi só uma questão de tempo. Também, da maneira como vocês dois ficam desfilando juntos em torno da cidade."

Eu pensei que eu estivesse sendo tão cuidadosa. Até hoje. Até ter um lapso no meu julgamento. Amor estúpido. Sempre me faz uma idiota fora de mim.

Que Haymitch não aponte a dúzia de advertências que ele nos deu. Ele não precisa fazer isso. Nem mesmo Thom nos impediu. Isso é tudo culpa minha. Haymitch estava certo. Eu estava certa. Beijos não me causam nada além de problemas.

"O que eu faço?" Eu sussurro.

Grunhidos de Haymitch. "Eu vou lidar com isso. Divirta-se com as aranhas." Ele fecha as portas do armário. "Você tem alguma bebida?", ele pergunta abrindo as portas de novo, quando eu penso que ele me deixou sozinha. "Não se preocupe, eu vou encontrá-la." Seus olhos se viram sobre o pequeno armário usado como uma despensa para produtos enlatados. Os poucos recipientes deixados estão cobertos por uma camada de pó claro. Ele encontra uma garrafa marrom tampada, atrás de uma fileira de frascos de tomates cozidos, em um vidro transparente. Parece o uísque que minha mãe dava para os pacientes quando todos os outros analgésicos acabavam. Com certeza poderia ter vindo a calhar, se não tivesse sido esquecido. "Isso deve ajudar no truque", ele pisca para mim.

Eu quero argumentar que provavelmente não é o melhor momento para tomar uma bebida. Mas, provavelmente o ajuda a pensar ou talvez ele esteja usando seu remédio de ressaca infalível, nunca deixando o álcool sair de seu sistema.

Bêbado ou não, ele deve ser capaz de me tirar dessa bagunça. É a sua especialidade. Também é provavelmente uma coisa boa eu não ter despejado água gelada sobre ele durante algum tempo.

Meu plano é ficar aqui até que ele venha me dizer que está tudo resolvido. O assoalho no andar de cima range. É reconfortante não ser deixada completamente sozinha, ouvi-lo lá em cima falando, gritando com o gato. Alguns telefonemas de Haymitch devem cuidar disso. Depois, há o silêncio por um longo tempo. Os guinchos começam de novo depois de um tempo e eu estou esperando por uma boa notícia. A porta do meu armário é aberta.

"Está feito? Eles se foram?" Eu pergunto.

Só que é Peeta, o traidor, o menino língua de ouro. Ele sabe como trabalhar com as câmeras, adora. Ele deveria ter ignorado, mas ele não o fez. E esse é o problema. "Oh, é você", eu faço uma carranca.

"Como você está?" ele pergunta com uma enorme sensibilidade. Faz com que eu me sinta fraca e eu não gosto disso. Eu não sou fraca. Ou pelo menos eu não deveria estar.

"Estou em um armário com teias de aranha no meu cabelo. Como você acha que eu estou?"

Peeta vem e se senta ao meu lado. Essa é a diferença entre ele e Haymitch. Haymitch vive na sujeira, mas permaneceu na porta. A casa de Peeta é impecável, mas ele não tem medo do piso de concreto encardido e frio do porão inacabado. O espaço não é grande o suficiente para nós dois nos sentarmos como se houvesse uma sala real entre nós. "Eles querem falar com você", diz ele em voz baixa.

"Eu tenho certeza que sim", eu cruzo minhas mãos na frente do peito. "Por que você falou com eles?" Meu tom é acusatório.

"Para fazê-los ir embora", diz ele. "Eu pensei que você merecia mais do que alguém se escondendo nos arbustos em frente à sua casa. Mas eles viriam de qualquer forma. Haymitch está falando com eles agora."

Será que ele não percebe que ele piorou o problema?

"Ele é um traidor também," eu resmungo baixinho, sem realmente entender o que isso significa. Haymitch está fazendo isso porque eu pedi a ele. Mas e Peeta? "Você disse que os repórteres viriam de qualquer forma. É por isso que eu tenho que falar com eles?" Eu assobio. Eu não consigo mais dar sentido a este dia. Por que eles estavam aqui? Porque hoje de todos os dias? Tinha que ser ele. Quem mais tem conexões com a Capital? É tudo uma coincidência muito grande para ser ignorada.

Mesmo no armário escuro eu posso ver o branco dos seus olhos ficarem maiores. Ele faz uma pausa de um segundo antes de responder. Mais do que normal, ele está sendo cuidadoso, como se ele tivesse algo a esconder.

Eu deveria ter sabido. Eu deveria ter perguntado. Como todo o resto, sempre havia alguém para espionar. Mas Peeta? Eu queria que ele fosse um amigo, por isso dói ainda mais. A culpa é minha. Por que eu baixei a minha guarda? Toda a sua bondade... Eu deveria ter sabido que era bom demais para ser verdade. Ele mudou. Ele está apenas fingindo ser o menino que iria aquecer meus pés frios ou desenhar plantas comigo.

"Meu amor, não", ele tenta me acalmar da maneira que só ele sabe fazer. "Não é nada disso. Eu não tinha ideia sobre os repórteres."

Ele mente muito bem. Eu não sei se posso acreditar nele.

"Foi por isso que você voltou para casa, não é?" Eu não faço nenhuma tentativa de esconder a frieza na minha voz. "Porque temos que ser 'nós dois'" Peeta cruza os braços e espera. "Não negue. Você acabou de me dizer. Estão te pagando? Será que eles te ofereceram muito dinheiro para voltar para casa e tomar conta de mim? Para fazer com que eu deixe de ser um problema? É isso, não é?"

Peeta neutraliza toda a minha ira com uma calma carismática e não há nenhum indício de que a minha frustração o tenha atingido.

"Eu voltei porque esta é a minha casa. Eu queria as minhas memórias de volta. Eu queria andar pelas ruas do Distrito 12 e me lembrar de que o ar sempre teve um gosto de giz por causa da poeira de carvão. Eu queria me lembrar da luta improvisada que eu tive no playground quando eu estava na escola. Eu queria ver por mim mesmo a cor do céu quando o sol sobe por trás das montanhas."

"Se eu voltei por você?" continua ele. "Eu voltei para casa. Claro, eu queria me lembrar de você, te conhecer melhor, para obter de volta as minhas memórias. Você tinha mais respostas do que ninguém. E depois do que eu fiz, eu tinha que tentar fazer as pazes com você. Eu me arrependeria se não tentasse"

Ele faz uma pausa aí. A casa parece tão tranquila. Somos só nós dois. Eu estico uma das pernas, abandonando a forma de bola em que eu estava contorcida.

"Você foi uma surpresa", ele me diz. Suas palavras me fazem lembrar muito do gosto de mel com sabor de néctar. "Por alguma razão, eu esperava a menina com cara de pedra que se ofereceu por P..." ele engole omitindo a palavra que eu não suportaria ouvir agora "para a colheita. Uma garota que poderia enviar uma flecha através de um vira-lata tão facilmente quanto enfaixar uma ferida sangrenta. Corajosa e amável. Geniosa, porém gentil. Às vezes," Seus dedos sobem pelo meu braço "eu vejo flashes dela. Mas, às vezes você é tão diferente do que eu esperava..." Será que ele sabe que eu me sinto exatamente da mesma forma sobre ele?

"Eu não tenho que me lembrar de você como você era, eu recebo novas memórias todos os dias. E hoje? Claro que eu queria me lembrar de como era a sensação de te beijar". Suas mãos estão nos meus ombros agora. Quentes e reconfortantes dissolvem a raiva que eu não sabia que estava segurando em meus braços cruzados.

"Se eu voltei porque nós tínhamos que ser os amantes desafortunados? Não. Eu sabia que havia algo melhor pra se esperar do que um romance televisionado, mas... Eu estaria mentindo se eu dissesse que aquelas poucas vezes que você falou comigo, e contou sobre nós na missão não significaram nada para mim. Aquelas conversas e os vídeos que assisti trouxeram todos esses sentimentos de volta e é parte do motivo pelo qual eu voltei. Mas mesmo se você se mudasse para o 4 com a sua mãe, eu acho que eu teria, pelo menos, tentado voltar para a minha casa antes de ir atrás de você. Isso," Ele me olha nos olhos intensamente, como se estivesse venerando o meu rosto e eu estou subitamente consciente da proximidade de sua boca, apenas alguns centímetros da minha "não é um trabalho. Ninguém me obrigaria a fazer nada. Esta foi a minha própria decisão. Nunca teve algo a ver com Plutarch ou câmeras, ok?"

Com cada palavra, minha raiva derrete um pouco, e o que estava pesado em meu peito se ilumina.

Eu desperdicei horas, indignada com ele, quando ele é quem deveria estar com raiva de mim por agir tão estupidamente. Ele sempre esteve aqui e é por isso que eu o culpava. Eu não tinha o direito de acusá-lo de coisas tão horríveis.

"Então, se eu nunca tivesse conversado com você na missão, o que você teria feito?" Eu digo, pensando que, se ele não tivesse tido a paciência para mim, se as coisas tivessem ocorrido de forma ligeiramente diferente... Ele ainda estaria aqui?

"Talvez eu escolhesse ficar e supervisionar a reconstrução. Talvez eu fosse para outro lugar. Mas em nenhum outro lugar eu me sentiria em casa. Você também é o meu lar. E meu lar era uma das coisas que eu mais queria lembrar. Eu sempre sonhei em voltar pra casa depois do Massacre. Eu sempre dizia a mim mesmo 'apenas mais um dia antes de eu ir para casa, apenas mais um dia para estar com Katniss'. Eu sabia que o distrito tinha sido demolido. Mas, mesmo aqui é melhor do que uma cela 6x8. E você está aqui e comigo. Não há mais nada no mundo que eu poderia querer agora."

O peso aparece em meu peito novamente. Mas desta vez é porque estou sobrecarregada com a culpa.

"Por que você voltou para casa?", pergunta ele com sinceridade.

"Eu não tive escolha."

"Mas este é o lugar onde você teria escolhido se pudesse. Seus bosques, Katniss, estão no Distrito 12. Você teria voltado para casa."

"Esta é a minha casa. Você também faz parte dela", eu admito baixinho. Se eu tivesse a sua escolha, eu tenho certeza que teria sido a mesma. E se ele tivesse sido condenado a permanecer aqui eu voltaria, por ele. Por que eu ainda duvido de Peeta?

"Você tem todo o direito de ficar brava", ele me diz, soando um pouco demais, como o Dr. Aurélius, quando pregava que ficar irritada já é algo produtivo. "Eu prefiro que você não fique chateada comigo, mas eu entendo".

Eu realmente não quero ficar brava com ele. Mas eu não quero outra rotina. Eu não quero ser um peão em um dos jogos de xadrez de Plutarch novamente. Eu não posso lidar com isso. Estou chegando ao ponto onde eu não sei mais o que é real, mas aqui estamos. Há uma coisa que eu posso fazer neste caso para ter certeza.

Minha mão vai primeiramente para sua clavícula. Nada. Sua parte inferior das costas. Nada é captado. E não há nenhuma maneira de uma câmera pegar alguma coisa em meu esconderijo escuro como breu. É uma bobagem realmente, mas me deixa muito mais à vontade. "Ok," eu cedo. É um sussurro que eu não tenho certeza se quero que ele ouça.

"Sério?" Ele me olha como se estivesse se preparando para mais uma discussão. Concordo com a cabeça e olho para o chão, na esperança de descobrir se eu realmente tenho que pedir desculpas em voz alta. Em seguida, ele faz a última coisa que eu estou esperando, e de repente eu estou deitada em várias teias de aranha abandonadas, com Peeta em cima de mim.

Contra o chão arenoso e frio sob as minhas costas, seu beijo é surpreendentemente quente. Seus lábios puxam os meus como se estivéssemos ficado longe por anos, e não horas. Estou muito surpresa pra fazer alguma coisa, mas eu aceito. Me lembro que há apenas alguns minutos eu estava acusando-o de intrigas e espionagem. Claramente, ele não está com raiva das minhas acusações.

"Hum..." é tudo o que posso pensar em responder. Todo o resto pode esperar. Minha mão agarra a sua camisa, onde um microfone de lapela pode ser discretamente escondido em uma casa de botão. Mas eu tenho que confiar nele para saber que ele não faria isso e nem penso em verificar.

Um barulho arrastado na escada me deixa saber o nosso tempo acabou. Eu tento arrumar o cabelo desgrenhado de Peeta antes que a porta se abra. Ele parece ainda estar saboreando cada toque, sem saber do nosso visitante iminente. Minha mão está em seu cabelo quando um feixe de luz oscila em direção aos meus olhos, acusando a nossa proximidade neste espaço escuro. Nós fomos pegos.

"Vocês dois," acusa Haymitch. "Sempre me causando problemas."

"Nós estávamos apenas..." e Peeta está, aparentemente, com a língua presa. Exaustão é a minha teoria.

"Eu sei, eu sei", Haymitch suspira. "Praticando sem uma audiência. Deve ser horrível."

Peeta começa a protestar, em seguida, apenas olha o homem mais velho de forma risonha.

"Bom. Vamos lá então." Peeta empurra Haymitch para nos deixar e me estende a mão. "Eu não vou subir lá sem você."