É um presente muito generoso e nem um pouco bem-vindo. "O que vamos fazer com isso?" Eu estou à beira do pânico.

"Vamos comer?" Haymitch brinca.

Plutarch Heavensbee. Enquanto ele, provavelmente, salvou minha vida algumas vezes, também me lançou bolas de fogo, me queimou com gás nocivo e lançou inúmeros bestantes contra mim. Ele conta piadas ruins e está mais preocupado com a audiência da TV do que com a minha saúde. Eu gostaria que ele nunca tivesse caído na tigela de ponche, mas provavelmente essa é a minha memória favorita dele.

"Na verdade, não vamos não". Eu olho feio para Haymitch. "Como é que vamos manter a imprensa longe?"

Haymitch contrai o canto de sua boca. "Se um ninho de ratos," ele faz um gesto apontando a minha trança despenteada, "não os afugentou, eu não sei o que faria."

"Ha-ha". Eu lhe dou a minha melhor risada falsa e sem emoção. Ele é o único que consegue fazer piadas depois de tudo.

Peeta me traz uma xícara de chá e eu giro a colher no líquido esverdeado, enquanto contemplo o meu destino: me esconder na minha casa para sempre ou desistir e falar com aqueles imbecis, para quem sabe assim eles irem embora de uma vez. Nenhuma opção parece particularmente agradável. Mas eu sei que os presentes e telefonemas de Plutarch vão continuar a ocorrer até que estejamos, satisfatoriamente, na televisão novamente. Depois da sugestão de cantar em um programa, eu estou surpresa de nenhuma equipe de preparação invadir a minha casa com vestidos, cremes e pinças.

"Eu suponho que explodir os trilhos do trem esteja fora de questão", murmuro baixinho, parcialmente esperando que ninguém ouça.

A careta de Peeta sugere que ele ouviu. Você já não tem problemas o suficiente? Ele parece dizer.

"Katniss, se essa cesta for um aviso, não há como Plutarch nos ignorar completamente. Ou vamos filmar algo ou ele vai ter câmeras nos demarcando, e talvez até instaladas em nossas casas", diz Peeta. "Vamos dar uma entrevista na esperança de que eles nos deixem."

Eu não estou sendo nem um pouco fácil. Salsichas e queijo cheddar podem me proporcionar um lanche delicioso, mas não o suficiente para me convencer a ter o meu rosto cheio de cicatrizes à mostra para todo o país. "Eu prefiro não filmar", eu mantenho minha opinião. "Vamos ver como vai ser."

Peeta torce a boca para o lado e dedilha seu queixo com os dedos. Ele está irritado.

"Eles não estão aqui agora", eu tento ter a razão.

Ele endurece o seu olhar e cruza as mãos sobre a mesa à sua frente. "É só uma questão de tempo."

A cada segundo que passa, eu levo mais tempo para chegar a um plano, e um que não envolva uma explosão de qualquer natureza. Da última vez eu tinha os membros da minha família para me distrair enquanto gravava, pensando que assim, pelo menos, elas teriam notícias minhas, mesmo à distância. Agora eu tenho Peeta e Haymitch, que poderiam facilmente preencher as mesmas funções. Estou determinada a me agarrar à vida privada que eu tive nos últimos meses durante o maior tempo possível.

"Podemos dizer que eu não quero estar na frente das câmeras por causa dos enxertos de pele?"

"Ele vai enviar uma enfermeira e uma equipe de preparação", diz Haymitch.

Isso soa muito como um 'Especial de Transformação'. Eu deixo cair a minha cabeça na mesa e a cubro com meus braços. "Augh!"

"Talvez eles estivessem menos interessados se eu não estivesse aqui", Peeta sussurra. "Você quer que eu volte para a Capital? Eu poderia ir por algumas semanas. Há algumas coisas que eu poderia fazer por lá."

Peeta não quer ir. Ele odeia a Capital. Por que ele diria isso? Ao invés de dizer o que eu penso, eu chuto suas pernas sob a mesa e espero que ele entenda a mensagem.

Não é um chute forte, não com meus pés descalços. É apenas forte o suficiente para obter a sua atenção, mas ainda recebo uma sobrancelha levantada em desdém. Coloco o meu melhor rosto angelical. Eu não vou permitir que ele vá a lugar algum.

"Talvez", ele segura a palavra enquanto eu o observo, com um sorriso diabólico. "Eu diga a Plutarch que tivemos uma briga e que é um mau momento".

Reviro os olhos. Eu sei que ele está me testando e nem é um plano tão ruim, exceto... "Ele vai querer nos filmar em uma reconciliação de casais," eu gemo.

Sim, eu só posso ouvir um dos médicos de óculos do hospital da Capital me persuadindo a falar sobre meus sentimentos com Peeta. Ele vai peguntar a Peeta sobre seus problemas com sua mãe. E quanto mais eu penso nisso, mas eu prefiro beijá-lo na frente das câmeras. Seria menos embaraçoso.

"Nós poderíamos concordar em sediar um especial sobre o Distrito em reconstrução", diz Peeta. "Eu estou pronto para fazer isso."

"Eu vou ficar doente nesse dia" Eu digo. Toda essa situação é muito injusta. Mesmo os pães de queijo que Peeta continua empurrando para mim não estão ajudando.

"Katniss!" Ele está começando a soar exasperado. E, pelo que estou acostumada com sua forma de ser, isso é apenas o começo.


Os repórteres surgiram em massa sobre o Distrito 12 nos próximos dias. A primeira vez que eu tive um vislumbre deles foram apenas dois dias após a reportagem sobre aMilagrosa Recuperação do Tordo ir ao ar. Eles todos parecem jovens e têm um ar inegável da Capital . Há uma perceptível falta de peles coloridas e rostos tatuados, mas eles são identificados pela sua aparência, de alguma forma quase conservadora em relação ao que era, com roupas em cores gritantes como turquesa e maquiagens roxas. Em vez de rosa ou azul neon e perucas perfurantes, eles optaram por destacar seu novos cortes de cabelo, assimétricos e despojados .

As primeiras levas das equipes de filmagem saíram do trem a esmo, com câmeras, cabos de força e refletores de luz. No empoeirado Distrito 12, eles não são difíceis de identificar. Os vejo enquanto eu estou andando pela cidade no meu trajeto para a floresta, de madrugada. Meu caminho nem sempre é o mesmo, já que eu tinha uma suspeita de que haveria mais deles. Os repórteres parecem desorganizados e não funcionam com a precisão das equipes que estive acostumada - o que me dá vantagem. Eu me escondo furtivamente nas sombras, curiosa, mas não querendo ser vista. Meu plano é ir à caça. Peeta me pediu algumas frutas.

E então eu tenho uma ideia. Se eu escapar para a mata e desaparecer durante o dia, eu não teria que lidar com eles, e sim Peeta . Eu não tenho certeza se essas coisas o incomodam muito. Ele provavelmente iria convidá-los pra o café da manhã, pelo que conheço, mas ele merece algum crédito. Eu poderia facilmente chegar a sua casa antes dos repórteres, mas eu não sei até que ponto eles estariam atrás de mim. O que eu preciso é conseguir enviar a Peeta essa mensagem. Quando vejo Thom se preparando para limpar os escombros de onde a loja vestidos costumava estar, eu tenho a minha resposta.

Eu fico na floresta durante todo o dia na esperança de que quando eu voltar a equipe de televisão tenha desistido. Eu escondo o meu arco na árvore. Eu não quero ser encontrada e muito menos filmada com um arco. Eu largo o meu melhor peru na porta da casa de Thom, na esperança de que meu pedido de ajuda tenha sido entregue a Peeta. Aproveito os becos atrás das casas, curiosa para saber se eles ainda estão por aí.

Depois de entrar em casa pela janela aberta do porão, eu ligo para Peeta para que ele saiba que eu já estou em casa. Ele recebeu a minha mensagem e disse que bateram em sua porta minutos depois de Thom tê-lo avisado. "Não se preocupe, eu não disse nada. Eu não os deixei entrar, e ainda nem saí de casa."

Ele diz que está feliz de eu ter voltado e que ele viu a equipe se instalar em uma das casas vazias da Vila, com uma excelente vista de ambas as nossas casas. Isso significa que vou precisar me esconder mais ainda. "Eu acho que agora só vou te ver quando eles forem embora." Ele soa tão derrotado.

Mas hoje não foi uma perda total. É mais um dia não sendo filmada e eu me agarro a isso.

A casa está silenciosa já que eu estou jantando sozinha. Onde solidão costumava ser a norma, tinha virado um ambiente aconchegante e alegre, graças a Peeta. Hoje está extraordinariamente vazio, com apenas o som do ventilador de teto clicando para me fazer companhia.

Os próximos dois dias eu passo colhendo lenha e enterrando minhas flechas em esquilos e coelhos. Quando eu já tenho animais o suficiente eu só atiro. Eu tento diferentes distâncias e pontos minúsculos em cogumelos e outras superfícies macias que não iriam danificar minhas flechas. Caçar limpa a minha cabeça de uma forma que as pílulas e nenhuma terapia seriam capazes.

Greasy Sae me visita e conta que Peeta finalmente cedeu e deixou que o filmassem assando pães naquela manhã. Quando o telefone toca, ela atende e me passa com entusiasmo. É Peeta. Eu escorrego contra a parede, sentando no chão e fechando os olhos, deixando que as suas palavras matem um pouco da saudade que eu sinto. Eu não me lembro se ele estava recitando a sua mais recente receita de bolo ou me lembrando de ligar para o Dr. Aurélius. Não importa, porque naqueles poucos minutos, estamos de volta à nossa rotina, como as conversas no jantar. Minha ansiedade desaparece e estou torcendo, esperando que seu esforço tenha sido suficiente para que eles façam as malas e voltem para a Capital. Eu quero meu garoto do pão de volta.

Aparentemente, eu não tenho essa sorte, pois ainda há uma quantidade enorme de repórteres no distrito. Eu escorrego para fora de casa pelos fundos, antes do amanhecer e fico fora até depois de escurecer. Eu exploro uma nova seção do bosque todos os dias, observando onde as frutas que estavam verdes, agora estão amadurecendo. Eu até volto ao lago e nado.

Depois de três dias inteiros na floresta, eu passo o dia seguinte, silenciosamente, perseguindo a equipe de TV. Eu estou querendo saber o que eles estão fazendo. Eles tentam falar com os habitantes da cidade, perguntar-lhes se me viram ou o que eu ando fazendo. As pessoas mantêm distância dos repórteres estilosos da Capital como se eles tivessem alguma doença contagiosa. Simplesmente ignoram as perguntas. Quero aplaudir. Eles abanam a cabeça, viram e saem rapidamente na direção oposta. Mesmo os que sempre param para dizer 'Olá Katniss' e me perguntar se eu estou bem, ou se Peeta está precisando de alguma coisa, ficam friamente silenciosos quando um microfone é empurrado em direção a eles.

É comovente realmente. Dada a minha reputação manchada e a destruição que as minhas ações causaram no distrito, não parece existir a raiva e o ódio que poderia haver contra mim, pelo menos não entre aqueles que retornaram. Mesmo diante das câmeras, fui muitas vezes recebida com sorrisos falsos. Hoje, eu recebo risadas divertidas de quem me vê nas sombras, espionando a equipe de filmagem completamente alheia.

Quando um assistente olha na minha direção, eu tenho que me esconder em um barraco em ruínas à beira da Costura por cerca de uma hora até que eles deixem a área. O tempo de brincar acabou. Ao invés de continuar tentando adivinhar se eles vão ficar tentando me filmar nas partes distantes da cidade, eu decido voltar para a casa. Eu continuo fazendo a trilha que passa atrás das casas da Vila dos Vitoriosos, então eu acabo olhando para a parte de trás da casa de Peeta. Se as equipes estão ocupadas na cidade, será que talvez seria uma boa oportunidade vê-lo?

Entrar pela porta da frente é muito óbvio, seria como entrar em uma armadilha de corda sem ela nem mesmo ter sido coberta por folhas. Mas já que a sua casa é quase uma réplica da minha, eu sei que há uma fileira de janelas no porão, o que seria a minha melhor opção para entrar sem ser notada. E por trás de um arbusto alto, ele deixou uma janela destrancada. Eu não acho que alguém já tenha entrado em sua casa assim antes. Eu me sinto mais como alguém com o objetivo de roubar dinheiro, do que indo visitar um amigo.

Eu escuto atrás da porta do porão por um longo tempo antes de decidir que ele deve estar sozinho. Sigo o cheiro de massa fresca vindo da cozinha.

Pães estão amontoados em cima do balcão, em pilhas e pilhas de muito pão. É provavelmente o suficiente para alimentar a todos que retornaram ao Doze. E Peeta ainda está assando e amassando mais pães na forma adequada.

"Peeta, o que você está fazendo?" Eu pergunto, esperando que a sua resposta não corresponda à sua aparência. Seus ombros estão caídos, sua cabeça abaixada e suas pálpebras se mantêm fechadas por intervalos mais longos que o normal. Eu não tenho certeza de qual foi a última vez que ele dormiu, mas se o os pães servirem como referência, ele se manteve bastante ocupado.

Ele pisca para mim várias vezes antes de responder, como se ele estivesse tentando decidir se eu sou real ou não. Eu cruza a distância entre nós, me envolvendo em um abraço, entre ele e o balcão cheio de pães.

"Estou cansado". É o mais próximo de um lamento desde que ele voltou ao 12.

"Então porque você não dorme?" eu brigo.

"Eu preciso limpar isso", ele gesticula para sua cozinha atualmente desordenada. "E o pão, ele precisa ser entregue."

"Eu faço isso", eu praticamente o empurro para fora de sua cozinha. Ele despenca na cadeira mais próxima, uma mão tentando manter sua cabeça de pé na mesa da cozinha. Seu cotovelo lentamente escorrega centímetros para a frente, até que sua cabeça esteja descansando em cima da mesa.

"Eles já foram?" É um murmúrio ininteligível, sonolento nas palavras.

"Em breve", digo a ele.

A equipe que eu estava seguindo hoje reclamou em voz alta sobre os males infligidos pelos "hábitos caipiras" do distrito. Eu tenho que achar graça, porque desde que chegaram à cidade, todos tem encomendado com Greasy Sae seu ensopado de carne surpresa, apesar da abundância de legumes frescos e as primeiras colheitas de hortaliças. E depois de várias chamadas em seu escritório, a equipe finalmente conseguiu permissão para voltar para casa no trem da noite. Esse trem deve sair dentro de uma hora ou algo assim, então eu estou debatendo comigo mesma se valeria à pena segui-los até a estação de trem para me certificar de que eles realmente foram embora e desejar-lhes boa viagem.

"Você veio para o jantar?" um Peeta sonolento fala com apenas um lado da boca. "Eu posso fazer alguma coisa."

"Oh, meu bem, acho que você já fez muito", murmuro enquanto eu levantamento uma cesta com uma montanha de pães sobre o balcão. O que no mundo eu faço com tanto pão? Há muito para carregar. E tem que ser entregue. A Panificadora de Peeta é uma dádiva, em comparação com as rações enlatadas e o ensopado que é distribuído no distrito, para ajudar a população no seu sustento. As lojas não foram reabertas e nem reconstruídas e a demolição está em andamento. Enquanto eu penso no que fazer, eu corro água com sabão nas tigelas e colheres da pia e limpo a farinha para fora do balcão.

Grasy Sae aparece na porta e pelo olhar em seu rosto eu não sei quando ela esteve mais surpresa: se foi me ver na casa de Peeta ao lado de uma montanha de pães, um pouco fora da clandestinidade ou quando houve o ajuste da tabela na distribuição de grãos, durante o ano em que vencemos os Jogos Vorazes.

"Bem, parece que ele tem estado ocupado", ela observa enquanto procura e, finalmente, encontra o padeiro dormindo sobre a mesa.

"Tão ocupado que não pode dormir?" Ele certamente se manteve ocupado hoje, e quase entrou em coma de tanto cozinhar.

Greasy Sae vai até mim. "Ele não sabe o que fazer sem você", diz ela sem rodeios.

É claro que ele teve muito tempo em suas mãos e eu entendo o que ela está insinuando. Está me dizendo para não sair e deixá-lo sozinho durante tantos dias, para ser uma amiga melhor, babá, cuidadora, namorada, ou seja lá o que nós somos.

"Obviamente, ele sabe" eu aponto para o balcão. Eu tento descontrair com uma piada fraca.

Ela me dá um daqueles olhares que só uma mãe pode: sobrancelhas inclinadas em desaprovação, boca franzida e segurando um comentário que eu tenho certeza que eu não quero ouvir. Ela quer me dizer que eu não deveria fugir e me esconder dos meus problemas.

O desafio do momento parece ser o que fazer com todo esse pão. Peeta quer que seja entregue, mas estou hesitante em ajudar com a ameaça de câmeras à espreita. Estou bastante certa de que as equipes embarcaram no último trem para fora da zona do 12 esta noite, mas me ver entregando pão seria um golpe para eles.

Greasy Sae me salva, embora não se ofereça para cuidar dele por mim, como normalmente faz. Ela e sua neta carregam os pães em tantos sacos quanto elas podem transportar. Seu olhar reprovador me diz que eu tenho que atender melhor aos meus outros deveres, especificamente aqueles estão atualmente babando na mesa da cozinha.

"Vamos para a cama", eu digo em seu ouvido depois que somos deixados sozinhos.

"Você está cheirando à fumaça... Como cinzas", ele suspira na mesa de carvalho. E é assim que eu sei que fazer com que ele se levante vai ser uma luta. Ele está, obviamente, dormindo. Lúcido, ele nunca diria algo tão direto, oscilando para rude. É verdade. Depois de passar tanto tempo na cidade eu tenho certeza de que eu estou com um cheiro horrível.

Sento-me à mesa por alguns minutos tamborilando os dedos e ele não se mexe. "Vá para a cama, Peeta" eu tento de novo. Não pode ser confortável dormir em uma mesa. Sem resposta. Eu empurro minha cadeira da forma mais barulhenta que eu consigo e vou em direção à porta. Estarei de volta assim que ele perceber.

Ele finalmente levanta a cabeça e pisca para mim várias vezes. "Tudo bem, eu vou", ele diz, com a cabeça pesadamente caída para baixo.

E depois de vários minutos piscando, alongando e movendo o pescoço, ele se levanta. Só que ele se dirige para a televisão e não para o seu quarto.

"Mal pode esperar para ver a si mesmo fazendo pão na TV" Eu brinco. "Eu vou começar a chamá-lo de Caesar."

"Não", ele se inclina contra o braço do sofá. "Eu queria ver você."

Faço uma nota mental para verificar se Peeta está com febre quando eu tiver a chance. "Eu estou bem aqui."

Ele balança a cabeça. "Eu ouvi um dos assistentes dizendo que haveria um programa especial sobre você hoje à noite, eu acho."

"Eu duvido que tenha. Eles teriam que me pegar primeiro." Sai como se eu estivesse me gabando e talvez eu esteja.

Peeta me enfrenta. Seu rosto está gravado com descrença. "Sério?"

"Eles não me filmaram" eu defendo.

"Tem certeza?"

"Vamos levá-lo para a cama", eu o conduzo pelo braço, na esperança de mudar de assunto. E ao meu toque, Peeta me segue como uma criança. Só então eu percebo que eu não o vejo há quase uma semana. Ele poderia ter estado doente e eu não teria conhecimento. E vendo que ele usou quase toda a sua farinha fazendo pão, ele claramente não está pensando direito.

Dia após dia de evitar as câmeras, se transformou em dia após dia de evitar Peeta, porque eu estava muito preocupada de eles nos verem juntos. Eu não podia simplesmente entrar em sua casa pela porta da frente, não com repórteres em todo o caminho. Porém eu deveria ter tentado fazer qualquer coisa para vê-lo. Mas eu estou aqui agora e isso é tudo que importa. Eu vou fazê-lo dormir e espero que quando ele estiver descansado, sua mente se torne um pouco mais clara.

Ele se instala suavemente na cama. Sento-me em uma cadeira que eu puxo, ao lado da cama.

"Você vai ficar?" ele pergunta, sua voz soa tão sincera que eu sei que eu não tenho escolha, então eu respondo que sim.

"Talvez eu devesse tomar banho primeiro" Eu brinco.

"Eu não me importo." E como se para provar isso, ele coloca sua cabeça no meu colo coberto de fuligem. Eu não tenho certeza se foi uma ação consciente ou não, mas seus braços me envolvem com tanta força que eu não poderia sair nem se eu quisesse. Ele me perdeu. Ele odeia ficar sozinho. Ele só queria me ver.

"Me faz companhia", ele insiste. "Diga-me o que você andou fazendo."

"Hmm. Bem, o mesmo que eu faço sempre, Peeta. Porque no mundo você assou tanto pão?"

"Para me manter ocupado", diz ele, como se não fosse nada. "Alguma coisa produtiva para fazer além de me preocupar com você. Sei que você vai dizer que não era necessário, mas eu não conseguia dormir, então comecei a cozinhar..."

É como se nós estivéssemos ambos empacados no ano passado. Apenas, ao invés de começar do zero, ele começou um novo lote, uma e outra vez. "Você pode dormir agora", eu o acalmo.

"Eu gostaria disso..." Ele beija a minha perna. Ele é o único que está sendo deixado durante todo o dia e noite para enfrentar os repórteres, enquanto eu me escondo, e ele que se preocupa comigo.

Quando ouço o som de Peeta dormindo, eu movo sua cabeça para a cama e me levanto. Eu tomo um banho e troco as minhas roupas com cheiro de fuligem por uma blusa roubada na cômoda de Peeta. O meu esforço é recompensado quase que instantaneamente, quando eu resolvo me deitar na cama.

"Você é tão cheirosa". Ele não perde tempo e me agarra, me puxando para mais perto. Eu coloco minha cabeça em seu peito e em poucos minutos ele volta a dormir profundamente.