"O que aconteceu?" Um Peeta confuso e sem camisa, com os cabelos molhados, está apoiando sua cabeça em um cotovelo e olhando para mim. Seus olhos estão selvagens como quando ele acorda de um de seus pesadelos durante a noite, mas já está de manhã. Ele está olhando para as suas roupas cuidadosamente dobradas na cadeira, do meu lado da cama.

"Hum..." Eu não sei como começar a responder a esta pergunta. Eu rolo, querendo voltar a dormir mais do que eu quero dizer-lhe que ontem, diante das câmeras, ele não foi o Sr. Perfeito que eu tanto defendi. Eu envolvo meus braços em torno do seu pescoço, tentando prolongar esta conversa pelo o maior tempo possível.

Ele não precisa saber, entretanto ele odeia ficar de fora. Mas não é desse jeito que eu quero começar o dia. Ele relaxa um pouco sob o meu toque. Aproveito a oportunidade para puxar o lençol sobre nossas cabeças. Ele parece entender a minha dica.

"Não importa mais, não me diga", ele levanta uma sobrancelha para mim, dobrando o seu sorriso para corresponder ao meu.

Eu rio dele e permaneço em nossa pequena tenda quente, acariciando o seu rosto.

"Você certamente está com um humor melhor", eu comento.

"Porque você está aqui." E com isso, eu sei que ele está de volta com as frases doces que ele usa quando está com sono, as quais eu nunca vou me acostumar. Ele retira uma das minhas mãos do seu rosto e a beija. É quando eu quase posso ver a alegria ser drenada dos seus olhos. "Katniss, o que aconteceu com suas mãos?"

Eu olho para baixo e vejo que elas estão machucadas. Meus olhos vão me denunciar. Eu tenho que dizer a ele. É inevitável. "Do que você se lembra sobre ontem?"

Eu posso ver o instante em que o pensamento atinge seu cérebro. "O especial de TV!" Ele joga o lençol para baixo, o branco de seus olhos se arregalam. Ele estica a cabeça para a frente e tensiona o pescoço. "Eu não me lembro."

E eu digo-lhe: "Isso é porque você não fez."

Toda a brincadeira de mais cedo parece que aconteceu há muito tempo, enquanto Peeta endurece. "Isso não é nada bom."

"Não se preocupe, eu gravei o especial" Faço um esforço para não revirar os olhos. "Provavelmente será repetido pelos próximos dias", asseguro-lhe.

"Katniss, você nem sabia as suas falas... O que você quis dizer com 'eu gravei o especial'? E por que não eu? Acho que me lembro de ir lá fora com você."

Eu suspiro. "Assim que Cressida começou a contagem regressiva, você teve um flashback. Fiz o especial. Quando terminamos, eles trouxeram você de volta pra cá. Foi assim que você chegou até a cama."

"Então eu fiz isso com você?" Ele olha para baixo, com o coração partido, segurando as minhas mãos.

"Está tudo bem", eu digo. "Realmente, não se preocupe." Contusões são realmente a menor das minhas preocupações. Nada foi quebrado. É só um pouco de cor temporária, adicionada às minhas mãos já decoradas.

Peeta se levanta e começa a caminhar pelo quarto, com as mãos em seus cabelos, murmurando baixinho. Eu deixo que ele ande, mas trago suas pílulas enquanto isso, na esperança de restaurar alguma aparência de equilíbrio.

"Vamos tomar o café da manhã," eu o distraio, tentando transmitir que eu não estou chateada e que eu gostaria que ele não estivesse também.

"Café da manhã", ele repete, praticamente ofegante de sua explosão. Ele balança a cabeça e me segue lá para baixo, não resmungando mais, mas ainda mantendo uma distância hesitante.

Ele fica grudado à TV, sem dúvidas em busca da gravação de ontem, enquanto eu faço ovos e torradas para o café.

Greasy Sae parou de trazer o café da manhã. Ela ainda nos visita vezes o suficiente para ter certeza de que estou me alimentando. Ela gosta de me cutucar nas costelas com a colher de pau que ela sempre mantém em seu avental e dizer que eu ainda estou muito magra para o seu gosto. Ela ainda traz o jantar ocasionalmente, mas parece ser mais um apelo social de uma mãe cuidando da minha saúde e verificando o meu bem-estar.

Estou fritando os ovos quando há uma batida na porta. Esperando que seja um dos vizinhos que procuram Peeta para encomendar muffins ou pães, o próprio se dirige para a porta. Ele é o único que recebe visitantes que não estão na sua folha de pagamento por cuidar dele.

"Eu tenho uma entrega para K. Everdeen," uma voz masculina diz em voz alta. Definitivamente não é um dos vizinhos. Eu fico curiosa, pois a maioria das encomendas eu recebo na estação de trem. Quando eu chego na porta, vejo Peeta observando o homem em um uniforme de entregas, usando um fone de ouvido, com um pequeno leitor nas mãos.

"Ela está fazendo o café, eu posso ajudá-lo com isso?" Peeta diz um pouco alegre.

"Você é mesmo o Peeta", exclama o entregador. "E Katniss!" Uma bagunça incoerente de admiração se segue. "Eu adoro vocês! Quando ele disse que te amava desde que você tinha cinco anos e quando você disse que precisava dele... Eu odeio incomodá-los, mas eu posso tirar uma foto?"

Eu olho para Peeta, que não se preocupou em colocar uma camisa. Estou de pijamas e ficando mais vermelha a cada segundo. Eu tiro a foto e corro de volta para a cozinha. Por que nós nunca aprendemos a ser discretos? Agora metade do país vai saber que estamos morando praticamente juntos.

"Eu mal posso esperar para contar aos meus amigos que eu conheci vocês", ele jorra felicidade. "É aqui que você está morando agora? Eu tenho certeza de que a minha avó gostaria de te enviar algumas receitas novas."

Mas do que é que ele está falando?

"Muito obrigado pelo pacote." E eu ouço o som da porta sendo fechada. Peeta se atrapalha com a maior caixa que eu já vi em suas mãos.

Depois de todo esse barulho, eu estou com medo até de descobrir o que está nessa caixa. Definitivamente não é a nossa entrega habitual de vegetais enlatados. Suprimentos de cozinha não seriam endereçados a mim e eu tenho uma suspeita de que não seja um dos presentes de desencargo de consciência da minha mãe. Às vezes ela se sente mal por ter me deixado sozinha, então ela envia presentes de vez em quando.

Eu observo a caixa como se fosse uma raposa ferida, não tendo certeza se ela ainda está viva ou esperando eu me animar só pra me morder quando eu me aproximar. Mas parece ser uma caixa marrom bastante normal. Não está se debatendo, nem correndo ou fazendo qualquer tipo de ruído. É quase do tamanho da minha lareira e possui o logotipo de uma loja da Capital direcionada para artigos do lar, chamada Adorno.

Em cima dela, eu encontro um bilhete grudado.

Diga ao seu garoto que desejo que ele fique bem em breve. Você ainda é de ouro.

Plutarch

"Estou surpresa que ele não tenha enviado por um pára-quedas de prata" Eu bufo, olhando para a etiqueta de envio rápido. Ele provavelmente enviou por um aerodeslizador.

Sob o cartão, há uma variedade de pacotes de chá e um cobertor mais suave do que as minhas roupas mais elegantes. "Que tipo de presente é esse?" Eu zombo, tentando não gostar de qualquer presente que Plutarch me envie.

"Um presente de melhoras?" Peeta diz, segurando o cartão. Ele passa os dedos pelo tecido. "Já me sinto melhor", ele me incita.

"Que tipo de mensagem é essa que ele está enviando? Um cobertor de uma loja de roupas de cama extravagantes da Capital? O entregador nos perguntando se você está mesmo morando comigo? Você vê onde isso vai dar?"

"Sinta este cobertor."

Estou terrivelmente envergonhada com esta manhã, mas mais do que isso estou preocupada com os rumores e com o que tudo isso vai significar para o pouco da minha sanidade que cresceu de volta.

Peeta envolve o cobertor em torno de mim. "Onde estávamos mesmo nesta manhã?" Ele se inclina para um beijo. A distração quase funciona, e eu sei que esta é uma distração muito boa.

"Eu vou caçar" E eu estou saindo pela porta antes que ele tenha tempo de me responder.

Eu me ocupo em colher cebolas picantes e coletar frutas maduras. Eu enterro as minhas flechas em coelhos tentando não pensar em Peeta e no que tudo isso significa.

Parece que a privacidade será sempre um problema. Todo mundo que eu me importo sabe que ele está comigo. Até a minha mãe sabe, porque ele atende ao telefone na parte da manhã. Eu percebo que eu me preocupo mais sobre ela ter vergonha, por isso vou ligar e falar com ela. Todo o resto não me importa.

Eu volto para a cidade e passo na casa de Peeta. Ele está cozinhando.

Depois do jantar, eu ligo para o Distrito 4.

"Katniss, você já me ligou duas vezes em uma semana. Está tudo bem?"

"Eu só estive pensando... Eu me preocupo que eu esteja te envergonhando", eu finalmente digo.

Ela ri e eu realmente me sinto um pouco melhor.

"Katniss, eu não poderia estar mais orgulhosa."

"Sério?"

"Mas é claro. Porque você acha isso?"

E então eu digo a ela sobre os jornalistas que me viram ontem com Peeta, as histórias picantes que vão ocorrer na televisão, até mesmo a entrega do homem nessa manhã. "Eu só queria que você soubesse."

"Katniss, você já tem 18 anos e cresceu", diz ela. "Essa é a sua vida. Tome suas próprias decisões e eu vou estar aqui sempre que precisar de mim."

E é assim que eu percebo que completei 18 anos. O clima está muito quente, bem verão e eu não percebi. Eu pisco para a minha nova descoberta e tento recordar a data, passada como um borrão, pensando em relembrar os dias que passei caçando.

E então vem a mim, a dica de uma memória: um menino cheio de sorrisos, um bolo cheio de glacê, madressilvas, um dia passado na floresta. Não houve tantos dias bons como esses. Foi o dia em que me acertei com Peeta e nos beijamos novamente depois de tanto tempo.

Aniversários não deveriam importar. Só que fazer 18 anos importa. É a última vez que uma pessoa é elegível para a colheita e significa que você pode ir trabalhar nas minas. Nenhuma dessas coisas se aplicam mais, só que agora eu sou uma adulta. Acho que eu fui uma por um longo tempo, mas agora eu não quero mais ser. Sinto falta da minha mãe terrivelmente.

Eu esqueço que é o dia da minha consulta até que o Dr. Aurélius me liga, dizendo que viu a fita não editada do especial, onde tudo que eu passei com Peeta foi gravado, mas não foi transmitido. Ele diz que eu percorri um longo caminho desde que ele começou a me tratar. Diz que eu mostrei equilíbrio sob pressão, e que se eu continuasse assim teria alta do meu tratamento a qualquer momento.

"Peeta disse que me amava em seu sono" eu deixo escapar. Estou mudando completamente de assunto, mas é algo que eu tenho que tirar do meu peito.

"E como você se sente sobre isso?", pergunta ele em seu tom de voz tipicamente clínico, da mesma forma quando eu dizia a ele que havia sonhado com mais uma bomba incendiária.

Então, eu conto como aquelas impossíveis três palavras fizeram como se eu estivesse prestes a hiperventilar e, ao mesmo tempo, precisasse encontrar o caminho para um armário escuro, mais uma vez. Ele não pode me amar. Não depois de tudo que eu fiz para ele. Ele não precisa se machucar novamente. É claro que eu me preocupo com ele, mas não é um lugar que eu queira ir de novo, porque essas palavras estão totalmente interligadas aos Jogos e à morte.

"Não me sinto com raiva", eu concluo "Confusa", eu digo. Rodando em um redemoinho vertiginoso e cheia de pavor. Deixo a última parte de fora. "Eu acho que ele estava dormindo", eu digo mais para me acalmar do que qualquer outra coisa. "Ou talvez eu tenha sonhado? Mas parecia muito real..." eu estou tagarelando. "Ele parecia tão confortável como quando meu pai costumava dizer a minha mãe que a amava à noite."

"E se ele estivesse acordado e quisesse realmente dizer isso? Ele já disse isso antes."

Estou em silêncio.

"Katniss, e se ele realmente te amar? O que você vai fazer?"

Eu penso em tudo que Peeta sofreu e na pessoa maravilhosa que ele ainda conseguiu ser mesmo depois do tele-sequestro. Obviamente Haymitch tinha razão quando disse que eu jamais mereceria esse garoto. Mas se ele realmente precisar de mim para ser feliz, eu vou aceitar. Ele, mais do que qualquer outra pessoa merece ter uma vida repleta de alegria e amor. Eu posso não ser a pessoa mais indicada para isso, sou egoísta, mal humorada, carrancuda e tenho dificuldades para me relacionar com qualquer pessoa. Porém, se ele realmente me amar e me quiser, mesmo que eu não o mereça, é o que ele vai ter.

"Bom, se isso realmente for verdade, eu provavelmente farei de tudo para corresponder à altura."


Eu passo grande parte da próxima semana caçando. As árvores estão repletas de folhas e cheias de vida. As minhas armadilhas estão tão cheias que quando eu estou de volta à cidade eu tenho que distribuir alimentos às pessoas que voltaram.

Um mercado será concluído em algumas semanas, mas, até então, as pessoas trocam entre si, em vez de confiar nas caixas de abastecimento, cheias de produtos enlatados e rações.

Peeta tem passado muito tempo cozinhando ultimamente. Ele está fazendo experiências com as suas receitas e toda a cidade tomou conhecimento do seu delicioso pão, mas ele sempre salva o melhor para o nosso jantar. Ele me faz sorrir ao ter pão fresco, caseiro, durante o café. Ele não parece se importar em trazer para o jantar também.

Peeta está melhor hoje em dia, menos como o rapaz magro que viveu em hospitais durante meses. Nós dois ganhamos um pouco de peso de volta. Parece que as novas receitas experimentais podem ter suas vantagens.

Quando eu encontro algum alecrim perfumado na mata, eu trago direto para Peeta. Ele encontrou uma forma de acrescentar queijo em seu pão com ervas, de tanto que eu pedi. Mas ele ME fez prepará-lo.

Dadas as circunstâncias, eu primeiro ofereço à Buttercup. Decido que está suficientemente bom para comer quando o pão desaparece em poucos minutos. Eu poderia até ficar constrangida com Peeta sorrindo de orelha a orelha, mas ele se limita a apenas rabiscar algo em seu livro de receitas.

Nós plantamos o alecrim em um vaso, fora de sua casa. Eu acho que a família de Peeta ficaria orgulhosa de ele ter feito uma mini padaria na Vila dos Vitoriosos, mas fico hesitante em trazer à tona essas lembranças tristes.

Durante o jantar, Peeta parece pensativo e não olha para mim. Eu passo meus dias na floresta, mas geralmente damos um passeio na cidade à noite, então eu me pergunto se é por algo que eu fiz ou disse.

"Katniss, eu preciso ir para a Capital", ele finalmente começa. "Dr. Aurélius quer fazer mais alguns testes em mim. Ele assistiu ao meu flashback na fita da gravação e quer executar uma varredura em meu cérebro para se certificar de que estou bem."

No início eu não entendo por que ele está me dando tantas explicações. É claro que ele deve ir e receber toda a ajuda que ele precisa para controlar seus episódios. Nós nem sequer temos um curandeiro no Distrito 12. Seria difícil voltar à capital, mas eu faria o esforço para acompanhar Peeta. Mas ainda assim parece que ele tem uma má notícia.

"E você se lembra quando eu disse que queria reconstruir a padaria? Seria muito mais rápido se eu pudesse ir para a Capital para finalizar a papelada e escolher alguns equipamentos. Tenho passado horas no telefone, todo o tempo conversando com alguns vendedores de fornos e eu realmente só preciso ir para comprar algumas coisas, voltarei em breve".

Então, eu percebo que eu não posso ir. Eu estou exilada no Distrito 12 e não posso viajar. Por mais que eu odeie a Capital, neste momento eu quero muito ir. Mas mesmo se as minhas restrições de viagem fossem suspensas, eu provavelmente não pensaria em viajar para comprar fornos de pão.

"Ele quer que eu vá no domingo."

E então isso me atinge em cheio. São apenas quatro dias até lá. Como vou suportar ficar aqui sem Peeta?

"Pode ir", eu digo, tentando soar desinteressada. "Eu vou ficar bem. Provavelmente nem vou perceber que você se foi." Eu tento brincar, quando na verdade estou à beira das lágrimas. E se ele demorar muito? Ou pior, se ele achar que na Capital tem uma oportunidade muito maior de recomeçar uma vida? E se ele não quiser mais voltar?

"Você vai tomar seus remédios?" Ele franze a sobrancelha direita em dúvida, parecendo muito preocupado. Bom, ele deveria estar mesmo.

"Eu já sobrevivi a duas arenas e uma rebelião. Acho que posso sobreviver por algum tempo sem pão fresco entregue à domicílio diariamente." Tento olhar nos olhos dele enquanto digo isso, para incutir alguma confiança em mim.

"Tenho certeza que você vai ficar bem por si mesma", porém a sua sobrancelha continua franzida. "Mas eu pensei que você pudesse se divertir mais se convidasse alguém".

"Eu vou ficar bem. Fique tranquilo" Eu tento desconversar a sua tentativa de me arranjar uma companhia enquanto levo a louça do jantar para a pia.

Ele me segue com seu prato, que é colocado na pia. Então ele segura meu rosto entre as suas mãos, me forçando a olhar em seus olhos "Você pode pelo menos considerar a ideia? Por mim?"

Eu sei o que ele está tentando fazer. Ele provavelmente já percebeu o que causa em mim quando me observa com esses olhos profundamente azuis. Estou velha demais para uma babá, mas ele só quer o meu bem e eu já recebi sugestões piores. Chego a essa conclusão enquanto seus lábios pairam sobre os meus.


Peeta passa os próximos dias no telefone, fazendo negócios e acertando a papelada. Eu permaneço na floresta, onde as únicas conversas que eu tenho são com linhas de armadilhas não cooperativas.

Eu ajudo Peeta a empacotar suas coisas no sábado. Buttercup fica em cima de uma mala aberta na minha cama. Eu a fecho com ele dentro.

"Peeta, já está tudo embalado. Onde você quer que eu coloque isso?", eu grito para ele no andar de baixo.

Ele sobe as escadas. "Katniss, como você pode ter terminado de fazer as malas? Ainda tem um monte de meias em cima da cama." Então ele olha a mala mais atentamente. "E por que a minha mala está se mexendo?"

Eu a abro e Buttercup salta para fora miando desesperadamente. Eu me dobro na cama de tanto rir.

"Essa teria sido uma agradável surpresa no trem", ele revira os olhos para mim e volta para o andar de baixo para organizar alguns papéis e fazer as últimas ligações.

Quando a noite chega, eu fico de bruços na minha cama esperando Peeta vir se deitar, tentando decidir o que dizer a ele antes de ir dormir. Ouço uma batida suave na porta e então ele entra, com vários papéis em suas mãos. "Este é o lugar onde eu vou ficar se você precisar entrar em contato comigo. Algumas noites eu estarei no trem."

Peeta faz o seu caminho até a cama lentamente e se senta ao meu lado. Ele coloca uma mão quente na parte inferior das minhas costas e com a outra mão ele se cobre com o cobertor, para que eu não veja a tristeza gravada em seu rosto. Por mais que ele tente, ele não pode escondê-la de mim.

"É apenas uma semana." Eu ofereço-lhe um meio sorriso, tentando nos convencer. Repeti essa frase para mim mesma diversas vezes durante os últimos dias. "Dr. Aurélius irá trabalhar a sua magia e então você vai se lembrar de tudo. Ele vai apagar todas as suas memórias alteradas e você vai voltar com fornos tão extravagantes que eu tenho certeza que não irei vê-lo por semanas porque você não vai querer mais sair da cozinha."

Ele está olhando para o teto. "Se pelo menos a parte das memórias fosse verdade..." Ele parece tão distante quando diz isso.

"Sobre quais memórias você quer falar essa noite?" Eu pergunto. Às vezes são dolorosas demais, então eu não costumo entrar nesse assunto. Mas hoje eu farei qualquer coisa pra distraí-lo.

"Qual é a sua lembrança favorita da Capital? Algo feliz."

Penso imediatamente em Cinna e em todas as suas roupas lindas. É apenas uma memória parcialmente feliz, apesar de tudo. Acho que o nosso piquenique no telhado e as noites que passamos juntos são a resposta certa. Mas me decido pela comida da Capital, todos os alimentos eram incríveis.

Sento-me de pernas cruzadas na cama para que eu possa encará-lo. "Teve uma vez, na hora do almoço, que tivemos uma fonte de chocolate derretido, onde podíamos mergulhar frutas, pãezinhos, biscoitos e uma variedade enorme de doces" digo a ele. Eu não tenho certeza se é uma memória feliz, mas é a mais segura. Pelo menos isso não vai me levar às lágrimas. "Eu gostei tanto que pensei que fosse explodir de tanto comer."

"Chocolate, né?" ele cutuca meu estômago. E então as linhas de preocupação desaparecem, enquanto ele parece estar, finalmente, sorrindo para mim.


Antes que Peeta saia de casa pela manhã, peço-lhe o braço. Tenho medo de dizer alguma coisa e soar completamente errado. E então eu vou começar a chorar, fazendo isso mais triste do que tem que ser. Sendo assim, ao invés disso, eu escrevo.

Eu pego um marcador preto e traço uma mensagem sobre sua pele macia, na parte inferior do seu antebraço. Minhas mãos não são tão firmes quanto as dele. Com uma mão eu seguro seu braço e com a outra eu lentamente formo três palavras.

Não são exatamente as três palavras que eu sei que ele deseja ouvir, mas é o que eu preciso dizer. Eu desenrolo a sua camisa e digo a Peeta que ele pode olhar quando estiver no trem. Fico mais aliviada agora que as minhas palavras vão estar com ele, mesmo que eu não possa estar.

Decidimos evitar qualquer demonstração de afeto que pudesse acabar na TV se uma câmera estivesse à espreita. Então, antes de Peeta embarcar no trem, ele faz uma pausa para tomar minhas mãos nas suas e beijá-las. "Por favor, fique segura".

Serão as minhas últimas palavras para ele, então eu as digo sinceramente, lembrando de todas as muitas lesões que ele suportou na Capital.

"Então não perca o caminho de casa".