"O pão". Peeta se senta bruscamente na cama e minha cabeça é arremessada pra fora de seu peito, em um travesseiro.
"Cuidado" eu digo, ainda não completamente acordada.
Peeta respira fundo, duas vezes. Ele sempre faz isso ao acordar. No início da manhã sempre é difícil dizer o que é um sonho e o que não é. Eu puxo seus ombros para baixo, mas ele permanece onde está. Então eu me deito e viro meu rosto para longe dele.
"Tudo bem?" diz ele interrogativamente, alguns momentos antes de decidir deitar na cama de novo.
Eu pretendo ficar aqui até o sol nascer, pelo menos. Algumas horas a mais de sono não vão me machucar. Principalmente porque eu estou confinada aqui, de qualquer maneira.
Ele aperta a minha mão na sua, fazendo com que eu me vire de frente para ele. Isso logo se transforma em um abraço de urso, onde ele enfia a minha cabeça sob seu queixo. Ele acaricia o meu rosto com os dedos.
Eu engulo o caroço que se formou na minha garganta. Ele está de volta para onde paramos, mas parece que é a primeira vez, já que meu estômago parece que está torcido, cheio de nós causados por borboletas esvoaçantes e entusiasmadas. Mas eu tento me afastar. Isso ainda não está certo, não quando eu ainda não me desculpei.
Ele não permite, no entanto. Ele segura meus ombros ossudos nas mãos, porém não diz uma palavra. Depois de tantos dias de intervalo, há um vazio entre nós, vazio esse que eu causei, com meu comportamento egoísta.
"Me perdoe", eu peço. Ele corre os dedos nas minhas costas, me embalando de volta em seus braços. Sonolenta, eu me aconchego mais nele.
Eu pretendo manter a calma. Para mim, as manhãs tendem a significar raiva ou lágrimas. Alguns raros dias elas estão perto do normal. Mas elas são muito piores quando estou sem Peeta. Durante esses dias, eu apressei a minha rotina e saí pela porta antes da ansiedade se rastejar dentro de mim. Mas agora, com ele aqui ao meu lado, me abraçando e me passando a sensação de segurança que apenas Peeta poderia me proporcionar, toda a pressa e o tempo que passei escondida na floresta, olhando por cima do meu ombro, me alcançou de uma forma brutal. O valor de uma semana de preocupação começa a derramar dos meus olhos. Antes eu não suportava entrar em colapso. Agora ele serve para me mostrar o quanto eu senti falta de Peeta.
Sem pedir, eu escondo o meu rosto em seu peito, abraçando o mais forte que eu consigo. Eu não pretendo mais me afastar dele. Nós ficamos desse jeito, ouvindo as nossas respirações e o som que meus cílios fazem quando piscam contra ele. É dessa forma que uma manhã tranquila deve fazer com que eu, supostamente, me sinta: sem neblinas e mal-humores, apenas calmaria.
Depois de um tempo, Peeta começa a me entreter com as táticas ridículas que as equipes de filmagem têm recorrido: as câmeras em suas janelas, o enxame constante que faz com que seja impossível para ele sair de casa. Ele narra as perguntas que fizeram a ele, desde o tipo de medicação que ele usou em seu tratamento até o que temos feito nestes últimos meses. E, fiel à sua palavra, ele evitou todas as perguntas certas.
Eu descrevo meus jogos de esconde-esconde e ele ri em todos os lugares certos. E em algum lugar entre as piadas sobre os comerciais percebo que Peeta se tornou o meu melhor amigo. Ele sabe quase tudo sobre mim desde os comprimidos que eu tomo para manter a depressão sob controle até o jeito que eu sempre consigo manchar a borda da minha mão de tinta quando eu escrevo.
Nós não fomos abandonados juntos aqui no Distrito 12. Isso não precisava acontecer. Eu poderia ter terminado como Haymitch ou ter encontrado um novo parceiro de caça, dentre os residentes que retornaram, mas aqui estou eu, sorrindo enquanto Peeta me diz o que aconteceu quando um repórter, com reflexos púrpura nos cabelos, tentou pegar Buttercup para tirar uma foto. Deitada aqui ao lado dele, eu não me sinto forçada sorrir, mas eu estou. Ninguém jamais conseguiria tirar um sorriso de mim tão cedo pela manhã, a não ser Peeta.
Só que ele já terminou sua história há muito tempo. Eu estive perdida em pensamentos, olhando para ele e sorrindo, como se ele ainda estivesse falando. Eu meio que esperava um comentário como 'Você nem estava me ouvindo', mas ele se inclina para trás na cama e sorri para o teto.
Nossa manhã é interrompida por uma batida na porta. Você não tem que abrir, eu tento transmitir em um olhar. Ele olha para mim franzindo a testa e, soltando um suspiro, se move em direção à porta vestindo a mesma calça de ontem e nada mais.
Instintivamente, eu me escondo debaixo das cobertas, mas não há nenhuma ameaça imediata a ser encontrada. A roupa de cama cheira a Peeta e o resto da casa cheira a pão, como sempre. Eu poderia ficar lá, mas a curiosidade toma o melhor de mim e eu, na ponta dos pés, espiono do topo da escada.
"Você é bem-vindo. Não há problema algum. Não, eu não fiz... Hmm. Se você diz que sim. E essa é a notícia mais maravilhosa." Esse é a parte da conversa que ouvi.
Eu tento voltar para o quarto silenciosamente, mas eu piso em uma placa de madeira que range de uma forma estridente. Bom, eu me denunciei.
"Katniss, eu sei que você está aí," Peeta começa balançando a cabeça de forma risonha, oferecendo-me o sorriso maroto de uma boa notícia. "Thom disse que a equipe de filmagem deixou o Distrito ontem à noite."
Ele não precisa dizer mais nada. Isso é tudo que eu quero ouvir. Quando nos encontramos na base das escadas eu jogo meus braços em torno dele. Sem precisar me esgueirar, sem precisar mudar a minha rotina. Na verdade, poderíamos ir lá para fora hoje. Mas, como eu estou praticamente pulando em cima dele, ele tomba e eu caio por cima dele, no tapete.
"Eles disseram que eu sou chato e eles nem sequer acham que você está no distrito", ele ri.
Ouço a porta da frente se abrindo e penso que Thom está de volta, antes mesmo de olhar para cima.
"A-ham". Eu reconheço esse desagradável e desaprovador pigarro em qualquer lugar. Peeta se senta e eu estou de pé, na base da escada. Qualquer indício de risada desapareceu do ambiente.
Peeta não deve ter trancado a porta atrás de si. Até esta semana, ele nunca manteve a porta trancada, então eu não posso culpá-lo. Não importa, este visitante mal cheiroso teria invadido o local, independentemente do bloqueio. Poderíamos ter tido alguns segundos de aviso, no entanto.
Nunca é uma boa notícia quando Haymitch aparece durante o dia, então eu não estou esperando nenhuma festa exatamente. O brilho mortal que ele me dá com os olhos injetados de reprovação, embaralha os meus sentimentos ainda mais e não alivia o nó em minha garganta.
"Eu sabia." Ele põe a mão no queixo e olha a minha roupa desalinhada de cima a baixo, como se estivesse me avaliando. "Você poderia ter me contado." Ele observa uma cadeira e solta um longo suspiro. É o olhar que ele nos lança que me mostra que ele está tramando. Eu não tenho nenhuma ideia do que está acontecendo, mas eu estou esperando que não seja uma de suas ressacas.
"Seria mais fácil se você estivesse em casa", ele resmunga. "Mas não", ele se arrasta para longe enquanto caminha em direção à cadeira. Ele a vira para trás, cruza os braços e deixa escapar um longo suspiro. Ele segura sua faca e distraidamente limpa suas unhas.
"Calças", Haymitch finalmente grunhe. "Você provavelmente deveria vestir umas calças."
Por todo o seu comportamento, eu estive esperando um sermão e não conselhos sobre moda.
"Eu estou bem", eu ainda estou vestindo a camisa de algodão que roubei da cômoda de Peeta ontem à noite. Talvez ele esteja tentando me fazer parecer um pouco culpada. A camisa vem na metade da coxa quando estou de pé. Sentando no sofá, eu a puxo nervosamente para baixo para cobrir mais das minhas pernas cheias de cicatrizes. Minhas pernas não foram tão gravemente queimadas como o meu tronco, mas eu estou quase sempre de calças. Peeta tem as mesmas cicatrizes, mas, como eu, ele não parece se importar. Porém Haymitch não deve querer ver a miscelânea desfigurada, que costumava ser uma perna de aparência normal.
"Se você diz que sim, querida." Ele se dirige para a porta.
É só isso? Eu olho para Peeta para obter mais respostas, enquanto eu tento decidir se essa foi a mais estranha visita de Haymitch de todos os tempos.
"Eu gostei de te ver só com a minha camisa", Peeta sussurra em meu ouvido.
Eu fico muito corada e reconsidero seriamente vestir calças. Mas eu ainda não tenho ideia do que aconteceu ou o que falta, ou se tem algo a ver com gravar para a imprensa. Eu não tenho tempo para pensar sobre isso, porque da mesma forma rápida que Haymitch saiu, ele está de volta, dessa vez, entretanto, com reforços.
Ele traz um homem corpulento e muito alto, vestido com grandes botas e traje militar preto. Ele tem um corte de cabelo bem curto e uma escuta em sua orelha. Haymitch pisca para mim. Ele tentou me avisar, mas da sua própria maneira.
Ele se parece com os guardas que estavam na Mansão Presidencial, no último dia da Turnê da Vitória. Tudo o que posso pensar é que estou sendo levada para a minha sala de treinamento, para prisão. Ele vai me levar de volta para lá, eu sei disso. Da minha cabeça aos meus dedos, o terror se espalha através de mim. Por que agora? E por que Haymitch está nisso?
Ele lança um olhar curto para mim e, em seguida, emite um sinal sonoro sobre o seu fone de ouvido. "Oitenta e seis Freedom Rings, tenho a confirmação visual na residência Mellark. Cabelo preto. Olhos cinzentos. Cicatrizes correspondentes à descrição"
"Estamos a caminho," uma voz pequena chia através de seu rádio.
Minhas mãos não param de tremer. Eu não vou voltar para lá. Eu deveria correr, mas não posso me mover. Os movimentos do oficial são muito cautelosos e ele está acima do meu esconderijo no fundo das escadas.
"Nós vamos precisar ouvir a sua declaração", diz ele com uma voz completamente diferente da profunda que eu acabei de ouvir. Se eu tivesse que adivinhar qual voz seria essa, diria que é provavelmente reservada para crianças tímidas e animais domésticos excessivamente manhosos.
Eu gerencio um aceno de cabeça.
Peeta tenta cobrir ainda mais as minhas pernas com a sua camisa. Ele deixa uma mão no meu joelho. "O que está acontecendo?" ele pergunta a Haymitch. Ele não diz nada, mas olha para o relógio em seu pulso e liga a televisão. Ele passeia através dos canais até encontrar o que ele está procurando.
A parte inferior da tela é um anúncio de que o Tordo violou os termos de sua libertação e está desaparecida. Eu poderia bater a testa no corrimão, de tão frustrada que eu estou.
Depois de alguns minutos, o comercial que, aparentemente, estreou no noticiário da noite passada é transmitido. Não é a equipe Magenta do outro dia, mas uma outra que parece familiar.
"Oi Ken, estamos aqui no acolhedor Distrito 12,", um repórter com listras roxas em seu paletó e um microfone na altura do queixo range os dentes "onde o Tordo foi liberado depois de seu julgamento. Curiosamente, no entanto, não podemos encontrar nem sombra dele." A imagem corta para a minha casa. Com as roseiras cheias de flores, ela não parece abandonada, mas eu não estou empertigada na porta da frente também.
"Há dias que batemos em sua porta sem resposta. Ela não atende as ligações. Nenhum de seus vizinhos parecem tê-la visto também." O clipe alterna para o centro da cidade, onde um após outro morador abana a cabeça para a câmera quando perguntado sobre mim. Eles não querem é me denunciar, mas o repórter tenta passar como se eles não tivessem me visto. "Ela está mesmo no distrito? Certamente não, quando olhamos dessa forma."
E então me atinge. Peeta tinha me avisado sobre esse especial na noite passada.
"Isso chamou a atenção do público", o oficial musculoso finalmente se faz presente. "O juiz me mandou verificá-la já que ninguém conseguia entrar em contato com você." Ele olha na direção de Haymitch. "Ou com seu mentor. Tínhamos que verificar para saber se você tinha fugido ou não."
É claro que eu estou com problemas com o governo. Não estou sempre?
"Eu disse que ela estava no Distrito." Haymitch resmunga para ninguém em particular. "Mas ninguém pensou em procurar aqui. Porque o Tordo estaria na casa do seu namorado, não é mesmo?"
O musculoso toma um assento na mesa da cozinha, onde todas as reuniões de estratégia são realizadas, mas por nós. Ele espalha alguns papéis em cima da mesa e segura uma espécie de quadro fino e eu sei que esse deve ser o momento em que sou interrogada. Eu me levanto do sofá e sigo o seu caminho, grata por pelo menos não ser arrastada para qualquer lugar, ainda.
"Onde você esteve durante toda a semana?" O oficial pergunta.
"Ela esteve aqui a semana toda", Peeta responde antes que eu possa ter uma palavra dentro da conversa.
"Senhorita Everdeen?" ele envia um olhar severo na direção do padeiro.
"Estive aqui no bairro." Tento discernir o que ele está verificando no quadro e o que ele está digitando. As palavras de cabeça para baixo estão em letra maiúscula.
"Então, por que nós temos uma reclamação de que você não estava aqui?"
"Ela não gosta das câmeras", diz Peeta. "Katniss estava se escondendo delas. Certamente, não há nenhum crime nisso."
"Então, nós temos que acreditar que uma equipe de filmagem estava acampada em sua casa e não tirou uma foto dela por uma semana inteira?"
Haymitch resolve participar da conversa "Você a viu em seus primeiros Jogos? Pense nisso."
O oficial sacode o seu quadro, exasperado. Os meninos estão se intrometendo na conversa como se eu não estivesse aqui. Eu fico grata ao perceber quantas vezes eles vieram em minha defesa sem que eu estivesse por perto.
"Então você não deixou o distrito em nenhum momento desde o seu retorno?" ele volta sua atenção para mim.
"Eu não", eu respondo honestamente, tentando obter algumas palavras em minha defesa.
"O que você tem feito durante toda a semana?"
"Eu fui para a floresta. Juntei algumas frutas, subi em algumas árvores. Saí cedo e talvez por isso os repórteres não me filmaram. Cheguei tarde em casa, também." Deixo de fora a parte sobre a evisceração de coelhos e todas as outras referências a facas, flechas, morte e matanças em geral. Isso parece melhor.
"Por que você não atendeu ao telefone?"
"Eu não quero falar com jornalistas." Os meninos parecem estar me deixando lidar com isso, embora com relutância.
"Portanto, se sua mãe ligou você não atendeu?"
"Ela iria entender."
"E quanto ao Dr. Aurélius?"
Essa parte eu me esqueci. Eu franzo a testa.
"Ela esteve em sua casa todas as noites?"
Eu olho para Peeta. Ele poderia mentir e dizer que sim.
"Na noite passada eu fiquei doente e ela esteve cuidando de mim", diz Peeta. Eu não tenho certeza se é inteiramente verdade. Ele não estava se sentindo bem. Ele fez parecer como se alguém precisasse ficar de olho nele, no entanto. "Fora isso, eu sei que ela esteve em sua casa."
O oficial procura em seu quadro e em alguns formulários e escreve algumas palavras aqui e ali.
"Isso é altamente incomum." O homem vestido de preto empilha os documentos e os bate sobre a mesa. "Bem, você está na zona de exílio agora. Você não parece estar em perigo e nem representa uma ameaça para a comunidade. Nós não temos nenhuma evidência de que você deixou a área. Vou ter que enviar um relatório para arquivar o caso."
Ele coloca os papéis em uma pasta de arquivo em preto. "Você vai precisar retomar as suas ligações com o Dr. Aurélius. Isso vai passar a ser a nossa checagem. Mantenha suas chamadas semanais e vamos descartar esse incidente. Eu não acho que nós precisamos fazer qualquer outra coisa no momento."
Ele olha diretamente para mim. "Se você negligenciar as suas chamadas, você verá o meu rosto bonito novamente. E não é que eu não ame o Distrito 12, mas da próxima vez eu não vou ser tão agradável." Ele bate em seu cinto de utilidades, quando ele diz isso. Os pacificadores tinham armas. Mas o que está em seu cinto eu, provavelmente, não vou querer saber.
"Realmente, esse é um ótimo trato", ele me diz. "Mantenha os telefonemas semanais e não voltarei para te prender."
Ele se levanta e me pede para assinar uma folha. Ele não está me levando de volta para a sala de treinamento. Que alívio.
"E você", ele olha Haymitch de cima a baixo. O vencedor astuto, aparentemente, não o intimida. "Eu vou enviar uma equipe de reparação para consertar o seu telefone quebrado o mais rápido possível."
É a primeira vez que eu vejo aquele olhar no rosto de Haymitch desde que voltei para casa: culpa.
"Oitenta e seis Freedom Rings," o oficial fala em seu fone de ouvido, "o caso foi resolvido. Estarei aguardando recolhimento."
O oficial musculoso acena um adeus para nós.
Haymitch murmura algo baixinho. Soa como: "Seria mais saudável me afeiçoar apenas às garrafas de bebida."
Não parece que vou ser arrastada de volta para a Capital, mas ainda há a questão problema do país pensar que há uma garota louca e perigosa à solta, não estando mais entre os restos bombardeadas do antigo distrito de mineração.
Eu vou ter que provar que eu estou realmente apavorada com a marcação cerrada das equipes de filmagem, lê-se com as boutiques de roupas de pele da Capital. Isso nos traz de volta à solução anterior de Peeta que eu, à contragosto, resolvi ceder. Encontro o que ele precisa, entre uma pilha de pedaços de papel e ele pega o telefone para fazer o temido acordo.
"Peeta! Tão bom ouvir você outra vez", a voz de Cressida vem do outro lado da linha e eu levanto a minha cabeça para escutar melhor. Ela e Pollux me enviaram uma carta logo que eu voltei, perguntando se eles poderiam conseguir uma entrevista. Agora, para aceitar esse convite, nada mais justo que o padeiro mais carismático de toda a Panem confirmasse a entrevista. Em Cressida e Pollux eu confio. Eu não confio em Plutarch, tanto que eu poderia jogar fora as sua cesta ridícula de presente.
Peeta faz a conversa fiada sobre o distrito parecer um apelo social para um velho amigo. Cressida diz-lhe tudo sobre a sua promoção, seu novo escritório com cadeira giratória e as novas câmeras com autofoco que não funcionam nos rostos que foram tingidos, tatuados, furados ou modificadas demais.
"Eu estava pensando sobre os jornalistas que estiveram no Distrito 12 recentemente. Um pequeno aviso sobre isso poderia ter sido bom." Diz Peeta, nada diplomático e direto ao ponto, e eu teria dito nada educado.
"Oh, a primeira equipe", Cressida ri. "Perdemos alguns repórteres na guerra por isso temos um monte de repórteres realmente frescos atuando. Essa equipe foi retirada de algum show no canal de novelas, dizendo que eles queriam fazer notícias reais. Sabe, aquele repórter, sabe-se lá qual é o seu nome, estava filmando uma reportagem sobre jardinagem no 11. Uma borboleta pousou sobre ele e ele não parava de gritar, ao vivo na TV. Ir para o 12 foi sua punição. Eles tiveram sorte ao encontrar vocês dois. No que vocês estavam pensando?"
"Não víamos uma câmera aqui no Distrito há muito tempo", Peeta faz uma careta. "Quais eram as chances?"
"Elas certamente nunca estão ao seu favor. Posso afirmar isso. E depois daquilo, foi tudo ladeira abaixo. Vocês sabiam que uma hora eles iriam aparecer. Nós teríamos ido se não estivéssemos inundados de trabalho. Nós não teríamos deixado que vocês fossem perturbados tão facilmente. Diga à Katniss que eu não teria deixado que se escondesse de mim. Eu teria o seu canto, tenho certeza", ela possui um ar tão sério que eu tenho que rir.
"Foi até um pouco normal para o Distrito 12," ele suspira. "Eu deveria ter imaginado."
"Normal é não precisar se esconder, garoto", diz ela. "Então o que está acontecendo com você e Katniss?"
"Nós não podemos nem deixar as nossas casas", reclama Peeta conforme o script. "Isso não é nada bom."
"Esse é o preço da fama." Ela parece totalmente despreocupada.
"Nós estávamos apenas querendo saber se você poderia nos informar quando os repórteres viessem para o 12, para que possamos estar preparados. Você sabe, Katniss com seu cabelo e maquiagem." Peeta pisca para mim.
Cressida bufa. "Tenho certeza de que posso avisar com antecedência quando houver qualquer coisa oficial , mas com todos esses novos repórteres disputando posição vocês logo seriam fisgados. Hmmm... Eu vou ver o que posso fazer. O que você tem em mente?"
"Bem, nós temos uma espécie de dom para evitar esses repórteres que ficam escondidos em arbustos sempre que possível, mas com toda a reconstrução na cidade é um pouco difícil, então nós decidimos aceitar a entrevista. Mas fique tranquila, se você precisar de alguém para dar uma atualização quando os novos edifícios começarem a subir, eu poderia te avisar."
"Se vocês gravarem um especial conosco, prometo manter os repórteres longe por um bom tempo."
Tudo isso já foi pensado antes, quando Peeta desenterrou a carta com o seu número de telefone, mas ainda estou sorrindo para o jogo que estão jogando. Ela está empurrando todas as suas fichas na mesa, à espera de sua confirmação. Se Peeta não fosse tão loiro e de olhos azuis, eu pensaria que ele passou muito tempo em jogos de cartas no Prego.
"Obviamente, vocês são a nossa equipe preferida," Peeta acrescenta uma pitada de charme. "Podemos estar dispostos a gravar uma entrevista sobre o distrito em reconstrução, dentro de um mês ou assim, se não se limitarem às nossas casas."
"Parece razoável."
Eles terminam o negócio. Se ela souber algo de antemão, ela vai avisá-lo. Eles trabalham as especificidades e eu perco o interesse em ouvir .
"E Peeta", diz ela, pois estamos encerrando a conversa. "Vocês dois têm passado por muita coisa juntos e nós queríamos poder participar quando chegar a hora." A preocupação surge em sua voz, momentos depois de o acordo ser fechado. Eu finjo que estou ocupada com uma farpa encravada na parte carnuda do meu polegar, fingindo não ouvir. Eu não saberia como reagir.
Peeta não tem resposta para isso. Ele não olha para mim. Ele olha para frente e sorri.
"Então, já que as coisas estão indo bem, se vocês tiverem algo a anunciar, você poderia nos deixar saber em primeiro lugar?" E essa vantagem está de volta à voz de Cressida. Ela interpreta como um negócio agora, ao invés de preocupação.
"Você vai ser a primeira a saber quando eu reabrir minha padaria", diz ele, após uma pausa menor. Não é sobre isso que ela está perguntando e ele sabe disso. "Eu entrarei em contato." Ele desliga o telefone antes que ela possa perguntar sobre vestidos brancos e listas de convidados.
