"O médico disse que estou indo bem e que os resultados dos testes apresentaram melhora. Minhas memórias estão voltando e eu tenho que agradecer à uma certa senhorita Everdeen por isso."

Estamos sentados abraçados no sofá, enquanto assistimos a um programa qualquer na TV.

Ignoro o elogio. "E quanto a você... Ficar com raiva?" Eu junto toda a delicadeza que eu possuo para formular essa frase. Eu quero saber se ele está curado do desejo de repelir as pessoas ao seu redor ou de envolver as suas mãos marcadas em volta do meu pescoço.

"Essa área do meu cérebro parecia muito mais limpa dessa vez do que quando nós fizemos a varredura lá no 13 ou mesmo quando eu fiz meu tratamento na Capital. Espero que eu esteja melhorando. Desde que eu voltei para casa não me senti mais com raiva. Dr. Aurélius não acredita que os flashbacks irão desaparecer. Nós estamos apenas no caminho para mantê-los sob controle. Check-ups anuais. E ligações ou visitas se piorarem ".

"E os pesadelos?"

"Eu já os tinha antes..." Ele me olha como se eu fosse a única pessoa no mundo que pudesse realmente entender. Timidamente, ele direciona seus cílios até os sapatos. "Eles estão apenas piores agora. Mais violentos, mais bestantes... Acho que o médico vai trabalhar em uma nova droga para isso." Ele faz uma pausa. Eu não sou uma fã de remédios, mas aprendi a conviver com eles. Os pesadelos que eu tenho são inevitáveis. "E o veneno das teleguiadas?"

Ele engole seco. "Você sabe onde estão os ninhos no Distrito? Nós provavelmente deveríamos achá-los e pulverizá-los."

Digo-lhe que sei onde alguns estão, mas posso procurar outros. Eu não estou muito interessada em encontrá-los, pois eu já tive veneno suficiente no meu sistema, mas parece haver algo que ele não está me dizendo e isso me deixa inquieta. Meu pé bate contra a mesa de centro.

Eu sinto que eu preciso estar do lado de fora, viva, fazendo alguma coisa. Levanto-me para sair, sem planos reais sobre ir algum lugar. Peeta se oferece para vir comigo, sugerindo verificar a construção de sua padaria na cidade. Eu só quero estar em movimento, então eu concordo.

"Então, como você acabou sendo forçado a gravar aquele programa de TV?" Estou curiosa. Estamos nos movendo novamente e me sinto melhor rodeada por gaios e o zumbido dos insetos de verão.

Ele geme. É um esforço de corpo inteiro. "Fui fazer compras no centro da Capital. Eu estava na mesma loja de onde Plutarch enviou o cobertor. Estava procurando por batedeiras portáteis e um dos funcionários me reconheceu. O proprietário era um dos amigos de Plutarch e pensou que ele tivesse me indicado a loja. O dono da loja ligou para ele para agradecê-lo, ele sempre quis me conhecer, mas Plutarch não sabia que eu estava na cidade. Então, ele meio que me obrigou a fazer esse programa. Acredite em mim, eu só achei a loja incrível. "

"Eu disse que a sua fraqueza por coisas bonitas seria a sua ruína", eu brinco.

Seu olhar grita não me lembre.

"Ah, e o dono da loja me adorou", acrescenta. Suas mãos são empurradas profundamente em seus bolsos. "Ele quer que eu faça um comercial de TV para ele."

Isso me pega de surpresa, mas só um pouco. Eu não sei quando o nosso mundo não vai ser mais um aquário, mas se Plutarch sempre estiver envolvido nele, isso não acontecerá nem tão cedo.

"Você vai fazer?" Eu zombo da perspectiva de mais câmeras. O distrito, mesmo com os rugidos maçantes de construção nas proximidades, é mais agradável sem os refrões constantes de 'Katniss, Peeta. Aqui'.

"Provavelmente não", diz Peeta. "Mas se eu for forçado, com certeza seria melhor do que endossar piercings de língua ou blazers de pena masculinos."

Com essa imagem eu rio. É bom rir, especialmente da ridícula moda da Capital.

Tudo isso me faz pensar que fazer compras na Capital é semelhante. Eu tenho certeza que é bem diferente do Prego, o mercado ou as caixas de suprimentos que são enviadas nos trens. Faço Peeta me contar tudo sobre a loja: cobertores de todas as cores e tamanhos, alguns que aquecem sozinhos, outros que vibram para acordá-lo em um determinado momento; máquinas que fazem um jantar inteiro para você, toalhas de banho que aquecem no som da sua voz, a lista continua.

Chegamos à padaria, com sua construção agora na metade das paredes recém-moldadas. Neste momento, ela só se parece com qualquer outro edifício sendo erguido: escoras, vigas, pavimentos. Tudo é da mesma cor e tem cheiro de serragem.

Será maior do que a padaria de sua família. Ele ressalta onde os fornos de pão irão estar e onde os misturadores para bolos e massa estarão localizados. Haverá uma grande vitrine para mostrar os bolos. Prim teria gostado disso. Eu aperto a mão dele quando eu penso em Prim.

"Minha irmã gostava de andar pela padaria para admirar a sua obra," eu digo a ele timidamente.

"Era a minha parte favorita", ele olha pela a janela. "Não que eu fosse admitir isso para os meus irmãos."

Seus irmãos. Aqui estava eu, pensando em ter perdido uma irmã, quando ele perdeu dois irmãos e seus pais. Esta é padaria de sua família. Foram todos embora, mas ele parece tão otimista enquanto inspeciona o progresso...

É realmente notável a rapidez com que os edifícios podem subir. Tudo parece estar em ordem, então voltamos para casa e encontramos um pacote na porta. É da loja que Peeta acabou de visitar.

"Eles têm que parar de nos enviar coisas!" Eu grito. "Eles estão tentando nos subornar? Eu odeio a Capital! Eles podem engolir suas bolhas de banho musicais e cremes dentais que brilham no escuro".

"Katniss," Peeta me acalma. "Primeiro: A Capital não é mais nossa inimiga. Segundo: Porque você não abre a caixa antes de decidir odiá-la?"

Ele está certo, é claro. Conto na minha cabeça e decido que uma pequena caixa não vale a energia. Dentro do excesso de embalagem e tecido há um jogo de chá tão requintado que minha mãe insistiria em colocá-lo no armário de enfeites. É verde claro com cenas da floresta pintadas em torno do fundo das xícaras e pires.

"Nós não podemos aceitar isso."

"Eu comprei, Katniss" Peeta revela. "Eu me senti mal por quebrar uma das suas xícaras de chá algumas semanas atrás."

Eu tinha esquecido sobre o incidente. Peeta teve um episódio, um muito pequeno, no café da manhã, cerca de duas semanas atrás. Seus espasmos nas mãos quebraram as xícaras de chá. Eu estava aliviada por ele não ter se cortado com a borda irregular do copo.

"OK, mas chega de presentes." Estou exausta.


Sou surpreendida por uma batida na porta de manhã cedo, quando estou prestes a sair. Uma equipe de pessoas, em trajes brancos de isolamento, está na minha porta. Não é o uniforme com capacetes normais de obra. Estes tem até uma proteção de malha sobre os olhos.

"Senhorita Everdeen?"

Eles não parecem estar armados, por isso, sem nenhuma outra razão a não ser curiosidade, eu abro a porta.

"Sim?"

"Estamos aqui para dedetizar os ninhos das vespas teleguiadas. Você poderia nos mostrar onde devemos pulverizar?"

Eu não esperava que eles viessem tão rapidamente. Eu teria procurado todos os ninhos do 12 se soubesse, mas eu ainda não estava preparada.

"Temos instruções para pulverizar toda o centro do distrito, em seguida a Vila. Depois disso vamos pulverizar onde você nos disser" o homem mais próximo a mim diz.

Ele me dá uma versão menor da sua própria roupa "Nós vamos encontrá-la na centro em 20 minutos."

Porém, algo não está certo. Eu sabia que Peeta estava me escondendo alguma coisa, então eu não posso perguntar a ele. Haymitch esteve alheio esses dias todos. Já que não há mais ninguém, eu ligo para o Dr. Aurélius e quem me atende é sua recepcionista. Eu balbucio algo sobre as teleguiadas e ela me coloca na linha.

"Ah, sim", diz ele, quando eu termino de explicar o que acabara de acontecer. "Eles deveriam pulverizar antes de Peeta chegar de sua viagem. Mas o combinado era eles ligarem antes para avisar o dia da dedetização." Sua voz quebra de seu costumeiro tom monótono para um passo do irritado.

"Peeta está cozinhando em sua casa," eu gaguejo, realmente não entendendo o que está acontecendo com os estranhos na minha porta.

Uma pausa na linha me permite saber que não era o que ele estava esperando escutar.

"Ele não deveria estar no Distrito 12 até que todos os insetos tivessem sido exterminados." O médico sempre calmo, parece estar cada vez mais alarmado.

"Katniss, por causa da quantidade extrema do veneno de teleguiada ao qual ele foi exposto, receio que possa haver consequências se ele for picado novamente. Sua reação muito violenta ao ver apenas uma abelha foi o suficiente para me fazer trazê-lo para um teste. E depois dos resultados desses testes, eu o aconselhei a não voltar para casa até que o distrito fosse dedetizado".

"Ele não me disse isso."

"Bem, apenas se certifique de que cada ninho seja pulverizado, especialmente nos lugares como suas casas, sua padaria ou qualquer lugar que ele possa ir com frequência. Acho que é uma possibilidade real de que, se ele for picado novamente pode repor totalmente o sequestro. Pode ser que ele volte para o início, desfazendo todo o seu progresso, ou ele poderia ser redefinido, voltar a ser o que era, como se nada tivesse acontecido, embora eu ache isso improvável. Katniss, outra picada também poderia ser o suficiente para parar seu coração"

Muitas imagens horríveis enchem a minha cabeça de uma só vez: a parada cardíaca, as picadas das teleguiadas, o grupo de resgate que o trouxe de volta ao 13.

"Então, hoje nós precisamos ter certeza de que não há mais nenhuma teleguiada no 12?"

"Sim. E manter Peeta longe de tudo isso. Ele não deve estar presente, em hipótese alguma."

O médico me dá mais alguns detalhes e me pede para ter cuidado também.

Minha primeira parada é em Haymitch, aparentemente eu estou com sorte, porque ele já está fora da cama, folheando um catálogo de alimentos. Eu explico o que eu quero e ele me segue até a casa de Peeta.

Eu a invado, deixando o barulho da porta mais alto do que eu posso controlar. Estou queimando de raiva. "Eu te trouxe uma babá. Não ouse deixar esta casa hoje."

"Katniss, o que está acontecendo?" Sua voz inocente é silenciada em contraste ao meu grito irado.

"Ah, o que está acontecendo? Você não deveria nem estar no 12 agora."

Seu segredo foi revelado.

"Eu não queria que você ficasse sozinha, não esta semana." Ele tenta me balançar. Não importa o quão bom o seu argumento seja, eu não serei convencida por ele.

Só então me bateu que é uma semana particularmente infeliz de julho. É por isso que ele se recusou a sair do meu lado ontem, insistiu que precisava de ajuda na cozinha. Foi a data da morte do meu pai. Mas eu não tenho tempo para isso, hoje não. Eu balanço a minha cabeça. "Eu estou bem. Na verdade, eu tenho algo para lidar agora."

Eu o deixo nas mãos de Haymitch. Delly seria uma babá mais agradável, mas ele merece a companhia de odor fétido de nosso mentor. "Fique aqui. Ou você vai ver o que eu sou capaz fazer." Eu o ameaço e realmente quero dizer isso neste momento. Eu não estou brincando com ele agora.

Eu visto a minha roupa para pulverização de insetos ultrajantes. É hora de caçar. A tripulação já pulverizou o centro do Distrito. Eles encontraram três ninhos, principalmente nos edifícios bombardeados em atraso na reconstrução. Já que Peeta está lá dentro, eles dedetizam a Vila dos Vitoriosos logo em seguida. Usam um gás inodoro que mata as teleguiadas, mas sem atingir outros tipos de inseto. O gás as mata quase que instantaneamente para que elas não possam voar muito longe ou encontrar um novo lugar para se aninhar. As roupas nos protegem das picadas, que vem a calhar porque os corpos das vespas têm de ser recolhidos em um recipiente hermético para serem descartados depois. Eu não me voluntario para essa tarefa. O único ninho na Vila está atrás da casa de Haymitch, em uma borda do porão. Eu lanço um olhar para a casa de Peeta quando passamos por ela. Ele está espiando pela janela da sala, sob o olhar atento de um homem cujos roncos eu posso ouvir antes mesmo de colocar os pés na varanda.

O grupo caminha pela Costura e decide que os ninhos têm surgido em algumas casas abandonadas. Eu fecho os meus olhos quando passamos pela minha casa e evito andar pelas casas de velhos amigos.

Demoram horas para cobrir o prado e bosque. Tento me lembrar de cada ninho que eu já evitei enquanto caçava aqui. Eu até os levei ao lago, caso eu quisesse ensinar Peeta a nadar.

Quando nós cobrimos todo o Distrito 12, a equipe me diz para chamá-los se um dia eu encontrar outro ninho. Eles vão embora tarde da noite e eu resolvo tomar um banho antes de avisar a Haymitch que Peeta já está liberado para sair.

Eu me tranco no meu banheiro e encho a banheira com bolhas suficientes para preencher um lago sem fundo. A espuma de cor azul turquesa escorre precariamente sobre a borda da banheira branca. Ela ameaça transbordar, mas eu simplesmente retiro um pouco da água enquanto a espuma ferve, entrando em colapso com a água.

Um tornozelo oscila na água quente enquanto eu me arrepio enfrentando a espuma. Finalmente, eu afundo, sem o peso das preocupações que me preencheram durante todo o dia.

Tudo o que eu quero é ser deixada sozinha. Eu sinto que as pontas dos meus dedos das mãos e pés estão ficando enrugados, como uma ameixa-seca.

Contudo, é tranquilo na água. Eu posso pensar. Limpar a minha cabeça. Os únicos sons são as bolhas que derretem na água.

Mas lá de baixo, eu posso ouvir os passos ecoando para cada vez mais perto do meu oásis.

"Vá embora, Peeta" eu resmungo quando ele bate.

"Eu não quero que você fique preocupada." Sua sinceridade é latente.

Eu me deito no fundo da banheira, ignorando a interrupção e tentando me concentrar sob a água quente, sentindo a forma como o meu cabelo serpenteia acima do meu rosto. Se eu ficar aqui por muito tempo, ele vai embora.

Isso, no entanto, só intensifica o som quase frenético da maçaneta.

Sem nem mesmo me preocupar em me secar, eu coloco um roupão, encharcando o chão com água.

"Você deveria levar uma injeção de emergência com você pelo o resto de sua vida" Eu grito. "É provavelmente algo que você deveria ter me dito." Eu abro a porta e a escancaro.

Ele corresponde a minha indignação com vergonha, cabeça virada de lado e olhos que imploram perdão. É simplesmente adorável.

"Você tem que parar de fazer isso comigo!" Eu sacudo o feitiço que ele está lançando. "Eu-", a minha voz alcança.

Ele dá um passo em minha direção, como se para segurar o meu braço. Só que ele nunca faz isso.

Seus pés voam para frente, na instável cerâmica encharcada de água. Eu vou com ele.

Ela começa em algum lugar no meu estômago, e se transforma em uma risada que, por mais que eu tente, eu não consigo prender na minha boca fechada, apertada o suficiente para mantê-la dentro. Isso se transforma em uma gargalhada incontrolável. Peeta se recupera do seu escorregão e se junta a mim.

Então, lá estamos nós, molhados e esparramados no chão do banheiro, sufocando o riso. Eu suspiro e me permito relaxar.

Ele escolhe esse momento para entrar em um beijo. Seus lábios se movem contra os meus enquanto eu hesito.

É também extremamente difícil ficar brava com ele, de qualquer forma.

"Promete que nunca mais vai esconder nada de mim?", eu peço, retirando um pedaço do meu cabelo molhado, que ficou preso em minha boca. Mas Peeta está olhando fixamente para baixo.

É difícil continuar com o assunto, pois meu roupão está mostrando um pouco mais do que deveria na parte de cima. Meu coração acelera. Ele engole seco e balança a cabeça, enquanto coloca meu roupão no lugar.

"Foi estúpido... Eu não queria que você se preocupasse... Eu ia contar. Eu prometo."

E, aparentemente, eu tenho Peeta Mellark com a língua presa. Meu rosto fica em chamas até que eu lembro que tenho que permanecer brava com ele.

"Você não pode," eu digo, balançando a cabeça, tentando ignorar o momento de instantes atrás. "Você simplesmente não pode ficar doente." O que eu faria se ele ficasse?

"Eu preciso de você." Eu olho para aqueles olhos, esperando que ele perceba a enormidade do que eu estou dizendo. Não é algo que eu facilmente admitiria. Eu só disse isso para ele uma vez.

Eu não quero ser a única a piscar pela primeira vez neste concurso de encarar. É como se ele estivesse olhando para tudo dentro de mim. Como se pudesse ver que minha insensibilidade é uma farsa. Visse a dor. A saudade.

Finalmente, eu pisco.

"Você o quê?" Seus olhos dobram de tamanho. Ele ouviu o que eu disse, mas parece estar tendo dificuldades para entender.

"Eu preciso de você", murmuro para os azulejos cor de areia molhada. Eu venho me preparando para essa conversa há algum tempo, então eu me sento com as costas apoiadas na banheira branca. Não é uma declaração excessivamente romântica, mas sim a simples declaração de um fato.

"Precisa?" Peeta brinca com a palavra. Ele sorri como se fosse uma piada de gênio, agora que ele entendeu a minha linha de raciocínio.

"Eu preciso de você também" Ele bate o meu pé com a sua bota.

Nem sempre falamos em códigos, mas isso significa que ele entendeu.

Eu fico olhando para os nossos pés e os armários atrás deles.

"Você não tem ideia do quanto eu preciso de você. Eu preciso tanto de você" Ele segura o meu queixo e inclina seu rosto para o meu para dar ênfase. Eu estava falando de sobrevivência, que eu simplesmente não estaria aqui sem ele. Mas ele não está falando de água fresca, comida e um teto sobre sua cabeça. "Eu preciso de você cada dia mais"

Ele corre o nariz até a borda da minha bochecha.

"Mais do que necessidade." Ele espera até que esteja bem próximo do meu ouvido. "Eu te amo".

Não há mais códigos. E dessa vez eu não estou protegida pela cobertura dos lençóis ou a escuridão. O feixe de luz vindo da janela não faz parecer ser menos de um sonho, uma memória manchada de um tempo diferente.

Ele vai ficar bem. Eu vou conseguir. Ele vai ficar bem. Eu canto isso na minha cabeça.

"Ok", eu engulo, com os olhos baixos e focados na bainha do meu longo roupão branco.

Segundos se passam enquanto eu me concentro na minha respiração.

"Você não precisa dizer de volta. Eu não esperava que você dissesse", diz ele com mais calor do que normal. "Eu te amo. Pronto. Isso é suficiente para mim."

Ele flexiona seus dedos como se estivesse prestes a se levantar. Eu caio em tentação e olho para ele. Ele está esperando por uma reação. Qualquer coisa. Mais do que eu olhando para os meus pés. Uma confissão é tudo o que ele está querendo de mim hoje.

Ele coloca as palmas das mãos no chão, prestes a se empurrar para cima.

"Espere"

Então eu me movo para cima dele. De primeira, seus lábios são macios, maleáveis e seguem qualquer direção que eu dou. Então, de repente ele está de volta ao intenso beijo que me deixa com falta de ar, o que vem acontecendo com mais e mais frequência ultimamente.

Estou em seu colo agora, de frente para ele, enquanto nós dois nos puxamos para mais perto. "Não pare", eu suspiro, ao mesmo tempo em que ele arqueja.

"Eu preciso ir"

Tenho a vantagem. Ele não pode se levantar. Eu envolvo minhas mãos ao redor da sua nuca, mantendo-o aqui.

É como se eu não conseguisse lhe beijar com força suficiente. Toda a raiva que eu tinha por ele há poucos minutos se transformou em algo igualmente intenso. É fogo ardente nas minhas veias e eu não sei mais o que fazer.

O banheiro ainda está pegajosamente quente. O ar está inchado com a umidade e eu posso sentir o suor escorrendo sob o meu roupão. Eu seguro a parte inferior de sua camisa e a puxo sobre a sua cabeça.

Ajudando, eu direciono minha boca para seu corpo.

Eu vou direto para um pedaço rosa de carne marcada em seu peito. Eu o beijo e sigo em frente, até o cruzamento entre seus enxertos de pele. Mas beijo não é a palavra certa. É molhado e arrastado. Algo nessa colcha de retalhos de cicatrizes me chama. Cada nova linha de cicatriz implora para ser beijada no esquecimento.

Seus dedos se escondem na borda do meu robe. Com um olhar furtivo, ele pede permissão.

Ele traça gola do manto, deslizando-a para baixo, para o topo do meu ombro até ele estar exposto. Ele começa lá, gradualmente beijando, explorando cuidadosamente com as mãos, como se estivesse no escuro. Apenas tudo é diferente na luz. Mais real. Não podemos esconder as cicatrizes um do outro. Elas estão em exposição: um lembrete de que ganhamos isso juntos, outra coisa que nos une.

Eu corro minhas mãos para baixo, sobre os contornos de suas costas. A pele é mais suave do que deveria ser e faz com que as minhas mãos formiguem enquanto deslizam sobre ele. Meu cabelo molhado cria uma cortina em seus ombros enquanto eu inclino a minha cabeça para ele. "Qual é a sua dúvida?" Eu respiro em seu pescoço, só para agarrá-lo com mais força, recusando-me a deixá-lo ir.

Seu dedo contorna maliciosamente a borda do meu roupão drapeado.

"Hmmm". É um gemido um pouco desesperado. Com o meu peito sobre o dele, eu posso sentir o estrondo em seu coração.

É bom estar perto dele, de haver menos um segredo entre nós.

Eu me solto dele e seguro uma de suas mãos, tempo suficiente para levá-la para dentro do meu roupão. Seu rosto está completamente corado. Tenho certeza de que meu rosto está da mesma forma "Você..." Nunca ouvi esse tom em sua voz. "Você... Quer?"

"Sshh," eu o interrompo, revirando os olhos enquanto ele segura o meu seio.

Passos ecoam pelo corredor. É perfeitamente audível agora. Nós olhamos um para o outro. Alguém vai ter que ir lá e espantá-lo. O que estava se formando entre nós foi tudo, mas se apagou.

"Peeta!" ele sussurra muito alto. Eu me pergunto se até os seus ouvidos estão cheios de álcool. "Onde é que esse garoto foi parar?"

Quieto, digo-lhe com meus olhos.

Eu me desembaraço dele, puxando o roupão de volta aos meus ombros, respirando fundo e abrindo a porta para entrar no quarto, muito mais seca do que da última vez.

"À procura de algo?" É uma acusação.

"Na esperança de que você tenha alguma bebida", ele blefa. "Tem alguma garrafa escondida por aqui?"

Claro que eu guardo o licor no banheiro do andar de cima. Eu, de fato, mantenho um estoque de emergência no subsolo, mas eu sei que ele não está sem bebidas. O trem trouxe suprimentos ainda essa semana. "Lá embaixo" Eu não tenho que fingir o cenho franzido enquanto descemos as escadas.

"Bom, muito obrigado Katniss" Ele se vira para ir embora.

Agradecer-lhe por tomar conta de Peeta para mim, mesmo que parcialmente, está na ponta da minha língua. É bom saber que ele não é confiável para ser uma babá.

"Boa noite," eu digo através dos meus dentes.

Peeta escolhe esse momento para tropeçar na tigela de água de Buttercup.

"Maldito gato," Eu praguejo.

"Um gato bonito e forte", ele brinca. "Deve ser todo esse pão", acrescenta baixinho.

"Desculpe", vem um sussurro de cavalo da sala.

E eu estou me afogando em constrangimento.

"Não me deixe tomar conta dele de novo", Haymitch abana uma sobrancelha para mim. Ele segue seu caminho de volta para casa. E eu estou com frio, molhada e embaraçada.