Com o nosso acordo fechado com Cressida e o rumor de uma epidemia de catapora, estrategicamente inventada no distrito, a nossa vida retornou ao seu curso tranquilo, sem a pertubação de lentes de foco seletivo e microfones de lapela.

O silêncio, no entanto, não durou quando os guindastes e escavadeiras chegaram rebocados pelos trens, para dentro e para fora do distrito. Foi tão triste ver as carcaças enegrecidas da sapataria ou do armazém achatadas como uma bola pelo bombardeio. As grandes máquinas são ruidosas, mas a reconstrução não poderia começar sem elas. As estruturas não são seguras e precisam ser removidas. Peeta concordou que eles limpassem a casca escassa do que costumava ser a padaria de sua família.

No dia em que a enorme máquina começou a trabalhar na padaria, Peeta insistiu em assistir a todo o processo, mesmo no calor do meio-dia. Eu suspendi meu dia de caça, lhe trouxe água e tentei nos manter juntos. Sentei-me com ele, já que na maior parte do tempo ele permaneceu em silêncio.

"Qual é a sua lembrança favorita?" Eu olhei para o pó e cinzas que marcavam sua casa de infância. Uma escavadeira, com uma pá enorme, semelhante à uma mandíbula, retirava os escombros do local e despejava na traseira de um caminhão enorme. "A minha são os bolos na janela. Era bom ver algo tão bonito no Distrito 12," eu digo a ele. Peeta aperta a minha mão.

"A primeira vez que eu decorei um bolo de forma razoável", disse ele vagamente. "Minha mãe ficou encantada. Meus irmãos me provocaram sobre as flores, disseram que parecia que uma menina o tinha feito. O prefeito comprou o bolo e eles tiveram que se calar. Meu pai ficou orgulhoso e, secretamente, me deu alguns dos nossos cookies de casamento extravagantes. Com o tipo de farinha que derrete na boca. "

O chão abaixo de nós tremeu e o gemido do motor do trator bateu no meu peito. Peeta ficou imóvel ao ver o legado de sua família ser reduzido peça por peça, os pedaços descartados do que costumava ser madeira serrada. Era o lugar de descanso final de sua família, mas não foi tratado diferente da loja do alfaiate ou da loja de ração. Todas as peças acabaram em uma lixeira.

Eu posso entender por que ele tinha que estar aqui para ver isso, mas me preocupo com ele do mesmo jeito. Quando eu o chamo para jantar, trago seu caderno de desenhos também. E então ele me conta histórias sobre a sua família. Em um pedaço de papel na parte de trás do caderno eu escrevo tudo o que eu posso. Seu pai gostava de fazer biscoitos e gostava de fazer as crianças sorrirem com as guloseimas coloridas. Sua mãe poderia esticar a massa para fazer mais pães melhor do que ninguém. Seus irmãos faziam concursos para ver quem poderia vender mais pão em uma noite e davam biscoitos para as meninas que gostavam. No momento em que a última pilha negra da padaria vai embora no caminhão, eu não estou mais lutando contra as lágrimas. Eu nunca irei conhecer a sua família. Sua mãe nunca vai ranger os dentes em um sorriso falso para mim. Seus irmãos nunca irão me provocar. Seu pai não vai me dar cookies.

Há uma laje calcária no terreno em frente a nós. Eles vão derramar uma nova cave dentro de uma semana, então graças à maquinaria rápida que agora temos acesso, a padaria pode ser reconstruída em poucos meses. Muitas das outras lojas vizinhas devem reabrir na mesma época ou até o final do ano. Nosso especial com Cressida vai cobrir essas informações. Boas notícias no Distrito 12 não são reportadas com frequência suficiente.

Peeta se senta na cama com as costas apoiadas contra a cabeceira, com as pernas sob os lençóis e seu caderno de desenhos apoiado em seu colo. Ele está em silêncio desenhando sob a luz do abajur, enquanto eu tento dormir. Ouvindo o seu lápis riscar o papel, eu me pergunto se ele está desenhando a padaria de novo. Mas isso não é o que realmente sai da minha boca.

"Seus pesadelos ainda são sobre me perder?", medito. É uma daquelas coisas que eu estou mais tentada a dizer quando estou quase dormindo com ele ao meu lado. Costumava ser assim. Eu não tenho certeza sobre o que ele sonha ultimamente. Ele mantém um monte de seus pesadelos para si mesmo. Algumas noites, seus membros se enrolam em torno de mim como se fosse um vício e isso me faz imaginar o que está acontecendo em sua cabeça ao dormir.

Ficamos juntos quase todas as noites. Se nós estamos reunidos pelos pesadelos, porque nenhum de nós realmente quer ficar sozinho ou porque queremos realmente ficar juntos, eu não sei, mas tornou-se o nosso padrão.

Ele me estuda, franze a testa e coloca o caderno sobre o criado mudo. "Eu sempre sonhei que te perdia. Mesmo quando eu estava no 13 e ainda estava convencido de que você era uma bestante. Os sonhos eram tão confusos. Era para eu te odiar, mas eu sonhava em beijar você ou te abraçar. Quando eu sonhava com você em uma poça de sangue ou sendo tirada de mim, eu acordava paralisado de medo. Mesmo quando eu tinha complicados pesadelos sobre você estar tentando me matar, ainda não fazia o menor sentido para mim. Agora," ele envolve um braço em torno de mim "parece ser muito mais simples, porque eu tenho você aqui ao meu lado."

"Então, você só gosta de mim porque eu não sou uma bestante?" Eu comento sobre a sincera confissão de Peeta, tentando dar um ar de brincadeira.

"É certamente mais seguro assim, eu acho", diz ele, me dando um olhar de preocupação e provocação. Um sorriso passa entre nós e parece tão fácil ficar aqui com ele. Eu me desloco para baixo das cobertas, me movendo um pouco mais para perto dele. Ele se vira para o criado mudo e desliga o abajur.

"Você acabou de fazer eu me sentir um pouco... melhor", ele respira. É o tipo de coisa que ele diz quando acha que eu estou dormindo e não tem certeza se eu vou ouvir. "Não sei como é possível, mas eu sinto que você me curou."

As palavras de Peeta ecoam na minha cabeça quando eu finalmente caio no sono. Eu sorrio para mim mesma ao pensar nele como curado. Ele merece. Mas e eu? Ele esteve lá nos meus dias ruins, forçando medicamentos e alimentos em mim. Peeta sempre esteve comigo, me ouvindo e apoiando. E então eu percebo que ele não é o único que está curado.

Depois daquela noite, ele parece se preocupar menos com o que minha mãe pode pensar sobre isso e passa todas as noites que pode na minha casa. Mas nós apenas dormimos.

Os pesadelos acontecem, porém o outro está presente. Eu acordo e ele ainda está aqui. São como as noites no trem - apenas não há a sobrecarga de ameaças de morte iminente. Não há Massacre à frente, apenas o sono.

Peeta gosta de levantar cedo para fazer pão, algo que combina comigo porque eu gosto de estar na floresta caçando ao amanhecer. Então vamos para a cama cedo.

Quando eu durmo demais, ele não me acorda, porque ele gosta de me ver dormir. Eu termino a minha caçada sempre antes do dia ficar insuportavelmente quente e verifico Peeta em sua cozinha. Eu me preocupo que ele possa ter um episódio ao colocar algo no forno ou ao cortar o pão com aquelas facas longas e serrilhadas. Eu não gasto muito tempo saboreando as suas novas receitas de bolo, mas permaneço o suficiente para vê-lo. Seus flashbacks acontecem semanalmente, às vezes mais, mas eu tento ficar com ele para lhe dar algo para segurar.

O dia da nossa filmagem se aproxima e Peeta escreve o roteiro. Ele nos faz ensaiar as linhas, todas as noites no jantar. Eu tropeço por elas e testo a paciência de Peeta. Parte de mim espera que, se eu não estiver pronta para a reportagem, eu seja deixada de lado.

Na noite antes de nós filmarmos o nosso especial na TV, Cressida, Pollux e sua equipe chegam à cidade. Peeta caminha com eles pela cidade, mostrando os edifícios que podem ser boas locações. Eles entrevistam o chefe da construção sobre a nova versão do Edifício da Justiça, uma família que está abrindo uma loja de materiais de jardim e um homem que vai abrir uma loja de ferramentas, mas até então as vende em sua casa remendada, na Costura.

Eu os assisto entrar na casa designada a eles na Vila dos Vitoriosos e eu sinto como se tivesse acabado de voltar do primeiro Jogos, esperando o ciclo inteiro começar de novo.

"Vamos lá, Katniss", Peeta cutuca "você não pode se esconder para sempre."

Eles nos convidaram para um jantar que trouxeram especialmente para nós, mas eu não vou me mexer do meu assento na janela da minha casa, espionando. Ele se inclina para mim e sussurra: "Eu sei que você vai gostar da comida..."

Eu dou o olhar mais sujo que sou capaz ao perceber a sua chantagem. Ele tenta me levar para fora de casa pela mão. Eu a recolho rapidamente. "Não!" Eu grito. Isso o pega de surpresa. "Não faça isso! Não em público."

Ele respira fundo. "Tudo bem", ele sai andando na frente "Mas vamos pelo menos jantar?"

E logo eu estou caminhando pelo gramado indo de encontro à mais uma tarefa que eu não quero fazer. A casa está cheia de atividades, quando eu entro. A equipe corre de um quarto para o outro. As baterias estão sendo carregadas: kits de luz acondicionadas para a noite, uma aparelhagem de edição de vídeos no meio da sala de estar. Peeta vai verificar a metragem e eu vou na direção oposta, decidindo assistir Pollux, cuidadosamente, dar os ajustes finais em sua câmera. Ele envolve os fios para que eles não fiquem emaranhados e insere um novo cartão de memória para a gravação de amanhã. Ele abre um grande sorriso quando me vê e um pouquinho do meu mau humor se derrete.

Sento-me ao lado de Pollux no jantar, então eu não tenho muito a dizer já que estou o mais longe de Peeta possível. Ainda assim, somos a curiosidade do jantar. Eu os vejo nos observando através da mesa, tentando nos entender.

Peeta desempenha o papel de anfitrião encantador e conta à equipe tudo sobre Distrito 12, exceto o que eles realmente parecem querer saber. Ele fala com entusiasmo sobre os planos de construção e de sua padaria. Ele brinda pela reconstrução do bairro e tem todos rindo e de bom humor, todo mundo, menos eu.

Ele parece estar gostando da companhia de tantos amigos. Não houve muito disso ultimamente. Para nós, uma multidão significa ter Haymitch, Greasy Sae e sua neta na mesma casa por alguns segundos.

Mesmo com todas as suas histórias, Peeta sempre direciona sua atenção para mim. Quando ele acha que os outros não estão olhando, ele me observa com aqueles cílios estupidamente cheios e loiros, o que é o suficiente para me deixar totalmente derretida por dentro. Mas eles não me reconheceriam sem a minha costumeira carranca, então ela permanece no lugar, independentemente do poder que esses cílios loiros exercem sobre mim.

A equipe está com um espírito tão leve que eles abrem uma caixa com uma garrafa de vinho que deveria ser supostamente levada para a Capital. Eu entusiasticamente percebo que essa pode ser a noite perfeita para uma bebida. Peeta sussurra algo para Cressida. "Sim, você está certo, ela não deveria beber. Mas você também irá gravar amanhã, não?", ela diz e pega meu copo de volta. Peeta relutantemente entrega seu copo também.

Uma vez que a bebida está fluindo, Haymitch vagueia dentro da casa. Ele bebeu dois copos de vinho antes de olhar para Peeta e eu.

"O que há com vocês dois? Vocês não deveriam estar enfrentando à todos, roubando beijinhos um do outro? Vão em frente. Vocês tem uma audiência."

Isso faz com que todos falem ao mesmo tempo. Eu vou embora quase que imediatamente, pois ao invés de deixar todos em silêncio, a conversa voltou-se novamente para 'os amantes desafortunados'.

Peeta vai para sua casa naquela noite. Observo o seu lugar na cama e medito sobre as coisas terríveis que o álcool pode ter feito Haymitch dizer depois que eu saí. Meu telefone toca. Eu sei quem é, antes mesmo de atender.

"Eu só queria dizer boa noite", diz Peeta. "Você vai ficar bem?"

"Vem pra cá?" Eu peço. Por mais que eu tenha me distanciado dele na festa, eu sinto que a provação de amanhã seria mais fácil de enfrentar se ele estivesse comigo.

"A equipe de preparação vai estar aqui na parte da manhã."

Eu não me importo mais. Eu não consigo mais dormir na minha cama sem ele, mas Peeta está jogando pelas regras que eu mesma estabeleci antes. "Honestamente, eles já viram isso acontecer antes."

"Oh".

Com apenas uma nota, eu posso dizer que ele está confuso. Ele age assim quando ele quer se lembrar de alguma coisa, mas não consegue. "Durante a Turnê", eu digo. "Você se lembra?"

"Conte-me sobre isso", diz ele com certa delicadeza. "Pode ser que me convença a ir."

"Se você vier eu te conto."

Há uma pausa em sua respiração e posso imaginá-lo inquieto enquanto ele pesa a oferta. Mas eu não vou fazê-lo esperar, seria cruel.

"Eu estava tão certa de que eu ia morrer", é o que eu sufoco. Eu não lhe conto a história de forma limpa ou em ordem. É muito difícil, então palavras suficientes não vêm. Talvez ele não tenha entendido nada.

O sono está chegando e antes das minhas pálpebras se fecharem pela última vez, de forma pesada, ele diz: "Você deveria saber que eu jamais permitiria que isso acontecesse..."

No meio da noite eu acordo sendo carregada para o quarto. Lábios macios encostam em minha boca e eu me permito sorrir enquanto braços fortes me circundam.