Os pesadelos vêm com uma intensidade inesperada naquela noite, como se todas as semanas de sono repousante voltassem na forma de enervantes pesadelos. Como se os piores terrores tivessem sido salvos apenas para esta noite. Todas as mortes que eu testemunhei passam como um filme na minha cabeça, mais horríveis do que as originais. E Peeta, eu o vejo morrer tantas vezes... Acidentes de trem, eletrocutado, atirado ao fogo, sendo espetado, esfaqueado - é demais. Eu saio da cama às 4 da manhã. Eu não vou voltar a dormir.

Eu me enrolo no meu armário e fico mal até antes do amanhecer. Eu pego o meu arco, pretendendo ir caçar. As imagens gravadas em meu cérebro são apenas muito reais e eu tenho dificuldade de sair pela porta. Eu não vou mais longe que a estação de trem e me sento, lembrando do dia em que fiquei olhado as estrelas com Peeta nesse mesmo banco, na estação deserta.

Eu tento não olhar para o Prego ou para os restos de construções arrasadas ainda não reconstruídas. Estou muito fora de foco para ir caçar, principalmente para seguir os esquilos mais arrojados que se aventuram entre os ramos mais altos.

Depois de um dia improdutivo, eu largo minha bolsa de caça vazia no armário. A casa parece dolorosamente quieta. Não há ninguém na mesa para que eu compartilhe o meu dia. Eu decido não ligar para minha mãe, não pretendo preocupá-la. Não é um dia de terapia. E não há mais Madge para ir visitar.

O sol se põe agora, mas não é demasiado tarde para ir visitar um dos meus vizinhos. Ele não está tão bêbado quanto ele normalmente é, mas ainda está longe de estar sóbrio.

"Onde está o garoto?" ele pergunta quando eu me jogo em uma de suas cadeiras.

"Viajou para refazer os testes cerebrais, na Capital", eu digo com a maior indiferença possível, talvez até mesmo para fingir que nós não somos uma espécie de pacote nos dias de hoje, o que chega a ser uma mentira deslavada.

"É mesmo? Antigamente ele viria se despedir de mim" Ele resmunga. Acho que Peeta é a única pessoa que Haymitch realmente não se importa de amar. Digo isso porque sei que ele se importa comigo, mesmo que nunca vá admitir.

"Na verdade ele veio antes de embarcar, mas você estava tão bêbado que não saberia dizer nem mesmo o seu próprio nome se lhe fosse perguntado". Era verdade. Peeta bem que tentou se despedir de Haymitch, mas dada a situação do nosso mentor, foi melhor assim.

"Touché docinho" Ele inclina a garrafa na minha direção. Eu recuso. Ele joga a cabeça para trás, então eu olho para a mesa coberta de placas de sujeira que estão começando a atrair pequenas moscas pretas.

Acho que eu poderia lavar seus pratos, arrumar sob o pretexto de ajudar. Ao invés disso eu fico na minha cadeira esperando o conselho não desejado que ele sempre distribui.

Ele me nos olhos com cautela. "Mas agora me fale a verdade. O que você fez com ele?" Eu sabia.

"Nada", eu respondo rapidamente. "Eles só queriam ter certeza de que Peeta ainda está bem", eu digo com os olhos no meu colo.

"Você não fez nada?" ele entoa.

Eu enrolo a ponta da minha trança enquanto espero pela próxima rodada de protestos contra a minha crueldade.

"Foi por causa do Especial para a TV." O que Haymitch dormiu. "Eles não querem que seus flashbacks piorem."

"Então, você está dizendo que você não mandou aquele menino embora? Que não fez de tudo pra que ele desistisse de você?" É uma acusação. De que eu não fiz o suficiente. De que eu não sou boa o suficiente para ele. De que eu não sou o que Peeta precisa. O sangue de repente ferve nas minhas veias.

Eu estou longe de ser perfeita, mas eu tenho certeza de que eu não o afastei, muito pelo contrário. Eu já decidi que farei Peeta feliz, a qualquer custo. Se essa realmente for a sua vontade. Mesmo que eu não tenha ideia de como fazer isso.

"Mas é claro que não, eu acho que o am-"

"Muito obrigado, eu já quase ouvi o que eu queria. Mas me prometa uma coisa. Da próxima vez que você tentar dizer que o ama em voz alta, diga isso para o Peeta. Ele merece mais do que ninguém ser o primeiro a ouvir isso, quando você admitir pela primeira vez". Depois desse discurso ele tropeça para fora da cadeira e vai para a cozinha. Ele disse tudo aquilo para me irritar e fazer com que eu quase admitisse algo sem nem mesmo perceber. Bom, Haymitch sempre será Haymitch.

"Vou fazer o jantar, docinho", ele oferece, interrompendo meus pensamentos.

Eu seguro as minhas mãos sobre o assento da cadeira para não cair no chão. Sua oferta parece genuína suficiente. Imediatamente eu tenho visões de panelas explodindo, massas voando, molho de tomate estragado, e uma carne de coelho carbonizada pelo esquecimento.

"Você não precisa fazer isso," Eu me oponho. "Eu faço o jantar" Eu começo a olhar ao redor de sua cozinha para ver o que exatamente ele tem: latas empoeiradas de legumes, uma despensa cheia de várias garrafas de vidro com líquidos diferentes e os restos da cesta indesejada de Plutarch.

"Deixa comigo. Você merece", diz ele.


Na parte da manhã, eu decido que não posso enfrentar a floresta ou a cidade hoje, e que a limpeza da casa é a minha prioridade. Eu esvazio todos os armários de comida para organizar e descartar qualquer coisa que esteja fora da validade.

Eu estou sentada no meio de uma pilha enorme de potes tirados da dispensa, um excedente de latas de batata, quando o telefone toca, me trazendo para fora do meu tédio.

"Katniss, está tudo bem? Eles disseram que você ligou." Peeta parece sem fôlego, como se ele tivesse corrido para o telefone.

Ele achou que fosse emergência, quando eu liguei há algumas horas para escapar do silêncio e da saudade. Considero brevemente dizer isso a ele, mas não seria bom.

"Oi, Peeta. Estava apenas querendo saber como você está. Certificar-me de que eles estão te mantendo seguro."

Ele deixa escapar um suspiro audível de ar. "Eu pensei que algo estivesse errado."

"Não."

"Fico feliz em ouvir isso."

Eu resisto à vontade de dizer algo sobre a casa silenciosa ou os pesadelos. "Então, o que você conseguiu caçar hoje?", pergunta ele. Meu silêncio me trai.

E então ali, olhando para mim, está o número de telefone de Delly, colado na parede, junto com um bilhete dizendo que ela quer vir nos visitar.

Eu imediatamente me lembro da sugestão de Peeta e aceito que ele poderia estar certo. Assim que eu me despeço dele, disco o número indicado na nota manuscrita.

De malas prontas, ela só estava esperando a minha ligação. Tenho a sensação de que alguém esteve tramando, fazendo planos pelas minhas costas. Eu deveria estar acostumada a isso agora. Este plano pelo menos não envolve mutações, bombas ou artilharia pesada, então eu o aceito de bom grado.

Com medo de cair no sono, eu fico a maior parte da noite terminando de organizar os armários. Eu também começo a limpar o quarto mais distante do meu. Eu não acho que já tenha sido usado, mas eu verifico se a roupa de cama está limpa e o banheiro abastecido. Na parte da manhã, eu descanso no sofá e me levanto apenas para ir à estação de trem.

Isso vai ser divertido, eu tento me convencer. Delly é tão otimista e vê o melhor em tudo. Eu poderia usar um pouco disso.

Na estação de trem na hora designada, eu avisto os cabelos amarelos de Delly, ainda puxados para trás na tradicional trança do Distrito 13. Ela usa roupas de viagem e não os uniformes cinzas, mas ainda assim parece estranhamente pálida.

Ela me cumprimenta com um abraço entusiasmado. Eu uso as minhas melhores maneiras para não me afastar do contato familiar. Nós crescemos juntas e eu lhe devo tanto por ajudar Peeta... Ela pode muito bem ganhar um abraço.

"Katniss! É tão bom estar em casa. Esta é a primeira vez que eu estou de volta desde a rebelião", ela exclama, enquanto caminhamos em direção a minha casa.

"Estou muito animada com essa visita. Chega quase a ser como um lar-doce-lar e isso é ótimo. E eu vou finalmente conseguir passar um tempo com você. Eu não te vi muito no 13 e nós não ficamos muito tempo juntas durante a infância, com você sempre ocupada, então isso é tão maravilhoso. Peeta me fala tanto sobre você e eu só consegui conhecê-la mesmo depois dos Jogos. Isso vai ser muito divertido. "

Delly falou quase sem parar desde que eu a peguei na estação. Isso certamente vai resolver o meu problema de silêncio em casa. Eu mostro a Delly seu quarto e a ajudo com suas malas.

"Então, em primeiro lugar", eu digo, "nós precisamos colocar um pouco de cor em suas bochechas. Que tal um passeio? Posso te mostrar o que está acontecendo."

Na cidade eu lhe mostro todas as lojas sendo reconstruídas. Nós conferimos o novo Edifício de Justiça subindo, ou pelo menos uma nova versão dele. É um edifício bem grande. Fico muito feliz ao saber que Delly está estudando para conseguir um cargo lá. Seu trabalho vai ser cuidar de um monte de papeladas e autorizações, mas é uma posição respeitada. Ela diz que vai voltar para o 12 quando seu trabalho começar, em poucos meses.

Delly me diz que o prédio também vai abrigar uma divisão de segurança, quadra de jogos, salão de festas e escritórios de funcionários, onde os novos representantes serão eleitos por votação dos Distritos e não nomeados pela Capital, agora derrubada. Ela explica as próximas eleições para mim.

"Assim, qualquer residente do Distrito 12 pode tentar se candidatar a nova versão do nosso prefeito?" Eu pergunto.

"Existem algumas restrições, mas a principal é que nós temos que escolher", Delly responde.

"Então Haymitch poderia ser prefeito?" Eu rio sozinha da minha própria piada, pensando em seus tropeços e quedas livres, marcas registradas de Haymitch. Ele não é exatamente a imagem de uma liderança profissional.

Delly tenta fazer o que eu acho que deveria soar como uma carranca.

Claro que Haymitch é muito mais calculista do que a maioria lhe dá crédito. Ele foi fundamental na rebelião e por isso impõe respeito. Entretanto, uma parte de mim se pergunta se seu primeiro ato como prefeito seria mudar as commodities do distrito de carvão para licor branco.

Ela diz que pode me indicar para a equipe que vai trabalhar com ela, ajudando nas eleições, supervisionando a reconstrução e assim por diante. A perspectiva de vida sem os Pacificadores, toque de recolher e chicotadas na praça é animadora, mas Delly tende a adoçar as coisas, então eu fico me perguntando se vai ser mesmo assim.

Caminhamos pela floresta e conversamos sobre Buttercup, que parece estar com vontade de me seguir durante o dia todo. Eu a levo através dos bosques e brevemente lhe mostro a clareira com todas as flores.

"Eu perdi tudo isso." Delly cai na grama como se estivesse fazendo um anjo de neve. "O macio da grama. Mesmo com seus inconvenientes", diz ela sacudindo um pequeno inseto de seu braço. Deito-me a poucos metros de distância e observamos as nuvens.

Quando os nossos estômagos começam a roncar vamos para minha casa e Delly me ajuda a preparar o jantar. Ela insiste que é bom para ela, porque precisa se acostumar a cozinhar para si mesma antes de sair do Distrito 13.

Eu lhe mostro todo o pão que Peeta nos deixou e ela escolhe um pão longo e duro, que vai cair bem com a caçarola de macarrão que ela está fazendo.

No jantar Delly me conta as notícias do 13 e me dá uma versão superficial das reações do distrito com a execução televisionada da sua presidente. "Você está fazendo o seu melhor?" , pergunta ela.

Garanto-lhe que estou trabalhando nisso. Sua pergunta é sincera, então eu não a tomo como ofensa, como eu normalmente faria.

Depois do jantar, ela traz uma pilha de livros e a coloca na mesa. "Eu espero que você não se importe. Tenho exames em breve."

Quando ela desiste de estudar para obter os requisitos da licença, ela me diverte com histórias da infância de Peeta: como seu irmão mais velho quebrou o seu primeiro dente quando eram crianças, o dia em que ele a salvou depois que ela caiu em um chiqueiro lamacento de porcos para recuperar sua fita de cabelo perdida, até a sua pedra de estimação elaboradamente pintada chamado Ruibarbo. As histórias são tão bonitas que realmente me deixam triste.

"Ele está se recuperando muito melhor agora", ela me assegura. "Ele se lembra da maioria agora. Falei com ele apenas alguns dias atrás e ele estava me dizendo como ele se lembrou de como me forçou a jogar amarelinha enquanto seus irmãos zombavam dele."

"Obrigada Delly," Eu aperto-lhe a mão "por ajudá-lo." Peeta teria feito um discurso elaborado, mas eu acho que isso diz tudo.

Ela sorri. "Você ajuda mais do que você sabe."

Já é hora de dormir, quando Peeta telefona e pergunta como foi meu dia. "Espere um pouco."

Eu cubro o receptor e chamo Delly ao telefone.

"Olá?"

Ela ri e diz-lhe tudo sobre o nosso dia.

Eu recebo o telefone de volta. "Parece que você teve um dia divertido"

"Pois é. Acho que a companhia foi uma boa ideia."

"Katniss, uma última coisa. Pediram que eu filmasse um Programa de TV amanhã. É para ser um programa culinário, mas eu sei que eles vão perguntar sobre nós dois."

Ele não pode ver a minha cara feia por telefone.

"O que eu devo dizer?"

"O mínimo possível." Uma coisa sou eu admitir para mim mesma que farei de tudo para ser feliz com Peeta. Outra totalmente diferente é admitir isso para um país inteiro. Não posso deixar que a nossa vida fique fora de controle mais uma vez.

"Eu vou tentar. Mas eu nem sei o que dizer. Posso dizer que somos amigos? Que somos mesmo um casal? Ou que você acabou sendo a menina cuja casa eu durmo praticamente todas as noites?"

Ele está com raiva de mim agora. Eu posso ouvi-la em sua voz.

Tenho que evitar essa conversa até que ele retorne. "Não diga nada."


Buttercup fica enrolado nos tornozelos de Delly, depois que ela desce as escadas na parte da manhã. Ela parece longe de estar descansada, mas não diz nada sobre qualquer ruído que possa ter vindo do meu lado da casa. Ela faz o café da manhã e enquanto eu lavo os pratos, ela abre um de seus grandes livros didáticos.

Sei que estudar não parece muito divertido, então eu dou a sugestão de que Peeta vai estar na televisão em breve. Ela fecha o livro sem pensar duas vezes e vamos as duas para o sofá.

No final de um talk show matinal, o programa de culinária é introduzido. Peeta está em uma cozinha ornamentada com paredes de vidro, um balcão todo feito de pedras e mais fornos do que eu já vi em um só lugar. Ele está vestindo um avental branco e chique. Há um chapéu de cozinheiro tampando metade de sua testa, para esconder melhor suas cicatrizes. Ele está simplesmente lindo.

"Nós estamos aqui hoje conversando com Peeta Mellark, vitorioso do Distrito 12 e um dos nossos rapazes favoritos". Um apresentador de TV do sexo masculino com sobrancelhas angulares estranhamente começa. "Então, Peeta, o que você tem feito desde a revolução?"

"Eu tenho experimentado fazer novas receitas, então eu pensei em vir mostrar como fazer um outro tipo de pão."

"Você é um herói para muitas pessoas, então porque gastar o seu tempo cozinhando no Distrito 12?" o anfitrião questiona.

Peeta dá de ombros. "É a minha cas que eu sempre fiz. Eu já fazia cookies quando tinha três anos."

"Foi isso mesmo que você disse antes dos jogos... Mas você poderia se dedicar à pintura, ter o seu próprio programa de TV."

"Bem, eu já fiquei na frente das câmeras durante muito tempo, e agora eu posso pintar no meu tempo livre. Porque você não tenta experimentar uma das minhas mais novas receitas? Ela não pode ser tão ruim assim..." Peeta joga as mãos para cima e recebe algumas risadas.

Ele mostra ao apresentador como amassar a mancha pálida de massa sobre o balcão. O anfitrião não parece querer receber farinha em seu terno de lã fria, então ele tenta amassar um pão do comprimento de seus braços com as pontas dos dedos.

"Oh, você vai ter que fazer melhor do que isso", diz Peeta enquanto bate na massa, empurrando-a para baixo com a palma mão, enviando partículas de farinha ao casaco escuro do apresentador. O público adora.

A massa vai para um misturador com tantos botões que só poderia vir da Capital. "E agora, eu gosto de usar uma lareira de pedra, que é onde nós iremos assar o pão." Peeta usa um longo garfo de madeira para colocar o pão redondo no forno. "Não é possível que um pão cresça sem algum tipo de chamas", diz ele, olhando diretamente para a câmera. Sinto um arrepio pelo corpo.

De outro forno Peeta remove pão redondo já perfeitamente pronto. "E então teremos isso."

O apresentador experimenta um pedaço do pão. "Incrível".

"Infelizmente eu não posso levar todo o crédito por este, poque a receita é da Katniss", ele sorri. "O queijo e o alecrim."

O Sr. Sobrancelhas lhe dá um olhar mortal. "Como está Katniss nos dias de hoje? Lembro-me de vê-los se olhando intensamente durante o especial, mesmo que não tenha sido por muito tempo"

Se eu não o conhecesse tão bem poderia ter perdido, mas sua compostura confiante se quebrou por um instante mínimo, quando ele percebee o erro. Ele concerta quase de imediato, novamente olhando para a câmera, completamente imperturbável. "Ela está bem melhor".

"Nós percebemos que você está viajando sozinho hoje." A imagem se desloca para um grupo de garotas adolescentes rindo na platéia. De repente quero atirar uma flecha em alguma coisa. "Por que?"

"Katniss não pode sair do Distrito 12."

O anfitrião faz uma careta. "Ah sim, é verdade." Ele assume um tom mais sério. "Há um ano atrás vocês se casaram secretamente. Nós temos que saber, o que está acontecendo agora?"

"Bem, eu não me lembro disso." Peeta baixa os olhos, franze a testa. "Eu sofri um trauma, causado pela guerra e ainda estou em tratamento médico. Eu não consigo me lembrar de quase nada a partir dos últimos dois anos."

Ele balança a cabeça. "Isso é terrível."

"Então é por isso que eu tenho passado muito tempo cozinhando."

"Bem, dizem que o caminho para o coração de um homem é através de seu estômago", o anfitrião tenta. "Será que isso também vale para tordos?"

"Oh, quem dera fosse possível conquistar Katniss com apenas algumas receitas de pães e bolos", diz Peeta em um tom manhoso, quase arrogante. Ele tem o público comendo nas suas mãos cobertas de farinha. "Eu estou realmente visitando a Capital em uma viagem de negócios para obter suprimentos para a padaria que eu pretendo abrir no Distrito 12. Vou fazer pães especiais, biscoitos e estou pensando em novas receitas para bolos de casamento."

O apresentador abre a boca para outra pergunta, mas o tempo do programa já acabou.

Assistir Peeta na TV ainda parece estranho para mim. Eu sempre estive lá com ele, segurando a sua mão enquanto ele fala. Mesmo que ele não esteja perto o suficiente para o meu toque, é bom ver que ele está bem, e ainda tão encantador como sempre.

"Ele te ama", diz Delly em voz baixa.

Não era o que eu estava esperando ouvir. Ainda assim, não é algo que eu esteja totalmente despreparada para viver. A velha Katniss teria dito eu sei, mas, ao invés disso, eu me pergunto como ele poderia me amar com todas as suas memórias alteradas, as minhas falhas e por que eu iria mesmo merecê-lo.

Eu deveria fingir que não ouvi. Mas ao invés disso eu ergo as minhas mãos para o ar e luto contra as lágrimas. "Eu só não sei por onde começar!"

Delly se recosta no sofá e fecha os olhos como se estivesse em um sonho feliz. Depois de vários momentos, ela me olha de volta. "Que tal por uma caminhada?", ela decreta e praticamente me enxota da minha própria casa.

"E por você, eu vou junto." Ela conecta nossos braços e ri enquanto caminhamos pelo sol quente. Sua felicidade é tão intensa que não posso deixar de pensar em como eu estou sendo arrastada para longe de qualquer pensamento persistente sobre meninos e palavras que eu ainda não sei como lidar.