Eventualmente, eu tomo a iniciativa e decido que é um bom horário para colher alguns alimentos para o jantar desta noite. Uma vez que já estamos do lado de fora, nada nos impede de adiantar um trabalho.

Delly não consegue parar de bater palmas e rir enquanto reúne verduras e puxa folhas de cebola da grama.

"Caçar com Katniss Everdeen," ela diz. "Eu tenho certeza de que eu nunca pensei que eu estaria fazendo isso. Sempre admirei o modo que você arranjava comida e aqui estamos. Você pode me mostrar o que fazer?"

Concordo com a cabeça e voltamos a cutucar a terra, com Delly seguindo a minha liderança e fazendo uma pausa na conversa por alguns minutos.

Quando eu era pequena, costumava fazer o jogo de encontrar a maior cebola que eu pudesse. Eu sempre corria para mostrá-la ao meu pai. Hoje eu faço o jogo de plantar a maior cebola na clareira. Eu peguei mais do que o suficiente para o jantar de hoje à noite e agora temos que plantar para que tenhamos mais daqui a algum tempo.

Um pedaço de grama com aparência suave parece estar chamando meu nome para que eu faça uma pausa. Delly vem e senta-se de pernas cruzadas a poucos metros de distância.

"Eu sou uma boa ouvinte", diz ela timidamente. "Eu escutei muitas histórias de Peeta para fugir ou julgá-lo."

Então, ela sabe todas as coisas horríveis que eu quero saber, mas que eu realmente não quero saber, ao mesmo tempo. "Pobre Peeta" eu sufoco antes da minha mente aparecer com alguma lembrança obscura.

"Acho que ele está melhor", ela começa. "Ele não é mais a pessoa zangada e violenta que ele era no 13. Ele parece mais calmo agora, mais parecido com o menino doce que costumava ser meu amigo. Ele não está imaginando coisas e está muito menos frustrado."

O otimismo de Delly torna muito mais difícil de me sentir culpada. E ela está certa. Ele está cada vez melhor, mas esse não é o problema. O problema são aquelas três palavras que ele me disse, e o que acontece às pessoas que eu digo essas palavras. Eu me preocupo com ele, eu realmente e profundamente me importo. Mas tenho medo de admitir fazer mais do que isso. Eu tenho pavor do nosso destino e do intenso vínculo que as dificuldades forjaram entre nós nestes últimos dois anos.

"Tenho medo de que ele quebre o meu coração", eu sussurro, esperando que ela não ouça. É a primeira vez que eu digo isso em voz alta e sei que é verdade.

Perder meu pai provocou um corte profundo em mim. A captura e o sequestro de Peeta rasgaram a ferida ainda mais, deixando-a aberta e a morte de Prim estilhaçou os restos em tantos cacos afiados que eu não achei que ele poderia ser reparado. Mas eu estava errada. Meu coração ainda está machucado e provavelmente será sempre assim, mas não como antes. Peeta faz com que eu me sinta curada. Então, se acontecer alguma coisa com ele agora, eu tenho certeza de que não vou resistir.

Sinto-me exposta e aliviada ao mesmo tempo.

"Estamos todos nos curando, Katniss," Delly me consola. "Vai ficar tudo bem."

Confusa, eu vou para a cama cedo naquela noite. Delly fica acordada assistindo TV. Acho que ouvi comentários sobre alecrim e padarias que vêm através dos alto-falantes da TV.

Os pesadelos chegam e me refugio no porão, o mais longe quanto possível do quarto de Delly. Eu estou bem acordada, então eu decido dobrar as roupas lavadas, demorando-me em uma camisa verde de Peeta. Em algum momento ao longo dos últimos meses, lavar a roupa se tornou uma tarefa comum. Hoje à noite ela faz com que eu me sinta um pouquinho triste.

Embora ainda não seja madrugada, deixo um bilhete para Delly e saio para caçar.

No meio da manhã eu reponho as armadilhas que eu negligenciei por muito tempo. Os coelhos estão abundantes e eu coloco alguns deles no meu saco de caça. Eu não tenho certeza se Delly é enjoada, então eu limpo os coelhos na floresta, envolvendo-os em folhas grandes e levo alguns para casa deixando a maioria para Greasy Sae.

Delly fica enterrada em seus livros naquela noite enquanto eu fico tentando ser uma boa companhia. Trago-lhe um lanche e mantenho Buttercup longe de sua pilha de papéis. Quando está quase na hora de dormir eu visto a camisa verde de Peeta que é realmente muito grande em mim e me deito no sofá na sala de estar. Ouço a porta abrir. É, provavelmente, Haymitch procurando sobras do jantar ou Sae vendo como eu estou. Eu não faço nenhum esforço para me levantar.

"Oh!" Delly grita.

Antes que eu possa levantar para ver o que causou a explosão, duas mãos tocam o meu rosto e lábios familiares beijam a minha testa, nariz e boca. "Estou em casa" ele respira. "Peguei o trem das 4 horas para chegar aqui hoje à noite."

Peeta não devia estar em casa até o final de amanhã. Eu não tenho certeza se isso está realmente acontecendo, mas o calor que eu sinto em minha boca e se espalha pelos meus membros parece muito real para ser um sonho. Eu me perco em seus beijos, me arrepio em seus braços e só me afasto para recuperar o fôlego.

Delly limpa a garganta e estamos de volta à realidade. "Eu vejo que vocês estão se dando bem juntos. Bem melhor do que a última vez que te vi, pelo menos."

Minhas bochechas queimam. Eu dou um sorriso delirante e dou espaço para Peeta no sofá.

"Digamos que não ter tentado matá-la nos últimos tempos tenha ajudado" diz Peeta. Parece uma das piadas ruins de Plutarch.

"Peeta, eu disse que ela não era o que você pensava. E eu lhe disse que você iria se lembrar", diz Delly sinceramente. "Bem, eu estou feliz. Eu sempre estive torcendo por vocês."

"Obrigado, Delly", diz Peeta. "E eu tenho uma surpresa para vocês duas, senhoras."

Peeta me dá uma grande caixa vermelha e pega uma caixa amarela semelhante para Delly. A sala está cheia de barulho de plástico sendo desembrulhado. Eu ganhei uma variedade de todas as formas e cores de chocolate. Eu mordo um pedaço redondo com um recheio tão delicioso que é quase um líquido.

Delly também parece muito feliz. Tenho certeza de que chocolate não é algo que eles tenham aos montes no 13.

Ele me entrega mais umas caixas de chocolates e se senta atrás de mim no sofá. Eu me encaixo entre suas pernas e encosto minhas costas em seu peito, enquanto ele envolve seus braços ao meu redor.

Peeta conta a Delly tudo sobre sua viagem para a Capital. Ela nunca foi até lá e quer ouvir cada detalhe. Ele diz que as pessoas da Capital decidiram que bigodes, pele de animais e modificações corporais não estão mais na moda. Ele continua falando sobre a mais recente tecnologia de fornos e misturadores.

Eu estou contente de tê-lo em casa, comigo. Ele se sente bem. Eu odiava tanto essa casa antes, mas agora ela se tornou confortável com Peeta ao redor. Eu não voltei para a minha casa na Costura, eu não acho que poderia enfrentá-la. É muito dolorosa e nem é mais uma casa no momento.

"Katniss, por que você não vai para a cama?" Peeta pergunta. Em algum lugar entre as menções de garimpo e centeio devo ter cochilado.

Murmuro algo e sigo para as escadas.

"Já é tarde", Delly concorda. "Bem, boa noite, eu acho que seguirei o exemplo de Katniss, Peeta", diz Delly, olhando para a porta da frente.

Peeta, no entanto, não caminha na direção que ela espera. "Vejo você pela manhã". Peeta sobe as escadas e fecha a porta do meu quarto atrás de nós.

"Como você é exibido" Eu provoco e então sou envolvida em seus braços. Além disso, Delly é provavelmente a última a saber sobre o nosso acordo. Todo mundo sabe, praticamente todas as pessoas no Distrito 12, até o entregador. Em algum nível eu me importo, ou eu não estaria pensando sobre isso, mas hoje eu não estou nem aí.

"Eu senti sua falta." Eu deixo escapar. Então, eu sou apoiada contra a porta do quarto pelo menino que eu pensei durante a semana inteira.

Eu combino o beijo que lhe dou com uma nova energia e o valor de uma semana de saudade. Em seus braços, eu esqueço, mesmo que apenas por um momento, de todas as razões para estar triste. E a sala está girando... É como se eu estivesse de volta ao hospital do Distrito 13, correndo para ele.

"Katniss, você está tremendo. Qual o problema?"

"Nada", eu minto. Eu tenho a sensação de que tirei um peso do meu peito. Ele está de volta. Ele está seguro. Ele está aqui.

"Você faz a minha cabeça girar." Eu sorrio para ele.

"Eu?" ele brinca. "Bem, você..." Ele praticamente me joga na cama e estamos nos beijando. É quente e desesperado. "Eu senti sua falta", ele suspira quando sua boca encontra o ponto mais sensível da minha orelha. "Eu senti sua falta", ele repete, enquanto desce para o meu pescoço. "Eu senti sua falta", diz ele beijando o topo do meu ombro antes de retornar e sugar o meu lábio inferior. Isso é tão diferente dos nossos beijos habituais que, de repente, eu me pergunto se ele quer mais do que beijos e carícias esta noite.

É agora, eu penso. Todos esses momentos no escuro, as mãos desastradas, a falta de fôlego, tão cuidadosamente colocados em um impasse... Vai acontecer. Eu tento mascarar a minha incerteza e me concentrar em sua boca. Eu senti falta dele. Eu preciso dele.

Puxo o seu corpo sobre o meu, de modo que não há mais espaço entre nós. Eu posso sentir a fivela do seu cinto imprensada contra o meu umbigo, o seu coração batendo contra o meu. E quando eu sinto que não posso respirar mais, é ele quem se afasta, com falta de ar.

Em vez de retomar ao ritmo frenético, ele para e trilha um dedo ao redor do meu queixo, descansando a mão em minha bochecha. "Eu quero tanto ter novas experiências com você" Ele castamente beija minha testa. "Mas não hoje à noite. Preciso te dizer algumas coisas primeiro."

Eu coloco a minha cabeça em seu peito e me contento com o que ele diz. Ele cheira ao sabonete floral do trem, canela e um pouco de chocolate. Não posso me deixar levar pelo momento. Antes de decidir fazer isso, preciso contar a ele a minha decisão, precisamos estabelecer o que realmente somos.

"Eu gosto de ter você em casa", eu confesso. Através do luar, eu ainda posso ler fracamente o volte para mim, que eu mesma rabisquei em seu braço.

Ele acaricia uma mecha de cabelo no meu pescoço, e eu juro que eu posso sentir um formigamento crescendo até o fim dos meus dedos. "Eu gosto de estar em casa."

E nesse curto espaço de conversa, está decidido oficialmente. Este é o seu lar. A minha casa. Sua casa.

Eu nunca pedi. Ele nunca tocou no assunto. Começou simplesmente de uma forma despreocupada, uma de suas camisas distraidamente se misturou com as minhas. Em pouco tempo, ele tinha uma gaveta, meio guarda-roupa e comprimidos no meu armário de remédios. Não houve um momento, apenas uma mudança gradual desde jantares compartilhados até as noites inevitáveis juntos.

"Bons sonhos", eu sussurro, enquanto eu mesma me deixo ser levada pelo sono.

Ele meio que sussurra as próximas três palavras. Eu as ouço e decido não ter medo. É hora de curar.


Eu rolo para colocar a minha mão no peito de Peeta, mas ela acha o travesseiro em seu lugar. A noite passada foi um sonho. Ele não voltou para casa. Ele ainda está na Capital. Talvez ele nunca mais volte. Eu jogo o cobertor por cima da minha cabeça. Vou ficar na cama hoje. Eu não posso lidar com isso.

Então eu ouço a sua risada. Espero.

É o suficiente para ajudar a levantar uma pessoa que é viciada em dormir.

No térreo, uma garota ri. Ele realmente voltou para casa mais cedo. Eu pego um pente e tento fazer a minha juba parecer apresentável, jogo um robe sobre a camisa emprestada e sigo as vozes abafadas.

Delly e Peeta estão sentados à mesa da cozinha mergulhados em uma conversa. Peeta usa um olhar sério sobre o seu rosto e Delly está radiante e positiva. Acho que ela está falando sobre seu novo trabalho, mas eles imediatamente param quando eu entro na sala. Eu já estou acostumada com isso e me sento como se eu não tivesse percebido.

"Ei Katniss, você dormiu melhor na noite passada?" Delly pergunta.

"Sim", eu digo com alívio na minha voz. "Eu aposto que você finalmente conseguiu dormir um pouco, também."

Peeta me olha nos olhos. "Sem pesadelos?" Eu balanço a minha cabeça.

"Bem, isso é maravilhoso. Eu estava tão preocupada com ela", diz Delly.

No café da manhã Delly me faz soar como uma excelente anfitriã, enquanto narra os, aparentemente, divertidos dias que passamos passeando pela cidade e colhendo flores.

Ela diz que vai nos ver assim que puder, quando ela voltar para o seu trabalho e que seu irmão está supervisionando a sua casa, que está sendo reconstruída.

"Toda vez que você precisar de alguma coisa, nos avise" diz Peeta. Ele sai para começar a assar alguma receita nova e complicada que ele aprendeu em sua viagem, enquanto eu ajudo Delly com as suas malas, em direção a estação de trem.

Na plataforma de embarque, Delly começa a dizer alguma coisa. "Peeta..." Mas então ela desiste e começa a rir. "Estou tão feliz por você", ela me abraça. Ela embarca no trem e se afasta da estação.


Estou sentada em um banquinho da cozinha de Peeta, cortando morangos, enquanto ele confeita um bolo com eles. Apoio os cotovelos no balcão e o rosto em minhas mãos, e decido perguntar algo que está me deixando inquieta.

"Então, o que exatamente você queria me dizer ontem à noite?"

Ele se inclina como se tivesse um segredo muito delicioso para deixar que qualquer um escutasse. Não há ninguém aqui, exceto nós, então eu me pergunto se é apenas um sentimento nostálgico de ontem à noite. Mas em vez de mensagens clandestinas sussurradas nos meus ouvidos, há o barulho de uma palma molhada e de um beijo na minha bochecha. "Que você é linda." E então ele suja o meu nariz de farinha.

"Você já usou essa antes", eu murmuro decepcionada.

Minha boca se aperta para um lado. E então ele segura os cabelos da minha nuca e inclina minha cabeça para lado enquanto sussurra em meu ouvido "E extremamente sexy quando está me ajudando a cozinhar"

Mas o que aconteceu com Peeta nessa viagem à Capital? Ele está mais... Ousado.

"Não me faça usar isso", corada até a raiz dos cabelos, eu levanto a faca que estou usando para cortar os morangos, pronta para marcar o seu bolo perfeito.

Peeta desliza habilmente o doce para longe de mim, mantendo as mãos longe do meu rosto, dando gargalhadas.