Três figuras borradas estão em cima da minha cama. No começo eu penso que deve ser mais uma rodada de pesadelos com guardas da prisão, então eu jogo o travesseiro sobre minha cabeça e espero isso desencadeie em um novo sonho. Mas eu pisco e, em vez de homens excessivamente musculosos, eu vejo as formas coloridas de Venia, Octavia e Flavius. Como eles não aparecem para mim com cera quente e pinça, eu percebo que não é um pesadelo.
Eles estão realmente aqui. Pegaram o trem durante a noite para chegar hoje de manhã e eu perdi a hora. Eles fazem um pequeno esforço para me dar um meio abraço, enquanto eu me arrasto para fora da cama de uma forma sonolenta. Aparentemente, Peeta acordou mais cedo e foi para sua casa, pois não há sinal dele aqui.
Em seguida, sou carregada rapidamente para o banheiro, onde o chuveiro já está ligado. O banheiro foi transformado em um salão de beleza. Há uma mesa ao lado da banheira, repleta de cosméticos. Uma cadeira da cozinha está em frente do espelho do banheiro, onde aparentemente é a parada para o cabelo e todo o resto. Já que esta filmagem vai demorar algum tempo eu, infelizmente, irei precisar de uma transformação da cabeça aos pés.
Eu coloco um longo robe, de modo que não há necessidade de que eles vejam as minhas pernas repletas de cicatrizes de guerra. Isso provavelmente causaria náuseas. E eu nunca tive paciência para chiliques.
"Unhas primeiro", diz Venia. "Pela metade e mastigada em pedaços", ela proclama ao examinar minha mão depois que eu estou sentada. Ela faz as minhas unhas e aplica um esmalte claro, com um tom rosado. Estou mais acordada agora, e ela começa a me contar tudo sobre seu novo apartamento na Capital e os novos trabalhos com maquiagem que eles estão fazendo para todos os novos canais de TV. Ela até me disse que viu os outros distritos em suas viagens recentes. Eu também estou aliviada de não precisar colocar unhas postiças no momento.
Flavius está com seus cachos dourados de volta. Ele usa sua marca de sempre, o batom roxo, que agora é acompanhado por um delineador roxo e uma camisa de seda roxa. Meu cabelo precisa de uma hidratação desesperadamente, ou assim ele me diz. Ele deixa o creme agir por um longo tempo e, em seguida, faz questão de deixar um pote de creme de hidratação, me dizendo para usá-lo. Sua próxima tarefa é cobrir as falhas calvas. Meu cabelo está bem maior agora, então ele termina rápido. Eu pensei que essa seria uma tarefa mais difícil, mas acho que ele faz isso em três firmes escovadas.
Minhas sobrancelhas são as próximas. Ao longo dos meses, elas voltaram para o verdadeiro estado selvagem, mas a equipe veio preparada para isso. Eles também exigem que eu faça depilação, embora nada do que eles insistam em depilar vá aparecer diante das câmeras. Eu decido não discutir. Eles usam um pouco de gel colorido de hortelã, pimenta de cheiro e água, o que entorpece a minha pele para que eu não fique com os olhos lacrimejantes cada vez que um cabelo for arrancado.
Em seguida, eles vão para a preparação de Peeta enquanto me dão tempo para espiar as minhas escolhas de roupa. Eu espiono os sacos pendurados em uma arara improvisada. Todas as roupas que eles trouxeram possuem mangas longas, o que é estranho, já que o clima está bem quente, mas são bem bonitas. Eu olho através das jaquetas, vestidos, túnicas, camisas, blusas leves até sobretudos bem compridos. Eu me direciono imediatamente aos vestidos e casacos formais.
Sento-me à mesa da cozinha e como um café da manhã atrasado, enquanto espero a minha equipe voltar. A assistente de Cressida chega e pede para que eu recite as minhas falas, então eu as murmuro através de um ou outro gole de chocolate quente.
Octavia volta enquanto os outros dois ainda estão trabalhando com Peeta. Ela parece mais verde do que deveria, mesmo com a tintura da pele desaparecendo. Eu não acho que eles já tenham trabalhado com ele depois do tele-sequestro. Então, se as minhas cicatrizes os trouxeram às lágrimas, as de Peeta provavelmente lhes deram um colapso.
Dou-lhe um aperto de mão. "Ele passou por muita coisa."
Ela balança a cabeça. "Ele costumava ser tão bonito..."
"Ele ainda continua perfeito pra mim" eu rebato, inconformada com o que ela acabou de dizer. Peeta é a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci, por dentro e por fora. Não vou admitir que alguém insinue que ele seja menos do que perfeito. Suas cicatrizes mostram o quanto ele foi corajoso, e só fazem com que eu me orgulhe cada vez mais da pessoa que ele é.
Octavia me observa durante alguns segundos. "Você tem razão querida, me desculpe. Mas suas cicatrizes... Voltei quando percebi que eu não podia lidar com a perna."
"Isso foi culpa foi minha", eu digo sem pensar.
Ela coloca as mãos com firmeza sobre os meus ombros, com um olhar enfurecido. "Não, Katniss, não foi." Ela engole. "A Capital fez isso com ele, não você." Octavia nasceu e cresceu na Capital. Eu nunca teria pensado que ela fosse capaz de dizer isso. "E, por isso, eu sinto muito."
Estou em estado de choque, mas ela continua. "Antes de começarmos a trabalhar com você, eu não via os tributos como se fossem de carne e osso - crianças mesmo. Eles pareciam com alguma coisa distante, vindos de um livro de histórias. Porque eu já tinha visto poodles com melhores maneiras do que alguns dos tributos. Mas você, você era real e mudou tudo... E também está bastante mudada, pelo que pude notar agora", ela termina e percebo que defendi Peeta furiosamente há alguns segundos atrás. Eu me sento, atordoada e em silêncio, até Octavia começar com a sua linha mais usual de fofoca.
Ela me conta como sua vida na Capital mudou desde a rebelião. Ela está deixando que a sua pele volte ao tom natural, de modo que agora está apenas com um tom esverdeado, como se estivesse doente, mas ela diz que em um ano o corante de pele deve desaparecer. É caro e doloroso retirar o corante com um tratamento, então ela está esperando que o tempo se encarregue disso. Ela deixou seu cabelo retornar ao ruivo natural, o que eu aprovo, mas ela me diz que Flávius está tentando convencê-la a fazer reflexos púrpura.
"Bom, que tal irmos escolher o que eu vou vestir hoje?" Eu pergunto. Com isso, ela me leva de volta para o banheiro, em direção à arara cheia de roupas.
"Você quer me ajudar a combinar?" A questão parece implicar mais do que a escolha de uma roupa, então eu dou de ombros.
"Bem, então vamos escolher algo que não seja muito chamativo."
Ela segura uma camisa branca. Eu a rejeito, porque a menos que seja feita com alguma linha que espante a sujeira, ele não vai permanecer branca na zona de construção a qual estamos nos dirigindo. Nos decidimos por calças pretas, uma camisa azul clara com mangas em sino e um cachecol cinza leve, para esconder as cicatrizes em meu pescoço. Enquanto eu me visto, ela se dirige para a casa da frente, para verificar se está tudo bem com Peeta.
O trio volta para me maquiar. Das minhas pálpebras às minhas unhas, eu não estou pronta até que cada centímetro de pele exposta esteja coberta de gosma. Eles ainda usam um corretivo grosso em minhas mãos. Flávius diz que eu poderia considerar tatuar as minhas cicatrizes. Ele acha que chamas em minhas mãos pode ser especialmente adequadas. Dou-lhe um meio sorriso em vez do discurso gritado que estou tentada a fazer.
Quando eles terminam, eu olho no espelho e vejo a Katniss de antes dos jogos. Alguém que brincava com seu pai antes de ele ir trabalhar, alguém que não precisava se preocupar em sustentar sua família. Eu luto contra o desejo de gritar com eles para desfazerem tudo. Eu não sou mais aquela garota inocente. Eu não posso ser. Não depois do que eu fiz.
Mas eu coloco um sorriso no rosto e sussurro: "Obrigada. Vocês são maravilhosos." Eu concordo em fazer isso para que a minha mãe se sinta menos preocupada e mais orgulhosa quando ela assistir TV com os outros médicos na hora do intervalo no hospital.
Eu tenho um vislumbre de Peeta quando ele chega à porta da frente para me ver. Ele deve ter sido influenciado pela opinião da equipe, pois ele está vestindo uma camisa de mangas longas, branca e macia. Como eu, ele praticamente foi mergulhado em maquiagem. Antes de me dar conta, eu estou sorrindo para ele. Ver Peeta sem suas cicatrizes faz parecer que voltamos a ser inocentes juntos. Ele se parece mais com o menino que me ensinou a mergulhar pedaços de pão no chocolate quente. Parece o Peeta de antes, sem os lembretes constantes de dor e de guerra. Ele já tem lembranças suficientes e realmente não precisa de mais.
A equipe de maquiagem ainda tem um compromisso à tarde, por isso eles partem, com uma enxurrada de abraços, soluços e avisos sobre a importância da hidratação.
Peeta e eu nos dirigimos à pé para a cidade, onde a equipe selecionou uma locação apropriada para o especial. Diversos 'X' negros estão marcadas nos pontos em que devemos parar e alguns seguranças estão direcionando as pessoas da cidade para longe da nossa localização. Estamos na frente de onde o velho Edifício de Justiça costumava ficar. O entulho foi varrido, mas vemos o primeiro esqueleto de um muro subindo.
Peeta lê seu discurso mais uma vez e coloca os cartões no bolso. A luz vermelha da câmera pisca adiante. Cressida começa a contagem regressiva com seus dedos apenas a tempo de Peeta começar a ter o princípio de um flashback.
Eu tenho cerca de quatro segundos para agir. As câmeras são direcionadas para nós enquanto Cressida diminui cada vez mais seus dedos. Isso me dá tempo suficiente para tomar fôlego e limpar a minha cabeça. Eu olho para além da câmera para ter um único segundo antes de perceber o que causou um episódio justo agora.
Ao longe uma abelha vibra. Eu posso ver a tonalidade ouro daqui. Os olhos de Peeta estão trancadas nela. Ele não está se movendo. Ainda não. Mas começou. Eu posso dizer. Algumas vezes temos um segundo de aviso, em outras ele sabe que vai ter um dia ruim, mas dessa vez não houve aviso algum. Este é um dos seus gatilhos, o faz lembrar das teleguiadas. Seu veneno foi responsável pelo seu tele-sequestro.
Eu seguro a mão de Peeta firmemente na minha própria quebrando a regra que eu tão teimosamente defini, porque não há mais nada que ele possa segurar. Nossos microfones são do tamanho de pinos, anexados às nossas roupas. Se eles tivessem nos dado um microfone de tamanho normal, talvez ele pudesse agarrá-lo. Eu o sinto tremer então viro a sua cabeça para que ele olhe para mim. A contagem regressiva termina e eu olho diretamente para frente.
"Aqui é Katniss Everdeen no Distrito 12. Nós já vamos contar tudo sobre a reconstrução em andamento, mas primeiro uma palavra dos nossos patrocinadores." Eu mostro um grande sorriso falso. Acho que Effie ficaria orgulhosa de mim pela primeira vez na vida.
Em seguida direciono meu olhar para Peeta. Ele ainda está segurando minha mão e mantém seus olhos grudados em mim. Tenho certeza de que ele nem sequer está me vendo, mas aparentemente estamos de mãos dadas e olhando intensamente um para o outro em rede nacional. Acho que as minhas tentativas de evitar ficar perto de Peeta nas últimas semanas acabaram de descer pelo ralo.
Os repórteres em volta nos olham como se estivessem trabalhando em uma grande história emocionante, enquanto eu estou tentando evitar que Peeta tenha uma convulsão ao vivo, durante o tempo que Cressida leva para apertar o botão que aciona os comerciais. Isso me distrai para que eu não desmorone antes das filmagens começarem realmente. Eu sempre soube que os olhos de Peeta exerciam poder sobre mim. E é exatamente isso que eu quero que aconteça no momento.
Cressida me dá um olhar interrogativo, mas mesmo assim eu vejo no monitor portátil a estação mudar para um anúncio de uma competição de esportes de verão, a tempo de Peeta se sentar no chão.
"Ele está tendo um de seus flashbacks", eu explico. Ela e Pollux devem se lembrar. Eles já viram isso acontecer antes.
Os olhos de Cressida vão para o céu sem nuvens. Eu me sento em frente à Peeta e interpreto os gestos de Cressida como um pedido de ajuda divina.
Agachada no chão, eu tento avaliar o quão ruim esse episódio é. Peeta está tenso e cabisbaixo, amassando suas pálpebras com as mãos trêmulas, o que significa que ele ainda está tendo o episódio. Não é um bom sinal. Não é um dos seus episódios de cinco segundos e suas pílulas não estão em seus bolsos, visto que ele está usando roupas emprestadas. Eu não tenho tempo para pegá-las eu mesma ou dar a alguém detalhes suficientes para encontrá-las, por isso a sua quietude é provavelmente o melhor que eu poderia esperar. Recebo a ajuda de um dos técnicos de microfone corpulentos para sentar Peeta ao lado do Edifício, fora da luz solar e do quadro da câmera.
"Me dê cinco minutos e eu vou fazer isso sozinha", eu digo na mais voz mais determinada que eu consigo reunir. Este era para ser o meu dia de folga. Peeta deveria fazer todo o discurso. Em vez disso, eu estou lidando com um menino muito doente e um especial de TV ao vivo, o qual eu não estou preparada adequadamente.
Eu coloco minha cabeça em sua testa e agarro as suas mãos. A noite passada foi um total desperdício de esforços. Sei que todos no Distrito estão assistindo. Eu posso sentir isso, mas eu não vou deixar que isso me separe dele.
"Peeta, olhe para mim. Porque você não tira um cochilo? Você vai se sentir muito melhor se você dormir um pouco." Eu sussurro palavras suaves para ele, tentando obter a sua atenção. Ele segura as minhas mãos com uma ferocidade que me diz que ele ainda está no inferno criado pela Capital. Eu preciso que ele durma para sair dessa, antes que ele desmaie ou algo pior aconteça.
"Será que ele vai ficar bem?" Cressida se agacha para perguntar.
"Não em cinco minutos." Há desespero na minha voz. Não consigo escondê-lo.
"Katniss, você vai fazer bem." Ela faz o seu melhor para me tranquilizar.
Eu retiro uma das minhas mãos das de Peeta e procuro seus cartões nos bolsos. Eu leio suas notas rapidamente.
"Sessenta segundos, Katniss."
Ele ainda está apertando a minha mão, de seu lugar cheio de dor. Este é, particularmente, um longo episódio.
"Vamos Peeta. Precisamos disso para ficar em paz." Nada funciona. Eu começo cantar algumas estrofes de uma canção de ninar em seu ouvido.
"Cinco segundos. Você precisa se mover, Katniss."
E ele despenca sobre o próprio ombro, dormindo. Eu dou um leve beijo em seus lábios e salto para trás, na minha posição.
"Aqui é Katniss Everdeen de volta. Desculpe por isso. Você nunca sabe o que pode acontecer no Distrito 12." Eu cacarejo como Effie me ensinou, de modo que as minhas bochechas sobem enquanto estou sorrindo. Dada a minha história, prefiro não parecer estar tendo um colapso, tentando fazer uma boa expressão para a TV.
Por algum milagre, eu lembro de todas as linhas de Peeta, sobre quais edifícios estão sendo reconstruídos, o que vai haver de novo na cidade, até mesmo suas piadas. Aparentemente, eu estava ouvindo durante todas aquelas noites ensaiadas. Eu sou otimista, sem resmungos, simpática e nem um pouco mal-humorada, uma completa estranha de mim.
Quando os sinais de Cressida indicam que acabou, eu afundo no chão, trago meus joelhos no meu peito e cubro o rosto com as mãos. Que dia!
"Deslumbrante, Katniss," Cressida bate palmas. "Eu sabia que você tinha isso em você. Simplesmente adorável", ela exclama, como se ela mesma não acreditasse no que diz.
Mas não é realmente o momento de comemorar. "Como ele está?" Pergunto ao assistente, que manteve um olho em Peeta durante as filmagens.
"Mal", ele responde.
Ele sempre fica abalado depois de seus episódios. Eles sugam toda a sua energia. Às vezes, ele só precisa se sentar por alguns minutos. Dormir ajuda a recuperar. Quando eu não consigo convencê-lo a dormir depois de um episódio, eu o faço relaxar. Ele sempre tenta ser corajoso e me assegurar de que está bem, mas ele não está.
Eu observo Peeta, que de fato está mal. Sua testa está quente e seus punhos estão cerrados em bolas apertadas.
"Sinto muito", eu digo para a equipe. "Eu sei que vocês estavam esperando que nós dois fizéssemos o especial. Mas eu não acho que ele esteja bem para filmar nem tão cedo."
"Está tudo bem, Katniss. Nós já temos o que precisávamos."
A equipe tem cenas o bastante com o meu segmento e as entrevistas de ontem à noite. Sendo assim, eles se afastam para começar a arrumar os frágeis refletores de luz.
"A recepção foi muito positiva", a assistente de Cressida anuncia. Com uma mão pressionada em um fone de ouvido, ela escuta algum controlador do escritório principal. "As primeiras palavras do Tordo na televisão desde o seu julgamento. Eles estão enlouquecendo. Já está sendo repetida em outros canais", ela transmite a mensagem. "Nós conseguimos", ela sorri e eu não tenho certeza se é por descrença ou alívio. Provavelmente um pouco de ambos. Isso significa que eles estão se preparando para ir pra casa ou onde quer que sua próxima parada aconteça.
Pollux deixa seu microfone de lado para me ajudar a carregar Peeta de volta a Vila dos Vitoriosos, enquanto todo mundo vai à frente, a fim de desocupar a casa designada à equipe. Pollux leva Peeta diretamente para minha casa. Ele não fez menção de entrar na casa de Peeta e nem sequer perguntou antes de colocá-lo deitado na minha cama. Bem, eu acho que depois de hoje, não há nada que eles queiram perguntar.
Pollux dá um tapinha no meu braço quando sai. Seus olhos estão tristes. Dou-lhe um abraço e quero agradecer-lhe, formar as palavras na minha boca, mas o som nunca chega. Ele balança a cabeça enquanto sai. E nesse momento, eu estou grata de que tenha sido ele. Eu não sou fã da admirável Katniss Everdeen do documentário, mas se alguém tiver que direcionar uma câmera a mim, fico feliz por ser este corajoso e simpático homem. Se alguém entende sobre perda e sobrevivência, é ele.
Da minha janela eu consigo ver a equipe indo embora da Vila. Eu pensei que me sentiria melhor com eles indo embora, mas de repente eu desejo que eles fiquem mais um pouco, para ouvir mais histórias sobre suas viagens pelo distrito. Mas não poderia ser hoje de qualquer maneira.
Todas as atividades de hoje me esgotaram. Não parece que Peeta vá acordar tão cedo, então eu poderia muito bem ir dormir. Eu tiro as minhas botas e decido tomar um banho, para me sentir mais fresca ao enfrentar a noite quente. No banheiro eu lavo minha maquiagem, junto com a fuligem do Distrito 12. Já se passou um bom tempo desde que eu usei maquiagem pela última vez. É o rosto que eu construo quando estou fingindo. Mas o que estou fingindo hoje? Que as coisas estão bem? Que eu sou só sorrisos quando as câmeras aparecem? Que eu não sou uma relíquia de cicatrizes da guerra? Eu não sei.
Peeta se remexe na cama, com os olhos ainda fechados. Eu rastejo em sua direção. Ele deve registrar que eu estou lá porque ele instala a cabeça no meu peito. De tão inesperado como este dia tem sido, isso soa como algo familiar.
Eu puxo o lençol sobre nós e me inclino para trás para vê-lo dormir. Se as cicatrizes não existissem, ele seria apenas o meu Peeta, inocente e gentil. Aquele que não quer nada mais do que cuidar de sua família, se lembrar de tudo que esqueceu e retirar um sorriso de mim sempre que possível.
Minhas mãos acariciam o seu cabelo. Está mais curto hoje e bem cheiroso. Obviamente foi aparado esta manhã, há menos cabelo que o normal enquanto eu escorrego meus dedos pela sua cabeça. Eu não sei o que Flávius fez em seu cabelo, mas ele está tão sedoso como qualquer um dos vestidos de Cinna, deslizando suavemente pelos meus dedos.
Eu estou cantarolando baixinho para mim mesma, enquanto o observo sorrir com meus carinhos. É uma melodia simples, a intenção é fazer bebês adormecerem. Meu zumbido se transforma em um canto, quase imperceptível para mim mesma. Após o primeiro verso, ele respira fundo. Eu ajeito a franja em sua testa.
"Meu pai costumava cantar isso para Prim" eu digo, na esperança de que possa ser um pequeno consolo para ele, mas eu tenho certeza de que ele não vai se lembrar.
Após o segundo verso, minhas pálpebras estão pesadas. Eu sei que vou dormir nos próximos minutos, então eu coloco a cabeça de Peeta no travesseiro e me estabeleço sob as cobertas.
Eu sinto Peeta mudar o seu peso na cama. Ele abre meio olho e me aconchega em seu peito. É quente e confortável e eu o abraço de volta.
"Eu te amo Katniss" ele sussurra em nosso travesseiro compartilhado.
Tenho certeza de que ele está dormindo, então eu fico tão imóvel quanto eu posso, tentando fingir que eu mesma estou dormindo. Talvez ele esteja falando em seu sono ou eu esteja sonhando. É isso, eu devo mesmo estar sonhando.
